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Ziza de Xangô, a cigana umbandista,
foi escolhida a representante do
povo cigano no Rio Grande do Sul.
Conheça sua história em mais um
vídeo e texto da série especial
Anônimo Brasil.
O final do ano de Ediara Izabel Ruiz de Castro foi movimentado. Se na maioria das casas são feitas pelo menos duas ceias em dezembro – a de Natal e a de ano novo –, no lar da gaúcha de 46 anos dá pra se perder na quantidade de pratos e bebidas a serem preparados. Afinal, os santos ciganos, os orixás, a wicca (bruxaria) e os deuses indianos também têm fome. "Preciso fazer os encerramentos de todos eles, são bebidas, carnes, lentilhas, velas, enfeites... Guardo durante o ano todo uma poupancinha e o dinheiro é deles", diz, apontando para as imagens e altares espalhados em duas salas de um sobrado de três andares que ocupa no bairro Farroupilha, em Porto Alegre.
A casa da cigana de nascimento é o retrato do sincretismo religioso. Pelas paredes, prateleiras e até pelo chão imagens de deuses indianos dividem espaço com orixás, fadas e bruxas, deuses egípcios e, claro, ciganos. Pouca gente sabe que a cigana se chama Ediara. Ela carrega a mistura de crenças até no nome de guerra – Ziza de Xangô, unindo o apelido que recebeu da família cigana a um "sobrenome" umbandista. Ela foi a primeira cigana – homem ou mulher – a ocupar um lugar de destaque na umbanda gaúcha.
Bem maquiada, mas em trajes “civis”, ela me recebeu durante duas tardes quentes, em meio a uma reforma no sobrado. A casa servirá de ponto de referência para ciganos de todo o Rio Grande do Sul. É que Ziza foi eleita, entre mais de três mil ciganos de diferentes etnias, representante oficial do povo no Rio Grande do Sul, em uma cerimônia capitaneada pelo ministro da igualdade racial, Edison Souza. Mais uma atribuição da eclética Ziza, que já foi professora, cabeleireira e vendedora de loja, mas que hoje joga baralho cigano e egípcio, joga búzios, pratica o reiki, bruxarias e dá cursos de dança cigana. Curiosamente, ela não lê mãos. Isso porque, às vésperas do casamento de uma grande amiga, ela leu a sorte – ou no caso, azar –
na palma da mão: a amiga em questão morreria antes de casar. Ziza não teve coragem de alertá-la e a previsão acabou se confirmando – a amiga morreu de leptospirose e o trauma ficou.
O temor de Ziza é justificável: ela não gosta de dar – nem de ser a causadora – de más notícias. Graças aos poderes da bruxaria e do africanismo, ela diz que costuma ser procurada por gente muito mal intencionada. "Não são poucos os que vêm aqui querendo o mal. Já fui procurada por irmã querendo um trabalho para matar a outra, para ficar com um terreno", comenta. E funcionaria? "Pior que funciona. Vim agora da casa de uma menina linda, estilo modelo, que está em uma cadeira de rodas, sem conseguir andar, por pura inveja de alguém. Estamos fazendo um trabalho bem forte", afirma.
O foco dos trabalhos de Ziza é a saúde. O preço das consultas, que duram de uma hora a uma hora e meia, parte de R$ 75,00, uma pechincha, segundo ela, considerando que, além do tarô, ela joga búzios, num verdadeiro leve dois e pague um religioso. A partir daí, ela vai indicar se será necessário algum outro tipo de trabalho – sem animais: Ziza é contra o sacrifício dos bichinhos, no máximo pipoca, charuto ou espumante.
As consultas com clientes, que já estão com ela há décadas, podem dar uma rareada: Ziza pretende se dedicar bastante à causa cigana, mesmo que a sua escolha tenha sido vista com preconceito pelos próprios ciganos. Ela é do povo Calon, oriundos da Península Ibérica, que aceita o casamento entre ciganos e não-ciganos, algo impraticável em outras etnias. Seu avô desembarcou em Porto Alegre literalmente recém-nascido. Bastou o navio que vinha da Espanha atracar para que sua mãe desse à luz. "Minha família, uma das primeiras de origem cigana a atracar na cidade, ficou acampada por anos na região da Redenção (um parque quase central de Porto Alegre). Por isso quero remanejar as festas do Parcão (outro parque da cidade) para lá", comenta.
Esta não é a única bandeira da líder. A ideia é também mostrar aos não-ciganos que não há mais ou menos malfeitores entre seu povo que nas demais etnias. "Já fui mal atendida em restaurantes por estar vestida como cigana. Isso é inaceitável", diz. E completa: "As ciganas que leem mãos no centro de Porto Alegre, famosas por pequenos furtos, normalmente foram expulsas de algum acampamento por causa de seu caráter".
9/1/2010
Fonte: ViaPolítica/A autora
Ajornalista e videomaker Clarissa Barreto, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola – Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.
O vídeo e a reportagem “Sincretismo na palma da mão” podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citados o autor e as fontes.
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