| Garibaldi: republicano
e
revolucionário internacional
Carmen Lícia Palazzo
________________________________________________________
Doutora em História, pesquisadora convidada do
UniCeub, Brasília, D.F.
Já há algum tempo que a escrita da história
não se faz mais em torno de relatos puramente factuais
ou de biografias das grandes personalidades que, por intermédio
de suas ações, teriam sido responsáveis
por mudanças decisivas nos acontecimentos de determinadas
épocas. A denominada escola dos “Annales”
representou um marco importante de uma nova maneira de escrever
história, e o estudo das mentalidades, que dela se
originou, abriu um caminho muito rico para os pesquisadores,
conduzindo ao que hoje denomina-se História Cultural.1
O surgimento de novos paradigmas, porém, não
excluiu o interesse por determinadas figuras que merecem ser
objeto de pesquisas que muito têm a acrescentar ao conhecimento
histórico. O italiano Giuseppe Garibaldi é um
destes casos, e suas ações devem ser analisadas
levando em conta não apenas o agitado contexto da época
mas também os aspectos míticos que passaram
a ser incorporados aos relatos de suas aventuras. Acompanhar
sua trajetória é, de certa forma, mergulhar
também nos sonhos, nas esperanças e na violência
de um período conturbado da história ocidental,
no qual as lutas pela liberdade eram travadas, tanto na Europa
quanto no continente americano, sem garantias de vitória.
Nossa intenção, neste trabalho, foi a de apresentar
o personagem em suas múltiplas facetas, sem pretensões
de esgotar o assunto, já que cada passagem de sua vida
permite um grande leque de interpretações.
Garibaldi, que aportou no Rio de Janeiro em 1836, fugindo
do absolutismo do reino do Piemonte, lutou na Revolução
Farroupilha e posteriormente no Uruguai, ao lado de Rivera,
tendo sido elevado à categoria de mito vivo em seu
próprio tempo. Foi alvo tanto dos mais entusiasmados
elogios quanto de duras críticas, despertando o interesse
de escritores como Alexandre Dumas, George Sand e Victor Hugo.
_____________________________________________________________
1 Sobre a escola dos Annales ver Peter BURKE. A escola
dos Annales: 1929-1989. São Paulo: USP, 1991. Ver também
Jacques LE GOFF e Pierre NORA (orgs.) Faire l’histoire.
Paris: Gallimard, 1974.
_____________________________________________________________
Em geral, na historiografia latino-americana, são
destacadas as passagens mais romanescas de sua vida, como
o encontro com Anita em Laguna, o que, sem dúvida,
impede uma análise objetiva da trajetória daquele
que foi uma das mais marcantes personalidades do século
XIX. Por outro lado, é pouco lembrada sua atuação
no Congresso pela Paz, realizado em Genebra, em setembro de
1867, sua participação como republicano na guerra
francesa de 1870 e sua atividade como parlamentar italiano,
eleito em fevereiro de 1871.
Garibaldi deixou, além das conhecidas Memórias,
uma vasta correspondência, proclamas, discursos e romances
— e em todo este material escrito é possível
perceber um pensamento original, que amalgamou as idéias
da “Giovine Italia” de Mazzini2 à sua própria
vivência dentro e fora do continente europeu. Da análise
de seus textos, de suas ações revolucionárias
e de sua participação política, surge
uma figura complexa cujo fascínio não se esgota
no que é normalmente reproduzido pelo imaginário
popular.
Da Europa à América do Sul
Nice, cidade onde nasceu Garibaldi, em 1807, teve grande parte
de sua história estreitamente ligada à Casa
Real de Savóia. Pertencendo ora a ela, ora aos franceses,
esteve nas mãos da monarquia piemontesa entre 1815
e 1860, quando retornou — então, definitivamente
— à França. Assim, quando em 1822 Giuseppe
Garibaldi iniciou, muito jovem, suas viagens na condição
de marinheiro mercante, sua cidade integrava mais uma vez
o chamado Reino do Piemonte e da Sardenha. O panorama europeu
estava conturbado, os austríacos já haviam derrotado
os piemonteses em Novara, em 1821, e as grandes potências
debatiam-se entre posições liberais e abolutistas.
Mais adiante, a partir de 1830, ocorre uma nova onda de revoluções
liberais, com a guerra dos Bourbon, na França, e as
independências da Bélgica e da Polônia.
