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Mensagem do Ministério Público
Mauro Henrique Renner
 
Mensagem do Ministério Público
Ricardo Vaz Seelig
 
Palavra dos Editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
 
Apresentação
Roberto Speciale
 
Introdução
Annita Garibaldi Jallet
 
O mito de Garibaldi: origem e significados no Cone Sul até 1907, ano do centenário de seu nascimento
Pietro Rinaldo Fanesi
 
Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para a América Latina
Maria Pace Chiavari
 
O “aprendizado” de Garibaldi na América Latina: a “scuola delle palle” e a “escola moral”
Anna Maria Lazzarino Del Grosso
 
Garibaldi: republicano e revolucionário internacional
Carmen Lícia Palazzo
 
Memória de Garibaldi e a construção da identidade entre italianos no
Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
 
A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário da Revolução Farroupilha
Rosemary Fritsch Brum
 
Garibaldi: a gênese do mito
Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
 
Garibaldi na América do Sul
Yvonne Capuano
 
Livro Completo
 
 
 
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A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário da Revolução Farroupilha


Rosemary Fritsch Brum
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Doutora em História do Brasil, socióloga da UFRGS, pesquisadora do Núcleo
de Pesquisa em História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas




O presente texto apresenta algumas linhas de interpretação sobre as potencialidades analíticas da multifacetada figura de Giuseppe Garibaldi, na conjuntura compreendida pela celebração do Centenário da Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, em especial na capital, Porto Alegre, entre 1931 e 1936. Nesse sentido, aventa-se a presença da reconfiguração conforme os interesses em jogo, tais como a exacerbação do mito Garibaldi1 ou sua redução.

Essa trajetória não ficaria imune ao modo de construção do imaginário da auto-representação da migração e colonização italiana para as Américas, tangida pelas perdas decorrentes da Unificação Italiana do século XIX. As dificuldades de absorção da mão-de-obra agrária ao sul, na conhecida questão do Messogiorno, mais a sociedade capitalista representada pelo Norte, tornam a emigração uma interessante saída para desafogar a pressão sobre o frágil novo arranjo de poder.

No Brasil, a economia agroexportadora requeria trabalhadores para a cafeicultura, e os interesses delinearam uma política favorável ao que se lhe seguiu, ou seja, a impressionante massa de europeus, em sua maioria italianos, para substituir a mão-de-obra africana escrava, recém liberta.

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1A narrativa padrão sobre Garibaldi agente histórico concreto do século XIX nascido em Nizza, atual Nice, em 1870, e da configuração do mito “herói de dois mundos”, inicia a partir de sua participação política na conflituosa Unificação da Itália. Aderindo à Carbonária italiana de Mazzini e sua proposta de república que se choca contra a monarquia, o catolicismo e os interesses do Papa, e que levaria posteriormente ao cabo o movimento do Risorgimento, unidade em torno do Piemonte sustentado por Massimo d’Azeglio - tem decretada sua prisão na Itália. A fuga para o Brasil e sua chegada ao Rio de Janeiro (1835/36?) constitui a componente mazziniana da emigração política, ao lado de Livio Zambeccari, Luigi Rossetti, Garioni, Anzani, Cuneo, Dalla Case, Messero, Gris, Terezani Lando, Corrigi. Em seguida envolve-se com a revolução no Rio Grande, a Revolução Farroupilha, (deflagrada em 1935), que proclamaria a República Piratini, sob comando do General Bento Gonçalves, movida pelo espírito federativo contra o Império de Dom Pedro. Em 1939, conhece aquela que seria sua companheira, Ana Maria Ribeiro da Silva, conhecida como Anita Garibaldi, em Laguna, Santa Catarina, ao lutar pela conquista da região para os farroupilhas. Em 1841, chegando ao Uruguai, Montevidéu, empenha-se nas lutas empreendidas na Bacia do Prata entre Frutuoso Rivera e a política do Presidente Juan Manuel de Rosas, da Argentina. Após, retorna com Anita à Itália, em 1848, e retoma sua participação no processo político em curso, falecendo em Caprera, em 1882. Esses dados foram recolhidos na bibliografia corrente, ao dispor da pesquisa histórica e, evidentemente, sempre passível de revisão histórica.

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Para o Rio Grande do Sul foram encaminhados os migrantes conforme o ordenamento da política de colonização de áreas devolutas, que diversificariam a economia com produtos para prover os centros urbanos em expansão, desde que não afetassem a estrutura agrária da pecuária gaúcha e seu mando político. O modo diferencial de instalação dos italianos no Estado, nos minifúndios rurais levados pela mão-de-obra familiar, além dos italianos instalados nas cidades do sul, muitos advindos do Prata, varridos pelas guerras, formariam uma camada de pequenos proprietários e, da República em diante, de vigorosos industriais. O pêndulo político começava a mudar, e a zona da Campanha era forçada a partilhar poderes e projetos.

