| A densidade social do
mito: Garibaldi no Centenário da Revolução
Farroupilha
Rosemary Fritsch Brum
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Doutora em História do Brasil, socióloga
da UFRGS, pesquisadora do Núcleo
de Pesquisa em História do Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas
O presente texto apresenta algumas linhas de interpretação
sobre as potencialidades analíticas da multifacetada
figura de Giuseppe Garibaldi, na conjuntura compreendida pela
celebração do Centenário da Revolução
Farroupilha no Rio Grande do Sul, em especial na capital,
Porto Alegre, entre 1931 e 1936. Nesse sentido, aventa-se
a presença da reconfiguração conforme
os interesses em jogo, tais como a exacerbação
do mito Garibaldi1 ou sua redução.
Essa trajetória não ficaria imune ao modo de
construção do imaginário da auto-representação
da migração e colonização italiana
para as Américas, tangida pelas perdas decorrentes
da Unificação Italiana do século XIX.
As dificuldades de absorção da mão-de-obra
agrária ao sul, na conhecida questão do Messogiorno,
mais a sociedade capitalista representada pelo Norte, tornam
a emigração uma interessante saída para
desafogar a pressão sobre o frágil novo arranjo
de poder.
No Brasil, a economia agroexportadora requeria trabalhadores
para a cafeicultura, e os interesses delinearam uma política
favorável ao que se lhe seguiu, ou seja, a impressionante
massa de europeus, em sua maioria italianos, para substituir
a mão-de-obra africana escrava, recém liberta.
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1A narrativa padrão sobre Garibaldi agente histórico
concreto do século XIX nascido em Nizza, atual Nice,
em 1870, e da configuração do mito “herói
de dois mundos”, inicia a partir de sua participação
política na conflituosa Unificação da
Itália. Aderindo à Carbonária italiana
de Mazzini e sua proposta de república que se choca
contra a monarquia, o catolicismo e os interesses do Papa,
e que levaria posteriormente ao cabo o movimento do Risorgimento,
unidade em torno do Piemonte sustentado por Massimo d’Azeglio
- tem decretada sua prisão na Itália. A fuga
para o Brasil e sua chegada ao Rio de Janeiro (1835/36?) constitui
a componente mazziniana da emigração política,
ao lado de Livio Zambeccari, Luigi Rossetti, Garioni, Anzani,
Cuneo, Dalla Case, Messero, Gris, Terezani Lando, Corrigi.
Em seguida envolve-se com a revolução no Rio
Grande, a Revolução Farroupilha, (deflagrada
em 1935), que proclamaria a República Piratini, sob
comando do General Bento Gonçalves, movida pelo espírito
federativo contra o Império de Dom Pedro. Em 1939,
conhece aquela que seria sua companheira, Ana Maria Ribeiro
da Silva, conhecida como Anita Garibaldi, em Laguna, Santa
Catarina, ao lutar pela conquista da região para os
farroupilhas. Em 1841, chegando ao Uruguai, Montevidéu,
empenha-se nas lutas empreendidas na Bacia do Prata entre
Frutuoso Rivera e a política do Presidente Juan Manuel
de Rosas, da Argentina. Após, retorna com Anita à
Itália, em 1848, e retoma sua participação
no processo político em curso, falecendo em Caprera,
em 1882. Esses dados foram recolhidos na bibliografia corrente,
ao dispor da pesquisa histórica e, evidentemente, sempre
passível de revisão histórica.
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Para o Rio Grande do Sul foram encaminhados
os migrantes conforme o ordenamento da política de
colonização de áreas devolutas, que diversificariam
a economia com produtos para prover os centros urbanos em
expansão, desde que não afetassem a estrutura
agrária da pecuária gaúcha e seu mando
político. O modo diferencial de instalação
dos italianos no Estado, nos minifúndios rurais levados
pela mão-de-obra familiar, além dos italianos
instalados nas cidades do sul, muitos advindos do Prata, varridos
pelas guerras, formariam uma camada de pequenos proprietários
e, da República em diante, de vigorosos industriais.
O pêndulo político começava a mudar, e
a zona da Campanha era forçada a partilhar poderes
e projetos.
Na ante-sala do Estado Novo: as comemorações
do Centenário Farroupilha
O processo de industrialização começava
a deslocar os poderosos proprietários rurais, ou, no
limite, a fazer novas parcerias com a injeção
de capitais no setor agrário, no Rio Grande do Sul,
timidamente, mas de modo importante no eixo agro-exportador
nacional. No século XX, o Brasil urbanizava-se e industrializava-se,
ainda que de modo descontínuo. Surgiam novas camadas
sociais, além dos imigrantes. Classe média,
operariado, profissionais liberais, forças armadas
iam enriquecendo o mosaico social.
A crise da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, terá
efeitos na política brasileira, assinalando o canto
dos cisnes da hegemonia agro-exportadora cafeeira, dado o
seu grau de dependência de grupos financeiros, vulnerabilizados
com a grande crise.
O centro do poder é questionado pelas oligarquias dos
relegados, até então, ao conformismo, desde
a Primeira República, à chamada “política
café com leite”, alternância no poder da
burguesia paulista e parte da burguesia mineira. Perde base
de sustentação o governo de Washington Luis,
e abre flancos para a provisória união das facções
burguesas não alinhadas com a produção
agro-exportadora que sustentara o primeiro período
republicano.
