| Garibaldi: a gênese
do mito
Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira
Souto
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Historiadores e pesquisadores do Memorial do
Ministério Público do Estado do Rio Grande do
Sul
“Heróis são símbolos poderosos,
encarnações de idéias e aspirações,
pontos de referência, fulcros de identificação
coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para
atingir a cabeça e o coração dos cidadãos
a serviço da legitimação de regimes políticos.
Não há regime que não promova o culto
de seus heróis e não possua seu panteão
cívico.”1
Introdução
Sob essa perspectiva — do culto aos heróis como
pontos de referência e de identificação
coletiva — podemos desvelar de que maneira alguns personagens
são retirados de uma condição de obscuridade
e alçados à posição de destaque
e por que outros, de notória influência e participação
em determinados episódios, — no caso da Revolução
Farroupilha, por exemplo, Silva Tavares, Bento Manoel, Francisco
Pedro — são relegados a uma condição
de “esquecimento”.
Com base nesses breves indicativos pretendemos situar a atuação
de Giuseppe Garibaldi na Revolução Farroupilha,
ou melhor, analisar de que maneira o corsário da República
Rio-Grandense, um dentre muitos estrangeiros a lutar ao lado
dos farroupilhas, alcançou posição de
destaque no panteão dos revolucionários.
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1 CARVALHO, José Murilo. A formação
das almas: o imaginário da República no Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 55.
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Nesse sentido, procederemos a uma análise diacrônica
de como a participação de Garibaldi foi sendo
concebida e reproduzida por escritores, historiadores e políticos
no Rio Grande do Sul. Levaremos em conta três momentos:
em primeiro lugar, Garibaldi visto pelos seus contemporâneos
farroupilhas; em segundo, os primeiros trabalhos produzidos
e publicados sobre o tema, entre o quartel final do século
XIX e as duas primeiras décadas do século XX,
quando Garibaldi já estava consagrado como herói
da unificação italiana e, finalmente, o terceiro
momento correspondente ao período que vai da criação,
no início dos anos vinte, do Instituto Histórico
e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS) até
as comemorações do cinqüentenário
da morte de Garibaldi, em 1932, quando surgem estudos e obras
especializadas sobre Garibaldi e a Revolução
Farroupilha.
Não é pretensão deste estudo fazer a
apologia de Garibaldi, tampouco buscamos a desconstituição
do mito do “herói dos dois mundos”. Nosso
esforço é no sentido de compreender a atuação
do sujeito histórico no seu tempo, premido pelas estruturas
de sua época e, a partir daí, entender como
foram surgindo as representações acerca de Garibaldi:
de corsário a herói farroupilha.
Para tanto, é preciso ter em conta que os relatos acerca
da atuação de Garibaldi, que serviram para criar
a sua imagem heróica, têm como principal fonte
suas próprias Memórias. Conforme Paulo Markun
explica:
“Sua trajetória não foi documentada
como a de outras figuras históricas da mesma dimensão,
seu grupo dissolveu-se sem deixar arquivos, suas batalhas
não seguiam nenhum plano preestabelecido que permitisse
recriá-las e ninguém anotava seus passos. Em
suas cartas, deixou de lado experiências pessoais.”2
Garibaldi começou a escrever as suas memórias
em Tânger, em 1849. Fugido da Itália e atuando
como comerciante, preencheu centenas de folhas de papel de
carta com a sua própria letra. A partir dessas anotações
foram feitas, ao menos, cinco versões: a de Theodore
Dwight, publicada nos EUA, em 1859; a de O. Fere e R. Hyenne,
publicada na França em 1859; a de Francesco Carrano,
publicada na Itália (Turin) em 1860; a de Alexandre
Dumas, publicada na França (Paris) também em
1860; e a da baronesa Marie Espérance von Brandt (Elpis
Melena), publicada na Alemanha (Hamburgo) em 1861. Nenhuma
dessas versões é fiel ao manuscrito de Garibaldi,
que está no Arquivo do Estado de Roma. A mais conhecida,
todavia, e que se tornou a biografia de Garibaldi por excelência,
é a de Alexandre Dumas.
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2 MARKUN, Paulo. Anita Garibaldi: uma heroína brasileira.
5ª ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo,
2003, p. 166.
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Garibaldi na Revolução Farroupilha
Os indícios da época apontam Garibaldi
como um dos tantos estrangeiros que se bateram pela causa
farroupilha. Dos jornais da época, apenas O Povo
menciona Garibaldi. Esse foi o periódico mais importante
da República Rio-Grandense e circulou durante um ano
e nove meses em Piratini e Caçapava.
Garibaldi foi mencionado nas páginas de O Povo
pelo menos 11 vezes, entre setembro de 1838 e novembro de
1839. Trata-se de ofícios, comunicados e expedientes
de caráter oficial.
Os números de 4 de maio e de 10 de agosto de 1839 fazem
referência à atuação de Garibaldi
em dois momentos. O primeiro relata a defesa da Estância
do Brejo, quando do ataque de Moringue, em 17 de abril de
1839:
“O comandante da Esquadrilha da República
continua a dar provas não equívocas de seu civismo
e bravura: eis a ordem do dia por ele endereçada aos
valentes de tripulação dos vasos a seu mando,
que em número de 11 rechaçaram 150 cativos que
os foram atacar .”3
O segundo conta a travessia por terra dos lanchões
Seival e Farroupilha, comandados pelos “honrados e corajosos
Garibaldi e Rossetti”.4
Os demais jornais farroupilhas consultados não mencionam
Garibaldi. Todavia, tanto O Mensageiro, quanto O
Americano e Estrela do Sul (esses dois últimos
de Alegrete), cobrem períodos em que o italiano não
estava no Rio Grande do Sul.
Os jornais legalistas a que temos acesso igualmente não
falam de Garibaldi. O Artilheiro menciona Bento Gonçalves,
Bento Manoel, Onofre Pires, Corte Real, Pedro Boticário,
David Canabarro, Antônio de Souza Netto, Rafael Calvet,
Marques Alfaiate e Teixeira Nunes. O Imparcial, que
circulou de 22 de outubro de 1844 até o final do movimento
(mais precisamente, até 1849), tampouco fala do italiano.
Nessa época, Garibaldi estava em Montevidéu.
O periódico dá muitas notícias da capital
uruguaia, mas não menciona Garibaldi.
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3 O Povo, 4 de maio de 1839, n.º 63, 3º boletim
de Caçapava.