Na ante-sala do Estado Novo: as comemorações
do Centenário Farroupilha


O processo de industrialização começava a deslocar os poderosos proprietários rurais, ou, no limite, a fazer novas parcerias com a injeção de capitais no setor agrário, no Rio Grande do Sul, timidamente, mas de modo importante no eixo agro-exportador nacional. No século XX, o Brasil urbanizava-se e industrializava-se, ainda que de modo descontínuo. Surgiam novas camadas sociais, além dos imigrantes. Classe média, operariado, profissionais liberais, forças armadas iam enriquecendo o mosaico social.

A crise da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, terá efeitos na política brasileira, assinalando o canto dos cisnes da hegemonia agro-exportadora cafeeira, dado o seu grau de dependência de grupos financeiros, vulnerabilizados com a grande crise.

O centro do poder é questionado pelas oligarquias dos relegados, até então, ao conformismo, desde a Primeira República, à chamada “política café com leite”, alternância no poder da burguesia paulista e parte da burguesia mineira. Perde base de sustentação o governo de Washington Luis, e abre flancos para a provisória união das facções burguesas não alinhadas com a produção agro-exportadora que sustentara o primeiro período republicano.

Em 1927, Getúlio Vargas e João Neves da Fontoura são respectivamente os novos presidente e vice-presidente do Estado. É momento de conciliação: Assis Brasil lidera o Partido Nacional (Aliança Libertadora gaúcha, depois Partido Libertador e Partido Democrático de São Paulo). Na cidade de Porto Alegre, o PRR indica para Intendente Municipal Alberto Bins, que, eleito em pleito pouco disputado, em 1928, permanece no cargo longos 10 anos.

Cresce a contestação ao Governo Washington. Classes médias emergentes, ligadas ao expansionismo da economia urbana, somadas aos setores militares descontentes com os caminhos da República, expressos no Movimento Tenentista dos anos 20, confluem para uma frente de oposições estaduais. No Estado, libertadores e republicanos criam a Frente Única. Com Minas Gerais e Paraíba, fundam a Aliança Liberal, em 1929.

O poder centrado em Getúlio Vargas, iniciado com a Revolução de 30, com a deposição do Presidente da República, Washington Luis, será um poder que harmonizará os setores agrários, que continuam sustentando a economia brasileira, além da injeção de capitais para a promoção das bases da industrialização no país.

Em 1935, o Centenário da Revolução Farroupilha é comemorado sob grande tensão. Alberto Bins preside o Comissariado Geral da Festividade. Mas, a conjuntura pesa sobre o Governo do Estado: José Antonio Flores da Cunha, republicano como Getúlio, o apoiou quando da oposição das oligarquias paulistas descontentes, em 1932, e agora está sob crescente isolamento do poder. Perde a base de apoio local quando o partido liberal gaúcho vê afastarem-se Raul Pilla, Lindolfo Collor, Batista Luzardo, João Neves da Fontoura, e os republicanos de Borges de Medeiros, que, conjuntamente, questionam os rumos da Aliança Liberal. Quando Getúlio visita Porto Alegre para os comemorativos do Centenário da Revolução Farroupilha, está preparada o que viria a seguir, ou seja, a intervenção no Estado e a fuga do Interventor Flores da Cunha.2

Enquanto isso, no plano internacional, desenha-se o cenário para a deflagração da Segunda Guerra Mundial. Os anos de 1930 e 1937 são, pois, de oscilação do governo brasileiro entre o alinhamento com as idéias nazi-fascistas, ou com as forças contrárias. Ao final, o governo Vargas filia-se ao campo das democracias alinhadas, embora internamente esteja longe de empreender, ao contrário, uma política democrática.

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2 No plano político nacional, a eliminação dos focos de oposição segue seu rumo: sustém o movimento dos tenentes, embora persista a polarização social entre os projetos antagônicos entre o integralismo da Ação Brasileira (AIB), de Plínio Salgado, fortemente instalado nas zonas de colonização de migrantes, o comunismo da Aliança Liberal Libertadora (ANL0), com Roberto Sisson, o liberalismo do partido libertador. Na Presidência do Governo Provisório da República, Getúlio intervém, suspende direitos, nomeia interventores nos Estados, não aciona a discussão da Constituição. A pretexto de debelar o comunismo, implanta a Lei de Segurança Nacional, em 1936, com o Estado de Sítio. Enfim, a imposição do autoritarismo no final da conjuntura, com o Estado Novo, a 10 de novembro de 1937, consagra também o controle da massa operária com a implantação da legislação trabalhista de corte corporativista.

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Para os imigrantes, estão reservados momentos difíceis, tais como a suspensão do uso da língua materna, a suspeição sobre as atividades políticas, como uma latente base de sustentação do regime nazi-fascista nas antigas colônias de imigrantes, principalmente no sul do país (Santa Catarina e Rio Grande do Sul).

Nada disso é visível em 1935, nos atos comemorativos, quando as elites italianas visam a hegemonizar a auto-representação dos migrantes italianos. Em que pese o fato de que a força social de uma representação social não seja, forçosamente, equivalente ao seu valor de verdade, ver-se-á como foi possível conjugar fascismo, italianidade, farroupilhas, ao Garibaldi “herói dos dois mundos”.

A síntese de uma identidade simbolizada na costura de mitos e ideários tão divergentes internamente é possível na medida em que estão presentes determinadas condições particulares daquela, e só daquela, conjuntura.