Em 1927, Getúlio Vargas e João Neves da Fontoura
são respectivamente os novos presidente e vice-presidente
do Estado. É momento de conciliação:
Assis Brasil lidera o Partido Nacional (Aliança Libertadora
gaúcha, depois Partido Libertador e Partido Democrático
de São Paulo). Na cidade de Porto Alegre, o PRR indica
para Intendente Municipal Alberto Bins, que, eleito em pleito
pouco disputado, em 1928, permanece no cargo longos 10 anos.
Cresce a contestação ao Governo Washington.
Classes médias emergentes, ligadas ao expansionismo
da economia urbana, somadas aos setores militares descontentes
com os caminhos da República, expressos no Movimento
Tenentista dos anos 20, confluem para uma frente de oposições
estaduais. No Estado, libertadores e republicanos criam a
Frente Única. Com Minas Gerais e Paraíba, fundam
a Aliança Liberal, em 1929.
O poder centrado em Getúlio Vargas, iniciado com a
Revolução de 30, com a deposição
do Presidente da República, Washington Luis, será
um poder que harmonizará os setores agrários,
que continuam sustentando a economia brasileira, além
da injeção de capitais para a promoção
das bases da industrialização no país.
Em 1935, o Centenário da Revolução Farroupilha
é comemorado sob grande tensão. Alberto Bins
preside o Comissariado Geral da Festividade. Mas, a conjuntura
pesa sobre o Governo do Estado: José Antonio Flores
da Cunha, republicano como Getúlio, o apoiou quando
da oposição das oligarquias paulistas descontentes,
em 1932, e agora está sob crescente isolamento do poder.
Perde a base de apoio local quando o partido liberal gaúcho
vê afastarem-se Raul Pilla, Lindolfo Collor, Batista
Luzardo, João Neves da Fontoura, e os republicanos
de Borges de Medeiros, que, conjuntamente, questionam os rumos
da Aliança Liberal. Quando Getúlio visita Porto
Alegre para os comemorativos do Centenário da Revolução
Farroupilha, está preparada o que viria a seguir, ou
seja, a intervenção no Estado e a fuga do Interventor
Flores da Cunha.2
Enquanto isso, no plano internacional, desenha-se o cenário
para a deflagração da Segunda Guerra Mundial.
Os anos de 1930 e 1937 são, pois, de oscilação
do governo brasileiro entre o alinhamento com as idéias
nazi-fascistas, ou com as forças contrárias.
Ao final, o governo Vargas filia-se ao campo das democracias
alinhadas, embora internamente esteja longe de empreender,
ao contrário, uma política democrática.
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2 No plano político nacional, a eliminação
dos focos de oposição segue seu rumo: sustém
o movimento dos tenentes, embora persista a polarização
social entre os projetos antagônicos entre o integralismo
da Ação Brasileira (AIB), de Plínio Salgado,
fortemente instalado nas zonas de colonização
de migrantes, o comunismo da Aliança Liberal Libertadora
(ANL0), com Roberto Sisson, o liberalismo do partido libertador.
Na Presidência do Governo Provisório da República,
Getúlio intervém, suspende direitos, nomeia
interventores nos Estados, não aciona a discussão
da Constituição. A pretexto de debelar o comunismo,
implanta a Lei de Segurança Nacional, em 1936, com
o Estado de Sítio. Enfim, a imposição
do autoritarismo no final da conjuntura, com o Estado Novo,
a 10 de novembro de 1937, consagra também o controle
da massa operária com a implantação da
legislação trabalhista de corte corporativista.
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Para os imigrantes, estão reservados
momentos difíceis, tais como a suspensão do
uso da língua materna, a suspeição sobre
as atividades políticas, como uma latente base de sustentação
do regime nazi-fascista nas antigas colônias de imigrantes,
principalmente no sul do país (Santa Catarina e Rio
Grande do Sul).
Nada disso é visível em 1935, nos atos comemorativos,
quando as elites italianas visam a hegemonizar a auto-representação
dos migrantes italianos. Em que pese o fato de que a força
social de uma representação social não
seja, forçosamente, equivalente ao seu valor de verdade,
ver-se-á como foi possível conjugar fascismo,
italianidade, farroupilhas, ao Garibaldi “herói
dos dois mundos”.
A síntese de uma identidade simbolizada na costura
de mitos e ideários tão divergentes internamente
é possível na medida em que estão presentes
determinadas condições particulares daquela,
e só daquela, conjuntura.
Nesse momento, os italianos e seus descendentes são
simultaneamente reféns e autores de uma intriga retórica;
pretender uma identidade narrativa que relacionasse o tempo
de uma narrativa unívoca, qual seja, a italianidade,
com a ação efetiva de cada indivíduo,
o que é, na realidade, uma verdade totalitária
do social. Trata-se, nesse sentido, do interesse apenas de
determinadas frações da colônia italiana
no Rio Grande do Sul. Produz-se, assim, a fusão de
acontecimentos reais, levados à categoria do mito.
Anulam-se os atributos dos símbolos singulares e institui-se
a base comum para solidarizar os eventos comemorados.