4 O Povo, 10 de agosto de 1839, nº , 7º boletim
de Caçapava, p. 4.
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O número expressivo de citações em O
Povo não significa que Garibaldi tivesse um destaque
maior do que os demais oficiais envolvidos no movimento farroupilha.
Diversos oficiais são citados até porque o jornal
era um instrumento de comunicação entre as tropas
e os comandantes. Não havia notícias propriamente
ditas no periódico. Havia avisos oficiais, como os
decretos e proclamações do comando da revolução,
ofícios e circulares, artigos de cunho ideológico
e anúncios para compra e venda de escravos e outros
produtos.
Na extensa correspondência de Bento Gonçalves
da Silva, há apenas duas referências a Garibaldi.
Uma delas é a carta de corsário, que foi reproduzida
em O Povo, datada de 10 de junho de 18385. A outra
consta numa carta do líder Bento Gonçalves ao
genro, com data de 26 de agosto de 1842, na qual narra os
acontecimentos de que toma parte Garibaldi, já no Uruguai.
Episódio interessante é o envolvimento de Garibaldi
com Manoela, sobrinha de Bento Gonçalves, narrado nas
Memórias e conhecido do público em
função de sua exploração em uma
minissérie de televisão6. Tal registro afigura-se
importante porque apresenta indícios da maneira como
Garibaldi era visto por seus contemporâneos. A história,
que já foi até tema de romance7, é atraente
também por humanizar os heróis farroupilhas,
Garibaldi e Bento Gonçalves: o primeiro, homem apaixonado
disposto a se casar sem maiores reflexões; o segundo,
tio zeloso, preocupado com a sorte da sobrinha. Manoela, igualmente,
fornece um contraponto à Anita: a sinhazinha frágil
em oposição à camponesa guerreira.
O namoro com Manoela, de fato, ocorreu. Não só
Garibaldi o recorda nas Memórias, como existem
outros indícios. Cartas de Luigi Rosseti a João
Batista Cuneo relatam que Garibaldi estava apaixonado e que
pretendia se casar:
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5 Coletânea de Documentos de Bento Gonçalves
da Silva – 1835-1845 – Arquivo Histórico
do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Comissão Executiva
do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha,
Subcomissão de Publicações e Concursos,
1985, p. 61.
6 A Casa das Sete Mulheres exibida pela Rede Globo de Televisão
em 2003.
7 GUIMARÃES, Josué. Garibaldi e Manoela: Uma
história de amor. Porto Alegre: L&PM, 2002.
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“19 de janeiro, 1839, Piratini.
Fratello:
(...) Garibaldi esteve gravemente doente. Mas restabeleceu-se
e ameaça se casar. Me escreveu pedindo que eu lhe sirva
de mentor. Imagine se o farei. Depois de amanhã, como
o governo me pediu para ir acompanhar o trabalho dos marinheiros,
partirei para vê-lo e farei com ele aquilo que um amigo
faria na mesma circunstância. Se for adiante, então
não terei remédio e eu mesmo o forçarei
a cumprir o seu dever. Não sei quem seja a tirana.”8
Outra carta, de 9 de fevereiro de 1839, volta ao tema: “(...)
Garibaldi está apaixonado e ameaça se casar.
Mas não vai fazê-lo, de jeito nenhum. Ele me
prometeu”.9
Ao que tudo indica, os amigos eram contrários ao relacionamento
que implicaria o abandono da causa revolucionária por
Garibaldi. Se casasse com Manoela, Garibaldi teria de se estabelecer
como estancieiro, deixando a incerta vida de aventuras. Apesar
do descontentamento dos amigos, foi Bento Gonçalves
quem acabou com o romance. Disse a Garibaldi que Manoela estava
prometida ao seu filho Joaquim. Não era verdade. Bento
Gonçalves recebia Garibaldi em sua casa, mas considerava-o
um aventureiro, um homem indigno de desposar uma sinhazinha
de família tradicional como Manoela. O historiador
Otelo Rosa, após uma palestra proferida em 4 de julho
de 1932, no Theatro São Pedro, por ocasião das
comemorações do cinqüentenário da
morte de Garibaldi, recebeu uma carta de Otacílio Ferreira,
descendente de Manoela. Ele relata:
“O suposto noivado com seu primo, filho de Bento
Gonçalves, não passou de um pretexto de seus
pais para recusarem o pedido de Garibaldi, pois embora o recebessem
em seu lar e o cumulassem de gentilezas não deixavam
de considerá-lo como aventureiro, motivo pelo qual
opuseram-se ao casamento.”10
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8 MARKUN, Paulo. Op. cit. p. 116. A carta é citada
por SALVATORE,Candido. La rivoluzione riograndense nel carteggio
inedito di due giornaliste mazziniani: Luigi Rosseti e G.
B. Cuneo, 1837-1840. Florença: Valmartine Editora,
1973, p. 75-76.
9 Ibidem. p. 117.
10 Cincoentenário da morte de José Garibaldi.
Revista do Instituto Histórico e Geográfico
do Rio Grande do Sul. II trimestre, ano XII. Porto Alegre:
Livraria do Globo, 1932, p. 254-256.
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Nesse passo, há um contraste entre o que se lê
nas Memórias e o que ficou registrado nos
documentos da época. Nesse sentido, vejamos como Garibaldi
relatou sua relação com o chefe farroupilha
Bento Gonçalves: “No dia em que nos encontramos
pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal;
e conversávamos com tanta familiaridade como se fôssemos
companheiros de infância e iguais em posição11”.
Os chefes civis e militares farroupilhas, em sua maioria,
eram estancieiros e escravocratas. Não havia espaço,
nos postos de comando, para outros segmentos sociais. Garibaldi,
um entre tantos estrangeiros a se bater por uma causa que
não era sua, não era visto como um igual. De
fato, dos documentos compulsados, aqueles que apresentam de
maneira mais clara e precisa a condição dos
estrangeiros na Revolução Farroupilha são
as cartas de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida.
