| Rio de Janeiro, a porta
de entrada de Garibaldi
para a América Latina
Maria Pace Chiavari*
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Graduada em Arquitetura pela Universidade de Florença
(Itália), pesquisadora da história dos italianos
no Brasil do Século XIX, trabalha no Instituto Italiano
de Cultura do Rio de Janeiro
Ao desembarcar no Brasil, em 1835, Garibaldi encontrou no
Rio de Janeiro um espaço geográfico e um meio
político-cultural favoráveis ao cumprimento
das atividades que tinha se proposto realizar com a vinda
ao país. A tentativa de reconstituir a breve estada
carioca do jovem mazziniano visa a mostrar como o Rio de Janeiro
aparece aos olhos do recém-chegado e como o seu progressivo
entrosamento na vida local é capaz de revelar sua personalidade,
despojada de qualquer mito.
A falta de interesse, tanto por parte da historiografia
italiana quanto da brasileira, sobre a etapa carioca de Garibaldi
deve-se, talvez, à pouca consideração
atribuída pelo próprio Garibaldi a este período,
ao escrever, muito anos depois, as suas memórias1.
Frente aos grandes sucessos e reconhecimentos pessoais obtidos
nas lutas de libertação da Itália, no
momento de transmitir às futuras gerações
a história de sua vida, o herói dos dois mundos
preferiu fortalecer sua personagem, apagando momentos de sua
formação humana e política pelos quais
era devedor ao grande mestre e concidadão Giuseppe
Mazzini.
A viagem de Garibaldi ao Brasil – após a condenação
à morte por seu envolvimento na conspiração
de 1834, em Gênova – é freqüentemente
apresentada como uma fuga, resultado de uma aventura pessoal.
Entretanto, depreende-se da releitura das cartas escritas
pelo próprio Garibaldi neste período, bem como
das informações constantes nos jornais e nos
relatórios dos representantes dos Estados Italianos
no Brasil, ter sido Mazzini o organizador da vinda de Garibaldi
ao Rio.
De fato, após várias tentativas frustradas de
organização das lutas de independência
italiana, o grande teórico de uma Itália livre
e republicana decidiu priorizar o projeto europeu, universalista
e messiânico por ele concebido. Um projeto aberto a
toda a humanidade, no qual à Itália era reservada
uma missão entre os povos. A primeira providência
de Mazzini foi ativar, no estrangeiro, associações
que perseguissem os ideais de liberdade e fraternidade da
Giovine Italia, por ele fundada em 1834. Após
a Congrega central, em Paris, seguiram-se outras,
em países com relativa concentração de
italianos, como foi o caso, entre outros, da Bélgica,
Espanha, Turquia e, além mar, Estados Unidos, Cuba,
Venezuela, Equador, Argentina, Uruguai e Brasil.
Formou-se, desse modo, uma densa rede internacional de correspondentes
e viajantes que levavam, de um lado ao outro do oceano, bandeiras
e cartas com as palavras de Mazzini. Além de divulgar
os novos princípios e os ideais patrióticos,
esta rede tinha por objetivo obter apoio financeiro dos afiliados
ou simpatizantes mais abastados e formar uma reserva de militantes
dispostos, no momento certo, a voltar para a Itália
e libertar o país do domínio estrangeiro.
No âmbito desta missão, Mazzini decidiu confiar
um importante papel a Garibaldi, pelo entusiasmo e espírito
de liderança revelados durante as revoltas de Gênova,
assim como na sua iniciação aos princípios
da Giovine Europa.2 Os posteriores desentendimentos
entre os dois principais personagens-símbolo da unidade
e independência da Itália – motivados pela
aproximação de Garibaldi à monarquia
sabauda, atitude interpretada por Mazzini como uma traição
a ele e aos princípios republicanos – ofuscarão
o intenso relacionamento deste primeiro período.
A escolha da outrora capital do Brasil como meta do jovem
lígure, justifica-se por sua localização
estratégica na rota dos navios da marinha mercante
do Reino de Piemonte e Sardenha para Montevidéu e Buenos
Aires. Outro fator que deve ter influenciado a preferência
pelo Brasil foi a efervescência da situação
política no período de Regência (1831-1840),
definida por alguns historiadores3 como uma inusitada “experiência
republicana” no interior do Império, devido à
menoridade de D. Pedro II. E não se pode minimizar
o interesse econômico, uma vez que, neste período,
as novas riquezas produzidas pela expansão cafeeira
na região movimentavam o porto do Rio de Janeiro e
as atividades comerciais a ele relacionadas.