É sob todo este clima que Garibaldi descobre, no porto
russo de Taganrog, através do contato com outros marinheiros
lígures, os ideais de Pátria e Liberdade que
irão guiar o longo processo de unificação
italiana.
Embarcando na marinha sarda, em 1833, para o serviço
militar, Garibaldi participou da fracassada insurreição
da “Giovine Italia”, no início de 1834.
Foi, portanto, como seguidor de Mazzini que atuou de modo
a receber uma condenação à morte, ditada
pelo Tribunal de Guerra de Gênova. Adotando os pseudônimos
de Giuseppe Pane e de Borel, Garibaldi inicia o que virá
a ser um exílio de doze anos, durante os quais, como
comprovam seus escritos, e especialmente sua correspondência,
estará permanentemente referindo-se à libertação
da Itália, dentro de um quadro mais amplo de liberdade
para todos os povos3.
Para melhor entender o internacionalismo revolucionário
de Garibaldi, é importante salientar que o nacionalismo
italiano do século XIX era bastante distinto de outras
correntes nacionalistas da mesma época, especialmente
da alemã. Tratava-se, no caso da Itália, de
um nacionalismo abrangente e integrador. Para Mazzini, a pátria
era a “consciência de pátria” e não
havia nesta definição nenhuma característica
de hereditariedade, o que ocorria com o “Volksgeist”
alemão. Assim, de acordo com a doutrina da “Giovine
Italia”, não era necessário ter nascido
num determinado lugar para entender profundamente as reivindicações
de seu povo. Nos ambientes revolucionários italianos,
circulavam idéias que vinculavam a luta contra os opressores
a um projeto mais amplo de liberdade para todos.
Não era, portanto, um aventureiro que desembarcava
no Rio de Janeiro em 1836, mas um exilado que se enquadrava
nos ideais de sua época. Durante seu período
brasileiro, Garibaldi optou, como outros refugiados italianos,
pela luta ao lado dos que considerava oprimidos, contra o
poder do Império, muito embora tivesse uma idéia
romântica sobre a Revolução Farroupilha.
“Corsaro! lanciato sull’oceano con dodici
compagni a bordo d’una garopera, si sfidava un impero,
si faceva sventolare per i primi, in quelle meridionale coste,
una bandiera d’emancipazione! La bandiera repubblicana
del Rio Grande!”4
Recebendo uma carta de corso para, junto com Luigi Rossetti,
apresar outras embarcações, Garibaldi iniciou
suas atividades a favor dos farrapos. Avesso a qualquer tipo
de submissão às autoridades, criticou seguidamente
as ordens de Canabarro e atribuiu a Bento Gonçalves
a indecisão nos momentos em que seria importante não
recuar na luta contra o Império5. Mas, de todos os
contatos que manteve durante o longo exílio sul-americano,
foi justamente a personalidade de Bento Gonçalves que
mais o marcou, exercendo sobre ele um grande fascínio,
tanto por sua maneira de ser, quanto pelo modo de vida dos
gaúchos, tão distinto do europeu.
_____________________________________________________________
2 Giuseppe Mazzini, advogado genovês, fundou a “Giovine
Italia” em Marselha, em 1831. Revolucionário
e mentor intelectual de muitas conspirações
de caráter republicano, viveu grande parte de sua vida
no exílio.
3 Utilizamos como fontes primárias os seguintes escritos
de Giuseppe Garibaldi, editados na Itália: Le Memorie
di Garibaldi nella redazione definitiva del 1872, Bolonha:
L. Capelli Editore, 1932; Scritti e discorsi politici e militari,
vol. I (1838-1861), Bolonha: L. Caprelli Editore, 1934; Epistolario,
vol. I (1834-1848), I stituto per la Storia del Risorgimento
Italiano, 1973; I Mille, Bolonha: L. Caprelli Editore, 1933.
Trabalhamos também com textos pesquisados nos acervos
dos museus do Risorgimento de Milão e de Turim.
4 “Corsário! Lançado no oceano com doze
companheiros a bordo de uma garoupeira, desafiava-se um império,
desfraldava-se pela primeira vez, naquelas costas meridionais,
uma bandeira de emancipação! A bandeira republicana
do Rio Grande.” Le Memorie di Garibaldi..., op. cit.,
p. 30.
