Imprimir
Home
 
Mensagem do Ministério Público
Mauro Henrique Renner
 
Mensagem do Ministério Público
Ricardo Vaz Seelig
 
Palavra dos Editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
 
Apresentação
Roberto Speciale
 
Introdução
Annita Garibaldi Jallet
 
O mito de Garibaldi: origem e significados no Cone Sul até 1907, ano do centenário de seu nascimento
Pietro Rinaldo Fanesi
 
Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para a América Latina
Maria Pace Chiavari
 
O “aprendizado” de Garibaldi na América Latina: a “scuola delle palle” e a “escola moral”
Anna Maria Lazzarino Del Grosso
 
Garibaldi: republicano e revolucionário internacional
Carmen Lícia Palazzo
 
Memória de Garibaldi e a construção da identidade entre italianos no
Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
 
A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário da Revolução Farroupilha
Rosemary Fritsch Brum
 
Garibaldi: a gênese do mito
Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
 
Garibaldi na América do Sul
Yvonne Capuano
 
Livro Completo
 
 
 
Patrocinio Cultural:
 
 
 
 
 
 
 
 
 

O mito de Garibaldi: origem
e significados no Cone Sul até 1907,
ano do centenário de seu nascimento


Pietro Rinaldo Fanesi
____________________________________________________

Historiador e pesquisador, é colaborador da Cátedra de História
e Instituições da América, da Universidade de Camerino, Itália



As raízes do mito garibaldino

Nesta oportunidade, o objetivo é compreender o quanto o mito de Garibaldi contribuiu para a construção de uma identidade nacional entre as comunidades italianas nos países do Cone Sul ou se, ao contrário, este foi o elemento que caracterizou uma identidade “dividida”, um reconhecimento de uma idéia de Pátria que nem sempre conseguia ter valor para todas as camadas sociais e representações político-econômicas.

As linhas mestras deste trabalho retomam as celebrações dos “aniversários” garibaldinos – entre o fim de 1800 e o início de 1900 – no Brasil, Argentina e Uruguai, e o impacto que essas têm nas comunidades ítalo-americanas e nas sociedades locais, com atenção especial à dialética entre “laicos” e católicos, republicanos e monarquistas, que, aos poucos, se instaurou em torno do “uso político” da figura de Giuseppe Garibaldi.

Neste sentido, de fato, é quase impossível não considerar uma ambigüidade estrutural ligada à utilização do mito garibaldino, que se prestou, por mais de um século, a um “duplo uso” apoiado no binômio patriotismo-italianidade: um Garibaldi certamente maçom, anticlerical, democrático e populista, internacionalista, mas também “pai da pátria” (especialmente a partir dos primeiros anos de 1900) e, em alguns casos, “consagrado” não somente pelo componente laico da sociedade.

A propósito da questão mencionada, da identidade “dividida”, vale a pena citar uma passagem que se aplica à Argentina:

No una sino dos comunidades en Buenos Aires, con una miriada de instituciones y con sus simbolos contrapuestos. En los ambitos monarquicos flameaba la bandera de la casa de Savoia, se tocaba la Marcha Real y se commemoraban con celebraciones el aniversario del Estatuto albertino y el dia del nacimiento de Vittorio Emanuele. En los republicanos, en cambio flameaba la bandera tricolor, resonaba el himno a Garibaldi y se realizaban celebraciones en recuerdo de los cinco jornadas milanesas y los aniversarios de Garibaldi y Mazzini.”1

Este comportamento não vale somente para a comunidade italiana da capital argentina, mas é encontrado em quase todas as cidades dos países do Cone Sul, onde as comunidades apresentavam um pluralismo social, ideológico e regional, correspondente às características dos diversos fluxos imigratórios. Especialmente nessa área do continente latino-americano, a figura de Garibaldi assumia uma função peculiar, eivada de momentos de exaltação, mas também de críticas. De fato, as façanhas da guerra civil pratense, a chamada Guerra Grande, e a participação direta de Garibaldi e dos italianos que chegaram ao Uruguai desde a primeira metade de 1800, contribuíram muito para movimentar por décadas um debate político, por exemplo, entre as duas principais formações políticas da Banda Oriental, os colorados e os blancos, onde os primeiros viam em Garibaldi o chefe da “Legião italiana”, o herói da Defensa e da batalha de San Antonio do Salto, e, os segundos, somente como um mercenário que tinha se inserido arbitrariamente em uma guerra “não sua”.2

A mesma polêmica atinge a comunidade ítalo-argentina e a sociedade local, mesmo que por uma perspectiva diferente, dada a ausência física, aqui, de Garibaldi. Entretanto, as agremiações reunidas em torno da corrente democrática, de um lado, e dos setores mais conservadores do outro, diferenciaram-se, como será possível averiguar sobre o juízo histórico-político da figura de Giuseppe Garibaldi.

O caso do Brasil não se apresenta muito diferente, pelo menos nos estados meridionais do país, mesmo que, em honra da verdade, o mito garibaldino – e o de Anita (Ana Maria de Jesus Ribeiro) – mantenha no tempo um valor “único”, de grande consenso popular, seja entre as comunidades de italianos emigrados, ou entre a sociedade local, como uma longa onda que atravessa os séculos. Não faltaram alguns momentos, porém, onde as tensões se aguçaram em torno da interpretação da figura de Garibaldi. O fenômeno parece mais limitado do que os casos apenas citados dos países pratenses, e, quando se verificam momentos de tensão no interior da comunidade ítalo-brasileira e da sociedade local, estes são caracterizados pelo enfrentamento, geralmente entre laicos e católicos.

Na realidade, a “questão garibaldina” parece restrita às zonas onde foi mais consistente a imigração italiana, especialmente a vêneta, grande matriz católico-conservadora, como a área de Caxias do Sul. Aqui, a figura de Garibaldi será aos poucos objeto de um confronto político-cultural – como veremos a seguir – com repercussões que chegam até os tempos mais recentes. De fato, em 2002, por exemplo, em um semanário de cunho católico, de Caxias do Sul, constam cinco longos artigos que narram as façanhas de Garibaldi no Rio Grande do Sul e no Uruguai, mas com evidente tom crítico ao seu comportamento, excessivamente violento, durante a Revolução Farroupilha e no Uruguai.3

Antes disso, por exemplo, durante as comemorações de 1982, em um jornal de grande tiragem de Porto Alegre, a Zero Hora, entre muitos aspectos enfáticos e retóricos, lê-se também uma notável crítica ao comportamento dos ingleses e dos italianos em Londres, um autêntico delírio popular, durante a visita de Garibaldi à cidade britânica, incomodando, na ocasião, de maneira instrumental, até Marx: “[…] ‘Um miserável espetáculo de imbecilidade’ escreveu Karl Marx sobre a acolhida que Giuseppe Garibaldi recebeu em 1868, quando, convidado por amigos, visitou Londres.”4

_____________________________________________________________

1 F.J. Devoto, Inventando a los Italianos? Imagen de los primeros inmigrantes en Buenos Aires (1810-1880), em “Annuario do IHES”. Tandil: VII, 1992, p. 133.