Entre o dever de memória e o
ofício de historiador:
a visita da neta3
O Correio do Povo, jornal diário de Porto Alegre, aos
20 de agosto de 1931, estampa o comentário de Clemenciano
Barasque:
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3 Não há como não incorporar, nesse
item, as categorias analíticas onde a socióloga
argentina Beatriz Sarlo, em recente livro, investe sobre a
possibilidade de estarmos diante da guinada “subjetiva”,
após a guinada lingüística haver em parte
esgotado sua capacidade de sustentação das ciências
humanas. O memorialismo hoje retorna para o gosto de historiadores
e grande público, sendo o testemunho a dimensão
mais crítica da capacidade de, através da linguagem,
ligar o plano individual ao coletivo. As memórias escritas
pelo próprio Garibaldi prefiguram a investidura do
mito Garibaldi.
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“Desde alguns dias, encontra-se nesta
capital a escritora Anita Garibaldi, neta de Garibaldi, que
percorre a América do Sul, coligindo dados sobre a
atuação do grande ‘condottiere’,
deste lado do Atlântico. Com a aproximação
do centenário farroupilha e a presença, aqui,
da escritora que ora nos visita, ocorre-nos, despretensiosamente,
lembrar à neta do herói dos dois mundos e da
heroína de duas pátrias lançar no seio
da colônia italiana, domiciliada no Rio Grande do Sul,
a idéia de serem perpetuados os marcos ou padrões,
erigidos do próprio local, os dois feitos já
imortalizados nas telas cujos ‘clichês’
reproduzimos. (fotos-clichê) No primeiro, revive Garibaldi,
guiando, na planície rio-grandense, o transporte, por
terra, de sua esquadrilha, da barra de Capivari, na Lagoa
dos Patos, à foz do Tramandaí, em 14 de julho
de 1839; e o segundo lembra a destemida Anita fugindo a cavalo,
levando ao colo Menotti Garibaldi, então recém-nascido
em local próximo ao mesmo, da épica façanha
um ano depois, como se vê. Malograda a tentativa da
República Catarinense, após os combates da Laguna,
Passo de Santa Vitória e outros, Canabarro voltava
com seu exército, ao qual se havia incorporado Garibaldi.
Nessa acidentada marcha do exército republicano, perseguido
sempre pelo inimigo, em direção ao sul do Estado,
resolveu Garibaldi ficar na costa oriental da Lagoa dos Patos,
na estância de São Simião. Pretendia ainda
o ilustre ‘condottiere’ construir algumas embarcações,
nas quais pudesse transpor a Lagoa dos Patos, atingindo a
margem oposta, tornando novamente ao seu arsenal do Camaquã,
a fim de construir novos lanchões, que seriam armados
com a artilharia deixada por Garibaldi, enterrada nas imediações
do antigo barracão-arsenal, cujos pesadíssimos
canhões, atualmente recolhidos ao Museu do Estado,
não puderam ser armados no ‘Seival’ e ‘Rio
Pardo’. Entregue ao afã de construir tais embarcações,
o casal Garibaldi e Anita foi, aí, no dia 16 de setembro
de 1840, surpreendido com o nascimento de seu primogênito,
que tomou o nome de Menotti. Como se vê, o ilustre general
italiano, que tanto honrou, depois, as gloriosas tradições
da pátria unificada por seu pai, nasceu em plena campanha
gaúcha, num acampamento de marcha, como devia nascer
o filho de dois heróis. Que glorioso legado cumpriria
a escritora Anita Garibaldi, lembrando os seus patrícios
perpetuar, no centenário farroupilha, em dois monumentos,
no próprio local, a glória de seus maiores!”4
Prosseguindo na pesquisa, a Anita escritora lança a
obra “Garibaldi na América”, traduzida
por Renato Travassos e publicada pela ALBA, no Rio de Janeiro,
em 1931. Filha de Ricciotti, nascido em Montevidéu,
em 1847, são suas palavras sobre essa jornada:
“Ao chegar ao porto do o Rio de Janeiro, eu bem
podia parecer uma dessas viajantes que andam em busca de sensações
estéticas e prazerosas; o livro, porém, que
eu trazia em mãos, não era o infalível
Baedeker, mas sim, a auto-biografia do meu avô, escrita
pelo seu próprio punho e letra, dando-me então
a impressão de ouvir uma voz grave e dulcíssima
a sussurrar-me: ‘Atenção, filha; foi aqui!’
E o livro continha parte da história de três
grandes povos, o Brasil, o Uruguai e a Argentina [...].”
Nas suas elucubrações, segue a escritora Anita:
“[...] Que poderia representar o Rio de Janeiro
para Garibaldi? Um ponto de contato; um ponto de partida,
talvez. A idéia que perseguia desde a Itália,
a idéia básica para sua vida futura, forçosamente
de desterro, seria a de sempre e que era o centro de sua existência:
continuar combatendo pela redenção da Itália,
em qualquer parte do mundo que lhe assinalasse a sorte. Pôr
em execução esses preceitos, refazer a trama,
reencetar o contato com Mazzini e os demais conspiradores,
em suma, de qual quer modo que fosse, a luta pela idéia[...].”5
Antes da pesquisa para seu livro, percorrendo os caminhos
indicados na auto-biografia do avô, possivelmente Anita
terá usado como base o escritor Alexandre Dumas, no
livro datado de 1870, “Memórias de Garibaldi”,
no qual o escritor registra inúmeras conversas com
Garibaldi e que foi traduzido para o Brasil por Antonio Caruccio-Caporale.
