| O mito de Garibaldi: origem
e significados no Cone Sul até 1907,
ano do centenário de seu nascimento
Pietro Rinaldo Fanesi
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Historiador e pesquisador, é colaborador da Cátedra
de História
e Instituições da América, da Universidade
de Camerino, Itália
As raízes do mito garibaldino
Nesta oportunidade, o objetivo é compreender
o quanto o mito de Garibaldi contribuiu para a construção
de uma identidade nacional entre as comunidades italianas
nos países do Cone Sul ou se, ao contrário,
este foi o elemento que caracterizou uma identidade “dividida”,
um reconhecimento de uma idéia de Pátria que
nem sempre conseguia ter valor para todas as camadas sociais
e representações político-econômicas.
As linhas mestras deste trabalho retomam as celebrações
dos “aniversários” garibaldinos –
entre o fim de 1800 e o início de 1900 – no Brasil,
Argentina e Uruguai, e o impacto que essas têm nas comunidades
ítalo-americanas e nas sociedades locais, com atenção
especial à dialética entre “laicos”
e católicos, republicanos e monarquistas, que, aos
poucos, se instaurou em torno do “uso político”
da figura de Giuseppe Garibaldi.
Neste sentido, de fato, é quase impossível não
considerar uma ambigüidade estrutural ligada à
utilização do mito garibaldino, que se prestou,
por mais de um século, a um “duplo uso”
apoiado no binômio patriotismo-italianidade: um Garibaldi
certamente maçom, anticlerical, democrático
e populista, internacionalista, mas também “pai
da pátria” (especialmente a partir dos primeiros
anos de 1900) e, em alguns casos, “consagrado”
não somente pelo componente laico da sociedade.
A propósito da questão mencionada, da identidade
“dividida”, vale a pena citar uma passagem que
se aplica à Argentina:
No una sino dos comunidades en Buenos Aires, con una miriada
de instituciones y con sus simbolos contrapuestos. En los
ambitos monarquicos flameaba la bandera de la casa de Savoia,
se tocaba la Marcha Real y se commemoraban con celebraciones
el aniversario del Estatuto albertino y el dia del nacimiento
de Vittorio Emanuele. En los republicanos, en cambio flameaba
la bandera tricolor, resonaba el himno a Garibaldi y se realizaban
celebraciones en recuerdo de los cinco jornadas milanesas
y los aniversarios de Garibaldi y Mazzini.”1
Este comportamento não vale somente para a comunidade
italiana da capital argentina, mas é encontrado em
quase todas as cidades dos países do Cone Sul, onde
as comunidades apresentavam um pluralismo social, ideológico
e regional, correspondente às características
dos diversos fluxos imigratórios. Especialmente nessa
área do continente latino-americano, a figura de Garibaldi
assumia uma função peculiar, eivada de momentos
de exaltação, mas também de críticas.
De fato, as façanhas da guerra civil pratense, a chamada
Guerra Grande, e a participação direta
de Garibaldi e dos italianos que chegaram ao Uruguai desde
a primeira metade de 1800, contribuíram muito para
movimentar por décadas um debate político, por
exemplo, entre as duas principais formações
políticas da Banda Oriental, os colorados e os blancos,
onde os primeiros viam em Garibaldi o chefe da “Legião
italiana”, o herói da Defensa e da batalha
de San Antonio do Salto, e, os segundos, somente como um mercenário
que tinha se inserido arbitrariamente em uma guerra “não
sua”.2
A mesma polêmica atinge a comunidade ítalo-argentina
e a sociedade local, mesmo que por uma perspectiva diferente,
dada a ausência física, aqui, de Garibaldi. Entretanto,
as agremiações reunidas em torno da corrente
democrática, de um lado, e dos setores mais conservadores
do outro, diferenciaram-se, como será possível
averiguar sobre o juízo histórico-político
da figura de Giuseppe Garibaldi.
O caso do Brasil não se apresenta muito diferente,
pelo menos nos estados meridionais do país, mesmo que,
em honra da verdade, o mito garibaldino – e o de Anita
(Ana Maria de Jesus Ribeiro) – mantenha no tempo um
valor “único”, de grande consenso popular,
seja entre as comunidades de italianos emigrados, ou entre
a sociedade local, como uma longa onda que atravessa os séculos.
Não faltaram alguns momentos, porém, onde as
tensões se aguçaram em torno da interpretação
da figura de Garibaldi. O fenômeno parece mais limitado
do que os casos apenas citados dos países pratenses,
e, quando se verificam momentos de tensão no interior
da comunidade ítalo-brasileira e da sociedade local,
estes são caracterizados pelo enfrentamento, geralmente
entre laicos e católicos.
Na realidade, a “questão garibaldina” parece
restrita às zonas onde foi mais consistente a imigração
italiana, especialmente a vêneta, grande matriz católico-conservadora,
como a área de Caxias do Sul. Aqui, a figura de Garibaldi
será aos poucos objeto de um confronto político-cultural
– como veremos a seguir – com repercussões
que chegam até os tempos mais recentes. De fato, em
2002, por exemplo, em um semanário de cunho católico,
de Caxias do Sul, constam cinco longos artigos que narram
as façanhas de Garibaldi no Rio Grande do Sul e no
Uruguai, mas com evidente tom crítico ao seu comportamento,
excessivamente violento, durante a Revolução
Farroupilha e no Uruguai.3
Antes disso, por exemplo, durante as comemorações
de 1982, em um jornal de grande tiragem de Porto Alegre, a
Zero Hora, entre muitos aspectos enfáticos e retóricos,
lê-se também uma notável crítica
ao comportamento dos ingleses e dos italianos em Londres,
um autêntico delírio popular, durante a visita
de Garibaldi à cidade britânica, incomodando,
na ocasião, de maneira instrumental, até Marx:
“[…] ‘Um miserável espetáculo
de imbecilidade’ escreveu Karl Marx sobre a acolhida
que Giuseppe Garibaldi recebeu em 1868, quando, convidado
por amigos, visitou Londres.”4
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1 F.J. Devoto, Inventando a los Italianos?
Imagen de los primeros inmigrantes en Buenos Aires (1810-1880),
em “Annuario do IHES”. Tandil: VII, 1992, p. 133.
2 A propósito, para o Uruguai, além do datado
mas importante trabalho de C.M. Rama, Garibaldi y el Uruguay.
Montevidéu: Ediciones Nuestro Tempo, 1968 (útil
também pela rica bibliografia “garibaldina”),
veja-se ainda J.A. Oddone, Italians in Uruguay: Political
Participation and Country Consolidation during Mass Immigration,
in Aa.Vv:, The Colombus People. Perspectives in Italian Inmigration
to the America and Australia. New York: Center for Migration
Studies, 1994, p. 210-228 e C. Zubillaga, Religiosità,
devozione popolare e immigrazione italiana in Uruguay, em
Aa.Vv., L’emigrazione italiana e la formazione dell’Uruguay
moderno. Torino: Edizioni della Fondazione Giovanni Agnelli,
1993, p. 121-170. Aqui quer-se fazer menção
também a alguns trabalhos como S. Candido, Giuseppe
Garibaldi nel Rio della Plata (1841-1848), Firenze, 1972 e
R. Ugolini, Garibaldi. Genesi di un mito, Roma: Edizioni dell’Ateneo,
1982, também A. Corneli, Giuseppe Garibaldi nell’Uruguay,
Comitato pro casa di Garibaldi in Montevideo, Buenos Aires,
1951. Além disso, é de especial interesse o
periódico anual Garibaldi, editado desde 1986 pela
“Asociacion cultural Garibaldina” de Montevidéu,
como tentativa, além de alguns trabalhos de cunho retórico,
de traçar um balanço crítico da historiografia
garibaldina.
