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Mensagem do Ministério Público
Mauro Henrique Renner
 
Mensagem do Ministério Público
Ricardo Vaz Seelig
 
Palavra dos Editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
 
Apresentação
Roberto Speciale
 
Introdução
Annita Garibaldi Jallet
 
O mito de Garibaldi: origem e significados no Cone Sul até 1907, ano do centenário de seu nascimento
Pietro Rinaldo Fanesi
 
Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para a América Latina
Maria Pace Chiavari
 
O “aprendizado” de Garibaldi na América Latina: a “scuola delle palle” e a “escola moral”
Anna Maria Lazzarino Del Grosso
 
Garibaldi: republicano e revolucionário internacional
Carmen Lícia Palazzo
 
Memória de Garibaldi e a construção da identidade entre italianos no
Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
 
A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário da Revolução Farroupilha
Rosemary Fritsch Brum
 
Garibaldi: a gênese do mito
Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
 
Garibaldi na América do Sul
Yvonne Capuano
 
Livro Completo
 
 
 
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Memória de Garibaldi e a
construção da identidade entre
italianos no Rio Grande do Sul


Núncia Santoro de Constantino
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Doutora em História Social, docente do
Programa de Pós-graduação em História da PUC-RS

As mais freqüentes representações de Garibaldi, no Rio Grande do Sul, são acompanhadas por imagens bem conhecidas: a imagem do general unificador da pátria italiana e a imagem do herói da Revolução Farroupilha. Destes símbolos fazem uso os imigrantes italianos, no processo de construção de uma italianidade no Brasil meridional.

Para analisar o processo de construção da identidade entre imigrantes, é necessário historiar a presença dos mesmos no Rio Grande do Sul, considerando diferentes contextos. Pois, para Conzen, identidade étnica é uma construção cultural que se realiza em determinado tempo histórico; grupos étnicos se recriam constantemente e a etnicidade é sempre reinventada para fazer frente a realidades que mudam, comportando diálogo com a cultura dominante.

Conzen esclarece que, para tanto, os símbolos expressivos da etnicidade ou as tradições étnicas são reinterpretados continuamente; que construir uma identidade implica participação ativa de parte expressiva da comunidade de imigrantes. A mesma autora acrescenta que, nessas comunidades, surgiu uma forma de nacionalismo italiano militar patriótico, presente, sobretudo, nas associações de mútuo socorro que abraçavam símbolos criados no Reino recém fundado; tais associações cultuavam representantes da família real italiana ou heróis do Ressurgimento, sendo Garibaldi o favorito.1 Processo semelhante ocorria em vários países e também no sul do Brasil.

No presente ensaio, pretende-se analisar o papel simbólico fundamental de Garibaldi na construção de uma italianidade, considerando diferentes contextos históricos rio-grandenses, entre 1835 e 1930, com ênfase na imigração, e considerando a participação de Garibaldi na Revolução Farroupilha e no processo da unificação italiana. Delimito como espaço principal a cidade de Porto Alegre, capital da Província, porque apresenta a maior concentração populacional, e porque é espaço de decisões e de confluência entre pessoas de diferentes origens, desde o início do século XIX.

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1CONZEN, Kathlen Neil et. alii. The invention of ethnicity. Altreitalie. Torino: Fondazione Giovanni Agnelli. n.3, ano II, abril, 1990 pp 6;24.

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Qualquer estudo que se possa fazer sobre os italianos no Rio Grande do Sul precisa considerar, no mínimo, três tipos de presença desses estrangeiros: a presença de especialistas e de religiosos notada desde a segunda metade do século XVIII; a presença precoce de profissionais liberais, artistas e comerciantes, registrada a partir da segunda década do século XIX nas zonas urbanas; a presença de italianos através dos grandes fluxos imigratórios estimulados pelo governo, fluxos que também oportunizaram a presença de imigrantes espontâneos, em grande parte provenientes da Itália meridional.

Assim, dentre os pioneiros já havia grandes diferenças culturais, pois eram oriundos de várias regiões italianas; muito maior foi a diversidade encontrada entre aqueles que fizeram parte dos grandes contingentes. Constata-se, portanto, uma grande heterogeneidade entre pessoas que falavam diferentes dialetos, que apresentavam usos e costumes muito diversos entre si, correspondentes a distintas regiões então recém unidas sob o escudo da casa de Savóia.

A partir destas constatações, pergunto como esses imigrantes conseguiram evidenciar italianidade, se a maioria desconhecia o idioma italiano e se, considerando a variável tempo, nem mesmo poderiam ter desenvolvido uma concepção nacionalista, o patriotismo desejado pelas elites responsáveis pela Unificação, presos que ainda se encontravam às diferentes regiões de origem.

Tempo de Imigração

A presença italiana que chamo precoce na capital da Província é ainda esparsa e constituída por indivíduos provenientes das diversas regiões italianas, nos meados do século XIX; há evidências que apontam para grande número de lígures, a exemplo do que aconteceu em outras cidades sul-americanas, como demonstram estudos de Chiara Vangelista.2

Sabe-se que italianos encontravam-se no território do Rio Grande do Sul antes do surgimento de núcleos urbanos. Participaram das guerras entre Portugal e Espanha, assim como das campanhas de demarcação do território, como astrônomos, cartógrafos, engenheiros, cirurgiões. São apenas exemplos de especialistas contratados pelas coroas ibéricas. No século XVIII é uma presença esporádica e rarefeita ao extremo, tornando-se mais notada nas primeiras décadas do século XIX, sobretudo a partir da Revolução Farroupilha. Além de nomes conhecidos como Garibaldi, Rossetti ou Zambeccari, sabe-se que foram muitos os italianos envolvidos no movimento revolucionário: Matru, Cuneo, Carniglia, Valerini, Staderini, Torrisan e outros, que deixaram registro de sua passagem em território rio-grandense.

