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Mensagem do Ministério Público
Mauro Henrique Renner
 
Mensagem do Ministério Público
Ricardo Vaz Seelig
 
Palavra dos Editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
 
Apresentação
Roberto Speciale
 
Introdução
Annita Garibaldi Jallet
 
O mito de Garibaldi: origem e significados no Cone Sul até 1907, ano do centenário de seu nascimento
Pietro Rinaldo Fanesi
 
Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para a América Latina
Maria Pace Chiavari
 
O “aprendizado” de Garibaldi na América Latina: a “scuola delle palle” e a “escola moral”
Anna Maria Lazzarino Del Grosso
 
Garibaldi: republicano e revolucionário internacional
Carmen Lícia Palazzo
 
Memória de Garibaldi e a construção da identidade entre italianos no
Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
 
A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário da Revolução Farroupilha
Rosemary Fritsch Brum
 
Garibaldi: a gênese do mito
Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
 
Garibaldi na América do Sul
Yvonne Capuano
 
Livro Completo
 
 
 
Patrocinio Cultural:
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Garibaldi: a gênese do mito


Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
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Historiadores e pesquisadores do Memorial do
Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul

“Heróis são símbolos poderosos, encarnações de idéias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos. Não há regime que não promova o culto de seus heróis e não possua seu panteão cívico.”1

Introdução

Sob essa perspectiva — do culto aos heróis como pontos de referência e de identificação coletiva — podemos desvelar de que maneira alguns personagens são retirados de uma condição de obscuridade e alçados à posição de destaque e por que outros, de notória influência e participação em determinados episódios, — no caso da Revolução Farroupilha, por exemplo, Silva Tavares, Bento Manoel, Francisco Pedro — são relegados a uma condição de “esquecimento”.

Com base nesses breves indicativos pretendemos situar a atuação de Giuseppe Garibaldi na Revolução Farroupilha, ou melhor, analisar de que maneira o corsário da República Rio-Grandense, um dentre muitos estrangeiros a lutar ao lado dos farroupilhas, alcançou posição de destaque no panteão dos revolucionários.

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1 CARVALHO, José Murilo. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 55.

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Nesse sentido, procederemos a uma análise diacrônica de como a participação de Garibaldi foi sendo concebida e reproduzida por escritores, historiadores e políticos no Rio Grande do Sul. Levaremos em conta três momentos: em primeiro lugar, Garibaldi visto pelos seus contemporâneos farroupilhas; em segundo, os primeiros trabalhos produzidos e publicados sobre o tema, entre o quartel final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, quando Garibaldi já estava consagrado como herói da unificação italiana e, finalmente, o terceiro momento correspondente ao período que vai da criação, no início dos anos vinte, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS) até as comemorações do cinqüentenário da morte de Garibaldi, em 1932, quando surgem estudos e obras especializadas sobre Garibaldi e a Revolução Farroupilha.

Não é pretensão deste estudo fazer a apologia de Garibaldi, tampouco buscamos a desconstituição do mito do “herói dos dois mundos”. Nosso esforço é no sentido de compreender a atuação do sujeito histórico no seu tempo, premido pelas estruturas de sua época e, a partir daí, entender como foram surgindo as representações acerca de Garibaldi: de corsário a herói farroupilha.

Para tanto, é preciso ter em conta que os relatos acerca da atuação de Garibaldi, que serviram para criar a sua imagem heróica, têm como principal fonte suas próprias Memórias. Conforme Paulo Markun explica:

“Sua trajetória não foi documentada como a de outras figuras históricas da mesma dimensão, seu grupo dissolveu-se sem deixar arquivos, suas batalhas não seguiam nenhum plano preestabelecido que permitisse recriá-las e ninguém anotava seus passos. Em suas cartas, deixou de lado experiências pessoais.”2

Garibaldi começou a escrever as suas memórias em Tânger, em 1849. Fugido da Itália e atuando como comerciante, preencheu centenas de folhas de papel de carta com a sua própria letra. A partir dessas anotações foram feitas, ao menos, cinco versões: a de Theodore Dwight, publicada nos EUA, em 1859; a de O. Fere e R. Hyenne, publicada na França em 1859; a de Francesco Carrano, publicada na Itália (Turin) em 1860; a de Alexandre Dumas, publicada na França (Paris) também em 1860; e a da baronesa Marie Espérance von Brandt (Elpis Melena), publicada na Alemanha (Hamburgo) em 1861. Nenhuma dessas versões é fiel ao manuscrito de Garibaldi, que está no Arquivo do Estado de Roma. A mais conhecida, todavia, e que se tornou a biografia de Garibaldi por excelência, é a de Alexandre Dumas.

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2 MARKUN, Paulo. Anita Garibaldi: uma heroína brasileira. 5ª ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2003, p. 166.

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Garibaldi na Revolução Farroupilha

Os indícios da época apontam Garibaldi como um dos tantos estrangeiros que se bateram pela causa farroupilha. Dos jornais da época, apenas O Povo menciona Garibaldi. Esse foi o periódico mais importante da República Rio-Grandense e circulou durante um ano e nove meses em Piratini e Caçapava.

Garibaldi foi mencionado nas páginas de O Povo pelo menos 11 vezes, entre setembro de 1838 e novembro de 1839. Trata-se de ofícios, comunicados e expedientes de caráter oficial.

Os números de 4 de maio e de 10 de agosto de 1839 fazem referência à atuação de Garibaldi em dois momentos. O primeiro relata a defesa da Estância do Brejo, quando do ataque de Moringue, em 17 de abril de 1839:

“O comandante da Esquadrilha da República continua a dar provas não equívocas de seu civismo e bravura: eis a ordem do dia por ele endereçada aos valentes de tripulação dos vasos a seu mando, que em número de 11 rechaçaram 150 cativos que os foram atacar .”3

O segundo conta a travessia por terra dos lanchões Seival e Farroupilha, comandados pelos “honrados e corajosos Garibaldi e Rossetti”.4

Os demais jornais farroupilhas consultados não mencionam Garibaldi. Todavia, tanto O Mensageiro, quanto O Americano e Estrela do Sul (esses dois últimos de Alegrete), cobrem períodos em que o italiano não estava no Rio Grande do Sul.

