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O “aprendizado” de Garibaldi
na América Latina: a “scuola
delle palle” e a “escola moral”


Anna Maria Lazzarino Del Grosso
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Professora da Faculdade de Ciência Política da Universidade de Gênova, Itália

Quando Garibaldi chegou ao Rio de Janeiro, com vinte e oito anos, no final de 18351 ou início de 1836, com uma condenação à morte por “traição militar” e uma apaixonada determinação em contribuir para o sucesso da causa italiana entre as fileiras de organizações de exilados mazzinianos, de longe, momentaneamente, não dispunha senão de uma longa experiência de navegação mercantil, pouquíssimos dias de serviço na Marinha de guerra dos Sabóias e uma cultura simples, mas original, de autodidata ávido por leitura. Não consta que tivesse prática com armas, e suas idéias políticas, poucas e claras, fortemente radicadas em um sistema de valores simples mas imbatíveis, eram fruto de sentimentos juvenis e do ensinamento, tão casual quanto iluminado, recebido na primavera de 1833 do saint-simonista Émile Barrault, que embarcou com um grupo de partidários na Clorinda e, pouco depois, pelo jovem “crente” mazziniano encontrado em uma taverna de Taganrog.

Quando em 15 de abril de 1848, quase treze anos depois, zarpou com sessenta e três companheiros do porto de Montevidéu a bordo da embarcação Speranza rumo à Itália, finalmente empenhada naquela que parecia a ele uma luta geral de emancipação, com a intenção de colocar-se à disposição do exército comandado por Carlo Alberto, Garibaldi passava dos quarenta anos, e sua fama de herói, que ele não cansa nunca de refletir sobre os seus valentes e generosos companheiros de armas, difundiu-se em toda a Europa, além das Américas, graças ao empenho público de Mazzini e de Giovan Battista Cuneo2. Tal fama reanima as expectativas dos patriotas italianos e não tardará, apesar das dificuldades freqüentemente postas pelos governos dos Sabóias, a encontrar luminosas e cada vez mais aclamadas confirmações.

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1 Esta data de chegada é referência de A . SCIROCCO, Garibaldi. Battaglie, amori, ideali di um cittadino del mondo. Roma-Bari: Laterza, p. 29. Em janeiro de 1836 era fixada por S. CANDIDO, Garibaldi in America. De ‘Memorie’ ao ‘Documenti’, em Garibaldi cento anni dopo. Atos do Convênio de Estudos Garibaldinos, Bergamo, 5-7 de março de 1982, aos cuidados de A. Benini e P.C.Masini. Florença: Le Monnier, 1983, p. 25.

2 Cfr. A . SCIROCCO, op. cit., pp. 129-130, 134-135.

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Durante seu “primeiro” longo exílio na América Latina, antes no Brasil e depois no Uruguai, o jovem capitão de Nizza, perseguindo profundas motivações ideais, incontrolável sede de ação e de aventura, amadureceu um aprendizado determinante, multiforme e cada vez mais comprometido, não somente na condução da guerra, no mar e terrestre, mas também na aquisição de uma liderança sábia e carismática, inspirada rigorosamente nos valores democráticos, cosmopolitas e humanitários, e fundada em uma real capacidade organizacional e política, atenta seja nos mínimos detalhes práticos, como se exige a um chefe que tem responsabilidade direta sobre os seus homens, seja na exigência de ligar os objetivos perseguidos, ideais ou concretos, às altas esferas do poder.

Amadureceu, também, através de experiências afetivas que não se podem apagar, de contato social ou com vários ambientes políticos, e graças a uma inclinação à reflexão crítica e à comunicação eficaz, nada banais, aquela personalidade que irradia audácia e ardor, energia e compaixão humana, segurança e modéstia, generosidade e abertura, que, mesmo com aversões às vezes fortes, é um elemento central, junto ao valor militar, tanto do seu sucesso histórico quanto da formação do seu mito que persiste até hoje, um mito que já pairava em 1848, mas que as sucessivas ações italianas e em terra francesa teriam agigantado e legado à posteridade.