Na primeira metade do século XIX, a presença de italianos na Província já não é novidade. São elementos ligados à navegação ou ao comércio, como se pode depreender dos relatos de viajantes ou da correspondência diplomática. Porto Alegre, capital administrativa e principal centro comer-cial, exerceu atração para estrangeiros. Não seria diferente com italianos, cujas evidências de presença podem ser encontradas nos livros paroquiais e, mais do que isto, nos livros de registro de batismo, que permitem concluir por relativa fixação, visto que alguns indivíduos batizam vários filhos, sobretudo a partir da década de 1840. Fato é que, por volta de 1850, havia comprovadamente 41 famílias radicadas na cidade. 3

A origem de Porto Alegre encontra-se no povoado formado por açorianos em 1752 que, em 1822, fora elevado à condição de cidade por carta imperial. No início do século XIX o núcleo urbano crescera rapidamente, em decorrência da ampliação da lavoura tritícola, da qual era o principal centro exportador. Com a decadência desta lavoura, a cidade estagnou, entre 1820 e 1858, sendo reativada pelas exportações das colônias alemãs, estabelecidas nas suas proximidades desde 1824.

Nas primeiras décadas do século XIX, houve aquela intensa movimentação política, concentrando intelectuais cujas idéias são veiculadas pela imprensa, depois de discutidas nas lojas maçônicas. A eclosão da Revolução Farroupilha fez com que a cidade fosse ocupada por revolucionários e que, por algum tempo, republicanos italianos nela estivessem atuando.

A partir de 1840, há traços da presença de italianos em Porto Alegre, encontrados na imprensa, como anúncios de estabelecimentos comerciais e participações de falecimento; há maior incidência de registros nos livros de batismo da Paróquia Matriz de Nossa Senhora Mãe de Deus. De 1850 em diante, esta presença é constante e, até 1914, será crescente.

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2 VANGELISTA,Chiara. Traders and workers: sardinian subjetcs in Argentina and Brazil. In: RAMIREZ,Bruno & POZZETTA,G. The Italian Diaspora: migrations across the globe. Toronto: News Cultural History Society, 1992. p.37-50.

3 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano da esquina: imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST, 1991.


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Por volta de 1870, já podem ser notados alguns homens que se destacam no grupo italiano, considerado psicossocial em forma de comunidade. Seus componentes têm projeto comum, laços ideológicos, estabilidade e normas de coexistência.4 Analisando suas trajetórias, a característica da estabilidade é percebida, sobretudo, pelo estabelecimento de laços de compadrio.5 O crescimento da presença italiana e a formação de uma comunidade podem ser explicados.

A guerra contra o Paraguai oportunizara bons negócios ao comércio porto-alegrense, como registra Franco. O arsenal ampliara sua produção, chegando a empregar mais de 200 trabalhadores. Foi estimulado o surgimento de indústrias e da Praça do Comércio, fundada em 1858, cujo quadro de associados foi sendo aumentado.6

Desde a década de 1870, apareciam na cidade nítidos sinais de modernização. Foram introduzidos o transporte urbano por tração animal e a iluminação pública a gás. A Companhia Telefônica inaugurou seus serviços; a Praça da Matriz foi embelezada com a inauguração de imponentes edifícios públicos que formaram harmonioso conjunto com o Theatro São Pedro. Fundou-se a Biblioteca Pública, inaugurou-se o primeiro trecho de ferrovia na Província, ligando a capital à zona de colonização alemã.

Em trânsito chegavam à cidade, desde 1875, grandes contingentes de imigrantes italianos, que seguiriam para as colônias recém estabelecidas pelo governo imperial. Os italianos já radicados em Porto Alegre formavam uma comunidade, e logo apresentariam diferenças dos imigrantes que passaram a engrossar os contingentes, grande maioria constituída por camponeses humildes, desprovidos de recursos, atraídos por agentes que atingiam, intencionalmente, as populações rurais mais desamparadas do Vêneto, Lombardia, Trentino e Friuli.7

Alguns conterrâneos de Garibaldi no Rio Grande do Sul ingressaram através do movimento revolucionário, cerca de 30 anos antes. Na década de 1870, apareciam as agremiações fundadas por italianos, sendo a primeira delas na cidade de Bagé, em 1871, seguida de muitas outras e marcadas por inspiração político-patriótica.

Em Porto Alegre, evidenciando uma comunidade, os italianos fundam, em 1º de julho de 1877, a Sociedade “Mutuo Soccorso e Benevolenza”, nome que, em março do ano seguinte, foi mudado para “Vittorio Emanuelle IIº”, em homenagem ao rei unificador recentemente falecido. Dentre os primeiros sócios encontram-se Azzarini e Obino, antigos companheiros revolucionários de Garibaldi. Os estatutos são redigidos ainda em 1877, sendo aprovados pelo Governo Provincial em 1882. Prevêem número de sócios ilimitado, desde que fossem italianos, nascidos em solo italiano ou nas províncias ainda não unificadas, ou ainda fossem filhos de italianos. Foram objetivos estabelecidos à sociedade: unir todos os italianos radicados em Porto Alegre; promover o bem-estar dos sócios; socorrer os mesmos na doença; pagar despesas de enterros; auxiliar na procura de trabalho.8

A premência em construir uma sede própria revela-se à diretoria da Vittorio quando outra sociedade, a Umberto Iº, inicia a construção do seu prédio. Os fundos que haviam sido arrecadados para o Hospital Italiano, insuficientes ao empreendimento, serviram para iniciar as obras do edifício próprio em terreno adquirido na rua Sete de Setembro, área central da cidade.

Às duas horas da tarde do dia 3 de julho de 1904, em cerimônia prestigiada por representantes do presidente do Estado, pelo intendente municipal, por representante do distrito militar e pelo cônsul geral, houve sessão solene de inauguração do palacete. Encerrados os discursos, deram-se “vivas à Itália e ao Brasil” e os brindes foram acompanhados pela banda do 1º Batalhão da Brigada Militar.9 A nova sede passou a ser considerada como imóvel “mais precioso moralmente do que materialmente [...] edifício que conferia decoro e atendia aspirações da coletividade.10

Através de fotografias pode-se admirar a imponência da construção de dois pisos, em estilo neoclássico, com parte da fachada em mármore, seis aberturas frontais, e sacadas de ferro, sendo que as três portas do piso superior encontravam-se guarnecidas, na parte superior, por nichos. Ao centro estava o busto do Rei Vittorio Emanuelle II, ladeado por aqueles de Garibaldi e de Mazzini; destacava-se ainda no frontão uma alegoria à pátria italiana.