Os jornais legalistas a que temos acesso igualmente não falam de Garibaldi. O Artilheiro menciona Bento Gonçalves, Bento Manoel, Onofre Pires, Corte Real, Pedro Boticário, David Canabarro, Antônio de Souza Netto, Rafael Calvet, Marques Alfaiate e Teixeira Nunes. O Imparcial, que circulou de 22 de outubro de 1844 até o final do movimento (mais precisamente, até 1849), tampouco fala do italiano. Nessa época, Garibaldi estava em Montevidéu. O periódico dá muitas notícias da capital uruguaia, mas não menciona Garibaldi.

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3 O Povo, 4 de maio de 1839, n.º 63, 3º boletim de Caçapava.

4 O Povo, 10 de agosto de 1839, nº , 7º boletim de Caçapava, p. 4.

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O número expressivo de citações em O Povo não significa que Garibaldi tivesse um destaque maior do que os demais oficiais envolvidos no movimento farroupilha. Diversos oficiais são citados até porque o jornal era um instrumento de comunicação entre as tropas e os comandantes. Não havia notícias propriamente ditas no periódico. Havia avisos oficiais, como os decretos e proclamações do comando da revolução, ofícios e circulares, artigos de cunho ideológico e anúncios para compra e venda de escravos e outros produtos.

Na extensa correspondência de Bento Gonçalves da Silva, há apenas duas referências a Garibaldi. Uma delas é a carta de corsário, que foi reproduzida em O Povo, datada de 10 de junho de 18385. A outra consta numa carta do líder Bento Gonçalves ao genro, com data de 26 de agosto de 1842, na qual narra os acontecimentos de que toma parte Garibaldi, já no Uruguai.

Episódio interessante é o envolvimento de Garibaldi com Manoela, sobrinha de Bento Gonçalves, narrado nas Memórias e conhecido do público em função de sua exploração em uma minissérie de televisão6. Tal registro afigura-se importante porque apresenta indícios da maneira como Garibaldi era visto por seus contemporâneos. A história, que já foi até tema de romance7, é atraente também por humanizar os heróis farroupilhas, Garibaldi e Bento Gonçalves: o primeiro, homem apaixonado disposto a se casar sem maiores reflexões; o segundo, tio zeloso, preocupado com a sorte da sobrinha. Manoela, igualmente, fornece um contraponto à Anita: a sinhazinha frágil em oposição à camponesa guerreira.

O namoro com Manoela, de fato, ocorreu. Não só Garibaldi o recorda nas Memórias, como existem outros indícios. Cartas de Luigi Rosseti a João Batista Cuneo relatam que Garibaldi estava apaixonado e que pretendia se casar:

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5 Coletânea de Documentos de Bento Gonçalves da Silva – 1835-1845 – Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Comissão Executiva do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha, Subcomissão de Publicações e Concursos, 1985, p. 61.

6 A Casa das Sete Mulheres exibida pela Rede Globo de Televisão em 2003.

7 GUIMARÃES, Josué. Garibaldi e Manoela: Uma história de amor. Porto Alegre: L&PM, 2002.


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“19 de janeiro, 1839, Piratini.
Fratello:
(...) Garibaldi esteve gravemente doente. Mas restabeleceu-se e ameaça se casar. Me escreveu pedindo que eu lhe sirva de mentor. Imagine se o farei. Depois de amanhã, como o governo me pediu para ir acompanhar o trabalho dos marinheiros, partirei para vê-lo e farei com ele aquilo que um amigo faria na mesma circunstância. Se for adiante, então não terei remédio e eu mesmo o forçarei a cumprir o seu dever. Não sei quem seja a tirana.”8


Outra carta, de 9 de fevereiro de 1839, volta ao tema: “(...) Garibaldi está apaixonado e ameaça se casar. Mas não vai fazê-lo, de jeito nenhum. Ele me prometeu”.9

Ao que tudo indica, os amigos eram contrários ao relacionamento que implicaria o abandono da causa revolucionária por Garibaldi. Se casasse com Manoela, Garibaldi teria de se estabelecer como estancieiro, deixando a incerta vida de aventuras. Apesar do descontentamento dos amigos, foi Bento Gonçalves quem acabou com o romance. Disse a Garibaldi que Manoela estava prometida ao seu filho Joaquim. Não era verdade. Bento Gonçalves recebia Garibaldi em sua casa, mas considerava-o um aventureiro, um homem indigno de desposar uma sinhazinha de família tradicional como Manoela. O historiador Otelo Rosa, após uma palestra proferida em 4 de julho de 1932, no Theatro São Pedro, por ocasião das comemorações do cinqüentenário da morte de Garibaldi, recebeu uma carta de Otacílio Ferreira, descendente de Manoela. Ele relata:

“O suposto noivado com seu primo, filho de Bento Gonçalves, não passou de um pretexto de seus pais para recusarem o pedido de Garibaldi, pois embora o recebessem em seu lar e o cumulassem de gentilezas não deixavam de considerá-lo como aventureiro, motivo pelo qual opuseram-se ao casamento.”10

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8 MARKUN, Paulo. Op. cit. p. 116. A carta é citada por SALVATORE,Candido. La rivoluzione riograndense nel carteggio inedito di due giornaliste mazziniani: Luigi Rosseti e G. B. Cuneo, 1837-1840. Florença: Valmartine Editora, 1973, p. 75-76.

9 Ibidem. p. 117.

10 Cincoentenário da morte de José Garibaldi. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. II trimestre, ano XII. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1932, p. 254-256.

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Nesse passo, há um contraste entre o que se lê nas Memórias e o que ficou registrado nos documentos da época. Nesse sentido, vejamos como Garibaldi relatou sua relação com o chefe farroupilha Bento Gonçalves: “No dia em que nos encontramos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal; e conversávamos com tanta familiaridade como se fôssemos companheiros de infância e iguais em posição11”.

