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Primo Poloni pertence ao seleto
grupo dos centenários. Aos 101
anos, exibe um vigor quase juvenil
e leva a vida com um misto de
alegria e resignação. Mas sempre
com moderação.
No exercício abdominal, o tórax de Primo Poloni ergue-se da prancha em um movimento perfeito: reto, rígido, sem margens para correções da fisioterapeuta. Na puxada com os músculos das costas, ele levanta 20 quilos - cinco a mais do que a mulher que ocupara o aparelho pouco antes, uma senhora aparentando metade de sua idade e duas vezes seu tamanho. Após levantar os halteres, o “atleta” me olha, flexiona o braço até o bíceps esticar a pele gasta e enrugada. Tem o tamanho de um pão cacetinho de 50 gramas, mas é firme.
As demonstrações de força seriam comuns, não tivesse Primo Poloni 101 anos. Só por chegar a essa idade, ele já é considerado uma exceção. No último censo, de 2000, apenas 0,014% da população brasileira era centenária. Embora, os longevos sejam cada vez mais comuns - em 1980, 0,5% da população tinha mais de 80 anos; neste ano, estima-se que o percentual seja de 1,37%; e em 2050 deve chegar a 6,39%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Cada vez mais, a ciência e a medicina se preocupam não apenas em aumentar a sobrevida, mas com o tipo de vida que os idosos terão. E é isso que torna Primo Poloni um fenômeno. Toda terça e quinta-feira, para comparecer à sessão de fisioterapia no Hospital Moinhos de Vento, um estabelecimento privado de referência em Porto Alegre, Rio Grande do Sul,, ele percorre 26 quadras. A pé. Desloca-se de sua casa até a parada do ônibus, do ônibus até a entrada do hospital, do hospital até a parada novamente, da parada até o hipermercado onde costuma fazer compras, e do hipermercado até a casa de novo.
Por onde passa, com seu passo curto e ágil, seu chapéu xadrez e sua bengala quase nunca exigida, é saudado pela vitalidade. O simples fato de ter mais de 100 anos o torna quase uma celebridade. No ônibus, todos o conhecem; na fisioterapia, em seu último aniversário, organizaram uma festa de aniversário com bolo, Parabéns a Você, presença de médicos, funcionários e familiares. “Olha, não sei como cheguei nessa idade e tenho tantas amizades. Vou na rua, todos me abraçam. Aqui (na fisioterapia), é presente quando faço anos, festa, fico até constrangido”, diz. Basta receber um dos tantos sorrisos que Primo Poloni distribui ou ser observado por seus olhos miúdos e quase transparentes para entender o afeto que desperta.
Primo Poloni encara a vida com um misto de resignação e alegria. Gasta muito mais tempo contando sobre sua festa de aniversário do que sobre o assalto que sofreu há cerca de dois anos, quando dois homens lhe roubaram a carteira com R$ 3 e ainda feriram seu braço a faca. Acha que o segredo da boa saúde é a moderação. A começar pela dieta: normalmente um pão sovado com mel e queijo no café da manhã, frango com massa e salada no almoço, fruta à tarde, mais um pãozinho com mel e salame no início da noite, tudo em doses comportadas. E sem esquecer da taça de vinho todo dia no almoço. Boa parte do comportamento saudável, como manter uma alimentação equilibrada e fazer exercícios, ele aprendeu com O Conselheiro Médico do Lar, do Dr. Humberto Swartout. Comprado na década de 40, o livro, revestido em capa de couro, o acompanha desde então, servindo como uma espécie de bíblia da saúde.
Primeiro (como o próprio nome informa) dos 13 filhos de um italiano chegado aos três meses de vida no Brasil, com uma descendente de imigrantes da mesma etnia que não falava português, Primo Poloni nasceu em Caxias do Sul, cidade da serra gaúcha, em 1908. Até os 14 anos, viveu no mato, abrindo capoeiras, capinando, plantando milho, trigo, batata, verduras, sempre ajudando o pai - daí, diz ter tirado sua força física. Aos 14 anos, foi para a cidade, trabalhou por cinco anos na construção de um moinho, casou, virou alfaiate, teve duas filhas do primeiro casamento (Urtes, de 77 anos e Ivone, já falecida), enviuvou, mudou-se para Porto Alegre, casou de novo com a atual esposa, Maria Francisca, hoje com 90 anos, teve mais dois filhos, Sandro (56 anos) e Rossana (52), trabalhou um tempo como motorista de táxi, ou “auto de praça”, até se aposentar em 1970, conta.