Entre o Rio de Janeiro e Gênova – e, por extensão,
toda a região da Ligúria – havia uma antiga
ligação marítima que se estreitou ainda
mais após o Tratado de Viena (1815), quando Gênova
se tornou o porto do Reino de Piemonte e Sardenha, e os navios
lígures passaram a constituir a Marinha Sabauda. Na
comunidade italiana então existente no Rio, a presença
lígure era preponderante, construída através
uma rede de relações pessoais, ligações
familiares e de trabalho ou simples afinidades de ideais.
Liberais e carbonaros procedentes de outros estados da Itália,
após os movimentos de 1821, 1831 e 1834, integravam-se
igualmente. Tal conformação política
e social tornava tênue a distinção entre
patrícios, marinheiros, exilados ou emigrantes, assim
como a diferença entre os provenientes dos diversos
estados nos quais a península italiana estava então
dividida. A importante trajetória desta colônia
carioca – que vivia a unidade e a independência
da Itália quase trinta anos antes de sua unificação
oficial – ainda é pouco conhecida, mas faz parte
da história do Risorgimento italiano.
A imprensa representava para os patrícios italianos
um elo de ligação com a terra distante. Jornais
cariocas às vezes reportavam notícias sobre
a situação política da península
italiana e alguns, relatando as lutas de um povo submetido,
no próprio país, aos poderes de invasores estrangeiros,
defendiam os ideais de liberdade, dos quais Garibaldi se tornou
o símbolo. No início de cada novo ano, o Jornal
do Commercio – diário carioca de grande
difusão, em particular no meio marítimo e comercial,
por informar sobre os movimentos diário dos navios,
assim como sobre a entrada e saída das mercadorias
destinadas a importação e exportação
- relacionava os principais eventos ocorridos no país
e no mundo durante o ano anterior. Em 2 de janeiro de 1835,
na rubrica dedicada às notícias do exterior,
estavam retratados os movimentos italianos de 1834:
“À par da Áustria forçoso lembrar
a Itália, onde as baionetas dos soldados húngaros
prestes a ferir toda a vez que as encantadoras recordações
da Republica Romana... fação ardir de novo nos
briosos peitos dos seus descendentes o desejo de recuperarem
huma porção da antiga independência. Agrilhoar
a imprensa, lançar em humildes masmorras os escriptores
mais ousados, escravizar os patrióticos filhos da Jovem
Itália eis a tarefa dos executores subalternos das
vontades austríacas.”
No mesmo número, comentavam-se as insurreições
dos polacos no Reino Sabaudo:
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2 Mazzini, referindo-se à conspiração
de Gênova e a fuga de Garibaldi para se salvar , numa
nota escreve “Daquele dia eu o conheci. Seu nome de
luta era Borel” em Scritti di Giuseppe Mazzini. Ed Daelliana
vol.III Politica p.334.
3 BASILE DE CAMPOS, MACEDO OTÁVIO NERI, O Império
em construção; Projetos de Brasil e Ação
política na Corte regencial, doutorado IFCS Instituto
de Filosofia e Ciências Sociais - UFRJ Universidade
Federal do Rio de Janeiro, 2004, p.15.
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“Na Itália ainda o espírito
de liberdade não pode respirar. O despotismo Austríaco
e Sardo continua a oprimir com mão de ferro aquele
povo digno de melhor sorte.”4
É interessante sublinhar a peculiar atitude de
abertura do Brasil, neste momento histórico, em relação
à liberdade dos povos oprimidos. Paul Frischauer, em
Garibaldi herói de dois mundos5, observa que,
neste período muito turbulento da Regência, a
monarquia mantinha-se, graças a um “liberalismo
incompreensível para todo europeu reacionário”.
A liberdade de imprensa favorecia o aparecimento de novos
jornais que exprimiam às claras a opinião pública.
De fato, tal “liberdade” era um meio para “controlar
e dobrar as arestas dos opositores”6, aos quais era
oferecido o direito a se exprimir. A impermeabilidade de tais
notícias e pensamentos à maioria da população
devia-se ao alto nível de analfabetismo.
No que se refere aos problemas internos do país, o
mesmo Jornal do Commercio, no dia 5 de janeiro de
1835, limitando-se a um breve comentário crítico
no final, publica na íntegra um artigo tratando da
Revolução Farroupilha, extraído do jornal
Continentista, de Porto Alegre, periódico
dos revolucionários que incitava o povo à rebelião:
“ (...) reuni-vos (...) aos beneméritos coronéis
Bento Gonçalves, Bento Manoel Oliveira Ortiz e mais
patriotas que vos conduzirão ao campo de honra, os
quais devem desconfiar de quaisquer prometimentos da parte
do traidor Gabinete do Rio de Janeiro.”
