Por meio da fotografia, adolescentes de Canoas exercitam olhar crítico sobre seu cotidiano e a cidade. Por Marilia Schmitt Fernandes e Redação de ViaPolítica
Um universo sensual habitado por mulheres dignas dos melhores sonhos adolescentes, materializa-se agora em Siena. Mas parece destino à jaula em tempos de Silvio Berlusconi e ‘bunga-bunga’. Por Irene Hdez. Velasco, de Roma, para El Mundo, de Madri
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Três cachorros dormem esparramados pela sala. O perdigueiro ronca incessantemente. O senhor de 85 anos, barba por fazer, está acomodado na poltrona em frente à TV. No Sportv, passa uma prova qualquer das Olimpíadas de Inverno no Canadá, mas ele não parece dar atenção. Veste alpargatas, camiseta, calça de tactel.
Há alguns meses, o editor deste site me falava em um tal de Rio Apa. Fui construindo uma imagem fictícia deste homem, um velho que habita o morro da paradisíaca baía da Pinheira, em Santa Catarina, viaja o Brasil em um trailer com jovens punks e edita um fanzine anarquista. Imaginava, sim, um senhor barbudo, mas todo vestido de preto, algumas tatuagens, velho roqueiro, vivendo em uma casa com imenso jardim e esplendorosa vista para o mar.
Encontrar o sujeito real em uma casinha encravada entre duas outras, de calça de tactel e assistindo televisão foi um choque. Mais ou menos como o revolucionário que idolatra Fidel Castro em suas vestes de comandante, mas, quando finalmente o conhece, o líder da revolução cubana o recebe de abrigo da Nike.
Talvez a imagem de Fidel não me tenha vindo à cabeça tão aleatoriamente. De fato, há uma notável semelhança física entre o revolucionário e Rio Apa. A barba, claro. Mas o nariz, principalmente o nariz reto e apontado para baixo. Sentado à minha direita e contando a vida sem olhar em meus olhos, como quem entende que um jornalista quer mesmo é escutar, o senhor da Pinheira escancara esse traço físico. Outra nuance, só consigo captar depois, ao ver o retrato em desenho pendurado na parede da sala. Ali está Rio Apa com seu olhar altivo, sempre em busca da tormenta no horizonte; um olhar de marinheiro.
Marinheiro. Acima de tudo, Rio Apa é um marinheiro. Filho de juiz, formou-se aos 24 anos em Direito, em Curitiba. No lugar de abrir um escritório de advocacia, embarcou em um navio mercante como marujo. Cruzou o mundo limpando convés, pintando o barco, dando “quarto de leme”: turno de quatro horas no comando do leme. Dois anos depois, voltou ao Brasil. Mas não largou o mar. Comprou um veleiro. Virou jornalista de ofício, escrevendo sobre lugares percorridos de barco. A maior reportagem de viagem, em 52 capítulos, intitulou de “Tentativa de Uma Grande Síntese”.
Rio Apa sempre buscou a fuga da cidade grande. As engrenagens do sistema o incomodam. A saída foi exilar-se de tempos em tempos em ilhas, onde viveu muitas vezes isolado. Ilha de Irerês, Ilha da Cutinga, Ilha das Cabras, vai elencando. Numa dessas, conheceu a mulher, Esther, campesina de Rio do Sul (SC), de origem dinamarquesa, que havia aportado em sua casa com amigos. No romance descrito por ele, foi o vento Sul, durante um trajeto de barco até o continente para fazer compras, que selou o amor. Quando soprou, o navegador fez a proposta: “Se você baixar a vela e me trouxer enrolada, caso contigo”. Esther obedeceu. Mostrou intimidade com as lides do mar. Casaram-se, tiveram três filhos: Thor, Kim e Wahine, falecida há pouco, que se criaram a bordo de um veleiro. Esther morreu há oito anos. Rio Apa tem sete netos e três bisnetos.
