| Mensagem do Ministério
Público
Ricardo Vaz Seelig
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Procurador de Justiça
Ministério Público do Estado do Rio Grande do
Sul
Quando o Ministério Público do
Estado do Rio Grande do Sul passou a desempenhar a missão
constitucional que lhe foi conferida, de zelar pela proteção
do patrimônio histórico e cultural, entendeu
que o cumprimento desse comando não deveria se limitar
a tão somente estabelecer demandas em caso de ofensa
aos bens que lhe foram confiados, mas também empenhar-se
na implantação de projetos que visassem a proporcionar
a integração dos diversos meios sociais no seu
conhecimento, respeito e proteção.
Com este objetivo, o Ministério Público, através
de seus diversos canais de atuação, tem dedicado
seus melhores esforços, não na constituição
de um mero e estéril repositório de memórias
e reminiscências do passado, mas na consecução
deste verdadeiro fundamento da cidadania, apoiando ações
culturais voltadas ao estudo e à divulgação
desse patrimônio, como é o caso da obra Os
Caminhos de Garibaldi na América, que ora ajudamos
a organizar.
Ao assinalarmos, neste ano de 2007, o bicentenário
de Giuseppe Garibaldi, alvitramos reunir eminentes estudiosos
para refletir sobre a biografia de um dos mais importantes
personagens da história universal, tentando compor,
no mosaico multifacetado de sua atuação no Velho
e no Novo Mundo, um retrato inteligível não
só de seu caráter, mas de sua trajetória
de jovem aventureiro a grande estadista, responsável
pela unificação italiana.
O estudo dos fatos históricos leva-nos à conclusão
de que é impossível estabelecer os fundamentos
do que poder-se-ia denominar de “ciência histórica”,
pois nunca conseguiremos verificar exatamente o resultado
de uma hipótese. Isso posto, poderíamos supor
que, não fossem suas experiências militares no
sul do Brasil e no Uruguai, Garibaldi teria logrado materializar
os sucessos que veio a obter em sua terra natal?
Giuseppe Garibaldi teve enorme projeção na opinião
dos povos quando sua vida foi retratada pelo escritor Alexandre
Dumas, autor de clássicos como O Conde de Monte
Cristo e Os Três Mosqueteiros. Sua vida, tal como
contada, teria sido uma ficção? Ora, o problema
da ficção é que ela faz sentido, ao contrário
da realidade — esta, sob a perspectiva humana, pelo
menos, não faz sentido algum. Como diria Aldous Huxley,
no seu romance outonal O Gênio e a Deusa, o
critério da realidade é a sua incongruência
intrínseca. Sob esse enfoque, quanto “mais real”
a ficção, menos verossímil será.
Como os grandes personagens da História, a figura do
“herói de dois mundos” ora é mitificada,
ora vilipendiada. Sua imagem foi apropriada por diversos segmentos
e matizes ideológicos, da esquerda à direita,
e em diversos momentos históricos, desde a propaganda
política do Partido Republicano, no Rio Grande do Sul,
ao fascismo de Mussolini, por exemplo.
Daí a importância da presente publicação,
onde a contribuição dos historiadores e pesquisadores
que se debruçaram sobre esse grande personagem é
inestimável e significativa para o estudo dos seus
“caminhos”.
Em seu ensaio Garibaldi: republicano e revolucionário
internacional, por exemplo, a pesquisadora Carmen Lícia
Palazzo observa que não obstante, na chamada História
Cultural, o estudo e a escrita dos acontecimentos não
se façam mais em torno de relatos factuais ou de biografias
de grandes personalidades, tais paradigmas não excluem
o interesse por personalidades que, como Garibaldi, merecem
figurar como objeto de estudo por que muito acrescentaram
ao conhecimento histórico.
Neste diapasão, portanto, destaca-se a importância
desta obra, que se inscreve em um projeto com diversificada
agenda de eventos, exposições, espetáculos
artísticos, concursos escolares, tanto na América
como na Europa.
Esperamos, pois, ao somar os nossos esforços aos das
demais instituições participantes dessa ampla
agenda internacional, contribuir, através do estímulo
ao pensamento crítico e ao resgate histórico,
manter aberto um importante espaço de reflexão
sobre a história e a cultura européia e sul-americana.
Se este for o resultado desta iniciativa cultural –
valorizar uma das mais emocionantes epopéias da história
da humanidade – , então teremos alcançado
nosso objetivo. |