Beatriz Pacheco é advogada, mãe de quatro filhos, avó de três netos, tem 60 anos e há 12 descobriu-se com HIV. Virou símbolo da luta contra o avanço do vírus entre mulheres maduras. Participa de movimentos nacionais e internacionais que congregam mulheres vivendo com HIV.
Realiza palestras em todo o Brasil, enfocando a Aids e a sexualidade na terceira idade.
Entrou no laboratório e dirigiu-se à área de retirada de exames. Só foi abrir o envelope no hall dos elevadores. Espiou o resultado: reagente. Tudo OK, pensou. Já na rua, resolveu ler de novo a folhinha, sem deixar para trás as letras miúdas da nota explicativa. Foi então que se deu conta: reagente era positivo. E positivo não era nada positivo.
Desse jeito, aos 48 anos, a advogada Beatriz Pacheco, ou simplesmente Bia, como ela gosta de ser chamada, descobriu-se com HIV. Apesar da ensolarada tarde outonal em Porto Alegre, no exato instante em que “a ficha caiu”, foi como se uma nuvem preta e carregada, destas de desenho animado, a encobrisse, enquanto o resto do mundo desfrutava do sol. Quando relembra aquele dia, essa imagem não sai de sua cabeça. A nuvem preta, sim, com o tempo se foi, embora às vezes apareça para incomodar.
Mas, agora, há sempre um sol mais forte ao fundo. Estamos, 12 anos depois do diagnóstico, no apartamento de Bia, em um bairro classe média de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Esqueça os estereótipos do doente de Aids, esqueça Cazuza esquelético, o gay expansivo, o jovem permissivo, o travesti, a prostituta, o viciado em drogas. Amparada pela medicação, a senhora diante de mim é uma típica avó de sorriso acolhedor.
Miúda, medindo 1,50m – na verdade, é meu recorde de altura, hoje já deve ser menos, mas eu não me atrevo a me medir para comprovar isso, esclarece –, Bia parece absolutamente saudável, e usa um discreto conjunto preto e uma blusa larga para disfarçar a barriga que diz ter. No peito, o sol que espantou a tal nuvem negra, um medalhão dourado do tamanho de uma bolacha Maria, sorridente e distribuindo raios para todos os lados. Foi um presente do marido Carlos, um símbolo para que Bia sempre lutasse contra a inesquecível nuvem carregada.
E essa sempre foi uma briga feia. Sua história, desde que se descobriu uma avó com HIV, no tempo em que esses eram dois termos praticamente incompatíveis, foi repleta de sofrimento. Sim, no começo houve pranto, houve grito, houve briga, houve desespero, desesperança, até. Tudo começou a mudar semanas depois daquela inesperada aparição da palavra “reagente”, quando Carlos fez seu exame, e desta vez o resultado foi negativo, o que era extremamente positivo, diga-se de passagem. Sorodiscordante, assim se chama quando um é positivo e outro negativo em um casal.
O marido, entretanto, não abandonou Bia, que contraíra a doença do companheiro anterior, falecido, infectado em uma transfusão de sangue. Mais: servidor do Ministério do Trabalho, Carlos propôs-se a iniciar com a mulher um trabalho de apoio ao trabalhador com Aids e prevenção à doença. Também a estimulou a contar publicamente o seu drama. Resultado: viraram ativistas, realizaram palestras por todo o país, transformaram-se em um exemplo de esperança. Até que, em 2006, Carlos morreu. De câncer. Sem nunca ter contraído o HIV.
Mais uma vez, o chão de Bia caiu, o pesadelo voltou com força, ela pensou em desistir, largar tudo, entregar-se ao vírus. Mas, medalhão solar ao peito, resistiu, e manteve-se ativa. Ou melhor, manteve-se ativista. Protagonizou uma campanha nacional de conscientização sobre os riscos da Aids para adultos maduros e idosos, vive dando palestras sobre o HIV e a terceira idade. Virou uma espécie de celebridade no que gosta de chamar de “o mundo da Aids”, uma celebridade “iluminada”. Com toda a pieguice encerrada no termo. Pois é assim que os outros veem Beatriz Pacheco. Quase como uma divindade.
O melhor lugar para entender isso é o próprio quarto de Bia. Sentada no espaço exíguo entre a cama e a bancada do computador, ela gasta a maior parte do seu tempo. Deixando de lado a pilha de dois palmos (abertos) de altura de tralhas à sua direita – livros, relatórios de seminários, e-mails de amigos, cartas de tarô (“meu bruxismo é anterior a Aids”, apressa-se em dizer), DVDs com 22 episódios do seriado médico House, documentos que ela sempre deixa para ler depois e depois e depois. Porque agora – e quase sempre –, está vidrada na tela do computador. “Só não uso [a internet] quando vou ao banheiro, estou dormindo, falta luz ou estou de viagem dando uma palestra. Até já pensei em comprar um laptop, mas aí mesmo que não vou sair, então, desisti”, diverte-se Bia.
