| Apresentação
Roberto Speciale
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Presidente da Fundação Casa América,
Gênova, Itália
Chegamos a 2007, bicentenário do nascimento de Giuseppe
Garibaldi. Não somente na Itália, mas em muitas
cidades do mundo preparam-se encontros, publicações,
exposições e manifestações. O
propósito é recordar, como merece, uma grande
personalidade do passado, e também preservar o núcleo
fundamental de sua vida e retomá-lo na atualidade.
Acredito que a força da mensagem que Garibaldi nos
deixa ainda hoje não está somente no papel de
“libertador global” para a independência
e liberdade de todos os povos, o que é evidente, mas,
sobretudo, no modo como interpretou, mesmo que involuntariamente,
este papel. Poderemos discutir ainda por muito tempo seus
defeitos, também sua simplicidade e ingenuidade, mas
o que se impõe é sua generosidade, coragem,
lealdade e absoluta abnegação.
São justamente essas características que, em
paralelo a seus sucessos militares, permitem a difusão
da admiração por ele e até a veneração
popular como, talvez, nunca tenha acontecido com outra personalidade
da história.
Deseja-se que tais qualidades, que eram fortemente concentradas
em Garibaldi, possam ser replicadas. Aconselhar os homens
de ação e de governo que se inspirem, hoje,
mesmo parcialmente, nessas virtudes, não deveria ser
um exercício banal ou trabalho inútil. Espero,
sinceramente, que também no Brasil, e em especial no
Rio Grande do Sul, se conceda o necessário para reevocar
o seu mito e o de Anita, mas se dedique o máximo de
energia para salvar o que ainda pode falar às mentes
e aos sentimentos dos homens de hoje.
Justamente porque o mundo inteiro e, em particular, o continente
americano estão interessados nos processos de crescimento
e na gigantesca transformação econômica,
social e política, deveria ser avaliada a importância
que poderiam assumir as virtudes mencionadas antes como mais
uma alavanca de mudanças e como modelo ético
laico.
O Brasil, e depois o Uruguai, foram fundamentais para a formação
completa de Garibaldi e para suas ações futuras.
Quando chega ao Rio de Janeiro é, em essência,
um homem do mar, grande nadador, marinheiro experiente, comandante
de navios, qualidades que adquiriu ao freqüentar o mar
em Nizza* e através da família, originária
da província de Gênova, e que praticou navegando
por muitos anos no Mediterrâneo. É também
um exilado político, imbuído pelos ideais de
Mazzini, pela ânsia de liberdade, de independência,
de justiça social para a Itália e para todos
os povos.
Naquelas terras encontra a amizade de Bento Gonçalves,
de Rossetti, de Cuneo e de tantos outros, e encontra o amor.
Aprende a combater sem se deixar abater pela crueldade da
guerra, adquire prestígio e honra sem a obsessão
e o interesse pelo poder e pelo dinheiro. Permanece sendo
ele mesmo, e reforça seus ideais e sua seriedade nas
relações com os outros homens. Cria-se uma grande
simbiose entre Garibaldi e a América do Sul: uma liberdade
em espaço aberto, talvez selvagem, mas generosa e coerente.
O período do século XIX, que para nós
é o Ressurgimento italiano, redescobre a importância
da formação das nações, da independência
de qualquer opressão, da aspiração à
liberdade, não somente dos indivíduos, mas dos
povos. Porém, não se torna um nacionalismo restrito
aos seus melhores homens (como Giuseppe Mazzini) porque está
ligado a uma concepção universal de liberdade
e democracia, e antecipa o conceito supranacional, com a idéia
dos Estados Unidos da Europa. Não se limita a teorizar
sobre uma troca de classes dirigentes porque, no fundo, existe
uma idéia de solidariedade, de emancipação
do trabalho, de instrução popular e também
de uma diferente relação homem-mulher, que não
deixa inalterada a ordem social, mas que tende, mesmo que
de modo antigo, a “revolucioná-la”.
Desejo que 2007 seja a ocasião para um entrelaçamento
de relações mais estreitas e fecundas entre
a Itália e a América do Sul, entre as Nações,
mas também entre as autoridades locais, as instituições
e as fundações culturais. Tentemos imaginar
para o futuro um trabalho em comum, de reflexão, de
aprofundamento, de troca de experiências sobre temas
que atravessam o mar e que possam nos unir. |