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4 BASBAUM, Leôncio. História e Consciência Social. S.Paulo: Global, 1982. p.145-50

5 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da Esquina : imigrantes na sociedade porto-alegrense.
Porto Alegre: EST, 1991.

6 FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre e seu comércio. Porto Alegre: Associação Comercial de Porto Alegre, 1983.

7 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Gli emigranti dall´Italia del sud a Porto Alegre: studio di storia sociale. In: TRENTO, Angelo org. La Presenza italiana nella storia e nella cultura del Brasile. Torino: Fondazione Giovanni Agnelli, 1991. p.263-283.

8 RIO GRANDE DO SUL. Actos do Governo da Província do Rio Grande do Sul de 1882. Porto Alegre: Officina Typographica de Carlos Echenique, 1908. p. 6-21

9 A Federação. Porto Alegre, 4 de julho de 1904.
10 CINQUANTENARIO... Op.cit p. 366-7.

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Os dois personagens republicanos no alto da fachada oferecem indício da orientação política do grupo que dirigia a agremiação. Orientação que é explícita quando a diretoria, no mesmo ano da fundação da sociedade, escolhe Garibaldi como presidente honorário. O general agradece de Caprera, onde se encontra, através de carta escrita em setembro do mesmo ano:

“Miei cari amici,
Grazie per il pregiato titolo di vostro presidente onorario.
Ricordo con gratitudine l’ospitalità ricevuta tra la generosa popolazione del Rio Grande. Sempre vostro,
G.Garibaldi.”11


Agradecia aos membros da diretoria da Sociedade Vittorio Emanuele II, alguns remanescentes dos batalhões farroupilhas, outros da Legião Garibaldina no Uruguai: Viale, Ratto, Raffo, Piccardo, Azzarini, Obino. 12

Construíam uma identidade italiana através de processo semelhante àquele que se verificou em outros países, tendo Garibaldi como personagem símbolo preferido. Entretanto, se tal preferência era perceptível em outras regiões estrangeiras ou brasileiras, muito mais justificada seria no Rio Grande do Sul, onde, na liderança da comunidade, encontravam-se antigos companheiros do General.13

Durante os quarenta anos em que a sociedade funcionou na sede da rua Sete de Setembro, serviu como referência à vida social da cidade, promovendo e destacando a coletividade peninsular através da liderança que exercia em todo o Rio Grande do Sul. Nas suas dependências eram recebidas personalidades brasileiras, representantes de governos estrangeiros e visitantes italianos, como Annita Italia Garibaldi, em 1929, neta do General, cujo nome continuaria sendo homenageado.

Mas a imagem de Garibaldi sofria transformações no curso do tempo, em decorrência de um diálogo permanente com a cultura dominante, sempre a reforçar o papel de símbolo de uma comunidade que se radicara desde muito no Rio Grande do Sul, e que se multiplicara também a partir de 1875, quando ingressaram os primeiros contingentes de imigrantes como resultado da ação do governo imperial. O Rio Grande do Sul passara a desenvolver projetos de colonização, com recrutamento de imigrantes no norte da Itália. Assim, foram chegando os italianos e formando os primeiros núcleos coloniais: Nova Milano, Conde d’Eu, Dona Isabel, Caxias, Alfredo Chaves, Silveira Martins, entre 1875 e 1884. Mas o sistema de colonização seria efetivamente desenvolvido pelo Governo Estadual, uma vez implantado o regime republicano.

O grupo ampliara-se muito depois da fundação da Società Vittorio Emanuele II. Seus fundadores evidenciaram consciência de nacionalidade, cultuaram os heróis e os feitos do Ressurgimento, pois o nome de Garibaldi já estava glorificado na Itália. É o retrato de Garibaldi que se encontra na parede da casa dos que desejam ser italianos. Foi reproduzido em série pelo fotógrafo Calegari, feito Cavaliere pelo representante do Reino da Itália. O ateliê Calegari vende uma fotografia pintada a óleo, representando o general da Unificação, vestido com a camisa vermelha, uniforme dos soldados que fizeram parte da Expedição dos Mil.

Dentro em pouco outra representação somar-se-ia à figura do general, extraída da tradição rio-grandense, resgatada da narrativa da Revolução Farropilha.

Tempo de crise e revolução

A Província encontrava-se mal e a insatisfação manifesta-se entre os poderosos. Proprietários rurais formam o grupo de poder desde que as sesmarias começaram a ser generosamente distribuídas. Das estâncias comandava-se os homens e a produção; delas saíam as ordens que administravam as vilas, através de suas pobres câmaras. Estas, como instituições dependentes das ordenações portuguesas, tinham pouquíssima autonomia. Entretanto, mais e mais insatisfação notou-se quando a dependência do poder central perpetuava-se, uma vez realizada a independência política de Portugal.

Se idéias republicanas e federalistas manifestavam-se no Brasil desde o final do século XVIII, foram neutralizadas na euforia em torno de D. Pedro, que se fizera o primeiro imperador ao desafiar as famigeradas cortes portuguesas, que dizia escravizarem D.João, seu pai. Antes que outro o fizesse, colocou a coroa na própria cabeça, seguindo o conselho recebido.

Ao contrário do que aconteceu em outras províncias, como no Pará ou na Bahia, o Rio Grande do Sul acolheu bem a idéia do país independente, comandado pelo jovem Imperador. Ressurgira a esperança de que as coisas melhorassem, esperança que logo se revelou vã, porque começava um longo tempo de crise.

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11 Cinquentenario della Colonizazione Italiana nello Stato del Rio Grande del Sud: 1875-1925. Porto Alegre: Globo; Roma: Ministero degli Affari Esteri d’Italia, 1925. p.365.

12 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da esquina. Op.Cit

13 Santoro de Constantino, N. & Ospital, M.S., Construção de identitade e associações italianas: La Plata e Porto Alegre (1880-1920), Estudios Ibero-Americanos, XXV, 2, 1999.


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Realizada e consolidada a independência, as elites do sudeste tratam de organizar um estado em que fossem hegemônicas, o que efetivamente transparece na promulgação da Constituição de 1824. O desenvolvimento econômico das outras regiões era prejudicado pela política do Império, a serviço dos interesses do Sudeste. Essa política se manifestava, sobretudo, na cobrança exagerada de impostos e no uso da receita cambial das províncias em benefício do Sudeste.