_____________________________________________________________
“Sobrio [Bento Gonçalves] come ogni figlio
di quella valorosa nazione, la sua vita nel campo era un açado
(arrosto) come un semplice milite: alimento unico, in quelle
campagne richissime di bestiame, ed ove, per far la guerra,
non si usano le ingombranti impedimenta, inciampo principale
degli eserciti europei.” 6
Da sua vasta correspondência constam algumas cartas
datadas de 1838 e 1839, dirigidas a Ana Gonçalves da
Costa Santos e a Antonia Gonçalves da Silva, irmãs
de Bento Gonçalves, nas quais descreve determinadas
operações de guerra mas sobretudo expressa,
de modo muito efusivo, a gratidão pela maneira como
foi tratado quando esteve nas estâncias de ambas, em
Arroio Grande e em Camaquã.7
Sobre seus companheiros de combates, Garibaldi descreve o
que certamente ocorria em todas as guerras: um grupo heterogêneo,
composto tanto por dedicados idealistas, lutando em nome da
liberdade, quanto por mercenários que, segundo ele,
haviam feito parte, em outras oportunidades, da equipagem
de barcos de piratas 8.
O fato de ter lidado com todo tipo de comandados não
significa que o próprio Garibaldi tenha agido como
mercenário — o que, aliás, não
se pode concluir nem do seu comportamento, impulsivo, porém
sempre coerente, nem da maneira como viveu, passando muitas
privações. Combateu, tanto no Brasil quanto
no Uruguai, sempre do mesmo lado para o qual se engajou (o
que, inclusive, não foi o que ocorreu em várias
oportunidades com farroupilhas ou com “blancos”
e “colorados”) e contou com limitadíssimos
meios financeiros, ocupando, em Montevidéu, apenas
uma pequena parte do que é hoje chamada a Casa de Garibaldi.
Do ponto de vista militar, sua participação
na guerra contra Rosas, também chamada Guerra Grande,
defendendo a posição de Rivera contra Oribe,
foi mais significativa do que sua atuação junto
aos farrapos. No Uruguai, lutou de forma constante e esteve
a cargo da marinha e à frente dos homens que compunham
a Legião Italiana, um dos grupos de estrangeiros organizados
em virtude da perda quase total do exército uruguaio
na batalha de Arroyo Grande, vencida por Oribe.
Garibaldi havia chegado a Montevidéu em 1841, em busca
de maior contato com a Itália, o que efetivamente se
realizava através do movimento daquele porto, e também
procurando as melhores condições de vida para
sua família, já então composta da mulher,
Anita, e do filho Menotti9. Após trabalhar algum tempo
como agente de comércio e como professor de matemática
e de história em uma escola, cujo diretor era um padre
refugiado, de origem corsa, foi chamado para lutar contra
Rosas, pois sua experiência de marinheiro era mais do
que bem-vinda numa guerra em que os rios desempenhavam um
papel decisivo.
Dentre os muitos combates dos quais Garibaldi participou durante
a Guerra Grande, uma operação totalmente vitoriosa
foi devida, em grande parte, à sua capacidade militar
e às suas qualidades de estrategista10. Tratava-se
da subida pelo rio Uruguai, iniciada em 5 de setembro de 1845,
ocupando inicialmente a ilha de Martin Garcia e continuando
sempre rio acima, em meio a inúmeras batalhas, até
culminar com a de San Antonio, de Salto, onde concentrava-se
uma grande força argentina, comandada por Brown.
Embora ainda faltasse muito para o final da guerra, a significativa
vitória de Salto, que teve como principal conseqüência
a recuperação, para o livre comércio,
de toda aquela região fluvial, fez com que a figura
de Giuseppe Garibaldi ultrapassasse as fronteiras da América
Latina. Isto porque, com a participação da França
e da Inglaterra no conflito, diversos jornalistas europeus
estavam em Montevidéu, cobrindo os acontecimentos.
Nascia, então, o herói, o revolucionário
que foi, em seguida, festejado nas obras de escritores como
Alexandre Dumas e George Sand. Começava a surgir o
mito, o de um homem que, à frente de um grupo de italianos,
emigrados e refugiados, lutava no Uruguai contra a tirania
de Rosas, levando como símbolo a camisa vermelha e
uma bandeira na qual fora pintado o vulcão Vesúvio.
Bandeira negra, cujo significado para a Legião Italiana
era o luto pela opressão na qual a Itália ainda
vivia. Estavam, então, criadas as condições
para que Garibaldi, posteriormente, ficasse conhecido como
o “herói dos dois mundos”.