3 “Correio Riograndense”, 7-14-21-28 de agosto
e 4 de setembro de 2002, artigos de Moacyr Flores, Giuseppe
Garibaldi. Herói de Dois Mundos.
4 “Zero Hora”, 11 de junho de 1982, encarte dedicado
a Garibaldi, p. 10.
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Agora, é preferível remeter a outros trabalhos
apresentados aqui – e à ampla bibliografia existente5
– as narrações das façanhas que
envolveram Garibaldi no Brasil, em especial por sua participação
na Revolução Farroupilha. É útil,
porém, no final do presente trabalho, mencionar que,
nas instâncias de independência em bases republicanas
representadas pelas ações de Bento Gonçalves,
inserem-se idéias mazzinianas devido à
presença, naquela zona meridional do Brasil, de exilados
como Livio Zambeccari, Luigi Rossetti e Francesco Anzani e,
mais tarde, na segunda metade dos anos 1830, de Giuseppe Garibaldi.
De fato, para tentar analisar o humus político
e cultural de onde se origina o mito garibaldino na América
Latina, não pode-se deixar de levar em consideração
o ambiente rio-grandense, e sucessivamente o uruguaio, deixando,
por enquanto, como pano de fundo, a Argentina.
Mas, antes mesmo de ver as marcas deixadas por Garibaldi no
Rio Grande do Sul, é importante citar sua atividade
no Rio de Janeiro e as possíveis motivações
que alimentaram o seu mito desde o início, e para sempre.
Antes de tudo, é necessário evidenciar que,
quando Garibaldi atraca na costa brasileira, mais precisamente
no Rio de Janeiro, no final de 1835, tenta logo unir-se ao
mundo dos exilados do Risorgimento. O seu primeiro
contato “político”, em especial, será
com Giuseppe Stefano Grondona, lígure, no Rio de Janeiro
desde 1815, apreciador do pensamento mazziniano e,
de certa maneira, ligado com os círculos de Marselha,
porto de onde Garibaldi embarcou para o Brasil. Garibaldi
traz para Grondona, desejoso de receber as publicações
mais recentes, as “Instruções gerais”
da Giovine Europa e o último fascículo
da Giovine Italia.
Parece que Grondona recebeu bem Garibaldi no Rio de Janeiro
e que teria sido o meio para a iniciação maçônica
do herói dos dois mundos em uma loja local, “Asil
de la Vertud”, uma loja na realidade “irregular”
e não reconhecida pelos Orientes europeus.6 Garibaldi,
por sua vez, retribuirá o apreço de Grondona
oferecendo-lhe a presidência da Giovine Italia
do Rio, fundada em janeiro de 1836. Na realidade, a ligação
entre os dois logo esfriou, enquanto que, com os outros dois
exilados no Rio, estreitou uma relação que duraria
por muito tempo. São eles: Luigi Rossetti, que chegou
em 1827, e Giovan Battista Cuneo, que havia recém chegado
ao Rio. Enquanto que o ativismo de Garibaldi era dirigido
à coordenação do pequeno grupo de exilados
italianos com o objetivo declarado de retornar em breve à
pátria, Cuneo será mais incisivo na ação
política com a fundação de uma revista,
La Giovine Italia, para propagar as idéias
de Mazzini entre os italianos no Brasil, a fim de predispor
um núcleo de assistência à insurreição
prevista na Itália.7
Essas breves considerações sobre a presença
inicial de Garibaldi em terra brasileira, como motivo do presente
trabalho e em relação ao nascimento do mito
garibaldino, oferecem a possibilidade de compreender alguns
aspectos peculiares. O mais interessante resulta na ligação
maçônico-conspiradora que unia exilados italianos,
como Garibaldi, Grondona e Zambeccari, a Bento Gonçalves,
e que proporcionava um seguro elo de união com a classe
dirigente do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Pouco
se sabe dessa atividade maçônica movida pelo
idealismo humanitário de caráter internacionalista
e decididamente republicano, que poderia bem explicar a persistência
e a valorização do mito garibaldino nas décadas
sucessivas, além da retórica sobre a participação
de Garibaldi na Revolução Farroupilha.
Observou-se que:
“A entrada (de Garibaldi) na Maçonaria, em outras
palavras, preservou o patriotismo garibaldino do endurecimento
estritamente nacional (diferentemente do que acontece com
a maior parte dos protagonistas do Risorgimento, a começar
por Mazzini, o termo ‘nação’ fica
quase estranho à sua prosa, onde, em vez, retorna aquele
de ‘povo’) ofereceu a ele uma imediata percepção,
também de caráter prático, operacional,
da universalidade dos objetivos que ele havia escolhido e
estava perseguindo.”8
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5 Aqui, mesmo que em síntese e com uma escolha que
se espera não seja muito limitante, indica-se, além
do trabalho pioneiro na Itália de S. Candido, Giuseppe
Garibaldi corsaro riograndense (1837-1838), Roma: 1964, e
aquele no Brasil de L. Collor, Garibaldi e a Guerra dos Farrapos.
Porto Alegre: Globo, 1958, ao recente estudo de N. Santoro
de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento
italiano: l’azione di Garibaldi nella Rivoluzione Farroupilha
e sue implicazioni, in Aa.Vv:, Il Risorgimento Italiano in
America Latina, Atti del convegno internazionale di Genova
del 24-25-26 novembre 2005, affinità elettive. Ancona,
2006, p. 337-347, onde se faz uma análise sobre a influência
e a ação dos exilados italianos na revolução
rio-grandense de 1835. Além disso, para um estudo do
ambiente rio-grandense, e de Porto Alegre em especial, onde
viveu, desde as origens, a comunidade dos imigrantes italianos,
veja-se N. Santoro de Constantino, O italiano da esquina.
Imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST,
1991.
6 A propósito da afiliação maçônica
de Garibaldi no Brasil não existem documentos oficiais.
Resulta, ao invés, “regular” a sua iniciação,
que aconteceu em 18 de agosto de 1844, na Loja “Amis
de la Patrie” de Montevidéu, de referência
ao Grande Oriente da França. Para uma documentação
sobre o “percurso maçônico” de Garibaldi,
ver V. Gnocchini, L’Italia dei Liberi Muratori. Brevi
biografie di Massoni famosi. Roma-Milão: Mimemis-Erasmo
Editore, 2005, p. 139.
7 A propósito, ver S. Candido, L’azione mazziniana
in Brasile ed il giornale “La Giovine Italia”
di Rio de Janeiro (1836) attraverso documenti inediti o poco
noti, em “Bollettino Domus”, 1968, n.2.
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Deveria ser esclarecida a fundo – e não
é possível neste momento – a relação
entre o idealismo republicano dos “italianos”
e o “republicanismo” dos “brasileiros do
sul”, que assume um caráter essencialmente “emancipado”
e também separatista em confronto ao establishment
local, muito ligado à aristocracia do país,
que se tornara independente de Portugal há pouco tempo.
Tal divagação permite ver, mesmo com alguma
confusão teórica, como o retorno aos “dois
republicanismos” poderia servir, naquele período,
para consolidar ligações úteis, seja
aos separatistas rio-grandenses, seja à comunidade
dos exilados do Risorgimento italiano. Depois, será
também útil encontrar as ligações
ideológicas entre os diversos protagonistas da revolução
rio-grandense e a posterior classe dirigente local e a comunidade
italiana laico-republicana, como no caso do futuro presidente
do Estado rio-grandense, Julio de Castilhos, ideólogo
do Partido Republicano e seguidor de Auguste Comte. Tanto
que, em um jornal italiano de Porto Alegre, é possível
ler que:
“Talvez todo o pensamento de Julio de Castilhos
se resume nesta breve fórmula: o pensamento de Giordano
Bruno, inserido naquele outro político de Giuseppe
Mazzini: permanecer na sua idéia republicana que deveria
conduzir os seus compatriotas, não à redenção
no céu, mas na terra.”9
Não é por acaso que o tema será
sucessivamente retomado, no primeiro centenário da
Revolução Farroupilha, em 1935. 10
Enfim, no que diz respeito à origem do mito garibaldino
no Brasil e sua matriz de caráter popular, não
pode ser ocultada a importância da relação
com Anita, originária do Estado de Santa Catarina11,
que serve em muitas ocasiões como ligação
com a cultura popular local, para chegar, como se sabe, até
os nossos dias. Em seguida, nos vários períodos,
veremos quanto o uso político da companheira “brasileira”
de Garibaldi pode ter sido, também, determinante, até
por parte do regime de Mussolini.