Nesse momento, os italianos e seus descendentes são simultaneamente reféns e autores de uma intriga retórica; pretender uma identidade narrativa que relacionasse o tempo de uma narrativa unívoca, qual seja, a italianidade, com a ação efetiva de cada indivíduo, o que é, na realidade, uma verdade totalitária do social. Trata-se, nesse sentido, do interesse apenas de determinadas frações da colônia italiana no Rio Grande do Sul. Produz-se, assim, a fusão de acontecimentos reais, levados à categoria do mito. Anulam-se os atributos dos símbolos singulares e institui-se a base comum para solidarizar os eventos comemorados.

Entre o dever de memória e o ofício de historiador:
a visita da neta3


O Correio do Povo, jornal diário de Porto Alegre, aos 20 de agosto de 1931, estampa o comentário de Clemenciano Barasque:

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3 Não há como não incorporar, nesse item, as categorias analíticas onde a socióloga argentina Beatriz Sarlo, em recente livro, investe sobre a possibilidade de estarmos diante da guinada “subjetiva”, após a guinada lingüística haver em parte esgotado sua capacidade de sustentação das ciências humanas. O memorialismo hoje retorna para o gosto de historiadores e grande público, sendo o testemunho a dimensão mais crítica da capacidade de, através da linguagem, ligar o plano individual ao coletivo. As memórias escritas pelo próprio Garibaldi prefiguram a investidura do mito Garibaldi.

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“Desde alguns dias, encontra-se nesta capital a escritora Anita Garibaldi, neta de Garibaldi, que percorre a América do Sul, coligindo dados sobre a atuação do grande ‘condottiere’, deste lado do Atlântico. Com a aproximação do centenário farroupilha e a presença, aqui, da escritora que ora nos visita, ocorre-nos, despretensiosamente, lembrar à neta do herói dos dois mundos e da heroína de duas pátrias lançar no seio da colônia italiana, domiciliada no Rio Grande do Sul, a idéia de serem perpetuados os marcos ou padrões, erigidos do próprio local, os dois feitos já imortalizados nas telas cujos ‘clichês’ reproduzimos. (fotos-clichê) No primeiro, revive Garibaldi, guiando, na planície rio-grandense, o transporte, por terra, de sua esquadrilha, da barra de Capivari, na Lagoa dos Patos, à foz do Tramandaí, em 14 de julho de 1839; e o segundo lembra a destemida Anita fugindo a cavalo, levando ao colo Menotti Garibaldi, então recém-nascido em local próximo ao mesmo, da épica façanha um ano depois, como se vê. Malograda a tentativa da República Catarinense, após os combates da Laguna, Passo de Santa Vitória e outros, Canabarro voltava com seu exército, ao qual se havia incorporado Garibaldi. Nessa acidentada marcha do exército republicano, perseguido sempre pelo inimigo, em direção ao sul do Estado, resolveu Garibaldi ficar na costa oriental da Lagoa dos Patos, na estância de São Simião. Pretendia ainda o ilustre ‘condottiere’ construir algumas embarcações, nas quais pudesse transpor a Lagoa dos Patos, atingindo a margem oposta, tornando novamente ao seu arsenal do Camaquã, a fim de construir novos lanchões, que seriam armados com a artilharia deixada por Garibaldi, enterrada nas imediações do antigo barracão-arsenal, cujos pesadíssimos canhões, atualmente recolhidos ao Museu do Estado, não puderam ser armados no ‘Seival’ e ‘Rio Pardo’. Entregue ao afã de construir tais embarcações, o casal Garibaldi e Anita foi, aí, no dia 16 de setembro de 1840, surpreendido com o nascimento de seu primogênito, que tomou o nome de Menotti. Como se vê, o ilustre general italiano, que tanto honrou, depois, as gloriosas tradições da pátria unificada por seu pai, nasceu em plena campanha gaúcha, num acampamento de marcha, como devia nascer o filho de dois heróis. Que glorioso legado cumpriria a escritora Anita Garibaldi, lembrando os seus patrícios perpetuar, no centenário farroupilha, em dois monumentos, no próprio local, a glória de seus maiores!”4

Prosseguindo na pesquisa, a Anita escritora lança a obra “Garibaldi na América”, traduzida por Renato Travassos e publicada pela ALBA, no Rio de Janeiro, em 1931. Filha de Ricciotti, nascido em Montevidéu, em 1847, são suas palavras sobre essa jornada:

“Ao chegar ao porto do o Rio de Janeiro, eu bem podia parecer uma dessas viajantes que andam em busca de sensações estéticas e prazerosas; o livro, porém, que eu trazia em mãos, não era o infalível Baedeker, mas sim, a auto-biografia do meu avô, escrita pelo seu próprio punho e letra, dando-me então a impressão de ouvir uma voz grave e dulcíssima a sussurrar-me: ‘Atenção, filha; foi aqui!’ E o livro continha parte da história de três grandes povos, o Brasil, o Uruguai e a Argentina [...].”