Da carta datada de 11 de agosto de 1839, quando Rossetti estava
já em Santa Catarina, como secretário de governo
da efêmera República Juliana, colhemos a seguinte
passagem, bastante elucidativa:
“O General Canabarro escreveu não sei se
ao governo ou ao General Netto. (...) Consta-me que ele também
ou escreveu, ou queria escrever, ao Ministro José Mariano
de Matos, lastimando que Garibaldi fosse o Comandante da Esquadrilha
e eu o Secretário do Governo. (...) Sei que sou estrangeiro,
e sei à custa de muitos desgastes que por nenhum modo
me cansa defender os princípios que professo em emprego
onde só se faz preciso a pena. Os guerreiros estimam
que o estrangeiro combata ao seu lado, mas os letrados não
gostam de ver um estrangeiro sentado ao mesmo escritório.”12
Em outra carta Rossetti reclama da falta de notícias
sobre os acontecimentos da Revolução:
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11DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Porto
Alegre: L&PM, 2002, p.73.
12 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida,
datada de 11 de agosto de
1839. Coleção Alfredo Varela, Maço 51,
Caixa 15, AHRGS.
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“Não sei nem posso entender como tudo isso
andasse perdido. Garibaldi também nunca recebeu uma
só linha do Governo, e é muito de admirar que
desde um ofício por nós recebido no Camaquã
depois do dia 14 de abril não recebemos nunca mais
uma linha nem amistosa nem oficial e não esconderei
a esse respeito que nós estávamos bem decididos
a não nos queixarmos e esperar melhor justiça
do tempo.”13
Pelo teor do documento fica patente a fragilidade das
comunicações, se considerarmos que Rossetti
era um secretário de Estado e Garibaldi, o comandante
da esquadrilha farrapa, bem como o fato de que os estrangeiros
não tinham praticamente acesso às decisões
tomadas pelos chefes farroupilhas. As cartas de Rossetti são,
ainda, elucidativas também ao precisar o papel de Garibaldi:
(...)”dirigira-se [Garibaldi] à Barra do Rio
de Janeiro, onde certamente fará muito mais estrago”.
(...) “Garibaldi já fez quatro presas, mas desafortunadamente
duas delas foram separadas da Caçapava que as conduzia
por um temporal e uma foi retomada pelo inimigo. Estão
hoje descarregando uma outra em Imbituba”.14 Enfim,
as cartas delimitam bastante bem qual era a função
de Garibaldi: a de corsário.
Alguns anos depois, surgiu um documento que muito confundiu
os historiadores: uma carta de Garibaldi para Domingos José
de Almeida escrita em 10 de setembro de 1859. Na carta, o
italiano, exaltando a coragem e a capacidade guerreira dos
rio-grandeses, afirma: “(...) quando penso no acolhimento
com que fui recebido no grêmio das suas famílias,
onde fui considerado como filho”.15 Passados quinze
anos dos acontecimentos em solo gaúcho, Garibaldi parece
ter selecionado as melhores memórias. Há um
nítido contraste entre os registros da época
e essa carta que foi bastante difundida.
Um outro documento daquela época dá pistas a
respeito de Garibaldi contemporâneo da Revolução
Farroupilha. No ano de 1849, foi publicado em forma de folhetim
no jornal O Americano, do Rio de Janeiro, o romance
O Corsário, de José Antônio do
Vale Caldre e Fião. A história se passa no Rio
Grande do Sul durante a Revolução Farroupilha.
O corsário em questão não é Garibaldi,
embora num primeiro momento pareça que esse serviu
de inspiração para o protagonista Giuseppe Vanzini:
aventureiro, louro, longos cabelos, conquistador16. O que
desfaz a identificação é o fato do próprio
Garibaldi ser citado duas vezes no romance.
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13 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida,
datada de 1º de agosto de 1839. Coleção
de Alfredo Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.
14 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida,
datada de 30 de outubro de 1839. Coleção Alfredo
Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.
15 A FEDERAÇÂO. 4 de julho de 1907.
16 CALDRE E FIÃO, José Antônio do Vale.
O Corsário. Porto Alegre: Movimento, Instituto Estadual
do Livro, 1979, p. 14. Guilhermino Cesar, na introdução,
identifica Garibaldi com Vanzini.
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Caldre e Fião foi contrário à Revolução
Farroupilha. Devemos, portanto, considerar a sua palavra com
cautela. Contudo, seu relato destaca a função
que Garibaldi desempenhou no movimento: a de corsário.
Numa passagem, Manoel da Cunha, legalista relata:
“Contava-se ainda mais, como cousa certa, que um
dos companheiros de Garibaldi, que com ele tinha feito as
mais infames piratarias na Lagoa dos Patos, era o que comandava
e dirigia essa reunião. Algumas das famílias
que existem ainda por aí queixaram-se amargamente de
se verem expostas a visitas desses ladrões, aves de
rapina que levavam consigo quanto encontravam, ainda mesmo
dos mais pobres...”17
Mas adiante, o mesmo Manoel da Cunha afirma, comparando
Garibaldi a Vanzini, “o seu comandante era Vanzini,
porque Vanzini servira com Garibaldi, e porque ele era, como
Garibaldi, um homem amigo da pilhagem”.18
Por outro lado, o fato de mencionar Garibaldi no romance mostra
que a participação do italiano na Revolução
era conhecida. Além de Garibaldi, Caldre e Fião
menciona Bento Gonçalves (que aparece em diversas passagens),
Gomes Jardim e Tito Lívio Zambeccari, esse último
de forma negativa.
Garibaldi e a propaganda republicana 1880-1920
O período que compreende o término da Revolução
Farroupilha até a instauração do regime
republicano, em 1889, não foi propriamente fecundo
no que diz respeito à publicação de trabalhos
referentes ao “Decênio Heróico”.
Isso se deve à consolidação do Segundo
Reinado e ao sistema político subjacente a ele. Dentre
os produzidos, excluindo-se “Guerra Civil no Rio Grande
do Sul”, de Tristão de Alencar Araripe, trazido
a lume em 1881 — tida como a primeira obra impressa
a tratar sistematicamente sobre a quadra revolucionária
—, visivelmente contrária aos farroupilhas, os
demais apresentavam caráter panfletário.
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17 CALDRE E FIÃO, José Antônio do
Vale. Op. cit. p. 256.
18 Ibidem.
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Tristão de Alencar Araripe, nascido no Ceará,
exerceu diversos cargos políticos pelo Partido Conservador,
entre eles, o de presidente da Província do Rio Grande
do Sul, de 4 de abril de 1876 a 5 de fevereiro de 1877. Era
visivelmente contrário aos revolucionários de
1835, aos quais trata com indisfarçável menoscabo,
principalmente a seus líderes, em especial Bento Gonçalves.
