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Qual o legado dos EUA no Iraque?

A infeliz verdade pode ser que o Iraque tenha já atingido uma sinistra forma de estabilidade, onde persiste um alto nível de violência e um estado semi-desfuncional. Por Patrick Cockburn, de Counterpunch, em tradução de Luis Leiria, para Esquerda.net
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Aquilo que não ouvimos falar
sobre o Iraque
Antes da invasão americana do Iraque em 2003, a percentagem da população urbana que vivia em bairros de lata ou favelas situava-se abaixo dos 20%. Hoje em dia essa percentagem subiu para 53%. Por Adil E. Shamoo, em Foreign Policy In Focus
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Renascida das ruas

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Por Sebastião Ribeiro, de Porto Alegre
 
 

Rozeli da Silva, uma ex-gari, hoje quase tão elegante como Michelle Obama, assume a proteção dos direitos de crianças no bairro Restinga e promove uma verdadeira revolução no atendimento aos pequenos.

Antes de nos despedirmos, a autora faz questão de me presentear com o um exemplar do livro no qual conta a história de sua vida. Com a mão insegura, grava a data e vagarosamente desenha as letras, uma a uma.  Mais de um minuto depois, na quarta palavra, precisa de ajuda. Ao escrever “detico”, em vez de “dedico”, sente que há algo errado e se socorre na assessora, que passa a soletrar as palavras seguintes. Na hora de grafar “livro”, mais uma vez olha para o lado.
- Como é o V mesmo?
- É aquele assim, lembra? - e a auxiliar desenha com o indicador no ar as voltas do V minúsculo.

Quase cinco minutos depois, Rozeli da Silva, 45 anos, entrega orgulhosa um exemplar autografado de Guerrilheira do Amor, um depoimento seu à assistente social Learsi Kelbert, editado pela RBS Publicações. Apesar de ter cursado até a quinta série do primeiro grau em um curso de alfabetização para garis da prefeitura de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ela ainda tem dificuldades para escrever e se atrapalha com o D e o T ou o V e o F. Sentada atrás de um computador em sua sala delimitada pela placa “Presidente” na porta, diz que se dá melhor lendo e navegando na Internet.

Mas isso é o que menos importa na vida desta gari que virou referência quando o assunto é terceiro setor. A dificuldade com as letras não impede que Rozeli esteja à frente da Renascer da Esperança, uma organização não governamental idealizada e presidida por ela, com orçamento anual de cerca de R$ 700 mil e que atende hoje a 350 crianças pobres no bairro Restinga. Para entender como deixou para trás uma vida que, todos diziam, só podia levá-la “à cadeia ou ao cemitério” até virar uma espécie de celebridade reconhecida pelo trabalho social, com direito a entrevista no Programa do Jô, na TV Globo, uma manhã com a presidente da ONG ajuda.

São 10h05 de uma terça-feira quando a secretária de Rozeli entra na sala da presidência e avisa, sem cerimônia: “Tá na hora do cabeleireiro”. A presidente deixa a sede da organização – um prédio de tijolo à vista construído especialmente para abrigar a instituição e inugurado em 2008, com dinheiro doado por grandes empresas gaúchas e voluntários –, e segue a pé em direção ao instituto de beleza. O bairro Restinga, ainda hoje sinônimo de violência e pobreza em Porto Alegre, é dividido por uma parte mais pobre e outra mais nova, onde vive uma classe média emergente. O trajeto entre a sede da Renascer da Esperança e o salão “LB Fashion” fica nesta segunda parte, onde a região mais parece um pacato subúrbio rural, repleto de áreas verdes e pequenas casas com varanda. A quebrar a calmaria, apenas Rozeli, que falafalafala e fumafumafuma sem parar, por todo o caminho, como de resto a todo instante.

Em um sobrado todo pintado de uva, o salão de beleza é simples, mas em nada lembra a parte mais pobre do bairro. Uma sala de espera tem cadeiras de plástico, destas de bar, mas revistas sofisticadas como a L'Officiel e Menú. Cinco minutos depois da chegada de Rozeli, o motorista da ONG adentra o estabelecimento, trazendo uma térmica de café. Não apenas porque a cabeleireira, Lúcia Braga, explodiu a sua cafeteira,  deixando ligada no fim-de-semana, mas porque a cliente não gosta do café normalmente oferecido. “Não é que eu sou chique”, brinca Rozeli, “é que tomei muito Nescafé e uma vez me deu umas palpitadas no coração. E, também, esta cabeleireira é miserável”, continua em tom de piada, “outro dia cheguei aqui e o açúcar tava num potinho sem tampa. Como sou toda nojentinha, tomo o meu”.
– Como tu queres (o cabelo)? - pergunta Lúcia.
– Que nem daquele dia, em que eu gravei pra novela – responde, referindo-se a um depoimento que poderá ser exibido ao final de Viver a Vida, da Globo, como exemplo de vida edificante.

