| Memória de Garibaldi
e a
construção da identidade entre
italianos no Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
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Doutora em História Social, docente do
Programa de Pós-graduação em História
da PUC-RS
As mais freqüentes representações
de Garibaldi, no Rio Grande do Sul, são acompanhadas
por imagens bem conhecidas: a imagem do general unificador
da pátria italiana e a imagem do herói da Revolução
Farroupilha. Destes símbolos fazem uso os imigrantes
italianos, no processo de construção de uma
italianidade no Brasil meridional.
Para analisar o processo de construção da identidade
entre imigrantes, é necessário historiar a presença
dos mesmos no Rio Grande do Sul, considerando diferentes contextos.
Pois, para Conzen, identidade étnica é uma construção
cultural que se realiza em determinado tempo histórico;
grupos étnicos se recriam constantemente e a etnicidade
é sempre reinventada para fazer frente a realidades
que mudam, comportando diálogo com a cultura dominante.
Conzen esclarece que, para tanto, os símbolos expressivos
da etnicidade ou as tradições étnicas
são reinterpretados continuamente; que construir uma
identidade implica participação ativa de parte
expressiva da comunidade de imigrantes. A mesma autora acrescenta
que, nessas comunidades, surgiu uma forma de nacionalismo
italiano militar patriótico, presente, sobretudo, nas
associações de mútuo socorro que abraçavam
símbolos criados no Reino recém fundado; tais
associações cultuavam representantes da família
real italiana ou heróis do Ressurgimento, sendo Garibaldi
o favorito.1 Processo semelhante ocorria em vários
países e também no sul do Brasil.
No presente ensaio, pretende-se analisar o papel simbólico
fundamental de Garibaldi na construção de uma
italianidade, considerando diferentes contextos históricos
rio-grandenses, entre 1835 e 1930, com ênfase na imigração,
e considerando a participação de Garibaldi na
Revolução Farroupilha e no processo da unificação
italiana. Delimito como espaço principal a cidade de
Porto Alegre, capital da Província, porque apresenta
a maior concentração populacional, e porque
é espaço de decisões e de confluência
entre pessoas de diferentes origens, desde o início
do século XIX.
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1CONZEN, Kathlen Neil et. alii. The invention of ethnicity.
Altreitalie. Torino: Fondazione Giovanni Agnelli. n.3, ano
II, abril, 1990 pp 6;24.
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Qualquer estudo que se possa fazer sobre os italianos no
Rio Grande do Sul precisa considerar, no mínimo, três
tipos de presença desses estrangeiros: a presença
de especialistas e de religiosos notada desde a segunda metade
do século XVIII; a presença precoce de profissionais
liberais, artistas e comerciantes, registrada a partir da
segunda década do século XIX nas zonas urbanas;
a presença de italianos através dos grandes
fluxos imigratórios estimulados pelo governo, fluxos
que também oportunizaram a presença de imigrantes
espontâneos, em grande parte provenientes da Itália
meridional.
Assim, dentre os pioneiros já havia grandes diferenças
culturais, pois eram oriundos de várias regiões
italianas; muito maior foi a diversidade encontrada entre
aqueles que fizeram parte dos grandes contingentes. Constata-se,
portanto, uma grande heterogeneidade entre pessoas que falavam
diferentes dialetos, que apresentavam usos e costumes muito
diversos entre si, correspondentes a distintas regiões
então recém unidas sob o escudo da casa de Savóia.
A partir destas constatações, pergunto como
esses imigrantes conseguiram evidenciar italianidade, se a
maioria desconhecia o idioma italiano e se, considerando a
variável tempo, nem mesmo poderiam ter desenvolvido
uma concepção nacionalista, o patriotismo desejado
pelas elites responsáveis pela Unificação,
presos que ainda se encontravam às diferentes regiões
de origem.
Tempo de Imigração
A presença italiana que chamo precoce na capital
da Província é ainda esparsa e constituída
por indivíduos provenientes das diversas regiões
italianas, nos meados do século XIX; há evidências
que apontam para grande número de lígures, a
exemplo do que aconteceu em outras cidades sul-americanas,
como demonstram estudos de Chiara Vangelista.2
Sabe-se que italianos encontravam-se no território
do Rio Grande do Sul antes do surgimento de núcleos
urbanos. Participaram das guerras entre Portugal e Espanha,
assim como das campanhas de demarcação do território,
como astrônomos, cartógrafos, engenheiros, cirurgiões.
São apenas exemplos de especialistas contratados pelas
coroas ibéricas. No século XVIII é uma
presença esporádica e rarefeita ao extremo,
tornando-se mais notada nas primeiras décadas do século
XIX, sobretudo a partir da Revolução Farroupilha.
Além de nomes conhecidos como Garibaldi, Rossetti ou
Zambeccari, sabe-se que foram muitos os italianos envolvidos
no movimento revolucionário: Matru, Cuneo, Carniglia,
Valerini, Staderini, Torrisan e outros, que deixaram registro
de sua passagem em território rio-grandense.
Na primeira metade do século XIX, a presença
de italianos na Província já não é
novidade. São elementos ligados à navegação
ou ao comércio, como se pode depreender dos relatos
de viajantes ou da correspondência diplomática.
Porto Alegre, capital administrativa e principal centro comer-cial,
exerceu atração para estrangeiros. Não
seria diferente com italianos, cujas evidências de presença
podem ser encontradas nos livros paroquiais e, mais do que
isto, nos livros de registro de batismo, que permitem concluir
por relativa fixação, visto que alguns indivíduos
batizam vários filhos, sobretudo a partir da década
de 1840. Fato é que, por volta de 1850, havia comprovadamente
41 famílias radicadas na cidade. 3
A origem de Porto Alegre encontra-se no povoado formado por
açorianos em 1752 que, em 1822, fora elevado à
condição de cidade por carta imperial.
No início do século XIX o núcleo urbano
crescera rapidamente, em decorrência da ampliação
da lavoura tritícola, da qual era o principal centro
exportador. Com a decadência desta lavoura, a cidade
estagnou, entre 1820 e 1858, sendo reativada pelas exportações
das colônias alemãs, estabelecidas nas suas proximidades
desde 1824.
Nas primeiras décadas do século XIX, houve aquela
intensa movimentação política, concentrando
intelectuais cujas idéias são veiculadas pela
imprensa, depois de discutidas nas lojas maçônicas.