É interessante observar, referindo-se ao Brasil
meridional, como a presença de Garibaldi e suas famosas
“façanhas”, por outro lado bem descritas
em suas Memórias, nas várias biografias
do herói e na vasta bibliografia que deixamos de citar,
ecoam muito forte também nas décadas seguintes,
e como a comunidade dos ítalo-brasileiros e a sociedade
local não esqueceram o herói.12 Na década
de 1870, no Rio Grande do Sul, a comunidade dos imigrantes
italianos estava aumentando. Surgiram, então, diversas
associações de caráter prevalentemente
mutualista, em muitas cidades. Emblemático é
o caso de Porto Alegre, onde, em 1877, foi fundada a “Vittorio
Emanuele II”, e Garibaldi nomeado presidente honorário
da sociedade, encontrando o agradecimento deste, que escreve
uma carta aos “caros amigos” na qual recorda “com
gratidão a hospitalidade recebida da generosa população
do Rio Grande”. Observa-se que muitos sócios
dessa associação eram veteranos da Revolução
Farroupilha e também da Legião Italiana de Garibaldi
no Uruguai.13
Conceder a Garibaldi a presidência de uma sociedade
italiana será um gesto comum para muitas experiências
análogas; aqui vale a pena registrar a observação
de uma estudiosa rio-grandense, porque é inerente à
questão da identidade da pátria:
A ‘Vittorio’ reforçou traços
culturais italianos, através de símbolos, como
o general Garibaldi, cujo nome já era glorificado na
Itália. Torna-se a figura predileta, representado com
o uniforme de general ou com o uniforme dos camisas vermelhas.
O atelier fotográfico de Calegari, o mais importante
de Porto Alegre, vende fotografias pintadas a óleo,
multiplicando a imagem com a camisa vermelha. O quadro estará
nas casas dos italianos, símbolo da patriótica
italianidade, visto que finalmente têm uma pátria-mãe.”14
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8 Conforme A.A. Mola, L’internazionalismo massonico
di Giuseppe Garibaldi, em G. Cingari (aos cuidados de), Garibaldi
e il socialismo. Roma-Bari: Laterza, 1984, p. 148.
9 L’Italiano, 24 de novembro de 1903, número
extraordinário dedicado a Julio de Castilhos na ocasião
da sua morte, em 24 de outubro de 1903. Aqui, afirma-se que
Julio de Castilhos conhecia a fundo o pensamento mazziniano.
10 “Correio do Povo”, 20 de setembro de 1935,
Porto Alegre, encarte para celebrar o 1° centenário
da Revolução Farroupilha, artigos intitulados
Os italianos na Repubblica Farroupilha e Os italianos e a
Repubblica de Piratiny.
11 Interessante, a propósito, é o discurso do
deputado federal Octacilio Costa, representante do Estado
de Santa Catarina na Câmara dos Deputados, proNúnciado
em 4 de agosto de 1949, no Congresso Nacional, em ocasião
do 1° centenário da morte de Anita, citado em Anita
Garibaldi. Heroina de dois mundos, Rio de Janeiro, 1949.
12 É interessante notar como, no final do século,
em um momento de recuperação do mito farroupilha,
várias localidades rio-grandenses receberam o nome
do herói da Revolução de 1835; entre
essas a ex-colônia Conde d’Eu, que passou a se
chamar Garibaldi, em 31 de outubro de 1900, ainda que lá
houvesse poucos italianos garibaldinos. Sobre a história
dessa comunidade, ver E. Clemente-M. Ungaretti, História
de Garibaldi. 1870-1993. Porto Alegre: Edipucrs, 1993.
13 N. Santoro de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti
del Risorgimento italiano, cit.,
p. 122-123.
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É interessante ressaltar como a “transferência”
de Garibaldi nos anos 1840, do sul do Brasil para o Uruguai,
tenha comportado, de alguma maneira, também a sobreposição
em terra uruguaia dos ideais e motivações de
independência que tinham caracterizado a ação
garibaldina, como se fosse um tipo de continuidade. Porém,
enquanto no Rio Grande do Sul, como vimos, são poucas
as vozes contrárias ao valor da figura de Garibaldi
(exceto o reacender de uma forte polêmica entre laicos
e católicos, no final do século, o que veremos
mais tarde), no Uruguai, suas façanhas tendem a não
ser universalmente reconhecidas como unificadoras da sociedade
local.
Na sociedade de Montevidéu, e no Uruguai em geral,
o mito de Garibaldi, seja em vida, ou mesmo após sua
morte, torna-se prerrogativa quase que exclusivamente da parte
colorada, permitindo, assim, à grande comunidade italiana
imigrada vincular-se amplamente ao establishment
político local com a afirmação de um
ponto de vista laico-republicano da sociedade. Esse último
aspecto, cada vez mais contestado pelos setores clérigo-conservadores,
com reflexos significativos também na recente historiografia
de inspiração católica e blanca,
permite observar que:
“A identificação da filosofia liberalista
(e das principais fontes inspiradoras do movimento anticlerical
emergente) com a tradição garibaldina do partido
colorado causou muitas confusões na opinião
pública popular (e também naquela acadêmica).
Entre essas, por exemplo, estão aquelas que identificaram
as concessões sustentadas em matéria política
pelo partido colorado com o ‘espírito de Garibaldi’,
sem dar-se conta de que a sucessiva opção monárquica
do derrotado de Mentana estava batendo de frente com o ‘igualitarismo’
republicano do qual se vangloriava o ´partido da defesa`.”
15
Para dizer a verdade, esta observação pode
parecer esquemática e até distante, se não
for enquadrada no contexto da dialética colorados/blancos
que, não por acaso, encontra no Uruguai os seus reflexos
também nas interpretações historiográficas.
Sem dúvida, o ponto de origem do qual se alimenta a
lenda de Garibaldi no país do Prata é pesquisado
nos episódios da “Defesa de Montevidéu”,
na luta dos unionistas para liberar a cidade do assédio
imposto pelo “ditador” argentino Rosas e pelo
blanco Oribe.
Mas, na realidade, não se deve esquecer que, nas
décadas sucessivas, depois do retorno de Garibaldi
à pátria, houve grande afluência de “garibaldinos”
que desembarcaram no Prata, em Montevidéu, sobreviventes
das lutas pela independência nacional italiana. Deve
ser especialmente evidenciado o consistente fluxo de seguidores
de Garibaldi que se registrou depois da derrota de Mentana
(1867), com a chegada na capital uruguaia de mais de 1.700
camisas vermelhas, muitos dos quais com a própria família,
consolidando assim uma ligação com os garibaldinos
e com a maior parte dos italianos no Uruguai, que jamais enfraqueceu.
Essa imigração “especial” contribuiu,
certamente, para revigorar, além de outros fatores,
os ideais garibaldinos que sempre encontraram no Prata uma
fácil articulação – sendo por sua
vez influenciados – nas correntes de pensamento proto-socialistas
e sansimonistas16 , e também liberais de referência
maçônica.