Lúcia conhece Rozeli desde criança. Não eram amigas, mas frequentavam as mesmas festas, no ginásio da comunidade. “Chegava a Rozeli com a turminha na festa e ficavam todas as gurias se cagando de medo. Era pau na certa. Elas batiam nas gurias da Nova (Restinga Nova, a área mais moderna do bairro), que achavam metidinhas”, ri Lúcia. Na cadeira ao lado, com o cabelo tomado de alisante envolto em uma touca, Noeli Santos, ou Dona Mimi, só concorda. Vizinha de Rozeli na infância, ela lembra que a presidente da ONG era “o homem da rua”, de tão moleca. Hoje, “é a prova de que se a pessoa quer se endireitar na vida, se endireita mesmo”.    

Na verdade, Rozeli não era só moleca. Era trombadinha mesmo. Sem pai, que só foi conhecer na adolescência, fugia de casa e passava dias e dias na rua. Com as amigas, entrava nas Americanas e em tudo quanto é loja do Centro para furtar o que podia. A diversão era fumar maconha. Até que um dia, era seu aniversário de 12 anos, ela não esquece, ganhou de presente de uma amiga um jogo de pratos roubados. O dono da casa furtada viu e a levou para a Febem, para onde iam os menores infratores. Rozeli, hoje casada há seis anos com o quarto marido e mãe de cinco filhos, ainda lembra da noite em que passou no Juizado de Menores “trancada, levando pau, choque nos pés, tudo” e dos dois meses de prisão.

Enquanto a conversa no salão gira em torno do passado, um sujeito grisalho, bem alinhado, de calça social, blazer e camisa entra no LB Fashion. É o advogado João Elpídio de Almeida Neto, vice-presidente da ONG Renascer da Esperança e braço direito da presidente. É hora de a Rozeli executiva entrar em cena. Por 10 minutos, os dois resolvem, em particular, questões administrativas. Lúcia aproveita o tempo para contar um pouco mais sobre a amiga e cliente. “Nunca esqueço uma vez que vi a Rozeli na rua, atirada na frente da delegacia, ela tinha sido espancada pelo marido...”. Até hoje, ela tem marcas de agressões que sofreu dos dois primeiros parceiros, mas o passado sofrido é incapaz de tirar a risada do rosto da gari – mesmo os momentos mais tristes, ela lembra com alegria.  

Rozeli entrou no salão de beleza com os cabelos lisos e presos, reforçando os traços de moleca que ainda mantém. Saiu feito uma Michelle Obama, embora com um pouco mais de cachos. No trajeto entre o LB Fashion e a unidade mais antiga da Renascer da Esperança, onde são atendidos as crianças mais novas, a presidente da ONG é saudada e interrompida por cada um que passa: o ex-aluno que está trabalhando com um grupo de pagode, a amiga que ainda não superou a morte da irmã pela gripe A, o ex-companheiro de escola de samba cujo filho está aprendendo cavaquinho. Mas é mesmo entre as crianças da Renascer da Esperança que seu carisma fica evidente. Ao dar bom dia à turma que almoça o arroz com salsicha e feijão oferecido pela casa, a mesma refeição que ela comeria mais tarde, escuta um sonoro “BOOOOM DIIIIIIA!!!!” como resposta. Já no pátio, se mistura com a criançada, brinca de amarelinha, aprende novas músicas com as meninas. É rodeada para distribuir beijos e abraços aos meninos que não estão distraídos brincando de carrinho ou de trunfo.

Rozeli não sabe bem como o desejo de ajudar crianças começou. Simplesmente não queria que passassem pelos sofrimentos que ela passou. Em 1999, 12 anos depois de conseguir o emprego como gari, deu um início a um projeto para crianças na quadra de uma escola de samba. No começo, era mantido com dinheiro próprio, mas a coisa foi crescendo, a gari ganhou apoio dos chefes no Departamento Municipal de Limpeza Urbana – que, com o tempo, apostaram na ideia e a “cederam” para a ONG fundada por ela mesmo. Rozeli chamou a atenção da mídia e conquistou empresários e voluntários com seu jeito espontâneo e espoleta. Mesmo assim, a  organização vive cheia de dívidas para manter os 13 funcionários, 24 voluntários, garantir aulas de informática, dança, capoeira, reforço escolar, alimentação para crianças de dois a 17 anos. As dificuldades são evidentes.

Pouco antes da despedida, toca o telefone. A diretora da ONG, Silvana Rodrigues, atende. É uma senhora de Cachoeirinha, que mantém uma entidade de ajuda à terceira idade. De novo, recebeu mais alimentos do que os velhinhos consomem e oferece para a Renascer o que sobrou. Uma boa e uma má notícia, pois não há gasolina no carro para buscar a doação. Ela olha em volta, como em busca de uma solução, enxerga o repórter e, espontâneamente, pede:
- Sebastião! Ajuda?
Como dizer não?

8/10/2009

Fonte: ViaPolítica/O autor/Cartola
O jornalista e videomaker Sebastião Ribeiro, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola - Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.

E-mail: sebastiao@cartolaconteudo.com.br
 
O vídeo e a reportagem
Renascida das ruas podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citados o autor e as fontes.

Desta série de produções exclusivas para Via Política, veja e leia também as reportagens e vídeos:
“Golfe para todos”, de Clarissa Barreto

“As paredes que contam histórias”, de Clarissa Barreto
“A prisão fica atrás do balcão”, de Sebastião Ribeiro
“A Iluminada”, de Sebastião Ribeiro

 

 

 

 

       
 
 
 
 
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