Os chefes civis e militares farroupilhas, em sua maioria, eram estancieiros e escravocratas. Não havia espaço, nos postos de comando, para outros segmentos sociais. Garibaldi, um entre tantos estrangeiros a se bater por uma causa que não era sua, não era visto como um igual. De fato, dos documentos compulsados, aqueles que apresentam de maneira mais clara e precisa a condição dos estrangeiros na Revolução Farroupilha são as cartas de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida. Da carta datada de 11 de agosto de 1839, quando Rossetti estava já em Santa Catarina, como secretário de governo da efêmera República Juliana, colhemos a seguinte passagem, bastante elucidativa:

“O General Canabarro escreveu não sei se ao governo ou ao General Netto. (...) Consta-me que ele também ou escreveu, ou queria escrever, ao Ministro José Mariano de Matos, lastimando que Garibaldi fosse o Comandante da Esquadrilha e eu o Secretário do Governo. (...) Sei que sou estrangeiro, e sei à custa de muitos desgastes que por nenhum modo me cansa defender os princípios que professo em emprego onde só se faz preciso a pena. Os guerreiros estimam que o estrangeiro combata ao seu lado, mas os letrados não gostam de ver um estrangeiro sentado ao mesmo escritório.”12

Em outra carta Rossetti reclama da falta de notícias sobre os acontecimentos da Revolução:

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11DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Porto Alegre: L&PM, 2002, p.73.

12 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 11 de agosto de
1839. Coleção Alfredo Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.

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“Não sei nem posso entender como tudo isso andasse perdido. Garibaldi também nunca recebeu uma só linha do Governo, e é muito de admirar que desde um ofício por nós recebido no Camaquã depois do dia 14 de abril não recebemos nunca mais uma linha nem amistosa nem oficial e não esconderei a esse respeito que nós estávamos bem decididos a não nos queixarmos e esperar melhor justiça do tempo.”13

Pelo teor do documento fica patente a fragilidade das comunicações, se considerarmos que Rossetti era um secretário de Estado e Garibaldi, o comandante da esquadrilha farrapa, bem como o fato de que os estrangeiros não tinham praticamente acesso às decisões tomadas pelos chefes farroupilhas. As cartas de Rossetti são, ainda, elucidativas também ao precisar o papel de Garibaldi: (...)”dirigira-se [Garibaldi] à Barra do Rio de Janeiro, onde certamente fará muito mais estrago”. (...) “Garibaldi já fez quatro presas, mas desafortunadamente duas delas foram separadas da Caçapava que as conduzia por um temporal e uma foi retomada pelo inimigo. Estão hoje descarregando uma outra em Imbituba”.14 Enfim, as cartas delimitam bastante bem qual era a função de Garibaldi: a de corsário.

Alguns anos depois, surgiu um documento que muito confundiu os historiadores: uma carta de Garibaldi para Domingos José de Almeida escrita em 10 de setembro de 1859. Na carta, o italiano, exaltando a coragem e a capacidade guerreira dos rio-grandeses, afirma: “(...) quando penso no acolhimento com que fui recebido no grêmio das suas famílias, onde fui considerado como filho”.15 Passados quinze anos dos acontecimentos em solo gaúcho, Garibaldi parece ter selecionado as melhores memórias. Há um nítido contraste entre os registros da época e essa carta que foi bastante difundida.

Um outro documento daquela época dá pistas a respeito de Garibaldi contemporâneo da Revolução Farroupilha. No ano de 1849, foi publicado em forma de folhetim no jornal O Americano, do Rio de Janeiro, o romance O Corsário, de José Antônio do Vale Caldre e Fião. A história se passa no Rio Grande do Sul durante a Revolução Farroupilha. O corsário em questão não é Garibaldi, embora num primeiro momento pareça que esse serviu de inspiração para o protagonista Giuseppe Vanzini: aventureiro, louro, longos cabelos, conquistador16. O que desfaz a identificação é o fato do próprio Garibaldi ser citado duas vezes no romance.

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13 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 1º de agosto de 1839. Coleção de Alfredo Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.

14 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 30 de outubro de 1839. Coleção Alfredo Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.

15 A FEDERAÇÂO. 4 de julho de 1907.

16 CALDRE E FIÃO, José Antônio do Vale. O Corsário. Porto Alegre: Movimento, Instituto Estadual do Livro, 1979, p. 14. Guilhermino Cesar, na introdução, identifica Garibaldi com Vanzini
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Caldre e Fião foi contrário à Revolução Farroupilha. Devemos, portanto, considerar a sua palavra com cautela. Contudo, seu relato destaca a função que Garibaldi desempenhou no movimento: a de corsário.

Numa passagem, Manoel da Cunha, legalista relata:

“Contava-se ainda mais, como cousa certa, que um dos companheiros de Garibaldi, que com ele tinha feito as mais infames piratarias na Lagoa dos Patos, era o que comandava e dirigia essa reunião. Algumas das famílias que existem ainda por aí queixaram-se amargamente de se verem expostas a visitas desses ladrões, aves de rapina que levavam consigo quanto encontravam, ainda mesmo dos mais pobres...”17

Mas adiante, o mesmo Manoel da Cunha afirma, comparando Garibaldi a Vanzini, “o seu comandante era Vanzini, porque Vanzini servira com Garibaldi, e porque ele era, como Garibaldi, um homem amigo da pilhagem”.18

Por outro lado, o fato de mencionar Garibaldi no romance mostra que a participação do italiano na Revolução era conhecida. Além de Garibaldi, Caldre e Fião menciona Bento Gonçalves (que aparece em diversas passagens), Gomes Jardim e Tito Lívio Zambeccari, esse último de forma negativa.

Garibaldi e a propaganda republicana 1880-1920

O período que compreende o término da Revolução Farroupilha até a instauração do regime republicano, em 1889, não foi propriamente fecundo no que diz respeito à publicação de trabalhos referentes ao “Decênio Heróico”. Isso se deve à consolidação do Segundo Reinado e ao sistema político subjacente a ele. Dentre os produzidos, excluindo-se “Guerra Civil no Rio Grande do Sul”, de Tristão de Alencar Araripe, trazido a lume em 1881 — tida como a primeira obra impressa a tratar sistematicamente sobre a quadra revolucionária —, visivelmente contrária aos farroupilhas, os demais apresentavam caráter panfletário.

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17 CALDRE E FIÃO, José Antônio do Vale. Op. cit. p. 256.