_____________________________________________________________
5 Ibidem, p. 55.
6 “Sóbrio [Bento Gonçalves] como os filhos
daquela valorosa nação, a sua vida no campo
era um assado como um simples soldado: alimento único
naquela campanha riquíssima de gado e onde, para guerrear,
não se usam os incômodos paramentos, estorvo
principal dos exércitos europeus.”
Ibidem, p. 54.
7 Epistolario, op. cit., pp. 24 a 29.
8 Le Memorie di Garibaldi..., op. cit., p. 57.
9 Ibidem, p. 125.
10 “Sono infatti convinto che la più grande capacità
di Garibaldi, anche se certo non l’unica, si sia manifesta
quante volte egli riuscì a combinare accortamente il
momento politico e il momento tecnico-militare dell’azione
bellica”. CEVA, Lucio, Garibaldi Stratega. In: Garibaldi
dopo i Mille (conferenze), Turim: Museu Nacional do Risorgimento
Italiano, 1983, p. 41.
_____________________________________________________________
Naquele momento, Giuseppe Garibaldi não apenas era
festejado em Montevidéu, mas sobretudo emergia como
uma figura de que a Itália necessitava, quando um novo
ciclo revolucionário estava em gestação
na Europa. Por outro lado, ele também começava
a receber notícias animadoras do seu país, até
que, no início de 1848, soube da reforma pontifícia
e da então eventual possibilidade de uma unificação
sob a égide de Pio IX11.
O retorno à Europa com o prestígio
das lutas sul-americanas
A formação de Garibaldi foi feita essencialmente
na América Latina, e a experiência revolucionária
do Brasil e do Uruguai originou um comportamento, por um lado,
mais solto, mais livre do que o europeu e, por outro, com
muitas desconfianças nas instituições
parlamentares. Das atitudes dos caudilhos, tantas vezes por
ele criticadas, herdou algumas características que
dificultaram bastante suas relações com o mundo
oficial piemontês. Sem dúvida, o comportamento
ditatorial, também presente em Bento Gonçalves,
pode ser observado em diversas ações de Garibaldi.
Em várias passagens, chegou a justificá-lo em
seus escritos12. O poncho sempre presente, sobre a camisa
vermelha, nas campanhas da Itália, era mais do que
uma lembrança latino-americana, era o próprio
símbolo de um homem transformado pelo contato com outra
cultura.
A atuação de Garibaldi na Europa deu-se
em duas etapas. A primeira delas, entre 1848 e 1849, quando
o processo de unificação parecia condenado ao
fracasso em vista da retomada do poderio da Áustria
em território italiano. A segunda, a partir de 1859,
quando, já de volta de outro exílio, engaja-se
novamente na luta para a expulsão dos austríacos,
desta vez ao lado de Vittorio Emanuele II. Quando o “Speranza”
aportou em Nice, em junho de 1848, e ali desembarcou Garibaldi,
a euforia das rebeliões de janeiro, em Palermo e de
março, em Milão e Veneza, já havia cedido
lugar a um clima bem mais comedido e que em breve se transformaria
na grande decepção da derrota de Custoza.
Próximo a Mantova, no dia 5 de julho, o rei, Carlo
Alberto, recebia aquele revolucionário que, em 1834,
havia condenado à morte. Agora, porém, era um
herói, um nome conhecido não apenas na Itália,
mas em vários países europeus, e tanto podia
servir aos interesses da Casa de Savóia — que
almejava um Grande Piemonte — como também ameaçá-la,
caso levantasse a bandeira da república13. Mas Garibaldi
acreditava que o mais importante era expulsar o opressor,
lutar contra a Áustria, ainda que para isto tivesse
que contar com o apoio da monarquia, abdicando do ideal republicano14.
Sonhava, porém, com uma insurreição popular,
o que estava longe de ocorrer, pois os camponeses, secularmente
explorados e pouco sensíveis à causa da unificação,
não respondiam da maneira como ele havia imaginado,
pactuando, inclusive, com o inimigo. Mas, por seu lado, o
aristocrático exército piemontês também
via com desconfiança aquele homem que queria uma “guerra
per bande”15.
Os anos de 1848 e 1849 foram um período difícil.