Nas suas elucubrações, segue a escritora Anita:

“[...] Que poderia representar o Rio de Janeiro para Garibaldi? Um ponto de contato; um ponto de partida, talvez. A idéia que perseguia desde a Itália, a idéia básica para sua vida futura, forçosamente de desterro, seria a de sempre e que era o centro de sua existência: continuar combatendo pela redenção da Itália, em qualquer parte do mundo que lhe assinalasse a sorte. Pôr em execução esses preceitos, refazer a trama, reencetar o contato com Mazzini e os demais conspiradores, em suma, de qual quer modo que fosse, a luta pela idéia[...].”5

Antes da pesquisa para seu livro, percorrendo os caminhos indicados na auto-biografia do avô, possivelmente Anita terá usado como base o escritor Alexandre Dumas, no livro datado de 1870, “Memórias de Garibaldi”, no qual o escritor registra inúmeras conversas com Garibaldi e que foi traduzido para o Brasil por Antonio Caruccio-Caporale.

Essas obras constituem os principais parâmetros que sedimentam o campo compreendido entre o mito Garibaldi e a História. Uma crítica textual — que não cabe nessa nossa proposta, apenas aNúncia-se, poderia salientar o aspecto assinalado por Man (1979, in SARLO, 2006, p.31) que, ao seguir uma autobiografia, está-se diante da auto-referência do eu, onde

“ a consciência de si não é uma representação, mas a ‘forma de uma representação’, a figura que indica que uma máscara está falando. Fala o personagem (persona, máscara do teatro clássico), que não pode ser avaliado em relação à referência que seu próprio discurso propõe, nem pode ser julgado (como não se julga o ator) por sua sinceridade, e sim por sua apresentação de um estado de “sinceridade[...].”

Esse estado de “sinceridade” foi predominante na leitura sobre Garibaldi para os comemorativos da Revolução Farroupilha de 1935. Como foi a projeção da representação da italianidade em Porto Alegre. Leitura que se expressa na arte, nas festividades, na disseminação da língua italiana. Por quê?

Poderia ser a mera repetição narrativa, que adquire foro de verdade. Mas o importante é a versão. As condições sócio-históricas estão favoráveis. O mito é bom o suficiente para a apropriação social dos italianos reunidos numa conjuntura difícil, onde se decidia a inclinação da política internacional brasileira diante da agudização da cena européia. Um mito não é interrogável, “é uma modalidade social de certeza”. (KOLAKOWISKI, 1990, in MITJAVILA, 1994, p.97)

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4 “Um apelo à colônia italiana”. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n.195, p.14, agosto 1931. O jornal fundado pelo sergipano Francisco Antonio Vieira Caldas Jr., em 1895, foi o principal concorrente da “Federação” do Partido Republicano. A visibilidade da presença italiana pode ser acompanhada, como de fato, realizamos, ao longo de sua tiragem diária, concentradamente entre 1920 e 1937. Foi mesmo um dos principais modos dessa auto-representação. Todas as referências do Correio do Povo foram extraídas da minha tese de Doutorado, “Uma cidade se conta...”, relacionada na bibliografia.

5 GARIBALDI, Anita, 1931, p. 12-13. Além do diário, a neta Anita escreve essa obra, considerada como referência. Alexandre Dumas, em 1860, teria registrado inúmeras conversas até publicar o livro “Memórias de Garibaldi”. Traduzido por Antonio Caruccio-Caporale, trabalhamos com a edição brasileira de 1998, Memórias de Garibaldi/Alexandre Dumas. A autenticidade da obra é assim apresentada pelo editor: “Entre Dumas e Garibaldi a cumplicidade é total. O primeiro assevera que as memórias foram escritas pelo segundo, sendo ele apenas o editor... No entanto, nada é mais evidente que a autoria de Dumas quando se trata de analisar estas páginas [...].” DUMAS, 1998.

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De modo que seguir os passos da autobiografia de Garibaldi tem o dom da confirmação ex-post. De certo modo esse é o roteiro da escrita de Anita. Com importantes registros de veracidade, como quando obtém a carta de corsário de Garibaldi, em Montevidéu. Documentos que corroboram a densidade do mito...

A circulação do mito e as demais retóricas

No período que antecede e em que ocorrem os comemorativos do Centenário da Revolução Farroupilha, onde o mito Garibaldi é disputado, essas celebrações extravasam uma leitura circunscrita ao local, ao regional. Prendem-se à densa atmosfera da política internacional no sentido da radicalização ideológica entre distintos projetos políticos. Aqui, os mitos são macro, dizem respeito à criação de movimentos sociais tal como o nacional socialismo.

Por sua vez, o nível micro trata do papel do mito nos universos simbólicos dos sujeitos, grupos, organizações. Aproxima o cotidiano e convida o historiador a perceber que o mítico é apreensível na/em ação. Exige colocar-se “na pele dos atores”, para perceber o “domínio das representações do tempo e das representações de si”. (CORBIN, in VIDAL, 2005, p.16-21). E o que fez Anita, perseguindo as possíveis sensações e experiências do vivido e relatado pelo célebre avô? Difícil saber. Vale trazer Fernando Pessoa, quando afirma que nenhuma época transmite à outra a sua sensibilidade, apenas sua inteligência.