Se tem uma coisa que Primo Poloni gosta é de lembrar das coisas da colônia. Seu olhar fica fundo quando fala dos matos da serra, da juventude em Caxias do Sul. Em um quase devaneio, em meio a recordações, ele se põe a cantar um trecho de Madreselvas - ou Madressilvas, em português -, um tango de Carlos Gardel. Com a voz trêmula pela idade e por um dente que machucou ao morder uma polenta frita, entona:
Pasaron los años y mil desengaños Yo vengo contarte mi vieja pared Asi aprendi que hay que fingir Para vivir decentemente
Às vezes, na sala de fisioterapia, que em nada difere de uma academia de ginástica, Primo Poloni também canta e dança. Mas na hora dos exercícios fica sério. É comum não ter paciência de descansar entre as três séries de 15 repetições e emendar 45 de uma vez. É engraçado vê-lo se exercitando. Com 1,64m e 55 quilos, ele malha de calça social, camisa bege sobre camiseta de física e um antigo tênis de futebol de salão. Uma das conversas que mais gosta de levar é sobre as plantas cultivadas no pátio de casa. Aos berros, para que o gringo consiga ouvir a pergunta já ampliada pelo seu aparelho auditivo, a fisioterapeuta Andressa Carvalho puxa o papo:
- As abelhas estão comendo muito suas uvas, seu Primo?
- Acabou! Consegui tirar um pouquinho para comer. Mas elas acabaram com tudo. Uma praga! E elas ficam brabas quando a gente vai pegar os cachos...
- E daí elas lhe picam?
- Ah, mas isso não tem problema.
O pátio de sua casa em Porto Alegre, uma residência classe média financiada na década de 50 na vila do IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários), é uma conexão com a juventude no meio do mato. Ainda que em um espaço exíguo, limitado por um muro, uma garagem, um tanque de lavar roupa, Primo Poloni consegue se distrair com as plantas que e pássaros. Em meio às lajes do pátio, debaixo das araucárias plantadas por ele há mais de 50 anos, estão, além da parreira de uvas, o arbusto de guaco (“é bom para a gripe”), o pessegueiro (“dá o pêssego mais doce”), a erva cidreira (“para acalmar os nervos”), a madressilva (“coisa mais linda, dá uma flor perfumada”)...
As lembranças evocadas pelo jardim também estão na carteira, de onde Primo Poloni retira orgulhoso uma foto em preto e branco. Nela, ele aparece jovem, ajoelhado, uma espingarda duplo cano em mãos e a janela de um velho Club Coupé 1941 tomada por perdizes e perdigões recém caçados em uma de suas antigas excursões ao interior. “Eu gostava muito de uma passarinhada com polenta”, lembra.
Já faz três anos que ele não visita os parentes em Caxias do Sul, conta. Vivendo com uma aposentadoria de R$ 700 por mês - com a qual apenas mantém as despesas da casa -, conta com a ajuda do filho para pagar o plano de saúde, a conta de luz, de telefone. Falta-lhe dinheiro para grandes viagens ou luxos. Manter um sistema de previdência com cada vez menos jovens ativos para mais idosos têm sido um dos grandes desafios das nações. No Brasil, reformas já aumentaram idade e tempo de serviço para se aposentar, e o reajuste do vencimento deixou de ser indexado pelo salário mínimo. “Eu lembro que ganhava três salários mínimos. Quando me aposentei ainda dava para ir a Caxias, passar um dia, uma noite lá”, recorda Primo Poloni.
O aposentado também vive se queixando da esposa, com quem é casado há 64 anos. Reclama que a “véia” tá muito entregue, só quer ficar em casa, vendo novela. Do outro lado, Maria Francisca diz que o “véio” não pára quieto, que está ficando louco. E assim, com uma implicância mútua cheia de cumplicidade, eles vão levando, nas palavras do gringo, mais interessados em “conservar o que têm” do que em sonhar com grandes conquistas. Em casa, apesar da idade avançada, a mulher faz todo o serviço - lava a roupa, passa, cozinha, faz faxina. Não há empregada fixa nem diarista. O marido faz as compras e as tarefas de rua.
No fim, se complementam. E dão risadas juntos quando Primo Poloni pega o velho acordeon (com o “on” bem carregado, porque gringo não fala “ão”) e dedilha um tango. Ainda que meio atrapalhado, só com a mão direita. A esquerda está de repouso, com um curativo no dedo médio. Há cerca de duas semanas, o “músico” se machucou. Apertou a unha com o cabo da tesoura, enquanto podava o pé de madressilva.
30/1/2010
Fonte: ViaPolítica/A autora
Ojornalista e videomaker Sebastião Ribeiro, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola – Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.
O vídeo e a reportagem “A força da madressilva” podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citadas a autora e as fontes.
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