A eclosão da Revolução Farroupilha fez
com que a cidade fosse ocupada por revolucionários
e que, por algum tempo, republicanos italianos nela estivessem
atuando.
A partir de 1840, há traços da presença
de italianos em Porto Alegre, encontrados na imprensa, como
anúncios de estabelecimentos comerciais e participações
de falecimento; há maior incidência de registros
nos livros de batismo da Paróquia Matriz de Nossa Senhora
Mãe de Deus. De 1850 em diante, esta presença
é constante e, até 1914, será crescente.
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2 VANGELISTA,Chiara. Traders and workers: sardinian subjetcs
in Argentina and Brazil. In: RAMIREZ,Bruno & POZZETTA,G.
The Italian Diaspora: migrations across the globe. Toronto:
News Cultural History Society, 1992. p.37-50.
3 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano da esquina:
imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST,
1991.
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Por volta de 1870, já podem ser notados alguns homens
que se destacam no grupo italiano, considerado psicossocial
em forma de comunidade. Seus componentes têm projeto
comum, laços ideológicos, estabilidade e normas
de coexistência.4 Analisando suas trajetórias,
a característica da estabilidade é percebida,
sobretudo, pelo estabelecimento de laços de compadrio.5
O crescimento da presença italiana e a formação
de uma comunidade podem ser explicados.
A guerra contra o Paraguai oportunizara bons negócios
ao comércio porto-alegrense, como registra Franco.
O arsenal ampliara sua produção, chegando a
empregar mais de 200 trabalhadores. Foi estimulado o surgimento
de indústrias e da Praça do Comércio,
fundada em 1858, cujo quadro de associados foi sendo aumentado.6
Desde a década de 1870, apareciam na cidade nítidos
sinais de modernização. Foram introduzidos o
transporte urbano por tração animal e a iluminação
pública a gás. A Companhia Telefônica
inaugurou seus serviços; a Praça da Matriz foi
embelezada com a inauguração de imponentes edifícios
públicos que formaram harmonioso conjunto com o Theatro
São Pedro. Fundou-se a Biblioteca Pública, inaugurou-se
o primeiro trecho de ferrovia na Província, ligando
a capital à zona de colonização alemã.
Em trânsito chegavam à cidade, desde 1875, grandes
contingentes de imigrantes italianos, que seguiriam para as
colônias recém estabelecidas pelo governo imperial.
Os italianos já radicados em Porto Alegre formavam
uma comunidade, e logo apresentariam diferenças dos
imigrantes que passaram a engrossar os contingentes, grande
maioria constituída por camponeses humildes, desprovidos
de recursos, atraídos por agentes que atingiam, intencionalmente,
as populações rurais mais desamparadas do Vêneto,
Lombardia, Trentino e Friuli.7
Alguns conterrâneos de Garibaldi no Rio Grande do Sul
ingressaram através do movimento revolucionário,
cerca de 30 anos antes. Na década de 1870, apareciam
as agremiações fundadas por italianos, sendo
a primeira delas na cidade de Bagé, em 1871, seguida
de muitas outras e marcadas por inspiração político-patriótica.
Em Porto Alegre, evidenciando uma comunidade, os italianos
fundam, em 1º de julho de 1877, a Sociedade “Mutuo
Soccorso e Benevolenza”, nome que, em março do
ano seguinte, foi mudado para “Vittorio Emanuelle IIº”,
em homenagem ao rei unificador recentemente falecido. Dentre
os primeiros sócios encontram-se Azzarini e Obino,
antigos companheiros revolucionários de Garibaldi.
Os estatutos são redigidos ainda em 1877, sendo aprovados
pelo Governo Provincial em 1882. Prevêem número
de sócios ilimitado, desde que fossem italianos, nascidos
em solo italiano ou nas províncias ainda não
unificadas, ou ainda fossem filhos de italianos. Foram objetivos
estabelecidos à sociedade: unir todos os italianos
radicados em Porto Alegre; promover o bem-estar dos sócios;
socorrer os mesmos na doença; pagar despesas de enterros;
auxiliar na procura de trabalho.8
A premência em construir uma sede própria revela-se
à diretoria da Vittorio quando outra sociedade,
a Umberto Iº, inicia a construção
do seu prédio. Os fundos que haviam sido arrecadados
para o Hospital Italiano, insuficientes ao empreendimento,
serviram para iniciar as obras do edifício próprio
em terreno adquirido na rua Sete de Setembro, área
central da cidade.
Às duas horas da tarde do dia 3 de julho de 1904, em
cerimônia prestigiada por representantes do presidente
do Estado, pelo intendente municipal, por representante do
distrito militar e pelo cônsul geral, houve sessão
solene de inauguração do palacete.
Encerrados os discursos, deram-se “vivas à Itália
e ao Brasil” e os brindes foram acompanhados pela banda
do 1º Batalhão da Brigada Militar.9 A nova sede
passou a ser considerada como imóvel “mais precioso
moralmente do que materialmente [...] edifício que
conferia decoro e atendia aspirações da coletividade.10
Através de fotografias pode-se admirar a imponência
da construção de dois pisos, em estilo neoclássico,
com parte da fachada em mármore, seis aberturas frontais,
e sacadas de ferro, sendo que as três portas do piso
superior encontravam-se guarnecidas, na parte superior, por
nichos. Ao centro estava o busto do Rei Vittorio Emanuelle
II, ladeado por aqueles de Garibaldi e de Mazzini; destacava-se
ainda no frontão uma alegoria à pátria
italiana.
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4 BASBAUM, Leôncio. História e Consciência
Social. S.Paulo: Global, 1982. p.145-50
5 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da Esquina
: imigrantes na sociedade porto-alegrense.
Porto Alegre: EST, 1991.
6 FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre e seu comércio.
Porto Alegre: Associação Comercial de Porto
Alegre, 1983.
7 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Gli emigranti dall´Italia
del sud a Porto Alegre: studio di storia sociale. In: TRENTO,
Angelo org. La Presenza italiana nella storia e nella cultura
del Brasile. Torino: Fondazione Giovanni Agnelli, 1991. p.263-283.
