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O circo por trás da lona

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Por Sebastião Ribeiro, especial para ViaPolítica
 
 



Nada de canhões de luzes, rufar de tambores, música. As mil cadeiras da plateia estão vazias. O picadeiro do Circo de España (ou Magnun, chame-o como quiser) é todo dos irmãos Sergio e Stefani Aranda. E só deles.

Aos nove anos, a menina alonga um braço, o outro, faz espacato, rebola para soltar as articulações dos quadris. Aquecida, apoia uma mão em cada estaca fixada na base do equipamento, ergue as pernas para o alto e fica retinha, de cabeça para baixo, sustentada pela musculatura do ombro e do tríceps. “Força na barriga”, ainda corrige o irmão de 25 anos, antes de aliviar a pequena com um apoio. No fim do treino, em uma manhã chuvosa de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o mais velho dá um beijo e faz um afago nos longos cabelos da irmã, antes que ela saia correndo para tomar banho e ir ao colégio.

Há cinco gerações da família, cenas como esta se repetem. É como se o circo corresse pelas veias do clã argentino. Há três meses, Stefani fez sua estreia no mesmo espetáculo em que o pai, também Sergio, é mágico, e o irmão, trapezista e palhaço. A menina apresenta um número de bambolê. O treino da manhã já é para uma próxima atração prevista para daqui a um ano. Mas ela quer mesmo é ser trapezista. Quando crescer, porque agora os pais não a deixam treinar nas alturas.

Não estranhe se um dia vir Stefani fazendo bambolê e ginástica e trapézio. E ainda vendendo maçã caramelada. No circo é assim mesmo. Todo mundo faz de tudo um pouco. O uruguaio Fabricio Gadea, por exemplo. Já fez malabares, trapézio, patinação no gelo... Hoje faz o homem-boneco (ou seria o boneco-homem?), uma performance rara e emocionante na qual se move como um manequim. Mas também apresenta um número com gatos adestrados. Os felinos de Fabricio moram no bagageiro do ônibus que faz as vezes de casa do artista. Para os padrões do circo, uma luxuosa casa, diga-se de passagem: um veículo com mais de 10 metros de comprimento, com quarto de casal, sala com sofá, duas poltronas, uma TV de plasma, ar-condicionado split, cozinha com fogão, microondas e um freezer horizontal, que pergunto se está cheio de cerveja. “Não, nada, nem sou de beber. As pessoas acham que o circo é só festa. Não se dão conta que o show dura só duas horas. Depois, é uma vida normal, tranquila. É como morar em uma cidade do interior. Às vezes um malandro entra no circo com essa ideia de que tem droga, festa. Esses não duram dois meses. Logo veem que não tem nada disso. A gente é mais família”, responde Fabricio.

Calça xadrez, camisa de física, brinco na orelha e um boné Oakley na cabeça, o uruguaio concentra-se agora na agulha e na linha de costura que tem nas mãos. Habilidoso, conclui a cabeça de um boneco do Tyrone, o alce laranja do desenho infantil Backyardigans. Na verdade, nem conhecia o personagem até semana passada, quando um amigo de outro circo fez a encomenda. Para ter um modelo, pesquisou o personagem na Internet – companheira inseparável dele e de quase todos que trabalham no picadeiro e moram longe da família. A confecção deixou o ônibus do artista uma zona. Retalhos de tecido amarelo e laranja e pedaços da esponja usados para forrar a cabeça do boneco tomam conta do chão da sala. Enquanto fuma um cigarro, Fabricio pede desculpas pela bagunça e conta mais um pouco sobre a vida itinerante.

Não apenas o circo muda de lugar a cada três semanas, um pouco mais ou um pouco menos, mas os artistas vivem mudando de circo, revela o uruguaio. “A gente é contratado. Hoje eu trabalho aqui, outro ano, em outro lugar... Vou fazendo amigos, colegas de trabalho em cada circo”, relata. Entre os artistas de diferentes espetáculos, há muito mais amizade do que rivalidade. É comum o pessoal de uma trupe assistir à apresentação de outra e ainda ficar para um churrasquinho no final da noite. A cordialidade também é comum entre os donos dos espetáculos, apesar das disputas para contratar as estrelas. Embora varie muito conforme a qualidade da apresentação, o salário pago aos artistas em circos médios gira em torno de R$ 2 mil. “Ninguém fica rico no circo, mas temos um alimento espiritual maravilhoso, que é o aplauso”, diz o proprietário do Circo Español, Alberto Getino.

