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Mensagem do Ministério Público
Mauro Henrique Renner
 
Mensagem do Ministério Público
Ricardo Vaz Seelig
 
Palavra dos Editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
 
Apresentação
Roberto Speciale
 
Introdução
Annita Garibaldi Jallet
 
O mito de Garibaldi: origem e significados no Cone Sul até 1907, ano do centenário de seu nascimento
Pietro Rinaldo Fanesi
 
Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para a América Latina
Maria Pace Chiavari
 
O “aprendizado” de Garibaldi na América Latina: a “scuola delle palle” e a “escola moral”
Anna Maria Lazzarino Del Grosso
 
Garibaldi: republicano e revolucionário internacional
Carmen Lícia Palazzo
 
Memória de Garibaldi e a construção da identidade entre italianos no
Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
 
A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário da Revolução Farroupilha
Rosemary Fritsch Brum
 
Garibaldi: a gênese do mito
Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
 
Garibaldi na América do Sul
Yvonne Capuano
 
Livro Completo
 
 
 
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Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi
para a América Latina


Maria Pace Chiavari*

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Graduada em Arquitetura pela Universidade de Florença (Itália), pesquisadora da história dos italianos no Brasil do Século XIX, trabalha no Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro

Ao desembarcar no Brasil, em 1835, Garibaldi encontrou no Rio de Janeiro um espaço geográfico e um meio político-cultural favoráveis ao cumprimento das atividades que tinha se proposto realizar com a vinda ao país. A tentativa de reconstituir a breve estada carioca do jovem mazziniano visa a mostrar como o Rio de Janeiro aparece aos olhos do recém-chegado e como o seu progressivo entrosamento na vida local é capaz de revelar sua personalidade, despojada de qualquer mito.

 A falta de interesse, tanto por parte da historiografia italiana quanto da brasileira, sobre a etapa carioca de Garibaldi deve-se, talvez, à pouca consideração atribuída pelo próprio Garibaldi a este período, ao escrever, muito anos depois, as suas memórias1. Frente aos grandes sucessos e reconhecimentos pessoais obtidos nas lutas de libertação da Itália, no momento de transmitir às futuras gerações a história de sua vida, o herói dos dois mundos preferiu fortalecer sua personagem, apagando momentos de sua formação humana e política pelos quais era devedor ao grande mestre e concidadão Giuseppe Mazzini.

A viagem de Garibaldi ao Brasil – após a condenação à morte por seu envolvimento na conspiração de 1834, em Gênova – é freqüentemente apresentada como uma fuga, resultado de uma aventura pessoal. Entretanto, depreende-se da releitura das cartas escritas pelo próprio Garibaldi neste período, bem como das informações constantes nos jornais e nos relatórios dos representantes dos Estados Italianos no Brasil, ter sido Mazzini o organizador da vinda de Garibaldi ao Rio.

De fato, após várias tentativas frustradas de organização das lutas de independência italiana, o grande teórico de uma Itália livre e republicana decidiu priorizar o projeto europeu, universalista e messiânico por ele concebido. Um projeto aberto a toda a humanidade, no qual à Itália era reservada uma missão entre os povos. A primeira providência de Mazzini foi ativar, no estrangeiro, associações que perseguissem os ideais de liberdade e fraternidade da Giovine Italia, por ele fundada em 1834. Após a Congrega central, em Paris, seguiram-se outras, em países com relativa concentração de italianos, como foi o caso, entre outros, da Bélgica, Espanha, Turquia e, além mar, Estados Unidos, Cuba, Venezuela, Equador, Argentina, Uruguai e Brasil.

Formou-se, desse modo, uma densa rede internacional de correspondentes e viajantes que levavam, de um lado ao outro do oceano, bandeiras e cartas com as palavras de Mazzini. Além de divulgar os novos princípios e os ideais patrióticos, esta rede tinha por objetivo obter apoio financeiro dos afiliados ou simpatizantes mais abastados e formar uma reserva de militantes dispostos, no momento certo, a voltar para a Itália e libertar o país do domínio estrangeiro.

No âmbito desta missão, Mazzini decidiu confiar um importante papel a Garibaldi, pelo entusiasmo e espírito de liderança revelados durante as revoltas de Gênova, assim como na sua iniciação aos princípios da Giovine Europa.2 Os posteriores desentendimentos entre os dois principais personagens-símbolo da unidade e independência da Itália – motivados pela aproximação de Garibaldi à monarquia sabauda, atitude interpretada por Mazzini como uma traição a ele e aos princípios republicanos – ofuscarão o intenso relacionamento deste primeiro período.