Durante a década de 1820, cresceram as dificuldades para o Rio Grande do Sul. Os impostos sobre o charque inviabilizavam a produção; a taxa de transporte elevara-se de tal forma que o charque platino alcançava o Sudeste quase pela metade do preço daquele produzido na Província. Os países platinos se reorganizavam economicamente, após suas guerras de independência, produzindo melhor e em maior quantidade, introduzidas máquinas a vapor e mão-de-obra assalariada. Além do mais, para estimular a produção, esses países isentavam de impostos seus produtos, em verdadeira guerra fiscal.

Nossos couros, produto similar àquele dos países platinos e outra importante fonte de renda, pagavam o “quinto” para a comercialização e, se exportados, teriam a tributação duplicada; a erva-mate também perdia mercado, porque todos os produtos rio-grandenses foram sobretaxados, a título de “dízimo”.

A decadência econômica era percebida e discutida, fosse na agricultura, especialmente a do trigo, ou na pecuária; fosse nas manufaturas ou no comércio, como é exemplar o caso do charque.

A situação política agravou-se quando as tropas das Províncias Unidas do Prata invadiram a Província Cisplatina, em 1825, invasão de que resultou um estado independente, a República Oriental do Uruguai. O governo brasileiro reagira, enviando um exército e uma armada para evitar a perda da Província. A batalha decisiva foi a do Passo do Rosário, em fevereiro de 1827, com vantagem para os argentinos. Como sempre, o grosso do contingente brasileiro era constituído por militares rio-grandenses.

A maior parte dos recrutamentos era feita na Província, e a requisição tornava-se “o espantalho geral... Por isso o Rio Grande era denominado ‘Estalagem do Império’”, como escreveu Batista Pereira .14

Francisco de Sá Brito, nascido em 1808 e falecido em 1875, em suas memórias, considera as causas da Revolução Farroupilha, destacando o “despotismo militar que pesou sobre a província, desde a fundação do seu presídio em 1737...” Afirma que, às vésperas da Revolução, o presidente da Província continuava empenhando-se para colocar “farda às costas dos filhos das principais famílias”. Acrescenta que o Barão do Cerro Largo, General José de Abreu, foi a principal vítima da imperícia do General-em-chefe, o Marquês de Barbacena; que o desastre da Batalha do Rosário contribuiu para “indispor os ânimos contra o governo do Brasil”.15

Os militares rio-grandenses acreditavam que o comando das forças militares era um direito que lhes pertencia; Barbacena não só perde a batalha, como aumenta as antipatias regionais. O desastre brasileiro de Passo do Rosário, ou a vitória de Ituzaingó como querem os argentinos, serviu de motivo para uma acirrada campanha contra o governo imperial.

A abdicação de D. Pedro I só fez piorar o quadro, com a polarização em duas facções. De um lado os retrógrados, também chamados galegos, caramurus, restauradores, escravos do Duque de Bragança ou absolutistas. De outro lado os exaltados, também conhecidos como anarquistas, farrapos ou farroupilhas, em referência aos sans-culotte franceses.

A partida de D. Pedro I revolta os retrógrados que, em todo o país, articulam o retorno do Imperador ao trono brasileiro. No Rio Grande não seria diferente, envolvendo sociedades, lojas maçônicas e a imprensa. Em Porto Alegre há tumulto: o presidente Fernandes Braga, que agradava aos exaltados, passara a apoiar os retrógrados, companhando a posição de seu irmão, o juiz de Direito Pedro Chaves que, diante das manifestações de apoio às idéias liberais da Constituinte, toma o Arsenal de Guerra e ordena a repressão; os populares prendem o Brigadeiro Carneiro da Fontoura e provocam vexame ao Visconde de Castro, acusados de ordenarem disparos contra o povo. Em Rio Pardo, verifica-se agudo o conflito que se manifesta com intensidade também em Rio Grande, Cachoeira e Viamão.16

Em todo o país aumentam insatisfações que se materializam no Ato Adicional de 1834, a refletir negociação e conciliação, mas longe de estabele cer o pleiteado federalismo. Estabelecida a Assembléia Provincial no Rio Grande do Sul, nela passam a atuar deputados das diferentes facções, acirrando-se o debate, para o qual então existia um espaço apropriado. Já na sua abertura, o discurso do presidente Fernandes Braga menciona uma conspiração para entregar o Rio Grande aos países platinos, e aponta alguns deputados influentes como responsáveis, entre os quais Bento Gonçalves.

Em junho de 1834, encerram-se os trabalhos na Assembléia, em meio à ampla conspiração que refletia um clima de revolta no país. Todas as regiões brasileiras de alguma forma lutam contra o centralismo do Império, com exceção da região Sudeste, interessada em mantê-lo porque concentrava o poder entre seus representantes. Em Pernambuco, durante 1824, eclodira a Confederação do Equador e, em 1835, além do Rio Grande do Sul, sublevou-se a Amazônia no movimento denominado Cabanagem; dois anos mais tarde verificou-se, na Bahia, a Sabinada; em 1838 eclodiu a Balaiada no Maranhão e, em 1848, após o término da Revolução Farroupilha, novamente Pernambuco foi conflagrado pela Praieira. Esses movimentos, acompanhados de outros de menor repercussão, todos sufocados a ferro e fogo, demonstram que a revolução no Rio Grande fez parte de uma ampla revolta nacional contra o centralismo imposto pelo Sudeste, como afirma Freitas. 17

Sob o ponto de vista ideológico, sabe-se que a rebelião no Rio Grande absorveu elementos do liberalismo europeu que estiveram também difusos no movimento de independência dos Estados Unidos, na Revolução Francesa e nos processos de independência das colônias latino-americanas em geral. Mas foi efetivamente o ideal federalista que catalisou os principais objetivos. Para a elite rio-grandense, constituída basicamente por estancieiros, interessava uma autonomia política que permitisse desenvolvimento econômico. Bem mais do que um real liberalismo, exigia-se o laissez-faire, laissez passer, ou seja, uma maior liberdade para a ação produtiva.

