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Aula reúne jornalistas, crianças e amputados para mostrar que o golfe, esporte que reestreia nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, pode ser democrático. Será mesmo? Veja o vídeo e
leia a reportagem.
Durante a demonstração dos jogadores do Belém Novo Golf Club, em Porto Alegre, não parecia ser das práticas mais complicadas: tomar o taco, dar impulso – ou fazer o swing, que é como os iniciados chamam o jogo de corpo para levar o taco até a bola e - zum! – lançá-la em direção ao infinito. Aos participantes da I Clínica de Golfe para Jornalistas, promovida pela Federação Riograndense de Golfe – cabia apenas prestar atenção na saída da bola e acompanhar sua trajetória.
Ao alcançar uma velocidade média de 400 quilômetros por hora, a bolinha de 45,93 gramas e 42,67 milímetros fica quase invisível. Quando finalmente pensei ter visto a trajetória da bola, ela bateu asas e voou: era um quero-quero que sobrevoava os belos vales e colinas verdinhas, que ficam dentro de um dos condomínios fechados mais exclusivos da capital gaúcha, o Terraville.
Somente 0,01% da população brasileira pratica golfe – cem vezes menos adeptos que a yoga, por exemplo. Tamanha disparidade pode ser causada pelo número de elementos necessários para cada modalidade. Se para a yoga basta um tapetinho e um pequeno espaço, para jogar golfe, é preciso ter tacos – 14 por jogo, de diferentes formatos para dar diferentes efeitos na bola –, um campo que, se for oficial, tem cerca de 400 mil metros quadrados, e bolinhas. Apesar disso, se houvesse uma corrida pela popularidade futura, há grandes chances de o golfe tomar a dianteira: depois de mais de cem anos, a modalidade voltará triunfante aos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.
Na tentativa de tornar o esporte e toda a sua terminologia mais palatáveis para os jornalistas não-especializados, a Clínica promoveu junto a um punhado de nós a primeira experiência com o golfe. Para tanto, depois da demonstração dos jogadores, chegava a nossa vez de arremessar a bolinha o mais longe e reto que pudéssemos. Única jornalista mulher – ou "dama", como preferem os elegantes praticantes do esporte, que usam invariavelmente calças sociais e camisas pólo –, me posicionei em uma das "raias". Após um breve alongamento, o instrutor mostrou a maneira correta de pegar o taco, de posicionar o corpo com os joelhos semi-flexionados e erguê-lo acima da cabeça, para o lado direito, sem tirar os olhos da bola. A partir daí, bastava levar o taco em direção à bola, que está ali parada à espera, ansiosa para voar, e golpeá-la.
Fiz minha primeira tentativa e passei ao largo da bola. Neste momento, veio em meu socorro Norton Fernandes, um dos mais famosos leiloeiros de Porto Alegre e que também preside a Federação Riograndense de Golfe. Pacientemente, mostrou qual a posição correta de empunhar o ferro, nomenclatura dada aos tacos de aço (além destes, há os de madeira e os híbridos, mas são menos populares). A posição desconfortável lembra a de um goleiro na iminência da cobrança de um pênalti – pés paralelos, joelhos flexionados, quadris projetados para trás –, mas inclui ainda mãos empunhando o taco, erguido ao lado direito e acima da cabeça, mas sem mexer os ombros e sem tirar os olhos da bola, ufa.
Todo esse esforço resultou em uma cãibra e uma nova tentativa frustrada, que acabou levantando parte da grama da minha raia e manteve a bola intocada. Neste momento, melhor esquecer que o taco, que ficou repleto de barro, custa algo em torno de R$ 1 mil. Diante do meu desespero e de fracassos sucessivos, Fernandes comentou que se iniciou no golfe há dez anos em umas férias na Costa do Sauípe, um resort de luxo. "Não tinha parceiro para o tênis e acabei começando a praticar o golfe", lembrou, e admitiu que neste período também errou muitas tacadas.
Após mais algumas tentativas frustradas, acabei acertando a bola, em vez de a grama, o ar ou o tee, aquele pininho que fica espetado no chão equilibrando a bolinha. Pouco depois, já era capaz de acertar a grande maioria, embora os arremessos fossem a esmo – não havia um buraco para acertar. Ali, nossa tarefa era meramente aprender os fundamentos. Como já me sentia craque, circulei para verificar o desempenho dos demais. A aula de golfe não se restringia a jornalistas: também reunia crianças e amputados, como uma forma de mostrar como o esporte pode ser democrático.
O representante comercial Evandro Schultz, que nasceu sem parte da perna direita, convencia seu amigo, como ele usuário de prótese, a manter-se na prática do golfe: "Se tu não continuares, vou esconder tua perna", ameaçou. Schultz, que é sócio da Associação Brasileira de Amputados, aposta no golfe como uma forma de praticar esporte. "Não há o contato físico que existe em outras modalidades; assim, ninguém pode nos acusar de prejudicar a equipe", brincou.
Depois das tacadas, chegou a hora da verdade. Fernandes reuniu os jornalistas em um pequeno campo, que lembra um mini-golfe, o putter-green, usado para a prática de tacadas de curto alcance. Lá, começamos a jogar em pequenas equipes de dois ou três participantes. O tempo, que estava ensolarado, fechou, o que poderia ampliar as minhas chances – os piores corredores não costumam vencer na chuva? Nove buracos – e muitas falhas – depois, o jogo acabou. Fui sagrada campeã entre as damas – fato facilmente explicável pelo fato de eu ter sido a única mulher a jogar.
Depois do jogo e da diversão, até dá vontade de investir no esporte – uma hora de golfe queima até 800 calorias, quantidade similar a uma hora de corrida. Mas se para correr basta um par de tênis, uma passada por lojas especializadas pode minar as boas intenções – tacos a R$ 1,5 mil cada, 300 bolinhas a R$ 1 mil, bolsas que custam R$ 500, além da hora/jogo, que custa cerca de R$ 200. Sem uma espécie de bolsa-golfe, pode ser difícil montar equipes para os jogos de 2016. Eu, pelo menos, desisti do sonho olímpico.
1/11/2009
Fonte: ViaPolítica/A autora/Cartola
A jornalista e videomaker Clarissa Barreto, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola - Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.
Areportagem e o vídeo “Golfe para todos” podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citados a autora e as fontes. Desta série de produções exclusivas para Via Política, veja e leia também as reportagens e vídeos: “As paredes que contam histórias”, de Clarissa Barreto “A prisão fica atrás do balcão”, de Sebastião Ribeiro “A Iluminada”, de Sebastião Ribeiro