A escolha da outrora capital do Brasil como meta do jovem lígure, justifica-se por sua localização estratégica na rota dos navios da marinha mercante do Reino de Piemonte e Sardenha para Montevidéu e Buenos Aires. Outro fator que deve ter influenciado a preferência pelo Brasil foi a efervescência da situação política no período de Regência (1831-1840), definida por alguns historiadores3 como uma inusitada “experiência republicana” no interior do Império, devido à menoridade de D. Pedro II. E não se pode minimizar o interesse econômico, uma vez que, neste período, as novas riquezas produzidas pela expansão cafeeira na região movimentavam o porto do Rio de Janeiro e as atividades comerciais a ele relacionadas.

Entre o Rio de Janeiro e Gênova – e, por extensão, toda a região da Ligúria – havia uma antiga ligação marítima que se estreitou ainda mais após o Tratado de Viena (1815), quando Gênova se tornou o porto do Reino de Piemonte e Sardenha, e os navios lígures passaram a constituir a Marinha Sabauda. Na comunidade italiana então existente no Rio, a presença lígure era preponderante, construída através uma rede de relações pessoais, ligações familiares e de trabalho ou simples afinidades de ideais.

Liberais e carbonaros procedentes de outros estados da Itália, após os movimentos de 1821, 1831 e 1834, integravam-se igualmente. Tal conformação política e social tornava tênue a distinção entre patrícios, marinheiros, exilados ou emigrantes, assim como a diferença entre os provenientes dos diversos estados nos quais a península italiana estava então dividida. A importante trajetória desta colônia carioca – que vivia a unidade e a independência da Itália quase trinta anos antes de sua unificação oficial – ainda é pouco conhecida, mas faz parte da história do Risorgimento italiano.

A imprensa representava para os patrícios italianos um elo de ligação com a terra distante. Jornais cariocas às vezes reportavam notícias sobre a situação política da península italiana e alguns, relatando as lutas de um povo submetido, no próprio país, aos poderes de invasores estrangeiros, defendiam os ideais de liberdade, dos quais Garibaldi se tornou o símbolo. No início de cada novo ano, o Jornal do Commercio – diário carioca de grande difusão, em particular no meio marítimo e comercial, por informar sobre os movimentos diário dos navios, assim como sobre a entrada e saída das mercadorias destinadas a importação e exportação - relacionava os principais eventos ocorridos no país e no mundo durante o ano anterior. Em 2 de janeiro de 1835, na rubrica dedicada às notícias do exterior, estavam retratados os movimentos italianos de 1834:

“À par da Áustria forçoso lembrar a Itália, onde as baionetas dos soldados húngaros prestes a ferir toda a vez que as encantadoras recordações da Republica Romana... fação ardir de novo nos briosos peitos dos seus descendentes o desejo de recuperarem huma porção da antiga independência. Agrilhoar a imprensa, lançar em humildes masmorras os escriptores mais ousados, escravizar os patrióticos filhos da Jovem Itália eis a tarefa dos executores subalternos das vontades austríacas.”

No mesmo número, comentavam-se as insurreições dos polacos no Reino Sabaudo:

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2 Mazzini, referindo-se à conspiração de Gênova e a fuga de Garibaldi para se salvar , numa nota escreve “Daquele dia eu o conheci. Seu nome de luta era Borel” em Scritti di Giuseppe Mazzini. Ed Daelliana vol.III Politica p.334.

3 BASILE DE CAMPOS, MACEDO OTÁVIO NERI, O Império em construção; Projetos de Brasil e Ação política na Corte regencial, doutorado IFCS Instituto de Filosofia e Ciências Sociais - UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2004, p.15.

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“Na Itália ainda o espírito de liberdade não pode respirar. O despotismo Austríaco e Sardo continua a oprimir com mão de ferro aquele povo digno de melhor sorte.”4

É interessante sublinhar a peculiar atitude de abertura do Brasil, neste momento histórico, em relação à liberdade dos povos oprimidos. Paul Frischauer, em Garibaldi herói de dois mundos5, observa que, neste período muito turbulento da Regência, a monarquia mantinha-se, graças a um “liberalismo incompreensível para todo europeu reacionário”. A liberdade de imprensa favorecia o aparecimento de novos jornais que exprimiam às claras a opinião pública. De fato, tal “liberdade” era um meio para “controlar e dobrar as arestas dos opositores”6, aos quais era oferecido o direito a se exprimir. A impermeabilidade de tais notícias e pensamentos à maioria da população devia-se ao alto nível de analfabetismo.