Mesmo no que se refere à cultura e diversões,
no programa do Teatro Constitucional Fluminense daquele ano
constam peças cujos assuntos vertem sobre temas liberais,
como Independência dos Estados Unidos e Heroísmo
das mulheres.7
No dia 12 de outubro de 1835, o padre Diogo Antônio
Feijó, criador do novo partido dos Progressistas, assume
a Regência e estende seu mandato até 19 de setembro
de 1837, cobrindo, curiosamente, o período da permanência
de Garibaldi no Rio de Janeiro.
Na seção do Jornal do Commercio do
dia 23 de novembro de 1835, registro da chegada ao porto do
brigue francês Nautonier, de 205 toneladas,
comandado pelo mestre P. Beauregard, conforme relatos do próprio
Garibaldi em suas Memórias8 O jornal não
menciona a lista de passageiros. É possível
que Garibaldi tenha entrado no país com falsa identidade,
tendo sido a sua condenação à morte publicada
nos jornais franceses.9
Entretanto, a chegada de Garibaldi ao Rio era esperada. Mazzini,
de fato, tinha comunicado com antecedência por cartas
aos seus partidários10 aNúnciando o embarque
de Borel no navio Nautonier, devendo os mesmos recebê-lo
e tomar eventuais providências cabíveis. O codinome
Borel11, assumido por Garibaldi como era a norma no momento
da iniciação na associação mazziniana,
foi sempre utilizado por ele no epistolário brasileiro.12
No Rio, em 25 de janeiro de 1836, Garibaldi escreveu para
Luigi Canessa13, afiliado da Giovine Italia em Marselha,
contando-lhe que, graças às cartas de apresentação
dirigidas aos companheiros cariocas que ele tinha lhe confiado
na França antes de sua viagem, desde sua chegada nesta
cidade sentiu-se como se estivesse morando aqui há
muitos anos.
Uma viva descrição das primeiras impressões
do Novo Mundo – bem como das decepções
diante das dificuldades encontradas para realizar as tarefas
das quais estava encarregado – está na carta
escrita no Rio de Janeiro, datada de 27 de janeiro de 183614,
e dirigida a Mazzini, dois meses após sua chegada.
Conforme instruções recebidas, Garibaldi encontrou-se
com Giuseppe Stefano Grondona, que pertencia à leva
dos mais antigos residentes no Rio de Janeiro. Tendo chegado
em 1815, Grondona foi expulso em 1823 por suas idéias
revolucionárias, mas retornou em 1834, beneficiando-se
do clima mais liberal da Regência. Inspirado na Giovine
Itália, Grondona fundou no Rio de Janeiro a Società
Filantropica Italiana. Tal histórico justificava
o fato de Mazzini tê-lo escolhido como seu referente
direto no Rio. Garibaldi devia, portanto, entregar-lhe todo
o material “político” trazido da França,
mais alguns “bônus”, talvez financeiros,
para a constituição da iovine Itália,
fração da Universal Giovine Europa.15
A Grondona competiria o título de presidente da nova
associação. As eleições para presidente
organizadas por Garibaldi junto aos outros “irmãos”
– era esta a forma convencional com a qual se tratavam
entre si os afiliados à Giovine Italia, e
que fazia parte da tradição das sociedades secretas,
como a Maçonaria – confirmaram o previsível
resultado. Mas, o comportamento do presidente recém-empossado
surpreendeu a todos pela sucessiva publicação
de insultos e maldades sobre seus eleitores. E ainda mais
grave foi Grondona ter dado prova do total esquecimento do
juramento de irmandade vitalícia proNúnciado
no momento de sua eleição.16
Para Garibaldi, que tinha se jogado de corpo e alma nessa
atuação política, por vezes difícil
devido à sua índole de homem prático
e pouco apto a formulas doutrinárias, foi um golpe
inesperado. Na carta que escreveu a Mazzini, responsabilizou
pela frustrada iniciativa o “gênio quase infernal”
de Grondona, dono do “mais inconciliável e mexeriqueiro
caráter que podia existir neste mundo”, sem aduzir
qualquer outro comentário, talvez para não magoar
ainda mais seu mestre. O caráter provocador de Grondona
aparece já em 183417, quando na redação
de uma petição oficial para obter a licença
para fabricar sorvetes, utiliza como máxima “ao
gosto sensual dos gelatos”. A petição
foi considerada pelas autoridades brasileiras “imoral
e anticonstitucional”, tendo sido, portanto, indeferida.
Garibaldi, então, dedicou-se a ampliar aquela que ele
definiu na carta a Mazzini como a “imortal Giovine
Europa”. Neste caminho, descobriu novos companheiros
e, neles, uma grande virtude, “a dignidade”, compensadora
da frustração que lhe causou a primeira tentativa.