Isso ocorre especialmente depois da metade de 1800, quando
o liberalismo uruguaio tende a assumir um aspecto militante
em relação ao clericalismo, desmanchando, assim,
algumas ambigüidades de fundo da relação
dialética entre racionalismo e liberalismo, originando,
come se sabe, relevantes aspectos inovadores da legislação
uruguaia que concretizam a hegemonia naquele período
da cultura liberal sobre o conservadorismo clerical e também
uma clara predominância do alinhamento laico-maçônico
pratense que detém, talvez, uma parte da herança
garibaldina.17
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14 Idem
15 C. Zubillaga, Religiosità, devozione popolare, cit.,
pág. 127.
16 Para este aspecto específico, conferir C. Zubillaga,
El pensamento socialista en Uruguay. La reflexion precursora,
in Aa: Vv., Ensayos en homenaje al doctor Arturo Ardao. Montevidéu:
Universidad de la Repubblica, 1995, p. 203-234, e também
L. Fabbri Cressatti, Garibaldi y el socialismo de su tempo,
em Garibaldi, a.1, 1986, p. 74-85. Enquanto para o socialismo
de Garibaldi, ver G. Cingari, Garibaldi e il socialismo, cit.,
e L. Briguglio, Garibaldi e il socialismo. Milão: SugarCo,
1982.
17 Para uma cronologia dos aspectos mais importantes das afirmações
civis do liberalismo uruguaio, conferir P. Barron, Iglesia
catolica y burguesion en el Uruguay de la modernizacion (1860-1900),
Montevidéu, 1988, p. 5-6.
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“ [...] se a maçonaria uruguaia se converteu
ao anti-clericalismo e se o anti-clericalismo foi um componente
importante nas opções da classe política
colorada, isto se deve também, e não de modo
irrelevante, à luta de Garibaldi e do partido democrático
contra o poder temporal em nome de Roma, capital da Itália
unida.”18
Enfim, veremos alguns traços quanto à realidade
argentina e às características que aqui assume
o mito garibaldino enquanto o herói estava vivo. Na
Argentina, e especialmente em Buenos Aires, assinala-se a
presença consistente de exilados do Risorgimento,
a partir das rebeliões de 1820-1821. Muitos marinheiros
e mercadores estabeleceram-se no Porto do Prata e, seguramente,
contribuíram para alimentar as idéias ressurgimentais
entre os primeiros núcleos de imigrantes italianos
e a própria sociedade portenha.
Além disso, esses personagens cuja história
política é embebida de “carbonaria”
e insurreição, chegavam, não por acaso,
aos portos latino-americanos, considerando que isso era comum
naquelas primeiras décadas de 1800, quando tomavam
vida e forma as experiências iniciais republicanas revolucionárias
que, freqüentemente, não se limitavam a operar
nos restritos âmbitos de uma implantação
passiva, mas interagiam com a já numerosa colônia
italiana emigrada por motivos de trabalho na sociedade local
19, jogando as primeiras sementes de um ativismo político
fervoroso que se desenvolverá mais tarde, próximo
do final do século, baseado em correntes fortemente
ideologizadas e caracterizadas por um republicanismo militante,
socialista e também anárquico, como se verá
depois.
Certamente, a realidade argentina não é aquela
do Uruguai ou do Rio Grande do Sul, porque não pôde
contar com a presença de Garibaldi, mas, apesar disso,
a influência do pensamento de Mazzini é forte,
essencialmente devido a Giovan Battista Cuneo, que exercerá
“uma notável influência sobre os liberais
latino-americanos da chamada Geração dos Banidos
e da Geração Jovem Argentina (também
conhecida como Asociación de Mayo e ponto
de reunião, desde 1837, de um grupo onde eram membros
Esteban Echeverria, Juan Battista Allberdi, Bartolomé
Mitre e Miguel Irigoyen, ou seja, a nata da futura classe
dirigente do Prata nos anos da grande enxurrada imigratória).”20
Cuneo exerce freqüentemente o papel de “protetor”
intelectual das ações de Garibaldi em terras
latino-americanas, e sua influência é amplamente
comprovada, tanto que foi escrito que “a história
das doutrinas de Mazzini em terra latino-americana foi em
grande parte a história deste grande italiano no exterior.”21
E, quando também em terra argentina, as façanhas
da Guerra Grande haviam terminado há tempo,
e na segunda metade do século registram-se outras situações
políticas e institucionais, o germe plantado muitos
anos antes pelo denso trabalho de propaganda de Cuneo e dos
outros mazzinianos – que, além disso, já
nos anos 1870 eram bem organizados em Buenos Aires com um
jornal chamado L´amico del Popolo, órgão
do PRI na Argentina, já em 1879, e com um Centro Republicano
Italiano22 – não tardará a propor a validade
da figura de Garibaldi também aqui.
Não será por acaso – como veremos no próximo
parágrafo – que, no momento da morte do “herói
dos dois mundos”, em junho de 1882, nos países
do Cone Sul, as celebrações e as honras fúnebres
assumirão não somente características
de ritual mas terão, também, um forte valor
político.
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18 G. Marocco, Sull’altra sponda del Plata. Gli
italiani in Uruguay, Milão: Franco Angeli, 1986, p.
24. A propósito, para o papel desenvolvido pelos maçons
italianos no Prata, ver A.F. Cabrelli, Participación
de los masones italianos en la trasformación de la
sociedad oriental, em Garibaldi, a.4, 1989, p. 89-110.
19 A propósito, para uma atenta análise do fenômeno
imigratório italiano na Argentina durante o período
do ressurgimento italiano, ver o recentíssimo trabalho
de F.J. Devoto, Storia degli italiani in Argentina, Roma:
Donzelli Editore, 2007, em especial o cap. I, p. 7-83. Além
disso, recorda-se para a compreensão do fenômeno
desta primeira emigração política do
ressurgimento e a sua “contribuição”
de maneira mais geral aos fatos americanos, o determinante
trabalho di E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo. L’emigrazione
italiana in America. 1492.1942. Milão: Arnoldo Mondadori
Editore, 1995, em especial o cap. III, “Emigrazione
e Risorgimento”, p. 87-140.
20 E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo, cit., p. 121.
21 Idem
22A propósito, ver P.R. Fanesi, Verso l’altra
Italia. Albano Corneli e l’esilio antifascista in Argentina.
Milão: Franco Angeli, 1991, p. 58.
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A memória de Garibaldi do ano da sua morte
à retórica dos aniversários “fin
de siècle”
A notícia da morte de Garibaldi, ocorrida
em 2 de junho de 1882, propagou-se imediatamente além-mar
provocando um abalo nas comunidades de emigrados italianos,
especialmente naqueles países onde o herói teve
a oportunidade de deixar uma marca indestrutível com
suas viagens e façanhas.
Em Buenos Aires, o anúncio da morte de Garibaldi foi
dado por um jornal, em língua italiana, de inspiração
republicana, La Patria Italiana, que, como em muitos
artigos similares que apareceram naqueles dias nos jornais
de quase todo o mundo, expressava uma profunda dor por seu
desaparecimento23.
Após alguns dias, superada a fase do abalo, o mesmo
jornal, além de reproduzir o grande eco do fato na
imprensa argentina e os artigos de solidariedade por parte
de outras numerosas associações, não
somente italianas (por exemplo, o “Club Eslavo”
de Buenos Aires), indica algumas iniciativas de celebração
a serem desenvolvidas nos dias seguintes.
Primeiramente, a nomeação de um comitê
para as honras ao herói, para o qual é indicada
à presidência a figura de D. Parodi, com a participação,
por direito, dos presidentes de todas as “sociedades
italianas” de Buenos Aires, e “daqueles que justificassem
terem feito parte da Cruzada dos Mil” (presente em Buenos
Aires, Torre Torelli), depois a construção,
na capital argentina, de um monumento a Garibaldi ao lado
daquele de Mazzini, e, enfim, a realização das
honras fúnebres com um simples ritual civil e com uma
“procissão cívica”24.
