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Mensagem do Ministério Público
Mauro Henrique Renner
 
Mensagem do Ministério Público
Ricardo Vaz Seelig
 
Palavra dos Editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
 
Apresentação
Roberto Speciale
 
Introdução
Annita Garibaldi Jallet
 
O mito de Garibaldi: origem e significados no Cone Sul até 1907, ano do centenário de seu nascimento
Pietro Rinaldo Fanesi
 
Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para a América Latina
Maria Pace Chiavari
 
O “aprendizado” de Garibaldi na América Latina: a “scuola delle palle” e a “escola moral”
Anna Maria Lazzarino Del Grosso
 
Garibaldi: republicano e revolucionário internacional
Carmen Lícia Palazzo
 
Memória de Garibaldi e a construção da identidade entre italianos no
Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
 
A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário da Revolução Farroupilha
Rosemary Fritsch Brum
 
Garibaldi: a gênese do mito
Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
 
Garibaldi na América do Sul
Yvonne Capuano
 
Livro Completo
 
 
 
Patrocinio Cultural:
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Garibaldi: republicano e
revolucionário internacional


Carmen Lícia Palazzo

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Doutora em História, pesquisadora convidada do UniCeub, Brasília, D.F.

Já há algum tempo que a escrita da história não se faz mais em torno de relatos puramente factuais ou de biografias das grandes personalidades que, por intermédio de suas ações, teriam sido responsáveis por mudanças decisivas nos acontecimentos de determinadas épocas. A denominada escola dos “Annales” representou um marco importante de uma nova maneira de escrever história, e o estudo das mentalidades, que dela se originou, abriu um caminho muito rico para os pesquisadores, conduzindo ao que hoje denomina-se História Cultural.1

O surgimento de novos paradigmas, porém, não excluiu o interesse por determinadas figuras que merecem ser objeto de pesquisas que muito têm a acrescentar ao conhecimento histórico. O italiano Giuseppe Garibaldi é um destes casos, e suas ações devem ser analisadas levando em conta não apenas o agitado contexto da época mas também os aspectos míticos que passaram a ser incorporados aos relatos de suas aventuras. Acompanhar sua trajetória é, de certa forma, mergulhar também nos sonhos, nas esperanças e na violência de um período conturbado da história ocidental, no qual as lutas pela liberdade eram travadas, tanto na Europa quanto no continente americano, sem garantias de vitória. Nossa intenção, neste trabalho, foi a de apresentar o personagem em suas múltiplas facetas, sem pretensões de esgotar o assunto, já que cada passagem de sua vida permite um grande leque de interpretações.

Garibaldi, que aportou no Rio de Janeiro em 1836, fugindo do absolutismo do reino do Piemonte, lutou na Revolução Farroupilha e posteriormente no Uruguai, ao lado de Rivera, tendo sido elevado à categoria de mito vivo em seu próprio tempo. Foi alvo tanto dos mais entusiasmados elogios quanto de duras críticas, despertando o interesse de escritores como Alexandre Dumas, George Sand e Victor Hugo.

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1 Sobre a escola dos Annales ver Peter BURKE. A escola dos Annales: 1929-1989. São Paulo: USP, 1991. Ver também Jacques LE GOFF e Pierre NORA (orgs.) Faire l’histoire. Paris: Gallimard, 1974.

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Em geral, na historiografia latino-americana, são destacadas as passagens mais romanescas de sua vida, como o encontro com Anita em Laguna, o que, sem dúvida, impede uma análise objetiva da trajetória daquele que foi uma das mais marcantes personalidades do século XIX. Por outro lado, é pouco lembrada sua atuação no Congresso pela Paz, realizado em Genebra, em setembro de 1867, sua participação como republicano na guerra francesa de 1870 e sua atividade como parlamentar italiano, eleito em fevereiro de 1871.

Garibaldi deixou, além das conhecidas Memórias, uma vasta correspondência, proclamas, discursos e romances — e em todo este material escrito é possível perceber um pensamento original, que amalgamou as idéias da “Giovine Italia” de Mazzini2 à sua própria vivência dentro e fora do continente europeu. Da análise de seus textos, de suas ações revolucionárias e de sua participação política, surge uma figura complexa cujo fascínio não se esgota no que é normalmente reproduzido pelo imaginário popular.