No mais, já em novembro de 1842, Mazzini, ao noticiar suas façanhas no oitavo número do L’Apostolato popolare, indicava-o como merecedor de afeto, expressando a convicção “de que ele não considera a sua carreira na América meridional senão como um aprendizado à guerra italiana que o chamará um dia para a Europa” 3.

As etapas e os aspectos mais salientes deste “aprendizado” americano, que na realidade cresceu com a dedicação à causa da liberdade dos povos, também esta mazziniana, explicitada nos objetivos da “Jovem Europa”, à qual Garibaldi provavelmente aderiu em Marselha4, mas também de origem saint-simonista, podem ser seguidos através de uma releitura das Memórias, grande parte escritas em Tanger, entre o final de 1849 e a primavera de 1850, no início do seu “segundo exílio”, pois me parece mais apropriado, pela maior proximidade temporal dos eventos narrados, analisar no texto da terceira redação completada no final de 1859 5, e também do precioso corpus de cartas publicado em 1973 por Giuseppe Fonterossi, Salvatore Candido e Emília Morelli, no VII volume da Edição Nacional, que oferece um testemunho vivo e direto da obra e dos pensamentos de Garibaldi, no período que vai de 1834 até a véspera de sua partida para o Uruguai.6

Se as Memórias testemunham também, do ponto de vista subjetivo de seu autor, os sinais profundos e o valor determinante conferido à sua existência naquele universo de experiências, principalmente vividas nas regiões do Brasil meridional e da República oriental do Uruguai, atravessadas pelos grandes afluentes do Rio de La Plata e da densa rede de tributários, as centenas de cartas até hoje encontradas (graças, sobretudo, às longas pesquisas in loco de Salvatore Candido) que Garibaldi escreveu naqueles anos, freqüentemente pressionado pela urgência de suas tarefas e deveres, revelam o aumento progressivo de sua capacidade de ação e de suas competências, o formar-se gradativo de uma experimentada visão crítica a propósito das decisões e das práticas dos seus diversos interlocutores, militares e políticas, a assunção no próprio patrimônio intelectual e ideal de novos modelos morais e políticos influentes, o precisar de declinações concretas, à prova dos fatos, dos valores professados. Revelam, em outros termos, o desenvolver de um itinerário de crescimento pessoal, não menos diferente e aventuroso do que aquele exterior, que do “aprendizado” o conduz à plenitude da “profissão”, da condição de soldado “aprendiz” a comandante e guia reconhecido e amado, mestre das armas e das estratégias bélicas em cada terreno ou extensão de água, mas também mestre da vida, em sentido amplo e, por que não, da política no sentido mais nobre, mas também mais sagaz do termo.

Neste campo, sua primeira e principal lição, talvez elementar em sua simplicidade e concisão expressiva, mas no fundo, me parece, reconhecível em certos comportamentos discutidos ao longo dos sucessivos acontecimentos do Ressurgimento, não foi suficientemente compreendida, e raramente foi seguida: esta aparece mais vezes nestes anos, sobretudo no que se refere à causa italiana, e encontra-se sintetizada de modo eficaz na passagem de uma carta enviada de Salto a Napoleone Castellini, em 26 de fevereiro de 1846: “em uma tua, me falas das coisas da Itália: eu, quando diminui em mim o amor que sinto por ela, gostaria que um raio me incinerasse; mas é preciso que eu te chame a atenção da qual tu necessitas; é que na “scuola delle palle”, e outras coisinhas similares, que estamos fazendo hoje, é importante acrescentar a escola moral das conciliações, que talvez mais do que tudo, é necessária a todos nós. Me dirás que te encho o saco…” 7

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3 Cit. Em G. TRAMAROLLO, Garibaldi e la “Giovine Italia”, em Garibaldi cento anni dopo, cit., p.66.