No que se refere aos problemas internos do país, o mesmo Jornal do Commercio, no dia 5 de janeiro de 1835, limitando-se a um breve comentário crítico no final, publica na íntegra um artigo tratando da Revolução Farroupilha, extraído do jornal Continentista, de Porto Alegre, periódico dos revolucionários que incitava o povo à rebelião:

“ (...) reuni-vos (...) aos beneméritos coronéis Bento Gonçalves, Bento Manoel Oliveira Ortiz e mais patriotas que vos conduzirão ao campo de honra, os quais devem desconfiar de quaisquer prometimentos da parte do traidor Gabinete do Rio de Janeiro.”


Mesmo no que se refere à cultura e diversões, no programa do Teatro Constitucional Fluminense daquele ano constam peças cujos assuntos vertem sobre temas liberais, como Independência dos Estados Unidos e Heroísmo das mulheres.7

No dia 12 de outubro de 1835, o padre Diogo Antônio Feijó, criador do novo partido dos Progressistas, assume a Regência e estende seu mandato até 19 de setembro de 1837, cobrindo, curiosamente, o período da permanência de Garibaldi no Rio de Janeiro.

Na seção do Jornal do Commercio do dia 23 de novembro de 1835, registro da chegada ao porto do brigue francês Nautonier, de 205 toneladas, comandado pelo mestre P. Beauregard, conforme relatos do próprio Garibaldi em suas Memórias8 O jornal não menciona a lista de passageiros. É possível que Garibaldi tenha entrado no país com falsa identidade, tendo sido a sua condenação à morte publicada nos jornais franceses.9

Entretanto, a chegada de Garibaldi ao Rio era esperada. Mazzini, de fato, tinha comunicado com antecedência por cartas aos seus partidários10 aNúnciando o embarque de Borel no navio Nautonier, devendo os mesmos recebê-lo e tomar eventuais providências cabíveis. O codinome Borel11, assumido por Garibaldi como era a norma no momento da iniciação na associação mazziniana, foi sempre utilizado por ele no epistolário brasileiro.12

No Rio, em 25 de janeiro de 1836, Garibaldi escreveu para Luigi Canessa13, afiliado da Giovine Italia em Marselha, contando-lhe que, graças às cartas de apresentação dirigidas aos companheiros cariocas que ele tinha lhe confiado na França antes de sua viagem, desde sua chegada nesta cidade sentiu-se como se estivesse morando aqui há muitos anos.

Uma viva descrição das primeiras impressões do Novo Mundo – bem como das decepções diante das dificuldades encontradas para realizar as tarefas das quais estava encarregado – está na carta escrita no Rio de Janeiro, datada de 27 de janeiro de 183614, e dirigida a Mazzini, dois meses após sua chegada.

Conforme instruções recebidas, Garibaldi encontrou-se com Giuseppe Stefano Grondona, que pertencia à leva dos mais antigos residentes no Rio de Janeiro. Tendo chegado em 1815, Grondona foi expulso em 1823 por suas idéias revolucionárias, mas retornou em 1834, beneficiando-se do clima mais liberal da Regência. Inspirado na Giovine Itália, Grondona fundou no Rio de Janeiro a Società Filantropica Italiana. Tal histórico justificava o fato de Mazzini tê-lo escolhido como seu referente direto no Rio. Garibaldi devia, portanto, entregar-lhe todo o material “político” trazido da França, mais alguns “bônus”, talvez financeiros, para a constituição da iovine Itália, fração da Universal Giovine Europa.15

A Grondona competiria o título de presidente da nova associação. As eleições para presidente organizadas por Garibaldi junto aos outros “irmãos” – era esta a forma convencional com a qual se tratavam entre si os afiliados à Giovine Italia, e que fazia parte da tradição das sociedades secretas, como a Maçonaria – confirmaram o previsível resultado. Mas, o comportamento do presidente recém-empossado surpreendeu a todos pela sucessiva publicação de insultos e maldades sobre seus eleitores. E ainda mais grave foi Grondona ter dado prova do total esquecimento do juramento de irmandade vitalícia proNúnciado no momento de sua eleição.16

Para Garibaldi, que tinha se jogado de corpo e alma nessa atuação política, por vezes difícil devido à sua índole de homem prático e pouco apto a formulas doutrinárias, foi um golpe inesperado. Na carta que escreveu a Mazzini, responsabilizou pela frustrada iniciativa o “gênio quase infernal” de Grondona, dono do “mais inconciliável e mexeriqueiro caráter que podia existir neste mundo”, sem aduzir qualquer outro comentário, talvez para não magoar ainda mais seu mestre. O caráter provocador de Grondona aparece já em 183417, quando na redação de uma petição oficial para obter a licença para fabricar sorvetes, utiliza como máxima “ao gosto sensual dos gelatos”. A petição foi considerada pelas autoridades brasileiras “imoral e anticonstitucional”, tendo sido, portanto, indeferida.

