| Introdução
Annita Garibaldi Jallet
__________________________________________________
Cientista política, bisneta de Giuseppe
e Anita Garibaldi
O mito que se formou sobre Giuseppe Garibaldi,
desde a sua juventude, chegou a nós com uma nitidez
surpreendente, duzentos anos após seu nascimento. Sua
imagem parece ter se separado de sua figura terrena, de sua
epopéia, dos locais de suas batalhas, para elevar-se
a uma dimensão supe-rior, no limite do imaterial. Enquanto
se distanciam os fatos que ligam o herói à sua
história, fazendo-o parecer antigo, Garibaldi levanta,
levita, torna-se pura imagem. Representa ainda valores e esperanças,
além dos limites de sua obra, de seu tempo, de seu
espaço. Talvez não seja o único que ingressou
no panteão da imortalidade, ao qual poucos tiveram
acesso.
Sem dúvida, suas façanhas foram grandiosas.
Entretanto, essa consciência ainda não é
suficiente para explicar o caráter duradouro de seu
fascínio e universal de sua fama.
Tentarei apresentar uma explicação ousada: o
mito praticamente se desmaterializou. O século dos
ressurgimentos nacionais e a própria unificação
da Itália passam para um segundo plano. “Garibaldi”
torna-se o nome de um fato que não é mais história,
não é mais lugar, é valor. É valor
positivo. Não existe nada de obscuro neste herói.
O cavalo é branco, a capa é vermelha ou de cores
vivas, a barba é castanho claro, o olhar é nítido.
Tudo nele é equilibrado. Com sua voz suave, ele toma
todos os cuidados. Este guerreiro inspira um sentimento de
paz. Em torno dele, não é o grito dos feridos
e dos mortos que se eleva, mas o canto de seu lamento pelos
amigos perdidos. Pede algo, mas não é para ele:
quer melhor tratamento para seus companheiros e que os mártires
sejam lembrados. Parece que o sonho nunca morre neste homem,
a quem não faltaram sofrimentos e desilusões.
O adolescente que queria ser um homem do mar está presente
naquele que construiu seu reino em uma ilha, onde se refugiou
nos anos de repouso e de onde contemplou, com igual amor,
a natureza, o céu e o universo que nunca o desiludiram,
fiéis ao marinheiro. Parece que a vida nunca o ofendeu,
nunca o feriu.
Assim o mito o devolve. Sabemos que a história foi
diferente. Muitas vezes tudo lhe foi tirado: a glória,
o amor, a paz. E também a integridade do corpo,
coberto de feridas, dolorido pelos males de uma vida difícil,
sem teto, sem boas roupas e alimentação suficiente.
Mas em sua alma permaneceu adolescente, tal como entrara na
vida e como a sonhara. Este traço de seu caráter
foi bem apresentado por Elio Vittorini, que descreve Caprera
como o sonho de uma criança, em uma Sardenha que é
como a infância. Aquela infância que escolheu
para si e para os seus se encontra nas terras antigas, nos
restos de velhas civilizações, nas plantas rudes,
robustas, que resistiram a todos os ventos, no jardim cuidado
palmo a palmo, nas plantas amadas, nos animais amigos com
os quais conversa, e que respondem em uma língua que
somente eles conhecem. Uma infância fixada, também,
à eternidade.
Uma outra dimensão de Garibaldi é a territorial.
Naqueles tempos onde as distâncias do mundo eram ainda
muito grandes em relação às poucas possibilidades
do homem de contê-las em seus desenhos, Garibaldi tem
um grande domínio do mar, tanto que o faz seu, ou mais:
usa-o como instrumento para conquistar o mundo. Depois do
Mediterrâneo, na juventude, depois do Atlântico,
nos anos da América Latina, o encontramos no Pacífico
e nos mares da Ásia. Sua presença, tanto como
capitão de navios mercantes ou de guerra, transforma
cada viagem em um episódio de sua lenda. Independentemente
da importância do território onde estivesse,
era ele mesmo em qualquer lugar.
Era quase Sandokan, ou melhor, Sandokan era quase ele.
Sua história o vincula para sempre à unificação
da Itália. Mas foi ele, de fato, um herói italiano?
Se tivesse sido um italiano antes de tudo – um lígure,
um toscano, um vêneto, um napolitano – teria assumido
as características e os limites de cada uma dessas
culturas. Ao contrário, era ligado a um sonho chamado
Itália, que via unida na sua história –
herdeira de Roma – e nos seus aspectos, circundada totalmente
pelo mar e pela cadeia dos Alpes. Uma visão que tinha
pouco em comum com a dos italianos tão diferentes entre
si. Foi essa visão que levou adiante um projeto que
nenhuma das partes da Itália teria conseguido realizar
para as outras, e que nenhum italiano – lígure,
toscano, vêneto, napolitano – teria conseguido
concluir.
Reuniu o melhor de tudo que havia visto: o mundo oriental
o tinha marcado profundamente, mas não o deteve. A
longa permanência em Constantinopla poderia tê-lo
seduzido e aculturado. Obrigado a se exilar, preferiu outros
horizontes. As comunidades de exilados que viviam na América
Latina o aproximaram de seu desenho de unificação
da Itália. Ali começou o combate (Revolução
Farroupilha), ali formou a Legião Italiana (Montevidéu)
e tornou-se general (Sant’Antonio). Daquela experiência
trouxe o método revolucionário que permitiu
que vencesse, na Itália, um inimigo que estava, ao
contrário, ancorado ao território. Tinha, sim,
lido Bianco di Saint Jorioz, e também o comentário
de Giuseppe Mazzini sobre a guerra de pequenos grupos, mas,
sem a aplicação prática e empírica
que fez nos campos de batalha da América Latina, nunca
teria tido tal domínio sobre o território italiano.
Nós nos perguntamos por que tantos heróis sul-americanos
se inspiraram em Giuseppe Garibaldi. Na realidade, ele era
mais estrangeiro na Itália do que na América
Latina, onde viveu 14 anos, enquanto nunca vivera na Itália,
senão em breves ocasiões na Ligúria.
Era justamente aquele ser “outro” que o fazia
impor-se sobre aqueles que não sabiam levantar o olhar
para outros céus. É necessário considerar
também que, tendo permanecido por um longo tempo em
Istambul, depois em Montevidéu, tinha uma idéia
muito precisa das relações de força entre
as grandes potências presentes no mar e na cena internacional.
Essa bagagem de conhecimentos compreendidos entre o instintivo,
o experimental e o adquirido é um valor raro, imenso.
A humanidade reconhece os homens que o possuem. Considera-os
como faróis na noite escura do seu caminho. Estes trazem
confiança e esperança. A lenda se expande, por
essas características, até para lugares onde
Garibaldi nunca esteve. Sua existência, freqüentemente
vivida de forma impulsiva, foi na realidade uma obra-prima
de coerência. Ele era um homem simples, nos modos e
no pensamento. Não exercitou o que normalmente se chama
poder. Mas foi o guia dos homens e dos povos que muitos ainda
gostariam de ter.
Não nos perguntemos o porquê. Existem, na vida
e no homem, muitas faixas de mistério. Garibaldi quis
que o seu pairasse no coração de uma pequena
ilha, refúgio de perfumes e de cores, em um oceano
de beleza, em meio ao mar e ao vento, inalcançável.
O mar ocupa uma superfície do globo sem descontinuidade,
ao contrário da terra. Se não é possível
explicar o caso Garibaldi, recorrendo-se a uma comparação,
tentemos esta: Garibaldi é o mar. |