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Matriarca da família, a quituteira
e professora aposentada Edla
Fernandez Rodrigues viu seu clã
dividido em uma batalha incomum.
Mas, de coração aberto, conseguiu
manter a trupe unida, apesar das
disputas. Conheça a história dessa
rebelião de costumes no vídeo e no
texto desta edição.
Ninguém sabe ao certo como tudo começou. Quando se deram conta, já estava instaurada a rebelião. Mais: a revolução. Porque o movimento iniciado pelos mais fracos mudaria em definitivo os costumes.
Não houve guerra, tampouco baixas. Nenhum governo foi deposto, nenhum país destruído. Menos mal que o embate se circunscreveu a uma única família. Como chamá-la, se a cada nova geração há tantos sobrenomes incorporados? Digamos apenas que a história aconteceu na família da aposentada Edla Fernandez Rodrigues, de 81 anos, mãe de três filhas, sendo uma delas enteada, vó de sete netos, sendo um deles filho da enteada e outra da empregada da filha, e bisavó de duas bisnetas, sendo as duas gêmeas. Sem contar uma porção de agregados, ou “achegos”, como ela os chama. As coisas são mesmo meio confusas nessa família, mas dá para perceber que ela é... receptiva. Resumindo, tem sempre um cantinho a mais no coração de dona Edla. E quando alguém a cativa, é para sempre. Filhos e netos podem até abandonar seus maridos e namorados, a vovó continua mimando os ex.
Voltando à revolução: tudo começou com as crianças (até hoje os sete netos são as crianças, embora quase todos sejam adultos). Um dia, no Natal de 2002 ou no começo de 2003, elas decidiram que não gostavam da ceia natalina. Peru assado, fios de ovos, abacaxi e pêssego em conserva, arroz à grega... Bleargh! E este tal de sarrabulho, feio até no nome? Uma gororoba com farinha e miúdos: convenhamos! A neta Cláudia Barbosa, jornalista, hoje com 32 anos, dá voz ao sentimento geral. “A gente simplesmente não comia no Natal. No máximo, salada de maionese com arroz. Achava um saco aquela comida. Se todo ano a gente come comida quente, por que no Natal tem que comer aquelas coisas frias???”.
Fosse só o gosto, talvez as queixas dos netos não tivessem surtido tanto efeito. Mas, lá pelas tantas, as crianças apelaram para um argumento ideológico. Por que temos de comer esta ceia imposta pelos imperialistas americanos e europeus? Gaúcho tem de comer é churrasco!, discursava o neto Diego Ferrer, publicitário, hoje com 29 anos. E foi assim que, no Natal de 2003, lá se foi o revoltoso à churrasqueira assar para todo mundo. Só que, no ano seguinte, o assador, que também é músico, tinha uma festa na qual tocaria depois da ceia, e não podia se sujar todo com a função. O cardápio foi um prato que ninguém lembra. Porque a turma só lembra bem mesmo é de 2005. Foi quando a revolução iniciada pelos netos atingiu seu ápice, para gosto e desgosto de dona Edla, que ama ver a família unida, mas adora peru com fios de ovos.
O Natal de 2005 foi celebrado durante todo o ano. Mais ou menos assim: para decidir o menu da ceia de 24 de dezembro, o clã de dona Edla realizou uma gincana. Uma verdadeira Olimpíada Natalina. Os integrantes foram divididos em cinco equipes de três (no final algumas ficaram com dois representantes, porque alguns achegos deram ou receberam pés-na-bunda durante a temporada). Cada grupo ficou encarregado de elaborar um cardápio com entrada, prato principal, sobremesa. A avaliação ocorreu em cinco jantares ao longo ano, em cada um dos quais se analisou um menu. Havia cédulas de votação, incluindo espaço para registrar nota em quesitos como aroma, sabor, apresentação, originalidade, cumprimento do regulamento. No dia do escrutínio dos votos, foi feito um jantar especial, no qual os vencedores receberam troféus. Também ganharam placas de homenagem as duas antigas cozinheiras da família, a Dada e a Ia (apelidos que condicionam destinos ou destinos que condicionam apelidos?). Uma das regras é que elas não podiam chegar perto da cozinha nas noites do certame.
Dada, nascida Juracy Baptista, é uma negra mais para mulata de cabelos bem brancos e ainda forte em seus 71 anos. Começou a trabalhar com dona Edla aos 16, há 55 anos, conheceu os dois maridos que a patroa perdeu, ajudou-a quando era quituteira em Bagé e tomou conta das filhas quando a patroa virou professora primária em Porto Alegre. Já embalou três gerações da família, tem “o melhor colo do mundo”, assegura Cláudia. Não que se pareça fisicamente ou de gênio, mas impossível não lembrar da lendária Mammy de “E o Vento Levou” ao olhá-la. Faz parte do clã, assim como sua irmã Ia, ou Zaria, e a sobrinha Roberta, criada como neta de dona Edla.
Era Dada que comandava as panelas quando fomos ouvir a história da gincana gastronômica. Tinha feito lasanha de frango, arroz, feijão, salada. A casa da matriarca, uma típica casa de vovó, de madeira e em um bairro classe média de Porto Alegre, estava lotada, uma algazarra só. Havia filhas, netos, as gêmeas bisnetas e, claro, achegos. Era quinta-feira, dia do “Almoço Vem Quem Pode” – o nome já explica. Sentadas lado a lado, as filhas de dona Edla, Jane e Tânia, cheias de orgulho e com uma pitada de humor, relataram os menus vencedores, servidos posteriormente na noite de Natal de 2005. A ceia foi fina mesmo. A equipe ganhadora apresentou endívias recheadas com legumes, seguidas por camarão na moranga, seguido por sorbet, seguido por filet ao molho branco e de chocolate e arroz com flores comestíveis, seguido por crepe suzette. Como não poderia deixar de ser, até hoje o resultado gera quizílias, sempre que entra no cardápio de discussões do almoço de quinta. “Foi roubado. Devia ter ganho o do Diego. Ele foi o único que inventou todas as receitas. As outras foram copiadas”, protesta Jane.
Enquanto os convivas concentram-se na lasanha e na conversa, dona Edla nem come. Uma senhora magra, de porte altivo, embora os movimentos já não sejam tão firmes. Ela coordena tudo, preocupada em alimentar a trupe – “o prato já vem quentinho, meu filho”, “come essa saladinha aqui, ó”. Continua soberana no poder, mantendo a família unida. E encara com serenidade a batalha perdida para os netos. O concurso não se repetiu. Mas, contra sua vontade, neste Natal, de novo, o peru com fios de ovos não será a estrela da mesa.
19/12/2009
Fonte: ViaPolítica/O autor/Cartola O jornalista e videomaker Sebastião Ribeiro, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola – Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.
O vídeo e a reportagem Revolução natalina no clã de dona Edla podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citados o autor e as fontes.
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