Da Europa à América do Sul

Nice, cidade onde nasceu Garibaldi, em 1807, teve grande parte de sua história estreitamente ligada à Casa Real de Savóia. Pertencendo ora a ela, ora aos franceses, esteve nas mãos da monarquia piemontesa entre 1815 e 1860, quando retornou — então, definitivamente — à França. Assim, quando em 1822 Giuseppe Garibaldi iniciou, muito jovem, suas viagens na condição de marinheiro mercante, sua cidade integrava mais uma vez o chamado Reino do Piemonte e da Sardenha. O panorama europeu estava conturbado, os austríacos já haviam derrotado os piemonteses em Novara, em 1821, e as grandes potências debatiam-se entre posições liberais e abolutistas.

Mais adiante, a partir de 1830, ocorre uma nova onda de revoluções liberais, com a guerra dos Bourbon, na França, e as independências da Bélgica e da Polônia. É sob todo este clima que Garibaldi descobre, no porto russo de Taganrog, através do contato com outros marinheiros lígures, os ideais de Pátria e Liberdade que irão guiar o longo processo de unificação italiana.

Embarcando na marinha sarda, em 1833, para o serviço militar, Garibaldi participou da fracassada insurreição da “Giovine Italia”, no início de 1834. Foi, portanto, como seguidor de Mazzini que atuou de modo a receber uma condenação à morte, ditada pelo Tribunal de Guerra de Gênova. Adotando os pseudônimos de Giuseppe Pane e de Borel, Garibaldi inicia o que virá a ser um exílio de doze anos, durante os quais, como comprovam seus escritos, e especialmente sua correspondência, estará permanentemente referindo-se à libertação da Itália, dentro de um quadro mais amplo de liberdade para todos os povos3.

Para melhor entender o internacionalismo revolucionário de Garibaldi, é importante salientar que o nacionalismo italiano do século XIX era bastante distinto de outras correntes nacionalistas da mesma época, especialmente da alemã. Tratava-se, no caso da Itália, de um nacionalismo abrangente e integrador. Para Mazzini, a pátria era a “consciência de pátria” e não havia nesta definição nenhuma característica de hereditariedade, o que ocorria com o “Volksgeist” alemão. Assim, de acordo com a doutrina da “Giovine Italia”, não era necessário ter nascido num determinado lugar para entender profundamente as reivindicações de seu povo. Nos ambientes revolucionários italianos, circulavam idéias que vinculavam a luta contra os opressores a um projeto mais amplo de liberdade para todos.

Não era, portanto, um aventureiro que desembarcava no Rio de Janeiro em 1836, mas um exilado que se enquadrava nos ideais de sua época. Durante seu período brasileiro, Garibaldi optou, como outros refugiados italianos, pela luta ao lado dos que considerava oprimidos, contra o poder do Império, muito embora tivesse uma idéia romântica sobre a Revolução Farroupilha.

“Corsaro! lanciato sull’oceano con dodici compagni a bordo d’una garopera, si sfidava un impero, si faceva sventolare per i primi, in quelle meridionale coste, una bandiera d’emancipazione! La bandiera repubblicana del Rio Grande!”4

Recebendo uma carta de corso para, junto com Luigi Rossetti, apresar outras embarcações, Garibaldi iniciou suas atividades a favor dos farrapos. Avesso a qualquer tipo de submissão às autoridades, criticou seguidamente as ordens de Canabarro e atribuiu a Bento Gonçalves a indecisão nos momentos em que seria importante não recuar na luta contra o Império5. Mas, de todos os contatos que manteve durante o longo exílio sul-americano, foi justamente a personalidade de Bento Gonçalves que mais o marcou, exercendo sobre ele um grande fascínio, tanto por sua maneira de ser, quanto pelo modo de vida dos gaúchos, tão distinto do europeu.

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2 Giuseppe Mazzini, advogado genovês, fundou a “Giovine Italia” em Marselha, em 1831. Revolucionário e mentor intelectual de muitas conspirações de caráter republicano, viveu grande parte de sua vida no exílio.

3 Utilizamos como fontes primárias os seguintes escritos de Giuseppe Garibaldi, editados na Itália: Le Memorie di Garibaldi nella redazione definitiva del 1872, Bolonha: L. Capelli Editore, 1932; Scritti e discorsi politici e militari, vol. I (1838-1861), Bolonha: L. Caprelli Editore, 1934; Epistolario, vol. I (1834-1848), I stituto per la Storia del Risorgimento Italiano, 1973; I Mille, Bolonha: L. Caprelli Editore, 1933. Trabalhamos também com textos pesquisados nos acervos dos museus do Risorgimento de Milão e de Turim.