4 Cfr. A . SCIROCCO, op.cit., p.27.

5 Ver pp.186-188,190.


6 Edizione Nazionale degli scritti di Giuseppe Garibaldi, (de agora em diante: E.N.), vol. VII, Epistolario, vol. I (1834-1848) sob cuidados de G. Fonterossi, S. Candido, E.Morelli. Roma: Istituto per la Storia del Risorgimento, 1973. De agora em diante: Epistolario.

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Utilizando sua feliz expressão dicotômica, podemos dizer que, para Garibaldi, a sua primeira longa estada na América meridional foi uma “scuola delle palle” e “escola moral”. Se a primeira afirmação parece óbvia e bem conhecida no nível da cultura popular, talvez alguma reflexão e documentação mereça a segunda, deixando claro que entendo o adjetivo “moral” no seu mais amplo significado.

Não existe dúvida de que a trajetória rio-grandense do primeiro itinerário de Garibaldi na América Latina tenha constituído e permanecido até o fim, também na sua consciência, como a experiência mais grandiosa e rica de momentos felizes de sua vida, aquela que talvez tornava com maior prazer e emoção à recordação. Demonstram-no o tom lírico de algumas páginas das Memórias que fazemos referência8, entre as que melhor se destacam do ponto de vista literário, e algumas afirmações explícitas do seu autor, que define “bela e de acordo com a minha índole” a vida “muito ativa” e também “cheia de perigos” de “corsário” (mas, na realidade, como acentuou Candido, já estava a serviço do exército regular da República do Rio Grande do Sul 9) que conduzia em 1838, dirigindo a construção de navios de guerra, e guiando expedições corsárias contra a frota imperial na foz do rio Camaquã, na Lagoa dos Patos 10.

Relembrando as visitas festivas às casas hospitaleiras das irmãs do Presidente Bento Gonçalves, situadas naquela zona, escrevia: “Não sei se a minha idade influenciou na minha imaginação, predispondo-me a todas as coisas e embelezando-a como nova e inexperiente. Mas, de qualquer maneira, posso assegurar que nenhuma circunstância da minha vida se apresenta ao pensamento com tanta doçura e aspecto agradável, do que aquela passada naquele amável terra”11.

No Brasil, Garibaldi conhece e cultiva a força da amizade que nasce da partilha dos mesmos ideais e do mesmo extremo empenho na luta política de emancipação, e conhece, infelizmente, primeiro com o naufrágio da embarcação Rio Pardo (mas rebatizado Farroupilha), onde pereceram os seus mais queridos companheiros, mais tarde com o heróico fim de Luigi Rossetti, a lancinante dor da perda que, à distância de anos, ainda vibra nas páginas das Memórias, assim como nos perfis biográficos dedicados a eles12, mas é, sobretudo, a lembrança do encontro com Anita, do nascimento do primogênito na extrema pobreza do campo de São Simão, e das épicas e romanescas aventuras comuns, em uma natureza livre e selvagem, a suscitar-lhe uma enternecida e apaixonada saudade, que compreende também o grupo dos seus companheiros: “Entre as tantas peripécias de minha tempestuosa vida não deixei de ter belos momentos, e estes, embora não pareça, eram aqueles em que à frente de poucos homens, que tinham restado de tantos combates, e que justamente mereciam o título de valentes, eu marchava a cavalo, com a mulher da minha vida ao lado, digna da admiração universal, e lançando-me em uma carreira, que mais do que aquela do mar, tinha para mim imensos atrativos. E o que me importava de não ter outras vestes? E de servir uma República pobre, que não podia pagar ninguém?… Minha Anita era o meu tesouro; fervorosa quanto eu pela sacrossanta causa dos povos… o futuro nos sorria afortunado e quanto mais selvagens se apresentavam os espaçosos desertos americanos, mais agradáveis e belos nos pareciam.” 13