No que diz respeito a Garibaldi, há apenas breves passagens
em seu trabalho:
“A república jamais teve força naval;
apenas José Garibaldi, esse que posteriormente constituiu-se
herói na Itália, sustentando a causa da unificação
da sua pátria, comandou alguns lanchões, que
foram logo tomados pela marinha nacional.”19
Mais adiante, após referir-se a Garibaldi jocosamente
como pirata, relata brevemente o combate de Laguna em que
os republicanos perdem definitivamente o controle sobre Santa
Catarina:
“A força imperial teve, entre mortos e feridos,
180 pessoas, isto é, mais de um décimo da sua
totalidade, e os rebeldes contaram mais de 200. Daqui podemos
avaliar do encarniçamento do combate. Os comandantes
de todos os navios rebeldes foram mortos, à exceção
de seu chefe José Garibaldi.”20
Mais interessante, contudo, é que as fontes utilizadas
por Araripe foram as próprias Memórias
de Garibaldi: “Nas Memórias de José
Garibaldi, publicadas por Alexandre Dumas, se diz que do navio,
onde comandava esse caudilho, só ele escapou vivo”.21
Julio de Castilhos, em editorial de A Federação,
de 26 de setembro de 1886, caracterizou Araripe como “fazedor
de crônicas oficiais” e anunciou as respostas
da “nova geração rio-grandense”.
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19 ARARIPE, Tristão de Alencar. Guerra Civil no
Rio Grande do Sul: Memória Acompanhada de documentos
lida no Instituto Histórico e Geográfico do
Brasil. Porto Alegre: Corag, 1986, p. 88. Obs. Ed. fac-similar
do original publicado: Rio de Janeiro: E. & H Laemmert,
1881.
20 ARARIPE, cit., p. 98.
21 Ibidem.
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Referia-se Julio de Castilhos às obras: História
da República Rio-Grandense, de Joaquim Francisco
de Assis Brasil (1882) e História Popular do Rio
Grande do Sul (1882), de Alcides Lima, embora somente
o primeiro trate especificamente da Revolução
Farroupilha. Outra obra, A Revolução de
1835 no Rio Grande do Sul, de Ramiro Fortes Barcellos,
surge em seguida (1885). Obras de feição republicana,
as duas primeiras, elaboradas sob encomenda do Clube Republicano
20 de Setembro, procuram justificar as razões da revolta
e a incapacidade do poder central de compreender as “justas”
reivindicações do Rio Grande, o que teria sido
a causa precípua dos eventos que levaram à proclamação
republicana.
No que diz respeito a Garibaldi, limitam-se a descrever brevemente
os principais episódios de sua atuação.
Vejamos o que diz Barcellos:
“Em 1838 este ilustre italiano veio novamente prestar
os seus serviços à causa rio-grandense, à
qual serviu com aquela dedicação e com aquela
bravura, que o tornaram um dos homens mais notáveis
na sua pátria e um dos mais admirados no presente século.”22
À evidência, Ramiro Barcellos, propagandista
republicano, senador pelo Rio Grande do Sul entre 1890 e 1906,
não estava se referindo ao corsário estrangeiro
que se colocara a serviço das armas rio-grandenses,
mas, tecia elogios ao herói da unificação
italiana. Já Assis Brasil, também um dos principais
próceres republicanos no Rio Grande do Sul, primeiro
deputado do PRR ainda no período do Império,
tão somente alude à atuação de
Garibaldi à frente da Marinha Rio-Grandense, por todos
considerada, aliás, a maior fragilidade dos rebeldes.
Para Assis Brasil, contudo, mais importante foi a atuação
de outro italiano, Zambeccari, a quem considerava, com certo
exagero, o “verdadeiro e real diretor mental”
da revolução, sendo o responsável pelo
“influxo que exerciam no Rio Grande as doutrinas da
‘Jovem Itália’ de Mazzini”23.
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22 BARCELLOS, Ramiro Fortes de. A Revolução
de 1835 no Rio Grande do Sul. Ed. com fixação
do texto completo do original publicado: Porto Alegre, Jornal
do Comércio, 1882. Porto Alegre: C omissão Executiva
do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha
- Corag, 1986.
23 BRASIL, Joaquim Francisco de. A Guerra dos Farrapos: História
da República Rio-Grandense. (1º ed. 1882) Rio
de Janeiro: Andersen, 1930, p.71.
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Foi, todavia, nas páginas do jornal A Federação
que os jovens republicanos afirmaram sua identidade com os
farroupilhas. Na edição comemorativa ao cinqüentenário
da Revolução Farroupilha, em 1885, apareceram
referências a Garibaldi e à Itália. O
20 de setembro é também a data que simboliza
a unificação italiana, com a entrada do exército
do Piemonte em Roma, completando o processo de unificação.
Assim, na edição de 20 de setembro 1885, há
uma matéria fazendo alusão a esse evento:
“Glorioso para a província do Rio Grande
do Sul, por recordar o grande feito revolucionário
de 35, o 20 de Setembro relembra à Itália o
fato soleníssimo da unificação da Pátria
sublime de Dante, do excelso Mazzini, do severo Cavour e do
imortal Garibaldi. A completa unificação da
Itália há 15 anos representa a mais bela conquista
da democracia, assegurando à Itália as liberdades
que hoje a tornam notável entre os países monárquicos
do velho mundo. Trabalhadores, enérgicos pensadores
e altivos, os italianos transigiam com o governo da casa de
Sabóia, mas cimentam maior grandeza futura. Aos patriotas
de 70 — um bravo.”
Garibaldi surgia, então, nas páginas de A
Federação, porém a referência
não mencionava sua atuação na Revolução
Farroupilha, mas na Itália. Conquanto tenha a unificação
italiana ocorrido sob os auspícios de uma monarquia,
a matéria não perdia o seu desiderato de propaganda
republicana como se percebe na passagem assinalada.
A partir dos elementos até aqui apresentados, identificamos
de maneira clara o processo de construção da
imagem de Garibaldi como um dos heróis da Revolução
Farroupilha. As obras consultadas, os livros e editoriais
do Jornal A Federação, apresentam,
de certa forma, a percepção que a elite política
— e para o período também a elite cultural
— tinha e que procurava reproduzir sobre a Revolução
Farroupilha e, em especial, sobre Garibaldi. É sempre
necessário enfatizar que as menções referentes
a ele dizem respeito mais ao Garibaldi herói da Itália
e menos ao Garibaldi corsário da República Rio-Grandense.