Tanto é que o projeto de Constituição da República Rio-grandense não reflete os princípios democráticos do liberalismo francês, tão decantados nos primeiros anos do século XIX. Neste projeto rio-grandense, os escravos foram excluídos da nacionalidade e nem mesmo alcançaram a igualdade civil, fundamento da moderna nação liberal. Discriminava ainda mais do que o regime monárquico, ao negar a cidadania aos libertos nascidos no Brasil. Por outro lado, também excluía da vida política a maior parte da população livre, porque estabelecia eleições censitárias. Seriam excluídos de votar “os criados de servir”, com exceção dos “guarda-livros, dos primeiros caixeiros das casas de comércio, dos administradores e capatazes das fazendas rurais”. Todos poderiam ser votados, “menos os que não tiverem de renda líquida anual a quantia de trezentos mil réis, (...) os libertos (...) os que não professam a religião católica romana”18.

Assim, ficavam de fora do sistema peões, agregados, negros, índios, colonos, enfim, o povo que lutou e morreu, permitindo manter uma guerra durante dez anos, como sustenta Moacyr Flores, ao afirmar que a Revolução Farroupilha caracterizou-se por ser movimento de minoria prestigiada e dominante.19 Representava forma de alcançar projeto político que atendia principalmente os estancieiros e, por isso, não recebeu apoio de todos os grupos sociais provinciais, apesar de que a autonomia regional traria benefícios à população rio-grandense em geral, já que algum desenvolvimento só seria possível sem os entraves impostos pelo governo imperial.

Repete-se que, na ideologia do movimento, destaca-se o federalismo. Se a autonomia não fosse alcançada através da formação de um estado nacional nos moldes federativos, tratava-se de proclamar um estado republicano independente. A criação da República Rio-Grandense decorre fundamentalmente de tensões de caráter econômico que, somadas àquelas de caráter político e administrativo, desencadearam a luta armada.

A insurreição começa com a ocupação de Porto Alegre que, um ano depois, é retomada pelos imperiais. Nesta primeira fase, Tito Livio Zambeccari tornara-se secretário de Bento Gonçalves. Encontrava-se na capital da Província desde 1834, exercendo atividades junto a lojas maçônicas e trabalhando como redator em jornais republicanos que iam surgindo, onde tratava de divulgar os ideais da Giovine Italia. Dessa maneira, tentava contribuir com as idéias de Mazzini para a revolução rio-grandense que se encontrava em gestação. O Conde Zambeccari é preso juntamente com Bento Gonçalves; ambos são levados ao Rio de Janeiro, de onde deportam o revolucionário italiano.

A fase revolucionária inicia, portanto, em 1836, com a retomada de Porto Alegre; outros líderes passaram a conduzir o movimento durante a período em que Bento Gonçalves esteve preso. A Província separou-se do Brasil, com a fundação da República Rio-grandense; ocorre a tomada de Laguna pelos republicanos e, nesta fase, muitos são os italianos a ingressarem no movimento, como Anzani, Rosseti e Garibaldi.

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17 FREITAS, Décio. Federação ou morte. Jornal Universitário, Porto Alegre, outubro de 1984.

18 PROJETO DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA RIO-GRANDENSE. Apud. FLORES, Moacyr.
Modelo político dos Farrapos. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1978.

19 FLORES, Moacyr. Op Cit.

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Francesco Anzani lutara pelos liberais na Península Ibérica e, no Brasil, prestou serviços à República Rio-grandense, primeiro no jornalismo doutrinário, depois como comandante de infantaria. Luigi Rosseti estava no Brasil há cerca de dez anos, participando ativamente da Congrega Giovine Italia no Rio de Janeiro.

No ambiente da Corte as idéias liberais circulavam há algum tempo. O republicanismo era latente desde a década de 1820, quando surgiu a Congrega para difundir os ideais mazzinianos. Salvatore Candido afirma que, desde a segunda década do século XIX, havia numerosas coletividades italianas no Brasil, formadas principalmente por italianos setentrionais, a maioria oriunda de cidades portuárias.20

Gênova, Savóia e Nizza tinham intercâmbio constante com os portos mais movimentados do Atlântico, como Buenos Aires, Montevidéu e Rio de Janeiro, desde que os países americanos fizeram suas independências políticas. Escreve Candido que “[...] a possibilidade de encontrar-se rápidos meios de ganhar a vida e a facilidade de enriquecimento favoreceram, em primeiro lugar, a deserção de tripulantes das embarcações mercantis sardas. Estes elementos formariam, em seguida, núcleos familiares e são, sucessivamente numerosos, também, os exilados políticos”21.

Os novos Estados que se organizavam no continente sul-americano tinham necessidade de atrair gente ativa que fosse capaz de colaborar na formação de uma nação. À medida que as pesquisas se desenvolvem, observa o mencionado autor, há possibilidade de publicar sucessivamente listas com nomes de emigrados civis e militares, “ou melhor, militarizados”, que partiam para a Argentina, Uruguai e Brasil. Entre fontes documentais encontradas na Itália, aparecem nomes de pessoas que desenvolviam atividades consideradas subversivas no Rio de Janeiro, durante a década de 1830, acusados de pertenceram ao movimento Congrega della Giovine Italia: Giacomo Alessi, Gio Batta Folco, Vincenzo Raimondi, Cesare Corridi, Giuseppe Stefano Grondona, Cuneo, Rossetti,. Luigi Vaccani, Michele Lando, Paolo Tausch Di Livorno, Carlo Belgrano, Giacomo Cris ou Gris e Pietro Gaggini, que viveram e trabalharam no Rio de Janeiro.22

O movimento mazziniano desenvolvia-se, inclusive em São Paulo, onde foi assassinado Libero Badaró, médico lígure que estudou nas universidades de Pavia, Bolonha e Turim. Perseguido na Itália por suas idéias liberais, embarcara para o Brasil em 1826, vivendo por pouco tempo no Rio de Janeiro, transferindo-se para São Paulo, onde exerceu a medicina, além de lecionar matemática e geometria. Funda um jornal, o Observador Constitucional, divulgando idéias liberais e criticando o Imperador pela desobediência à Constituição e pelo despotismo. Em 20 de setembro de 1830, foi assassinado à porta de sua casa, fato que desencadeou levantes populares e que está na origem da abdicação ao trono por parte de D.Pedro I, suspeito de ser o mandante do crime.23