De fato, o auge dessas iniciativas em Buenos Aires será
o cortejo “garibaldino” cuja data é fixada
para o dia 25 de junho. A manifestação é
promovida e organizada pela associação “Voluntários
Garibaldinos”, com o envolvimento de todas as sociedades
italianas presentes na capital25. Os “garibaldinos”
reúnem-se na “Stella di Roma” e “decidem
formar um pelotão de 40 ex-voluntários com uniforme
garibaldino, e que irão encabeçar a manifestação
e serão a guarda de honra do troféu sob o arco
da Recoba [onde foi montada uma espécie de câmara
ardente].”26
O cortejo será acompanhado por grande parte dos italianos
em Buenos Aires e os “garibaldinos” marcharão
em ordem militar com as armas em punho fornecidas para a ocasião
pelo exército argentino, seguidos por representantes
da sociedade italiana portenha, representantes maçônicos
locais27, e por simples imigrantes solidários com a
figura do “seu” herói nacional, o que realçava
o fato de pertencer à terra e à pátria
longínqüa. Nesta ocasião, esquecem os motivos
do “exílio” e também as divisões
sociais, econômicas e ainda de classe deixadas na Itália.28
No que diz respeito ao Brasil, e em especial aos estados meridionais
onde Garibaldi viveu e atuou, as fontes disponíveis
atualmente não permitem encontrar a narrativa dos eventos
verificados na ocasião de sua morte. Por outro lado,
é provável que a mesma difusão na imprensa
de língua italiana, ou seja, na comunidade que melhor
podia assinalar o ocorrido, tenha sido posterior a 1882, especialmente
no Rio Grande do Sul e em Caxias do Sul, sendo esta última
um centro ativo sob este ponto de vista29.
Totalmente diferente é o registro do impacto da morte
de Garibaldi na comunidade italiana e local do Uruguai. Em
Montevidéu, quando, em junho de 1882, chega a notícia
da morte de Garibaldi, a emoção é grande.
A folha de inspiração mazziniana (em língua
italiana) da capital do Prata, L´Italia (ou
L‘Era Italiana), dirigida por Luis Desteffanis30
e por Joaquin Odicini, filho de Bartolomeo, o médico
da Legião Italiana de Garibaldi 31, dá a notícia
com poucas palavras:
“Dominados pelo mais profundo pesar, comunicamos
aos nossos leitores uma dolorosa notícia que chegou
esta manhã de Gênova. Ontem, 2 de junho, morreu
em Caprera o General Giuseppe Garibaldi. O nosso estado de
ânimo não nos permite adicionar nem mais uma
palavra a esta terrível desgraça que afunda
a Itália no luto. Até amanhã.”
Identifica-se o apelido “General” entre as
palavras de comoção do órgão dos
republicanos italianos de Montevidéu. De fato, a experiência
militar de Garibaldi assume uma importância relevante
na imprensa ítalo-uruguaia, e parece prevalecer –
na verdade tanto antes da morte como em vida – na hereditariedade
político-ideológica. Um Garibaldi “general
e comandante que se também na Itália
terá a sua glorificação neste sentido”
32, em terra pratense não faz somente parte do aspecto
retórico do personagem, mas funciona como trait
d´union com a tradição político-militar
da elite do jovem Estado.
Nesta primeira fase do mito garibaldino post mortem,
os italianos do Uruguai tendem a exaltar do “grande
italiano” especialmente os seus dotes militares, e,
fazendo isso, ligam idealmente o “seu” pai da
pátria ao compromisso militar executado por ele no
Prata. Da mesma forma, as autoridades políticas locais
– encabeçadas pelo presidente Maximo Santos –
rendem a Garibaldi “honras militares”, tanto que,
em 5 de junho, acontece uma manifestação oficial
em Montevidéu com um desfile de tropas uruguaias e
de garibaldinos veteranos. O cortejo vai até a Real
Representação da Itália, onde o conde
de Brichanteau, então Regente, em uma cerimônia
com a presença de todas as autoridades locais e da
comunidade italiana, faz um discurso comemorativo. O próprio
Santos encarrega-se de requisitar diretamente ao Senado e
à Câmara dos Deputados que prestem a Garibaldi
“as honras fúnebres correspondentes à
mais alta insígnia hierárquica militar.”33
Nestes primeiros dias de junho, parece que toda a numerosa
comunidade italiana de Montevidéu e a sociedade local
se encontram, mesmo no pluralismo ideológico e cultural,
unidos na dor pelo desaparecimento do herói dos dois
mundos. Mas, na realidade, o fulcro das celebrações
do herói girará em torno das iniciativas promovidas
pela Maçonaria. E, no decorrer de uma dessas cerimônias,
na loja de Garibaldi, onde tinha sido montada uma câmara
ardente aberta ao público por ordem do “venerável
em exercício” Bacciarini, ocorre um episódio
doloroso que contribuirá para aumentar as divergências
– que sempre existiram – entre os maçons
e parte da comunidade religiosa local34.
Em 11 de junho de 1882, ocorrem, nas dependências da
loja de Montevidéu, os funerais maçônicos
em nome do herói dos dois mundos. No decorrer da cerimônia,
porém, acontece um grave incêndio: no final contabilizam-se
entre os participantes do rito 18 mortos, 10 feridos gravemente
(entre os quais o próprio Venerável da loja,
Salvatore Ingenieros), e cerca de outra centena de feridos
com menor gravidade. O episódio já foi evidenciado
por alguns estudiosos35, mas é interessante seguir
o desenvolvimento – aspecto este inédito e não
explorado – da grande polêmica posterior ao acontecimento
considerado pelos maçons como criminoso e não
casual.
A imprensa de Montevidéu36 logo deu a notícia
do acontecimento, considerando-o um fato acidental, mas, nos
dias seguintes ao incidente, torna-se objeto de uma discussão
entre os católicos e os filiados das lojas do Grande
Oriente, a partir do momento que L´Italia,
na crônica dos funerais das vítimas, acusa abertamente
os “negros” [Jesuítas] de terem provocado
o incêndio.37 Naturalmente os católicos repudiam
a acusação, e nas colunas de El Bien Publico
de 15 de junho acusam L´Italia de fomentar
possíveis represálias contra eles, com perigosas
e não provadas insinuações.
Mas, se a polêmica na imprensa tende a enfraquecer-se
logo, a mesma retoma vigor quando a Maçonaria autoriza
(e provavelmente patrocina) a publicação de
um pamphlet cujos conteúdos representam um
j´accuse direcionado aos ambientes clericais
mais radicais, embora, para dizer a verdade, nas conclusões
– mesmo não deixando espaço à casualidade
– sejam indicadas mais hipóteses: da possibilidade
de um plano de furto premeditado, obra de “um fanático
inimigo das doutrinas maçônicas” 38. O
ambiente católico e a própria hierarquia não
reagem publicamente a esse enésimo ataque contra eles,
provavelmente com a intenção de acalmar os ânimos
– o que acontecerá, tanto é verdade que,
um ano depois, a própria Maçonaria uruguaia,
recordando o episódio doloroso, não acena mais
ao onipresente “complô jesuíta” contra
eles.39
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32 Ver a respeito o volume que contém as atas da
convenção promovida pelo Istituto studi e ricerca
difesa a Chiavari em setembro de 1982, F. Mazzonis (aos cuidados
de), Garibaldi condottiero. Storia, teoria, prassi. Milão:
Franco Angeli, 1984.
33 L’Italia, 6 de junho de 1882, onde é
reproduzido por extenso o decreto presidencial.