18 Ibidem.

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Tristão de Alencar Araripe, nascido no Ceará, exerceu diversos cargos políticos pelo Partido Conservador, entre eles, o de presidente da Província do Rio Grande do Sul, de 4 de abril de 1876 a 5 de fevereiro de 1877. Era visivelmente contrário aos revolucionários de 1835, aos quais trata com indisfarçável menoscabo, principalmente a seus líderes, em especial Bento Gonçalves. No que diz respeito a Garibaldi, há apenas breves passagens em seu trabalho:

“A república jamais teve força naval; apenas José Garibaldi, esse que posteriormente constituiu-se herói na Itália, sustentando a causa da unificação da sua pátria, comandou alguns lanchões, que foram logo tomados pela marinha nacional.”19

Mais adiante, após referir-se a Garibaldi jocosamente como pirata, relata brevemente o combate de Laguna em que os republicanos perdem definitivamente o controle sobre Santa Catarina:

“A força imperial teve, entre mortos e feridos, 180 pessoas, isto é, mais de um décimo da sua totalidade, e os rebeldes contaram mais de 200. Daqui podemos avaliar do encarniçamento do combate. Os comandantes de todos os navios rebeldes foram mortos, à exceção de seu chefe José Garibaldi.”20


Mais interessante, contudo, é que as fontes utilizadas por Araripe foram as próprias Memórias de Garibaldi: “Nas Memórias de José Garibaldi, publicadas por Alexandre Dumas, se diz que do navio, onde comandava esse caudilho, só ele escapou vivo”.21

Julio de Castilhos, em editorial de A Federação, de 26 de setembro de 1886, caracterizou Araripe como “fazedor de crônicas oficiais” e anunciou as respostas da “nova geração rio-grandense”.

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19 ARARIPE, Tristão de Alencar. Guerra Civil no Rio Grande do Sul: Memória Acompanhada de documentos lida no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Porto Alegre: Corag, 1986, p. 88. Obs. Ed. fac-similar do original publicado: Rio de Janeiro: E. & H Laemmert, 1881.

20 ARARIPE, cit., p. 98.

21 Ibidem.

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Referia-se Julio de Castilhos às obras: História da República Rio-Grandense, de Joaquim Francisco de Assis Brasil (1882) e História Popular do Rio Grande do Sul (1882), de Alcides Lima, embora somente o primeiro trate especificamente da Revolução Farroupilha. Outra obra, A Revolução de 1835 no Rio Grande do Sul, de Ramiro Fortes Barcellos, surge em seguida (1885). Obras de feição republicana, as duas primeiras, elaboradas sob encomenda do Clube Republicano 20 de Setembro, procuram justificar as razões da revolta e a incapacidade do poder central de compreender as “justas” reivindicações do Rio Grande, o que teria sido a causa precípua dos eventos que levaram à proclamação republicana.

No que diz respeito a Garibaldi, limitam-se a descrever brevemente os principais episódios de sua atuação. Vejamos o que diz Barcellos:

“Em 1838 este ilustre italiano veio novamente prestar os seus serviços à causa rio-grandense, à qual serviu com aquela dedicação e com aquela bravura, que o tornaram um dos homens mais notáveis na sua pátria e um dos mais admirados no presente século.”22

À evidência, Ramiro Barcellos, propagandista republicano, senador pelo Rio Grande do Sul entre 1890 e 1906, não estava se referindo ao corsário estrangeiro que se colocara a serviço das armas rio-grandenses, mas, tecia elogios ao herói da unificação italiana. Já Assis Brasil, também um dos principais próceres republicanos no Rio Grande do Sul, primeiro deputado do PRR ainda no período do Império, tão somente alude à atuação de Garibaldi à frente da Marinha Rio-Grandense, por todos considerada, aliás, a maior fragilidade dos rebeldes. Para Assis Brasil, contudo, mais importante foi a atuação de outro italiano, Zambeccari, a quem considerava, com certo exagero, o “verdadeiro e real diretor mental” da revolução, sendo o responsável pelo “influxo que exerciam no Rio Grande as doutrinas da ‘Jovem Itália’ de Mazzini”23.

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22 BARCELLOS, Ramiro Fortes de. A Revolução de 1835 no Rio Grande do Sul. Ed. com fixação do texto completo do original publicado: Porto Alegre, Jornal do Comércio, 1882. Porto Alegre: C omissão Executiva do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha - Corag, 1986.

23 BRASIL, Joaquim Francisco de. A Guerra dos Farrapos: História da República Rio-Grandense. (1º ed. 1882) Rio de Janeiro: Andersen, 1930, p.71.

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Foi, todavia, nas páginas do jornal A Federação que os jovens republicanos afirmaram sua identidade com os farroupilhas. Na edição comemorativa ao cinqüentenário da Revolução Farroupilha, em 1885, apareceram referências a Garibaldi e à Itália. O 20 de setembro é também a data que simboliza a unificação italiana, com a entrada do exército do Piemonte em Roma, completando o processo de unificação. Assim, na edição de 20 de setembro 1885, há uma matéria fazendo alusão a esse evento:

“Glorioso para a província do Rio Grande do Sul, por recordar o grande feito revolucionário de 35, o 20 de Setembro relembra à Itália o fato soleníssimo da unificação da Pátria sublime de Dante, do excelso Mazzini, do severo Cavour e do imortal Garibaldi. A completa unificação da Itália há 15 anos representa a mais bela conquista da democracia, assegurando à Itália as liberdades que hoje a tornam notável entre os países monárquicos do velho mundo. Trabalhadores, enérgicos pensadores e altivos, os italianos transigiam com o governo da casa de Sabóia, mas cimentam maior grandeza futura. Aos patriotas de 70 — um bravo.”

Garibaldi surgia, então, nas páginas de A Federação, porém a referência não mencionava sua atuação na Revolução Farroupilha, mas na Itália. Conquanto tenha a unificação italiana ocorrido sob os auspícios de uma monarquia, a matéria não perdia o seu desiderato de propaganda republicana como se percebe na passagem assinalada.

A partir dos elementos até aqui apresentados, identificamos de maneira clara o processo de construção da imagem de Garibaldi como um dos heróis da Revolução Farroupilha. As obras consultadas, os livros e editoriais do Jornal A Federação, apresentam, de certa forma, a percepção que a elite política — e para o período também a elite cultural — tinha e que procurava reproduzir sobre a Revolução Farroupilha e, em especial, sobre Garibaldi. É sempre necessário enfatizar que as menções referentes a ele dizem respeito mais ao Garibaldi herói da Itália e menos ao Garibaldi corsário da República Rio-Grandense.