2 A propósito, para o Uruguai, além do datado mas importante trabalho de C.M. Rama, Garibaldi y el Uruguay. Montevidéu: Ediciones Nuestro Tempo, 1968 (útil também pela rica bibliografia “garibaldina”), veja-se ainda J.A. Oddone, Italians in Uruguay: Political Participation and Country Consolidation during Mass Immigration, in Aa.Vv:, The Colombus People. Perspectives in Italian Inmigration to the America and Australia. New York: Center for Migration Studies, 1994, p. 210-228 e C. Zubillaga, Religiosità, devozione popolare e immigrazione italiana in Uruguay, em Aa.Vv., L’emigrazione italiana e la formazione dell’Uruguay moderno. Torino: Edizioni della Fondazione Giovanni Agnelli, 1993, p. 121-170. Aqui quer-se fazer menção também a alguns trabalhos como S. Candido, Giuseppe Garibaldi nel Rio della Plata (1841-1848), Firenze, 1972 e R. Ugolini, Garibaldi. Genesi di un mito, Roma: Edizioni dell’Ateneo, 1982, também A. Corneli, Giuseppe Garibaldi nell’Uruguay, Comitato pro casa di Garibaldi in Montevideo, Buenos Aires, 1951. Além disso, é de especial interesse o periódico anual Garibaldi, editado desde 1986 pela “Asociacion cultural Garibaldina” de Montevidéu, como tentativa, além de alguns trabalhos de cunho retórico, de traçar um balanço crítico da historiografia garibaldina.

3 “Correio Riograndense”, 7-14-21-28 de agosto e 4 de setembro de 2002, artigos de Moacyr Flores, Giuseppe Garibaldi. Herói de Dois Mundos.

4 “Zero Hora”, 11 de junho de 1982, encarte dedicado a Garibaldi, p. 10.

____________________________________________________________



Agora, é preferível remeter a outros trabalhos apresentados aqui – e à ampla bibliografia existente5 – as narrações das façanhas que envolveram Garibaldi no Brasil, em especial por sua participação na Revolução Farroupilha. É útil, porém, no final do presente trabalho, mencionar que, nas instâncias de independência em bases republicanas representadas pelas ações de Bento Gonçalves, inserem-se idéias mazzinianas devido à presença, naquela zona meridional do Brasil, de exilados como Livio Zambeccari, Luigi Rossetti e Francesco Anzani e, mais tarde, na segunda metade dos anos 1830, de Giuseppe Garibaldi. De fato, para tentar analisar o humus político e cultural de onde se origina o mito garibaldino na América Latina, não pode-se deixar de levar em consideração o ambiente rio-grandense, e sucessivamente o uruguaio, deixando, por enquanto, como pano de fundo, a Argentina.

Mas, antes mesmo de ver as marcas deixadas por Garibaldi no Rio Grande do Sul, é importante citar sua atividade no Rio de Janeiro e as possíveis motivações que alimentaram o seu mito desde o início, e para sempre. Antes de tudo, é necessário evidenciar que, quando Garibaldi atraca na costa brasileira, mais precisamente no Rio de Janeiro, no final de 1835, tenta logo unir-se ao mundo dos exilados do Risorgimento. O seu primeiro contato “político”, em especial, será com Giuseppe Stefano Grondona, lígure, no Rio de Janeiro desde 1815, apreciador do pensamento mazziniano e, de certa maneira, ligado com os círculos de Marselha, porto de onde Garibaldi embarcou para o Brasil. Garibaldi traz para Grondona, desejoso de receber as publicações mais recentes, as “Instruções gerais” da Giovine Europa e o último fascículo da Giovine Italia.

Parece que Grondona recebeu bem Garibaldi no Rio de Janeiro e que teria sido o meio para a iniciação maçônica do herói dos dois mundos em uma loja local, “Asil de la Vertud”, uma loja na realidade “irregular” e não reconhecida pelos Orientes europeus.6 Garibaldi, por sua vez, retribuirá o apreço de Grondona oferecendo-lhe a presidência da Giovine Italia do Rio, fundada em janeiro de 1836. Na realidade, a ligação entre os dois logo esfriou, enquanto que, com os outros dois exilados no Rio, estreitou uma relação que duraria por muito tempo. São eles: Luigi Rossetti, que chegou em 1827, e Giovan Battista Cuneo, que havia recém chegado ao Rio. Enquanto que o ativismo de Garibaldi era dirigido à coordenação do pequeno grupo de exilados italianos com o objetivo declarado de retornar em breve à pátria, Cuneo será mais incisivo na ação política com a fundação de uma revista, La Giovine Italia, para propagar as idéias de Mazzini entre os italianos no Brasil, a fim de predispor um núcleo de assistência à insurreição prevista na Itália.7

Essas breves considerações sobre a presença inicial de Garibaldi em terra brasileira, como motivo do presente trabalho e em relação ao nascimento do mito garibaldino, oferecem a possibilidade de compreender alguns aspectos peculiares. O mais interessante resulta na ligação maçônico-conspiradora que unia exilados italianos, como Garibaldi, Grondona e Zambeccari, a Bento Gonçalves, e que proporcionava um seguro elo de união com a classe dirigente do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Pouco se sabe dessa atividade maçônica movida pelo idealismo humanitário de caráter internacionalista e decididamente republicano, que poderia bem explicar a persistência e a valorização do mito garibaldino nas décadas sucessivas, além da retórica sobre a participação de Garibaldi na Revolução Farroupilha.

Observou-se que:

“A entrada (de Garibaldi) na Maçonaria, em outras palavras, preservou o patriotismo garibaldino do endurecimento estritamente nacional (diferentemente do que acontece com a maior parte dos protagonistas do Risorgimento, a começar por Mazzini, o termo ‘nação’ fica quase estranho à sua prosa, onde, em vez, retorna aquele de ‘povo’) ofereceu a ele uma imediata percepção, também de caráter prático, operacional, da universalidade dos objetivos que ele havia escolhido e estava perseguindo.”8

_____________________________________________________________

5 Aqui, mesmo que em síntese e com uma escolha que se espera não seja muito limitante, indica-se, além do trabalho pioneiro na Itália de S. Candido, Giuseppe Garibaldi corsaro riograndense (1837-1838), Roma: 1964, e aquele no Brasil de L. Collor, Garibaldi e a Guerra dos Farrapos. Porto Alegre: Globo, 1958, ao recente estudo de N. Santoro de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento italiano: l’azione di Garibaldi nella Rivoluzione Farroupilha e sue implicazioni, in Aa.Vv:, Il Risorgimento Italiano in America Latina, Atti del convegno internazionale di Genova del 24-25-26 novembre 2005, affinità elettive. Ancona, 2006, p. 337-347, onde se faz uma análise sobre a influência e a ação dos exilados italianos na revolução rio-grandense de 1835. Além disso, para um estudo do ambiente rio-grandense, e de Porto Alegre em especial, onde viveu, desde as origens, a comunidade dos imigrantes italianos, veja-se N. Santoro de Constantino, O italiano da esquina. Imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST, 1991.

6 A propósito da afiliação maçônica de Garibaldi no Brasil não existem documentos oficiais. Resulta, ao invés, “regular” a sua iniciação, que aconteceu em 18 de agosto de 1844, na Loja “Amis de la Patrie” de Montevidéu, de referência ao Grande Oriente da França. Para uma documentação sobre o “percurso maçônico” de Garibaldi, ver V. Gnocchini, L’Italia dei Liberi Muratori. Brevi biografie di Massoni famosi. Roma-Milão: Mimemis-Erasmo Editore, 2005, p. 139.

7 A propósito, ver S. Candido, L’azione mazziniana in Brasile ed il giornale “La Giovine Italia” di Rio de Janeiro (1836) attraverso documenti inediti o poco noti, em “Bollettino Domus”, 1968, n.2.

_____________________________________________________________

 

Deveria ser esclarecida a fundo – e não é possível neste momento – a relação entre o idealismo republicano dos “italianos” e o “republicanismo” dos “brasileiros do sul”, que assume um caráter essencialmente “emancipado” e também separatista em confronto ao establishment local, muito ligado à aristocracia do país, que se tornara independente de Portugal há pouco tempo.