A conspiração liberal de origem italiana estendia ramificações e, no Rio de Janeiro, Rosseti faz o contato com Bento Gonçalves e com Zambeccari, quando estavam na prisão. Naquela ocasião, apresentou-lhes Giuseppe Garibaldi, também foragido, pois condenado à morte na Itália. Ambos recebem do chefe revolucionário uma carta de corso e partem para o sul no veleiro Mazzini. Alcançam o Uruguai de onde retornam ao Rio Grande, chegando à capital da nova república, Piratini, onde Rosseti funda e redige o jornal O Povo que estampa na primeira página o dístico de Mazzini: O poder que conduz a revolução deve preparar as almas dos cidadãos para os sentimentos de fraternidade, modéstia, igualdade, ardente e desinteressado amor pela Pátria.24

Assim, Garibaldi chegou ao Rio Grande do Sul em 1838, com outros italianos. Na Estância do Brejo, propriedade da família de Bento Gonçalves, encontrou os dois lanchões que foram transportados sobre rodas, puxados por bois, até a barra do rio Tramandaí, onde foram lançados ao oceano, em façanha extraordinária. Um dos lanchões, o Farroupilha, naufragou, resultando na morte de sete revolucionários italianos. O Seival alcançou Santa Catarina, onde ajudou a derrotar os imperiais.

A reação dos imperiais não tardou, bloqueando os farroupilhas. Naqueles dias de Laguna, sob o disparo de canhões, Garibaldi encontrou Ana Maria de Jesus Ribeiro que estava com 28 anos e era casada com Manuel Duarte de Aguiar. Garibaldi, enamorado, levou-a consigo quando partiu, em outubro de 1839, enfrentando o bloqueio da marinha imperial.

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20 CANDIDO, Salvatore. L’azione mazziniana in Brasile ed. il giornale ‘La Giovine Italia’ di Rio de Janeiro (1836) attraverso documenti inediti o poco noti. Estratto da Bolletini della Domus Mazziniana, Pisa, n. 2, 1968.

21 Id. Ibid. p.3-4.

22 Id. Ibid. p.p.4-6; 32-3,42.

23 CENNI, Franco. Italianos no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Edusp, 2003. pp. 65-73.

24 O Povo, jornal de Piratini, n.1, 1 de setembro de 1838.


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Mas o movimento revolucionário enfraquecia paulatinamente e Garibaldi abandonou a luta pelos farroupilhas em 1841. Três anos depois começava a última fase revolucionária, a chamada fase de pacificação, terminada em março de 1845 com a Paz de Ponche Verde. Garibaldi já havia partido para o Uruguai, levando como indenização uma tropa de bois. Com a mulher e o filho alcançou Montevidéu, de onde solicitou anistia a D.Pedro II, conforme documentos transcritos e comentados por Spalding.25 Ensaiava a paz com a monarquia, para, mais tarde, aliar-se aos príncipes do Piemonte, na luta pela Unificação.

O jovem Garibaldi estivera entre os propagandistas republicanos na primeira hora, inspirados no pensamento de Mazzini; tentara inclusive a insurreição de Gênova que, malograda, valeu-lhe a condenação à morte, a fuga para Marselha e depois para a América. Retornou à Itália em 1848, para continuar a luta, quando Roma viveu uma breve temporada republicana que culmina com a derrota de Mazzini e de Garibaldi.

Ao retornar, os tempos eram bem outros, quando a presença de Cavour junto aos soberanos do Piemonte resultava em complexa política externa, cujo objetivo era proclamar o Reino da Itália. Em 1861 está proclamado o Reino, e Garibaldi, aliando-se a Cavour, organiza a Expedição dos Mil, cujos soldados voluntários foram chamados os camisas vermelhas, para incorporar o sul da península ao novo reino.

A massa popular esteve ausente do movimento de unificação, constituído por intelectuais, comerciantes, estudantes universitários que “... foram os primeiros a unir-se aos voluntários de Garibaldi” 26. Porque Garibaldi, perigosamente, tomava conta da cena que deveria ter Vittorio Emanuelle II como principal protagonista. Garibaldi, que representava a facção política à esquerda, sofreu toda a sorte de pressões e retirou-se para Caprera.

Tempos republicanos

A república foi implantada no Brasil em 1889 e, em 1893, eclodia a sangrenta Revolução Federalista. Interrompidos pela guerra, os fluxos imigratórios retomam a intensidade. Ficou evidente que muitos italianos haviam feito oposição à facção liderada por Julio de Castilhos, de inspiração positivista, inclusive aderindo às hostes federalistas chefiadas por Silveira Martins, e que acabaram derrotadas. Houve freqüentes tumultos nas cidades e na zona colonial, acompanhados por respectivas ações diplomáticas.27

Mas, na virada para o século XX, o processo de construção da italianidade está novamente progredindo, reforçado pela ideologia que aponta para Augusto Comte. O grupo positivista fizera propaganda da república no Rio Grande do Sul, e tomou conta do governo estadual desde os primeiros tempos, vencidos os maragatos, Com a morte de Julio de Castilhos, o novo presidente do Estado, Borges de Medeiros, procurou revitalizar a colonização. As antigas colônias passaram a ser cuidadosamente protegidas enquanto desenvolvia-se um projeto de nacionalização. O ingresso de italianos passou a caracterizar-se pela imigração espontânea em detrimento da subvencionada, segundo diretrizes que foram expressas nas Teses Financeiras e Econômicas do Partido Republicano Riograndense. Ademais, ao assumir o poder, Borges de Medeiros passou a usar como estratégia um elaborado discurso de valorização do imigrante italiano que, assim, acabou servindo como modelo de cidadão operoso e ordeiro, capaz de fácil assimilação. Nacionalismo e operosidade passaram a ser a tônica do discurso oficial. Pretendeu-se neutralizar os chamados “quistos étnicos” e incentivar mudanças nas relações de produção, estimulando o crescimento de uma classe social intermediária.