Na sua vivência quotidiana na cidade, conforme descrito
na carta, percebeu que “neste país os italianos
não são muito amados, mas não são
considerados covardes”. O que incomodava, nesta época,
os brasileiros era que os italianos, à diferença
de outros emigrados, portugueses ou árabes, não
possuíam um clichê determinado, eles eram, no
que se refere ao trabalho, multiformes18 e, portanto, ambíguos.
Tal característica pode ser verificada no próprio
Garibaldi, marinheiro, comerciante, político e revolucionário,
bem como em seus companheiros de luta, para os quais a atividade
profissional era apenas uma maneira de sobreviver: a importância
estava na personagem em si, não na profissão.
Aos poucos, amplia-se o círculo de afiliados e, sobretudo,
de amigos de Garibaldi. O Rio era, na época, uma cidade
relativamente pequena, e os novos companheiros moravam e trabalhavam
nas imediações do porto, fulcro de todas as
atividades. Suas residências costumavam abrir-se para
acolher os refugiados italianos recém chegados. Na
Rua Fresca no 7 morava, num sobrado, Luigi Delle Case (ou
Delecasi)19, capitão e armador, também originário
de Gênova, de onde fugiu após os movimentos de
1834. É possível que Garibaldi e o estudante
Rossetti, num primeiro momento, tenham se hospedados na casa
dele.20
Uma sobrinha da senhora Delle Case, talvez Anita de Lima Barreto
que, segundo relatado pelo Cenni21, acompanhou o casal de
tios em suas viagens pelo mundo e aprendeu onze idiomas, graças
ao ensino do “extravagante” Delle Case, contou
ao biógrafo Virgilio Várzea, apreciado cronista
do jornal O País, ter encontrado Garibaldi
na casa dos tios. Assim ela o descreveu: “Era um rapaz
louro e forte que se distinguia dos compatriotas por uma expressão
de viva inteligência e fisionomia pensativa”.22
Outro genovês que chegou ao Rio alguns meses antes de
Garibaldi foi Luigi Rossetti, discípulo de Mazzini,
cuja casa na Rua do Carmo se tornou um novo centro de hospedagem.
A vivacidade e a emoção expressas nas memórias
pelo autor23 ao falar de Rossetti demonstram a importância
que Garibaldi atribuía à amizade em geral, em
especial àquela com Rossetti, nascida a partir do primeiro
encontro no Largo do Paço. Ambos lígures, mas
com expressiva diferença de temperamento e de formação:
Rossetti culto e racional, com 26 anos, e Garibaldi aventureiro
e explosivo, com 28; homem de letras o primeiro e de mar o
segundo. Tal diversidade permitiu que, da complementaridade
e do comum ideal, nascesse um forte entrosamento.
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24 Ibid. 13 p.8.
25 Ibid. 2 p.16.
26 Ibid. 20 p.12
27 CURATOLO, Giacomo Emilio. Il dissidio tra Mazzini e Garibaldi
Milão: Mondadori, 1928, p.44.
28 Jornal do Commercio, 5 de janeiro de 1836.
29 Ibid. 6 p.63.
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Além de Rossetti – que se tornou
seu inseparável companheiro de viagem – na carta
para Mazzini são apresentados como os mais próximos
colaboradores de Garibaldi, Gian Battista Cuneo, Domenico
Terrizzano e Giacomo Picasso. Cada um é citado pelo
próprio nome seguido, entre parêntesis, pelo
apelido de combate, assumido no momento de sua entrada na
Giovine Itália.
Gian Battista Cuneo (“Farinata degli Uberti”),
era genovês e da mesma geração de Garibaldi,
tendo à época 27 anos. Ele havia se envolvido
nos movimentos de 1833-34. Chegara ao Rio em janeiro de 1835
e foi trabalhar na casa de comercio de um seu primo. À
mesma turma dos genoveses pertencia também Terrizzano,
capitão de navio, e Giacomo Picasso que assumiu o papel
do “irmão abastado patrocinador” e responsabilizou-se
pela compra de um barco em favor da associação,
com a finalidade de dar emprego a Garibaldi e a Rossetti.
Os “irmãos” decidiram dar ao barco o nome
de Mazzini. “Acreditamos que o primeiro cargueiro
italiano não poderia ter recebido outro nome”24.
A possibilidade de dispor de um barco, cuja capacidade de
20 toneladas permitia fazer cabotagem ao longo das costas
da região próxima ao Rio de Janeiro, acendeu
em Borel a vontade de retomar as atividades marítimas,
idealizando o Mazzini como uma ponte para atravessar
o oceano e voltar a lutar pela Itália.