Pio IX, que havia assumido suas funções, em
1846, como um papa liberal e até mesmo constitucionalista,
revelava-se incapaz de manter uma oposição aos
austríacos, temeroso, também, de perder o poder
temporal sobre seus estados, o que acabou ocorrendo por um
breve período, quando Roma se tornou republicana. A
monarquia, após a derrota de Custoza, em julho de 1848,
agia com cautela. Quando decide declarar novamente guerra
à Áustria, é vencida, em março
de 1849, em Novara, o que leva Carlo Alberto a abdicar em
favor de seu filho, Vittorio Emanuele II.
_____________________________________________________________
11 Não apenas Garibaldi, mas diversos patriotas italianos
acreditaram, num determinado momento, que Pio IX seria capaz
de fazer as reformas necessárias para que Roma se tornasse
uma peça-chave na unificação e no combate
aos austríacos. Em 16 de julho o papa proclama uma
anistia para todos os condenados políticos, permitindo
o retorno dos exilados. Mas, na realidade, tudo foi se tornando
mais complicado quando faltou ao Vaticano a coragem necessária
para seguir em frente apoiando a liberdade.
12 “Repubblicano, ma sempre più convinto della
necessità d’una dittatura onesta e temporaria
a capo di quelle nazioni che, come la Francia, la Spagna e
l’Italia, sono vittime del bisantismo il più
pernicioso.” Le Memorie di Garibaldi..., op. cit., p.
11.
13 Tanto Carlo Alberto quanto, posteriormente, Vittorio Emanuele
II, utilizam a grande popularidade de Garibaldi para seus
propósitos de fortalecer a monarquia e ampliar o reino,
com a unificação dos Estados italianos. No entanto
as constantes referências do revolucionário à
liberdade e ao direito dos povos, bem como seu anticlericalismo
fazem com que seja também uma figura temida pela aristocracia.
14 “Io fu repubblicano; ma quando seppi che Carlo Alberto
si era fatto campione d’Italia, io ho giurato di ubbidirlo,
e seguitare fedelmente la sua bandiera. In lui solo vidi riposta
la speranza della nostra independenza: Carlos Alberto sia
dunque il nostro capo, il nostro simbolo.” Discurso
no Círculo Nacional de Gênova, em 3 de julho
de 1848. In: Scritti e discorsi politici e militari, op. cit.,
p. 88.
15 Garibaldi estará sempre em conflito com os generais
piemonteses e seus voluntários serão vistos
como um grupo desorganizado e ameaçador, cujo extremismo
poderia levantar as massas não apenas em favor da unificação,
mas também contra o rei e sobretudo contra o poder
temporal do Papa. Não obstante, a chamada “guerra
per bande” foi quase sempre bem sucedida, alcançando
vitórias significativas.
_____________________________________________________________
Em meio a todos esses acontecimentos, Garibaldi
continua lutando, percorrendo a península e juntando-se
aos republicanos em Roma, no início de 1849, quando
chega a se eleger deputado para a Assembléia Constituinte.
Mas também a república romana terá curta
duração. O poder temporal do Papa é restabelecido
com o apoio não apenas dos austríacos, mas ainda
de Luís Napoleão e de seu exército comandado
por Oudinot. Garibaldi, que havia também participado
de um bem-sucedido ataque ao exército do rei de Nápoles,
deve contentar-se em deixar Roma, numa longa e dolorosa marcha
para o norte, durante a qual morre Anita, em agosto de 1849.
A monarquia teme perder suas possessões, em face da
agressividade dos invasores, e não pretende, então,
entrar em novos litígios nem com a França e
nem mesmo com a própria Áustria. Não
restava, pois, a Garibaldi, outra solução que
não fosse mais um exílio, já que ele
havia continuado a lutar, com a sua legião, mesmo após
a queda de Roma e o retorno de Pio IX. Passando inicialmente
pela Sardenha, onde fica sabendo que o ameaçam de prisão,
embarca primeiro para Tanger e depois para os Estado Unidos.
Viverá na América do Norte de 1850 a 1854, trabalhando
mais uma vez como marinheiro mercante. Viaja muito, vai à
Austrália, ao Peru, à Bolívia, à
China e, por último, à Inglaterra, onde mantém
contatos políticos importantes. Desembarca em Londres
em 1854, encontrando-se ali com Ledru-Rollin, com o socialista
russo Herzen e com o próprio Mazzini. Naquela oportunidade
decide retornar à Itália, ao saber que Cavour
não impediria sua volta16. Na verdade a monarquia do
Piemonte havia recebido informações de seu embaixador
na Inglaterra acerca das divergências entre Garibaldi
e Mazzini, o que tornava o primeiro menos perigoso, a seus
olhos17.