8 RIO GRANDE DO SUL. Actos do Governo da Província
do Rio Grande do Sul de 1882. Porto Alegre: Officina Typographica
de Carlos Echenique, 1908. p. 6-21
9 A Federação. Porto Alegre, 4 de julho de 1904.
10 CINQUANTENARIO... Op.cit p. 366-7.
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Os dois personagens republicanos no alto da fachada oferecem
indício da orientação política
do grupo que dirigia a agremiação. Orientação
que é explícita quando a diretoria, no mesmo
ano da fundação da sociedade, escolhe Garibaldi
como presidente honorário. O general agradece de Caprera,
onde se encontra, através de carta escrita em setembro
do mesmo ano:
“Miei cari amici,
Grazie per il pregiato titolo di vostro presidente onorario.
Ricordo con gratitudine l’ospitalità ricevuta
tra la generosa popolazione del Rio Grande. Sempre vostro,
G.Garibaldi.”11
Agradecia aos membros da diretoria da Sociedade Vittorio
Emanuele II, alguns remanescentes dos batalhões
farroupilhas, outros da Legião Garibaldina no Uruguai:
Viale, Ratto, Raffo, Piccardo, Azzarini, Obino. 12
Construíam uma identidade italiana através
de processo semelhante àquele que se verificou em outros
países, tendo Garibaldi como personagem símbolo
preferido. Entretanto, se tal preferência era perceptível
em outras regiões estrangeiras ou brasileiras, muito
mais justificada seria no Rio Grande do Sul, onde, na liderança
da comunidade, encontravam-se antigos companheiros do General.13
Durante os quarenta anos em que a sociedade funcionou
na sede da rua Sete de Setembro, serviu como referência
à vida social da cidade, promovendo e destacando a
coletividade peninsular através da liderança
que exercia em todo o Rio Grande do Sul. Nas suas dependências
eram recebidas personalidades brasileiras, representantes
de governos estrangeiros e visitantes italianos, como Annita
Italia Garibaldi, em 1929, neta do General, cujo nome continuaria
sendo homenageado.
Mas a imagem de Garibaldi sofria transformações
no curso do tempo, em decorrência de um diálogo
permanente com a cultura dominante, sempre a reforçar
o papel de símbolo de uma comunidade que se radicara
desde muito no Rio Grande do Sul, e que se multiplicara também
a partir de 1875, quando ingressaram os primeiros
contingentes de imigrantes como resultado da ação
do governo imperial. O Rio Grande do Sul passara a desenvolver
projetos de colonização, com recrutamento de
imigrantes no norte da Itália. Assim, foram chegando
os italianos e formando os primeiros núcleos coloniais:
Nova Milano, Conde d’Eu, Dona Isabel, Caxias, Alfredo
Chaves, Silveira Martins, entre 1875 e 1884. Mas o sistema
de colonização seria efetivamente desenvolvido
pelo Governo Estadual, uma vez implantado o regime republicano.
O grupo ampliara-se muito depois da fundação
da Società Vittorio Emanuele II. Seus fundadores evidenciaram
consciência de nacionalidade, cultuaram os heróis
e os feitos do Ressurgimento, pois o nome de Garibaldi já
estava glorificado na Itália. É o retrato de
Garibaldi que se encontra na parede da casa dos que desejam
ser italianos. Foi reproduzido em série pelo fotógrafo
Calegari, feito Cavaliere pelo representante do Reino
da Itália. O ateliê Calegari vende uma fotografia
pintada a óleo, representando o general da Unificação,
vestido com a camisa vermelha, uniforme dos soldados que fizeram
parte da Expedição dos Mil.
Dentro em pouco outra representação somar-se-ia
à figura do general, extraída da tradição
rio-grandense, resgatada da narrativa da Revolução
Farropilha.
Tempo de crise e revolução
A Província encontrava-se mal e a insatisfação
manifesta-se entre os poderosos. Proprietários rurais
formam o grupo de poder desde que as sesmarias começaram
a ser generosamente distribuídas. Das estâncias
comandava-se os homens e a produção; delas saíam
as ordens que administravam as vilas, através de suas
pobres câmaras. Estas, como instituições
dependentes das ordenações portuguesas, tinham
pouquíssima autonomia. Entretanto, mais e mais insatisfação
notou-se quando a dependência do poder central perpetuava-se,
uma vez realizada a independência política de
Portugal.
Se idéias republicanas e federalistas manifestavam-se
no Brasil desde o final do século XVIII, foram neutralizadas
na euforia em torno de D. Pedro, que se fizera o primeiro
imperador ao desafiar as famigeradas cortes portuguesas, que
dizia escravizarem D.João, seu pai. Antes que outro
o fizesse, colocou a coroa na própria cabeça,
seguindo o conselho recebido.
Ao contrário do que aconteceu em outras províncias,
como no Pará ou na Bahia, o Rio Grande do Sul acolheu
bem a idéia do país independente, comandado
pelo jovem Imperador. Ressurgira a esperança de que
as coisas melhorassem, esperança que logo se revelou
vã, porque começava um longo tempo de crise.
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11 Cinquentenario della Colonizazione Italiana nello Stato
del Rio Grande del Sud: 1875-1925. Porto Alegre: Globo; Roma:
Ministero degli Affari Esteri d’Italia, 1925. p.365.
12 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da esquina.
Op.Cit
13 Santoro de Constantino, N. & Ospital, M.S., Construção
de identitade e associações italianas: La Plata
e Porto Alegre (1880-1920), Estudios Ibero-Americanos, XXV,
2, 1999.
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Realizada e consolidada a independência, as elites
do sudeste tratam de organizar um estado em que fossem hegemônicas,
o que efetivamente transparece na promulgação
da Constituição de 1824. O desenvolvimento econômico
das outras regiões era prejudicado pela política
do Império, a serviço dos interesses do Sudeste.
Essa política se manifestava, sobretudo, na cobrança
exagerada de impostos e no uso da receita cambial das províncias
em benefício do Sudeste.
Durante a década de 1820, cresceram as dificuldades
para o Rio Grande do Sul. Os impostos sobre o charque inviabilizavam
a produção; a taxa de transporte elevara-se
de tal forma que o charque platino alcançava o Sudeste
quase pela metade do preço daquele produzido na Província.
Os países platinos se reorganizavam economicamente,
após suas guerras de independência, produzindo
melhor e em maior quantidade, introduzidas máquinas
a vapor e mão-de-obra assalariada. Além do mais,
para estimular a produção, esses países
isentavam de impostos seus produtos, em verdadeira guerra
fiscal.