Especialmente durante os exílios, o marinheiro por vocação e jornalista por opção escreveu 22 livros publicados. Romances, peças de teatro, ensaios. É um homem inquieto. Nem quando deixou a vida inconstante de jornalista e assumiu um cargo público no Serviço de Valorização do Litoral do Estado do Paraná, entre o final da década de 70 e início da de 80, Rio Apa sossegou. Iniciou uma cruzada para organizar as comunidades de pescadores a fim de eliminar intermediários na venda do produto. “Alguém não gostou e me tiraram do cargo. Me aposentaram pela Procuradoria do Estado”, conta.
Em 1986, teve início um nova fase na vida de Rio Apa. Foi quando se fixou na praia da Pinheira, baía quase perfeita, simétrica como uma ferradura. Aposentado, adotou o lugar. Mas a mosquinha da liberdade não lhe saiu da cabeça. Até hoje está lá.
A vida em Santa Catarina aproximou-o de outras pessoas que buscavam no local uma vida alternativa à das grandes cidades. E o agora já velho Rio Apa nunca as rechaçou. Pelo contrário. É dele parte de uma área verde entre os morros da Pinheira e da Guarda conhecida como Vale da Utopia. O nome foi dado por uma mulher, presença constante entre os alternativos que acampam no local. No vale circundado pelos morros e por uma prainha vivem dois moradores fixos: Vilmar e Fumaça.
Conheci Fumaça há uns 12 anos. Acho que todos os jovens que iam à Praia da Guarda naquela época o conheciam. Figura icônica. Negro, magro, cabelo rastafári, dentes dianteiros afastados. Um de meus amigos, por lá em uma vibe surf-sexo-maconha-ácido passou um fim-de-semana a segui-lo pelas trilhas entre a praia e o vale. Atrás do Fú, em fila Indiana, ia uma trupe de outros jovens. Como que magnetizados por ele. Até hoje, chegam ao local pessoas de todas as partes do Brasil: “É aqui que mora o Fumaça?”. Fumaça, me contaram, hoje não fuma nem erva orgânica. Está purificado. Pratica Yoga, é vegetariano e alimenta-se em grande parte com porções doadas pelos alternativos que acampam no vale.
Nunca vi Vilmar. Rio Apa o descreve como um homem inteligente, mas um pouco prejudicado pelo chá de cogumelo. Vive em conjunção com a natureza. É o único que consegue montar no cavalo branco que vive no vale. Monta em pelo, sem sela e sem rédeas. Batizou o animal com o nome de Pé de Pano. Graças a Pé de Pano e a alguns bovinos, o vale tem uma vegetação bastante rasteira. Ótima para acampar.
Rio Apa nunca se incomodou com a presença de Fumaça, Vilmar e de visitantes em seu terreno (no período de verão, as barracas se aproximam de 50). Pelo contrário: quer formalizar juridicamente a autorização para que vivam ali. Sonha mesmo em um dia ver funcionar no local uma comunidade alternativa solidária e auto-sustentável. Esse é, aliás, um assunto que o interessa.
Nos últimos 10 anos, por influência de amigos, Rio Apa participou de cinco edições do Encontro Nacional de Comunidades Alternativas (Enca). O Enca é um evento anual itinerante, com um quê de reunião secreta. Os organizadores não gostam muito de divulgação, fotos na internet etc. Participam desde veganos de todas as linhagens até praticantes de religiões baseadas na ayahuasca. Gente espiritualizada em busca de paz, amor, liberdade. Tudo a ver com Rio Apa que, como produtor teatral, encenava em Florianópolis a dolorida Paixão de Cristo, evento que reunia milhares de pessoas durante a semana santa.