A reativação do projeto de colonização faz-se também sentir na cidade, onde a presença de imigrantes aumenta e diversifica cada vez mais. Relatórios consulares como o de Pasquale Corte, em 1884, ou o do Cônsul De Velutiis, em 1908, fornecem informações sobre os súditos italianos em Porto Alegre, que perfazem mais de 10% da população da cidade da década de 1890. Esclarecem ainda sobre o grande número de meridionais, com predominância de calabreses da Província de Cosenza.

No final do século XIX, o republicanismo gaúcho adere e reforça o movimento regionalista, acompanhando o romantismo iniciado tardiamente no sul pelos membros da Partenon Literário. Revitaliza-se o culto da Garibaldi de outra forma e com bons motivos.

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25 SPALDING, Walter. A epopéia farroupilha. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército-Editora, 1963. p.248-9.

26 SMITH, Denis Mack. Storia d’Italia. Roma-Bari: Laterza, 2000. p. 17.


27 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Emigranti e Guerra Civile nel Brasile di fine ottocento. Daedalus. Castrovillari; n. 10 janeiro-junho 1993.

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Ao tempo da Guerra do Paraguai, precisamente em 1868, um grupo de intelectuais fundara o “Partenon Literário”, agremiação que iniciou a exaltação da temática gauchesca, com apologias às figuras heróicas. Veicula um movimento literário romântico e tardio, valorizando o gaúcho como figura do nativo puro, valente, generoso, na trilha iniciada por José de Alencar ao publicar o romance O Gaúcho; o autor, que nunca veio ao Rio Grande do Sul, idealiza o tipo humano que denomina “centauro dos pampas”.28 Escreve Sergius Gonzaga que “...Caberia aos integrantes da Sociedade Partenon o esforço para a louvação dos tipos representativos mais caros à classe dirigente.” 29

No início do século estava inaugurada a estátua de Garibaldi, na praça principal da Cidade Baixa, bairro por excelência dos italianos, cuja coletividade fez a doação do monumento, depois de grande campanha para obtenção de fundos. Em termos de outros países, a homenagem aconteceu tardiamente, mas verificou-se em momento mais do que oportuno. A representação de Garibaldi já não está sendo feita com o fardamento militar que envergou na campanha da Unificação. Garibaldi agora traja o poncho, vestimenta típica do gaúcho, que adotou como agasalho. Aos seus pés encontra-se Anita, sublinhado o seu papel de mulher corajosa, guerreira.

A representação de Garibaldi vestindo o poncho surgirá timidamente, mas a figura de Anita é destacada; aparece a catarinense guerreira, companheira nos percursos revolucionários no Brasil e na Itália.

Logo no final do século XIX surgiria a primeira agremiação tradicionalista: o Grêmio Gaúcho de Porto Alegre, criado em 1898 pelo republicano e positivista José Cezimbra Jacques.30

A Revolução Farroupilha assumia o primeiro plano na narrativa histórica rio-grandense. E um destaque foi atribuído a Garibaldi em decorrência de sua participação na mesma. No herói dos dois mundos demonstrava-se a magnitude dos ideais farroupilhas, por um lado. Por outro, demonstrava-se a profunda ligação e dedicação dos italianos ao Rio Grande e à sua gente, lembrando em plano secundário Zambeccari e Rosseti.

Em 1883, foi aberto o trecho inicial da Rua Garibaldi. Em 1907, no dia do centenário do nascimento de Garibaldi, a antiga Praça da Concórdia, coração do bairro por excelência dos italianos, a Cidade Baixa, recebeu do Intendente José Montaury o nome do General. Alguns anos mais tarde, como foi visto, precisamente em 1913, estava inaugurada a estátua de Garibaldi na praça que tem o seu nome.

Há grandes festejos marcando o cinqüentenário da colonização italiana no Rio Grande do Sul, em 1925. Um grande álbum é publicado pela Editora Globo, com subsídios do governo italiano, aberto com mensagens do presidente do Estado, Borges de Medeiros e de Benito Mussolini, ministro do exterior, que desenvolve uma ação diplomática mais agressiva, com cooptação das lideranças da comunidade italiana. A cultura italiana estava sendo exportada com eficiência e o jornalista Mansueto Bernardi fez-se dela portador; na Editora Globo, do conterrâneo Bertaso, faz publicar autores italianos, divulgando suas obras. Cada vez mais destaca-se na coletividade italiana, a quem honra pelo seu prestígio intelectual.

Pois no álbum do Cinquantenario, feito um proêmio pelo Embaixador italiano Luigi Ardoini, o primeiro texto é intitulado Gli Italiani e la Repubblica di Piratiny, escrito por Mansueto Bernardi, coordenador da obra, que inaugura uma narrativa dos italianos no Rio Grande por eles mesmos, narrativa que tardava. Mansueto era um intelectual a representar italianos, porque podemos considerá-lo também brasileiro. Nascera em 1888, e veio com três meses do Vêneto, criando raízes em Veranópolis; era membro destacado do Partido Republicano Riograndense, ocupou cargos públicos num tempo de nacionalismo exacerbado.

Em plena década dos 20, depois da Semana de Arte Moderna, quando fica evidenciada a identificação com as renovações artísticas do Velho Mundo, depois do levante do Forte de Copacabana, da Revolta de 24 e da formação da coluna Prestes, havia um certo espírito de época a defender a cultura regional.

Lembra Gutfreind que, apesar de ser limitado o ambiente cultural no início dos anos 20, também notou-se no Rio Grande do Sul uma relativa efervescência cultural e o mais importante acontecimento foi a refundação do Instituto Histórico Geográfico, logo em 1920, aglutinando importante grupo de intelectuais, cuja produção poderia ser entendida a partir de duas matrizes: uma de orientação lusitana e a outra de orientação platina.31

Em todos os sentidos as mudanças aceleravam-se desde o final da Primeira Grande Guerra. A Revolução de 30 é uma forma de expressão do conjunto de transformações que alcançava a sociedade brasileira e um produto de heterogêneas alianças. Explode no sul, mais precisamente em Porto Alegre e seu líder é um gaúcho. O “Rio Grande em Pé pelo Brasil” foi frase proferida por Vargas ao final do discurso que inaugurava a Revolução. E continuou sempre salientando a liderança do Rio Grande na regeneração do Brasil. 32

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28 OLIVEN, p.51.