Com respeito ao apelo de sua figura nos meios populares, dispomos
do Cancioneiro da Revolução de 1835,
de Apolinário Porto Alegre. O jornalista colheu, após
o final do século XIX, composições, versos
e quadras a respeito da Revolução Farroupilha
preservados na tradição oral.
“Reuni sob esta denominação as poesias
colhidas da tradição oral do povo rio-grandense.
(...) Os rudes bardos, em torno dos fogões dos acampamentos,
ao som das violas dedilhadas vigorosamente, inspirados pelos
sucessos da luta e paixões do momento, vazavam nos
moldes de um verso tosco o que lhes ia pela alma.”24
Diversas quadras são dedicadas aos heróis da
Revolução Farroupilha: Bento Gonçalves,
Netto, Crescêncio, Corte Real, Lima e Silva, João
Antônio da Silveira. Sátiras são dirigidas
aos imperiais, em especial Bento Manoel Ribeiro e Silva Tavares.
O que chama a atenção, contudo, é o fato
de que, nessa grande quantidade de quadras, cerca de 55, não
há nenhuma em que os feitos de Garibaldi tenham sido
mencionados. A travessia dos lanchões ou o combate
contra Francisco Pedro, o Moringue, em Camaquã, tão
freqüentemente relembrados nos discursos e comemorações
oficiais, foram simplesmente eclipsados no Cancioneiro
da Revolução de 35. Assim, podemos
inferir que Garibaldi e seus feitos não estavam tão
presentes no imaginário popular do Rio Grande do Sul
do século XIX. Considerando, ainda, o fato de haver
quadras e sonetos destinados, por exemplo, a João Antônio
da Silveira, e outros menos conhecidos, a ausência de
Garibaldi se torna bastante significativa.
Com o fim da monarquia, o PRR foi alçado ao poder,
inaugurando uma forma de dominação sobre o Estado
e seu aparelho político e burocrático que se
estenderia, de modo não inconteste, até a Revolução
de 1930. Conforme Trindade, tentaram transformar sua situação,
de classe política dirigente em nova classe dominante
hegemônica, buscando o apoio de novos setores da oligarquia
rural, ligada à agropecuária no Litoral e na
Serra, e de segmentos das camadas médias urbanas (profissionais
liberais, comerciantes e funcionários)25.
Começou, então, o trabalho de cooptação,
através de uma “integração entre
os vultos da pátria distante [a Itália] e os
líderes políticos do estado”26. O próprio
20 de Setembro, comum às duas comunidades, podia ser
comemorado conjuntamente; assim, nas comemorações
da cidade de Caxias do Sul:
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24 PORTO ALEGRE, Apolinário. O Cancioneiro da Revolução
de 1835. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais,
1981, p.27.
25 TRINDADE, Hélgio. Aspectos Políticos do Sistema
Partidário Republicano Rio-Grandense. In: DACANAL,
José H. e GONZAGA, Sergius. RS: Economia e Política.
Série Documenta. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1979,
p. 144.
26 PESAVENTO, Sandra Jatahy. O Imigrante na Política
Rio-Grandense. In: DACANAL, José H. e GONZAGA, Sergius.
RS: Imigração e Colonização. Série
Documenta. 2ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992, p. 169.
_______________________________________________________________
“O jornal dos Republicanos [O Cosmopolita –20/09/1904
– Caxias do Sul 27] em 20 de setembro de 1904 publica
na primeira página uma alegoria consistindo em um grande
retrato de Borges de Medeiros, Governador do Estado, ladeado,
no alto à esquerda, por Bento Gonçalves com
a bandeira da República Rio-Grandense e o dístico
“1835”; à direita, por Garibaldi, com a
bandeira do Reino da Itália e o dístico “1870”;
os dois seguram uma coroa circular, dentro da qual se lê
‘A união faz a força’, tudo a simbolizar
a coligação dos colonos com os gaúchos”.28
Não por acaso, foi nesse período que começou
a se falar de Anita. As obras, discursos e homenagens até
então silenciavam a respeito da esposa de Garibaldi.
Aqui a idéia de uma família ítalo-brasileira
adquire importância. Claro que se omite o fato de Anita
ter sido casada com outro homem antes de se unir a Garibaldi.
A invenção de cerimônias e a produção
de monumentos públicos foram elementos largamente utilizados
pela dominação castilhista-borgista, principalmente
no processo de integração entre gaúchos
e italianos. Com respeito a Garibaldi e, agora, Anita, os
principais eventos foram as comemorações do
centenário do nascimento de Garibaldi (1907) e a inauguração
do Monumento a Garibaldi e Anita, em 1913, em Porto Alegre.
Em todas essas ocasiões houve comemorações
oficiais por parte do Governo do Estado em associação
com a comunidade italiana e também com o consulado
daquele país.
_______________________________________________________________
27 O COSMOPOLITA, Caxias do Sul, 20 de setembro de 1904.
Arquivo Histórico de Caxias do Sul.
28 AZEVEDO, Thales de. Italianos e Gaúchos; Os anos
pioneiros da colonização italiana no Rio Grande
do Sul. Porto Alegre: A Nação – Instituto
Estadual do Livro, 1975, p.252. Citado também por PESAVENTO,
Op. cit., 1992.
29 A FEDERAÇÃO, Porto Alegre, 04 de julho 1907.
_______________________________________________________________
Em 4 de julho de 1907, o intendente José Montaury,
pelo ato de nº 50, modificou o nome da praça da
Concórdia para Praça Garibaldi. O descerramento
da placa foi precedido por passeata pelas ruas do centro da
cidade 29. Nos textos de A Federação,
Garibaldi aparece como o que “amparou, com braço
forte, magnânimo peito, e por vezes guiou”, os
pioneiros que obtiveram a vitória final em 1889. O
importante a destacar é que nesses textos nunca aparecem
as descrições da atuação de Garibaldi
durante a Revolução Farroupilha, embora as Memórias
estivessem publicadas desde 1860 e as elites tivessem
acesso a livros em francês. Anita ainda não é
mencionada.
As comemorações oficiais do dia 20 de setembro
de 1913 foram quase que exclusivamente dedicadas a Garibaldi
e Anita. Nesse dia, em continuidade ao evento de 1907, foi
apresentado ao povo porto-alegrense e gaúcho o monumento
em homenagem a Garibaldi e Anita. O monumento foi o primeiro
relativo à Revolução Farroupilha na capital,
e foi oferecido pela colônia italiana 30. A Federação,
de 19 de setembro de 1913, trazia estampada — ocupando
a íntegra da capa — a imagem do monumento. Já
a edição seguinte, do dia 22 de setembro, apresentou
todo o roteiro da celebração, desde o “préstito”
organizado pela comunidade italiana da capital, com a participação
da guarda de honra da Brigada Militar. Da cerimônia
participaram diversas autoridades, entre elas, o cônsul
italiano no Estado, o intendente municipal, José Montaury,
e o presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de
Medeiros.