Uma vez relatadas na carta a Mazzini, as tarefas desenvolvidas;
tendo, ainda, comunicado a grande admiração
pelo mestre, demonstrada por todos os seus fiéis patrícios
encontrados nesta cidade, percebe-se a impaciência do
homem de ação diante da vida urbana carioca,
demasiadamente tranqüila. Nas memórias, Garibaldi
se refere a estes primeiros meses como a um período
“de vida ociosa”.25
Devido à sua índole impulsiva, Garibaldi se
irritava diante da presença, no porto do Rio, de navios
mercantes em que se evidenciavam brasões das monarquias
dos Bourbon de Nápoles, dos Habsburgo, ou dos Savóia.
A ostentação desses símbolos torna-se,
para ele, uma forma de provocação das forças
inimigas.
Com ingenuidade, mas ao mesmo tempo com insistência,
Garibaldi passou a pedir a Mazzini que assinasse e lhe enviasse
um salvo-conduto, ou seja, uma carta autorizando-o a combater
as bandeiras sardas e austríacas, considerando que
tal autorização seria o passo inicial para que
fosse providenciado o armamento necessário. O endereço
fornecido por Garibaldi no Rio de Janeiro para receber tal
correspondência era a conhecida casa Zignago Irmãos,
corretores da maior parte dos navios do Reino de Piemonte
e Sardenha, com funções também de consignatários
e, num primeiro momento, simpatizantes mazzinianos.
Não se sabe ao certo se Mazzini recebeu esta carta,
nem se Garibaldi obteve uma resposta a tal pedido, mas, sem
esperar qualquer autorização, ele mesmo decidiu
içar no mastro do Mazzinia andeira da Giovine
Italia. Foi uma satisfação tardia à
frustração experimentada nos movimentos de Gênova,
onde seu papel junto ao amigo Matru26 era o de colocar nos
navios sabaudos o símbolo da iovine Itália,
papel este que se tornou impossível diante do fracasso
da revolta.
No número de janeiro de 1836, o jornal Paquete
do Rio – que hoje nas Obras Raras da Biblioteca
Nacional, infelizmente, só se encontra a partir do
número de março de 1836 – relatava fatos
sobre a presença de Gian Battista Cuneo e de Garibaldi
no Rio de Janeiro27. Uma declaração contra o
rei Carlo Alberto de Sabóia, do Reino de Piemonte e
Sardenha, foi a forma escolhida por Garibaldi para comunicar
aos outros exilados italianos a sua chegada no Rio. É,
quem sabe, a única vez que, com o nome de Garibaldi
ou mesmo com o pseudônimo Borel, ele aparece nos jornais
cariocas, talvez pelo fato do italiano J. C. Muzzi trabalhar
na redação deste jornal.28
Quase um mês depois de tal publicação,
no dia 1o de fevereiro de 1836, como se refere Paul Frischhauer29,
o encarregado de negócios da Sardenha escrevera dizendo
que tinha lido nos jornais que um certo “Garibaldi,
súdito de sua majestade de Savóia, assim como
o genovês Cuneo, estavam no Rio de Janeiro”. O
diplomata assegurava que “tais homens de aparência
insignificantes eram perigosos se si pensasse que além
de trabalharem na difusão de tendências republicanas
na América do Sul ainda introduziam seus panfletos
na Itália”.
A motivação grave que teria justificado redigir
um relatório sobre “tais homens insignificantes”
era, segundo o representante do rei da Sardenha, a de que
“o comércio da Sardenha na América do
Sul estava ameaçado”. A responsabilidade seria
da ação provocatória do Mazzini,
“um brigue que desfraldava a bandeira revolucionária
da Jovem Itália e percorria impunemente os portos,
afrontando os navios e insultando os marinheiros”.
Mesmo inimigos na península italiana, diante do perigo
comum, os representantes da Áustria e do Reino do Piemonte
se reuniram para encontrar uma estratégia de defesa.
A primeira proposta foi a de apresentar um pedido de intervenção
ao governo local. Mas desistiram logo dessa estratégia
pelo pavor que tal comunicação fosse remetida
aos jornais locais, prontos a ridicularizá-los perante
a opinião pública em razão da verdadeira
dimensão das forças adversárias, constituídas
por um brigue de 20 toneladas. Uma possível alternativa
considerada pelos representantes dos dois governos para se
livrarem dos “homens perigosos” foi a de lançar
mão de “uma pequena liberdade que pode ser tomada
na América”, encarregando alguns capitães
que estariam dispostos a “acabar com isto”.30
Em pouco tempo, a idéia de Garibaldi – de utilizar
a própria embarcação para divulgar seu
pensamento, como fez com o Mazzini – foi adotada
por seus companheiros. Delle Case nomeou seu brigue La
Giovine Itália. Domenico Terrazzano, ao mudar
o nome do seu barco de Grão Sultão
para La Giovane Europa, soube que circularam calúnias
sobre o suposto mau estado do casco da embarcação.