Tal divagação permite ver, mesmo com alguma confusão teórica, como o retorno aos “dois republicanismos” poderia servir, naquele período, para consolidar ligações úteis, seja aos separatistas rio-grandenses, seja à comunidade dos exilados do Risorgimento italiano. Depois, será também útil encontrar as ligações ideológicas entre os diversos protagonistas da revolução rio-grandense e a posterior classe dirigente local e a comunidade italiana laico-republicana, como no caso do futuro presidente do Estado rio-grandense, Julio de Castilhos, ideólogo do Partido Republicano e seguidor de Auguste Comte. Tanto que, em um jornal italiano de Porto Alegre, é possível ler que:

“Talvez todo o pensamento de Julio de Castilhos se resume nesta breve fórmula: o pensamento de Giordano Bruno, inserido naquele outro político de Giuseppe Mazzini: permanecer na sua idéia republicana que deveria conduzir os seus compatriotas, não à redenção no céu, mas na terra.”9

Não é por acaso que o tema será sucessivamente retomado, no primeiro centenário da Revolução Farroupilha, em 1935. 10

Enfim, no que diz respeito à origem do mito garibaldino no Brasil e sua matriz de caráter popular, não pode ser ocultada a importância da relação com Anita, originária do Estado de Santa Catarina11, que serve em muitas ocasiões como ligação com a cultura popular local, para chegar, como se sabe, até os nossos dias. Em seguida, nos vários períodos, veremos quanto o uso político da companheira “brasileira” de Garibaldi pode ter sido, também, determinante, até por parte do regime de Mussolini.

É interessante observar, referindo-se ao Brasil meridional, como a presença de Garibaldi e suas famosas “façanhas”, por outro lado bem descritas em suas Memórias, nas várias biografias do herói e na vasta bibliografia que deixamos de citar, ecoam muito forte também nas décadas seguintes, e como a comunidade dos ítalo-brasileiros e a sociedade local não esqueceram o herói.12 Na década de 1870, no Rio Grande do Sul, a comunidade dos imigrantes italianos estava aumentando. Surgiram, então, diversas associações de caráter prevalentemente mutualista, em muitas cidades. Emblemático é o caso de Porto Alegre, onde, em 1877, foi fundada a “Vittorio Emanuele II”, e Garibaldi nomeado presidente honorário da sociedade, encontrando o agradecimento deste, que escreve uma carta aos “caros amigos” na qual recorda “com gratidão a hospitalidade recebida da generosa população do Rio Grande”. Observa-se que muitos sócios dessa associação eram veteranos da Revolução Farroupilha e também da Legião Italiana de Garibaldi no Uruguai.13

Conceder a Garibaldi a presidência de uma sociedade italiana será um gesto comum para muitas experiências análogas; aqui vale a pena registrar a observação de uma estudiosa rio-grandense, porque é inerente à questão da identidade da pátria:

A ‘Vittorio’ reforçou traços culturais italianos, através de símbolos, como o general Garibaldi, cujo nome já era glorificado na Itália. Torna-se a figura predileta, representado com o uniforme de general ou com o uniforme dos camisas vermelhas. O atelier fotográfico de Calegari, o mais importante de Porto Alegre, vende fotografias pintadas a óleo, multiplicando a imagem com a camisa vermelha. O quadro estará nas casas dos italianos, símbolo da patriótica italianidade, visto que finalmente têm uma pátria-mãe.”14

_____________________________________________________________

8 Conforme A.A. Mola, L’internazionalismo massonico di Giuseppe Garibaldi, em G. Cingari (aos cuidados de), Garibaldi e il socialismo. Roma-Bari: Laterza, 1984, p. 148.

9 L’Italiano, 24 de novembro de 1903, número extraordinário dedicado a Julio de Castilhos na ocasião da sua morte, em 24 de outubro de 1903. Aqui, afirma-se que Julio de Castilhos conhecia a fundo o pensamento mazziniano.

10 “Correio do Povo”, 20 de setembro de 1935, Porto Alegre, encarte para celebrar o 1° centenário da Revolução Farroupilha, artigos intitulados Os italianos na Repubblica Farroupilha e Os italianos e a Repubblica de Piratiny.


11 Interessante, a propósito, é o discurso do deputado federal Octacilio Costa, representante do Estado de Santa Catarina na Câmara dos Deputados, proNúnciado em 4 de agosto de 1949, no Congresso Nacional, em ocasião do 1° centenário da morte de Anita, citado em Anita Garibaldi. Heroina de dois mundos, Rio de Janeiro, 1949.

12 É interessante notar como, no final do século, em um momento de recuperação do mito farroupilha, várias localidades rio-grandenses receberam o nome do herói da Revolução de 1835; entre essas a ex-colônia Conde d’Eu, que passou a se chamar Garibaldi, em 31 de outubro de 1900, ainda que lá houvesse poucos italianos garibaldinos. Sobre a história dessa comunidade, ver E. Clemente-M. Ungaretti, História de Garibaldi. 1870-1993. Porto Alegre: Edipucrs, 1993.

13 N. Santoro de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento italiano, cit.,
p. 122-123.

_____________________________________________________________

É interessante ressaltar como a “transferência” de Garibaldi nos anos 1840, do sul do Brasil para o Uruguai, tenha comportado, de alguma maneira, também a sobreposição em terra uruguaia dos ideais e motivações de independência que tinham caracterizado a ação garibaldina, como se fosse um tipo de continuidade. Porém, enquanto no Rio Grande do Sul, como vimos, são poucas as vozes contrárias ao valor da figura de Garibaldi (exceto o reacender de uma forte polêmica entre laicos e católicos, no final do século, o que veremos mais tarde), no Uruguai, suas façanhas tendem a não ser universalmente reconhecidas como unificadoras da sociedade local.

Na sociedade de Montevidéu, e no Uruguai em geral, o mito de Garibaldi, seja em vida, ou mesmo após sua morte, torna-se prerrogativa quase que exclusivamente da parte colorada, permitindo, assim, à grande comunidade italiana imigrada vincular-se amplamente ao establishment político local com a afirmação de um ponto de vista laico-republicano da sociedade. Esse último aspecto, cada vez mais contestado pelos setores clérigo-conservadores, com reflexos significativos também na recente historiografia de inspiração católica e blanca, permite observar que:

“A identificação da filosofia liberalista (e das principais fontes inspiradoras do movimento anticlerical emergente) com a tradição garibaldina do partido colorado causou muitas confusões na opinião pública popular (e também naquela acadêmica). Entre essas, por exemplo, estão aquelas que identificaram as concessões sustentadas em matéria política pelo partido colorado com o ‘espírito de Garibaldi’, sem dar-se conta de que a sucessiva opção monárquica do derrotado de Mentana estava batendo de frente com o ‘igualitarismo’ republicano do qual se vangloriava o ´partido da defesa`.” 15

Para dizer a verdade, esta observação pode parecer esquemática e até distante, se não for enquadrada no contexto da dialética colorados/blancos que, não por acaso, encontra no Uruguai os seus reflexos também nas interpretações historiográficas. Sem dúvida, o ponto de origem do qual se alimenta a lenda de Garibaldi no país do Prata é pesquisado nos episódios da “Defesa de Montevidéu”, na luta dos unionistas para liberar a cidade do assédio imposto pelo “ditador” argentino Rosas e pelo blanco Oribe.