Homem chegado à sua plenitude afetiva, à serena auto-satisfação, depois da dura experiência da prisão em Gualeguay, o Garibaldi que entra oficialmente a serviço da República Rio-grandense e, segue, no campo, o Presidente Bento Gonçalves, encontra sem dúvida nele um modelo de liderança política e militar, caracterizada pelas altas qualidades humanas e democráticas, que respondem aos próprios valores e os reforçam, e, apesar da visão mais crítica que desenvolverá mais tarde a propósito de alguns erros seus na condução da guerra, pode-se deduzir que influenciou e orientou no tempo o seu próprio modo de entender o governo dos homens: “Passei algum tempo nas terras daquele homem, onde a natureza havia favorecido com o que há de melhor, mas a sorte contrariou quase sempre, beneficiando o Império brasileiro. Bento Gonçalves era o tipo de guerreiro generoso, e o era ainda, perto dos sessenta anos, quando eu o conheci. Alto de estatura e rápido, ele cavalgava um fogoso ginete com a facilidade e a destreza de um jovem conterrâneo seu. Pessoa valorosíssima, ele teria lutado em combates extraordinários e talvez vencido os melhores cavaleiros do mundo. De espírito generosíssimo e modesto, não creio que ele tenha excitado os rio-grandenses a emancipar-se, com a finalidade de engrandecimento próprio. Simples como todos os filhos desta nação guerreira, o seu sustento no campo era um assado, como o do último soldado, e eu dividi os seus alimentos campeiros com tanta familiaridade como se fôssemos companheiros desde a infância. Com tais predicados Bento foi o ídolo dos compatriotas, por outro lado com tantas habilidades foi desventurado nas suas batalhas: isto sempre me fez supor que a sorte não è suficiente nos acontecimentos da guerra.”14

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7 Ver p.182 (n. 217, pp. 181-183).

8 Como, por exemplo, a famosa descrição do soberbo espetáculo da campanha povoada por cavalos e outros animais em torno de Jesus Maria: Le Memorie di Garibaldi in una delle redazioni anteriori alla definitiva del 1872, (E.N., I). Bologna: Cappelli, 1932, cap. VII, pp. 15-16.

9 Cfr. S. CANDIDO, Garibaldi in America, cit., p.34

10 Le Memorie cit., cap. XIII, p. 29.

11 Ver cap.XIII, p.31.

12 Encontra-se a respeito A . M. LAZZARINO DEL GROSSO, Amici e amicizia nelle Memorie di Giuseppe Garibaldi, in G. ANGELINI. M. TESORO, aos cuidados de, De amicitia. Scritti dedicati a Arturo Colombo. Milão: Franco Angeli, 2006, pp. 441-459, em especial pp.443-446.

13 Le Memorie cit., cap. XXII, pp. 52-53.

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No que diz respeito aos combatentes rio-grandenses, chamados muitas vezes de “filhos do Continente”, “republicanos vigorosos”, Garibaldi não se cansa de elogiar a coragem, as habilidades militares, a capacidade de enfrentar sofrimentos e privações em nome da causa perseguida, chegando a mostrar o exemplo aos próprios compatriotas: “Italianos! O dia em que sereis unidos e modestos como os filhos do Continente! O estrangeiro não pisará o vosso solo! Não contaminará o vosso leito! A Itália terá recuperado o seu lugar entre as primeiras nações do Universo.”15

A experiência da guerra pela liberdade rio-grandense e o admirado e doloroso afeto pelos seus mortos proporciona também a Garibaldi os primeiros modelos emblemáticos, nobres, de um heroísmo voluntário desinteressado, que muita influência terá na definição dos ideais e da ideologia do voluntariado garibaldino, a começar por aqueles da Legião Italiana que, em poucos anos, se constituiria como suporte na luta de liberdade da República Oriental do Uruguai, obtendo com o seu valor, junto com os seus chefes, uma fama que não perece.