Para se defender destas ignominiosas acusações,
publicou no jornal Paquete do Rio, de 11 de maio
de 1836, uma firme resposta, colocando os mestres calafates
à disposição para os mal-intencionados
verificarem seu engano.
A conformação do território fluminense
praticamente impedia a penetração no interior.
Portanto, era difícil a comunicação pelas
vias de terra. No âmbito de um sistema de agricultura
de subsistência, o transporte de grande parte dos gêneros
alimentícios tanto para o uso interno quanto para a
exportação era realizado através de uma
estrutura de navegação de cabotagem que conectava
o porto do Rio de Janeiro aos portos de Campos, Cabo Frio,
Mangaratiba, Angra dos Reis e Taguany.
A carta de Garibaldi a Gian Battista Cuneo, proveniente de
Cabo Frio, escrita em 17 de outubro de 183631, permite penetrar
na nova vida do marinheiro a bordo do Mazzini, engajado
no comércio de cabotagem. Diferentemente do estilo
erudito das memórias, ou daquele mais rebuscado da
carta a Mazzini, a linguagem utilizada para se dirigir ao
companheiro é muito simples, coloquial e direta. Garibaldi
se confessa enternecido pela imaginação romântica
suscitada pela beleza da filha do calafate, a quem, no entanto,
deve esquecer porque, infelizmente, não é hora
para pensar nisto. Tal imagem sentimental é de fato
uma metáfora utilizada por Garibaldi para esconder
seu grande sonho, mais forte e obsessivo neste momento que
qualquer amor humano.
Na realidade, a filha do calafate, cuja beleza o apaixonou,
subentende aquela nave, da qual ele fantasia se tornar o comandante,
para poder lutar, junto com seus companheiros, em defesa de
um ideal. Mas, ele mesmo comenta na carta, precisa esperar
ainda muito tempo para que este sonho se realize. A preocupação
do momento é o “Dinheiro! Dinheiro!”. Garibaldi,
em lugar de utilizar a forma italiana, compartilha com Cuneo
a expressão do idioma genovês “Dinè!
Dinè!”.
Aparentemente pressionado pelas necessidades mais urgentes,
Garibaldi quase esquece as preocupações políticas.
No final da carta trata de assuntos comerciais, perguntando
sobre o preço do milho na praça do Rio de Janeiro,
e prevê sua volta ao Rio para o dia 15 do mesmo mês.
Mas o jornal Paquete do Rio registra a entrada do Mazzini
no porto no dia 27 de outubro, trazendo uma carga de milho
e feijão, e o passageiro italiano Luiz Ruchet, deformação
do nome de Luigi Rossetti, seu fiel companheiro.
No Jornal do Commercio do dia 7 de novembro de 1836,
encontra-se registrada, na coluna Entrada dia 6,
a chegada ao porto do patacho de guerra brasileiro Vênus.
E consta da lista dos presos os mais importantes personagens
da Revolução Farroupilha para serem remetidos
para a corte. Estavam, entre outros, Bento Gonçalves,
cadete Onofre, Marques Pereira Lima e o italiano Lívio
Zambicari, deformação de Zambeccari, até
então, secretário do presidente Bento Gonçalves.
Zambeccari e Bento Gonçalves foram recolhidos à
fortaleza de Santa Cruz.
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30 Ibid. 6. p.65.
31 Ibid. 13 p.10-11.
32 Ibid. 13 p.11-12.
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Em 27 de dezembro de 183632, uma nova carta
de Garibaldi – sempre proveniente de Cabo Frio e dirigida
a Cuneo – comunica que Rossetti viajou sozinho para
o Rio, mas declara não poder explicar por carta a motivação
deste fato. Tal reticência poderia ser interpretada
como intenção de não divulgar o plano
de Rossetti, que talvez fosse o de encontrar-se com Zambeccari.
A falta do companheiro Rossetti reforça ainda mais
o sentimento de isolamento, solidão, afastamento dos
amigos, do próprio país e de sua verdadeira
vocação. Garibaldi confessa, assim, ao amigo,
a infelicidade da vida que está levando, tão
inútil em relação aos projetos relacionados
à “nossa terra”. E pede que Cuneo se comunique
com Folco/Mazzini33, do qual espera o sinal para começar
a se movimentar.
O Mazzini volta ao Rio no dia 21 de janeiro de 1837,
como confirma o Jornal do Commercio, e parte novamente
no dia 25 de fevereiro em direção a Campos.