Garibaldi, então, dedicou-se a ampliar aquela que ele definiu na carta a Mazzini como a “imortal Giovine Europa”. Neste caminho, descobriu novos companheiros e, neles, uma grande virtude, “a dignidade”, compensadora da frustração que lhe causou a primeira tentativa. Na sua vivência quotidiana na cidade, conforme descrito na carta, percebeu que “neste país os italianos não são muito amados, mas não são considerados covardes”. O que incomodava, nesta época, os brasileiros era que os italianos, à diferença de outros emigrados, portugueses ou árabes, não possuíam um clichê determinado, eles eram, no que se refere ao trabalho, multiformes18 e, portanto, ambíguos. Tal característica pode ser verificada no próprio Garibaldi, marinheiro, comerciante, político e revolucionário, bem como em seus companheiros de luta, para os quais a atividade profissional era apenas uma maneira de sobreviver: a importância estava na personagem em si, não na profissão.

Aos poucos, amplia-se o círculo de afiliados e, sobretudo, de amigos de Garibaldi. O Rio era, na época, uma cidade relativamente pequena, e os novos companheiros moravam e trabalhavam nas imediações do porto, fulcro de todas as atividades. Suas residências costumavam abrir-se para acolher os refugiados italianos recém chegados. Na Rua Fresca no 7 morava, num sobrado, Luigi Delle Case (ou Delecasi)19, capitão e armador, também originário de Gênova, de onde fugiu após os movimentos de 1834. É possível que Garibaldi e o estudante Rossetti, num primeiro momento, tenham se hospedados na casa dele.20

Uma sobrinha da senhora Delle Case, talvez Anita de Lima Barreto que, segundo relatado pelo Cenni21, acompanhou o casal de tios em suas viagens pelo mundo e aprendeu onze idiomas, graças ao ensino do “extravagante” Delle Case, contou ao biógrafo Virgilio Várzea, apreciado cronista do jornal O País, ter encontrado Garibaldi na casa dos tios. Assim ela o descreveu: “Era um rapaz louro e forte que se distinguia dos compatriotas por uma expressão de viva inteligência e fisionomia pensativa”.22

Outro genovês que chegou ao Rio alguns meses antes de Garibaldi foi Luigi Rossetti, discípulo de Mazzini, cuja casa na Rua do Carmo se tornou um novo centro de hospedagem. A vivacidade e a emoção expressas nas memórias pelo autor23 ao falar de Rossetti demonstram a importância que Garibaldi atribuía à amizade em geral, em especial àquela com Rossetti, nascida a partir do primeiro encontro no Largo do Paço. Ambos lígures, mas com expressiva diferença de temperamento e de formação: Rossetti culto e racional, com 26 anos, e Garibaldi aventureiro e explosivo, com 28; homem de letras o primeiro e de mar o segundo. Tal diversidade permitiu que, da complementaridade e do comum ideal, nascesse um forte entrosamento.

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24 Ibid. 13 p.8.

25 Ibid. 2 p.16.

26 Ibid. 20 p.12

27 CURATOLO, Giacomo Emilio. Il dissidio tra Mazzini e Garibaldi Milão: Mondadori, 1928, p.44.

28 Jornal do Commercio, 5 de janeiro de 1836.

29 Ibid. 6 p.63.

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Além de Rossetti – que se tornou seu inseparável companheiro de viagem – na carta para Mazzini são apresentados como os mais próximos colaboradores de Garibaldi, Gian Battista Cuneo, Domenico Terrizzano e Giacomo Picasso. Cada um é citado pelo próprio nome seguido, entre parêntesis, pelo apelido de combate, assumido no momento de sua entrada na Giovine Itália.

Gian Battista Cuneo (“Farinata degli Uberti”), era genovês e da mesma geração de Garibaldi, tendo à época 27 anos. Ele havia se envolvido nos movimentos de 1833-34. Chegara ao Rio em janeiro de 1835 e foi trabalhar na casa de comercio de um seu primo. À mesma turma dos genoveses pertencia também Terrizzano, capitão de navio, e Giacomo Picasso que assumiu o papel do “irmão abastado patrocinador” e responsabilizou-se pela compra de um barco em favor da associação, com a finalidade de dar emprego a Garibaldi e a Rossetti. Os “irmãos” decidiram dar ao barco o nome de Mazzini. “Acreditamos que o primeiro cargueiro italiano não poderia ter recebido outro nome”24. A possibilidade de dispor de um barco, cuja capacidade de 20 toneladas permitia fazer cabotagem ao longo das costas da região próxima ao Rio de Janeiro, acendeu em Borel a vontade de retomar as atividades marítimas, idealizando o Mazzini como uma ponte para atravessar o oceano e voltar a lutar pela Itália.