A primeira figura-modelo que se encontra nas Memórias, é a do americano John Griggs, que tinha deixado em pátria uma notável fortuna para servir à nascente República brasileira, dedicando-se à construção de embarcações de cujo armamento o próprio Garibaldi se ocupou. Havia participado com ele da difícil expedição pela libertação da cidade de Laguna, que levou à proclamação da República de Santa Catarina, e lá foi morto poucos meses depois, enquanto defendia corajosamente a capital do ataque da frota imperial. Mas, aos poucos, foram-se juntando outras figuras de mártires pela liberdade de uma pátria desinteressadamente e apaixonadamente adotada como sua: a começar pelos companheiros italianos mortos no naufrágio, como Edoardo Mutru e Luigi Carniglia, a quem parece que Garibaldi gostaria de erguer, com as próprias palavras, uma espécie de monumento simbólico, para compensar a falta da sepultura.

Escrevi acima que é na prova concreta do seu empenho no serviço àquela que repetidamente chama, tanto nas Memórias, quanto nas cartas, a causa dos povos, que Garibaldi encontra a ocasião de declinar e verificar concretamente em termos de sustentabilidade os seus já sólidos princípios éticos, marcados nos valores da humanidade. O texto auto-biográfico oferece numerosos exemplos, com isso indicando o dever, mas também a oportunidade em termos de sucesso político-militar.

A libertação dos escravos negros, que Garibaldi mesmo pretendia quando efetuou a sua primeira “tomada”corsária16, que levou à formação de um precioso corpo escolhido de “verdadeiros filhos da liberdade”17, o respeito às pessoas e aos bens dos prisioneiros civis, o repúdio aos saques e à represália feroz18, o cuidado e a solicitude com as populações expostas aos danos e perigos da guerra, o imparcial reconhecimento dos atos nobres e valorosos do inimigo, a distinção entre o mal a ser combatido (o absolutismo) e os homens que o encarnam, antes para compadecer-se do que para odiar19 , o deixar aos próprios subalternos, nos momentos mais difíceis, a liberdade de escolha do próprio destino20, são comportamentos que se evidenciam como eticamente necessários no andar das campanhas rio-grandenses, e que constituem em seu conjunto, ao lado dos modelos humanos já indicados acima, os conteúdos daquela “escola moral” que Garibaldi praticamente freqüentou e construiu, e que pretendia transmitir, também com a redação das suas Memórias, aos seus compatriotas.

O exame das cartas confirma a existência deste percurso de consciência ética. Se nas poucas mas importantes correspondências que nos restaram dos anos de 1836-1837 (entre as quais a famosa carta à Mazzini de janeiro de 1836) prevalece a preocupação de dar o quanto antes uma contribuição de mazziniano adepto à Jovem Europa, à causa italiana, àquelas sucessivas, e até a véspera do retorno à pátria, interlocutores, referências e problemas enfrentados são principalmente “americanos”, ligados à vida quotidiana do militante. Depois da passagem pelo exército rio-grandense, inicia a série de despachos informativos às autoridades superiores, que também ocupam muitas páginas da correspondência do Uruguai.

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14 Ver cap. XII, p.28.

15 Ver cap. XXV, p.66.


16 Não se detém a este episódio nas Memórias, mas como mostrou S CANDIDO, Garibaldi in America cit., pp. 40-45, está irrefutavelmente comprovado pelos documentos do processo desenvolvido em Gualeguay e de uma carta sua para Cuneo.

17 Le Memorie cit., cap. XXV, p.64.

18 Ver cap. XX, p.49.

19 Ver cap. XXIV, p.60.

20 Cfr. Ver cap. XXIII, p. 58.


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Na comovente carta enviada em 28 de julho de 1839 à irmã do Presidente, Dona Ana Joaquina Gonçalves da Costa Santos, onde conta sobre o naufrágio da Farroupilha (Rio Pardo) e sobre a morte dos companheiros, fala da própria “vida de apostolado perseguido”, que o endureceu frente às desgraças, mas não ao ponto de não ser atacado pelo desespero frente a uma tragédia tão horrível.