Nossos couros, produto similar àquele dos países
platinos e outra importante fonte de renda, pagavam o “quinto”
para a comercialização e, se exportados, teriam
a tributação duplicada; a erva-mate também
perdia mercado, porque todos os produtos rio-grandenses foram
sobretaxados, a título de “dízimo”.
A decadência econômica era percebida e discutida,
fosse na agricultura, especialmente a do trigo, ou na pecuária;
fosse nas manufaturas ou no comércio, como é
exemplar o caso do charque.
A situação política agravou-se quando
as tropas das Províncias Unidas do Prata invadiram
a Província Cisplatina, em 1825, invasão de
que resultou um estado independente, a República Oriental
do Uruguai. O governo brasileiro reagira, enviando um exército
e uma armada para evitar a perda da Província. A batalha
decisiva foi a do Passo do Rosário, em fevereiro de
1827, com vantagem para os argentinos. Como sempre, o grosso
do contingente brasileiro era constituído por militares
rio-grandenses.
A maior parte dos recrutamentos era feita na Província,
e a requisição tornava-se “o espantalho
geral... Por isso o Rio Grande era denominado ‘Estalagem
do Império’”, como escreveu Batista Pereira
.14
Francisco de Sá Brito, nascido em 1808 e falecido em
1875, em suas memórias, considera as causas da Revolução
Farroupilha, destacando o “despotismo militar que pesou
sobre a província, desde a fundação do
seu presídio em 1737...” Afirma que, às
vésperas da Revolução, o presidente da
Província continuava empenhando-se para colocar “farda
às costas dos filhos das principais famílias”.
Acrescenta que o Barão do Cerro Largo, General José
de Abreu, foi a principal vítima da imperícia
do General-em-chefe, o Marquês de Barbacena; que o desastre
da Batalha do Rosário contribuiu para “indispor
os ânimos contra o governo do Brasil”.15
Os militares rio-grandenses acreditavam que o comando das
forças militares era um direito que lhes pertencia;
Barbacena não só perde a batalha, como aumenta
as antipatias regionais. O desastre brasileiro de Passo do
Rosário, ou a vitória de Ituzaingó como
querem os argentinos, serviu de motivo para uma acirrada campanha
contra o governo imperial.
A abdicação de D. Pedro I só fez piorar
o quadro, com a polarização em duas facções.
De um lado os retrógrados, também chamados galegos,
caramurus, restauradores, escravos do Duque de Bragança
ou absolutistas. De outro lado os exaltados, também
conhecidos como anarquistas, farrapos ou farroupilhas,
em referência aos sans-culotte franceses.
A partida de D. Pedro I revolta os retrógrados
que, em todo o país, articulam o retorno do Imperador
ao trono brasileiro. No Rio Grande não seria diferente,
envolvendo sociedades, lojas maçônicas e a imprensa.
Em Porto Alegre há tumulto: o presidente Fernandes
Braga, que agradava aos exaltados, passara a apoiar
os retrógrados, companhando a posição
de seu irmão, o juiz de Direito Pedro Chaves que, diante
das manifestações de apoio às idéias
liberais da Constituinte, toma o Arsenal de Guerra e ordena
a repressão; os populares prendem o Brigadeiro Carneiro
da Fontoura e provocam vexame ao Visconde de Castro, acusados
de ordenarem disparos contra o povo. Em Rio Pardo, verifica-se
agudo o conflito que se manifesta com intensidade também
em Rio Grande, Cachoeira e Viamão.16
Em todo o país aumentam insatisfações
que se materializam no Ato Adicional de 1834, a refletir negociação
e conciliação, mas longe de estabele cer o pleiteado
federalismo. Estabelecida a Assembléia Provincial no
Rio Grande do Sul, nela passam a atuar deputados das diferentes
facções, acirrando-se o debate, para o qual
então existia um espaço apropriado. Já
na sua abertura, o discurso do presidente Fernandes Braga
menciona uma conspiração para entregar o Rio
Grande aos países platinos, e aponta alguns deputados
influentes como responsáveis, entre os quais Bento
Gonçalves.
Em junho de 1834, encerram-se os trabalhos na Assembléia,
em meio à ampla conspiração que refletia
um clima de revolta no país. Todas as regiões
brasileiras de alguma forma lutam contra o centralismo do
Império, com exceção da região
Sudeste, interessada em mantê-lo porque concentrava
o poder entre seus representantes. Em Pernambuco, durante
1824, eclodira a Confederação do Equador
e, em 1835, além do Rio Grande do Sul, sublevou-se
a Amazônia no movimento denominado Cabanagem;
dois anos mais tarde verificou-se, na Bahia, a Sabinada;
em 1838 eclodiu a Balaiada no Maranhão e,
em 1848, após o término da Revolução
Farroupilha, novamente Pernambuco foi conflagrado pela Praieira.
Esses movimentos, acompanhados de outros de menor repercussão,
todos sufocados a ferro e fogo, demonstram que a revolução
no Rio Grande fez parte de uma ampla revolta nacional contra
o centralismo imposto pelo Sudeste, como afirma Freitas. 17
Sob o ponto de vista ideológico, sabe-se que a
rebelião no Rio Grande absorveu elementos do liberalismo
europeu que estiveram também difusos no movimento de
independência dos Estados Unidos, na Revolução
Francesa e nos processos de independência das colônias
latino-americanas em geral. Mas foi efetivamente o ideal federalista
que catalisou os principais objetivos. Para a elite rio-grandense,
constituída basicamente por estancieiros, interessava
uma autonomia política que permitisse desenvolvimento
econômico. Bem mais do que um real liberalismo, exigia-se
o laissez-faire, laissez passer, ou seja, uma maior
liberdade para a ação produtiva.
Tanto é que o projeto de Constituição
da República Rio-grandense não reflete os princípios
democráticos do liberalismo francês, tão
decantados nos primeiros anos do século XIX. Neste
projeto rio-grandense, os escravos foram excluídos
da nacionalidade e nem mesmo alcançaram a igualdade
civil, fundamento da moderna nação liberal.
Discriminava ainda mais do que o regime monárquico,
ao negar a cidadania aos libertos nascidos no Brasil. Por
outro lado, também excluía da vida política
a maior parte da população livre,
porque estabelecia eleições censitárias.