4 “Corsário! Lançado no oceano com doze companheiros a bordo de uma garoupeira, desafiava-se um império, desfraldava-se pela primeira vez, naquelas costas meridionais, uma bandeira de emancipação! A bandeira republicana do Rio Grande.” Le Memorie di Garibaldi..., op. cit., p. 30.

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“Sobrio [Bento Gonçalves] come ogni figlio di quella valorosa nazione, la sua vita nel campo era un açado (arrosto) come un semplice milite: alimento unico, in quelle campagne richissime di bestiame, ed ove, per far la guerra, non si usano le ingombranti impedimenta, inciampo principale degli eserciti europei.” 6

Da sua vasta correspondência constam algumas cartas datadas de 1838 e 1839, dirigidas a Ana Gonçalves da Costa Santos e a Antonia Gonçalves da Silva, irmãs de Bento Gonçalves, nas quais descreve determinadas operações de guerra mas sobretudo expressa, de modo muito efusivo, a gratidão pela maneira como foi tratado quando esteve nas estâncias de ambas, em Arroio Grande e em Camaquã.7

Sobre seus companheiros de combates, Garibaldi descreve o que certamente ocorria em todas as guerras: um grupo heterogêneo, composto tanto por dedicados idealistas, lutando em nome da liberdade, quanto por mercenários que, segundo ele, haviam feito parte, em outras oportunidades, da equipagem de barcos de piratas 8.

O fato de ter lidado com todo tipo de comandados não significa que o próprio Garibaldi tenha agido como mercenário — o que, aliás, não se pode concluir nem do seu comportamento, impulsivo, porém sempre coerente, nem da maneira como viveu, passando muitas privações. Combateu, tanto no Brasil quanto no Uruguai, sempre do mesmo lado para o qual se engajou (o que, inclusive, não foi o que ocorreu em várias oportunidades com farroupilhas ou com “blancos” e “colorados”) e contou com limitadíssimos meios financeiros, ocupando, em Montevidéu, apenas uma pequena parte do que é hoje chamada a Casa de Garibaldi.

Do ponto de vista militar, sua participação na guerra contra Rosas, também chamada Guerra Grande, defendendo a posição de Rivera contra Oribe, foi mais significativa do que sua atuação junto aos farrapos. No Uruguai, lutou de forma constante e esteve a cargo da marinha e à frente dos homens que compunham a Legião Italiana, um dos grupos de estrangeiros organizados em virtude da perda quase total do exército uruguaio na batalha de Arroyo Grande, vencida por Oribe.

Garibaldi havia chegado a Montevidéu em 1841, em busca de maior contato com a Itália, o que efetivamente se realizava através do movimento daquele porto, e também procurando as melhores condições de vida para sua família, já então composta da mulher, Anita, e do filho Menotti9. Após trabalhar algum tempo como agente de comércio e como professor de matemática e de história em uma escola, cujo diretor era um padre refugiado, de origem corsa, foi chamado para lutar contra Rosas, pois sua experiência de marinheiro era mais do que bem-vinda numa guerra em que os rios desempenhavam um papel decisivo.

Dentre os muitos combates dos quais Garibaldi participou durante a Guerra Grande, uma operação totalmente vitoriosa foi devida, em grande parte, à sua capacidade militar e às suas qualidades de estrategista10. Tratava-se da subida pelo rio Uruguai, iniciada em 5 de setembro de 1845, ocupando inicialmente a ilha de Martin Garcia e continuando sempre rio acima, em meio a inúmeras batalhas, até culminar com a de San Antonio, de Salto, onde concentrava-se uma grande força argentina, comandada por Brown.