Já a relação com o campo lingüístico é evidente6: a circulação do mito Garibaldi carrega a língua italiana nos anos 30. Ao lado de Dante e Petrarca, Garibaldi é referência para a assimilação do universo lingüístico latino. Atua no programa mais recente de aproximação Brasil-Itália, quando a disseminação dos cursos de língua italiana é fato consumado.

Seja nas Sociedades italianas, seja nos colégios, com apoio do Governo italiano, os atos de abertura e encerramento do ano letivo são prestigiados. Como o ocorrido na Sociedade Dante Alighieri, sob a presidência de Rafael Guaspari. Na solenidade de reabertura, em abril, estão presentes “[...] o Comendador Barbarisi, Cônsul da Itália neste Estado, figuras representativas da colônia italiana aqui radicada, representantes da imprensa local e cerca de 200 alunos inscritos nos cursos de língua italiana [...].7

O mesmo ocorre no Colégio Americano, quando o professor Gino Battocchio, diretor das escolas italianas em Porto Alegre, coronel Tito Fernandes, professor do Ginásio, os representantes da imprensa e diversos convidados assistem ao discurso da professora Valentina Paiva. Como sempre, Garibaldi é mencionado:

“[...] é nesta data tão sugestiva para nós, que procurais estreitar mais esses laços que uniam italianos e brasileiros, esta época em que celebramos o centenário farroupilha, essa fase de nossa história em que o coração do povo gaúcho sente palpitar bem unido a ele o grande coração de José Garibaldi, pelas íntimas revelações de um objetivo comum, solidário conosco nos interesses e aspirações do Rio Grande do Sul.”8

Também o uso de alegorias e imagens alinha-se para, nesse sistema de representação do mundo desde a italianidade acoplada à figura de Garibaldi, fazer prevalecer o convencimento identitário e a mobilização de poder. Como se a memória e a biografia do indivíduo Garibaldi houvesse, por fim, realizado a utopia libertária da qual se enunciou portador na autobiografia.

Trata-se de perfilar quais e como serão os usos de alegorias e imagens acionados pelos grupos de italianos na cidade. A iniciativa parte da diretoria da Sociedade Dante Alighieri: para além das solenidades em comemoração, a Natal de Roma e da Festa do Trabalho Italiano, já está empenhada para a organização de um Comitê Colonial com a finalidade de agregar aos comemorativos do Centenário Farroupilha, a “colônia italiana do Estado”.

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6 Ver a discussão do giro lingüístico que dominou as Ciências Humanas desde os anos 1980, predominantemente. As sociedades italianas no Estado atuam em várias frentes, com destaque para a disseminação da língua e da cultura latina. Dentre elas, em Porto Alegre destaca-se a Sociedade “Dante Alighieri”. Vinculada à Roma e espécie de sub-representação político-diplomática italiana, a Sociedade não é freqüentada além da pequena burguesia instalada na cidade.

7 “Para maior aproximação ítalo-brasileira”. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLV, n.78, p.9, 4 abr.1935.

8 “O ensino da língua italiana nas escolas”. Correio do Povo, ano XLI, n.86, p.14, abr.1935
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A idéia da celebração através das figuras emblemáticas tais como inscrições em bustos, estátuas, monumentos, que trazem forte potência de reforço à sensibilidade no entendimento de si e do outro não está cogitada, desta vez. Lançam a proposta de um “monumento social”, isto é, uma subscrição para a construção de um pavilhão para tuberculosos junto ao Sanatório Belém, homenageando o cientista Carlo Forlanine. Imediatamente aprovada, manifesta-se o Cônsul conforme “o programa que V. S. me expôs relativo ao Centenário Farroupilha, programa que virá realçar a participação da Colônia Italiana a manifestação em que o fervor do trabalho e do progresso coincide com o centenário daquela epopéia que deu ao povo rio-grandense o supremo bem da liberdade. – (ass. ) G. Barbarisi, Cônsul Geral da Itália.9

Ainda vão reunir-se inúmeras vezes para tratar desse assunto. Em uma delas formam, além do comitê da Colônia, o sub-comitê dos Profissionais Descendentes de Italianos. Mais uma vez rememoram a participação de Garibaldi, de Rossetti e de Zambeccari. Semeadores das idéias de liberdade dos povos, tal como escrevem os cronistas, atuaram na implantação do regime republicano no Rio Grande com Bento Gonçalves e David Canabarro.

Tal entrelaçamento de italianos e rio-grandenses se expressa no epílogo das gerações de italianos e seus descendentes, conquistando posições na intelectualidade. De desbravadores das matas, para a presença na arte e na cultura da civilização moderna no Estado, a odisséia dos imigrantes está completa, discursam.

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9 “A colônia italiana e o sanatório Belém”. Porto Alegre, ano XLI,.n. 105, p.12, maio 1935.