Seriam excluídos de votar “os criados de servir”,
com exceção dos “guarda-livros, dos primeiros
caixeiros das casas de comércio, dos administradores
e capatazes das fazendas rurais”. Todos poderiam ser
votados, “menos os que não tiverem de renda líquida
anual a quantia de trezentos mil réis, (...) os libertos
(...) os que não professam a religião católica
romana”18.
Assim, ficavam de fora do sistema peões, agregados,
negros, índios, colonos, enfim, o povo que lutou e
morreu, permitindo manter uma guerra durante dez anos, como
sustenta Moacyr Flores, ao afirmar que a Revolução
Farroupilha caracterizou-se por ser movimento de minoria prestigiada
e dominante.19 Representava forma de alcançar projeto
político que atendia principalmente os estancieiros
e, por isso, não recebeu apoio de todos os grupos sociais
provinciais, apesar de que a autonomia regional traria benefícios
à população rio-grandense em geral, já
que algum desenvolvimento só seria possível
sem os entraves impostos pelo governo imperial.
Repete-se que, na ideologia do movimento, destaca-se o federalismo.
Se a autonomia não fosse alcançada através
da formação de um estado nacional nos moldes
federativos, tratava-se de proclamar um estado republicano
independente. A criação da República
Rio-Grandense decorre fundamentalmente de tensões de
caráter econômico que, somadas àquelas
de caráter político e administrativo, desencadearam
a luta armada.
A insurreição começa com a ocupação
de Porto Alegre que, um ano depois, é retomada pelos
imperiais. Nesta primeira fase, Tito Livio Zambeccari tornara-se
secretário de Bento Gonçalves. Encontrava-se
na capital da Província desde 1834, exercendo atividades
junto a lojas maçônicas e trabalhando como redator
em jornais republicanos que iam surgindo, onde tratava de
divulgar os ideais da Giovine Italia. Dessa maneira,
tentava contribuir com as idéias de Mazzini para a
revolução rio-grandense que se encontrava em
gestação. O Conde Zambeccari é preso
juntamente com Bento Gonçalves; ambos são levados
ao Rio de Janeiro, de onde deportam o revolucionário
italiano.
A fase revolucionária inicia, portanto, em 1836, com
a retomada de Porto Alegre; outros líderes passaram
a conduzir o movimento durante a período em que Bento
Gonçalves esteve preso. A Província separou-se
do Brasil, com a fundação da República
Rio-grandense; ocorre a tomada de Laguna pelos republicanos
e, nesta fase, muitos são os italianos a ingressarem
no movimento, como Anzani, Rosseti e Garibaldi.
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17 FREITAS, Décio. Federação
ou morte. Jornal Universitário, Porto Alegre, outubro
de 1984.
18 PROJETO DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA
RIO-GRANDENSE. Apud. FLORES, Moacyr.
Modelo político dos Farrapos. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1978.
19 FLORES, Moacyr. Op Cit.
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Francesco Anzani lutara pelos liberais na Península
Ibérica e, no Brasil, prestou serviços à
República Rio-grandense, primeiro no jornalismo doutrinário,
depois como comandante de infantaria. Luigi Rosseti estava
no Brasil há cerca de dez anos, participando ativamente
da Congrega Giovine Italia no Rio de Janeiro.
No ambiente da Corte as idéias liberais circulavam
há algum tempo. O republicanismo era latente desde
a década de 1820, quando surgiu a Congrega
para difundir os ideais mazzinianos. Salvatore Candido afirma
que, desde a segunda década do século XIX, havia
numerosas coletividades italianas no Brasil, formadas principalmente
por italianos setentrionais, a maioria oriunda de cidades
portuárias.20
Gênova, Savóia e Nizza tinham intercâmbio
constante com os portos mais movimentados do Atlântico,
como Buenos Aires, Montevidéu e Rio de Janeiro, desde
que os países americanos fizeram suas independências
políticas. Escreve Candido que “[...] a possibilidade
de encontrar-se rápidos meios de ganhar a vida e a
facilidade de enriquecimento favoreceram, em primeiro lugar,
a deserção de tripulantes das embarcações
mercantis sardas. Estes elementos formariam, em seguida, núcleos
familiares e são, sucessivamente numerosos, também,
os exilados políticos”21.
Os novos Estados que se organizavam no continente sul-americano
tinham necessidade de atrair gente ativa que fosse capaz de
colaborar na formação de uma nação.
À medida que as pesquisas se desenvolvem, observa o
mencionado autor, há possibilidade de publicar sucessivamente
listas com nomes de emigrados civis e militares, “ou
melhor, militarizados”, que partiam para a Argentina,
Uruguai e Brasil. Entre fontes documentais encontradas na
Itália, aparecem nomes de pessoas que desenvolviam
atividades consideradas subversivas no Rio de Janeiro, durante
a década de 1830, acusados de pertenceram ao movimento
Congrega della Giovine Italia: Giacomo Alessi, Gio
Batta Folco, Vincenzo Raimondi, Cesare Corridi, Giuseppe Stefano
Grondona, Cuneo, Rossetti,. Luigi Vaccani, Michele Lando,
Paolo Tausch Di Livorno, Carlo Belgrano, Giacomo Cris ou Gris
e Pietro Gaggini, que viveram e trabalharam no Rio de Janeiro.22
O movimento mazziniano desenvolvia-se, inclusive em São
Paulo, onde foi assassinado Libero Badaró, médico
lígure que estudou nas universidades de Pavia, Bolonha
e Turim. Perseguido na Itália por suas idéias
liberais, embarcara para o Brasil em 1826, vivendo por pouco
tempo no Rio de Janeiro, transferindo-se para São Paulo,
onde exerceu a medicina, além de lecionar matemática
e geometria. Funda um jornal, o Observador Constitucional,
divulgando idéias liberais e criticando o Imperador
pela desobediência à Constituição
e pelo despotismo. Em 20 de setembro de 1830, foi assassinado
à porta de sua casa, fato que desencadeou levantes
populares e que está na origem da abdicação
ao trono por parte de D.Pedro I, suspeito de ser o mandante
do crime.23
A conspiração liberal de origem italiana estendia
ramificações e, no Rio de Janeiro, Rosseti faz
o contato com Bento Gonçalves e com Zambeccari, quando
estavam na prisão. Naquela ocasião, apresentou-lhes
Giuseppe Garibaldi, também foragido, pois condenado
à morte na Itália. Ambos recebem do chefe revolucionário
uma carta de corso e partem para o sul no veleiro Mazzini.