Uma vez relatadas na carta a Mazzini, as tarefas desenvolvidas; tendo, ainda, comunicado a grande admiração pelo mestre, demonstrada por todos os seus fiéis patrícios encontrados nesta cidade, percebe-se a impaciência do homem de ação diante da vida urbana carioca, demasiadamente tranqüila. Nas memórias, Garibaldi se refere a estes primeiros meses como a um período “de vida ociosa”.25

Devido à sua índole impulsiva, Garibaldi se irritava diante da presença, no porto do Rio, de navios mercantes em que se evidenciavam brasões das monarquias dos Bourbon de Nápoles, dos Habsburgo, ou dos Savóia. A ostentação desses símbolos torna-se, para ele, uma forma de provocação das forças inimigas.

Com ingenuidade, mas ao mesmo tempo com insistência, Garibaldi passou a pedir a Mazzini que assinasse e lhe enviasse um salvo-conduto, ou seja, uma carta autorizando-o a combater as bandeiras sardas e austríacas, considerando que tal autorização seria o passo inicial para que fosse providenciado o armamento necessário. O endereço fornecido por Garibaldi no Rio de Janeiro para receber tal correspondência era a conhecida casa Zignago Irmãos, corretores da maior parte dos navios do Reino de Piemonte e Sardenha, com funções também de consignatários e, num primeiro momento, simpatizantes mazzinianos.

Não se sabe ao certo se Mazzini recebeu esta carta, nem se Garibaldi obteve uma resposta a tal pedido, mas, sem esperar qualquer autorização, ele mesmo decidiu içar no mastro do Mazzinia andeira da Giovine Italia. Foi uma satisfação tardia à frustração experimentada nos movimentos de Gênova, onde seu papel junto ao amigo Matru26 era o de colocar nos navios sabaudos o símbolo da iovine Itália, papel este que se tornou impossível diante do fracasso da revolta.

No número de janeiro de 1836, o jornal Paquete do Rio – que hoje nas Obras Raras da Biblioteca Nacional, infelizmente, só se encontra a partir do número de março de 1836 – relatava fatos sobre a presença de Gian Battista Cuneo e de Garibaldi no Rio de Janeiro27. Uma declaração contra o rei Carlo Alberto de Sabóia, do Reino de Piemonte e Sardenha, foi a forma escolhida por Garibaldi para comunicar aos outros exilados italianos a sua chegada no Rio. É, quem sabe, a única vez que, com o nome de Garibaldi ou mesmo com o pseudônimo Borel, ele aparece nos jornais cariocas, talvez pelo fato do italiano J. C. Muzzi trabalhar na redação deste jornal.28

Quase um mês depois de tal publicação, no dia 1o de fevereiro de 1836, como se refere Paul Frischhauer29, o encarregado de negócios da Sardenha escrevera dizendo que tinha lido nos jornais que um certo “Garibaldi, súdito de sua majestade de Savóia, assim como o genovês Cuneo, estavam no Rio de Janeiro”. O diplomata assegurava que “tais homens de aparência insignificantes eram perigosos se si pensasse que além de trabalharem na difusão de tendências republicanas na América do Sul ainda introduziam seus panfletos na Itália”.

A motivação grave que teria justificado redigir um relatório sobre “tais homens insignificantes” era, segundo o representante do rei da Sardenha, a de que “o comércio da Sardenha na América do Sul estava ameaçado”. A responsabilidade seria da ação provocatória do Mazzini, “um brigue que desfraldava a bandeira revolucionária da Jovem Itália e percorria impunemente os portos, afrontando os navios e insultando os marinheiros”.