Mas, na realidade, não se deve esquecer que, nas décadas sucessivas, depois do retorno de Garibaldi à pátria, houve grande afluência de “garibaldinos” que desembarcaram no Prata, em Montevidéu, sobreviventes das lutas pela independência nacional italiana. Deve ser especialmente evidenciado o consistente fluxo de seguidores de Garibaldi que se registrou depois da derrota de Mentana (1867), com a chegada na capital uruguaia de mais de 1.700 camisas vermelhas, muitos dos quais com a própria família, consolidando assim uma ligação com os garibaldinos e com a maior parte dos italianos no Uruguai, que jamais enfraqueceu.

Essa imigração “especial” contribuiu, certamente, para revigorar, além de outros fatores, os ideais garibaldinos que sempre encontraram no Prata uma fácil articulação – sendo por sua vez influenciados – nas correntes de pensamento proto-socialistas e sansimonistas16 , e também liberais de referência maçônica.

Isso ocorre especialmente depois da metade de 1800, quando o liberalismo uruguaio tende a assumir um aspecto militante em relação ao clericalismo, desmanchando, assim, algumas ambigüidades de fundo da relação dialética entre racionalismo e liberalismo, originando, come se sabe, relevantes aspectos inovadores da legislação uruguaia que concretizam a hegemonia naquele período da cultura liberal sobre o conservadorismo clerical e também uma clara predominância do alinhamento laico-maçônico pratense que detém, talvez, uma parte da herança garibaldina.17

_____________________________________________________________

14 Idem

15 C. Zubillaga, Religiosità, devozione popolare, cit., pág. 127.

16 Para este aspecto específico, conferir C. Zubillaga, El pensamento socialista en Uruguay. La reflexion precursora, in Aa: Vv., Ensayos en homenaje al doctor Arturo Ardao. Montevidéu: Universidad de la Repubblica, 1995, p. 203-234, e também L. Fabbri Cressatti, Garibaldi y el socialismo de su tempo, em Garibaldi, a.1, 1986, p. 74-85. Enquanto para o socialismo de Garibaldi, ver G. Cingari, Garibaldi e il socialismo, cit., e L. Briguglio, Garibaldi e il socialismo. Milão: SugarCo, 1982.

17 Para uma cronologia dos aspectos mais importantes das afirmações civis do liberalismo uruguaio, conferir P. Barron, Iglesia catolica y burguesion en el Uruguay de la modernizacion (1860-1900), Montevidéu, 1988, p. 5-6.

_____________________________________________________________

“ [...] se a maçonaria uruguaia se converteu ao anti-clericalismo e se o anti-clericalismo foi um componente importante nas opções da classe política colorada, isto se deve também, e não de modo irrelevante, à luta de Garibaldi e do partido democrático contra o poder temporal em nome de Roma, capital da Itália unida.”18

Enfim, veremos alguns traços quanto à realidade argentina e às características que aqui assume o mito garibaldino enquanto o herói estava vivo. Na Argentina, e especialmente em Buenos Aires, assinala-se a presença consistente de exilados do Risorgimento, a partir das rebeliões de 1820-1821. Muitos marinheiros e mercadores estabeleceram-se no Porto do Prata e, seguramente, contribuíram para alimentar as idéias ressurgimentais entre os primeiros núcleos de imigrantes italianos e a própria sociedade portenha.

Além disso, esses personagens cuja história política é embebida de “carbonaria” e insurreição, chegavam, não por acaso, aos portos latino-americanos, considerando que isso era comum naquelas primeiras décadas de 1800, quando tomavam vida e forma as experiências iniciais republicanas revolucionárias que, freqüentemente, não se limitavam a operar nos restritos âmbitos de uma implantação passiva, mas interagiam com a já numerosa colônia italiana emigrada por motivos de trabalho na sociedade local 19, jogando as primeiras sementes de um ativismo político fervoroso que se desenvolverá mais tarde, próximo do final do século, baseado em correntes fortemente ideologizadas e caracterizadas por um republicanismo militante, socialista e também anárquico, como se verá depois.

Certamente, a realidade argentina não é aquela do Uruguai ou do Rio Grande do Sul, porque não pôde contar com a presença de Garibaldi, mas, apesar disso, a influência do pensamento de Mazzini é forte, essencialmente devido a Giovan Battista Cuneo, que exercerá “uma notável influência sobre os liberais latino-americanos da chamada Geração dos Banidos e da Geração Jovem Argentina (também conhecida como Asociación de Mayo e ponto de reunião, desde 1837, de um grupo onde eram membros Esteban Echeverria, Juan Battista Allberdi, Bartolomé Mitre e Miguel Irigoyen, ou seja, a nata da futura classe dirigente do Prata nos anos da grande enxurrada imigratória).”20

Cuneo exerce freqüentemente o papel de “protetor” intelectual das ações de Garibaldi em terras latino-americanas, e sua influência é amplamente comprovada, tanto que foi escrito que “a história das doutrinas de Mazzini em terra latino-americana foi em grande parte a história deste grande italiano no exterior.”21 E, quando também em terra argentina, as façanhas da Guerra Grande haviam terminado há tempo, e na segunda metade do século registram-se outras situações políticas e institucionais, o germe plantado muitos anos antes pelo denso trabalho de propaganda de Cuneo e dos outros mazzinianos – que, além disso, já nos anos 1870 eram bem organizados em Buenos Aires com um jornal chamado L´amico del Popolo, órgão do PRI na Argentina, já em 1879, e com um Centro Republicano Italiano22 – não tardará a propor a validade da figura de Garibaldi também aqui.

Não será por acaso – como veremos no próximo parágrafo – que, no momento da morte do “herói dos dois mundos”, em junho de 1882, nos países do Cone Sul, as celebrações e as honras fúnebres assumirão não somente características de ritual mas terão, também, um forte valor político.

_____________________________________________________________

18 G. Marocco, Sull’altra sponda del Plata. Gli italiani in Uruguay, Milão: Franco Angeli, 1986, p. 24. A propósito, para o papel desenvolvido pelos maçons italianos no Prata, ver A.F. Cabrelli, Participación de los masones italianos en la trasformación de la sociedad oriental, em Garibaldi, a.4, 1989, p. 89-110.

19 A propósito, para uma atenta análise do fenômeno imigratório italiano na Argentina durante o período do ressurgimento italiano, ver o recentíssimo trabalho de F.J. Devoto, Storia degli italiani in Argentina, Roma: Donzelli Editore, 2007, em especial o cap. I, p. 7-83. Além disso, recorda-se para a compreensão do fenômeno desta primeira emigração política do ressurgimento e a sua “contribuição” de maneira mais geral aos fatos americanos, o determinante trabalho di E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo. L’emigrazione italiana in America. 1492.1942. Milão: Arnoldo Mondadori Editore, 1995, em especial o cap. III, “Emigrazione e Risorgimento”, p. 87-140.

20 E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo, cit., p. 121.

21 Idem

22A propósito, ver P.R. Fanesi, Verso l’altra Italia. Albano Corneli e l’esilio antifascista in Argentina. Milão: Franco Angeli, 1991, p. 58.

_____________________________________________________________

A memória de Garibaldi do ano da sua morte à retórica dos aniversários “fin de siècle”

A notícia da morte de Garibaldi, ocorrida em 2 de junho de 1882, propagou-se imediatamente além-mar provocando um abalo nas comunidades de emigrados italianos, especialmente naqueles países onde o herói teve a oportunidade de deixar uma marca indestrutível com suas viagens e façanhas.

Em Buenos Aires, o anúncio da morte de Garibaldi foi dado por um jornal, em língua italiana, de inspiração republicana, La Patria Italiana, que, como em muitos artigos similares que apareceram naqueles dias nos jornais de quase todo o mundo, expressava uma profunda dor por seu desaparecimento23.