Alcançam o Uruguai de onde retornam ao Rio Grande,
chegando à capital da nova república, Piratini,
onde Rosseti funda e redige o jornal O Povo que estampa na
primeira página o dístico de Mazzini: O
poder que conduz a revolução deve preparar as
almas dos cidadãos para os sentimentos de fraternidade,
modéstia, igualdade, ardente e desinteressado amor
pela Pátria.24
Assim, Garibaldi chegou ao Rio Grande do Sul em 1838,
com outros italianos. Na Estância do Brejo,
propriedade da família de Bento Gonçalves, encontrou
os dois lanchões que foram transportados sobre rodas,
puxados por bois, até a barra do rio Tramandaí,
onde foram lançados ao oceano, em façanha extraordinária.
Um dos lanchões, o Farroupilha, naufragou,
resultando na morte de sete revolucionários italianos.
O Seival alcançou Santa Catarina, onde ajudou a derrotar
os imperiais.
A reação dos imperiais não tardou, bloqueando
os farroupilhas. Naqueles dias de Laguna, sob o disparo de
canhões, Garibaldi encontrou Ana Maria de Jesus Ribeiro
que estava com 28 anos e era casada com Manuel Duarte de Aguiar.
Garibaldi, enamorado, levou-a consigo quando partiu, em outubro
de 1839, enfrentando o bloqueio da marinha imperial.
_____________________________________________________________
20 CANDIDO, Salvatore. L’azione mazziniana in Brasile
ed. il giornale ‘La Giovine Italia’ di Rio de
Janeiro (1836) attraverso documenti inediti o poco noti. Estratto
da Bolletini della Domus Mazziniana, Pisa, n. 2, 1968.
21 Id. Ibid. p.3-4.
22 Id. Ibid. p.p.4-6; 32-3,42.
23 CENNI, Franco. Italianos no Brasil. 3ª ed. São
Paulo: Edusp, 2003. pp. 65-73.
24 O Povo, jornal de Piratini, n.1, 1 de setembro de 1838.
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Mas o movimento revolucionário enfraquecia paulatinamente
e Garibaldi abandonou a luta pelos farroupilhas em 1841. Três
anos depois começava a última fase revolucionária,
a chamada fase de pacificação, terminada em
março de 1845 com a Paz de Ponche Verde. Garibaldi
já havia partido para o Uruguai, levando como indenização
uma tropa de bois. Com a mulher e o filho alcançou
Montevidéu, de onde solicitou anistia a D.Pedro II,
conforme documentos transcritos e comentados por Spalding.25
Ensaiava a paz com a monarquia, para, mais tarde, aliar-se
aos príncipes do Piemonte, na luta pela Unificação.
O jovem Garibaldi estivera entre os propagandistas republicanos
na primeira hora, inspirados no pensamento de Mazzini; tentara
inclusive a insurreição de Gênova que,
malograda, valeu-lhe a condenação à morte,
a fuga para Marselha e depois para a América. Retornou
à Itália em 1848, para continuar a luta, quando
Roma viveu uma breve temporada republicana que culmina com
a derrota de Mazzini e de Garibaldi.
Ao retornar, os tempos eram bem outros, quando a presença
de Cavour junto aos soberanos do Piemonte resultava em complexa
política externa, cujo objetivo era proclamar o Reino
da Itália. Em 1861 está proclamado o Reino,
e Garibaldi, aliando-se a Cavour, organiza a Expedição
dos Mil, cujos soldados voluntários foram chamados
os camisas vermelhas, para incorporar o sul da península
ao novo reino.
A massa popular esteve ausente do movimento de unificação,
constituído por intelectuais, comerciantes, estudantes
universitários que “... foram os primeiros a
unir-se aos voluntários de Garibaldi” 26. Porque
Garibaldi, perigosamente, tomava conta da cena que deveria
ter Vittorio Emanuelle II como principal protagonista. Garibaldi,
que representava a facção política à
esquerda, sofreu toda a sorte de pressões e retirou-se
para Caprera.
Tempos republicanos
A república foi implantada no Brasil em 1889
e, em 1893, eclodia a sangrenta Revolução Federalista.
Interrompidos pela guerra, os fluxos imigratórios retomam
a intensidade. Ficou evidente que muitos italianos haviam
feito oposição à facção
liderada por Julio de Castilhos, de inspiração
positivista, inclusive aderindo às hostes federalistas
chefiadas por Silveira Martins, e que acabaram derrotadas.
Houve freqüentes tumultos nas cidades e na zona colonial,
acompanhados por respectivas ações diplomáticas.27
Mas, na virada para o século XX, o processo de construção
da italianidade está novamente progredindo, reforçado
pela ideologia que aponta para Augusto Comte. O grupo positivista
fizera propaganda da república no Rio Grande do Sul,
e tomou conta do governo estadual desde os primeiros tempos,
vencidos os maragatos, Com a morte de Julio de Castilhos,
o novo presidente do Estado, Borges de Medeiros, procurou
revitalizar a colonização. As antigas colônias
passaram a ser cuidadosamente protegidas enquanto desenvolvia-se
um projeto de nacionalização. O ingresso de
italianos passou a caracterizar-se pela imigração
espontânea em detrimento da subvencionada, segundo diretrizes
que foram expressas nas Teses Financeiras e Econômicas
do Partido Republicano Riograndense. Ademais, ao assumir
o poder, Borges de Medeiros passou a usar como estratégia
um elaborado discurso de valorização do imigrante
italiano que, assim, acabou servindo como modelo de cidadão
operoso e ordeiro, capaz de fácil assimilação.
Nacionalismo e operosidade passaram a ser a tônica do
discurso oficial. Pretendeu-se neutralizar os chamados “quistos
étnicos” e incentivar mudanças nas relações
de produção, estimulando o crescimento de uma
classe social intermediária.
A reativação do projeto de colonização
faz-se também sentir na cidade, onde a presença
de imigrantes aumenta e diversifica cada vez mais. Relatórios
consulares como o de Pasquale Corte, em 1884, ou o do Cônsul
De Velutiis, em 1908, fornecem informações sobre
os súditos italianos em Porto Alegre, que perfazem
mais de 10% da população da cidade da década
de 1890. Esclarecem ainda sobre o grande número de
meridionais, com predominância de calabreses da Província
de Cosenza.