No período em que permaneceu no Rio, Garibaldi escreveu
uma carta para Cuneo34, que, no entanto, tinha se transferido
para Montevidéu. Não tinha novidades no campo
da ação, que era o que mais lhe interessava.
Em compensação, as condições financeiras
estavam melhorando graças a experiências adquiridas
neste tempo e à mudança para Campos, com algumas
estadas em Santa Cruz. A região de Campos mantinha
com o Rio, à época, uma grande atividade comercial,
como demonstrado pelo intenso fluxo de barcos e de mercadoria
registrado na coluna Movimento do Porto dos diferentes
jornais cariocas. A carta termina com um desabafo de Garibaldi,
que declara não estar gostando nada deste período,
nunca gostou, e termina reforçando com um “ainda
mais agora”, deixando intuir que algo está se
movimentando.
É provável que já tivesse ocorrido o
encontro, que Rossetti conseguira marcar, de Garibaldi com
Zambeccari na fortaleza de Santa Cruz, onde se iniciou o planejamento
de uma intervenção de ajuda à revolução
Farroupilha por meio de um navio corsário, capaz de
levar mantimentos e apoio, servindo de conexão marítima
nas lutas contra os imperiais. Garibaldi pediu a Zambeccari
a concessão de uma carta oficial assinada pelas autoridades
da nova República Rio-grandense para poder sair do
porto do Rio como corsário. O mesmo que Garibaldi havia
pedido a Mazzini, para assaltar os navios austríacos,
sardos e napolitanos no porto do Rio.
A volta de Garibaldi de Campos para o Rio ocorre no dia 2
de abril de 1837 e corresponde à última viagem
de cabotagem do Mazzini, na qual figuram como passageiros
os italianos Luiz Rossetto e José C., cujo nome encontra-se
ilegível no exemplar do Jornal do Commercio.
A partir de então, iniciou-se a fase de preparação
para a grande aventura. Desde sua chegada ao Rio, Garibaldi
procurou entender de que forma poderia realizar no Brasil
o que não conseguira na própria Itália.
Após o encontro com Zambeccari, ficou claro que sua
missão era a de juntar-se à recém-criada
República Rio-grandense na luta pela liberdade e independência
contra o Império. O seu papel era o de comandante de
navio e, neste caso, de um navio corsário, algo que
ele sabia fazer bem. Entretanto, o objetivo principal era
equipar o Mazzini, transformando-o em uma embarcação
de combate, sem aparentemente nada mudar, para que ele pudesse
sair do porto do Rio com o mesmo aspecto de lancha de cabotagem
com que havia entrado. Rossetti assume a organização
e pede a todos os amigos, irmãos e simpatizantes que
colaborem para a organização da viagem.
A tensão de Garibaldi pode ser percebida pela leitura
da última carta escrita no Rio, datada de 22 de abril
de 1837, a Cuneo,35 o qual já estava no Uruguai. Ele
se desculpava com o amigo por não poder ir encontrá-lo
em Montevidéu, o que era impossível por uma
motivação “prepotente” da qual não
podia falar e qualquer explicação seria perigosa.
Mas, em seguida Garibaldi esclarecia: “Estou me preparando
para uma nova existência que obedece aos nossos princípios,
sempre!”.
O entusiasmo pelos próximos eventos, dos quais Garibaldi
deveria ser protagonista, se misturava às impressões
trazidas pelas notícias sobre os movimentos na Itália
e sobre Giuseppe Mazzini que ele acabava de ler nos jornais
franceses, encontrados no Rio devido, talvez, a chegada no
porto de um navio proveniente deste país. A progressiva
integração de Garibaldi ao meio local transparece
nesta carta ao comunicar a Cuneo que ele e os outros companheiros
procuravam defender suas opiniões até com a
própria vida, em respostas ao que os jornalistas locais
publicavam sobre a Itália naquele momento.
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33 Este nome, na carta, não fica compreensível,
alguns interpretaram como se fosse um pseudônimo inventado
em honra de Mazzini, mas Folco é também um “irmão”
da Giovine Italia que tinha no Rio uma firma menor, mas parecida
com a dos irmãos Zignago como corretor de navios.
34 Ibid. 13 p.13.
35 Ibid. 13 p.14.
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Como desfecho da carta encontra-se ainda uma
metáfora cheia de graça: “Não sei
se enviarei para você laranjas ou flores... vou fazer
o possível!”. As flores e as laranjas,
lembranças da terra comum, a Ligúria, assumem
neste contexto o significado simbólico de uma
promessa de boas notícias em relação
à grande aventura que Garibaldi estava iniciando e
cujos resultados esperava poder cedo comunicar ao amigo.