Mesmo inimigos na península italiana, diante do perigo comum, os representantes da Áustria e do Reino do Piemonte se reuniram para encontrar uma estratégia de defesa. A primeira proposta foi a de apresentar um pedido de intervenção ao governo local. Mas desistiram logo dessa estratégia pelo pavor que tal comunicação fosse remetida aos jornais locais, prontos a ridicularizá-los perante a opinião pública em razão da verdadeira dimensão das forças adversárias, constituídas por um brigue de 20 toneladas. Uma possível alternativa considerada pelos representantes dos dois governos para se livrarem dos “homens perigosos” foi a de lançar mão de “uma pequena liberdade que pode ser tomada na América”, encarregando alguns capitães que estariam dispostos a “acabar com isto”.30

Em pouco tempo, a idéia de Garibaldi – de utilizar a própria embarcação para divulgar seu pensamento, como fez com o Mazzini – foi adotada por seus companheiros. Delle Case nomeou seu brigue La Giovine Itália. Domenico Terrazzano, ao mudar o nome do seu barco de Grão Sultão para La Giovane Europa, soube que circularam calúnias sobre o suposto mau estado do casco da embarcação. Para se defender destas ignominiosas  acusações, publicou no jornal Paquete do Rio, de 11 de maio de 1836, uma firme resposta, colocando os mestres calafates à disposição para os mal-intencionados verificarem seu engano.

A conformação do território fluminense praticamente impedia a penetração no interior. Portanto, era difícil a comunicação pelas vias de terra. No âmbito de um sistema de agricultura de subsistência, o transporte de grande parte dos gêneros alimentícios tanto para o uso interno quanto para a exportação era realizado através de uma estrutura de navegação de cabotagem que conectava o porto do Rio de Janeiro aos portos de Campos, Cabo Frio, Mangaratiba, Angra dos Reis e Taguany.

A carta de Garibaldi a Gian Battista Cuneo, proveniente de Cabo Frio, escrita em 17 de outubro de 183631, permite penetrar na nova vida do marinheiro a bordo do Mazzini, engajado no comércio de cabotagem. Diferentemente do estilo erudito das memórias, ou daquele mais rebuscado da carta a Mazzini, a linguagem utilizada para se dirigir ao companheiro é muito simples, coloquial e direta. Garibaldi se confessa enternecido pela imaginação romântica suscitada pela beleza da filha do calafate, a quem, no entanto, deve esquecer porque, infelizmente, não é hora para pensar nisto. Tal imagem sentimental é de fato uma metáfora utilizada por Garibaldi para esconder seu grande sonho, mais forte e obsessivo neste momento que qualquer amor humano.

Na realidade, a filha do calafate, cuja beleza o apaixonou, subentende aquela nave, da qual ele fantasia se tornar o comandante, para poder lutar, junto com seus companheiros, em defesa de um ideal. Mas, ele mesmo comenta na carta, precisa esperar ainda muito tempo para que este sonho se realize. A preocupação do momento é o “Dinheiro! Dinheiro!”. Garibaldi, em lugar de utilizar a forma italiana, compartilha com Cuneo a expressão do idioma genovês “Dinè! Dinè!”.

Aparentemente pressionado pelas necessidades mais urgentes, Garibaldi quase esquece as preocupações políticas. No final da carta trata de assuntos comerciais, perguntando sobre o preço do milho na praça do Rio de Janeiro, e prevê sua volta ao Rio para o dia 15 do mesmo mês. Mas o jornal Paquete do Rio registra a entrada do Mazzini no porto no dia 27 de outubro, trazendo uma carga de milho e feijão, e o passageiro italiano Luiz Ruchet, deformação do nome de Luigi Rossetti, seu fiel companheiro.

No Jornal do Commercio do dia 7 de novembro de 1836, encontra-se registrada, na coluna Entrada dia 6, a chegada ao porto do patacho de guerra brasileiro Vênus. E consta da lista dos presos os mais importantes personagens da Revolução Farroupilha para serem remetidos para a corte. Estavam, entre outros, Bento Gonçalves, cadete Onofre, Marques Pereira Lima e o italiano Lívio Zambicari, deformação de Zambeccari, até então, secretário do presidente Bento Gonçalves. Zambeccari e Bento Gonçalves foram recolhidos à fortaleza de Santa Cruz.

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30 Ibid. 6. p.65.

31 Ibid. 13 p.10-11.


32 Ibid. 13 p.11-12.


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Em 27 de dezembro de 183632, uma nova carta de Garibaldi – sempre proveniente de Cabo Frio e dirigida a Cuneo – comunica que Rossetti viajou sozinho para o Rio, mas declara não poder explicar por carta a motivação deste fato. Tal reticência poderia ser interpretada como intenção de não divulgar o plano de Rossetti, que talvez fosse o de encontrar-se com Zambeccari. A falta do companheiro Rossetti reforça ainda mais o sentimento de isolamento, solidão, afastamento dos amigos, do próprio país e de sua verdadeira vocação. Garibaldi confessa, assim, ao amigo, a infelicidade da vida que está levando, tão inútil em relação aos projetos relacionados à “nossa terra”. E pede que Cuneo se comunique com Folco/Mazzini33, do qual espera o sinal para começar a se movimentar.