Essas obras constituem os principais parâmetros que
sedimentam o campo compreendido entre o mito Garibaldi e a
História. Uma crítica textual — que não
cabe nessa nossa proposta, apenas aNúncia-se, poderia
salientar o aspecto assinalado por Man (1979, in SARLO, 2006,
p.31) que, ao seguir uma autobiografia, está-se diante
da auto-referência do eu, onde
“ a consciência de si não é
uma representação, mas a ‘forma de uma
representação’, a figura que indica que
uma máscara está falando. Fala o personagem
(persona, máscara do teatro clássico), que não
pode ser avaliado em relação à referência
que seu próprio discurso propõe, nem pode ser
julgado (como não se julga o ator) por sua sinceridade,
e sim por sua apresentação de um estado de “sinceridade[...].”
Esse estado de “sinceridade” foi predominante
na leitura sobre Garibaldi para os comemorativos da Revolução
Farroupilha de 1935. Como foi a projeção da
representação da italianidade em Porto Alegre.
Leitura que se expressa na arte, nas festividades, na disseminação
da língua italiana. Por quê?
Poderia ser a mera repetição narrativa, que
adquire foro de verdade. Mas o importante é a versão.
As condições sócio-históricas
estão favoráveis. O mito é bom o suficiente
para a apropriação social dos italianos reunidos
numa conjuntura difícil, onde se decidia a inclinação
da política internacional brasileira diante da agudização
da cena européia. Um mito não é interrogável,
“é uma modalidade social de certeza”. (KOLAKOWISKI,
1990, in MITJAVILA, 1994, p.97)
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4 “Um apelo à colônia italiana”.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n.195, p.14, agosto
1931. O jornal fundado pelo sergipano Francisco Antonio Vieira
Caldas Jr., em 1895, foi o principal concorrente da “Federação”
do Partido Republicano. A visibilidade da presença
italiana pode ser acompanhada, como de fato, realizamos, ao
longo de sua tiragem diária, concentradamente entre
1920 e 1937. Foi mesmo um dos principais modos dessa auto-representação.
Todas as referências do Correio do Povo foram extraídas
da minha tese de Doutorado, “Uma cidade se conta...”,
relacionada na bibliografia.
5 GARIBALDI, Anita, 1931, p. 12-13. Além do diário,
a neta Anita escreve essa obra, considerada como referência.
Alexandre Dumas, em 1860, teria registrado inúmeras
conversas até publicar o livro “Memórias
de Garibaldi”. Traduzido por Antonio Caruccio-Caporale,
trabalhamos com a edição brasileira de 1998,
Memórias de Garibaldi/Alexandre Dumas. A autenticidade
da obra é assim apresentada pelo editor: “Entre
Dumas e Garibaldi a cumplicidade é total. O primeiro
assevera que as memórias foram escritas pelo segundo,
sendo ele apenas o editor... No entanto, nada é mais
evidente que a autoria de Dumas quando se trata de analisar
estas páginas [...].” DUMAS, 1998.
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De modo que seguir os passos da autobiografia
de Garibaldi tem o dom da confirmação ex-post.
De certo modo esse é o roteiro da escrita de Anita.
Com importantes registros de veracidade, como quando obtém
a carta de corsário de Garibaldi, em Montevidéu.
Documentos que corroboram a densidade do mito...
A circulação do mito
e as demais retóricas
No período que antecede e em que ocorrem os comemorativos
do Centenário da Revolução Farroupilha,
onde o mito Garibaldi é disputado, essas celebrações
extravasam uma leitura circunscrita ao local, ao regional.
Prendem-se à densa atmosfera da política internacional
no sentido da radicalização ideológica
entre distintos projetos políticos. Aqui, os mitos
são macro, dizem respeito à criação
de movimentos sociais tal como o nacional socialismo.
Por sua vez, o nível micro trata do papel do mito nos
universos simbólicos dos sujeitos, grupos, organizações.
Aproxima o cotidiano e convida o historiador a perceber que
o mítico é apreensível na/em ação.
Exige colocar-se “na pele dos atores”, para perceber
o “domínio das representações do
tempo e das representações de si”. (CORBIN,
in VIDAL, 2005, p.16-21). E o que fez Anita, perseguindo as
possíveis sensações e experiências
do vivido e relatado pelo célebre avô? Difícil
saber. Vale trazer Fernando Pessoa, quando afirma que nenhuma
época transmite à outra a sua sensibilidade,
apenas sua inteligência.
Já a relação com o campo lingüístico
é evidente6: a circulação do mito Garibaldi
carrega a língua italiana nos anos 30. Ao lado de Dante
e Petrarca, Garibaldi é referência para a assimilação
do universo lingüístico latino. Atua no programa
mais recente de aproximação Brasil-Itália,
quando a disseminação dos cursos de língua
italiana é fato consumado.