Com respeito ao apelo de sua figura nos meios populares, dispomos do Cancioneiro da Revolução de 1835, de Apolinário Porto Alegre. O jornalista colheu, após o final do século XIX, composições, versos e quadras a respeito da Revolução Farroupilha preservados na tradição oral.

“Reuni sob esta denominação as poesias colhidas da tradição oral do povo rio-grandense. (...) Os rudes bardos, em torno dos fogões dos acampamentos, ao som das violas dedilhadas vigorosamente, inspirados pelos sucessos da luta e paixões do momento, vazavam nos moldes de um verso tosco o que lhes ia pela alma.”24

Diversas quadras são dedicadas aos heróis da Revolução Farroupilha: Bento Gonçalves, Netto, Crescêncio, Corte Real, Lima e Silva, João Antônio da Silveira. Sátiras são dirigidas aos imperiais, em especial Bento Manoel Ribeiro e Silva Tavares. O que chama a atenção, contudo, é o fato de que, nessa grande quantidade de quadras, cerca de 55, não há nenhuma em que os feitos de Garibaldi tenham sido mencionados. A travessia dos lanchões ou o combate contra Francisco Pedro, o Moringue, em Camaquã, tão freqüentemente relembrados nos discursos e comemorações oficiais, foram simplesmente eclipsados no Cancioneiro da Revolução de 35. Assim, podemos inferir que Garibaldi e seus feitos não estavam tão presentes no imaginário popular do Rio Grande do Sul do século XIX. Considerando, ainda, o fato de haver quadras e sonetos destinados, por exemplo, a João Antônio da Silveira, e outros menos conhecidos, a ausência de Garibaldi se torna bastante significativa.

Com o fim da monarquia, o PRR foi alçado ao poder, inaugurando uma forma de dominação sobre o Estado e seu aparelho político e burocrático que se estenderia, de modo não inconteste, até a Revolução de 1930. Conforme Trindade, tentaram transformar sua situação, de classe política dirigente em nova classe dominante hegemônica, buscando o apoio de novos setores da oligarquia rural, ligada à agropecuária no Litoral e na Serra, e de segmentos das camadas médias urbanas (profissionais liberais, comerciantes e funcionários)25.

Começou, então, o trabalho de cooptação, através de uma “integração entre os vultos da pátria distante [a Itália] e os líderes políticos do estado”26. O próprio 20 de Setembro, comum às duas comunidades, podia ser comemorado conjuntamente; assim, nas comemorações da cidade de Caxias do Sul:

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24 PORTO ALEGRE, Apolinário. O Cancioneiro da Revolução de 1835. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1981, p.27.

25 TRINDADE, Hélgio. Aspectos Políticos do Sistema Partidário Republicano Rio-Grandense. In: DACANAL, José H. e GONZAGA, Sergius. RS: Economia e Política. Série Documenta. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1979, p. 144.

26 PESAVENTO, Sandra Jatahy. O Imigrante na Política Rio-Grandense. In: DACANAL, José H. e GONZAGA, Sergius. RS: Imigração e Colonização. Série Documenta. 2ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992, p. 169.

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“O jornal dos Republicanos [O Cosmopolita –20/09/1904 – Caxias do Sul 27] em 20 de setembro de 1904 publica na primeira página uma alegoria consistindo em um grande retrato de Borges de Medeiros, Governador do Estado, ladeado, no alto à esquerda, por Bento Gonçalves com a bandeira da República Rio-Grandense e o dístico “1835”; à direita, por Garibaldi, com a bandeira do Reino da Itália e o dístico “1870”; os dois seguram uma coroa circular, dentro da qual se lê ‘A união faz a força’, tudo a simbolizar a coligação dos colonos com os gaúchos”.28

Não por acaso, foi nesse período que começou a se falar de Anita. As obras, discursos e homenagens até então silenciavam a respeito da esposa de Garibaldi. Aqui a idéia de uma família ítalo-brasileira adquire importância. Claro que se omite o fato de Anita ter sido casada com outro homem antes de se unir a Garibaldi.

A invenção de cerimônias e a produção de monumentos públicos foram elementos largamente utilizados pela dominação castilhista-borgista, principalmente no processo de integração entre gaúchos e italianos. Com respeito a Garibaldi e, agora, Anita, os principais eventos foram as comemorações do centenário do nascimento de Garibaldi (1907) e a inauguração do Monumento a Garibaldi e Anita, em 1913, em Porto Alegre. Em todas essas ocasiões houve comemorações oficiais por parte do Governo do Estado em associação com a comunidade italiana e também com o consulado daquele país.

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27 O COSMOPOLITA, Caxias do Sul, 20 de setembro de 1904. Arquivo Histórico de Caxias do Sul.

28 AZEVEDO, Thales de. Italianos e Gaúchos; Os anos pioneiros da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: A Nação – Instituto Estadual do Livro, 1975, p.252. Citado também por PESAVENTO, Op. cit., 1992.

29 A FEDERAÇÃO, Porto Alegre, 04 de julho 1907.


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Em 4 de julho de 1907, o intendente José Montaury, pelo ato de nº 50, modificou o nome da praça da Concórdia para Praça Garibaldi. O descerramento da placa foi precedido por passeata pelas ruas do centro da cidade 29. Nos textos de A Federação, Garibaldi aparece como o que “amparou, com braço forte, magnânimo peito, e por vezes guiou”, os pioneiros que obtiveram a vitória final em 1889. O importante a destacar é que nesses textos nunca aparecem as descrições da atuação de Garibaldi durante a Revolução Farroupilha, embora as Memórias estivessem publicadas desde 1860 e as elites tivessem acesso a livros em francês. Anita ainda não é mencionada.

As comemorações oficiais do dia 20 de setembro de 1913 foram quase que exclusivamente dedicadas a Garibaldi e Anita. Nesse dia, em continuidade ao evento de 1907, foi apresentado ao povo porto-alegrense e gaúcho o monumento em homenagem a Garibaldi e Anita. O monumento foi o primeiro relativo à Revolução Farroupilha na capital, e foi oferecido pela colônia italiana 30. A Federação, de 19 de setembro de 1913, trazia estampada — ocupando a íntegra da capa — a imagem do monumento. Já a edição seguinte, do dia 22 de setembro, apresentou todo o roteiro da celebração, desde o “préstito” organizado pela comunidade italiana da capital, com a participação da guarda de honra da Brigada Militar. Da cerimônia participaram diversas autoridades, entre elas, o cônsul italiano no Estado, o intendente municipal, José Montaury, e o presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros.