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A disputa da memória da Revolução Farroupilha

Nem tudo é consenso, no entanto. Na perspectiva historiográfica, um objeto sensível como um quadro, por exemplo, reflete tanto a experiência histórica do pintor, como do momento histórico no qual se realiza. Como discurso visual, sua significação pode ser contestada. O suporte da discordância, de novo, está nas páginas de jornal. Não é uma crítica nem da figura, nem da alegoria, mas da incongruência entre forma e contexto histórico. O historiador Souza Docca, em artigo, esgrime argumentos:

“O Correio do Povo, de 4 de abril, estampou o quadro do pintor rio-grandense José Francesco – ‘A última visão de Anita Garibaldi’ – onde a heroína brasileira deitada ‘tendo a seu lado a figura simbólica da República de 35. Ao fundo, em uma cavalgada da epopéia, aparecem duas colunas de guerreiros farrapos, flâmulas ao alto, tendo à frente Garibaldi e Bento Gonçalves.’ [...] A heroína, em seus últimos momentos, nenhuma manifestação fez que se possa crer pensasse ela na cruzada farroupilha. Não há, mesmo, em sua correspondência conhecida, referências que demonstrem que aquele passado de lutas era uma de suas preocupações, de todos os momentos, especialmente nos lances arriscados ou difíceis. Considerando-se as circunstâncias em que a heroína morreu e as cenas patéticas de seus últimos momentos, não se pode aceitar a visão idealizada pelo artista. Anita, longe de seus filhos pequenos, minada por uma febre palustre, em uma retirada penosa, de muitos dias, depois de um destroço da coluna comandada por Garibaldi e carregada nos braços deste, atinge, agonizante, a casa do Marquês de Guiccioli. Ali, no dia seguinte, sentindo que ia morrer, levanta-se da cama, fita profundamente os olhos do esposo. Este, tomando-a nos braços, a beija, em lágrimas. Ouve-se, nesse momento, o som trágico dos tambores e trombetas dos austríacos, em perseguição feroz. Anita morre nos braços de Garibaldi, que a coloca sobre a cama e foge, célere, dos perseguidores. Cremos, por tudo isso, que “A última visão de Anita Garibaldi”, por maior que seja o seu valor artístico, nenhum valor tem como verdade histórica. A Revolução Farroupilha é riquíssima em episódios memoráveis e dignos de serem perpetuados na tela, por artistas de talento, como José Francesco e, por isso, é lamentável que se os despreze, pela fantasia. Que quadro admirável e majestoso poderá dar-nos o artista que fixe na tela a ‘Abertura da Assembléia Constituinte’, no momento em que Bento Gonçalves lê sua fala.[...] Temos, neste fato, uma magnífica lição para os nossos pintores, que quiserem empregar suas aptidões artísticas em quadros históricos, onde a verdade deve ser respeitada e o meio ambiente reproduzido com a maior fidelidade possível. Abandonemos as lendas e as invencionices que se têm criado e escrito sobre Garibaldi entre os farroupilhas.[...] Não obstante isto, não nos é lícito esquecer e cumpre-nos glorificar seus feitos, durante o tempo que serviu nas fileiras rio-grandenses. Tem-se, entretanto, exagerado [...] com esquecimento dos nossos, com maiores e mais nobres dedicações na cruzada memorável. [...] o herói italiano entrou para o serviço da República Rio-grandense em 1838, quando ela atingia o período áureo de seus triunfos, e abandonou-a, em 1841, quando se iniciava o declínio de suas glórias. Foram os braços dos brasileiros do Rio Grande e de outras Províncias do Brasil, que iniciaram e sustentaram a contenda, a custa de sacrifícios ingentes, a golpes de heroísmos assombrosos, mantendo uma tenacidade sem igual nos fatos de nossas lutas. Com essa falta de fundamento histórico e com aqueles anacronismos flagrantes, se tem criado uma lenda em torno de Garibaldi no Rio Grande do Sul, lenda essa que ele não precisa para ser enquadrado entre os heróis farroupilhas, mas que, lamentavelmente, o tem sobreposto a vultos de proporções maiores que as suas, quer no terreno das idéias, quer na constância da luta, durante a cruzada homérica.”10

Na seqüência, os jornalistas Crocco, Carrazoni e Barbieri11, sem investirem contra essa linha de argumentação (recomendando prudência e rigor), retomam o discurso glorificador. Como se deixar sem contestação a linha de análise de Docca fosse prioritário para os comemorativos. Em suma, além do mito, há um modo mítico de construir discursos. É o que fazem nas três crônicas a seguir. Crocco destaca o caráter exilar. Lembra que, entre tantos, Machiavel e Dante promoveram seus exílios ao defenderem seus ideais. Que,

“depois da Revolução Francesa e da coroação de Napoleão 1o, imperador e rei da Itália, os maiores vultos e atletas do Risorgimento Italiano nasceram e criaram-se, até certa idade, súditos franceses. Giobert (em Turim), Mazzini (em Gênova), Garibaldi (em Nizza ou... Nice), Cavour (em Turim), Zambeccari (em Bologna), e assim Rossetti, Anzani e muitos outros, os quais, depois de Waterloo, educados republicanamente, não ‘agüentaram’ mais os paternos governos austríacos e borbonios, e foram na Espanha ou em Portugal a defender a constituição liberal ou vieram para este sul em defesa de seus ideais em auxílio dos heróicos correligionários.”