O discurso de Ildefonso Pinto, representando Borges de
Medeiros, dava parte de interesses comuns às duas nacionalidades
que habitavam uma pátria comum:
“O monumento seria o símbolo imperecível
da aliança dos elementos das duas nacionalidades, visando
aos mesmos fins e tendo os mesmos interesses sociais, concretizados
no desenvolvimento do Rio Grande do Sul, que se tornou a pátria
comum.”31
Concatenavam-se, assim, os interesses políticos do
partido dominante com os da comunidade italiana, em especial
o grupo de comerciantes em processo de acumulação
de capital, que, conforme Pesavento, “optou pelo apoio
ao governo como forma mais vantajosa de ver atendidas suas
reivindicações”.32
____________________________________________________________
30 O marmorista Carlo Fossati organizou a concorrência
vencida pela empresa Fratelli Giorgini da Massa Carrara, de
Carrara. A firma italiana contratou o pintor florentino Filadelfo
Simi (1849-1923) para executar o monumento. ALVES, José
Francisco. A escultura pública de Porto Alegre: história,
contexto e significado. Porto Alegre: Artfolia, 2004, p. 59.
31 A FEDERAÇÃO, Porto Alegre, 22 de setembro
de 1913.
32 PESAVENTO, Sandra Jatahy. Op. cit. p. 171-173.
____________________________________________________________
O interessante é que aqui aparece, pela primeira vez,
a narração dos feitos de Garibaldi em solo rio-grandense.
Diversos discursos lembram episódios de suas memórias,
como a travessia dos lanchões ou o primeiro combate
do qual Anita participou. Anita surge, nesse momento, com
toda a força, não só no monumento, mas
também como participante da vida do herói.
Garibaldi era um dos elos fortes da ligação
entre gaúchos e italianos. É preciso destacar,
contudo, que se por um lado o Governo do Estado tecia consideráveis
elogios aos italianos — o próprio Castilhos havia
chamado Caxias do Sul de “pérola da colônia”
— exigia “(...) o engajamento ao partido no poder
e, subjacentemente, respeito à hierarquia e autoridade”.33
Bem denotam essa situação os 113 italianos expulsos
do Estado em 1907 e 1921, através da lei de expulsão
de 1907.
Entre 1920-1932
Apesar da apropriação da figura de Garibaldi,
exígua foi a produção historiográfica
sobre sua atuação na Revolução
Farroupilha. Essa situação somente se modificou
no início dos anos 20, cujo “grande acontecimento
foi a criação do Instituto Histórico
e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS)”.34
Esse sentimento nacionalista correspondia no Brasil à
ascensão de Getúlio Vargas, a partir de 1930,
no comando da Nação, assim como as lideranças
de Hitler e Mussolini na Alemanha e Itália, respectivamente:
“Não foi por acaso que o fascismo fez do cinqüentenário
do aniversário de Garibaldi, em 1932 — que coincidia
com o decennale, dez anos de fascismo —, uma
de suas grandes datas.”35
_____________________________________________________________
33 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da
Esquina. Imigrantes na Sociedade Porto-Alegrense. Porto Alegre:
Sulian, 1991, p. 136.
34 GUTFREIND, Ieda. A Historiografia Rio-Grandense. 2ª
ed. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 1998, p. 29.
35 GALLO, Max. Garibaldi: a força do destino. São
Paulo: Scritta, 1996, p.379.
36 Decreto nº 21.438, de 24 de maio de 1932, com o seguinte
texto: “O Chefe do Governo Provisório da República
dos Estados Unidos do Brasil: atendendo a que as cerimônias
comemorativas do 50º aniversário da morte de Giuseppe
Garibaldi interessam vivamente à Nação;
Atendendo a que a epopéia garibaldina está associada
à figura da harmonia brasileira Anita Garibaldi; Resolve
decretar feriado nacional o dia 2 de junho próximo,
no qual se comemorará o 50º aniversário
do falecimento do grande general libertador”.
37 Ver, entre outros, DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto
Alegre, 1º a 3 de junho de 1932.
_____________________________________________________________
No ano de 1932, ocorreram várias solenidades em Porto
Alegre, no Brasil e na Itália. Getúlio Vargas,
então chefe do governo provisório da República,
decretou feriado no dia 2 de junho de 1932 36. As comemorações
no Rio de Janeiro, então capital federal, incluíram
desfiles militares, cerimônia no Palácio do Itamaraty,
presidida por Getúlio Vargas, com a participação
dos embaixadores da Itália, Argentina, França
e Uruguai37. Oswaldo Aranha, em seu discurso, preocupa-se
em afastar o caráter separatista da Revolução
Farroupilha, no momento em que a dissidência paulista
colocava em xeque a revolução vitoriosa de 1930.
O ministro selecionou proclamações de Bento
Gonçalves nas quais o herói farroupilha declara
sua fidelidade à pátria brasileira. Não
faltaram elogios ao Duque de Caxias cuja “palavra era
a de um irmão, as (...) ordens eram conselhos cívicos,
exortações patrióticas”.38 Garibaldi
aparece como o maior dos heróis: “Ninguém
o excedeu na destreza, na audácia, no desinteresse,
nem no destemor”.39 A narração dos seus
feitos em solo gaúcho também não é
esquecida por Aranha: “Foi um dos heróis da retirada
de Canabarro, um dos chefes da gloriosa expedição
de Curitibanos, um dos bravos da descida da serra, comandou
na sangueira do Taquari, participou do ataque, infeliz, mas
heróico de São José do Norte (...).”40
Em Porto Alegre, as comemorações do dia 2 de
junho iniciaram pela manhã com uma cerimônia
realizada junto à estátua de Garibaldi, na praça
de mesmo nome. Discursaram Flores da Cunha, pelo Governo do
Estado e Lourenço Lotti, pelo consulado italiano. O
interventor federal fez, em seu breve discurso, uma interessante
observação a respeito da ascensão social
de Garibaldi, que sendo oriundo das classes menos favorecidas,
obteve trânsito junto às camadas mais abastadas
da sociedade européia41. Comentário ilustrativo,
num momento em que o movimento de 1930 tentava dar conta da
complexidade social que ocorrera no Brasil nas últimas
décadas.