Seja nas Sociedades italianas, seja nos colégios, com
apoio do Governo italiano, os atos de abertura e encerramento
do ano letivo são prestigiados. Como o ocorrido na
Sociedade Dante Alighieri, sob a presidência de Rafael
Guaspari. Na solenidade de reabertura, em abril, estão
presentes “[...] o Comendador Barbarisi, Cônsul
da Itália neste Estado, figuras representativas da
colônia italiana aqui radicada, representantes da imprensa
local e cerca de 200 alunos inscritos nos cursos de língua
italiana [...].7
O mesmo ocorre no Colégio Americano, quando o professor
Gino Battocchio, diretor das escolas italianas em Porto Alegre,
coronel Tito Fernandes, professor do Ginásio, os representantes
da imprensa e diversos convidados assistem ao discurso da
professora Valentina Paiva. Como sempre, Garibaldi é
mencionado:
“[...] é nesta data tão sugestiva
para nós, que procurais estreitar mais esses laços
que uniam italianos e brasileiros, esta época em que
celebramos o centenário farroupilha, essa fase de nossa
história em que o coração do povo gaúcho
sente palpitar bem unido a ele o grande coração
de José Garibaldi, pelas íntimas revelações
de um objetivo comum, solidário conosco nos interesses
e aspirações do Rio Grande do Sul.”8
Também o uso de alegorias e imagens alinha-se para,
nesse sistema de representação do mundo desde
a italianidade acoplada à figura de Garibaldi, fazer
prevalecer o convencimento identitário e a mobilização
de poder. Como se a memória e a biografia do indivíduo
Garibaldi houvesse, por fim, realizado a utopia libertária
da qual se enunciou portador na autobiografia.
Trata-se de perfilar quais e como serão os usos de
alegorias e imagens acionados pelos grupos de italianos na
cidade. A iniciativa parte da diretoria da Sociedade Dante
Alighieri: para além das solenidades em comemoração,
a Natal de Roma e da Festa do Trabalho Italiano, já
está empenhada para a organização de
um Comitê Colonial com a finalidade de agregar aos comemorativos
do Centenário Farroupilha, a “colônia italiana
do Estado”.
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6 Ver a discussão do giro lingüístico
que dominou as Ciências Humanas desde os anos 1980,
predominantemente. As sociedades italianas no Estado atuam
em várias frentes, com destaque para a disseminação
da língua e da cultura latina. Dentre elas, em Porto
Alegre destaca-se a Sociedade “Dante Alighieri”.
Vinculada à Roma e espécie de sub-representação
político-diplomática italiana, a Sociedade não
é freqüentada além da pequena burguesia
instalada na cidade.
7 “Para maior aproximação ítalo-brasileira”.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLV, n.78, p.9, 4 abr.1935.
8 “O ensino da língua italiana nas escolas”.
Correio do Povo, ano XLI, n.86, p.14, abr.1935.
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A idéia da celebração através
das figuras emblemáticas tais como inscrições
em bustos, estátuas, monumentos, que trazem forte potência
de reforço à sensibilidade no entendimento de
si e do outro não está cogitada, desta vez.
Lançam a proposta de um “monumento social”,
isto é, uma subscrição para a construção
de um pavilhão para tuberculosos junto ao Sanatório
Belém, homenageando o cientista Carlo Forlanine. Imediatamente
aprovada, manifesta-se o Cônsul conforme “o programa
que V. S. me expôs relativo ao Centenário Farroupilha,
programa que virá realçar a participação
da Colônia Italiana a manifestação em
que o fervor do trabalho e do progresso coincide com o centenário
daquela epopéia que deu ao povo rio-grandense o supremo
bem da liberdade. – (ass. ) G. Barbarisi, Cônsul
Geral da Itália.9
Ainda vão reunir-se inúmeras vezes para tratar
desse assunto. Em uma delas formam, além do comitê
da Colônia, o sub-comitê dos Profissionais Descendentes
de Italianos. Mais uma vez rememoram a participação
de Garibaldi, de Rossetti e de Zambeccari. Semeadores das
idéias de liberdade dos povos, tal como escrevem os
cronistas, atuaram na implantação do regime
republicano no Rio Grande com Bento Gonçalves e David
Canabarro.
Tal entrelaçamento de italianos e rio-grandenses se
expressa no epílogo das gerações de italianos
e seus descendentes, conquistando posições na
intelectualidade. De desbravadores das matas, para a presença
na arte e na cultura da civilização moderna
no Estado, a odisséia dos imigrantes está completa,
discursam.
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9 “A colônia italiana e o sanatório
Belém”. Porto Alegre, ano XLI,.n. 105, p.12,
maio 1935.
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A disputa da memória da Revolução
Farroupilha
Nem tudo é consenso, no entanto. Na perspectiva historiográfica,
um objeto sensível como um quadro, por exemplo, reflete
tanto a experiência histórica do pintor, como
do momento histórico no qual se realiza. Como discurso
visual, sua significação pode ser contestada.
O suporte da discordância, de novo, está nas
páginas de jornal. Não é uma crítica
nem da figura, nem da alegoria, mas da incongruência
entre forma e contexto histórico. O historiador Souza
Docca, em artigo, esgrime argumentos:
“O Correio do Povo, de 4 de abril, estampou o quadro
do pintor rio-grandense José Francesco – ‘A
última visão de Anita Garibaldi’ –
onde a heroína brasileira deitada ‘tendo a seu
lado a figura simbólica da República de 35.
Ao fundo, em uma cavalgada da epopéia, aparecem duas
colunas de guerreiros farrapos, flâmulas ao alto, tendo
à frente Garibaldi e Bento Gonçalves.’