As campanhas da Sicília e de
Nápoles
O retorno de Garibaldi é o início não
apenas de uma série de campanhas militares, das quais
a mais famosa — a Expedição dos Mil, à
Sicília — confirmou seu carisma e suas qualidades
de estrategista, mas também de um conturbado período
no qual ele irá se chocar freqüentemente com a
ambigüidade das posições de Vittorio Emanuele
II e, sobretudo, com Cavour.
Decidido a permanecer algum tempo tranqüilo, instala-se
na ilha de Caprera, entre a Córsega e a Sardenha, onde
constrói uma casa e cultiva a terra. Mas, a idéia
da unificação italiana não o abandona.
Quando, em 1859, o reino do Piemonte prepara a chamada Segunda
Guerra de Independência, contra a Áustria, com
o apoio de Napoleão III, Cavour e Vittorio Emanuele
dão a Garibaldi o comando do corpo de voluntários
“Cacciatori delle Alpi”, com o qual ele terá
oportunidade de demonstrar sua grande habilidade estratégica.
Alcança vitórias importantes contra os austríacos,
mas insiste na conquista de Roma e na marcha para o Sul, o
que não estava nos planos, ao menos imediatos, da Casa
Real.
Cavour procurava ser, acima de tudo, prudente. Talvez até
mais do que o próprio rei, que algumas vezes se mostrava
interessado na possibilidade de aumentar seus domínios.
Mas, o primeiro-ministro era um liberal, preocupado com a
modernização, nos moldes ingleses, e com a prosperidade
da burguesia do Piemonte e da Lombardia e, portanto, pouco
animado a estimular uma campanha para a liberação
do Sul.
A insurreição da Sicília (Palermo, em
abril de 1860), e as diversas revoltas na ilha vão
acelerar o processo a favor de uma guerra. Crispi, junto com
outros sicilianos unitários, pede ajuda a Garibaldi,
que organiza então a Expedição dos Mil,
desembarcando em Marsala, a 11 de maio de 1860, e travando
uma vitoriosa batalha em Calatafimi. É o início
da guerra contra o domínio dos Bourbon e o primeiro
passo importante que conduzirá as chamadas Duas Sicílias
à integração com o Reino da Itália.
Garibaldi conquista Palermo, Messina e, em fins de junho de
1860, assume o título de “ditador”. Suas
atitudes, seu carisma e também a maneira como justifica
a necessidade de um governo forte, para o bem da população,
assemelham-se muito, neste momento, ao comportamento dos caudilhos
latino-americanos com os quais conviveu em seu primeiro exílio.
Ao mesmo tempo em que Garibaldi parte para o ataque a Nápoles,
onde, mais uma vez vencedor, se instalará no Palácio
do Governo, então como “ditador das Duas Sicílias”,
Vittorio Emanuele II movimenta-se com suas tropas sardas em
direção ao Sul, pois apesar das reticências
de Cavour, percebe que a partida está ganha e que a
monarquia pode assumir a vitória dos garibaldinos.
_____________________________________________________________
16 Cavour preocupava-se em expulsar os austríacos,
mas sem conquistar os Estados Pontificais, protegidos por
Napoleão III. Assim, contaria com a boa-vontade da
França na guerra contra a Áustria.
17 GALLO, Max. Garibaldi — La force d’un destin,
Paris: Éditions Fayard, 1982, p. 210.
____________________________________________________________
A Inglaterra, neste meio tempo, seguia com sua
própria política de neutralidade, porém
favorável à unificação e condescendente
com os revolucionários que gozavam de uma excelente
imagem em Londres. Em Marsala, diversos ingleses possuíam
propriedades vitivinicultoras, e navios britânicos encontravam-se
ancorados no porto quando ocorreu o desembarque dos Mil18.
Interessada sobretudo na paz e na estabilidade, que permitia
florescer o liberalismo, esperava que um reino italiano unificado
fosse um contrapeso importante ao crescente desenvolvimento
francês sob Napoleão III.
Dia 7 de novembro de 1860, um “proclama”
participa oficialmente a entrada de Vittorio Emanuele em Nápoles19.
Garibaldi entrega, então, o governo ao rei, embora
lamentando que Roma continue subordinada ao poder temporal
do Papa, sob a proteção dos franceses. No ano
seguinte, atacará violentamente Cavour, em um proNúnciamento
feito no parlamento italiano, para o qual havia sido eleito.
