| Palavra dos editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
___________________________________________________
Jornalistas e editores
O desafio de editar uma obra sobre a atribulada trajetória
de Giuseppe Garibaldi, nos marcos do bicentenário de
seu nascimento, facilmente poderia nos levar a um labirinto.
O motivo, como logo constatamos, é a vasta, polêmica,
e muitas vezes contraditória contribuição
legada à história européia e de nossa
terra pelo general da unificação e da independência
nacional italiana.
Hoje, passados 200 anos de seu nascimento, em 4 de julho de
1807, ainda ecoam por aqui as controvérsias e paixões
que cercaram seu nome, desde que, ainda jovem, desembarcou
no Rio de Janeiro, aliou-se aos farroupilhas, no Rio Grande
do Sul, em 1836, e participou, posteriormente, das lutas do
cerco a Montevidéu, na Guerra Grande. Somente após
seu retorno ao cenário italiano, alcançaria,
entretanto, o direito à eternidade da História
como cidadão e internacionalista, ao sacudir os alicerces
da ordem política européia.
Em novembro de 2005, uma visita à Itália, com
o fim de participar de um evento investigativo promovido pela
Fundação Casa América, em Gênova,
sobre a contribuição de Giuseppe Mazzini, o
ideólogo do Ressurgimento, cujo pensamento político
e libertário guiou Giuseppe Garibaldi, abriu-nos os
olhos para uma questão relevante. As jornadas de Garibaldi,
tanto no sul do Brasil e no Uruguai, como no Atlântico
e no Rio da Prata, ainda não foram suficientemente
analisadas pelos especialistas europeus. De certo modo, nos
círculos de estudos garibaldinos, permanece a visão
de que não passaram de incursões românticas,
sem grandes conseqüências.
Alguns dos importantes pesquisadores, que encontramos durante
o simpósio genovês, incentivaram-nos a realizar
a tarefa editorial que idealizávamos, em busca de respostas
às lacunas existentes nas várias facetas da
obra do herói e de suas relações com
nosso passado. As mais notáveis, segundo eles, estariam
localizadas na primeira passagem de Garibaldi pela América
do Sul, período marcante de amadurecimento do jovem
marinheiro, militante republicano, quando aqui aportou, condenado
à morte por suas atividades subversivas.
Decidimos, então, por uma clivagem que demarcasse sua
biografia, protagonismo social e mito, tendo como alvo principal
o nosso próprio espaço histórico e geográfico,
o Cone Sul da América Latina. Assim, como resultado
de uma extensa articulação de âmbito internacional
à qual nos integramos, foi possível identificar
e reunir autores italianos e brasileiros com visões
diferenciadas, que se dispuseram a contribuir com novos contrastes
e interpretações relacionados a essa etapa da
vida de Garibaldi.
Entre os autores italianos participantes deste trabalho coletivo,
o Prof. Dr. Pietro Rinaldo Fanesi, da Universidade de Camerino,
ao abordar o mito de Garibaldi, sua formação
e representações no Cone Sul, na época
do centenário de seu nascimento, indaga se ele teria
contribuído para a construção de uma
identidade nacional entre os imigrantes italianos da região
ou se, ao contrário, simbolizaria exatamente uma comunidade
dividida.
Já a pesquisadora italiana radicada no Brasil, Maria
Pace Chiavari, do Instituto Italiano de Cultura do Rio de
Janeiro, descreve o cenário que Garibaldi encontrou
ao desembarcar no Rio de Janeiro, sua porta de entrada para
o Brasil, que lhe proporcionou as condições
para a integração aos movimentos políticos
e sociais que se desenvolviam no país naquele período.
A Profa. Dra. Anna Maria Lazzarino Del Grosso, da Faculdade
de Ciência Política da Universidade de Gênova,
por sua vez, analisa a experiência de Garibaldi na América
Latina sob o ponto de vista de um fértil aprendizado
como combatente e líder, e de amadurecimento de nobres
valores morais, democráticos e cosmopolitas.
No grupo de pesquisadores brasileiros, Carmen Lícia
Palazzo, Doutora em História, apresenta uma visão
global sobre o personagem Garibaldi como sujeito histórico
republicano, associado à Jovem Itália, e comprometido
com o ideal revolucionário de liberdade para todos
que caracterizou o seu tempo. No âmbito do Rio Grande
do Sul, a Profa. Dra. Núncia Santoro de Constantino,
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul, desenvolve uma abordagem centrada nas diversas representações
do personagem ao longo do tempo, e do uso que delas fizeram
as comunidades italianas emigradas em seu processo de construção
identitária, em busca de novas raízes sociais,
econômicas e culturais.
A densidade social que adquire o mito de Garibaldi na época
das celebrações pelo centenário da Revolução
Farroupilha é objeto do estudo elaborado pela socióloga
Rosemary Fritsch Brum, Doutora em História do Brasil.
O culto a Garibaldi e os sucessivos relatos de sua atuação
no irredentismo farrapo é discutido também pelos
historiadores Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto,
do Memorial do Ministério Público gaúcho.
Por fim, a escritora e pesquisadora paulista Yvonne Capuano
revisita o percurso garibaldino no Continente, desde sua chegada
ao Rio de Janeiro até a partida de Anita e dos filhos
de Montevidéu para a Itália, seguida do retorno
de Garibaldi à pátria, após as heróicas
porfias em terras uruguaias.
Em seu conjunto, a leitura deste diversificado painel de textos
reforça a idéia de que a fama de Garibaldi,
assim como a de outros tantos personagens da história
universal, esteve sujeita a conveniências de governos,
partidárias ou ideológicas, muitas vezes manipulada
por grupos interessados em alcançar certa coesão
social e política por meio da atração
das comunidades originadas da Itália. Nesse sentido,
cabe observar que a apropriação do herói,
através do tempo, não é um processo pacífico.
Ocorre, sim, mas em meio a contradições que
envolvem governantes, ideólogos, líderes da
igreja, maçonaria, imprensa, intelectuais e dirigentes
comunitários.
Tudo isso aumenta a convicção dos organizadores,
patrocinadores e apoiadores desta edição de
que é preciso aprofundar o conhecimento sobre o passado
e as ligações entre os povos e as culturas.
Com este objetivo, associaram-se à presente iniciativa
cultural a empresa Souza Cruz e o Banco do Estado do Rio Grande
do Sul, que, com o apoio da Lei Federal de Incentivo à
Cultura, do Ministério da Cultura, viabilizaram a concretização
de um projeto gestado em conjunto por italianos e brasileiros
desde 2005, mais uma vez em profícua parceria com o
Ministério Público do Estado do Rio Grande do
Sul e com a Assembléia Legislativa gaúcha.
Como editores, estamos conscientes de que muitas interrogações
acerca de Giuseppe Garibaldi não encontrarão
respostas definitivas aqui. Permanecerão como silêncio,
em segredo, até que alguém as desvende. O desafio
fabuloso lançado por Giuseppe Garibaldi aos historiadores,
porém, nunca ficará ultrapassado. Isso nos traz
uma única certeza definitiva: outras iniciativas como
esta deverão se repetir ao longo do tempo, sem que
se esgote a multiplicidade do debate e das interpretações
a cada nova revelação. |