O discurso de Ildefonso Pinto, representando Borges de Medeiros, dava parte de interesses comuns às duas nacionalidades que habitavam uma pátria comum:

“O monumento seria o símbolo imperecível da aliança dos elementos das duas nacionalidades, visando aos mesmos fins e tendo os mesmos interesses sociais, concretizados no desenvolvimento do Rio Grande do Sul, que se tornou a pátria comum.”31

Concatenavam-se, assim, os interesses políticos do partido dominante com os da comunidade italiana, em especial o grupo de comerciantes em processo de acumulação de capital, que, conforme Pesavento, “optou pelo apoio ao governo como forma mais vantajosa de ver atendidas suas reivindicações”.32

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30 O marmorista Carlo Fossati organizou a concorrência vencida pela empresa Fratelli Giorgini da Massa Carrara, de Carrara. A firma italiana contratou o pintor florentino Filadelfo Simi (1849-1923) para executar o monumento. ALVES, José Francisco. A escultura pública de Porto Alegre: história, contexto e significado. Porto Alegre: Artfolia, 2004, p. 59.

31 A FEDERAÇÃO, Porto Alegre, 22 de setembro de 1913.

32 PESAVENTO, Sandra Jatahy. Op. cit. p. 171-173.


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O interessante é que aqui aparece, pela primeira vez, a narração dos feitos de Garibaldi em solo rio-grandense. Diversos discursos lembram episódios de suas memórias, como a travessia dos lanchões ou o primeiro combate do qual Anita participou. Anita surge, nesse momento, com toda a força, não só no monumento, mas também como participante da vida do herói.

Garibaldi era um dos elos fortes da ligação entre gaúchos e italianos. É preciso destacar, contudo, que se por um lado o Governo do Estado tecia consideráveis elogios aos italianos — o próprio Castilhos havia chamado Caxias do Sul de “pérola da colônia” — exigia “(...) o engajamento ao partido no poder e, subjacentemente, respeito à hierarquia e autoridade”.33 Bem denotam essa situação os 113 italianos expulsos do Estado em 1907 e 1921, através da lei de expulsão de 1907.

Entre 1920-1932

Apesar da apropriação da figura de Garibaldi, exígua foi a produção historiográfica sobre sua atuação na Revolução Farroupilha. Essa situação somente se modificou no início dos anos 20, cujo “grande acontecimento foi a criação do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS)”.34

Esse sentimento nacionalista correspondia no Brasil à ascensão de Getúlio Vargas, a partir de 1930, no comando da Nação, assim como as lideranças de Hitler e Mussolini na Alemanha e Itália, respectivamente: “Não foi por acaso que o fascismo fez do cinqüentenário do aniversário de Garibaldi, em 1932 — que coincidia com o decennale, dez anos de fascismo —, uma de suas grandes datas.”35

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33 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da Esquina. Imigrantes na Sociedade Porto-Alegrense. Porto Alegre: Sulian, 1991, p. 136.

34 GUTFREIND, Ieda. A Historiografia Rio-Grandense. 2ª ed. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 1998, p. 29.

35 GALLO, Max. Garibaldi: a força do destino. São Paulo: Scritta, 1996, p.379.

36 Decreto nº 21.438, de 24 de maio de 1932, com o seguinte texto: “O Chefe do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil: atendendo a que as cerimônias comemorativas do 50º aniversário da morte de Giuseppe Garibaldi interessam vivamente à Nação; Atendendo a que a epopéia garibaldina está associada à figura da harmonia brasileira Anita Garibaldi; Resolve decretar feriado nacional o dia 2 de junho próximo, no qual se comemorará o 50º aniversário do falecimento do grande general libertador”.

37 Ver, entre outros, DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 1º a 3 de junho de 1932.


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No ano de 1932, ocorreram várias solenidades em Porto Alegre, no Brasil e na Itália. Getúlio Vargas, então chefe do governo provisório da República, decretou feriado no dia 2 de junho de 1932 36. As comemorações no Rio de Janeiro, então capital federal, incluíram desfiles militares, cerimônia no Palácio do Itamaraty, presidida por Getúlio Vargas, com a participação dos embaixadores da Itália, Argentina, França e Uruguai37. Oswaldo Aranha, em seu discurso, preocupa-se em afastar o caráter separatista da Revolução Farroupilha, no momento em que a dissidência paulista colocava em xeque a revolução vitoriosa de 1930. O ministro selecionou proclamações de Bento Gonçalves nas quais o herói farroupilha declara sua fidelidade à pátria brasileira. Não faltaram elogios ao Duque de Caxias cuja “palavra era a de um irmão, as (...) ordens eram conselhos cívicos, exortações patrióticas”.38 Garibaldi aparece como o maior dos heróis: “Ninguém o excedeu na destreza, na audácia, no desinteresse, nem no destemor”.39 A narração dos seus feitos em solo gaúcho também não é esquecida por Aranha: “Foi um dos heróis da retirada de Canabarro, um dos chefes da gloriosa expedição de Curitibanos, um dos bravos da descida da serra, comandou na sangueira do Taquari, participou do ataque, infeliz, mas heróico de São José do Norte (...).”40

Em Porto Alegre, as comemorações do dia 2 de junho iniciaram pela manhã com uma cerimônia realizada junto à estátua de Garibaldi, na praça de mesmo nome. Discursaram Flores da Cunha, pelo Governo do Estado e Lourenço Lotti, pelo consulado italiano. O interventor federal fez, em seu breve discurso, uma interessante observação a respeito da ascensão social de Garibaldi, que sendo oriundo das classes menos favorecidas, obteve trânsito junto às camadas mais abastadas da sociedade européia41. Comentário ilustrativo, num momento em que o movimento de 1930 tentava dar conta da complexidade social que ocorrera no Brasil nas últimas décadas.