No Uruguai, empenhado na “Guerra Grande” contra as tropas do ditador argentino Juan Manuel Rosas e de Oribe, Garibaldi foi chamado a fazer parte da marinha militar uruguaia com o grau de coronel. Colocado no comando da corveta Constitución recebe, em 1842, a difícil e arriscada tarefa de alcançar com outros dois navios, subindo o Rio Paraná, a província argentina de Corrientes, governada por Pedro Ferré, rebelde em Rosas, levando ao tribunal local algumas presas, cujo valor recebido depois teria colocado à disposição dos membros da expedição, todas as embarcações argentinas capturadas durante o percurso.

O êxito da operação foi desastroso, mas Garibaldi e os seus corsários conquistaram uma admirada celebridade graças à heróica resistência frente à frota argentina guiada pelo almirante Brown, perto da Costa Brava. O relato do episódio nas Memórias é muito técnico, quase profissional, rico em detalhes, mas sem desviar do tema: aqui também se esboça o modelo de uma extraordinária e desesperada tarefa sustentada por uma motivação de ética militar: combater até o fim, desafiando a morte, mesmo na certeza da derrota, “pela honra” 21, símbolo que será emblemático do voluntariado garibaldino.

Também a luta do “generoso povo Oriental” é apontada como exemplo a todos os povos que quiserem no futuro resistir aos ataques do inimigo, e o coronel Pacheco, que depois tornou-se general, configura um outro modelo de chefe militar, marcado pela “superioridade sublime, pela coragem, pela energia, pela capacidade”.22

O quadro da direção política uruguaia é, entretanto, contrastante: nas Memórias, Garibaldi usa palavras duras em confronto com o Ministro Geral da República, general Francisco Antonino Vidal, que define “de infausta e desprezível memória”, considerando-o responsável de uma errada e absurda política de destruição da frota, além do desastre sofrido na expedição para Corrientes 23, preocupado somente em acumular “dobrões, para utilizar em passeios de carruagem e aparições esplêndidas nas primeiras capitais da Europa” 24 e, no final, fugir com o dinheiro do tesouro25.

Grande, porém, é a admiração pelo comportamento firme e heróico do povo na iminência do cerco da capital, depois da terrível derrota sofrida pelas forças aliadas no Arroio Grande, que atribui às “discórdias fomentadas pela ambição de poucos”26: “Em breve formou-se um novo exército! Senão tão numeroso, não tão disciplinado, pelo menos cheio de ímpeto e entusiasmo, mais imbuído da causa sacrossanta que os movia. Não era mais a causa de um homem que estimulava as multidões, o astro daquele homem havia desaparecido na última batalha e o esforço de levantar-se foi em vão. Era a causa nacional, perante a qual calavam-se as odes, as personalidades, as divergências. O estrangeiro preparou-se para invadir o território da república; cada cidadão corria com armas e cavalos para alistar-se nas bandeiras para rechaçá-lo. O perigo aumentava; aumentava o brio, a devoção daquela população generosa. Não uma voz de transação! De pacto!.”27

Depois de anos a recordação daquela reação unitária oferece a ele matéria para uma amarga comparação com o que aconteceu no dia seguinte à derrota de Novara e para um sinal, por sua vez não desenvolvido, de uma possível explicação de tanta diversidade. Também o novo exército de infantaria organizado em Montevidéu, sob o comando do general Paz, incluía escravos livres e chefes ilustres, “esquecidos e que desprezavam as guerras onde primavam interesses pessoais”. Pacheco assume o Ministério da Guerra e a Garibaldi é confiada a tarefa de organizar a frota. Os franceses e os italianos imigrados organizam as respectivas Legiões, com “generoso ímpeto”. O empenho de Garibaldi na organização e na condução da Legião italiana, sustentada, com a sua mediação, pelo Ministro Pacheco, protagonista de páginas gloriosas da história da Guerra Grande, bem como a de comandante da frota republicana, constituem o teste de conclusão de seu “aprendizado”, obrigando-o a uma intensa atividade de relação com os Ministérios, em parte de ordinária administração “burocrática”, em parte direcionada à política.