À tarde, as comemorações incluíram
uma sessão solene, realizada no Theatro São
Pedro, sob o patrocínio do Governo do Estado e do Consulado
italiano. Nessa sessão, palestraram o cônsul
italiano Mario Carli e Darcy Azambuja42, representando o Governo
do Estado. Os discursos foram publicados pela revista do Instituto
Histórico e Geográfico43. Mario Carli fez o
panegírico de Anita, retratando uma imagem idealizada
da companheira de Garibaldi, sem nenhuma base histórica.
Ao retratar o translado dos restos mortais de Anita, de Nice
para Roma, deixa transparecer o sentido político que
esse gesto representou na Itália 44. De fato, Mussolini
buscava proveito da popularidade de Garibaldi, o herói
popular da unificação italiana.
____________________________________________________________
38 DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 03
de junho de 1932, p. 7.
39 Ibidem
40 Ibidem.
41 DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 03 de junho
de 1932, p. 3.
42 Darcy Azambuja exerceu diversos cargos políticos,
entre os quais o de deputado e Procurador-Geral do Estado.
No ano de 1937, foi agraciado com título honorífico
de Comendador da Ordem da Coroa da Itália, concedido
pelo Rei Vittoro Emmanuelli III em 1937.
43 Cincoentenário da morte de José Garibaldi.
Revista do IHGRS. Op. cit.
44 CARLI, Mario. Revista do IHGRS. Op. cit. p. 226.
_____________________________________________________________
Mario Carli, em sua palestra, ratificava o discurso de união
entre o povo italiano e brasileiro:
“E nós, embora longe em pessoa, estamos neste
momento perto em espírito ao rito solene que se realiza
sobre Gianicolo, neste mesmo momento, na presença de
Benito Mussolini, e que lança laço invisível
de fraternidade para todo o povo brasileiro, e especialmente
ao rio-grandense com o qual tantos vínculos de sangue
e de ideais nos têm unido através de um século
de história.”45
Darcy Azambuja fez um proNúnciamento um pouco menos
ufanista. Apresentou a conjuntura política européia
no século XIX em que se contrastavam as idéias
liberais oriundas da Revolução Francesa e as
tentativas reacionárias da Santa Aliança. Nesse
contexto, aparecia o jovem marinheiro: “É preciso
compreender o século dezenove para compreender Garibaldi”46,
dizia. Após historiar sua atuação na
Revolução Farroupilha — em que mais uma
vez foi visível a utilização das
Memórias de Garibaldi, como fonte —, retratou
sua passagem no Uruguai à frente da brigada italiana,
“(...) à frente da qual escreveu algumas das
páginas mais estupendas da história uruguaia”,
finalizando com o seu retorno à Europa onde atuaria
ainda na unificação da Itália e na França,
na luta contra a Prússia. Se sua apresentação
buscou contextualizar a atuação de Garibaldi
como inserida no século XIX, o epílogo de sua
palestra convergiu com as demais manifestações:
“No Rio Grande a figura senhoril do formidável
guerreiro incorporou-se ao patrimônio comum das glórias
de sua tradição e ainda hoje o seu nome congrega
em uma homenagem fraternal os dois grandes povos. Que a sua
memória seja o laço de perene amizade entre
as duas pátrias e que os pósteros aprendam na
vida do legendário batalhador a desprezar a morte para
servir à liberdade.”47
____________________________________________________________
45 CARLI, Mario. Op. cit., p. 227.
46 AZAMBUJA, Darcy. Cincoentenário da morte de José
Garibaldi. Revista do IHGRS. II trimestre, ano XII. Porto
Alegre: Livraria do Globo, 1932, p. 254-256.
47 Ibidem.
____________________________________________________________
À noite do dia 2 de junho estava reservada ainda uma
conferência pública organizada pelo IHGRS que
consistia em uma palestra do historiador Otelo Rosa, na Biblioteca
Pública. Ele rememora os feitos de Garibaldi em solo
gaúcho, utilizando como fonte, principalmente, as Memórias.
No campo da historiografia, na década de 1930 foram
produzidas as obras que consagraram Garibaldi como herói
farroupilha. Em 1933, Alfredo Varela publicou a História
da Grande Revolução, e em 1939 surgiu Garibaldi
e a Guerra dos Farrapos, de Lindolfo Collor.
A História da Grande Revolução
é considerada o mais completo estudo sobre o período
farroupilha. Por sua vinculação à matriz
platina, a obra causou grande polêmica à época,
gerando discussões entre Varela e outros membros do
IHGRS. Para nosso objetivo, todavia, interessa o contraste
entre o Garibaldi que é retratado pelo próprio
Alfredo Varela, em 1897, na obra Descrição
Física, Histórica e Econômica e o de História
da Grande Revolução.
Na obra de 1897, Garibaldi é pouco mencionado. As passagens
a ele referentes são similares às das obras
de Tristão de Alencar Araripe, Assis Brasil e Ramiro
Barcelos. Os únicos episódios heróicos
mencionados são o combate com Moringue, na Fazenda
do Brejo e a travessia dos lanchões. Garibaldi aparece
como “o cavaleiro andante do século”, mais
como o “herói de dois mundos” do que como
o “corsário da República Rio-Grandense”.
Em contraste, em História da Grande Revolução,
Garibaldi é elevado a herói de primeira grandeza:
“Em verdade, parece que, com a presença de Garibaldi,
menos tivemos a de um egrégio mortal, do que a de um
desses benignos deuses do paganismo, cultuados antanho”
48. Os episódios antes apenas mencionados são
relatados com contornos épicos, com abundantes alusões
à mitologia grega. A atuação de Garibaldi
em Santa Catarina, esquecida em 1897, aparece de forma bastante
detalhada (ao contrário da maior parte das obras que
falam sobre Garibaldi, a de Varela utiliza outras fontes,
além das Memórias). A derrota em Santa
Catarina é, segundo o historiador, responsabilidade
de Canabarro, acusado de “nada prever e nada prover”.
Enfim, Alfredo Varela, a despeito da ampla pesquisa e do uso
de múltiplas fontes, retratou Garibaldi, em 1933, à
luz da construção feita nas primeiras décadas
do século XX em torno da figura de Garibaldi como herói
farroupilha.
