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Mensagem do Ministério Público
Mauro Henrique Renner
 
Mensagem do Ministério Público
Ricardo Vaz Seelig
 
Palavra dos Editores
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Apresentação
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Annita Garibaldi Jallet
 
O mito de Garibaldi: origem e significados no Cone Sul até 1907, ano do centenário de seu nascimento
Pietro Rinaldo Fanesi
 
Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para a América Latina
Maria Pace Chiavari
 
O “aprendizado” de Garibaldi na América Latina: a “scuola delle palle” e a “escola moral”
Anna Maria Lazzarino Del Grosso
 
Garibaldi: republicano e revolucionário internacional
Carmen Lícia Palazzo
 
Memória de Garibaldi e a construção da identidade entre italianos no
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A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário da Revolução Farroupilha
Rosemary Fritsch Brum
 
Garibaldi: a gênese do mito
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Garibaldi na América do Sul
Yvonne Capuano
 
Livro Completo
 
 
 
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Garibaldi na América do Sul


Yvonne Capuano
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Pesquisadora de História e escritora, autora do livro De sonhos e Utopias –
Anita e Giuseppe Garibaldi, é graduada pela Escola Paulista de Medicina


Chegada ao Brasil

O navio Nautonnier aproximou-se lentamente do porto do Rio de Janeiro, destinado a embarcações mercantes, em data imprecisa: fins de 1835, início de 1836. Trazia a bordo um jovem italiano esperançoso que lutava pela unificação da Itália e que fugira por envolver-se em questões políticas. O idealista era Giuseppe Garibaldi, revolucionário republicano nascido em Nizza, Itália, em 4 de junho de 1807, cosmopolita que sempre lutaria pela liberdade dos povos. Angelo Maria, seu avô, e Domenico, seu pai, homens do mar, possibilitaram ao jovem Giuseppe tornar-se marinheiro e comandante de navios.

Garibaldi, numa das viagens, no porto de Taganrog, encontrou-se com Giovanni Battista Cuneo, marinheiro filiado à Jovem Itália. Tratava-se de organização fundada por Giuseppe Mazzini, que pregava: os povos que não soubessem, pela energia do seu caráter, conquistar a liberdade de pensamento, eram indignos de possuí-la. Seu programa resumia-se na expressão Unidade e República e sua divisa era Deus e povo, pensamento e ação. Mazzini, genovês nascido em 1805, exercia a profissão de advogado junto aos menos afortunados e lutava para libertar a Itália do jugo estrangeiro.

Quando Garibaldi decidiu entrar para o movimento, adotou o cognome Borel. Envolvendo-se com Mazzini num levante, foram delatados e condenados à morte, o que os obrigou a fugir: Mazzini para Londres e Garibaldi para o Brasil.

Ao chegar, Garibaldi encontrou-se com Luigi Rossetti, que o acolheu. Rossetti era de Gênova e fervoroso discípulo de Mazzini, com quem havia fundado o jornal La Voce del Popolo. Pelas mesmas razões – a difusão de idéias políticas então consideradas subversivas – viera foragido para o Brasil. Rossetti era um homem culto, e aqui dedicou-se ao magistério, de início, e ao comércio, mais tarde, o que lhe permitiu condições financeiras para auxiliar os companheiros que chegavam da Itália. Garibaldi passou então a dedicar-se ao comércio de cabotagem no litoral brasileiro, atividade que não se revelou muito lucrativa.

Italianos na Revolução Farroupilha

Em 20 de setembro de 1835, irrompera em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a Revolução Farroupilha. Italianos sonhadores associaram-se aos revolucionários, e entre eles encontrava-se Tito Livio Zambecari, conde bolonhês adepto de Mazzini. Em outubro do ano seguinte, Bento Gonçalves, líder da revolução, foi vítima da perseguição implacável dos imperiais, que o levaram preso, junto com Zambeccari, para o Rio de Janeiro. Enviados pela organização italiana Congrega della Giovine, que se formara no Rio de Janeiro e reunia italianos emigrados, Rossetti e Garibaldi visitaram Zambeccari na prisão. Ficaram encantados com os relatos sobre o movimento e resolveram aderir à causa. Começava dessa forma a luta de Garibaldi na América do Sul.

Ao receberem do governo farrapo uma carta de corso, em maio de 1837, Garibaldi e Rossetti lançaram-se ao oceano em perseguição às embarcações imperiais. O pequeno barco, a que deram o nome de Mazzini, saiu do Rio de Janeiro com armas e munições, embalado pelo entusiasmo e idealismo dos tripulantes:

“Finalmente éramos livres, navegávamos debaixo de um pavilhão republicano; enfim éramos corsários. Com dezesseis homens de equipagem e um navio, éramos capazes de declarar a guerra a um império. [...] O oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu império.”1

Ações guerrilheiras

Durante a travessia aprisionaram duas embarcações: a lancha Marimbondo e o navio Luísa. A primeira continha poucos víveres e um escravo chamado Antônio, que se ligou ao grupo e foi alforriado por Garibaldi, embora isso não tivesse valor legal. A segunda, carregada de café, pertencia ao austríaco Guilherm Brohun e ao brasileiro Filipe Néri de Carvalho, e tinha nove tripulantes: o comandante, o contramestre, quatro escravos, um passageiro e dois marinheiros. Como não havia possibilidade de Garibaldi comandar ao mesmo tempo as duas embarcações, afundou o Mazzini e continuou com o Luísa, de maior porte2. Na altura da Província de Santa Catarina, libertou a tripulação e ficou com os escravos Luís, Pedro, Bentura e Manuel, que preferiram continuar ao seu lado e também foram alforriados.

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1 GARIBALDI, 1907, pp. 46-47.