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21 Ver cap. XXXI, pp. 87-88.

22 Ver cap. XXXIII, p. 96.

23 Ver cap. XXIX, p.80.

24 Ver cap. XXXI, p.88.

25 Ver cap. XXXIV, p.99.

26 Ver cap. XXXII, p.92.

27 Ver cap. XXXII, p. 95.


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O julgamento de Garibaldi quanto à administração do governo Pacheco é extremamente positivo, e também quanto à condução da guerra por parte do general Paz 28, considerado um verdadeiro e próprio gênio militar. Muito severo quanto a Rivera e Madariaga que, depois da relevante vitória de San Antonio del Salto obtida pela Legião Italiana, tomaram posse do poder, com uma espécie de revolução, respectivamente em Montevidéu e em Corrientes, determinando o exílio de Pacheco e de Paz e o início de um inexorável declínio político e militar. 29

As numerosas cartas escritas no período uruguaio revelam que os interlocutores de Garibaldi transformaram-se em ‘políticos”, e comprovam como a sua atividade, com o crescer das responsabilidades, veio a conter também pesadas tarefas de correspondência com as autoridades, com o objetivo de relatar as próprias ações e as dos homens a ele confiados e, sobretudo, de fazer chegar a eles uma série de pedidos segundo as necessidades da frota e dos seus equipamentos ou os da Legião. A benevolência da relação existente entre o comandante e os seus soldados emerge nas suas numerosas mensagens de mediação em favor de suas causas pessoais: ênfase dos seus méritos, pedidos de promoções, de ajuda na cobrança de créditos ou no pagamento de débitos, de vários tipos de apoio em caso de necessidade, de clemência em alguns casos de transgressão desculpável.

Não faltam trechos ou páginas de conteúdo político, que reforçam e às vezes ilustram as idéias de fundo que movem na América latina, e acompanharão a ação de Garibaldi mais tarde na Itália. É evocada mais vezes a sua concepção de guerra justa como luta pela “causa da humanidade”30, a mais alta proclamação desse princípio se encontra na carta a Fructuoso Rivera, que contém a orgulhosa e firme declaração dos Oficiais italianos, em nome de toda a Legião, com a qual recusa a abundante doação disposta pelo General:

“Que persuadidos que es deber de todo hombre libre combatir por la libertad de quiera que asome la tiranía, sin distinción de tierra ni di Pueblo, porque es el patrimonio de la humanidad, no han seguido sino la voz de su conciencia, al ir a pedir um arma a los hijos de esta tierra, para dividir com ellos los peligros que los amenazaban. Que satisfechos com haber cumplido com sus deberes de hombres libres ,continuarán a dividir como hasta aquí ‘pan y peligros’con sus valientes camaradas de la guarnición de la capital, hasta que las exigencias del sitio lo requieran, sin aspirar a admitir distinciones ni premios de ninguna clase´.”31

Em 30 de março de 1846, Garibaldi recusará, com uma carta ao Ministro da Guerra Francisco Joaquim Muñoz, a promoção a Coronel Major, com a argumentação que “o sólo qualquier benefício o ricompensa, también los honores me pesaríam sobre el alma que fueran comprados con la sangre de mis paesanes.”32

Perante a exigência de combater o “déspota” Rosas, Garibaldi apela para o recurso da mesma “política maquiavélica” que ele adota sanguinariamente, mas deixa claro que “en nuestras manos semejantes armas sólo servirán para las exigencias del momento, el triunfo de la humanidad, y de los sanos principios.”33

A escola de conciliação que na já citada carta a Castellini é invocada para a Itália, como escreve para Cuneo, em 18 de outubro de 1842, é considerada necessária também para “os nossos amigos Orientais e Argentinos” de quem lamenta o “maldito espírito de provincianismo.”34

Na carta enviada em 6 de outubro de 1845 a Manuel Lavalleja, ilustre coronel uruguaio a serviço de Rosas, para solicitar um encontro na esperança de levá-lo para o seu lado, Garibaldi expressa a confiança que ele compartilhe a mesma livre dedicação pela causa do Povo e da democracia, sem vínculos partidários, que ele abraçou com total desinteresse e que reúne os defensores de Montevidéu, pedindo a eles cooperação com o bem-estar “de este Pueblo desdichado y generoso.”35

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28 Ver cap. XXXIV, p. 103; cap. XXXVII, p.109.