_____________________________________________________________
48 VARELA, Alfredo. História da Grande Revolução:
o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Ed. Globo, 1933,
v. 5, p. 292.
_____________________________________________________________
Garibaldi e a Guerra dos Farrapos é a primeira
obra de fôlego a sistematizar a atuação
do italiano em solo gaúcho. Collor não apresenta
fatos novos. Utiliza amplamente as Memórias,
a História da Grande Revolução
e as obras do final do século XIX. Aqui Garibaldi já
surge como herói farroupilha. Sua participação
na Revolução é tida como decisiva e ele
figura entre os protagonistas. Em contraste com Varela, que
pouco fala de Anita, Collor a coloca ao lado do herói
em todos os episódios nos quais ela aparece nas Memórias.
E, corajosamente, ao contrário inclusive de historiadores
de períodos mais recentes, não deixa de mencionar
que Anita era casada quando uniu-se a Garibaldi, fato aliás
sabido desde 1907.49
Considerações Finais
José Murilo de Carvalho, na obra A Formação
das Almas, explica como Tiradentes, um desconhecido até
a década de 1880, foi alçado à condição
de herói da República. No caso, a falta de envolvimento
popular na implantação do novo regime reforçava
a necessidade de um símbolo. Igualmente, a ausência
de bons candidatos a herói diretamente envolvidos no
evento, caso de Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamin
Constant, levou ao resgate de Tiradentes.
Não foi o caso de Garibaldi. O italiano esteve diretamente
envolvido na Revolução Farroupilha, ainda que
por pouco tempo, e apesar do pedido de anistia ao Imperador
do Brasil. Tampouco carecia de “bons” heróis
o movimento farroupilha.
Ao que tudo indica, o motivo principal da eleição
de Garibaldi como herói farroupilha e elemento legitimador
da República Rio-Grandense foi a condição
alcançada de herói italiano. Se tivesse morrido
nos campos do Rio Grande do Sul, como Luigi Rosseti, provavelmente
menor teria sido a sua projeção.
O culto a Garibaldi trouxe a herança dos ideais farroupilhas
para o partido político que se afirmava no poder no
Rio Grande do Sul da República Velha. Como herói
do Rio Grande do Sul e da Itália, tornou-se um precioso
elo de ligação com a comunidade imigrante italiana
que, em finais do século XIX e início do século
XX, adquiria grande importância econômica e política
no Estado. O elo não precisou ser construído.
Ele já existia.
_____________________________________________________________
49 “Em 1907, depois de muita pesquisa, ele [o historiador
Henrique Boiteux] encontrou no livro quinto dos “Atos
Matrimoniais da Diocese de Laguna”, que cobre o período
de 1832 a 1844, a certidão de casamento de Anita”.
MARKUN, Op. cit. p. 70.
_____________________________________________________________
Todavia, como lembra José Murilo de Carvalho, a construção
de símbolos não é arbitrária e
não se faz no vazio social. O candidato a herói
“tem que responder a alguma necessidade ou aspiração
coletiva, refletir algum tipo de personalidade ou de comportamento
que corresponda ao modelo coletivamente valorizado”.50
Garibaldi possuía certas características que
facilitavam essa identificação. Foi herói
no mar e na terra. Max Gallo, discorrendo a respeito da atuação
do italiano em Montevidéu, afirma: “A luta principal
se trava em terra e Garibaldi vai tornar-se, também,
nesse terreno – no próprio local, através
da imprensa em toda a Europa e nos Estados Unidos -, uma figura
heróica.”51 Era um homem de ação,
ao contrário de Tito Lívio Zambeccari e Luigi
Rosseti, cuja participação no movimento foi
mais intelectual. Do ponto de vista ideológico, mantinha-se
mais neutro. Fazia parte da Jovem Itália, mas não
escrevia como Rosseti, que chegou a se desentender com os
líderes farroupilhas por suas idéias democratas
radicais. Casou-se e teve filhos com uma brasileira, fato
que sempre aparece nas homenagens a Garibaldi. Finalmente,
teve a sua biografia mundialmente conhecida por ter sido produzida
por um escritor famoso, Alexandre Dumas, autor de Os Três
Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo.
Todos esses elementos garantem a Giuseppe Garibaldi um
lugar no imaginário popular. Todavia, quando analisamos
a Revolução Farroupilha, vemos um estrangeiro
entre outros, cuja participação foi transitória
e não decisiva. Garibaldi como herói farroupilha
é uma construção, bem cimentada acabada,
mas construção.
____________________________________________________________
50 CARVALHO, José Murilo de. Op. cit. p. 55.
51 GALLO, Max. Op. cit. p. 105.
____________________________________________________________
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Farroupilha, Subcomissão de Publicações
e Concursos, 1985
O COSMOPOLITA – Caxias do Sul
DIÁRIO DE NOTÍCIAS – Porto Alegre
A FEDERAÇÃO – Porto Alegre
O POVO – Piratini e Caçapava
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O jovem Garibaldi e seu mestre,
professor Arena. Litografia de Edoardo Matania, para
a obra "Vida de Garibaldi", de Jessie White
Mario |
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Garibaldinos desembarcando na Sicília,
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Tartana: embarcação
semelhante a que Garibaldi
aprendeu a navegar com seu pai |
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Mondin (60x73) |
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no Sul, em 1839 |
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Batalha naval da Laguna em quadro
da época |
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Rio Pardo segundo Edoardo Matania |
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Uma visão do naufrágio
do Rio Pardo, por Edoardo Matania |
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"Garibaldi e Anita marcam de
romance a longa porfia",
óleo sobre tela de Guido Mondin (60x73) |
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Garibaldi retorna da América
do Sul, por Edoardo Matania |
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Giuseppe Garibaldi carregando o
corpo de Anita Garibaldi, por Giuseppe Bandi (1889) |
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Monumento a Garibaldi, em Brascia,
Itália, obra de Eugenio Maccagnani (1889) |
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Monumento a Garibaldi e Anita inaugurado
em Porto Alegre, em 1913 |
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Anita e Giuseppe Garibaldi na filatelia
internacional:
reproduções de selos da coleção
de Eduardo Vieira dos Santos |
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| Selos comemorativos aos 200 anos de Garibaldi, emitidos
em conjunto pelos Correios do Uruguai e do Brasil. Arte
de Márcia Mattos e C. Menck Freire (Edital n 12) |
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Monumento a Anita, de Mario Rutelli
(1931), em Roma, Itália |
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