29 GONZAGA, Sergius. p. 125.

30 OLIVEN, p. 72-3.

31 GUTFREIND, pp.11 e 23.


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Com a eclosão da Revolução de 30 fica reforçada a tendência regionalista. O lançamento da obra de Alfredo Varella, sobre a Revolução Farroupilha, em 33, alimenta a tendência, ainda que inserisse a Revolução na platinidade. Contrariava uma tendência historiográfica predominante, que sublinhava o nacionalismo e que negava as intenções separatistas da Revolução, assim como as influências platinas nos nossos hábitos e costumes. 33 A corrente lusitana era representada principalmente por Souza Docca, Othelo Rosa e por Aurélio Porto; ganhava força à medida que se aproximava o centenário da Revolução Farroupilha, festejado com grandiosidade inusitada, em 1935.

A capital revolucionária desejou a modernidade e mostrou-se “moderna” nessas comemorações. No antigo Campo da Redenção, construiu-se o Parque que receberia a exposição internacional, e que passou a chamar-se Parque Farroupilha. A exposição reafirmava a importância da cidade onde começara a revolução de 30, entendida como movimento que conduziria à modernidade. A feira foi ousada, grandiosa, no estilo art deco, símbolo dessa modernidade.

A narrativa da revolução e dos revolucionários foi reforçada. As abordagens em torno de Garibaldi e de sua trajetória no Rio Grande do Sul serão recorrentes e destacadas, motivadas pelo desejo de exaltar a amplitude dos ideais farroupilhas que enalteciam líderes revolucionários, acusados tantas vezes de separatismo. Zambeccari e Rosseti também recebem atenção dos historiadores, identificados com os valores do Rio Grande e com a causa da liberdade.

O esforço de Garibaldi no comando da esquadra farroupilha é descrito com entusiasmo por historiadores fundadores do Instituto Histórico Geográfico, na década de 1930.

Othelo Rosa e Dante de Laytano revezam-se nesta narrativa, o último um filho de italianos imigrantes. São seguidos por Souza Docca e por Walter Spalding, que mantém certa austeridade.

Othelo Rosa exalta o personagem, descrevendo sua passagem pelo Estado como uma fantástica epopéia; sublinha a importância do papel de Garibaldi na Revolução. Laytano enaltece o idealismo garibaldino e destaca a famosa travessia dos lanchões por terra.34

Souza Docca, ainda que de forma contida, descreverá a travessia por terra com os lanchões Seival e Farroupilha, desde Camaquã até Tramandaí, uma vez que, em 1839, os farrapos não tinham porto, pois Rio Grande estava bloqueado pelos imperiais.

Spalding vai mais além registrando razões econômicas que teriam motivado Garibaldi a abandonar a Revolução.35

Com sutis variações, a imagem de Garibaldi permanece no primeiro plano da historiografia rio-grandense. A eclosão da Segunda Guerra, em 39, e a declaração de guerra aos países do Eixo, em fevereiro de 1942, não alteram tal imagem ou, antes, beneficiam o grupo italiano no Rio Grande do Sul.

Não obstante a forma dramática como o tempo do conflito é freqüentemente narrado, sabe-se que os italianos foram tratados com certa “amabilidade”, se comparados aos imigrantes alemães ou a seus descendentes. 36 Pois não era italiano Garibaldi, que tanto contribuíra para a Revolução Farroupilha?

Fato é que, no contexto da Segunda Guerra, os italianos beneficiaram-se da imagem que lhes representava diante da sociedade gaúcha.

Na seqüência da paz, e na rapidez com que se verificaram os tratados entre os dez países, fica reforçada a idéia das afinidades entre a Itália e o Brasil. Tanto que, entre 1941 e 1950, compreendendo o período da guerra e o imediato, a imigração italiana no Brasil aumentaria cinco vezes. Retém-se claramente que aos italianos e seus descendentes convinha um alinhamento com o poder no Brasil, como forma de proteger interesses e alcançar reivindicações; a postura de reconhecimento às autoridades brasileiras foi sempre recomendada pelos representantes da diplomacia italiana. A guerra representava um acidente de percurso, decorrente da vontade dos líderes europeus, com os quais não precisava haver qualquer identificação. Os imigrantes italianos e seus descendentes aproveitavam a oportunidade para evidenciar que desejavam fosse o Brasil a sua pátria.

Nos anos 80, festejou-se o sesquicentenário da Revolução Farroupilha, que foi novamente narrada, desta vez em perspectiva bem mais crítica, através de inúmeros trabalhos, a maioria de natureza acadêmica, acompanhando o surgimento de vários programas de pós-graduação em História no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Uma das novidades surgidas diz respeito à incorporação efetiva de Anita nas narrativas, como resultado da ampla discussão que se tornou possível em torno do movimento feminista ou das questões de gênero na História. Anita passa a ser contada com os olhos do presente, tão diferente dos anos trinta quando se trata da narrativa de mulheres.

A imagem de Garibaldi continuaria sendo mantida como aquela do herói de dois mundos, inclusive do mundo sul-brasileiro. Entretanto, o general unificador, símbolo à formação de uma coletividade, voltou à juventude, vestindo um poncho, como o idealista republicano, capaz de grandes feitos durante a nossa Revolução.

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32 OLIVEN, p. 60.

33 GUTFREIND, p.115.

34 Segundo Flores, Garibaldi entra em contato com os revolucionários em 1836, já deflagrada a guerra. Anita conheceu-o em 1839, quando da invasão de Laguna. Os lanchões Seival e Farroupilha, cuja construção foi fiscalizada pelo irmão de Bento Gonçalves, o juiz de paz José, subiram o Rio Capivari e, sob armações com grandes rodas, foram puxados por juntas de bois até a barra do rio Tramandaí, em percurso de cerva de 50 milhas. O Seival, comandado por Grigs, fez-se ao largo, mas o Farroupilha, comandado por Mutru, levando a bordo Garibaldi, soçobrou , morrendo muita gente, como recorda Garibaldi nas suas memórias.

35 Rosa, Laytano, Souza Docca e Spalding foram membros do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul.

36 CONSTANTINO, 2005.p.p 211-220.

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