Após alguns dias, superada a fase do abalo, o mesmo jornal, além de reproduzir o grande eco do fato na imprensa argentina e os artigos de solidariedade por parte de outras numerosas associações, não somente italianas (por exemplo, o “Club Eslavo” de Buenos Aires), indica algumas iniciativas de celebração a serem desenvolvidas nos dias seguintes.

Primeiramente, a nomeação de um comitê para as honras ao herói, para o qual é indicada à presidência a figura de D. Parodi, com a participação, por direito, dos presidentes de todas as “sociedades italianas” de Buenos Aires, e “daqueles que justificassem terem feito parte da Cruzada dos Mil” (presente em Buenos Aires, Torre Torelli), depois a construção, na capital argentina, de um monumento a Garibaldi ao lado daquele de Mazzini, e, enfim, a realização das honras fúnebres com um simples ritual civil e com uma “procissão cívica”24.

De fato, o auge dessas iniciativas em Buenos Aires será o cortejo “garibaldino” cuja data é fixada para o dia 25 de junho. A manifestação é promovida e organizada pela associação “Voluntários Garibaldinos”, com o envolvimento de todas as sociedades italianas presentes na capital25. Os “garibaldinos” reúnem-se na “Stella di Roma” e “decidem formar um pelotão de 40 ex-voluntários com uniforme garibaldino, e que irão encabeçar a manifestação e serão a guarda de honra do troféu sob o arco da Recoba [onde foi montada uma espécie de câmara ardente].”26

O cortejo será acompanhado por grande parte dos italianos em Buenos Aires e os “garibaldinos” marcharão em ordem militar com as armas em punho fornecidas para a ocasião pelo exército argentino, seguidos por representantes da sociedade italiana portenha, representantes maçônicos locais27, e por simples imigrantes solidários com a figura do “seu” herói nacional, o que realçava o fato de pertencer à terra e à pátria longínqüa. Nesta ocasião, esquecem os motivos do “exílio” e também as divisões sociais, econômicas e ainda de classe deixadas na Itália.28

No que diz respeito ao Brasil, e em especial aos estados meridionais onde Garibaldi viveu e atuou, as fontes disponíveis atualmente não permitem encontrar a narrativa dos eventos verificados na ocasião de sua morte. Por outro lado, é provável que a mesma difusão na imprensa de língua italiana, ou seja, na comunidade que melhor podia assinalar o ocorrido, tenha sido posterior a 1882, especialmente no Rio Grande do Sul e em Caxias do Sul, sendo esta última um centro ativo sob este ponto de vista29.

Totalmente diferente é o registro do impacto da morte de Garibaldi na comunidade italiana e local do Uruguai. Em Montevidéu, quando, em junho de 1882, chega a notícia da morte de Garibaldi, a emoção é grande. A folha de inspiração mazziniana (em língua italiana) da capital do Prata, L´Italia (ou L‘Era Italiana), dirigida por Luis Desteffanis30 e por Joaquin Odicini, filho de Bartolomeo, o médico da Legião Italiana de Garibaldi 31, dá a notícia com poucas palavras:

“Dominados pelo mais profundo pesar, comunicamos aos nossos leitores uma dolorosa notícia que chegou esta manhã de Gênova. Ontem, 2 de junho, morreu em Caprera o General Giuseppe Garibaldi. O nosso estado de ânimo não nos permite adicionar nem mais uma palavra a esta terrível desgraça que afunda a Itália no luto. Até amanhã.”

Identifica-se o apelido “General” entre as palavras de comoção do órgão dos republicanos italianos de Montevidéu. De fato, a experiência militar de Garibaldi assume uma importância relevante na imprensa ítalo-uruguaia, e parece prevalecer – na verdade tanto antes da morte como em vida – na hereditariedade político-ideológica. Um Garibaldi “general e comandante que se também na Itália terá a sua glorificação neste sentido” 32, em terra pratense não faz somente parte do aspecto retórico do personagem, mas funciona como trait d´union com a tradição político-militar da elite do jovem Estado.

Nesta primeira fase do mito garibaldino post mortem, os italianos do Uruguai tendem a exaltar do “grande italiano” especialmente os seus dotes militares, e, fazendo isso, ligam idealmente o “seu” pai da pátria ao compromisso militar executado por ele no Prata. Da mesma forma, as autoridades políticas locais – encabeçadas pelo presidente Maximo Santos – rendem a Garibaldi “honras militares”, tanto que, em 5 de junho, acontece uma manifestação oficial em Montevidéu com um desfile de tropas uruguaias e de garibaldinos veteranos. O cortejo vai até a Real Representação da Itália, onde o conde de Brichanteau, então Regente, em uma cerimônia com a presença de todas as autoridades locais e da comunidade italiana, faz um discurso comemorativo. O próprio Santos encarrega-se de requisitar diretamente ao Senado e à Câmara dos Deputados que prestem a Garibaldi “as honras fúnebres correspondentes à mais alta insígnia hierárquica militar.”33

Nestes primeiros dias de junho, parece que toda a numerosa comunidade italiana de Montevidéu e a sociedade local se encontram, mesmo no pluralismo ideológico e cultural, unidos na dor pelo desaparecimento do herói dos dois mundos. Mas, na realidade, o fulcro das celebrações do herói girará em torno das iniciativas promovidas pela Maçonaria. E, no decorrer de uma dessas cerimônias, na loja de Garibaldi, onde tinha sido montada uma câmara ardente aberta ao público por ordem do “venerável em exercício” Bacciarini, ocorre um episódio doloroso que contribuirá para aumentar as divergências – que sempre existiram – entre os maçons e parte da comunidade religiosa local34.

Em 11 de junho de 1882, ocorrem, nas dependências da loja de Montevidéu, os funerais maçônicos em nome do herói dos dois mundos. No decorrer da cerimônia, porém, acontece um grave incêndio: no final contabilizam-se entre os participantes do rito 18 mortos, 10 feridos gravemente (entre os quais o próprio Venerável da loja, Salvatore Ingenieros), e cerca de outra centena de feridos com menor gravidade. O episódio já foi evidenciado por alguns estudiosos35, mas é interessante seguir o desenvolvimento – aspecto este inédito e não explorado – da grande polêmica posterior ao acontecimento considerado pelos maçons como criminoso e não casual.

A imprensa de Montevidéu36 logo deu a notícia do acontecimento, considerando-o um fato acidental, mas, nos dias seguintes ao incidente, torna-se objeto de uma discussão entre os católicos e os filiados das lojas do Grande Oriente, a partir do momento que L´Italia, na crônica dos funerais das vítimas, acusa abertamente os “negros” [Jesuítas] de terem provocado o incêndio.37 Naturalmente os católicos repudiam a acusação, e nas colunas de El Bien Publico de 15 de junho acusam L´Italia de fomentar possíveis represálias contra eles, com perigosas e não provadas insinuações.

Mas, se a polêmica na imprensa tende a enfraquecer-se logo, a mesma retoma vigor quando a Maçonaria autoriza (e provavelmente patrocina) a publicação de um pamphlet cujos conteúdos representam um j´accuse direcionado aos ambientes clericais mais radicais, embora, para dizer a verdade, nas conclusões – mesmo não deixando espaço à casualidade – sejam indicadas mais hipóteses: da possibilidade de um plano de furto premeditado, obra de “um fanático inimigo das doutrinas maçônicas” 38. O ambiente católico e a própria hierarquia não reagem publicamente a esse enésimo ataque contra eles, provavelmente com a intenção de acalmar os ânimos – o que acontecerá, tanto é verdade que, um ano depois, a própria Maçonaria uruguaia, recordando o episódio doloroso, não acena mais ao onipresente “complô jesuíta” contra eles.39

_____________________________________________________________

32 Ver a respeito o volume que contém as atas da convenção promovida pelo Istituto studi e ricerca difesa a Chiavari em setembro de 1982, F. Mazzonis (aos cuidados de), Garibaldi condottiero. Storia, teoria, prassi. Milão: Franco Angeli, 1984.

