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Quase invisível na balbúrdia da Cinelândia, o colecionador de revistas vive da venda de velhas notícias penduradas em um varal.
Há 40 anos, Sérgio Rodrigues Coutinho, 72 anos, chega no começo da tarde à Cinelândia, centro do Rio de Janeiro. Abre uma bolsa de viagem surrada, tira uma a uma as revistas O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Flan, embaladas em sacos plásticos, com suas principais manchetes escritas à mão em uma folha de caderno. Junto à grade que cerca a Biblioteca Nacional, ele pendura um varal, e nele, distribui delicadamente para não estragar, alguns exemplares dos mais de mil que mantém num quarto-e-sala a algumas centenas de metros dali. De camisa para fora das calças jeans, sob um calor de exatos 37 graus, ele abre a cadeira de praia embaixo de uma árvore e senta, com ar acabrunhado. O tempo passou, vê-se pelos raros cabelos brancos, os olhos injetados e o ar cansado. Mas para ele os dias são todos iguais e as notícias são sempre as mesmas, desde a década de 1970 - Sérgio não compra revistas novas: para ele, elas não têm mais utilidade.
Sérgio é monossilábico, não gosta de conversar, não tem celular nem telefone fixo e, em frente à câmera, se encolhe. Acostumou-se a ser quase invisível na balbúrdia da Cinelândia. Esta entrevista foi, provavelmente, o único acontecimento diferente em meses. Tímido, mal consegue explicar como saiu de seu segundo emprego formal, auxiliar de escritório na Vasp, uma falida empresa aérea de São Paulo - o primeiro trabalho foi na fábrica da Kibon. Depois que os aviões perderam as asas, começou a vender notícias antigas, misturado a camelôs e artesãos.
De tão acomodado no "escritório", parece não ouvir mais o barulho, nem sentir o calor e a poeira. De tão acostumados, os passantes nem reparam nele. Só quando olham o pequeno tesouro de Sérgio exposto. Vender revistas antigas pode não parecer um grande negócio à primeira vista. E não é. Pelo menos não para o carioca Sérgio. Há algumas décadas, o então assíduo frequentador de bancas de revista do centro do Rio gostava de ver a vida acontecer nas páginas de magazines como O Cruzeiro e Fatos & Fotos: entrevistas com JK, o drama da miséria africana, as vedetes e misses gostosonas em trajes sumários - para a época. E as levava embaixo do braço para casa toda semana, a despeito do salário curto e dos resmungos da mulher, que via ali dinheiro jogado fora.
Aos 30 e poucos anos, foi demitido e, desde então, nunca mais teve um emprego formal. O dinheiro foi rareando, as contas foram chegando e o novo trabalho não aparecia, mesmo batendo perna diariamente, mas Sérgio ainda procurava consolo nas revistas que empilhava em casa. Um dia, de bolsos vazios, olhou para o apartamento repleto de notícias de ontem. E mesmo de coração partido por vender seu tesouro particular, teve o estalo: as venderia, na rua, só até as coisas se arrumarem.
Porém, elas não se acertaram. Há 40 anos, das 14h às 17h, as cenas se repetem e as revistas, de usadas, viraram raridades. Custam entre R$ 5,00 e R$ 20,00, a depender da idade e da raridade: notícias do governo Vargas valem mais que as sobre JK na tabela de preços de Sérgio. O dinheiro nunca sobrou, mas chegava e engordou quando o vendedor de ocasião conseguiu se aposentar, com um salário mínimo, em meados da década de 1980.
Poucos transeuntes dão uma espiada em épocas mais glamourosas que estão estampadas nas capas das bem cuidadas magazines. Talvez porque as modelos das capas estejam vestidas demais, ou porque simplesmente não encontram o vendedor, que está sob uma árvore a alguns metros do mostruário. Sérgio parece não fazer questão de vender as revistas.
Levantar da cadeira de para atender um possível cliente é quase um suplício. Um homem bem arrumado, de sotaque indefinido, acompanhado de um rapaz, para diante das revistas. Sérgio nem se move. A três metros dali, o jovem gesticula: quer saber os preços das publicações. O pior vendedor de uma cidade que vive de vender - turismo, biscoito Globo, chá mate - se ergue com alguma dificuldade: à idade avançada somam-se os problemas cardíacos, que o acompanham desde a década de 1990.
Sérgio caminha até a dupla. Eles pedem explicações sobre o conteúdo das revistas e, mostrando uma memória surpreendente, Sérgio enumera o que há em cada uma, meio sem jeito. Não tenta vendê-las, não faz propaganda. Para ele, não faz sentido tentar convencer alguém de que sua coleção é um tesouro. "Eu ainda leio todas elas", diz, com um meio sorriso. Algumas revistas são de seu acervo pessoal, outras garimpou em sebos ou nas casas de colecionadores como ele, que por um motivo ou outro tiveram de vendê-las. "Quando o dono morre, é comum as famílias se desfazerem das revistas", diz. "Isso talvez aconteça comigo", completa. Para o gringo, vende três revistas, de R$ 10,00 cada. Menos três lembranças de tempos provavelmente melhores.
23/1/2010
Fonte: ViaPolítica/A autora
Ajornalista e videomaker Clarissa Barreto, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola – Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.
O vídeo e a reportagem “O pior vendedor do Rio de Janeiro” podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citadas a autora e as fontes.
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