Embora ainda faltasse muito para o final da guerra, a significativa vitória de Salto, que teve como principal conseqüência a recuperação, para o livre comércio, de toda aquela região fluvial, fez com que a figura de Giuseppe Garibaldi ultrapassasse as fronteiras da América Latina. Isto porque, com a participação da França e da Inglaterra no conflito, diversos jornalistas europeus estavam em Montevidéu, cobrindo os acontecimentos. Nascia, então, o herói, o revolucionário que foi, em seguida, festejado nas obras de escritores como Alexandre Dumas e George Sand. Começava a surgir o mito, o de um homem que, à frente de um grupo de italianos, emigrados e refugiados, lutava no Uruguai contra a tirania de Rosas, levando como símbolo a camisa vermelha e uma bandeira na qual fora pintado o vulcão Vesúvio. Bandeira negra, cujo significado para a Legião Italiana era o luto pela opressão na qual a Itália ainda vivia. Estavam, então, criadas as condições para que Garibaldi, posteriormente, ficasse conhecido como o “herói dos dois mundos”.

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5 Ibidem, p. 55.

6 “Sóbrio [Bento Gonçalves] como os filhos daquela valorosa nação, a sua vida no campo era um assado como um simples soldado: alimento único naquela campanha riquíssima de gado e onde, para guerrear, não se usam os incômodos paramentos, estorvo principal dos exércitos europeus.”
Ibidem, p. 54.

7 Epistolario, op. cit., pp. 24 a 29.

8 Le Memorie di Garibaldi..., op. cit., p. 57.

9 Ibidem, p. 125.

10 “Sono infatti convinto che la più grande capacità di Garibaldi, anche se certo non l’unica, si sia manifesta quante volte egli riuscì a combinare accortamente il momento politico e il momento tecnico-militare dell’azione bellica”. CEVA, Lucio, Garibaldi Stratega. In: Garibaldi dopo i Mille (conferenze), Turim: Museu Nacional do Risorgimento Italiano, 1983, p. 41.

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Naquele momento, Giuseppe Garibaldi não apenas era festejado em Montevidéu, mas sobretudo emergia como uma figura de que a Itália necessitava, quando um novo ciclo revolucionário estava em gestação na Europa. Por outro lado, ele também começava a receber notícias animadoras do seu país, até que, no início de 1848, soube da reforma pontifícia e da então eventual possibilidade de uma unificação sob a égide de Pio IX11.

O retorno à Europa com o prestígio
das lutas sul-americanas

A formação de Garibaldi foi feita essencialmente na América Latina, e a experiência revolucionária do Brasil e do Uruguai originou um comportamento, por um lado, mais solto, mais livre do que o europeu e, por outro, com muitas desconfianças nas instituições parlamentares. Das atitudes dos caudilhos, tantas vezes por ele criticadas, herdou algumas características que dificultaram bastante suas relações com o mundo oficial piemontês. Sem dúvida, o comportamento ditatorial, também presente em Bento Gonçalves, pode ser observado em diversas ações de Garibaldi. Em várias passagens, chegou a justificá-lo em seus escritos12. O poncho sempre presente, sobre a camisa vermelha, nas campanhas da Itália, era mais do que uma lembrança latino-americana, era o próprio símbolo de um homem transformado pelo contato com outra cultura.

A atuação de Garibaldi na Europa deu-se em duas etapas. A primeira delas, entre 1848 e 1849, quando o processo de unificação parecia condenado ao fracasso em vista da retomada do poderio da Áustria em território italiano. A segunda, a partir de 1859, quando, já de volta de outro exílio, engaja-se novamente na luta para a expulsão dos austríacos, desta vez ao lado de Vittorio Emanuele II. Quando o “Speranza” aportou em Nice, em junho de 1848, e ali desembarcou Garibaldi, a euforia das rebeliões de janeiro, em Palermo e de março, em Milão e Veneza, já havia cedido lugar a um clima bem mais comedido e que em breve se transformaria na grande decepção da derrota de Custoza.

Próximo a Mantova, no dia 5 de julho, o rei, Carlo Alberto, recebia aquele revolucionário que, em 1834, havia condenado à morte. Agora, porém, era um herói, um nome conhecido não apenas na Itália, mas em vários países europeus, e tanto podia servir aos interesses da Casa de Savóia — que almejava um Grande Piemonte — como também ameaçá-la, caso levantasse a bandeira da república13. Mas Garibaldi acreditava que o mais importante era expulsar o opressor, lutar contra a Áustria, ainda que para isto tivesse que contar com o apoio da monarquia, abdicando do ideal republicano14. Sonhava, porém, com uma insurreição popular, o que estava longe de ocorrer, pois os camponeses, secularmente explorados e pouco sensíveis à causa da unificação, não respondiam da maneira como ele havia imaginado, pactuando, inclusive, com o inimigo. Mas, por seu lado, o aristocrático exército piemontês também via com desconfiança aquele homem que queria uma “guerra per bande”15.