São os últimos dias cariocas de Garibaldi, faltava
apenas receber a patente de corsário para poder lançar-se
à luta em direção ao Sul. Tal patente
autoriza a navegar em rios e mares e atacar livremente os
navios de guerra e do comércio do Império encontrados
pelo caminho, podendo apropriar-se livremente das armas com
o uso da força.
A emissão da carta atrasou, chegando ao Rio somente
no dia 4 de maio de 1837. Existe, todavia, uma contradição
cronológica, pois os salvo-condutos apresentados por
Salvatore Cândido36 estão datados de 14 de novembro
de 1836 e assinados por João Manuel de Lima e Silva,
general-comandante-em-chefe ao qual Bento Gonçalves
tinha feito o pedido, conforme o acordo com Zambeccari. Ocorre
que a data de 14 de novembro de 1836, constante das patentes,
corresponde a uma semana depois da chegada de Bento Gonçalves
e Zambeccari ao Rio como prisioneiros. Será esta a
verdadeira data da assinatura? Ou foi colocada propositalmente
uma data anterior para despistar os imperiais?
As diferenças entre os dois documentos de patente de
corso encontrados, ambos assinados por João Manuel
de Lima e Silva, demonstram terem sido os mesmos confeccionados
para obedecer, provavelmente, a uma determinada estratégia.
Um documento fazia referência à lancha Mazzini,
de vinte toneladas, ao passo que o outro mencionava uma eventual
sumaca denominada Farroupilha, de 130 toneladas.
Quando os documentos foram redigidos, existia somente o Mazzini.
A estratégia adotada poderia ser a de que o primeiro
documento fosse utilizado na saída do Rio, quando a
embarcação ainda era uma lancha de cabotagem,
enquanto o segundo documento se tornaria válido uma
vez capturado um navio de dimensão capaz de representar
a marinha da República Rio-grandense que, no caso,
teria assumido o nome de Farroupilha.
No dia 8 de maio de 1837, está registrada no Jornal
do Commercio a saída da lancha Mazzini em
direção a Campos. As armas e munições
estavam escondidas embaixo da carga dos produtos alimentares
– farinha, carne seca37 – que eram usualmente
comercializados. Quase 17 meses depois, o jovem mazziniano
– desembarcado do navio Nautonier no porto
do Rio, na veste de um exilado sem nome – conseguiu
deixar a cidade com um valioso projeto. E, sobretudo, com
o que mais desejava: o título de corsário.
Pouco depois que o Mazzini deixou a Baía de
Guanabara, apresentou-se a ocasião de colocar a prova
a capacidade do novo corsário: uma pequena lancha denominada
Maribondo, saída pouco antes do porto do Rio.
Garibaldi não tinha particular interesse no barco nem
em sua carga, mas sim em apropriar-se de víveres para
enfrentar a longa travessia.
Na altura da Ilha Grande, eis que surgiu Luísa,
uma escuna de 120 toneladas, com o pavilhão do Império.
Foi esta a embarcação escolhida para tornar-se
a Farroupilha. Após um assalto, sem que a
tripulação brasileira tivesse oposto resistência,
a apropriação da embarcação foi
marcada pela substituição da bandeira do Império
pela bandeira verde, amarela e vermelha da República
Rio-grandense. A alegria de Garibaldi foi maior ainda ao descobrir
que a sumaca pertencia a dona Felisbella Cândida Stockmeyer,
de família austríaca, e que levava, para o porto
do Rio, café destinado a exportação para
a Europa. Com um único golpe, Garibaldi tinha acertado
dois inimigos: o império brasileiro e o império
austro-húngaro, opressor dos italianos.
Entre os 13 companheiros38 que tripulavam o Mazzini,
só um tinha capacidade de comandar um barco em alto
mar. Desta forma, decidiu-se abandonar o Mazzini,
transferindo todos para o navio maior, o Farroupilha.
O afundamento da lancha de cabotagem Mazzini assume,
então, um valor simbólico. Ao encerrar sua história
carioca, Giuseppe Garibaldi conquistou a independência.
Agora estava pronto para tomar o comando de um navio, enfrentar
o oceano e desafiar o império brasileiro, lutando pela
jovem república do Rio Grande do Sul, na qual projetava
os sonhos e os ideais que a Itália ainda não
podia realizar.
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36 CANDIDO, Salvatore. Giuseppe Garibaldi: corsário
rio-grandense: 1837-1838. EDIPUCRS. Instituto Estadual do
Livro p.139-140.
37 GARIBALDI, José. Memórias. Tradução
do manuscrito original por Alexandre Dumas. Rio Grande. O
Intransigente, 1907, p.46.
38. Ibid. 37 p.71. |