À tarde, as comemorações incluíram uma sessão solene, realizada no Theatro São Pedro, sob o patrocínio do Governo do Estado e do Consulado italiano. Nessa sessão, palestraram o cônsul italiano Mario Carli e Darcy Azambuja42, representando o Governo do Estado. Os discursos foram publicados pela revista do Instituto Histórico e Geográfico43. Mario Carli fez o panegírico de Anita, retratando uma imagem idealizada da companheira de Garibaldi, sem nenhuma base histórica. Ao retratar o translado dos restos mortais de Anita, de Nice para Roma, deixa transparecer o sentido político que esse gesto representou na Itália 44. De fato, Mussolini buscava proveito da popularidade de Garibaldi, o herói popular da unificação italiana.

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38 DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 03 de junho de 1932, p. 7.

39 Ibidem

40 Ibidem.

41 DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 03 de junho de 1932, p. 3.

42 Darcy Azambuja exerceu diversos cargos políticos, entre os quais o de deputado e Procurador-Geral do Estado. No ano de 1937, foi agraciado com título honorífico de Comendador da Ordem da Coroa da Itália, concedido pelo Rei Vittoro Emmanuelli III em 1937.

43 Cincoentenário da morte de José Garibaldi. Revista do IHGRS. Op. cit.

44 CARLI, Mario. Revista do IHGRS. Op. cit. p. 226.


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Mario Carli, em sua palestra, ratificava o discurso de união entre o povo italiano e brasileiro:

“E nós, embora longe em pessoa, estamos neste momento perto em espírito ao rito solene que se realiza sobre Gianicolo, neste mesmo momento, na presença de Benito Mussolini, e que lança laço invisível de fraternidade para todo o povo brasileiro, e especialmente ao rio-grandense com o qual tantos vínculos de sangue e de ideais nos têm unido através de um século de história.”45

Darcy Azambuja fez um proNúnciamento um pouco menos ufanista. Apresentou a conjuntura política européia no século XIX em que se contrastavam as idéias liberais oriundas da Revolução Francesa e as tentativas reacionárias da Santa Aliança. Nesse contexto, aparecia o jovem marinheiro: “É preciso compreender o século dezenove para compreender Garibaldi”46, dizia. Após historiar sua atuação na Revolução Farroupilha — em que mais uma vez foi visível a utilização das Memórias de Garibaldi, como fonte —, retratou sua passagem no Uruguai à frente da brigada italiana, “(...) à frente da qual escreveu algumas das páginas mais estupendas da história uruguaia”, finalizando com o seu retorno à Europa onde atuaria ainda na unificação da Itália e na França, na luta contra a Prússia. Se sua apresentação buscou contextualizar a atuação de Garibaldi como inserida no século XIX, o epílogo de sua palestra convergiu com as demais manifestações:

“No Rio Grande a figura senhoril do formidável guerreiro incorporou-se ao patrimônio comum das glórias de sua tradição e ainda hoje o seu nome congrega em uma homenagem fraternal os dois grandes povos. Que a sua memória seja o laço de perene amizade entre as duas pátrias e que os pósteros aprendam na vida do legendário batalhador a desprezar a morte para servir à liberdade.”47

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45 CARLI, Mario. Op. cit., p. 227.

46 AZAMBUJA, Darcy. Cincoentenário da morte de José Garibaldi. Revista do IHGRS. II trimestre, ano XII. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1932, p. 254-256.

47 Ibidem.

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À noite do dia 2 de junho estava reservada ainda uma conferência pública organizada pelo IHGRS que consistia em uma palestra do historiador Otelo Rosa, na Biblioteca Pública. Ele rememora os feitos de Garibaldi em solo gaúcho, utilizando como fonte, principalmente, as Memórias.

No campo da historiografia, na década de 1930 foram produzidas as obras que consagraram Garibaldi como herói farroupilha. Em 1933, Alfredo Varela publicou a História da Grande Revolução, e em 1939 surgiu Garibaldi e a Guerra dos Farrapos, de Lindolfo Collor.

A História da Grande Revolução é considerada o mais completo estudo sobre o período farroupilha. Por sua vinculação à matriz platina, a obra causou grande polêmica à época, gerando discussões entre Varela e outros membros do IHGRS. Para nosso objetivo, todavia, interessa o contraste entre o Garibaldi que é retratado pelo próprio Alfredo Varela, em 1897, na obra Descrição Física, Histórica e Econômica e o de História da Grande Revolução.

Na obra de 1897, Garibaldi é pouco mencionado. As passagens a ele referentes são similares às das obras de Tristão de Alencar Araripe, Assis Brasil e Ramiro Barcelos. Os únicos episódios heróicos mencionados são o combate com Moringue, na Fazenda do Brejo e a travessia dos lanchões. Garibaldi aparece como “o cavaleiro andante do século”, mais como o “herói de dois mundos” do que como o “corsário da República Rio-Grandense”.

Em contraste, em História da Grande Revolução, Garibaldi é elevado a herói de primeira grandeza: “Em verdade, parece que, com a presença de Garibaldi, menos tivemos a de um egrégio mortal, do que a de um desses benignos deuses do paganismo, cultuados antanho” 48. Os episódios antes apenas mencionados são relatados com contornos épicos, com abundantes alusões à mitologia grega. A atuação de Garibaldi em Santa Catarina, esquecida em 1897, aparece de forma bastante detalhada (ao contrário da maior parte das obras que falam sobre Garibaldi, a de Varela utiliza outras fontes, além das Memórias). A derrota em Santa Catarina é, segundo o historiador, responsabilidade de Canabarro, acusado de “nada prever e nada prover”.

Enfim, Alfredo Varela, a despeito da ampla pesquisa e do uso de múltiplas fontes, retratou Garibaldi, em 1933, à luz da construção feita nas primeiras décadas do século XX em torno da figura de Garibaldi como herói farroupilha.

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48 VARELA, Alfredo. História da Grande Revolução: o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Ed. Globo, 1933, v. 5, p. 292.