No final do século XIX, o republicanismo gaúcho
adere e reforça o movimento regionalista, acompanhando
o romantismo iniciado tardiamente no sul pelos membros da
Partenon Literário. Revitaliza-se o culto da Garibaldi
de outra forma e com bons motivos.
_____________________________________________________________
25 SPALDING, Walter. A epopéia farroupilha. Rio
de Janeiro: Biblioteca do Exército-Editora, 1963. p.248-9.
26 SMITH, Denis Mack. Storia d’Italia. Roma-Bari: Laterza,
2000. p. 17.
27 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Emigranti e
Guerra Civile nel Brasile di fine ottocento. Daedalus. Castrovillari;
n. 10 janeiro-junho 1993.
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Ao tempo da Guerra do Paraguai, precisamente em 1868, um
grupo de intelectuais fundara o “Partenon Literário”,
agremiação que iniciou a exaltação
da temática gauchesca, com apologias às figuras
heróicas. Veicula um movimento literário romântico
e tardio, valorizando o gaúcho como figura do nativo
puro, valente, generoso, na trilha iniciada por José
de Alencar ao publicar o romance O Gaúcho;
o autor, que nunca veio ao Rio Grande do Sul, idealiza o tipo
humano que denomina “centauro dos pampas”.28 Escreve
Sergius Gonzaga que “...Caberia aos integrantes da Sociedade
Partenon o esforço para a louvação dos
tipos representativos mais caros à classe dirigente.”
29
No início do século estava inaugurada a estátua
de Garibaldi, na praça principal da Cidade Baixa, bairro
por excelência dos italianos, cuja coletividade fez
a doação do monumento, depois de grande campanha
para obtenção de fundos. Em termos de outros
países, a homenagem aconteceu tardiamente, mas verificou-se
em momento mais do que oportuno. A representação
de Garibaldi já não está sendo feita
com o fardamento militar que envergou na campanha da Unificação.
Garibaldi agora traja o poncho, vestimenta típica do
gaúcho, que adotou como agasalho. Aos seus pés
encontra-se Anita, sublinhado o seu papel de mulher corajosa,
guerreira.
A representação de Garibaldi vestindo o poncho
surgirá timidamente, mas a figura de Anita é
destacada; aparece a catarinense guerreira, companheira nos
percursos revolucionários no Brasil e na Itália.
Logo no final do século XIX surgiria a primeira agremiação
tradicionalista: o Grêmio Gaúcho de Porto Alegre,
criado em 1898 pelo republicano e positivista José
Cezimbra Jacques.30
A Revolução Farroupilha assumia o primeiro plano
na narrativa histórica rio-grandense. E um destaque
foi atribuído a Garibaldi em decorrência de sua
participação na mesma. No herói dos dois
mundos demonstrava-se a magnitude dos ideais farroupilhas,
por um lado. Por outro, demonstrava-se a profunda ligação
e dedicação dos italianos ao Rio Grande e à
sua gente, lembrando em plano secundário Zambeccari
e Rosseti.
Em 1883, foi aberto o trecho inicial da Rua Garibaldi. Em
1907, no dia do centenário do nascimento de Garibaldi,
a antiga Praça da Concórdia, coração
do bairro por excelência dos italianos, a Cidade Baixa,
recebeu do Intendente José Montaury o nome do General.
Alguns anos mais tarde, como foi visto, precisamente em 1913,
estava inaugurada a estátua de Garibaldi na praça
que tem o seu nome.
Há grandes festejos marcando o cinqüentenário
da colonização italiana no Rio Grande do Sul,
em 1925. Um grande álbum é publicado pela Editora
Globo, com subsídios do governo italiano, aberto com
mensagens do presidente do Estado, Borges de Medeiros e de
Benito Mussolini, ministro do exterior, que desenvolve uma
ação diplomática mais agressiva, com
cooptação das lideranças da comunidade
italiana. A cultura italiana estava sendo exportada com eficiência
e o jornalista Mansueto Bernardi fez-se dela portador; na
Editora Globo, do conterrâneo Bertaso, faz publicar
autores italianos, divulgando suas obras. Cada vez mais destaca-se
na coletividade italiana, a quem honra pelo seu prestígio
intelectual.
Pois no álbum do Cinquantenario, feito um
proêmio pelo Embaixador italiano Luigi Ardoini, o primeiro
texto é intitulado Gli Italiani e la Repubblica
di Piratiny, escrito por Mansueto Bernardi, coordenador
da obra, que inaugura uma narrativa dos italianos no Rio Grande
por eles mesmos, narrativa que tardava. Mansueto era um intelectual
a representar italianos, porque podemos considerá-lo
também brasileiro. Nascera em 1888, e veio com três
meses do Vêneto, criando raízes em Veranópolis;
era membro destacado do Partido Republicano Riograndense,
ocupou cargos públicos num tempo de nacionalismo exacerbado.
Em plena década dos 20, depois da Semana de Arte Moderna,
quando fica evidenciada a identificação com
as renovações artísticas do Velho Mundo,
depois do levante do Forte de Copacabana, da Revolta de 24
e da formação da coluna Prestes, havia um certo
espírito de época a defender a cultura
regional.
Lembra Gutfreind que, apesar de ser limitado o ambiente cultural
no início dos anos 20, também notou-se no Rio
Grande do Sul uma relativa efervescência cultural e
o mais importante acontecimento foi a refundação
do Instituto Histórico Geográfico, logo em 1920,
aglutinando importante grupo de intelectuais, cuja produção
poderia ser entendida a partir de duas matrizes: uma de orientação
lusitana e a outra de orientação platina.31
Em todos os sentidos as mudanças aceleravam-se desde
o final da Primeira Grande Guerra. A Revolução
de 30 é uma forma de expressão do conjunto de
transformações que alcançava a sociedade
brasileira e um produto de heterogêneas alianças.