Para Carrazzoni,

“[...] Não pode haver patriotismo, e patriotismo como função da terra e da história, sem o culto dos antepassados, o respeito da tradição, o sentimento de ativa e militante solidariedade que, através de um complexo de ações e reações, une os homens de hoje às gerações de ontem. Arco-íris romântico abrindo entre tormentas de ódios e paixões, nem o poema idílico do coração humano falta ao drama dos Farrapos: Garibaldi, ‘condottieri’ e apóstolo, compõe a pastoral americana do seu destino, com a sonhadora mulher que – ‘Belíssima filha do Continente’ – havia de ser, como ele, a heroína de dois mundos. São essas figuras que varam as névoas dos tempos, enchendo a história de transfigurações poéticas, ou legendas, e de deformações líricas da realidade, ou mitos [...].

Por último, Barbieri alinha os ideais da liberdade, da fraternidade e da igualdade, “um século agoniza sobre a glória dos Farrapos, outro século surge. O século que morre traz ao século que vem avançando de dentro das brumas do tempo uma tocha imensa, como que para iluminar às gerações vindouras o caminho. Que caminho será?”.

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10 DOCCA, Souza. A última visão de Anita Garibaldi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.106, p.3, 7 de mai 1935

11 CROCCO, Gesualdo. Um italiano “Farroupilha”. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.147, p.3, 25 jun 1935. CARRAZONI, André. Mitos, símbolos, emblemas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.211, p.3, 8 set. 1935; BARBIERI, Sante Umberto Barbieri. Os Farrapos atiram-nos a tocha! Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.219, p.14, 19 set.1935.


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As representações que se querem eternizar:
do migrante ao general


Embora a proposta da celebração farroupilha pela comunidade italiana eleja a construção de ala no Sanatório Belém, monumentos serão erigidos. Dentre eles, aquele que homenageia o trabalho do migrante. É importante solidarizar os mitos.

O escolhido em Porto Alegre é o obelisco que homenageia a odisséia de Vicente Monteggia, o “fundador do moderno centro agrícola”, na Vila Nova, na Barra do Ribeiro, margem direita do Guaíba, e a alguns quilômetros de Porto Alegre. A inclusão desse evento na programação oficial Farroupilha desvia o foco sobre a memória dos italianos revolucionários e faz incidir luminosamente a função da migração e colonização no Estado, ocorrida volumosamente desde o século anterior. Mas é preciso registrar que, em 1930, a Itália já vem reduzindo a sua imigração, antes mesmo da implantação dos sistemas de cotas pelo governo brasileiro.12

Falecido em 1933 e nascido em Laveno, ao sul do Lago Maggiore, Vicente percorre a Tunísia, Marcela, antes de vir para América, Rio Grande do Sul. Foi industrial, agricultor, organizador de empresas, construtor e técnico de estradas. Considerado como “uma das individualidades mais representativas da colônia italiana”, o professor Francisco Benoni identifica que Vicente “sintetizava a homenagem a milhares de imigrantes,(sic) voluntários, por circunstâncias várias, e, por isso, esse simpático feito ecoaria entre a colônia italiana e se enraizaria no coração dos muitos sobreviventes que familiarizavam com o nobre povo rio-grandense, há mais de sessenta anos [...]”. A presença do Cônsul geral da Itália, representantes das sociedades italianas, alunos das escolas ítalo-brasileiras e italianas em geral prestigiam o evento.13

No ano seguinte, em 15 de janeiro de 1936, ocorre a inauguração mais esperada: a estátua eqüestre de Bento Gonçalves esculpida por Antonio Caringi. O pedestal da estátua se levantará em frente ao pórtico da Exposição Farroupilha em Porto Alegre. Para a prefeitura da cidade de Pelotas, traz a escultura em bronze da “Sentinela farroupilha”. Diz em entrevista: “aproveitei então a ocasião de homenagear o gaúcho pobre, o rebelde humilde, o soldado farrapo, o peão da estância.[...] em que reproduzo a sentinela de 35 com a fisionomia máscula do índio charrua, trazendo a indumentária aqui usada há um século: o xiripá, o poncho, bota de cano a meio-pé, o lenço ao pescoço com o laço de 35”. Ainda são dele as duzentas e cinqüenta medalhas com a efígie de Bento Gonçalves [...].Toda a imprensa européia, diz Caringi “evoca o decênio formidável dos rebeldes dos pampas e recorda a ação de seus líderes e o perfil atrevido e glorioso de sua figura máxima – Bento Gonçalves.[...] esculpindo o general do grande levante e a sentinela anônima e imprescindível do decênio farrapo, Caringi cultua uma das mais garbosas etapas do “pugilato milenar entre o cativeiro e a liberdade”.14

No discurso de inauguração o deputado Dario Crespo, descendente de Bento Gonçalves (bisavô), “[...] ao raiar o ano memorável de 1835, o Rio Grande estava mobilizado para a grande luta. É que já se formara uma consciência coletiva. A iluminá-la, a chama de um verdadeiro ideal. [...] nunca o Rio Grande foi menos ele próprio, nunca pensou e obrou por si mesmo, do que durante a revolução farroupilha”, é que o Rio Grande excedeu-se a si próprio, tocado de um nobre idealismo, pensando e agindo pelo Brasil, que desejava unido pelos laços federativos, sob o regime republicano.”