Os anos de 1848 e 1849 foram um período difícil. Pio IX, que havia assumido suas funções, em 1846, como um papa liberal e até mesmo constitucionalista, revelava-se incapaz de manter uma oposição aos austríacos, temeroso, também, de perder o poder temporal sobre seus estados, o que acabou ocorrendo por um breve período, quando Roma se tornou republicana. A monarquia, após a derrota de Custoza, em julho de 1848, agia com cautela. Quando decide declarar novamente guerra à Áustria, é vencida, em março de 1849, em Novara, o que leva Carlo Alberto a abdicar em favor de seu filho, Vittorio Emanuele II.

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11 Não apenas Garibaldi, mas diversos patriotas italianos acreditaram, num determinado momento, que Pio IX seria capaz de fazer as reformas necessárias para que Roma se tornasse uma peça-chave na unificação e no combate aos austríacos. Em 16 de julho o papa proclama uma anistia para todos os condenados políticos, permitindo o retorno dos exilados. Mas, na realidade, tudo foi se tornando mais complicado quando faltou ao Vaticano a coragem necessária para seguir em frente apoiando a liberdade.

12 “Repubblicano, ma sempre più convinto della necessità d’una dittatura onesta e temporaria a capo di quelle nazioni che, come la Francia, la Spagna e l’Italia, sono vittime del bisantismo il più pernicioso.” Le Memorie di Garibaldi..., op. cit., p. 11.

13 Tanto Carlo Alberto quanto, posteriormente, Vittorio Emanuele II, utilizam a grande popularidade de Garibaldi para seus propósitos de fortalecer a monarquia e ampliar o reino, com a unificação dos Estados italianos. No entanto as constantes referências do revolucionário à liberdade e ao direito dos povos, bem como seu anticlericalismo fazem com que seja também uma figura temida pela aristocracia.

14 “Io fu repubblicano; ma quando seppi che Carlo Alberto si era fatto campione d’Italia, io ho giurato di ubbidirlo, e seguitare fedelmente la sua bandiera. In lui solo vidi riposta la speranza della nostra independenza: Carlos Alberto sia dunque il nostro capo, il nostro simbolo.” Discurso no Círculo Nacional de Gênova, em 3 de julho de 1848. In: Scritti e discorsi politici e militari, op. cit., p. 88.

15 Garibaldi estará sempre em conflito com os generais piemonteses e seus voluntários serão vistos como um grupo desorganizado e ameaçador, cujo extremismo poderia levantar as massas não apenas em favor da unificação, mas também contra o rei e sobretudo contra o poder temporal do Papa. Não obstante, a chamada “guerra per bande” foi quase sempre bem sucedida, alcançando vitórias significativas.

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Em meio a todos esses acontecimentos, Garibaldi continua lutando, percorrendo a península e juntando-se aos republicanos em Roma, no início de 1849, quando chega a se eleger deputado para a Assembléia Constituinte. Mas também a república romana terá curta duração. O poder temporal do Papa é restabelecido com o apoio não apenas dos austríacos, mas ainda de Luís Napoleão e de seu exército comandado por Oudinot. Garibaldi, que havia também participado de um bem-sucedido ataque ao exército do rei de Nápoles, deve contentar-se em deixar Roma, numa longa e dolorosa marcha para o norte, durante a qual morre Anita, em agosto de 1849.

A monarquia teme perder suas possessões, em face da agressividade dos invasores, e não pretende, então, entrar em novos litígios nem com a França e nem mesmo com a própria Áustria. Não restava, pois, a Garibaldi, outra solução que não fosse mais um exílio, já que ele havia continuado a lutar, com a sua legião, mesmo após a queda de Roma e o retorno de Pio IX. Passando inicialmente pela Sardenha, onde fica sabendo que o ameaçam de prisão, embarca primeiro para Tanger e depois para os Estado Unidos.