33 L’Italia, 6 de junho de 1882, onde é reproduzido por extenso o decreto presidencial.

34 Na realidade, é necessário distinguir entre a comunidade religiosa entendida em lato sensu e as posições da Cúria e da elite católica, expressas na folha montevideana El Bien Publico. Provavelmente a maioria do “povo” católico não aceitava as posições intransigentes da Cúria. Mais tarde, quando em 1910 se forma o partido católico, a União Cívica, este obterá somente 535 votos, igual a 1,71% do total, e nas eleições de 1913 ainda menos, 482, igual a 0,88%. Esses dados contrastam com a vitalidade das paróquias e dos colégios religiosos, mas dizem muito a respeito do sentido de religiosidade da população local, substancialmente referida à esfera privada, tanto para os uruguaios como para os imigrantes, também italianos.

35 Conferir a respeito, em C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p. 71 e C. Zubillaga, Religiosità, devozione popolare, cit., p. 134.

36 El Ferrocarril, 12 de junho de 1882, edição extraordinária e L’Italia, 13 de junho de 1882, Orribile catastrofe.

37 L’Italia, 14 de junho de 1882, Note dolorose.

38 S. Maciel, La noche del 11 de junio detalles sobre el desastre en la Logia Garibaldi, Montevidéu, 1882.

39 Conferir Boletin Masonico, 5 de junho de 1883, vol. I, n. 17, p. 283-4.

_____________________________________________________________

Observando os aniversários garibaldinos posteriores à sua morte, nota-se logo como, ao longo dos anos, a partir de 1883, ano seguinte ao desaparecimento do herói, inicia um percurso no qual a imagem de Giuseppe Garibaldi assume uma certa fisionomia simbólica com diversas iniciativas que relembram o doloroso acontecimento, já em forma de memórias. Por exemplo, em Porto Alegre é aberto o trecho inicial da rua Garibaldi40 e, no Uruguai, existem várias manifestações para recordar o herói, mesmo com as diferentes concepções entre blancos e colorados, assim como foi evidenciado41. De qualquer maneira, em geral, parece que o aniversário é comemorado com pouco entusiasmo, quase “desfocado”.

De fato, o impacto da hereditariedade cultural e política de Garibaldi, nos ambientes das comunidades italianas no Cone Sul, ocorre em 1892, no décimo aniversário de sua morte. Porém, analisando as numerosas celebrações, é possível constatar como o mito de Garibaldi muda também no seu ritual, em alguns casos observando um renovado fervor, em outros casos – a maior parte – marcando um verdadeiro enfraquecimento evocativo. Por exemplo, neste último aspecto vale a pena citar o caso emblemático de Montevidéu, onde foi mais profunda a marca deixada pela presença de Garibaldi: o primeiro fato que aparece aqui, de uma certa importância, é que o “Círculo Legionários e Garibaldinos”42, fundado de modo simbólico em Montevidéu, em 2 de junho de 1882, por 58 garibaldinos “combatentes”43, não parece capaz de assumir a frente das iniciativas garibaldinas devido a uma crise interna na sua direção.

Assim, incrivelmente, os “herdeiros diretos” de Garibaldi no Prata não conseguem – segundo documentos – celebrar o 10° aniversário da morte do herói dos dois mundos, e limitam-se a enviar uma mensagem ao arquiteto e “soldado garibaldino”, Giovanni Ferrari, referindo-se ao monumento erguido a Garibaldi, além de reunir-se no cemitério de Buceo para inaugurar um pequeno busto do herói, em mármore44.

Parece que o “espírito” de Garibaldi encontra dificuldades para pairar entre os camisas vermelhas de Montevidéu, entre aqueles que podem, mais do que todos, reivindicar a sua hereditariedade de combatente e comandante.

De qualquer maneira, apesar da falta de iniciativa do “Círculo Legionários e Garibaldinos”, em geral, seja em Montevidéu ou no país, não acontecerão celebrações de uma certa importância, com exceção da manifestação imponente organizada na ocasião de 20 de setembro e à qual se quer dar o caráter, como que para diminuir o vazio, de “homenaje de la masoneria uruguaya a José Garibaldi”, uma iniciativa em que participaram cerca de 15.000 pessoas, entre as quais alguns legionários da batalha de San Antonio45.

A figura de Garibaldi, evidentemente, cria alguma tensão dialética em um período em que, ao contrário, as relações entre a Igreja e o Estado, no Uruguai, mesmo não normalizadas, estão vivendo um período de trégua relativa, e as repercussões de um clima político alterado na Itália, em fase de pós-ressurgimento, com a manifestação de uma crise social e política aguda, induzem a própria comunidade italiana imigrada a não agravar o conflito interno.

Se, no final de 1800, as tensões entre laicos e católicos parecem perder força no Uruguai, é interessante notar que em outra área do Cone Sul, já colocada em evidência e com grande presença de imigrantes italianos de fé católica, como aquela de Caxias do Sul, registra-se uma violenta polêmica entre a parte laica da sociedade e a Igreja local.

A discussão não acontece sobre a interpretação da figura de Garibaldi, mas vale a pena repetir os termos do conflito porque dizem respeito aos temas ligados à identidade político-cultural da comunidade italiana imigrada.

Em 1897, em Caxias do Sul, inicia-se um trabalho de constituição das sociedades católicas por obra do vigário Pietro Nosadini. Em 14 de outubro do mesmo ano, acontece a primeira assembléia geral da Federação Católica caxiense com a participação de cerca de 800 pessoas46. A ação política de Nosadini e dos católicos locais é intensamente caracterizada por uma discriminação contra o componente laico da sociedade local, tanto que o próprio vigário sugere explicitamente aos católicos locais que não participem das comemorações pelo 20 de setembro porque “ali [na sede da sociedade mutualista não católica de Caxias] era exposta a bandeira social do Mútuo Socorro”47. Um comportamento, portanto, profundamente contrário às instâncias republicanas e democratizantes por parte da comunidade local. Com o mesmo propósito, é emblemática a crítica, retirada do jornal mensal católico de Caxias, na data de Primeiro de Maio, quando, durante a festa dos trabalhadores, presentes 150 operários, acontece um comício socialista48.

_____________________________________________________________

40 N. Santoro de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento italiano, cit., p. 124.

41 Conferir C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p.73-74.

42 Na sede dell’Associazione Nazionale Combattenti e Reduci Italiani (ANCRI) de Montevidéu são conservados materiais de arquivo, em parte disponíveis em microfilme na CEMLA de Buenos Aires.

43 O original do Estatuto e a lista com os nomes dos sócios encontram-se no Arquivo do ANCRI, Corrispondenza 1901-1905.

44 Os discursos para celebrar serão feitos pelo presidente do círculo, Antonio Bandino, e pelo representante da loja Garibaldi. Conferir Arquivo do ANCRI, Livro de Ata e processos verbais 1892-1909.

45 Conferir. A. Ardao, Razionalismo y Liberalismo en Uruguay, Publicaciones de la Universidad, Montevidéu, 1962, p. 262-3 e C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p. 75-6.

