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Sim, é ele mesmo!

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Por Patrícia Lima
 
 

Um Papai Noel que conhece a realidade e nega a fantasia consumistas do comércio natalino. Da série Anônimo Brasil, veja o vídeo e leia o perfil de Erny Hennig, um Santa Claus que tem experiência internacional na representação do personagem símbolo do Natal.



Yes, I’m Santa Claus! É isso mesmo, assim, em inglês, que o Papai Noel conta suas experiências e se gaba da popularidade pelos natais do mundo. Duas por três ele para a conversa e volta a algum episódio vivido nas cercanias de Nova York, na companhia da filha e dos netos, onde sua identidade secreta (a de Bom Velhinho) é frequentemente revelada. E no Brasil? Ah, sim, por aqui ele também faz sucesso. Nem precisa estar perto do Natal para, ao entrar no ônibus, ser logo recepcionado por alguns sonoros “hou-hou-hous”. Ao que responde, cheio de graça: “Sim, sou eu mesmo. E comportem-se, porque o Papai Noel sabe de tudo. Quem for malcriado, não ganha presentinho”.

É isso mesmo! Papai Noel é brasileiro, mais precisamente porto-alegrense, com alguma descendência alemã (opa, não deveria ser da Lapônia?). Na maior parte do ano vive disfarçado de um simpático, ativo e falante senhor octogenário, cujo nome é Erny Hennig. Sabe-se lá quando trocou as terras geladas na companhia das suas renas para viver aqui, no calor escaldante dos natais de Porto Alegre. Metódico, ele só tira o disfarce uma vez por ano, nos meses de novembro e dezembro, quando aceita todo o assédio de crianças, adultos e até idosos como ele, que entram no Shopping Iguatemi só para ter uns momentinhos ao seu lado, tirar uma foto, trocar um sorriso, pedir um conselho.

Ficar ao lado dele por algumas horas é testemunhar a inocência que um dia tivemos. É certo que algumas crianças morrem de medo daquela figura gorducha vestida de vermelho, mas a maioria adora. Fazem fila. Olhos ansiosos, mãos inquietas, resmungos. “Tá demorando, mãe”. Quando chega a hora, os mais afoitos partem sem demora para um caloroso abraço. Contam ao pé do ouvido sobre seu bom comportamento, entregam a chupeta, prometem obediência aos pais. E, ao sorriso de aprovação de Papai Noel, começam logo a pedir os presentes. Carrinhos, bonecas, bicicletas, um irmãozinho, os pais juntos de novo. Na maioria das vezes o velhinho repete o discurso. Às vezes, é atropelado pela emoção. Chora, inquieta-se. Mas não se queixa. Afinal, esse é o trabalho de quem nasceu Papai Noel.

Para a repórter – e para todo mundo à sua volta, ele nega a verdadeira identidade, afirma que Papai Noel existe somente na imaginação infantil, chega a dizer que não acredita no bom velhinho. Mas é só olhar para a barba branca, os olhinhos azuis apertados e a pele avermelhada para perceber que é tudo disfarce. Ele é, sim, Papai Noel. Pode não ser o único – afinal, este nosso mundo precisa de uma legião de bons velhinhos – mas que é o verdadeiro, isso é.

Para nos provar que não é Papai Noel, ele conta um pouco de sua história. A conversa faz brotar, além do sotaque que mistura gaúcho e alemão, o bom coração desse velhinho. E quando mais ele diz que não, mais a gente tem certeza que sim.

O industriário que ganhava a vida montando estandes e estruturas em feiras por toda a América Latina (e fabricando mais um monte de invenções, de chapéus a puxadores de botas) já estava aposentado havia cinco anos. Ao passar na frente de uma agência de talentos, leu a placa: “Precisa-se de um Bom Velhinho”. Entrou só para ver como seria a reação do pessoal aos cabelos e barba brancos, que ele já cultivava há 30 anos. Foi contratado na hora e precisou começar no dia seguinte. Desde então, não parou mais de ser Papai Noel no Iguatemi, onde tem cadeira cativa e já conquistou o respeito e o carinho da direção e funcionários. “E dos clientes também. Tem gente que vem me ver todos os anos, as crianças já cresceram, mas os pais continuam trazendo” comenta.