[...] A heroína, em seus últimos momentos, nenhuma
manifestação fez que se possa crer pensasse
ela na cruzada farroupilha. Não há, mesmo, em
sua correspondência conhecida, referências que
demonstrem que aquele passado de lutas era uma de suas preocupações,
de todos os momentos, especialmente nos lances arriscados
ou difíceis. Considerando-se as circunstâncias
em que a heroína morreu e as cenas patéticas
de seus últimos momentos, não se pode aceitar
a visão idealizada pelo artista. Anita, longe de seus
filhos pequenos, minada por uma febre palustre, em uma retirada
penosa, de muitos dias, depois de um destroço da coluna
comandada por Garibaldi e carregada nos braços deste,
atinge, agonizante, a casa do Marquês de Guiccioli.
Ali, no dia seguinte, sentindo que ia morrer, levanta-se da
cama, fita profundamente os olhos do esposo. Este, tomando-a
nos braços, a beija, em lágrimas. Ouve-se, nesse
momento, o som trágico dos tambores e trombetas dos
austríacos, em perseguição feroz. Anita
morre nos braços de Garibaldi, que a coloca sobre a
cama e foge, célere, dos perseguidores. Cremos, por
tudo isso, que “A última visão de Anita
Garibaldi”, por maior que seja o seu valor artístico,
nenhum valor tem como verdade histórica. A Revolução
Farroupilha é riquíssima em episódios
memoráveis e dignos de serem perpetuados na tela, por
artistas de talento, como José Francesco e, por isso,
é lamentável que se os despreze, pela fantasia.
Que quadro admirável e majestoso poderá dar-nos
o artista que fixe na tela a ‘Abertura da Assembléia
Constituinte’, no momento em que Bento Gonçalves
lê sua fala.[...] Temos, neste fato, uma magnífica
lição para os nossos pintores, que quiserem
empregar suas aptidões artísticas em quadros
históricos, onde a verdade deve ser respeitada e o
meio ambiente reproduzido com a maior fidelidade possível.
Abandonemos as lendas e as invencionices que se têm
criado e escrito sobre Garibaldi entre os farroupilhas.[...]
Não obstante isto, não nos é lícito
esquecer e cumpre-nos glorificar seus feitos, durante o tempo
que serviu nas fileiras rio-grandenses. Tem-se, entretanto,
exagerado [...] com esquecimento dos nossos, com maiores e
mais nobres dedicações na cruzada memorável.
[...] o herói italiano entrou para o serviço
da República Rio-grandense em 1838, quando ela atingia
o período áureo de seus triunfos, e abandonou-a,
em 1841, quando se iniciava o declínio de suas glórias.
Foram os braços dos brasileiros do Rio Grande e de
outras Províncias do Brasil, que iniciaram e sustentaram
a contenda, a custa de sacrifícios ingentes, a golpes
de heroísmos assombrosos, mantendo uma tenacidade sem
igual nos fatos de nossas lutas. Com essa falta de fundamento
histórico e com aqueles anacronismos flagrantes, se
tem criado uma lenda em torno de Garibaldi no Rio Grande do
Sul, lenda essa que ele não precisa para ser enquadrado
entre os heróis farroupilhas, mas que, lamentavelmente,
o tem sobreposto a vultos de proporções maiores
que as suas, quer no terreno das idéias, quer na constância
da luta, durante a cruzada homérica.”10
Na seqüência, os jornalistas Crocco, Carrazoni
e Barbieri11, sem investirem contra essa linha de argumentação
(recomendando prudência e rigor), retomam o discurso
glorificador. Como se deixar sem contestação
a linha de análise de Docca fosse prioritário
para os comemorativos. Em suma, além do mito, há
um modo mítico de construir discursos. É o que
fazem nas três crônicas a seguir. Crocco destaca
o caráter exilar. Lembra que, entre tantos, Machiavel
e Dante promoveram seus exílios ao defenderem seus
ideais. Que,
“depois da Revolução Francesa e da
coroação de Napoleão 1o, imperador e
rei da Itália, os maiores vultos e atletas do Risorgimento
Italiano nasceram e criaram-se, até certa idade, súditos
franceses. Giobert (em Turim), Mazzini (em Gênova),
Garibaldi (em Nizza ou... Nice), Cavour (em Turim), Zambeccari
(em Bologna), e assim Rossetti, Anzani e muitos outros, os
quais, depois de Waterloo, educados republicanamente, não
‘agüentaram’ mais os paternos governos austríacos
e borbonios, e foram na Espanha ou em Portugal a defender
a constituição liberal ou vieram para este sul
em defesa de seus ideais em auxílio dos heróicos
correligionários.”
Para Carrazzoni,
“[...] Não pode haver patriotismo, e patriotismo
como função da terra e da história, sem
o culto dos antepassados, o respeito da tradição,
o sentimento de ativa e militante solidariedade que, através
de um complexo de ações e reações,
une os homens de hoje às gerações de
ontem. Arco-íris romântico abrindo entre tormentas
de ódios e paixões, nem o poema idílico
do coração humano falta ao drama dos Farrapos:
Garibaldi, ‘condottieri’ e apóstolo, compõe
a pastoral americana do seu destino, com a sonhadora mulher
que – ‘Belíssima filha do Continente’
– havia de ser, como ele, a heroína de dois mundos.
