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Um acidente tirou Jesebel Irigaray do mundo glamuroso do ballet. Mas, usando técnicas próprias, ela reaprendeu a andar e a dançar. Agora, a bailarina, que trocou o círculo imperial de Petrópolis por uma sala de ginástica nos fundos de um salão de beleza em Porto Alegre, enfrenta novo desafio em sua vida.
Na pequena sala, localizada nos fundos de um modesto salão de beleza em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, estão espalhadas as lembranças de um passado que, se não é glorioso na concepção exata do termo, é motivo de orgulho para quem o viveu. Nas paredes, fotos e documentos emoldurados contam pedaços da história da ex-bailarina porto-alegrense Jesebel Irigaray. "Boa parte dos documentos e fotos que tinha guardado se perdeu em um alagamento nesta sala", lamenta. Mesmo assim, é mais fácil contar a história de Jesebel através das imagens expostas.
A vaidosa dançarina, que não conta a idade nem sob tortura, mas que provavelmente voeja em torno dos 60 anos, é evasiva ao falar em datas e acontecimentos. Mistura sotaques porto-alegrenses, fronteiriços e cariocas na mesma frase e perde-se em devaneios e goles de Coca-Cola ao lembrar das apresentações que fez "a príncipes, presidentes e autoridades." Na sala apertada, passado e presente se misturam: se nas paredes fixam-se as memórias, no chão estão as esteiras, as bolas de ginástica e os pesos usados pela bailarina para, hoje em dia, colocar em forma suas dezenas de alunos.
As lembranças de Jesebel são entrecortadas. A bailarina, que nasceu de uma família tradicional da fronteira gaúcha, aos 16 anos trocou Porto Alegre pela serra fluminense, acompanhando o marido. Lá, criou o Imperial Ballet de Petrópolis, dando aulas para as meninas que sonhavam em brilhar como ela. Algumas delas faziam parte da família imperial brasileira, o que lhe garantiu um título improvável de condessa. "Estou a três passos do rei, se a monarquia retornar, estou ali pertinho", brinca.
Dez anos depois de chegar à serra fluminense, com uma carreira de professora de balé consolidada em Petrópolis e arredores, um revés do destino quase a impediu de continuar escrevendo a própria história. Limpando o terreno de sua casa em Itaipava, com a ajuda do filho da empregada, Jesebel embrenhou-se no matagal que circundava a propriedade. Uma brincadeira do menino, um empurrão fora de hora e instantes depois a bailarina rolava em uma encosta de 12 metros de altura, sem música nem plateia. "Destruí o lado esquerdo do meu corpo", afirma. Baterias de exames e diversos médicos, entre eles "o do Roberto Carlos", sepultavam as esperanças de Jesebel voltar a andar e dançar.
Mas a bailarina acreditava ter domínio sobre o próprio corpo e teimava em fisioterapias feitas por ela mesma. "Eu me fechava no quarto dizendo que ia dormir e trabalhava o dia, a noite toda, me pondo de pé, usando aparelhos pesadíssimos, alongando e fortalecendo músculos", diz. Em meio a suas passagens por cursos de balé em Buenos Aires, países da Europa e na meca da modalidade, a Rússia, Jesebel foi reunindo conhecimentos que, talvez ela não soubesse, mas seriam fundamentais para garantir sua volta aos palcos. Foi apresentada pela própria francesa Thérèse Bertherat ao método de antiginástica, que promete consciência corporal e equilibrar os movimentos, sem forçar articulações, ossos e músculos.
Nessas andanças, a bailarina apropriou-se de métodos da eutonia, criados pela bailarina alemã Gerda Alexander - ela mesma uma vítima de uma febre reumática que a obrigou a criar novas formas de movimento que respeitassem seu próprio ritmo. Uma mistura dos dois formatos libertaram Jesebel da cadeira de rodas um ano depois do acidente. Para dançar nos palcos novamente, mais dois anos foram necessários. Mas seu esforço foi reconhecido. A condessa brasileira se tornou cidadã honorária de Petrópolis, cidade que diz amar e sentir falta.
O retorno para Porto Alegre, há cerca de 15 anos, é nebuloso como boa parte das histórias de Jesebel. Por conta da morte de duas irmãs mais velhas, ela se viu forçada a voltar pelo restante da família. Uma vez na capital gaúcha, montou uma academia de ginástica que utiliza uma mistura da eutonia e da antiginástica. A ex-bailarina guarda com orgulho depoimentos dos alunos sobre seu trabalho e melhorias na qualidade de vida deles. Entre os depoimentos, algumas queixas se repetem: dores crônicas, visitas a médicos, tratamentos convencionais e nenhum resultado. "Mas depois que Jesebel entrou na minha vida, me sinto outro", diz um aluno. O afeto é recíproco: até madrinha de casamento de aluna ela já foi.
Um final de vida que parecia tranquilo esperava Jesebel, entre os alunos queridos e as lembranças nas paredes. No entanto, uma semana antes desta entrevista, a professora recebeu um diagnóstico que a tomou de surpresa. Um câncer no intestino, que terá de ser extirpado em uma cirurgia. Apesar de procurar manter o pensamento positivo que a pôs de pé décadas antes, ela admite que tem medo. "Perdi duas irmãs com câncer, no estômago e no intestino. Uma delas pesava 28 quilos quando morreu", lembra, com o semblante sombrio. Mas logo o sorriso volta ao rosto: "quando alguém fala sobre o câncer, meu primeiro pensamento é que eu não tenho a doença e isso me faz sentir melhor", diz. E ainda faz piada com a preocupação dos alunos. Uma delas lhe de ingressos para assistir ao show do velho Tony Bennet, em Porto Alegre, para reanimá-la. "E brinquei com ela que a frase do Otto Lara Resende em 'Bonitinha, mas ordinária' está certa: 'O mineiro só é solidário no câncer'", conta, entre gargalhadas.
25/10/2009
Fonte: ViaPolítica/A autora/Cartola
A jornalista e videomaker Clarissa Barreto, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola - Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.
Areportagem e o vídeo “As paredes que falam” podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citados o autor e as fontes.
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