A sessão será muito tumultuada, com grande agitação
nas tribunas, repletas de assistentes que ali se encontravam
especialmente para vê-lo20.
Garibaldi aceitava com dificuldade a política
da monarquia que, apoiada no elemento urbano liberal e na
elite, era levada a fazer concessões, especialmente
em nível internacional, na luta contra a Áustria.
A Casa Real italiana, mas principalmente Cavour, com sua diplomacia
voltada para obter ajuda francesa, agia com muita cautela
com relação ao poder temporal do Papa, já
que Roma era defendida por tropas de Napoleão III.
Quando, em 1862, Garibaldi volta a insistir numa campanha
para tomá-la, será atacado pelos soldados de
Vittorio Emanuele II em Aspromonte, o que um dos historiadores
do “Risorgimento” qualifica como uma página
negra da história italiana. “Après l’Aspromonte,
l’Europe sut que l’Italie avait un gouvernement,
mais combien hyprocrite et combien brutal”21.
Republicano e revolucionário
Giuseppe Garibaldi não encerrou suas atividades
militares no triste episódio de Aspromonte. Em 1864,
esteve pela segunda vez em Londres, dez anos após o
desembarque que marcou seu retorno à Europa, vindo
do exílio norte-americano. Mas agora suas relações
com Mazzini eram mais cordiais, e sua decepção
com o reino italiano, muito grande. Encontrou-se novamente
com Herzen, com membros de sociedades operárias, retornando
à ilha de Caprera sem desistir da idéia de conquistar
o Vêneto e Roma. Quando, em 1866, Vittorio Emanuele
II, numa aliança com a Prússia, entra novamente
em guerra contra a Áustria, Garibaldi está presente,
comandando o Corpo de Voluntários.
Novas batalhas, nova reclusão, a “liberdade vigiada”
em Caprera e, em 1870, a participação na guerra
francesa, em Dijon, lutando pela república. Em outubro
de 1870, havia divulgado uma carta aberta à população
de Nice, na qual explicava os motivos pelos quais se solidarizava
com a França, defendendo a república, e condenando
a política de Napoleão III22. Nesta mesma carta,
voltava a falar sobre a necessidade de liberar Roma, o que,
afinal, ocorreria sem a sua participação, com
o exército real, em 1870.
Republicano de primeira hora, mas convicto de que a única
possibilidade para a unificação italiana era
o apoio aos projetos da Casa Real, Garibaldi foi um revolucionário
com um desenvolvido senso de estratégia nos campos
de batalha, porém um homem que se adaptava mal às
necessidades da política. Justificava as atitudes de
Vittorio Emanuele II, das quais, no entanto, discordava, acusando
Cavour de manipular o monarca e de ser ele a causa de todos
os infortúnios que dificultavam a unificação.
Lutava pela liberdade, agia em favor da liberdade, escrevia
contra a opressão e trabalhava permanentemente para
a unidade do país.
Também fora dos campos de batalha Garibaldi confirmou
sua cruzada libertadora. Em 1867 foi à Conferência
Internacional pela Paz, realizada em Genebra, e apresentou
um programa propondo um sistema de arbitragem internacional
que tornasse impossível a guerra entre as nações.
Mas, seu discurso, marcadamente anti-clerical, sofreu duras
críticas, tanto da imprensa católica quanto
da protestante.
O relacionamento de Garibaldi com a esquerda européia
foi bastante polêmico, em parte devido a seu caráter
impulsivo e individualista. Numa carta a Giuseppe Petroni,
em outubro de 1871, critica os “doutrinários”
da Comuna de Paris, considerando-a, porém, uma revolta
justa de oprimidos contra opressores23. Em novembro desse
mesmo ano, escreve a Giorgio Pallavicino, sobre a Internacional:
_____________________________________________________________
18 Ibidem, p. 260.
19 Despacho-proclama, aos napolitanos e sicilianos, aNúnciando
a entrada de Vittorio Emanuele II em Nápoles e assumindo
a soberania dos Estados do Sul. Milão: Acervo do Museu
do Risorgimento (Pesquisa nossa).
20 Scritti e discorsi politici e militari, op. cit., pp. 358-382.
22 Carta de Garibaldi à população de
Nice, datada de 5 de outubro de 1870. Citada no Catálogo
da exposição Garibaldi dopo i Mille (1861-1882).