A afirmação é extensiva a ele mesmo, garante Alberto. De fato, grandes luxos o dono não tem. Como alguns artistas, mora em um motorhome. Com apresentações quase sempre de segunda a segunda, à noite, além de espetáculos vespertinos no sábado e domingo, há poucos dias de folga. A família inteira do empresário – esposa, dois filhos, filha, noras e genro – trabalha no espetáculo e vive do circo (e no circo). Nas mudanças de cidade, na hora de enrolar a lona, todo mundo pega junto. Com o trabalho em equipe, 24 horas bastam para montar a infraestrutura. E apenas 12 horas são necessárias para o desmonte de tudo e partida do comboio, com seus oito caminhões e pelo menos 10 trailers e motorhomes, além de caminhonetes e veículos mais leves.

Apesar de todo esse aparato, Alberto considera fácil ser dono de circo. É daquelas pessoas tranquilas cuja personalidade não combina com a aparência. Alto, corpulento, cavanhaque grisalho, cabelos cacheados escorrendo pelo pescoço, de longe ele parece um sujeito de poucos amigos. De perto, é o contrário. A aproximação da cachorrinha da família, uma viralata preta e branca que parece cruza com shih-tzu ou lhasa apso, logo escancara o lado doce do empresário. A mascote é recebida com afagos, beijinhos e um carinhoso “vem cá, hija del papá, bonita del cielo”.

Espanhol da região de Valencia, quinta geração circense da família, Alberto chegou à América em 1977, junto com o circo do sogro, que ele herdaria em 1985. “Naquela época, as coisas não eram tão fáceis na Europa. Viemos para fazer a América. Hoje, lá está bem melhor, o ingresso do circo chega a US$ 30, enquanto aqui dá em média US$ 4,50”, conta. Na América do Sul, o circo já passou também por Peru, Chile, Bolívia, Uruguai, Argentina. Nos últimos anos, tem andado apenas pelo sul do Brasil, embora com muitos artistas estrangeiros. Além disso, ganhou um segundo nome: Magnum. “Isso é muito comum, os circos mudam muito o nome, para o público não pensar que é sempre o mesmo espetáculo”, explica Alberto.

Quando chegou à América do Sul, o Circo Español tinha 118 pessoas. Hoje, são 53, entre equipe técnica e de picadeiro. A proibição da apresentação de animais silvestres nos últimos anos foi um baque para o negócio. “Mas o espetáculo saiu ganhando. Os circos tiveram de investir mais em artistas, buscar números atraentes para substituir o tempo dos bichos”, pondera o empresário.

Bom sinal para a pequena Stefani. Se depender dela, a sobrevivência do circo está garantida. “Existe uma certeza para quem é de circo. Que a gente nasce e morre aqui. Para nós, não existe se afastar para ter outra vida”, conclui Alberto.

22/11/2009

Fonte: ViaPolítica/O autor/Cartola

O jornalista e videomaker Sebastião Ribeiro, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola – Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.

E-mail: contato@cartolaconteudo.com.br

O vídeo e a reportagem O Circo por trás da lona podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citados o autor e as fontes.

Desta série de produções exclusivas para Via Política, veja e leia também as reportagens e vídeos:

“Nova Era, uma barbearia”, de Alexandre de Santi

“Renascida das ruas”, de Sebastião Ribeiro

“Golfe para todos”
, de Clarissa Barreto

“As paredes que contam histórias”, de Clarissa Barreto

“A prisão fica atrás do balcão”, de Sebastião Ribeiro

“A Iluminada”, de Sebastião Ribeiro

 

 

 

 

       
 
 
 
 
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