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Garibaldi e a Guerra dos Farrapos é a primeira obra de fôlego a sistematizar a atuação do italiano em solo gaúcho. Collor não apresenta fatos novos. Utiliza amplamente as Memórias, a História da Grande Revolução e as obras do final do século XIX. Aqui Garibaldi já surge como herói farroupilha. Sua participação na Revolução é tida como decisiva e ele figura entre os protagonistas. Em contraste com Varela, que pouco fala de Anita, Collor a coloca ao lado do herói em todos os episódios nos quais ela aparece nas Memórias. E, corajosamente, ao contrário inclusive de historiadores de períodos mais recentes, não deixa de mencionar que Anita era casada quando uniu-se a Garibaldi, fato aliás sabido desde 1907.49

Considerações Finais

José Murilo de Carvalho, na obra A Formação das Almas, explica como Tiradentes, um desconhecido até a década de 1880, foi alçado à condição de herói da República. No caso, a falta de envolvimento popular na implantação do novo regime reforçava a necessidade de um símbolo. Igualmente, a ausência de bons candidatos a herói diretamente envolvidos no evento, caso de Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamin Constant, levou ao resgate de Tiradentes.

Não foi o caso de Garibaldi. O italiano esteve diretamente envolvido na Revolução Farroupilha, ainda que por pouco tempo, e apesar do pedido de anistia ao Imperador do Brasil. Tampouco carecia de “bons” heróis o movimento farroupilha.

Ao que tudo indica, o motivo principal da eleição de Garibaldi como herói farroupilha e elemento legitimador da República Rio-Grandense foi a condição alcançada de herói italiano. Se tivesse morrido nos campos do Rio Grande do Sul, como Luigi Rosseti, provavelmente menor teria sido a sua projeção.

O culto a Garibaldi trouxe a herança dos ideais farroupilhas para o partido político que se afirmava no poder no Rio Grande do Sul da República Velha. Como herói do Rio Grande do Sul e da Itália, tornou-se um precioso elo de ligação com a comunidade imigrante italiana que, em finais do século XIX e início do século XX, adquiria grande importância econômica e política no Estado. O elo não precisou ser construído. Ele já existia.

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49 “Em 1907, depois de muita pesquisa, ele [o historiador Henrique Boiteux] encontrou no livro quinto dos “Atos Matrimoniais da Diocese de Laguna”, que cobre o período de 1832 a 1844, a certidão de casamento de Anita”. MARKUN, Op. cit. p. 70.

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Todavia, como lembra José Murilo de Carvalho, a construção de símbolos não é arbitrária e não se faz no vazio social. O candidato a herói “tem que responder a alguma necessidade ou aspiração coletiva, refletir algum tipo de personalidade ou de comportamento que corresponda ao modelo coletivamente valorizado”.50

Garibaldi possuía certas características que facilitavam essa identificação. Foi herói no mar e na terra. Max Gallo, discorrendo a respeito da atuação do italiano em Montevidéu, afirma: “A luta principal se trava em terra e Garibaldi vai tornar-se, também, nesse terreno – no próprio local, através da imprensa em toda a Europa e nos Estados Unidos -, uma figura heróica.”51 Era um homem de ação, ao contrário de Tito Lívio Zambeccari e Luigi Rosseti, cuja participação no movimento foi mais intelectual. Do ponto de vista ideológico, mantinha-se mais neutro. Fazia parte da Jovem Itália, mas não escrevia como Rosseti, que chegou a se desentender com os líderes farroupilhas por suas idéias democratas radicais. Casou-se e teve filhos com uma brasileira, fato que sempre aparece nas homenagens a Garibaldi. Finalmente, teve a sua biografia mundialmente conhecida por ter sido produzida por um escritor famoso, Alexandre Dumas, autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo.

Todos esses elementos garantem a Giuseppe Garibaldi um lugar no imaginário popular. Todavia, quando analisamos a Revolução Farroupilha, vemos um estrangeiro entre outros, cuja participação foi transitória e não decisiva. Garibaldi como herói farroupilha é uma construção, bem cimentada acabada, mas construção.

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50 CARVALHO, José Murilo de. Op. cit. p. 55.
51 GALLO, Max. Op. cit. p. 105.

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Referências bibliográficas

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Fontes

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Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 11 de agosto de 1839. Coleção Alfredo Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.

Coletânea de Documentos de Bento Gonçalves da Silva – 1835-1845 – Arquivo
Histórico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Comissão Executiva do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha, Subcomissão de Publicações e Concursos, 1985

O COSMOPOLITA – Caxias do Sul

DIÁRIO DE NOTÍCIAS – Porto Alegre

A FEDERAÇÃO – Porto Alegre

O POVO – Piratini e Caçapava

O jovem Garibaldi e seu mestre, professor Arena. Litografia de Edoardo Matania, para a obra "Vida de Garibaldi", de Jessie White Mario
 
 
Garibaldinos desembarcando na Sicília, Itália. Por Edoardo Matania
 
 
Tartana: embarcação semelhante a que Garibaldi
aprendeu a navegar com seu pai
 
 
O antigo porto de Nizza
 
Anita Garibaldi em desenho de Calmon Barreto
Giuseppe Garibaldi por Oswaldo Teixeira
   
Giuseppe Mazzaini
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"Planejando adesão na República Juliana", óleo sobre tela de Guido Mordin (60x73cm)
 
"O espantoso transporte dos lanchões", óleo sobre tela de Guido Mondin (60x73)
 
Mapa do teatro de operações no Sul, em 1839
 
Batalha naval da Laguna em quadro da época
 
Rio Pardo segundo Edoardo Matania
 
Uma visão do naufrágio do Rio Pardo, por Edoardo Matania
 
"Garibaldi e Anita marcam de romance a longa porfia",
óleo sobre tela de Guido Mondin (60x73)
 
Garibaldi retorna da América do Sul, por Edoardo Matania
 
Giuseppe Garibaldi carregando o corpo de Anita Garibaldi, por Giuseppe Bandi (1889)
 
Monumento a Garibaldi, em Brascia, Itália, obra de Eugenio Maccagnani (1889)
 
Monumento a Garibaldi e Anita inaugurado em Porto Alegre, em 1913
 
   
   
Anita e Giuseppe Garibaldi na filatelia internacional:
reproduções de selos da coleção de Eduardo Vieira dos Santos
 
Selos comemorativos aos 200 anos de Garibaldi, emitidos em conjunto pelos Correios do Uruguai e do Brasil. Arte de Márcia Mattos e C. Menck Freire (Edital n 12)
 
 
Monumento a Anita, de Mario Rutelli (1931), em Roma, Itália

 
 
 
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