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Graças ao abstêmio,
há chope cremoso

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Por Clarissa Barreto
 
 

Lemos, dono do Amarelinho, na Cinelândia carioca, não sucumbiu ao trago e teve forças para manter o tradicional boteco.




Lemos, dono do Amarelinho
, na Cinelândia carioca, não sucumbiu ao trago e teve forças para manter o tradicional boteco.
 
O espanhol José Lorenzo Lemos, 73 anos, não sabe quantos hectolitros de chope vende em um dos bares mais tradicionais do Rio de Janeiro, o Amarelinho. Mas sabe que nenhum é para ele. Lemos, um dos sócios do bar incrustrado desde 1921 no miolo da Cinelândia, não sorve um só gole do cremoso e famoso chope, faça sol ou faça mais sol ainda. Mesmo trabalhando como garçom desde que desembarcou na Praça Mauá, em 1956, Lemos não adquiriu o hábito de beber – segundo o Datafolha, um costume bem carioca: 43% deles curte a marvada, índice mais alto que o de São Paulo, 40%. E, anos depois, ainda mantém um leve sotaque que escorrega entre o castelhano e o português.
 
Há 55 anos no Brasil, Lemos deixou a cidade espanhola de Tui, fronteira com Portugal, para escapar do serviço militar. Não conhecia nem Brasil nem Rio de Janeiro, mas por intermédio do filho de um amigo de seu pai, que deveria encontrá-lo na Praça Mauá, achou que seria uma boa opção. Trinta dias mais tarde, o navio Monte Udala atracou, e Lemos, 18 anos e bolsos quase vazios, não vê seu guia em terra. "Podia estar até hoje procurando por ele, nunca o encontrei", comenta. 

Na década de 1950, enquanto o jovem Lemos revirava o Rio atrás de um emprego, o Amarelinho ainda vivia parte do auge. Na vizinhança da Praça Floriano, a Biblioteca Nacional e o Theatro Municipal, além de dezenas de teatros, cinemas e outros bares continuavam movimentando a vida cultural do Rio, embora o ápice da “Broadway brasileira” tenha sido as décadas de 1920 e 1930. O futuro dono do Amarelinho iniciava sua saga como garçom por restaurantes da região, sem beber nem fumar, mas encantado com a efervescência da Cinelândia. "Ali era o centro do mundo para mim. Não existia tanto acesso a meios de comunicação, era nas mesas dos bares que aconteciam as conversas, as grandes decisões", relembra. 
 
Então, o Amarelinho já era amarelinho no nome, nas paredes azulejadas, na fachada, no toldo que se esparrama pela calçada e no avental dos garçons e deve a alcunha ao apelido dado ao prédio que o abriga - batizado de Wolfgang Amadeus Mozart, assim, completo. E Lemos o namorava.
 
Enquanto a vida prosseguia na Cinelândia, instalado no bairro das Laranjeiras, o espanhol aos poucos incorporava carioquices. Vizinho da sede do Fluminense, abraçou as cores do tricolor. Ganhou a ginga e a malemolência em uma academia de dança na rua do Passeio, na Lapa. Namorava uma moça, mas conheceu outra, que acabou virando sua mulhee – estado civil que dura 48 anos. A pernambucana que passava férias no paulista Guarujá, esbarrou em Lemos, que flanava por lá, e se apaixonou. Mal sabia ela que seriam suas últimas férias: o espanhol ficou obcecado em trabalhar, se estabelecer e prover a nova família.
 
Guardou um dinheirinho por 15 anos e, quando a Cinelândia já não era mais a mesma, em crise como a maioria das regiões centrais das grandes cidades brasileiras, reuniu sócios e comprou o Amarelinho, em 1970. Desde então, há exatos 40 anos, a rotina se repete: Lemos chega às 10h, sai às 18h, de segunda-feira a domingo – o bar nunca fecha e nem ele nunca falta, transitando pelas mesas, atendendo a um e a outro, sempre sem encostar o umbigo no balcão.

Deixou de aparecer apenas quando se recuperava das cinco cirurgias no coração, para ele o grande motivo de levar a vida de forma regrada. "Tenho pressão alta. Se ainda bebesse e fumasse, poderia não estar aqui para contar a história", comenta. 

Tanto empenho deu resultado. O Amarelinho é um dos poucos remanescentes da época de ouro da Cinelândia, talvez graças ao abstêmio Lemos, que não sucumbiu ao chope cremoso e teve fôlego para manter o bar como nos velhos tempos. Neste período, algumas coisas mudaram: o menu passou de meia dúzia de petiscos de boteco para seis longas páginas com uma profusão de beliscos, como o "salmon à Belle Mounier" (grelhado, regado a alcaparras, champignon e camarão), a R$ 30,00, dividem espaço com clássicos de boteco como o feijão amigo, a R$ 6,00. O endereço, Praça Floriano, 55 B, é o mesmo, mas o Amarelinho foi ganhando anexos, puxadinhos e um segundo andar que, longe de descaracterizá-lo, lhe deram mais charme – e mais espaço. "Ter essa casa é um privilégio. Muita gente de fora, europeus, argentinos, brasileiros de todas as partes vêm aqui conhecer. Não quero me aposentar nunca, eu gosto de gente", suspira.

16/1/2010

Fonte: ViaPolítica/A autora

A jornalista e videomaker Clarissa Barreto, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola – Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.

E-mail:  contato@cartolaconteudo.com.br 

O vídeo e a reportagem “Graças ao abstêmio há chope cremoso” podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citadas a autora e as fontes.

Da série Anônimo Brasil, produções exclusivas para Via Política, veja e leia também as reportagens e vídeos:

“Sincretismo na palma da mão”, de Clarissa Barreto

“Revolução natalina no clã de dona Edla”,
de Sebastião Ribeiro

“Sim, é ele mesmo”, de Patrícia Lima

“Mulher no volante” , de Clarissa Barreto

“O circo por trás da lona – I”, de Sebastião Ribeiro

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“Nova Era, uma barbearia”, de Alexandre de Santi

“Renascida das ruas”, de Sebastião Ribeiro

“Golfe para todos”
, de Clarissa Barreto

“As paredes que contam histórias”, de Clarissa Barreto

“A prisão fica atrás do balcão”, de Sebastião Ribeiro

“A Iluminada”, de Sebastião Ribeiro


 

 

 

       
 
 
 
 
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