34 Na realidade, é necessário distinguir entre
a comunidade religiosa entendida em lato sensu e as posições
da Cúria e da elite católica, expressas na folha
montevideana El Bien Publico. Provavelmente a maioria do “povo”
católico não aceitava as posições
intransigentes da Cúria. Mais tarde, quando em 1910
se forma o partido católico, a União Cívica,
este obterá somente 535 votos, igual a 1,71% do total,
e nas eleições de 1913 ainda menos, 482, igual
a 0,88%. Esses dados contrastam com a vitalidade das paróquias
e dos colégios religiosos, mas dizem muito a respeito
do sentido de religiosidade da população local,
substancialmente referida à esfera privada, tanto para
os uruguaios como para os imigrantes, também italianos.
35 Conferir a respeito, em C. Rama, Garibaldi y el Uruguay,
cit., p. 71 e C. Zubillaga, Religiosità, devozione
popolare, cit., p. 134.
36 El Ferrocarril, 12 de junho de 1882, edição
extraordinária e L’Italia, 13 de junho de 1882,
Orribile catastrofe.
37 L’Italia, 14 de junho de 1882, Note dolorose.
38 S. Maciel, La noche del 11 de junio detalles sobre el desastre
en la Logia Garibaldi, Montevidéu, 1882.
39 Conferir Boletin Masonico, 5 de junho de 1883, vol. I,
n. 17, p. 283-4.
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Observando os aniversários garibaldinos posteriores
à sua morte, nota-se logo como, ao longo dos anos,
a partir de 1883, ano seguinte ao desaparecimento do herói,
inicia um percurso no qual a imagem de Giuseppe Garibaldi
assume uma certa fisionomia simbólica com diversas
iniciativas que relembram o doloroso acontecimento,
já em forma de memórias. Por exemplo, em Porto
Alegre é aberto o trecho inicial da rua Garibaldi40
e, no Uruguai, existem várias manifestações
para recordar o herói, mesmo com as diferentes concepções
entre blancos e colorados, assim como foi evidenciado41.
De qualquer maneira, em geral, parece que o aniversário
é comemorado com pouco entusiasmo, quase “desfocado”.
De fato, o impacto da hereditariedade cultural e política
de Garibaldi, nos ambientes das comunidades italianas no Cone
Sul, ocorre em 1892, no décimo aniversário de
sua morte. Porém, analisando as numerosas celebrações,
é possível constatar como o mito de Garibaldi
muda também no seu ritual, em alguns casos observando
um renovado fervor, em outros casos – a maior parte
– marcando um verdadeiro enfraquecimento evocativo.
Por exemplo, neste último aspecto vale a pena citar
o caso emblemático de Montevidéu, onde foi mais
profunda a marca deixada pela presença de Garibaldi:
o primeiro fato que aparece aqui, de uma certa importância,
é que o “Círculo Legionários e
Garibaldinos”42, fundado de modo simbólico em
Montevidéu, em 2 de junho de 1882, por 58 garibaldinos
“combatentes”43, não parece capaz de assumir
a frente das iniciativas garibaldinas devido a uma crise interna
na sua direção.
Assim, incrivelmente, os “herdeiros diretos” de
Garibaldi no Prata não conseguem – segundo documentos
– celebrar o 10° aniversário da morte do
herói dos dois mundos, e limitam-se a enviar uma mensagem
ao arquiteto e “soldado garibaldino”, Giovanni
Ferrari, referindo-se ao monumento erguido a Garibaldi, além
de reunir-se no cemitério de Buceo para inaugurar um
pequeno busto do herói, em mármore44.
Parece que o “espírito” de Garibaldi encontra
dificuldades para pairar entre os camisas vermelhas de Montevidéu,
entre aqueles que podem, mais do que todos, reivindicar a
sua hereditariedade de combatente e comandante.
De qualquer maneira, apesar da falta de iniciativa do “Círculo
Legionários e Garibaldinos”, em geral, seja em
Montevidéu ou no país, não acontecerão
celebrações de uma certa importância,
com exceção da manifestação imponente
organizada na ocasião de 20 de setembro e à
qual se quer dar o caráter, como que para diminuir
o vazio, de “homenaje de la masoneria uruguaya a José
Garibaldi”, uma iniciativa em que participaram cerca
de 15.000 pessoas, entre as quais alguns legionários
da batalha de San Antonio45.
A figura de Garibaldi, evidentemente, cria alguma tensão
dialética em um período em que, ao contrário,
as relações entre a Igreja e o Estado, no Uruguai,
mesmo não normalizadas, estão vivendo um período
de trégua relativa, e as repercussões de um
clima político alterado na Itália, em fase de
pós-ressurgimento, com a manifestação
de uma crise social e política aguda, induzem a própria
comunidade italiana imigrada a não agravar o conflito
interno.
Se, no final de 1800, as tensões entre laicos
e católicos parecem perder força no Uruguai,
é interessante notar que em outra área do Cone
Sul, já colocada em evidência e com grande presença
de imigrantes italianos de fé católica, como
aquela de Caxias do Sul, registra-se uma violenta polêmica
entre a parte laica da sociedade e a Igreja local.
A discussão não acontece sobre a interpretação
da figura de Garibaldi, mas vale a pena repetir os termos
do conflito porque dizem respeito aos temas ligados à
identidade político-cultural da comunidade italiana
imigrada.
Em 1897, em Caxias do Sul, inicia-se um trabalho de constituição
das sociedades católicas por obra do vigário
Pietro Nosadini. Em 14 de outubro do mesmo ano, acontece a
primeira assembléia geral da Federação
Católica caxiense com a participação
de cerca de 800 pessoas46. A ação política
de Nosadini e dos católicos locais é intensamente
caracterizada por uma discriminação contra o
componente laico da sociedade local, tanto que o próprio
vigário sugere explicitamente aos católicos
locais que não participem das comemorações
pelo 20 de setembro porque “ali [na sede da sociedade
mutualista não católica de Caxias] era exposta
a bandeira social do Mútuo Socorro”47. Um comportamento,
portanto, profundamente contrário às instâncias
republicanas e democratizantes por parte da comunidade local.
Com o mesmo propósito, é emblemática
a crítica, retirada do jornal mensal católico
de Caxias, na data de Primeiro de Maio, quando, durante
a festa dos trabalhadores, presentes 150 operários,
acontece um comício socialista48.
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40 N. Santoro de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti
del Risorgimento italiano, cit., p. 124.
41 Conferir C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p.73-74.
42 Na sede dell’Associazione Nazionale Combattenti e
Reduci Italiani (ANCRI) de Montevidéu são conservados
materiais de arquivo, em parte disponíveis em microfilme
na CEMLA de Buenos Aires.
43 O original do Estatuto e a lista com os nomes dos sócios
encontram-se no Arquivo do ANCRI, Corrispondenza 1901-1905.
44 Os discursos para celebrar serão feitos pelo presidente
do círculo, Antonio Bandino, e pelo representante da
loja Garibaldi. Conferir Arquivo do ANCRI, Livro de Ata e
processos verbais 1892-1909.
45 Conferir. A. Ardao, Razionalismo y Liberalismo en Uruguay,
Publicaciones de la Universidad, Montevidéu, 1962,
p. 262-3 e C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p. 75-6.
46 Il Colono Italiano, boletim católico mensal, n.
1, 1°de janeiro de 1898.
47 Ver O Caxiense de 6 de novembro de 1898.
48 Il Colono Italiano de 15 de maio de 1898.
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O comportamento intransigente do vigário apostólico
e dos católicos caxienses parece de algum modo ser
minoritário, ou, pelo menos, um elemento de grande
distúrbio da harmonia da comunidade italiana local.