O Mazzini volta ao Rio no dia 21 de janeiro de 1837, como confirma o Jornal do Commercio, e parte novamente no dia 25 de fevereiro em direção a Campos. No período em que permaneceu no Rio, Garibaldi escreveu uma carta para Cuneo34, que, no entanto, tinha se transferido para Montevidéu. Não tinha novidades no campo da ação, que era o que mais lhe interessava. Em compensação, as condições financeiras estavam melhorando graças a experiências adquiridas neste tempo e à mudança para Campos, com algumas estadas em Santa Cruz. A região de Campos mantinha com o Rio, à época, uma grande atividade comercial, como demonstrado pelo intenso fluxo de barcos e de mercadoria registrado na coluna Movimento do Porto dos diferentes jornais cariocas. A carta termina com um desabafo de Garibaldi, que declara não estar gostando nada deste período, nunca gostou, e termina reforçando com um “ainda mais agora”, deixando intuir que algo está se movimentando.

É provável que já tivesse ocorrido o encontro, que Rossetti conseguira marcar, de Garibaldi com Zambeccari na fortaleza de Santa Cruz, onde se iniciou o planejamento de uma intervenção de ajuda à revolução Farroupilha por meio de um navio corsário, capaz de levar mantimentos e apoio, servindo de conexão marítima nas lutas contra os imperiais. Garibaldi pediu a Zambeccari a concessão de uma carta oficial assinada pelas autoridades da nova República Rio-grandense para poder sair do porto do Rio como corsário. O mesmo que Garibaldi havia pedido a Mazzini, para assaltar os navios austríacos, sardos e napolitanos no porto do Rio.

A volta de Garibaldi de Campos para o Rio ocorre no dia 2 de abril de 1837 e corresponde à última viagem de cabotagem do Mazzini, na qual figuram como passageiros os italianos Luiz Rossetto e José C., cujo nome encontra-se ilegível no exemplar do Jornal do Commercio.

A partir de então, iniciou-se a fase de preparação para a grande aventura. Desde sua chegada ao Rio, Garibaldi procurou entender de que forma poderia realizar no Brasil o que não conseguira na própria Itália. Após o encontro com Zambeccari, ficou claro que sua missão era a de juntar-se à recém-criada República Rio-grandense na luta pela liberdade e independência contra o Império. O seu papel era o de comandante de navio e, neste caso, de um navio corsário, algo que ele sabia fazer bem. Entretanto, o objetivo principal era equipar o Mazzini, transformando-o em uma embarcação de combate, sem aparentemente nada mudar, para que ele pudesse sair do porto do Rio com o mesmo aspecto de lancha de cabotagem com que havia entrado. Rossetti assume a organização e pede a todos os amigos, irmãos e simpatizantes que colaborem para a organização da viagem.

A tensão de Garibaldi pode ser percebida pela leitura da última carta escrita no Rio, datada de 22 de abril de 1837, a Cuneo,35 o qual já estava no Uruguai. Ele se desculpava com o amigo por não poder ir encontrá-lo em Montevidéu, o que era impossível por uma motivação “prepotente” da qual não podia falar e qualquer explicação seria perigosa. Mas, em seguida Garibaldi esclarecia: “Estou me preparando para uma nova existência que obedece aos nossos princípios, sempre!”.

O entusiasmo pelos próximos eventos, dos quais Garibaldi deveria ser protagonista, se misturava às impressões trazidas pelas notícias sobre os movimentos na Itália e sobre Giuseppe Mazzini que ele acabava de ler nos jornais franceses, encontrados no Rio devido, talvez, a chegada no porto de um navio proveniente deste país. A progressiva integração de Garibaldi ao meio local transparece nesta carta ao comunicar a Cuneo que ele e os outros companheiros procuravam defender suas opiniões até com a própria vida, em respostas ao que os jornalistas locais publicavam sobre a Itália naquele momento.

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33 Este nome, na carta, não fica compreensível, alguns interpretaram como se fosse um pseudônimo inventado em honra de Mazzini, mas Folco é também um “irmão” da Giovine Italia que tinha no Rio uma firma menor, mas parecida com a dos irmãos Zignago como corretor de navios.

34 Ibid. 13 p.13.


35 Ibid. 13 p.14.

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Como desfecho da carta encontra-se ainda uma metáfora cheia de graça: “Não sei se enviarei para você laranjas ou flores... vou fazer o possível!”.  As flores e as laranjas, lembranças da terra comum, a Ligúria, assumem neste contexto o significado simbólico de  uma promessa de boas notícias em relação à grande aventura que Garibaldi estava iniciando e cujos resultados esperava poder cedo comunicar ao amigo.