São essas figuras que varam as névoas dos tempos,
enchendo a história de transfigurações
poéticas, ou legendas, e de deformações
líricas da realidade, ou mitos [...].”
Por último, Barbieri alinha os ideais da liberdade,
da fraternidade e da igualdade, “um século agoniza
sobre a glória dos Farrapos, outro século surge.
O século que morre traz ao século que vem avançando
de dentro das brumas do tempo uma tocha imensa, como que para
iluminar às gerações vindouras o caminho.
Que caminho será?”.
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10 DOCCA, Souza. A última visão de Anita
Garibaldi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.106,
p.3, 7 de mai 1935
11 CROCCO, Gesualdo. Um italiano “Farroupilha”.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.147, p.3, 25 jun
1935. CARRAZONI, André. Mitos, símbolos, emblemas.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.211, p.3, 8 set.
1935; BARBIERI, Sante Umberto Barbieri. Os Farrapos atiram-nos
a tocha! Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.219, p.14,
19 set.1935.
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As representações que
se querem eternizar:
do migrante ao general
Embora a proposta da celebração farroupilha
pela comunidade italiana eleja a construção
de ala no Sanatório Belém, monumentos serão
erigidos. Dentre eles, aquele que homenageia o trabalho do
migrante. É importante solidarizar os mitos.
O escolhido em Porto Alegre é o obelisco que homenageia
a odisséia de Vicente Monteggia, o “fundador
do moderno centro agrícola”, na Vila Nova, na
Barra do Ribeiro, margem direita do Guaíba, e a alguns
quilômetros de Porto Alegre. A inclusão desse
evento na programação oficial Farroupilha desvia
o foco sobre a memória dos italianos revolucionários
e faz incidir luminosamente a função da migração
e colonização no Estado, ocorrida volumosamente
desde o século anterior. Mas é preciso registrar
que, em 1930, a Itália já vem reduzindo a sua
imigração, antes mesmo da implantação
dos sistemas de cotas pelo governo brasileiro.12
Falecido em 1933 e nascido em Laveno, ao sul do Lago Maggiore,
Vicente percorre a Tunísia, Marcela, antes de vir para
América, Rio Grande do Sul. Foi industrial, agricultor,
organizador de empresas, construtor e técnico de estradas.
Considerado como “uma das individualidades mais representativas
da colônia italiana”, o professor Francisco Benoni
identifica que Vicente “sintetizava a homenagem a milhares
de imigrantes,(sic) voluntários, por circunstâncias
várias, e, por isso, esse simpático feito ecoaria
entre a colônia italiana e se enraizaria no coração
dos muitos sobreviventes que familiarizavam com o nobre povo
rio-grandense, há mais de sessenta anos [...]”.
A presença do Cônsul geral da Itália,
representantes das sociedades italianas, alunos das escolas
ítalo-brasileiras e italianas em geral prestigiam o
evento.13
No ano seguinte, em 15 de janeiro de 1936, ocorre a inauguração
mais esperada: a estátua eqüestre de Bento Gonçalves
esculpida por Antonio Caringi. O pedestal da estátua
se levantará em frente ao pórtico da Exposição
Farroupilha em Porto Alegre. Para a prefeitura da cidade de
Pelotas, traz a escultura em bronze da “Sentinela farroupilha”.
Diz em entrevista: “aproveitei então a ocasião
de homenagear o gaúcho pobre, o rebelde humilde, o
soldado farrapo, o peão da estância.[...] em
que reproduzo a sentinela de 35 com a fisionomia máscula
do índio charrua, trazendo a indumentária aqui
usada há um século: o xiripá, o poncho,
bota de cano a meio-pé, o lenço ao pescoço
com o laço de 35”. Ainda são dele as duzentas
e cinqüenta medalhas com a efígie de Bento Gonçalves
[...].Toda a imprensa européia, diz Caringi “evoca
o decênio formidável dos rebeldes dos pampas
e recorda a ação de seus líderes e o
perfil atrevido e glorioso de sua figura máxima –
Bento Gonçalves.[...] esculpindo o general do grande
levante e a sentinela anônima e imprescindível
do decênio farrapo, Caringi cultua uma das mais garbosas
etapas do “pugilato milenar entre o cativeiro e a liberdade”.14
No discurso de inauguração o deputado Dario
Crespo, descendente de Bento Gonçalves (bisavô),
“[...] ao raiar o ano memorável de 1835, o Rio
Grande estava mobilizado para a grande luta. É que
já se formara uma consciência coletiva. A iluminá-la,
a chama de um verdadeiro ideal. [...] nunca o Rio Grande foi
menos ele próprio, nunca pensou e obrou por si mesmo,
do que durante a revolução farroupilha”,
é que o Rio Grande excedeu-se a si próprio,
tocado de um nobre idealismo, pensando e agindo pelo Brasil,
que desejava unido pelos laços federativos, sob o regime
republicano.”
Desta feita a inauguração atenua a soldadura
narrativa que aproxima o mito Garibaldi à italianidade
e à Revolução Farroupilha. A mesma reconstitui-se
quando da oferta, finalmente, ao Sanatório Belém,
de 120 contos de réis e de todos os móveis e
utensílios para o Pavilhão Forlanini. Estamos
próximos do fim das celebrações dessa
conjuntura.