46 Il Colono Italiano, boletim católico mensal, n. 1, 1°de janeiro de 1898.

47 Ver O Caxiense de 6 de novembro de 1898.

48 Il Colono Italiano de 15 de maio de 1898.

_____________________________________________________________

O comportamento intransigente do vigário apostólico e dos católicos caxienses parece de algum modo ser minoritário, ou, pelo menos, um elemento de grande distúrbio da harmonia da comunidade italiana local. Tanto é verdade que também sob pressão das autoridades locais o prelado é obrigado a deixar Caxias do Sul por Porto Alegre; mesmo assim, “abandonando” ob torto collo a cidade de Caxias, em fevereiro de 1899, Nosadini não deixará de evocar sua ação às diretivas de Leão XIII, sobre a constituição das associações católicas e do tipo de ação a ser desenvolvida entre os fiéis e os cidadãos49.

Continuando, então, a seguir os traços da evolução do mito de Garibaldi na área pratense, eis que, no final do século, encontra-se outra etapa significativa deste percurso, mesmo que aqui seja considerado apenas em seu caráter essencialmente comemorativo, isto é, o 50° aniversário da batalha de San Antonio del Salto, um evento que sempre assumiu, para os italianos no Prata, o caráter emblemático da contribuição trazida pela comunidade à construção do Uruguai moderno. Ao contrário daquilo que se poderia pensar, em fevereiro de 1896, observa-se como a imprensa de língua italiana não enfatiza de modo especial este aniversário. Provavelmente as razões disso sejam devido ao clima geral que se respira, isto é, o da guerra da África.

Realmente, a imprensa local é mais orientada a evidenciar a crônica das façanhas bélicas que determina um grande interesse entre os nossos conterrâneos, além de uma substancial unidade de opinião. Além disso, não parece secundária a avaliação de que talvez, para os republicanos e os garibaldinos locais (estes também favoráveis à intervenção italiana na África), certamente não era fácil explicar a ênfase dada aos valores implícitos no episódio garibaldino da batalha de San Antonio – de liberdade e independência – com aqueles de metas opostas, da empresa colonial e imperialista da Itália.

Eis, então, que aos cronistas da folha italiana de tradição republicana não resta, depois de ter resumido a crônica da épica batalha vencida por Garibaldi, outra alternativa que usar os tons retóricos habituais, além de tudo reforçados por um inédito e adoçado cultismo: “Espírito nobre e generoso tu [Garibaldi] e os teus companheiros de armas, mostraste em San Antonio del Salto que o antigo valor latino difundiu-se pelo sangue dos italianos de hoje e por vossa obra a Itália se fortificou.”50

Também este episódio confirma a situação de dificuldade em que, periodicamente, vem-se a encontrar a comunidade italiana em Montevidéu, ou parte desta, toda vez que os acontecimentos na pátria encontram reverberação no complexo processo de construção de uma identidade nacional fora da península. Ainda no que diz respeito à celebração da batalha de San Antonio e das façanhas militares do herói dos dois mundos e dos seus seguidores, deve-se recordar que esta serve também para consolidar, ano após ano, a ligação política ideal entre a tradição garibaldina e os olorados, uma estreita relação que encontrará, mais tarde, com a subida ao poder de José Batlle y Ordóñez, no início do novo século, o seu revigoramento ideal.

Em relação ao tema do desenvolvimento do mito garibaldino na outra margem pratense, na Argentina, nota-se que aqui não se vai além de uma retórica de fachada e, no fundo, procede-se a uma série de operações de caráter nominalista; por exemplo, a nomeação de Giuseppe Garibaldi para presidente honorário de numerosas associações mutualistas ou de instituições do país, como no caso de Rosário, onde, em 1893, a colônia italiana dotou-se de um “seu” hospital que será dedicado ao herói dos dois mundos51.

_____________________________________________________________

48 Il Colono Italiano de 15 de maio de 1898.

49 A carta de Nosadini aos cidadãos de Caxias é publicada sob forma de panfleto. Cópia no Arquivo Histórico Municipal de Caxias do Sul.

50 L’Italia al Plata, 8 de fevereiro de 1896, Il Giubileo di Sant’Antonio.

51 Conferir. E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo, cit., p. 365.

_____________________________________________________________

Novos e velhos significados do mito no início de 1900

Com a chegada do novo século, e sem nenhum aniversário especial de Garibaldi a ser celebrado, os garibaldinos e seus adeptos empenham-se em terminar alguns projetos iniciados nos anos precedentes, essencialmente ligados à consolidação “visual” da memória de Garibaldi, através da construção de monumentos, inaugurações de ruas e praças em vários centros, com uma data altamente simbólica à frente: 4 de julho de 1907, primeiro centenário do nascimento de Giuseppe Garibaldi.

A história da construção de monumentos dedicados à figura de Garibaldi (e também de Anita) mereceria uma reconstrução mais minuciosa, mas, nesta ocasião, interessa antes de tudo observar como essa “atividade” incide no tecido político e cultural das comunidades ítalo-americanas e nos ambientes locais. Por exemplo, em Montevidéu, os “camisas vermelhas” locais, espíritos (divindades) tutelares da imagem do herói dos dois mundos, comprometeram-se a convencer as autoridades locais sobre a necessidade de tornar “visível” a presença de Garibaldi na capital da República Oriental. E os seus esforços são premiados em 1900, quando é colocada a primeira pedra de um monumento nacional à memória de Garibaldi com um discurso inaugural de Pietro Gori52, incansável organizador do movimento anárquico entre os imigrados italianos nas duas margens do Prata, nos anos de virada de século.

Na realidade, a obra – projetada pelo escultor espanhol Augustin Querol, e financiada em parte com 10.000 pesos colocados à disposição pelo governo, já em 1883 – não verá nunca a luz por diversas circunstâncias. A causa principal deve ser pesquisada no prematuro desaparecimento do escultor, provavelmente, mas não menos determinante para o insucesso da iniciativa será a permanente oposição à realização do projeto por parte dos blancos, que continuavam a considerar Garibaldi um mercenário estrangeiro e, por isso, não merecedor de um monumento nacional: uma linha intransigente que leva, em 1906, ao episódio da clamorosa reprovação do monumento, no Parlamento, e à reabertura de uma áspera polêmica sobre a questão entre blancos e colorados53.

Também em Porto Alegre o projeto de erguer um monumento a Garibaldi encontra algumas dificuldades, tanto que, depois de ter iniciado em 1907 uma subscrição pública para a construção do monumento comemorativo ao centenário do nascimento (simultaneamente com a intitulação a Garibaldi da praça destinada a hospedar a obra de mármore), a obra definitiva virá à luz somente seis anos depois, mesmo que com grande participação por parte da colônia italiana54. O monumento apresenta uma particularidade interessante:

“Garibaldi não é apresentado com o uniforme habitual. Garibaldi agora é o revolucionário farroupilha, veste o poncho e comparece na companhia de Anita, a mulher guerreira.”55

Mais sorte teve a construção de um monumento a Garibaldi na capital federal. A primeira pedra é colocada em 1898, mas é preciso esperar alguns anos antes de ver a obra concluída. Além disso, a realização do monumento encontra resistências por parte de alguns setores políticos do parlamento argentino, que não consideram o herói protagonista e participante da história argentina e, conseqüentemente, indigno de ser recordado com uma obra daquele tamanho56. Finalmente, o monumento, uma estátua eqüestre do escultor C. Mascagnani é completado e, em 18 de junho de 1904, no bairro Palermo, em Buenos Aires, acontece a cerimônia de inauguração, na presença do presidente da República, Julio A. Roca57.

Depois deste breve excursus sobre a evolução do mito também através dos acontecimentos da iconografia, vale a pena concentrar a atenção nas celebrações pelo centenário de nascimento de Garibaldi, em 1907.