São os últimos dias cariocas de Garibaldi, faltava apenas receber a patente de corsário para poder lançar-se à luta em direção ao Sul. Tal patente autoriza a navegar em rios e mares e atacar livremente os navios de guerra e do comércio do Império encontrados pelo caminho, podendo apropriar-se livremente das armas com o uso da força.

A emissão da carta atrasou, chegando ao Rio somente no dia 4 de maio de 1837. Existe, todavia, uma contradição cronológica, pois os salvo-condutos apresentados por Salvatore Cândido36 estão datados de 14 de novembro de 1836 e assinados por João Manuel de Lima e Silva, general-comandante-em-chefe ao qual Bento Gonçalves tinha feito o pedido, conforme o acordo com Zambeccari. Ocorre que a data de 14 de novembro de 1836, constante das patentes, corresponde a uma semana depois da chegada de Bento Gonçalves e Zambeccari ao Rio como prisioneiros. Será esta a verdadeira data da assinatura? Ou foi colocada propositalmente uma data anterior para despistar os imperiais?

As diferenças entre os dois documentos de patente de corso encontrados, ambos assinados por João Manuel de Lima e Silva, demonstram terem sido os mesmos confeccionados para obedecer, provavelmente, a uma determinada estratégia. Um documento fazia referência à lancha Mazzini, de vinte toneladas, ao passo que o outro mencionava uma eventual sumaca denominada Farroupilha, de 130 toneladas. Quando os documentos foram redigidos, existia somente o Mazzini. A estratégia adotada poderia ser a de que o primeiro documento fosse utilizado na saída do Rio, quando a embarcação ainda era uma lancha de cabotagem, enquanto o segundo documento se tornaria válido uma vez capturado um navio de dimensão capaz de representar a marinha da República Rio-grandense que, no caso, teria assumido o nome de Farroupilha.

No dia 8 de maio de 1837, está registrada no Jornal do Commercio a saída da lancha Mazzini em direção a Campos. As armas e munições estavam escondidas embaixo da carga dos produtos alimentares – farinha, carne seca37 – que eram usualmente comercializados. Quase 17 meses depois, o jovem mazziniano – desembarcado do navio Nautonier no porto do Rio, na veste de um exilado sem nome – conseguiu deixar a cidade com um valioso projeto. E, sobretudo, com o que mais desejava: o título de corsário.

Pouco depois que o Mazzini deixou a Baía de Guanabara, apresentou-se a ocasião de colocar a prova a capacidade do novo corsário: uma pequena lancha denominada Maribondo, saída pouco antes do porto do Rio. Garibaldi não tinha particular interesse no barco nem em sua carga, mas sim em apropriar-se de víveres para enfrentar a longa travessia.

Na altura da Ilha Grande, eis que surgiu Luísa, uma escuna de 120 toneladas, com o pavilhão do Império. Foi esta a embarcação escolhida para tornar-se a Farroupilha. Após um assalto, sem que a tripulação brasileira tivesse oposto resistência, a apropriação da embarcação foi marcada pela substituição da bandeira do Império pela bandeira verde, amarela e vermelha da República Rio-grandense. A alegria de Garibaldi foi maior ainda ao descobrir que a sumaca pertencia a dona Felisbella Cândida Stockmeyer, de família austríaca, e que levava, para o porto do Rio, café destinado a exportação para a Europa. Com um único golpe, Garibaldi tinha acertado dois inimigos: o império brasileiro e o império austro-húngaro, opressor dos italianos.

Entre os 13 companheiros38 que tripulavam o Mazzini, só um tinha capacidade de comandar um barco em alto mar. Desta forma, decidiu-se abandonar o Mazzini, transferindo todos para o navio maior, o Farroupilha. O afundamento da lancha de cabotagem Mazzini assume, então, um valor simbólico. Ao encerrar sua história carioca, Giuseppe Garibaldi conquistou a independência. Agora estava pronto para tomar o comando de um navio, enfrentar o oceano e desafiar o império brasileiro, lutando pela jovem república do Rio Grande do Sul, na qual projetava os sonhos e os ideais que a Itália ainda não podia realizar.

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36 CANDIDO, Salvatore. Giuseppe Garibaldi: corsário rio-grandense: 1837-1838. EDIPUCRS. Instituto Estadual do Livro p.139-140.

37 GARIBALDI, José. Memórias. Tradução do manuscrito original por Alexandre Dumas. Rio Grande. O Intransigente, 1907, p.46.

38. Ibid. 37 p.71.

 
 
 
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