Viverá na América do Norte de 1850 a 1854, trabalhando mais uma vez como marinheiro mercante. Viaja muito, vai à Austrália, ao Peru, à Bolívia, à China e, por último, à Inglaterra, onde mantém contatos políticos importantes. Desembarca em Londres em 1854, encontrando-se ali com Ledru-Rollin, com o socialista russo Herzen e com o próprio Mazzini. Naquela oportunidade decide retornar à Itália, ao saber que Cavour não impediria sua volta16. Na verdade a monarquia do Piemonte havia recebido informações de seu embaixador na Inglaterra acerca das divergências entre Garibaldi e Mazzini, o que tornava o primeiro menos perigoso, a seus olhos17.

As campanhas da Sicília e de Nápoles

O retorno de Garibaldi é o início não apenas de uma série de campanhas militares, das quais a mais famosa — a Expedição dos Mil, à Sicília — confirmou seu carisma e suas qualidades de estrategista, mas também de um conturbado período no qual ele irá se chocar freqüentemente com a ambigüidade das posições de Vittorio Emanuele II e, sobretudo, com Cavour.

Decidido a permanecer algum tempo tranqüilo, instala-se na ilha de Caprera, entre a Córsega e a Sardenha, onde constrói uma casa e cultiva a terra. Mas, a idéia da unificação italiana não o abandona. Quando, em 1859, o reino do Piemonte prepara a chamada Segunda Guerra de Independência, contra a Áustria, com o apoio de Napoleão III, Cavour e Vittorio Emanuele dão a Garibaldi o comando do corpo de voluntários “Cacciatori delle Alpi”, com o qual ele terá oportunidade de demonstrar sua grande habilidade estratégica. Alcança vitórias importantes contra os austríacos, mas insiste na conquista de Roma e na marcha para o Sul, o que não estava nos planos, ao menos imediatos, da Casa Real.

Cavour procurava ser, acima de tudo, prudente. Talvez até mais do que o próprio rei, que algumas vezes se mostrava interessado na possibilidade de aumentar seus domínios. Mas, o primeiro-ministro era um liberal, preocupado com a modernização, nos moldes ingleses, e com a prosperidade da burguesia do Piemonte e da Lombardia e, portanto, pouco animado a estimular uma campanha para a liberação do Sul.

A insurreição da Sicília (Palermo, em abril de 1860), e as diversas revoltas na ilha vão acelerar o processo a favor de uma guerra. Crispi, junto com outros sicilianos unitários, pede ajuda a Garibaldi, que organiza então a Expedição dos Mil, desembarcando em Marsala, a 11 de maio de 1860, e travando uma vitoriosa batalha em Calatafimi. É o início da guerra contra o domínio dos Bourbon e o primeiro passo importante que conduzirá as chamadas Duas Sicílias à integração com o Reino da Itália. Garibaldi conquista Palermo, Messina e, em fins de junho de 1860, assume o título de “ditador”. Suas atitudes, seu carisma e também a maneira como justifica a necessidade de um governo forte, para o bem da população, assemelham-se muito, neste momento, ao comportamento dos caudilhos latino-americanos com os quais conviveu em seu primeiro exílio.

Ao mesmo tempo em que Garibaldi parte para o ataque a Nápoles, onde, mais uma vez vencedor, se instalará no Palácio do Governo, então como “ditador das Duas Sicílias”, Vittorio Emanuele II movimenta-se com suas tropas sardas em direção ao Sul, pois apesar das reticências de Cavour, percebe que a partida está ganha e que a monarquia pode assumir a vitória dos garibaldinos.

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16 Cavour preocupava-se em expulsar os austríacos, mas sem conquistar os Estados Pontificais, protegidos por Napoleão III. Assim, contaria com a boa-vontade da França na guerra contra a Áustria.

17 GALLO, Max. Garibaldi — La force d’un destin, Paris: Éditions Fayard, 1982, p. 210.


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A Inglaterra, neste meio tempo, seguia com sua própria política de neutralidade, porém favorável à unificação e condescendente com os revolucionários que gozavam de uma excelente imagem em Londres. Em Marsala, diversos ingleses possuíam propriedades vitivinicultoras, e navios britânicos encontravam-se ancorados no porto quando ocorreu o desembarque dos Mil18. Interessada sobretudo na paz e na estabilidade, que permitia florescer o liberalismo, esperava que um reino italiano unificado fosse um contrapeso importante ao crescente desenvolvimento francês sob Napoleão III.