29 Ver cap. XXXVI, pp. 138-139; XXXVIII, pp. 148-150.

30 Cfr. Epistolario, cit, nn.24 (A Francisco Antonino Vidal, 2 de julho de 1842), 25 (A Pedro Ferré, 19 de julho de 1842).

31 Ver n. 147 (A Fructuoso Rivera, 23 de março de 1845).

32 Ver n. 229, (A Francisco Joaquin Muñoz, 30 de março de 1846), p. 192.

33 Ver n.26, (A Pedro Ferré, 20 de agosto de 1842), p.85.

34 Ver n. 34 (A Giovan Battista Cuneo, 18 de outubro de 1842), p.43.

35 Ver n. 178, (A Manuel Lavalleja, 6 de outubro de 1845), p. 143.

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Não faltam cartas de total franqueza aos Ministros e Chefes de Estado, com sugestões, conselhos, pedidos. Especialmente crítica é a sua posição frente aos governantes nos meses seguintes à batalha de San Antonio, quando é obrigado junto com os seus legionários à inércia na região de Salto, privado de reabastecimento e das roupas necessárias aos seus homens para enfrentar o inverno ameaçador. Sentindo-se abandonado, ou pior, boicotado, dirigiu-se ao contra-almirante francês Laîné, recusando-se por outro lado a aceitar a sua proposta de assumir o alto comando das forças uruguaias36. Uma carta a Cuneo, de 15 de junho, demonstra sua irritação com o Ministro da Guerra Antonio Costa: julga-o hostil à Legião italiana, que ele gostaria que fosse toda reunida em volta dele e em concordância, para melhor defender o povo uruguaio.37

Nas cartas de 1847, manifesta-se preponderante o chamado da pátria italiana, já em alvoroço. Ao patriota Eugenio Belluomini, que pediu a ele que retornasse, deixa clara a sua consciência de não abandonar “este país infeliz” e “tantos bons e valorosos companheiros” e, ao mesmo tempo, manifesta a própria abertura em relação ao “projeto iniciado por Pio IX e por Carlo Alberto”38. A última correspondência propriamente “política”, escrita no Uruguai, foi enviada ao núncio apostólico no Rio de Janeiro, Gaetano Bedini: esta expressa admiração e esperança a respeito da política liberal e patriótica inaugurada por Pio IX e oferece, humildemente, o serviço da Legião italiana à sustentação de sua “sua obra redentora”.39

O “aprendizado” de Garibaldi terminou há tempo. As coisas andarão bem diferentes de como ele imaginava nesta carta, mas depois de alguns meses partirá para a Itália, junto com outros homens criados (e amados) como filhos naquela “escola moral” da qual se tornou mestre, escola que tomou forma e substância no decorrer das generosas lutas pela liberdade dos povos do Rio Grande do Sul e da República Uruguaia, um homem dotado de todas as qualidades para desenvolver uma ação decisiva nos destinos da Pátria.

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36 Ver n. 242 (A Jean-Pierre Honorat Laîné, 21 de maio de 1846), pp. 202-203. Cfr. também a carta ao mesmo de 1º de maio de 1846, ver n.236, pp. 197-199.

37 Ver n.246, (A Giovan Battista Cuneo, 15 de junho de 1846), pp. 207-210.

38 Ver n. 296 (A Eugenio Belluomini, 7 de agosto de 1847), pp. 238-239.

39 Ver n.304, (A Gaetano Bedini, 12 de outubro de 1847), pp. 245-247.


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