Tanto é verdade que também sob pressão
das autoridades locais o prelado é obrigado a deixar
Caxias do Sul por Porto Alegre; mesmo assim, “abandonando”
ob torto collo a cidade de Caxias, em fevereiro de
1899, Nosadini não deixará de evocar sua ação
às diretivas de Leão XIII, sobre a constituição
das associações católicas e do tipo de
ação a ser desenvolvida entre os fiéis
e os cidadãos49.
Continuando, então, a seguir os traços da evolução
do mito de Garibaldi na área pratense, eis que, no
final do século, encontra-se outra etapa significativa
deste percurso, mesmo que aqui seja considerado apenas em
seu caráter essencialmente comemorativo, isto é,
o 50° aniversário da batalha de San Antonio del
Salto, um evento que sempre assumiu, para os italianos no
Prata, o caráter emblemático da contribuição
trazida pela comunidade à construção
do Uruguai moderno. Ao contrário daquilo que se poderia
pensar, em fevereiro de 1896, observa-se como a imprensa de
língua italiana não enfatiza de modo especial
este aniversário. Provavelmente as razões disso
sejam devido ao clima geral que se respira, isto é,
o da guerra da África.
Realmente, a imprensa local é mais orientada a evidenciar
a crônica das façanhas bélicas que determina
um grande interesse entre os nossos conterrâneos, além
de uma substancial unidade de opinião. Além
disso, não parece secundária a avaliação
de que talvez, para os republicanos e os garibaldinos locais
(estes também favoráveis à intervenção
italiana na África), certamente não era fácil
explicar a ênfase dada aos valores implícitos
no episódio garibaldino da batalha de San Antonio –
de liberdade e independência – com aqueles de
metas opostas, da empresa colonial e imperialista da Itália.
Eis, então, que aos cronistas da folha italiana de
tradição republicana não resta, depois
de ter resumido a crônica da épica batalha vencida
por Garibaldi, outra alternativa que usar os tons retóricos
habituais, além de tudo reforçados por um inédito
e adoçado cultismo: “Espírito nobre e
generoso tu [Garibaldi] e os teus companheiros de armas, mostraste
em San Antonio del Salto que o antigo valor latino difundiu-se
pelo sangue dos italianos de hoje e por vossa obra a Itália
se fortificou.”50
Também este episódio confirma a situação
de dificuldade em que, periodicamente, vem-se a encontrar
a comunidade italiana em Montevidéu, ou parte desta,
toda vez que os acontecimentos na pátria encontram
reverberação no complexo processo de construção
de uma identidade nacional fora da península. Ainda
no que diz respeito à celebração da batalha
de San Antonio e das façanhas militares do herói
dos dois mundos e dos seus seguidores, deve-se recordar que
esta serve também para consolidar, ano após
ano, a ligação política ideal entre a
tradição garibaldina e os olorados,
uma estreita relação que encontrará,
mais tarde, com a subida ao poder de José Batlle y
Ordóñez, no início do novo século,
o seu revigoramento ideal.
Em relação ao tema do desenvolvimento do mito
garibaldino na outra margem pratense, na Argentina, nota-se
que aqui não se vai além de uma retórica
de fachada e, no fundo, procede-se a uma série de operações
de caráter nominalista; por exemplo, a nomeação
de Giuseppe Garibaldi para presidente honorário de
numerosas associações mutualistas ou de instituições
do país, como no caso de Rosário, onde, em 1893,
a colônia italiana dotou-se de um “seu”
hospital que será dedicado ao herói dos dois
mundos51.
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48 Il Colono Italiano de 15 de maio de 1898.
49 A carta de Nosadini aos cidadãos de Caxias é
publicada sob forma de panfleto. Cópia no Arquivo Histórico
Municipal de Caxias do Sul.
50 L’Italia al Plata, 8 de fevereiro de 1896, Il Giubileo
di Sant’Antonio.
51 Conferir. E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo, cit.,
p. 365.
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Novos e velhos significados do mito no início
de 1900
Com a chegada do novo século, e sem nenhum aniversário
especial de Garibaldi a ser celebrado, os garibaldinos e seus
adeptos empenham-se em terminar alguns projetos iniciados
nos anos precedentes, essencialmente ligados à consolidação
“visual” da memória de Garibaldi, através
da construção de monumentos, inaugurações
de ruas e praças em vários centros, com uma
data altamente simbólica à frente: 4 de julho
de 1907, primeiro centenário do nascimento de Giuseppe
Garibaldi.
A história da construção de monumentos
dedicados à figura de Garibaldi (e também de
Anita) mereceria uma reconstrução mais minuciosa,
mas, nesta ocasião, interessa antes de tudo observar
como essa “atividade” incide no tecido político
e cultural das comunidades ítalo-americanas e nos ambientes
locais. Por exemplo, em Montevidéu, os “camisas
vermelhas” locais, espíritos (divindades) tutelares
da imagem do herói dos dois mundos, comprometeram-se
a convencer as autoridades locais sobre a necessidade de tornar
“visível” a presença de Garibaldi
na capital da República Oriental. E os seus esforços
são premiados em 1900, quando é colocada a primeira
pedra de um monumento nacional à memória de
Garibaldi com um discurso inaugural de Pietro Gori52, incansável
organizador do movimento anárquico entre os imigrados
italianos nas duas margens do Prata, nos anos de virada de
século.
Na realidade, a obra – projetada pelo escultor espanhol
Augustin Querol, e financiada em parte com 10.000 pesos colocados
à disposição pelo governo, já
em 1883 – não verá nunca a luz por diversas
circunstâncias. A causa principal deve ser pesquisada
no prematuro desaparecimento do escultor, provavelmente, mas
não menos determinante para o insucesso da iniciativa
será a permanente oposição à realização
do projeto por parte dos blancos, que continuavam
a considerar Garibaldi um mercenário estrangeiro e,
por isso, não merecedor de um monumento nacional: uma
linha intransigente que leva, em 1906, ao episódio
da clamorosa reprovação do monumento, no Parlamento,
e à reabertura de uma áspera polêmica
sobre a questão entre blancos e colorados53.
Também em Porto Alegre o projeto de erguer um
monumento a Garibaldi encontra algumas dificuldades, tanto
que, depois de ter iniciado em 1907 uma subscrição
pública para a construção do monumento
comemorativo ao centenário do nascimento (simultaneamente
com a intitulação a Garibaldi da praça
destinada a hospedar a obra de mármore), a obra definitiva
virá à luz somente seis anos depois, mesmo que
com grande participação por parte da colônia
italiana54. O monumento apresenta uma particularidade interessante:
“Garibaldi não é apresentado com o
uniforme habitual. Garibaldi agora é o revolucionário
farroupilha, veste o poncho e comparece na companhia de Anita,
a mulher guerreira.”55
Mais sorte teve a construção de um monumento
a Garibaldi na capital federal. A primeira pedra é
colocada em 1898, mas é preciso esperar alguns anos
antes de ver a obra concluída. Além disso, a
realização do monumento encontra resistências
por parte de alguns setores políticos do parlamento
argentino, que não consideram o herói protagonista
e participante da história argentina e, conseqüentemente,
indigno de ser recordado com uma obra daquele tamanho56. Finalmente,
o monumento, uma estátua eqüestre do escultor
C. Mascagnani é completado e, em 18 de junho de 1904,
no bairro Palermo, em Buenos Aires, acontece a cerimônia
de inauguração, na presença do presidente
da República, Julio A. Roca57.
Depois deste breve excursus sobre a evolução
do mito também através dos acontecimentos da
iconografia, vale a pena concentrar a atenção
nas celebrações pelo centenário de nascimento
de Garibaldi, em 1907.