Explode no sul, mais precisamente em Porto Alegre e seu líder
é um gaúcho. O “Rio Grande em Pé
pelo Brasil” foi frase proferida por Vargas ao final
do discurso que inaugurava a Revolução. E continuou
sempre salientando a liderança do Rio Grande na regeneração
do Brasil. 32
_____________________________________________________________
28 OLIVEN, p.51.
29 GONZAGA, Sergius. p. 125.
30 OLIVEN, p. 72-3.
31 GUTFREIND, pp.11 e 23.
_____________________________________________________________
Com a eclosão da Revolução de 30 fica
reforçada a tendência regionalista. O lançamento
da obra de Alfredo Varella, sobre a Revolução
Farroupilha, em 33, alimenta a tendência, ainda que
inserisse a Revolução na platinidade. Contrariava
uma tendência historiográfica predominante, que
sublinhava o nacionalismo e que negava as intenções
separatistas da Revolução, assim como as influências
platinas nos nossos hábitos e costumes. 33 A corrente
lusitana era representada principalmente por Souza Docca,
Othelo Rosa e por Aurélio Porto; ganhava força
à medida que se aproximava o centenário da Revolução
Farroupilha, festejado com grandiosidade inusitada, em 1935.
A capital revolucionária desejou a modernidade e mostrou-se
“moderna” nessas comemorações. No
antigo Campo da Redenção, construiu-se o Parque
que receberia a exposição internacional, e que
passou a chamar-se Parque Farroupilha. A exposição
reafirmava a importância da cidade onde começara
a revolução de 30, entendida como movimento
que conduziria à modernidade. A feira foi ousada, grandiosa,
no estilo art deco, símbolo dessa modernidade.
A narrativa da revolução e dos revolucionários
foi reforçada. As abordagens em torno de Garibaldi
e de sua trajetória no Rio Grande do Sul serão
recorrentes e destacadas, motivadas pelo desejo de exaltar
a amplitude dos ideais farroupilhas que enalteciam líderes
revolucionários, acusados tantas vezes de separatismo.
Zambeccari e Rosseti também recebem atenção
dos historiadores, identificados com os valores do Rio Grande
e com a causa da liberdade.
O esforço de Garibaldi no comando da esquadra farroupilha
é descrito com entusiasmo por historiadores fundadores
do Instituto Histórico Geográfico, na década
de 1930.
Othelo Rosa e Dante de Laytano revezam-se nesta narrativa,
o último um filho de italianos imigrantes. São
seguidos por Souza Docca e por Walter Spalding, que mantém
certa austeridade.
Othelo Rosa exalta o personagem, descrevendo sua passagem
pelo Estado como uma fantástica epopéia; sublinha
a importância do papel de Garibaldi na Revolução.
Laytano enaltece o idealismo garibaldino e destaca a famosa
travessia dos lanchões por terra.34
Souza Docca, ainda que de forma contida, descreverá
a travessia por terra com os lanchões Seival e Farroupilha,
desde Camaquã até Tramandaí, uma vez
que, em 1839, os farrapos não tinham porto, pois Rio
Grande estava bloqueado pelos imperiais.
Spalding vai mais além registrando razões econômicas
que teriam motivado Garibaldi a abandonar a Revolução.35
Com sutis variações, a imagem de Garibaldi permanece
no primeiro plano da historiografia rio-grandense. A eclosão
da Segunda Guerra, em 39, e a declaração de
guerra aos países do Eixo, em fevereiro de 1942, não
alteram tal imagem ou, antes, beneficiam o grupo italiano
no Rio Grande do Sul.
Não obstante a forma dramática como o tempo
do conflito é freqüentemente narrado, sabe-se
que os italianos foram tratados com certa “amabilidade”,
se comparados aos imigrantes alemães ou a seus descendentes.
36 Pois não era italiano Garibaldi, que tanto contribuíra
para a Revolução Farroupilha?
Fato é que, no contexto da Segunda Guerra, os italianos
beneficiaram-se da imagem que lhes representava diante da
sociedade gaúcha.
Na seqüência da paz, e na rapidez com que se verificaram
os tratados entre os dez países, fica reforçada
a idéia das afinidades entre a Itália e o Brasil.
Tanto que, entre 1941 e 1950, compreendendo o período
da guerra e o imediato, a imigração italiana
no Brasil aumentaria cinco vezes. Retém-se claramente
que aos italianos e seus descendentes convinha um alinhamento
com o poder no Brasil, como forma de proteger interesses e
alcançar reivindicações; a postura de
reconhecimento às autoridades brasileiras foi sempre
recomendada pelos representantes da diplomacia italiana. A
guerra representava um acidente de percurso, decorrente da
vontade dos líderes europeus, com os quais não
precisava haver qualquer identificação. Os imigrantes
italianos e seus descendentes aproveitavam a oportunidade
para evidenciar que desejavam fosse o Brasil a sua pátria.
Nos anos 80, festejou-se o sesquicentenário da Revolução
Farroupilha, que foi novamente narrada, desta vez em perspectiva
bem mais crítica, através de inúmeros
trabalhos, a maioria de natureza acadêmica, acompanhando
o surgimento de vários programas de pós-graduação
em História no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
Uma das novidades surgidas diz respeito à incorporação
efetiva de Anita nas narrativas, como resultado da ampla discussão
que se tornou possível em torno do movimento feminista
ou das questões de gênero na História.
Anita passa a ser contada com os olhos do presente, tão
diferente dos anos trinta quando se trata da narrativa de
mulheres.
A imagem de Garibaldi continuaria sendo mantida como aquela
do herói de dois mundos, inclusive do mundo sul-brasileiro.
Entretanto, o general unificador, símbolo à
formação de uma coletividade, voltou à
juventude, vestindo um poncho, como o idealista republicano,
capaz de grandes feitos durante a nossa Revolução.
_____________________________________________________________
32 OLIVEN, p. 60.
33 GUTFREIND, p.115.
34 Segundo Flores, Garibaldi entra em contato com os revolucionários
em 1836, já deflagrada a guerra. Anita conheceu-o em
1839, quando da invasão de Laguna. Os lanchões
Seival e Farroupilha, cuja construção foi fiscalizada
pelo irmão de Bento Gonçalves, o juiz de paz
José, subiram o Rio Capivari e, sob armações
com grandes rodas, foram puxados por juntas de bois até
a barra do rio Tramandaí, em percurso de cerva de 50
milhas. O Seival, comandado por Grigs, fez-se ao largo, mas
o Farroupilha, comandado por Mutru, levando a bordo Garibaldi,
soçobrou , morrendo muita gente, como recorda Garibaldi
nas suas memórias.
35 Rosa, Laytano, Souza Docca e Spalding foram membros do
Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande
do Sul.
36 CONSTANTINO, 2005.p.p 211-220.
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(1836) attraverso documenti inediti o poco noti.
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