Dia 7 de novembro de 1860, um “proclama” participa oficialmente a entrada de Vittorio Emanuele em Nápoles19. Garibaldi entrega, então, o governo ao rei, embora lamentando que Roma continue subordinada ao poder temporal do Papa, sob a proteção dos franceses. No ano seguinte, atacará violentamente Cavour, em um proNúnciamento feito no parlamento italiano, para o qual havia sido eleito. A sessão será muito tumultuada, com grande agitação nas tribunas, repletas de assistentes que ali se encontravam especialmente para vê-lo20.

Garibaldi aceitava com dificuldade a política da monarquia que, apoiada no elemento urbano liberal e na elite, era levada a fazer concessões, especialmente em nível internacional, na luta contra a Áustria. A Casa Real italiana, mas principalmente Cavour, com sua diplomacia voltada para obter ajuda francesa, agia com muita cautela com relação ao poder temporal do Papa, já que Roma era defendida por tropas de Napoleão III. Quando, em 1862, Garibaldi volta a insistir numa campanha para tomá-la, será atacado pelos soldados de Vittorio Emanuele II em Aspromonte, o que um dos historiadores do “Risorgimento” qualifica como uma página negra da história italiana. “Après l’Aspromonte, l’Europe sut que l’Italie avait un gouvernement, mais combien hyprocrite et combien brutal”21.

Republicano e revolucionário

Giuseppe Garibaldi não encerrou suas atividades militares no triste episódio de Aspromonte. Em 1864, esteve pela segunda vez em Londres, dez anos após o desembarque que marcou seu retorno à Europa, vindo do exílio norte-americano. Mas agora suas relações com Mazzini eram mais cordiais, e sua decepção com o reino italiano, muito grande. Encontrou-se novamente com Herzen, com membros de sociedades operárias, retornando à ilha de Caprera sem desistir da idéia de conquistar o Vêneto e Roma. Quando, em 1866, Vittorio Emanuele II, numa aliança com a Prússia, entra novamente em guerra contra a Áustria, Garibaldi está presente, comandando o Corpo de Voluntários.

Novas batalhas, nova reclusão, a “liberdade vigiada” em Caprera e, em 1870, a participação na guerra francesa, em Dijon, lutando pela república. Em outubro de 1870, havia divulgado uma carta aberta à população de Nice, na qual explicava os motivos pelos quais se solidarizava com a França, defendendo a república, e condenando a política de Napoleão III22. Nesta mesma carta, voltava a falar sobre a necessidade de liberar Roma, o que, afinal, ocorreria sem a sua participação, com o exército real, em 1870.

Republicano de primeira hora, mas convicto de que a única possibilidade para a unificação italiana era o apoio aos projetos da Casa Real, Garibaldi foi um revolucionário com um desenvolvido senso de estratégia nos campos de batalha, porém um homem que se adaptava mal às necessidades da política. Justificava as atitudes de Vittorio Emanuele II, das quais, no entanto, discordava, acusando Cavour de manipular o monarca e de ser ele a causa de todos os infortúnios que dificultavam a unificação. Lutava pela liberdade, agia em favor da liberdade, escrevia contra a opressão e trabalhava permanentemente para a unidade do país.

Também fora dos campos de batalha Garibaldi confirmou sua cruzada libertadora. Em 1867 foi à Conferência Internacional pela Paz, realizada em Genebra, e apresentou um programa propondo um sistema de arbitragem internacional que tornasse impossível a guerra entre as nações. Mas, seu discurso, marcadamente anti-clerical, sofreu duras críticas, tanto da imprensa católica quanto da protestante.

O relacionamento de Garibaldi com a esquerda européia foi bastante polêmico, em parte devido a seu caráter impulsivo e individualista. Numa carta a Giuseppe Petroni, em outubro de 1871, critica os “doutrinários” da Comuna de Paris, considerando-a, porém, uma revolta justa de oprimidos contra opressores23. Em novembro desse mesmo ano, escreve a Giorgio Pallavicino, sobre a Internacional:

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18 Ibidem, p. 260.

19 Despacho-proclama, aos napolitanos e sicilianos, aNúnciando a entrada de Vittorio Emanuele II em Nápoles e assumindo a soberania dos Estados do Sul. Milão: Acervo do Museu do Risorgimento (Pesquisa nossa).