No Uruguai, em julho de 1907, ocorrem manifestações
em honra do herói em todo o país; especialmente
no dia 4, as ruas da capital encontram-se repletas de “garibaldinos”
que dão vida a um imponente cortejo com mais de 40.000
participantes que atravessa toda a cidade. A manifestação
conclui-se com uma comemoração oficial, no teatro
Urquiza, na presença das principais autoridades do
Estado, de representantes da comunidade italiana e dos maiores
expoentes do socialismo local, entre os quais Emilio Frugoni,
e também do anarquismo, como o poeta Angel Falco58.
As celebrações acontecem em um clima especialmente
favorável ao ambiente garibaldino, até porque,
não esqueçamos, o batllismo favoreceu
e exaltou sem reservas os aspectos ideais do garibaldinismo,
tendo, além de tudo, o cuidado de valorizar as
experiências da elite ítalo-uruguaia nos vários
setores da sociedade.
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52 Conferir G. Marocco, Sull’altra sponda del Plata,
cit., p. 77.
53 Do quanto é possível reconstruir a partir
da documentação, os únicos monumentos
a Garibaldi de um certo nível serão inaugurados
em Montevidéu, em 1933, depois da posse de Gabriel
Terra e não sem ásperos contrastes entre os
colorados e os blancos (a propósito ver idem, p. 77-78,
n.16) e em 1934, em Salta, pela iniciativa e pressão
do cônsul fascista no Uruguai, Serafino Mazzolini, recém
chegado do Brasil. Mazzolini teve que solicitar – e
em alguns casos ameaçar – as comunidades italianas
espalhadas pela república pratense a fim de dar sua
contribuição material à realização
do monumento a um “dos pais da pátria e primeiro
artífice da irmandade ítalo-uruguaia”,
como afirmou em mais de uma ocasião. Pelo assíduo
comprometimento de Mazzolini, a propósito, ver a abundante
correspondência endereçada aos representantes
das várias comunidades conservada no Arquivo ANCRI,
Correspondência Recebida 1928-1933.
54 N. Santoro de Constantino, O Italiano da Esquina, cit.,
p. 50.
55 ID, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento italiano,
cit., p. 124.
56 A propósito, ver os detalhes do debate exaltado
ocorrido em julho-agosto de 1897 na Câmara dos Deputados,
relatado, em partes, em J.B. Tonelli, Garibaldi y la masoneria
argentina, cit., p. 56-58.
57 Para a crônica da cerimônia, ver idem, p. 60-61.
58 Para a crônica destes acontecimentos, ver L’Italia
al Plata de 4 e 5 de julho de 1907.
59 C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p. 125.
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Em termos mais ideológicos, observou-se que “El
jacobinismo batllista con un sentido democratico de la vida
politica, su anticlericalismo, su organizacion popular favorable
a los nuevos apellidos, su populismo en una palabra, receuerda
insistentemente al radicalismo garibaldino.”59 Além
disso, neste julho dedicado à memória de Garibaldi,
o próprio presidente da República, Cláudio
Williman, sucedido em março, em Batlle, será
fiel à longa e profunda ligação entre
os colorados os garibaldinos participando pessoalmente
às mais importantes manifestações organizadas
pelo “Comitê Executivo” pelas comemorações
do 1o centenário do nascimento de Garibaldi, com Paolo
de Maria na presidência, e às quais aderem grande
parte das sociedades mutualistas italianas, numerosos clubes
colorados, liberais, socialistas e anarquistas do Uruguai60.
Obviamente a imprensa de inspiração laica
de língua italiana e local dá uma grande ênfase
aos eventos garibaldinos, enquanto que os jornais católicos
da capital, a começar por El bien Publico,
ignoram completamente o acontecimento61.
É interessante notar como, não muito longe
de Montevidéu, no sul do Brasil, acontecem as celebrações
do “centenário”. Além do episódio
citado do monumento a Garibaldi em Porto Alegre, parece que
a maior parte das iniciativas efetua-se no Rio de Janeiro.
A comunidade ítalo-brasileira da metrópole carioca
já em junho procura uma unidade de intenções
quanto às celebrações garibaldinas.
La Voce d´Italia, o semanal em língua italiana
do Rio, “órgão da Colônia Italiana
do Brasil” (de tendência liberal, anticlerical,
não maçônico, mas também simpatizante
da monarquia), dirigido por Giovanni Luglio, preocupa-se em
reatar os fios de uma memória garibaldina que tenda
a dar uma unidade unitária à comunidade italiana;
já em 2 de junho de 1907, na ocasião do aniversário
de morte do herói, apresenta um editorial intitulado
“Per Garibaldi”, onde são enfatizados os
valores que unem os italianos em terra brasileira e dá-se
o anúncio de que a preparação das iniciativas
é coordenada pelo cônsul, o Marquês L.
Centurione.
Depois de pouco tempo é publicado um “manifesto
patriótico” que o “Comitê
do Rio de Janeiro para o Centenário” dirige aos
“conterrâneos e aos indígenas”, que
vale a pena transcrever por extenso:
“Cidadãos! A nação italiana comemora
no dia 4 de julho o 1° centenário do nascimento
de Garibaldi, que foi o fermento mais generoso da sua história,
o fator mais heróico da sua unidade política
e civil. Mas o espírito de Garibaldi deixou as fronteiras
da pátria para unir todos os povos oprimidos atrás
de uma bandeira, sol de reivindicação e de justiça,
difundiu-se com os primeiros e maravilhosos impulsos do seu
gênio e do seu altruísmo no continente americano
e, especialmente na terra brasileira, onde encontrou a sua
gêmea na incomparável Anita, uma filha do povo
que não foi inferior a ele no heroísmo, na abnegação
e no sacrifício.
E Garibaldi nesta terra não pode ser e não pode
ser chamado de estrangeiro.
Nós o recordaremos e glorificaremos como apóstolo
de irmandade humana e como símbolo de vínculos
sacros que nos unem à nação brasileira;
e estamos certos que naquele dia [4 de julho], unidos pela
gratidão, pelo amor e pelo entusiasmo, italianos e
brasileiros com o espírito consciente de destinos comuns,
concorreremos à grandiosa apoteose que o mundo civil
consagra ao Herói dos Dois Mundos.”62
E, de fato, em 4 de julho de 1907, acontece no Rio de
Janeiro uma bela manifestação da comunidade
italiana, da qual também participarão as autoridades
brasileiras; inicia entre os dias 3 e 4 com fogos de artifício
e, pela manhã, depois de uma reunião nos salões
da “Sociedade Italiana de Beneficência”,
entre associações, representações63
e bandas musicais, um cortejo, encabeçado por cinco
sobreviventes garibaldinos, avança pelas ruas do Rio
até o teatro São Pedro, onde se realizam os
comícios comemorativos oficiais.
Em outros centros desenvolvem-se também iniciativas
para celebrar o centenário do nascimento, como em Juiz
de Fora e em Bragança, além de São Paulo,
onde é inaugurada uma lápide comemorativa com
a epígrafe escrita por Guglielmo Ferrero.
Enfim, parece que, no Brasil, ao menos na parte meridional
do país, onde viveu e atuou Garibaldi, o primeiro centenário
do nascimento do herói dos dois mundos celebrou-se
com um discreto sucesso, a ponto de consolidar
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62 La Voce d’Italia de 14 de junho de 1907.
63 As associações que aderem são: a Società
Italiana di Beneficenza e Mutuo Soccorso, a Fuscaldese Umberto
I, a Fratellanza Massonica, o Centro d’Istruzione Principe
di Piemonte, a Internazionale di Beneficenza Umberto I, o
Circolo Operaio Italiano, a Lega Operaia Italiana. Também
aderem os jornais italianos do Rio de Janeiro La Voced’Italia
e Il Bersagliere. Ver La Voce d’Italia de 4 de julho
1907. |