No meio do papo, pausa para falar de Nova York. A filha mora em uma cidadela quase na divisa com Connecticut, para onde seu Erny e dona Ingeborg, a esposa, de 82 anos, vão anualmente. O desejo de conviver mais com os netos pequenos e a vontade de viver aventuras move o casal de Porto Alegre até os Estados Unidos. Ele, maroto, resolveu tirar uma onda com o Natal dos novaiorquinos ao passear pelo Central Park. Entrou na Fao Schwartz, uma das maiores lojas de brinquedos do mundo, e se candidatou à vaga de Santa Claus. De novo, foi contratado na hora. O frio e a distância da casa da filha, que teria de ser percorrida diariamente a pé e de metrô, o fizeram declinar da proposta. “Mas o dinheiro era bom”, brinca.

Em Porto Alegre, se dedica ao ofício de artesão, esculpindo na madeira os símbolos que o lembram da origem germânica, além de caixas para relógios e objetos de decoração. Os olhos brilham quando ele conta sobre as empreitadas no trabalho e sobre os tempos em que tinha que falar alemão no Colégio Julio de Castilhos. Os mesmos olhos mareiam e ficam quase sombrios quando seu Erny lembra a morte do filho em um acidente automobilístico em Tarumã, há 20 anos. As sequelas da perda ainda lhe doem. Mas ele disfarça. E bem. Afinal, Papai Noel não fica triste.

Quando não é Papai Noel, seu Erny tem uma vida pacata, segundo ele próprio. Mas só segundo ele próprio, porque sua rotina colocaria em pé a calvície da maior parte de seus contemporâneos. Com saúde de ferro, ele não toma remédios. Só come pouca carne e muitos legumes. Anda de ônibus, dirige e ajuda a mulher nas tarefas diárias. Nos finais de ano, chega a passar sete horas no shopping, abraçando, sorrindo, tirando fotos e desejando Feliz Natal. Quando o expediente acaba, veste-se de novo com a roupa vermelha para fazer visitas. Quando a maratona natalina terminar, o plano já está traçado. Vai pegar o motor-home – sim, ele viaja de motor-home sozinho com dona Ingeborg todos os anos – e percorrer alguns caminhos da Serra Gaúcha, como São Francisco de Paula, passando por Tainhas e a Rota do Sol, chegando ao Litoral.

Ao relembrar as melhores histórias natalinas, seu Erny sempre cita visitas que faz a casas de idosos ou crianças. À medida que a memória lhe salta pela boca, a emoção vai tomando conta e tornando o semblante um pouco mais frágil. “Já vi coisas que me machucaram. Pessoas sofrendo, pais que não amam os filhos, crianças abandonadas. Hoje é difícil falar em espírito natalino com tudo isso”, lamenta.

De todas as lembranças, uma o toca de forma particular. Há alguns anos visitou um lar para crianças com necessidades especiais na noite de Natal. Ele e dona Ingeborg encontraram ali uma senhora que rotineiramente abria mão da sua festa para cuidar de quem não tinha ninguém por si. Ao deparar-se com aquela realidade malvada, comoveu-se ao ponto de quase não conseguir voltar. E fez uma descoberta: “Quem se dedica a cuidar de outras pessoas é que deveria ser chamado de bom velhinho. Eu não sou nada, não faço nada. Às vezes a gente pensa que faz o bem, mas tem gente que realmente faz coisas boas e que ninguém fica sabendo”.

Assim, com as palavras que descrevem uma realidade sem fantasias, é que ele reitera sua descrença no Papai Noel. E é assim, com essas mesmas palavras, que quem o escuta passa a acreditar, com todo o coração, na existência do Bom Velhinho do Natal.

13/12/2009

Fonte: ViaPolítica/A autora

A jornalista e videomaker Patrícia Lima, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, é parceira da Cartola – Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.

E-mail: contato@cartolaconteudo.com.br

O vídeo e a reportagem “Sim, é ele mesmo!” podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citados o autor e as fontes.


Da série Brasil Anônimo, produções exclusivas para Via Política e a VPTV, veja e leia também as reportagens e vídeos:

“Mulher no volante” , de Clarissa Barreto

“O circo por trás da lona – I”, de Sebastião Ribeiro

“O circo por trás da lona – II”, de Sebastião Ribeiro


“Nova Era, uma barbearia”, de Alexandre de Santi

“Renascida das ruas”, de Sebastião Ribeiro

“Golfe para todos”
, de Clarissa Barreto

“As paredes que contam histórias”, de Clarissa Barreto

“A prisão fica atrás do balcão”, de Sebastião Ribeiro

“A Iluminada”, de Sebastião Ribeiro

 

 

 

 

       
 
 
 
 
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