No monitor, ela mostra seus dois perfis no site de relacionamento Orkut. Dois, sim, porque um está esgotado. Atingiu o máximo de mil amigos. No outro, está com 914. Já vai para o terceiro perfil. Entre seus companheiros virtuais, desfilam anônimos soropositivos, identificados com nomes tão variados quanto “O Sol Nascente”, “A Vida Continua” ou “Malhadinho Positivo”, escondidos por imagens de Jesus, da entidade de umbanda Omolu ou de um coração, para ficar apenas em alguns exemplos. Gays que se apresentam com o peito nu, forte e depilado, ou ousados que chegam a utilizar a imagem de uma parte íntima como foto. Amigos que Bia aprendeu a respeitar e gostar nos anos de militância misturam-se na internet com as velhas colegas de Sevigné, antigo e tradicional colégio de freiras porto-alegrense, onde Bia estudou.
Somente pelo Orkut, a advogada conta que entram uma média de quatro pedidos de socorro de soropositivos desconhecidos por dia. Chegam por meio de depoimentos, ferramenta que permite o anonimato da comunicação, e relatam situações de desespero. Ao lado do computador, ela tem impresso, com o nome do remetente devidamente riscado por caneta hidrocor preta, o exemplo de uma dessas mensagens, esta enviada por e-mail: “Te escrevi há alguns dias. Nem sei se vai lembrar de mim. Sou a garota que descobriu a positividade junto com a gestação. Então. Está chegando o grande dia. O bebê vai chegar. Estou muuuuuuuuuuuuuito ansiosa. Mas feliz tb. O fato é q meus pais não sabem e to sentindo uma vontade imensa de falar amanhã para minha mãe... um dia antes do parto. O que vc acha? Seria um bom momento? (…) Bom, Bia, preciso de umas palavras suas para ela. Explicando sobre o vírus, sobre a expectativa de vida, sobre a nova vida. Queria muito que vc escrevesse uma cartinha a ela. Pra eu entregar depois da revelação” (sic).
São apelos como esse que chegam diariamente pela internet. Ou então mensagens de jovens cheios de dúvidas e medo de ter contraído o vírus em uma relação desprotegida, de mulheres indignadas com os maridos que lhes transmitiram o HIV, de desesperançados em geral. “A maioria é de integrantes da classe média desamparados, que não se tratam pelo SUS, sistema que já tem todo um aparato de apoio, e nem têm dinheiro para pagar uma psicoterapia e ou outros tipos de auxílio”, conta Bia.
Desde que, com o apoio de Carlos, assumiu publicamente sua condição, Bia convive com essa situação. Não esquece do dia em que deu uma entrevista na televisão e revelou seu número de telefone no ar. Assim que saiu do estúdio, o celular tocou. Aos choros, uma voz feminina disse mais ou menos assim: “Alô, Beatriz, tu não me conheces. Também tenho Aids. Estava com um revólver apontado para minha cabeça, quando sua entrevista começou na televisão. Encarei como um recado para eu não desistir. Sou enfermeira, me infectei em acidente de trabalho, com material pérfuro-cortante. Meu marido muitas vezes duvida dessa história, acha que eu transei com outro homem. Eu não sei o que fazer.” Bia tentou acalmá-la. Mas até hoje não sabe o destino da moça. Assim como o de dezenas de outros casos com os quais se depara e tenta ajudar, sempre antes cuidando para desfazer mitos criados sobre a sua figura. “A primeira coisa que faço é desmistificar a imagem que criam de mim. Muitos acham que sou diferente, iluminada, só porque veem minhas fotos sorrindo, e não chorando. Mas isso não quer dizer que eu não sofra.”
Bastam algumas horas de conversa com Bia para saber que não há hipocrisia na frase. Até hoje, seus olhos se enchem de lágrimas e de saudade a cada vez que lembra de Carlos. Até hoje, por mais que diga estar acostumada com a ideia da morte, a cada complicação de saúde, lhe bate um medo danado de ter de deixar os quatro filhos e três netos para trás. Mas sofrer também é viver. E a ironia é que foi a Aids, e todo o sofrimento trazido pela doença, que transformaram Bia.
Nos últimos 12 anos, ela deixou de ser uma pacata, careta e anônima senhora porto-alegrense para virar um ícone do combate a Aids e da vontade de viver. Onde ela melhor explica isso é, como não poderia deixar de ser, no seu texto de apresentação do Orkut: “quando eu pensei que tudo tinha acabado, eu me descobri por inteiro. Quando mais nada se tem a perder, quando as perspectivas são poucas e pensa-se não ter mais futuro, nos despimos da demagogia, da hipocrisia, das aparências e de todas as máscaras que a vida nos impôs. Estamos sós. Nós conosco próprias... E agora? De dentro de nós, numa fúria avassaladora, emerge o nosso EU real... EU QUERO VIVER!!! E - incrível – só então, perdemos o medo da sociedade, dos preconceitos, da discriminação... Nada mais temos a perder, ou a temer! Assumimos integralmente a nossa identidade e vamos, de corpo e alma, à luta pela nossa real necessidade: A VIDA!” (sic).
11/10/2009
Fonte: ViaPolítica/O autor/Cartola
O jornalista e videomaker Sebastião Ribeiro, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola - Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.
E-mail: sebastiao@cartolaconteudo.com.br
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