Finaliza o período com a inauguração
dos retratos de Garibaldi e Anita, de Zambeccari, Anzani,
Costellini etc., na sala das recepções da Dante
Alighieri (Itálica Domus) e da exposição
de uma grande coroa de louros no obelisco erigido no Campo
da Redenção como lembrança do Cinqüentenário
da Colonização Italiana no Rio Grande, no qual
figuram os medalhões em bronze de Zambecari e a placa
com os nomes de todos os italianos que participaram da campanha
farroupilha.15 A cidade de Viamão recebe uma lápide
na fachada do edifício da Prefeitura Municipal em homenagem
à memória de Luiz Rossetti, morto em combate
no Passo do Vigário, em 1840, estendendo os comemorativos
para a histórica cidade.
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12 1920,10.0055;1923,15.839;1927,12.487;1930,4.253;1933,1.1920;1934,1.389
e, provavelmente em 1935, 1.266. PIERINI, Sylvio. Cotas de
imigração. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XLII, n.7, p.3 26 mar 1936.
13 “Inauguração de monumento”. Correio
do Povo, Porto Alegre, ano XVL, n.280, p.4, 1 dez 1935.
15 UMA HORA de palestra com o escultor Ângelo Guido.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 280, p.14, 1 de
dezembro 1935; FOI INAUGURADA ontem, a estátua eqüestre
de Bento Gonçalves. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XLII, n.13, p.16 janeiro 1936. A descrição:
“ O major Alberto Bins convidou os generais, o Governador
do Estado, Flores da Cunha e Parga Rodrigues, para puxarem
as cordas, afim de assim descobrir a estátua, que estava
coberta com bandeiras nacional e rio-grandense.[...] Nas faces
laterais, há também baixos relevos, simbolizando
cargas de cavalaria rio-grandense. Na frente, há apenas
os dizeres: “Bento Gonçalves – 1835"
e na parte posterior, três frases artisticamente trabalhadas.
A primeira delas tem os seguintes dizeres: “Aos heróis
farroupilhas, homenagem da aviação naval, 20-9-1835
– 20-9-1935". No centro, a outra com esta dedicatória:
“Homenagem da Prefeitura aos heróis de 1835.
[...] Finalmente, a ultima das placas tem estas palavras:
“A guarnição do couraçado “Rio
Grande do Sul”, ao povo gaúcho, simbolizado no
seu grande herói farroupilha – Porto Alegre,
20-9-1935.”
16 A COLÔNIA italiana e o Centenário Farroupilha.
Correio do Povo, Porto Alegre ano XLII,n.276,p.15, 22 nov
1936.
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Considerações finais
As descrições de homenagens, a citação
fragmentada de discursos, a repetição da labiríntica
autobiografia de Garibaldi e a bibliografia de desequilibrada
qualidade que se lhe seguiu, são rastros do espaço
social de uma dada construção mítica.
Vimos como essa pode ser capturada numa conjuntura, como nesses
anos 30. Não se compreende nada sobre o mito se não
é posto à prova da sua adequação
e funcionalidade para os sujeitos, os grupos, as instituições.
Dialética em movimento, o herói necessário
surge quando e como se faz carne e espírito.
Para o conhecimento histórico, é desejável
a busca do regime de verdade onde possa se distinguir a utilização
da memória, na construção do fato histórico.
Assim como destacar o fator gerador de realidades, através
das representações sociais que se impõem
numa dada conjuntura.
Os comemorativos aqui relatados, na sua pompa e discursividade,
mais que salvar do esquecimento a figura de Garibaldi (e outros),
pretenderam celebrar uma continuidade mítica que, na
verdade, inexiste. As circunstâncias possibilitaram,
não obstante, tal amálgama. O herói projetado
pelo coletivo e o sujeito histórico singular podem
— como devem — ser confrontados pela pesquisa
histórica. São, ambos, faces do perspectivismo,
atitude do conhecimento desinteressado, e, exatamente por
isso, aquele que realmente faz avançar a representação
de si e do outro; o imaginário construído para
dar conta da revelação da historicidade implicada
nisso tudo é nossa tarefa.
Os comemorativos do Centenário da Revolução
Farroupilha, conforme a estratégia textual adotada,
pretenderam exemplificar essa possibilidade.
Referências bibliográficas
DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Tradução
de Antonio Caruccio-Caporale. Porto Alegre: L&PM, 1998.
BRUM, Rosemary Fritsch. Uma cidade que se conta.
Imigrantes italianos e narrativas no espaço social
da cidade de Porto Alegre (1920-1937). 2003. Tese (Doutorado),
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul, Porto Alegre, 2003.
GARIBALDI, Anita. Garibaldi na América. Tradução
de Renato Travassos. Rio de Janeiro: Alba, 1931.
MITJAVILA, Myriam. Sobre a densidade social do
mito. Notas para uma leitura sociológica do tema.
Plural: São Paulo: USP, 1;87-105.1 sem.1994
SARLO, Beatriz. Cultura da memória e guinada subjetiva.
São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG,
2007.
VIDAL, Laurent. Alain Corbin. O prazer do historiador.
Rev. Bras. Hist. São Paulo. v 25 n.49, 2005.
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