Desta feita a inauguração atenua a soldadura narrativa que aproxima o mito Garibaldi à italianidade e à Revolução Farroupilha. A mesma reconstitui-se quando da oferta, finalmente, ao Sanatório Belém, de 120 contos de réis e de todos os móveis e utensílios para o Pavilhão Forlanini. Estamos próximos do fim das celebrações dessa conjuntura.

Finaliza o período com a inauguração dos retratos de Garibaldi e Anita, de Zambeccari, Anzani, Costellini etc., na sala das recepções da Dante Alighieri (Itálica Domus) e da exposição de uma grande coroa de louros no obelisco erigido no Campo da Redenção como lembrança do Cinqüentenário da Colonização Italiana no Rio Grande, no qual figuram os medalhões em bronze de Zambecari e a placa com os nomes de todos os italianos que participaram da campanha farroupilha.15 A cidade de Viamão recebe uma lápide na fachada do edifício da Prefeitura Municipal em homenagem à memória de Luiz Rossetti, morto em combate no Passo do Vigário, em 1840, estendendo os comemorativos para a histórica cidade.

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12 1920,10.0055;1923,15.839;1927,12.487;1930,4.253;1933,1.1920;1934,1.389 e, provavelmente em 1935, 1.266. PIERINI, Sylvio. Cotas de imigração. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n.7, p.3 26 mar 1936.

13 “Inauguração de monumento”. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XVL, n.280, p.4, 1 dez 1935.

15 UMA HORA de palestra com o escultor Ângelo Guido. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 280, p.14, 1 de dezembro 1935; FOI INAUGURADA ontem, a estátua eqüestre de Bento Gonçalves. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n.13, p.16 janeiro 1936. A descrição: “ O major Alberto Bins convidou os generais, o Governador do Estado, Flores da Cunha e Parga Rodrigues, para puxarem as cordas, afim de assim descobrir a estátua, que estava coberta com bandeiras nacional e rio-grandense.[...] Nas faces laterais, há também baixos relevos, simbolizando cargas de cavalaria rio-grandense. Na frente, há apenas os dizeres: “Bento Gonçalves – 1835" e na parte posterior, três frases artisticamente trabalhadas. A primeira delas tem os seguintes dizeres: “Aos heróis farroupilhas, homenagem da aviação naval, 20-9-1835 – 20-9-1935". No centro, a outra com esta dedicatória: “Homenagem da Prefeitura aos heróis de 1835. [...] Finalmente, a ultima das placas tem estas palavras: “A guarnição do couraçado “Rio Grande do Sul”, ao povo gaúcho, simbolizado no seu grande herói farroupilha – Porto Alegre, 20-9-1935.”

16 A COLÔNIA italiana e o Centenário Farroupilha. Correio do Povo, Porto Alegre ano XLII,n.276,p.15, 22 nov 1936.


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Considerações finais

As descrições de homenagens, a citação fragmentada de discursos, a repetição da labiríntica autobiografia de Garibaldi e a bibliografia de desequilibrada qualidade que se lhe seguiu, são rastros do espaço social de uma dada construção mítica. Vimos como essa pode ser capturada numa conjuntura, como nesses anos 30. Não se compreende nada sobre o mito se não é posto à prova da sua adequação e funcionalidade para os sujeitos, os grupos, as instituições. Dialética em movimento, o herói necessário surge quando e como se faz carne e espírito.

Para o conhecimento histórico, é desejável a busca do regime de verdade onde possa se distinguir a utilização da memória, na construção do fato histórico. Assim como destacar o fator gerador de realidades, através das representações sociais que se impõem numa dada conjuntura.

Os comemorativos aqui relatados, na sua pompa e discursividade, mais que salvar do esquecimento a figura de Garibaldi (e outros), pretenderam celebrar uma continuidade mítica que, na verdade, inexiste. As circunstâncias possibilitaram, não obstante, tal amálgama. O herói projetado pelo coletivo e o sujeito histórico singular podem — como devem — ser confrontados pela pesquisa histórica. São, ambos, faces do perspectivismo, atitude do conhecimento desinteressado, e, exatamente por isso, aquele que realmente faz avançar a representação de si e do outro; o imaginário construído para dar conta da revelação da historicidade implicada nisso tudo é nossa tarefa.

Os comemorativos do Centenário da Revolução Farroupilha, conforme a estratégia textual adotada, pretenderam exemplificar essa possibilidade.

Referências bibliográficas

DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Tradução de Antonio Caruccio-Caporale. Porto Alegre: L&PM, 1998.

BRUM, Rosemary Fritsch. Uma cidade que se conta. Imigrantes italianos e narrativas no espaço social da cidade de Porto Alegre (1920-1937). 2003. Tese (Doutorado), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003.

GARIBALDI, Anita. Garibaldi na América. Tradução de Renato Travassos. Rio de Janeiro: Alba, 1931.

MITJAVILA, Myriam. Sobre a densidade social do mito. Notas para uma leitura sociológica do tema. Plural: São Paulo: USP, 1;87-105.1 sem.1994

SARLO, Beatriz. Cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.

VIDAL, Laurent. Alain Corbin. O prazer do historiador. Rev. Bras. Hist. São Paulo. v 25 n.49, 2005.


 
 
 
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