20 Scritti e discorsi politici e militari, op. cit., pp. 358-382.

22 Carta de Garibaldi à população de Nice, datada de 5 de outubro de 1870. Citada no Catálogo da exposição Garibaldi dopo i Mille (1861-1882). Turim: Museu Nacional do Risorgimento Italiano, 23 outubro/20 dezembro 1982, p. 74.

23 Carta a Giuseppe Petroni, datada de 21 de outubro de 1871, ibidem, p. 82.


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“(...) io appartengo all’Internazionale da quando serviva la Repubblica del Rio Grande e di Montevideo, cioè molto prima di essersi costituita in Europa tale Società (...)”24

Eleito para o Parlamento em 1874, é considerado um deputado de esquerda, embora uma declaração da Internacional, neste mesmo ano, diga que o socialismo garibaldino é um equívoco. Seu trabalho para melhorar as condições de vida da população é, porém, digno de nota. Em 1875 obtém a aprovação de um projeto favorável à região agrícola em volta de Roma e apresenta sugestões importantes para a navegabilidade do rio Tibre. Defende constantemente o ensino obrigatório e gratuito e a liberdade de imprensa.

No início de 1882, já muito doente, viaja a Palermo, para participar das comemorações do VI Centenário das Vésperas Sicilianas25, atendendo a um apelo de Crispi. Naquela oportunidade, transmite uma mensagem ao povo palermitano, convidando-o a “combattere l’ignoranza, svegliare il libero pensiero”. É um apelo dirigido a “tutti gli italiani, fino alle plebi delle città e campagne”26. Poucos meses depois desta aparição em público e do texto comovente, considerado como seu “testamento político”, Garibaldi morre, dia 2 de junho, em Caprera.

Piangi, Italia, la morte del padre
che i suoi figli correvan ad abraciar.
Che al suon di tromba all’armi
Lor correvan per terra e per mar.”27

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24 “…eu pertenço à Internacional desde quando servia a República do Rio Grande e de Montevidéu, isto é, muito antes de constituir-se tal sociedade na Europa…” Carta a Giorgio Pallavicino, datada de 14 de novembro de 1871, ibidem, p. 82.

25 Vésperas Sicilianas designa a revolta de 1282, contra o rei Carlos da dinastia de Anjou.

26 GARRONE, Alessandro Galante. Garibaldi Politico. In: Garibaldi dopo i Mille, op. cit., p. 40.

27 “Chora, Itália, a morte do pai / que os seus filhos corriam a abraçar / que ao som da corneta às armas / então corriam por terra e mar” Folheto avulso, intitulado Lode al Prode Generale Giuseppe Garibaldi. Milão: Acervo do Museu do Risorgimento. (Pesquisa nossa).


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Fontes primárias e referências bibliográficas

Fontes

EXPOSIÇÃO Garibaldi dopo i Mille (1861-1882). Catálogo. Turim: Museu Nacional do Risorgimento Italiano, 23 outubro/20 dezembro 1982.

GARIBALDI, Giuseppe. Le Memorie di Garibaldi nella redazione definitiva del 1872, . Capelli Editore, Bolonha, 1932;

. Scritti e discorsi politici e militari, vol. I (1838-1861), L Caprelli Editore, Bolonha, 1934;

. Epistolario, vol. I (1834-1848), Istituto per la Storia del Risorgimento Italiano, 1973; I Mille, L. Caprelli Editore, Bolonha, 1933.
PROCLAMA aos napolitanos e sicilianos. Milão: Acervo do Museu do Risorgimento, 7 de novembro de 1860.

Bibliografia básica

CANDELORO, Giorgio. Storia dell’Italia Moderna: Dalla Restaurazione alla Rivoluzione Nazionale. Milão: Feltrinelli, 1990.

Storia dell’Italia Moderna: La Rivoluzione Nazionale. Milão: Feltrinelli, 1990.

Storia dell’Italia Moderna: Dalla Rivoluzione Nazionale all’Unità.
Milão: Feltrinelli, 1990.

GALLO, Max. Garibaldi — La force d’un destin. Paris: Fayard, 1982.

MONTANARI, Luigi (org.). Garibaldi a Ravenna. Ravenna: Societá Conservatrice del Capanno Garibaldi, 1982.

ROMANO, Sergio. Histoire de l’Italie du Risorgimento à nos jours. Paris: Seuil, 1977.


 
 
 
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