No Uruguai, em julho de 1907, ocorrem manifestações em honra do herói em todo o país; especialmente no dia 4, as ruas da capital encontram-se repletas de “garibaldinos” que dão vida a um imponente cortejo com mais de 40.000 participantes que atravessa toda a cidade. A manifestação conclui-se com uma comemoração oficial, no teatro Urquiza, na presença das principais autoridades do Estado, de representantes da comunidade italiana e dos maiores expoentes do socialismo local, entre os quais Emilio Frugoni, e também do anarquismo, como o poeta Angel Falco58. As celebrações acontecem em um clima especialmente favorável ao ambiente garibaldino, até porque, não esqueçamos, o batllismo favoreceu e exaltou sem reservas os aspectos ideais do garibaldinismo, tendo, além de tudo, o cuidado de valorizar as experiências da elite ítalo-uruguaia nos vários setores da sociedade.

_____________________________________________________________

52 Conferir G. Marocco, Sull’altra sponda del Plata, cit., p. 77.

53 Do quanto é possível reconstruir a partir da documentação, os únicos monumentos a Garibaldi de um certo nível serão inaugurados em Montevidéu, em 1933, depois da posse de Gabriel Terra e não sem ásperos contrastes entre os colorados e os blancos (a propósito ver idem, p. 77-78, n.16) e em 1934, em Salta, pela iniciativa e pressão do cônsul fascista no Uruguai, Serafino Mazzolini, recém chegado do Brasil. Mazzolini teve que solicitar – e em alguns casos ameaçar – as comunidades italianas espalhadas pela república pratense a fim de dar sua contribuição material à realização do monumento a um “dos pais da pátria e primeiro artífice da irmandade ítalo-uruguaia”, como afirmou em mais de uma ocasião. Pelo assíduo comprometimento de Mazzolini, a propósito, ver a abundante correspondência endereçada aos representantes das várias comunidades conservada no Arquivo ANCRI, Correspondência Recebida 1928-1933.

54 N. Santoro de Constantino, O Italiano da Esquina, cit., p. 50.


55 ID, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento italiano, cit., p. 124.

56 A propósito, ver os detalhes do debate exaltado ocorrido em julho-agosto de 1897 na Câmara dos Deputados, relatado, em partes, em J.B. Tonelli, Garibaldi y la masoneria argentina, cit., p. 56-58.

57 Para a crônica da cerimônia, ver idem, p. 60-61.

58 Para a crônica destes acontecimentos, ver L’Italia al Plata de 4 e 5 de julho de 1907.

59 C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p. 125.

_____________________________________________________________

Em termos mais ideológicos, observou-se que “El jacobinismo batllista con un sentido democratico de la vida politica, su anticlericalismo, su organizacion popular favorable a los nuevos apellidos, su populismo en una palabra, receuerda insistentemente al radicalismo garibaldino.”59 Além disso, neste julho dedicado à memória de Garibaldi, o próprio presidente da República, Cláudio Williman, sucedido em março, em Batlle, será fiel à longa e profunda ligação entre os colorados os garibaldinos participando pessoalmente às mais importantes manifestações organizadas pelo “Comitê Executivo” pelas comemorações do 1o centenário do nascimento de Garibaldi, com Paolo de Maria na presidência, e às quais aderem grande parte das sociedades mutualistas italianas, numerosos clubes colorados, liberais, socialistas e anarquistas do Uruguai60.

Obviamente a imprensa de inspiração laica de língua italiana e local dá uma grande ênfase aos eventos garibaldinos, enquanto que os jornais católicos da capital, a começar por El bien Publico, ignoram completamente o acontecimento61.

É interessante notar como, não muito longe de Montevidéu, no sul do Brasil, acontecem as celebrações do “centenário”. Além do episódio citado do monumento a Garibaldi em Porto Alegre, parece que a maior parte das iniciativas efetua-se no Rio de Janeiro. A comunidade ítalo-brasileira da metrópole carioca já em junho procura uma unidade de intenções quanto às celebrações garibaldinas. La Voce d´Italia, o semanal em língua italiana do Rio, “órgão da Colônia Italiana do Brasil” (de tendência liberal, anticlerical, não maçônico, mas também simpatizante da monarquia), dirigido por Giovanni Luglio, preocupa-se em reatar os fios de uma memória garibaldina que tenda a dar uma unidade unitária à comunidade italiana; já em 2 de junho de 1907, na ocasião do aniversário de morte do herói, apresenta um editorial intitulado “Per Garibaldi”, onde são enfatizados os valores que unem os italianos em terra brasileira e dá-se o anúncio de que a preparação das iniciativas é coordenada pelo cônsul, o Marquês L. Centurione.

Depois de pouco tempo é publicado um “manifesto patriótico” que o “Comitê do Rio de Janeiro para o Centenário” dirige aos “conterrâneos e aos indígenas”, que vale a pena transcrever por extenso:

“Cidadãos! A nação italiana comemora no dia 4 de julho o 1° centenário do nascimento de Garibaldi, que foi o fermento mais generoso da sua história, o fator mais heróico da sua unidade política e civil. Mas o espírito de Garibaldi deixou as fronteiras da pátria para unir todos os povos oprimidos atrás de uma bandeira, sol de reivindicação e de justiça, difundiu-se com os primeiros e maravilhosos impulsos do seu gênio e do seu altruísmo no continente americano e, especialmente na terra brasileira, onde encontrou a sua gêmea na incomparável Anita, uma filha do povo que não foi inferior a ele no heroísmo, na abnegação e no sacrifício.
E Garibaldi nesta terra não pode ser e não pode ser chamado de estrangeiro.
Nós o recordaremos e glorificaremos como apóstolo de irmandade humana e como símbolo de vínculos sacros que nos unem à nação brasileira; e estamos certos que naquele dia [4 de julho], unidos pela gratidão, pelo amor e pelo entusiasmo, italianos e brasileiros com o espírito consciente de destinos comuns, concorreremos à grandiosa apoteose que o mundo civil consagra ao Herói dos Dois Mundos.”62

E, de fato, em 4 de julho de 1907, acontece no Rio de Janeiro uma bela manifestação da comunidade italiana, da qual também participarão as autoridades brasileiras; inicia entre os dias 3 e 4 com fogos de artifício e, pela manhã, depois de uma reunião nos salões da “Sociedade Italiana de Beneficência”, entre associações, representações63 e bandas musicais, um cortejo, encabeçado por cinco sobreviventes garibaldinos, avança pelas ruas do Rio até o teatro São Pedro, onde se realizam os comícios comemorativos oficiais.

Em outros centros desenvolvem-se também iniciativas para celebrar o centenário do nascimento, como em Juiz de Fora e em Bragança, além de São Paulo, onde é inaugurada uma lápide comemorativa com a epígrafe escrita por Guglielmo Ferrero.

Enfim, parece que, no Brasil, ao menos na parte meridional do país, onde viveu e atuou Garibaldi, o primeiro centenário do nascimento do herói dos dois mundos celebrou-se com um discreto sucesso, a ponto de consolidar

_____________________________________________________________


62 La Voce d’Italia de 14 de junho de 1907.

63 As associações que aderem são: a Società Italiana di Beneficenza e Mutuo Soccorso, a Fuscaldese Umberto I, a Fratellanza Massonica, o Centro d’Istruzione Principe di Piemonte, a Internazionale di Beneficenza Umberto I, o Circolo Operaio Italiano, a Lega Operaia Italiana. Também aderem os jornais italianos do Rio de Janeiro La Voced’Italia e Il Bersagliere. Ver La Voce d’Italia de 4 de julho 1907.

 
 
 
  Voltar Página Inicial  
 
rg77