Turim: Museu Nacional do Risorgimento Italiano, 23 outubro/20
dezembro 1982, p. 74.
23 Carta a Giuseppe Petroni, datada de 21 de outubro de 1871,
ibidem, p. 82.
_____________________________________________________________
“(...) io appartengo all’Internazionale
da quando serviva la Repubblica del Rio Grande e di Montevideo,
cioè molto prima di essersi costituita in Europa tale
Società (...)”24
Eleito para o Parlamento em 1874, é considerado um
deputado de esquerda, embora uma declaração
da Internacional, neste mesmo ano, diga que o socialismo garibaldino
é um equívoco. Seu trabalho para melhorar as
condições de vida da população
é, porém, digno de nota. Em 1875 obtém
a aprovação de um projeto favorável à
região agrícola em volta de Roma e apresenta
sugestões importantes para a navegabilidade do rio
Tibre. Defende constantemente o ensino obrigatório
e gratuito e a liberdade de imprensa.
No início de 1882, já muito doente, viaja a
Palermo, para participar das comemorações do
VI Centenário das Vésperas Sicilianas25, atendendo
a um apelo de Crispi. Naquela oportunidade, transmite uma
mensagem ao povo palermitano, convidando-o a “combattere
l’ignoranza, svegliare il libero pensiero”. É
um apelo dirigido a “tutti gli italiani, fino alle plebi
delle città e campagne”26. Poucos meses depois
desta aparição em público e do texto
comovente, considerado como seu “testamento político”,
Garibaldi morre, dia 2 de junho, em Caprera.
Piangi, Italia, la morte del padre
che i suoi figli correvan ad abraciar.
Che al suon di tromba all’armi
Lor correvan per terra e per mar.”27
_____________________________________________________________
24 “…eu pertenço à
Internacional desde quando servia a República do Rio
Grande e de Montevidéu, isto é, muito antes
de constituir-se tal sociedade na Europa…” Carta
a Giorgio Pallavicino, datada de 14 de novembro de 1871, ibidem,
p. 82.
25 Vésperas Sicilianas designa a revolta de 1282, contra
o rei Carlos da dinastia de Anjou.
26 GARRONE, Alessandro Galante. Garibaldi Politico. In: Garibaldi
dopo i Mille, op. cit., p. 40.
27 “Chora, Itália, a morte do pai / que os seus
filhos corriam a abraçar / que ao som da corneta às
armas / então corriam por terra e mar” Folheto
avulso, intitulado Lode al Prode Generale Giuseppe Garibaldi.
Milão: Acervo do Museu do Risorgimento. (Pesquisa nossa).
_____________________________________________________________
Fontes primárias e referências
bibliográficas
Fontes
EXPOSIÇÃO Garibaldi dopo i Mille
(1861-1882). Catálogo. Turim:
Museu Nacional do Risorgimento Italiano, 23 outubro/20 dezembro
1982.
GARIBALDI, Giuseppe. Le Memorie di Garibaldi nella redazione
definitiva del 1872, . Capelli Editore, Bolonha, 1932;
. Scritti e discorsi politici e militari, vol. I (1838-1861),
L Caprelli Editore, Bolonha, 1934;
. Epistolario, vol. I (1834-1848), Istituto per la
Storia del Risorgimento Italiano, 1973; I Mille, L. Caprelli
Editore, Bolonha, 1933.
PROCLAMA aos napolitanos e sicilianos. Milão: Acervo
do Museu do Risorgimento, 7 de novembro de 1860.
Bibliografia básica
CANDELORO, Giorgio. Storia dell’Italia Moderna:
Dalla Restaurazione alla Rivoluzione Nazionale.
Milão: Feltrinelli, 1990.
Storia dell’Italia Moderna: La Rivoluzione Nazionale.
Milão: Feltrinelli, 1990.
Storia dell’Italia Moderna: Dalla Rivoluzione Nazionale
all’Unità. Milão: Feltrinelli, 1990.
GALLO, Max. Garibaldi — La force d’un destin.
Paris: Fayard, 1982.
MONTANARI, Luigi (org.). Garibaldi a Ravenna. Ravenna:
Societá Conservatrice del Capanno Garibaldi, 1982.
ROMANO, Sergio. Histoire de l’Italie du Risorgimento
à nos jours. Paris: Seuil, 1977.
|