Difícil para os participantes do Enca é não notar sua presença nos encontros. Acompanhado muitas vezes de amigos jovens, ele atravessou o Brasil com um motorhome para chegar aos locais de confraternização. Foi em uma dessas oportunidades que se aproximou das ideias anarquistas (e de grupos punks). Que, segundo ele, são nada mais do que a expressão do estado de espírito no qual ele sempre viveu. Daí a estudar o assunto e elaborar uma visão pessoal sobre o movimento foi rápido. Tanto que, nos últimos Encas que participou, deu palestras sobre a teoria batizada por ele mesmo de Anarquismo Próprio.
Melhor deixar Rio Apa mesmo explicar: “Desde que vivemos a vida representando, representar-se como anarquista é uma solução para o próprio Anarquismo. Porque no fundo o Anarquismo é um organismo que tem seus líderes, donos da verdade. E isso já é um Anti-Anarquismo”. Não entendeu? Melhor comprar o livro O Homem-Ator, do próprio W. Rio Apa.
Verdade, ainda não tinha mencionado o “W”. “W” de Wilson: Wilson Rio Apa. Mas apenas Apa ou Rio Apa para os íntimos. Não se trata de nenhum nome inventado, fruto de numerologia, misticismo ou religião - como bom anarquista seu portador não gosta dessas coisas. É apenas um sobrenome sonoro. E quanto! Além de ter uma história interessante por trás, para a qual Rio Apa não parece dar muita importância. “Meu avô foi para a Guerra do Paraguai, fez qualquer coisa importante lá pelas bandas do rio de nome Apa e, como comandante que era, ganhou do imperador o nome”.
A proximidade com ideias anarquistas e o histórico como jornalista foram o impulso que Rio Apa, o neto, precisou para lançar, em 1989, o fanzine ClãDestino. Distribuída por correio, a publicação se tornou famosa entre alternativos e anarquistas de todo o país. Trazia poesias, histórias em quadrinhos e ilustrações. E matérias com títulos como “Barricada Libertária”, “Cuidados em Caso de Repressão Policial em Manifestações”, “Agressões Militares do Governo dos Estados Unidos Contra os Povos da América Latina”, “Não Trabalhe, a Não ser Criativamente”.
Uma das últimas aventuras de Rio Apa foi ir a um encontro semelhante aos Encas brasileiros, mas realizado na Argentina. Foi acompanhado de quatro mulheres, a mais jovem com mais ou menos um terço da sua idade. A reportagem relatando a experiência no ClãDestino, sob o título “Seis Fêmeas e um Varão”, começou assim: “Saímos apertados de Floripa no motorhome - três beliches e duas poltronas, sendo que duas alternativas tiveram que dormir no estreito corredor, onde foram pisadas nas quatro descidas do varão pro seu pipi na madrugada. Comida? Tudo cru e no acampamento de ‘los Hermanos’, sem nenhum tempero, gosto de isopor, mas comendo com um sorriso amarelo...”.
Isso foi há dois anos e meio. Desde então, Rio Apa não foi mais aos encontros alternativos. Acha que os nacionais viraram muita curtição e pouca reflexão. Também faz dois anos que não sai uma nova edição do ClãDestino, embora a velha máquina de escrever Remington 25 continue a postos no quarto. O editor revela uma certa decepção com a baixa adesão a suas ideias anarquistas.
Antes de eu ir embora, Rio Apa faz questão de me dar sete exemplares de seu fanzine e oito títulos de sua autoria. Folheio, folheio os jornais e os livros, mas ainda assim não consigo ligar os textos viscerais ao senhor tranquilo e de fala lenta e rouca que conta suas histórias junto ao mar. Só soluciono o impasse devaneando; imagino agora um novo Rio Apa, que não é nem o que conheci e nem o que seus escritos e relatos revelam.
7/3/2010
Fonte: ViaPolítica/O autor
Ojornalista e videomaker Sebastião Ribeiro, que assina esta produção exclusiva para ViaPolítica, dirige a Cartola – Agência de Conteúdo, em Porto Alegre.
O vídeo e a reportagem “W. Rio Apa: O marujo do Vale da Utopia” podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citados o autor e as fontes.
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