2 Alguns historiadores admitem que Garibaldi trocou o nome Luísa por Mazzini, pelo qual passaremos a chamá-lo.


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Os portos do Rio Grande do Sul encontravam-se vigiados pelos imperiais e Garibaldi não podia se arriscar. Continuou navegando até o rio da Prata e atracou em Maldonado, Uruguai. Ao chegar, tremulava no mastro a bandeira farroupilha, desconhecida das autoridades, o que causou curiosidade e preocupação. Rossetti partiu para Montevidéu à procura dos amigos italianos, e Garibaldi esperou seu retorno, tentando vender o café. A polícia marítima procurou identificar o país de origem dos visitantes, mas nada conseguiu. O navio permanecia no porto. As águas uruguaias, constantemente invadidas por embarcações revolucionárias que navegavam pelo rio da Prata, obrigavam os diplomatas brasileiros a exigir do governo oriental uma constante vigilância. O vice-cônsul do Brasil radicado em Maldonado, Juan Manuel Acosta Pereyra, ao ser avisado sobre o navio ancorado, informou o fato à capitania dos portos e exigiu a prisão dos tripulantes.

Garibaldi zarpou sem Rossetti com destino a Punta de Jesús y María, a aproximadamente setenta quilômetros de Montevidéu. A chefia dos portos ordenou a captura do Mazzini e, em cumprimento à intimação feita pelo ministro da Guerra e da Marinha, enviou os navios Maria e Loba no seu encalço. Garibaldi avistou do convés as embarcações, mas não sabia se eram amigas, pois não traziam bandeiras hasteadas; somente quando se avizinharam é que o jovem italiano constatou que vinham atacá-lo. A situação se complicou quando vários tripulantes do navio inimigo conseguiram passar para o Mazzini, cujo leme ficou desgovernado com a morte de Fiorentino, encarregado das manobras. O próprio Garibaldi foi atingido por uma bala na região do pescoço, permanecendo inconsciente por algum tempo3. A luta continuou por cerca de uma hora, sustentada por Luigi Carniglia, Pasquale Lodola, Giovanni Lamberti e outros. Repentinamente, as embarcações inimigas se afastaram, e em relatório oficial posterior consta a informação de que o fizeram por falta de munição.

Os amigos preocupavam-se com o estado de Garibaldi, que durante dias, com séria lesão entre as vértebras cervicais e a faringe, delirava de febre. Cuidado com desvelo por Carniglia, a quem se ligou fielmente até o fim da vida, recuperou aos poucos a saúde:

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3 Há controvérsias sobre o combate. Em relatório oficial, o governo uruguaio afirma que o confronto deu-se apenas com o lanchão Maria, e que somente no dia seguinte o Loba partiu em direção a Punta de Jesús y María.

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“Quando estava deitado no meu leito de agonia, abandonado por todos e delirava com o delírio da morte, era Luigi que sentado à cabeceira do meu leito com a dedicação e paciência de um anjo não se afastava de mim um instante senão para ir chorar e ocultar as suas lágrimas [...]. Luigi Carniglia era de Deiva, pequeno país do levante. Não havia recebido instrução literária, mas supria esta falta por um maravilhoso entendimento. Privado de todos os conhecimentos náuticos que são necessários aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com a sagacidade e felicidade de um piloto consumado.”4

Impedido de falar, Garibaldi apontou o rumo a seguir, sem convicção. Sabia que em qualquer lugar em que aportassem seriam aprisionados. Navegavam com rumo incerto, em região desconhecida, hasteando uma bandeira de revolucionários. Aproximaram-se da Província de Entre Ríos; ao encontrarem a galeota Pinturesca, seu comandante, dom Lucas Tantalo, comovido com o relato dos italianos, forneceu-lhes víveres e socorreu Garibaldi.

A viagem continuou. Em 26 de junho o navio chegou a Gualeguay, porto de Entre Ríos, onde Garibaldi procurou o governador, Pascual Echagüe, e lhe entregou uma carta de recomendação fornecida por dom Lucas. Constatando o precário estado de saúde em que ele se encontrava, Echagüe enviou-o ao seu médico particular, Ramon del Arca, que constatou que a bala ficara alojada no pescoço, provocando-lhe febre e dificuldade de deglutição.

Garibaldi escreveu a Giovanni Batista Cuneo, companheiro revolucionário, que se encontrava em Montevidéu:

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4 GARIBALDI, 1907, p. 61.

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“Gualeguay, 1o de outubro de 1837. Vamos às questões que o seu precioso coração me manda. As minhas feridas estão quase curadas, assim como a operação feita em minha nuca; aquela maldita bala entrou sob a minha orelha esquerda e, depois de ter atravessado diametralmente o pescoço, ficou alojada no lado direito, a meia polegada da pele, e provocou uma operação de quase meia hora que dava gosto, principalmente quando o doutor afastava os tendões nervosos entre os quais ela se alojara. A ferida do braço direito foi muito leve; a bala somente havia passado de raspão. Borel.”5

Juan Manuel Rosas, presidente da Argentina e das Províncias Unidas do Rio da Prata, dominava Entre Ríos. Ao ser informado da presença de Garibaldi em Gualeguay, enviou a Echagüe ordem para prendê-lo. Confinado na residência de dom Jacinto Andreu, tinha relativa liberdade, pois o governador conhecia Bento Gonçalves e o movimento farroupilha.

O corsário italiano ficou seis meses com Andreu, que lhe dedicou uma amizade sincera. Mas planejava a fuga, já que o ócio não combinava com seu temperamento, e o ideal era continuar lutando pelos povos. A oportunidade surgiu quando Pascual Echagüe, chamado por Rosas a Buenos Aires, foi substituído pelo comandante Leonardo Millán, famoso pela violência de seus atos. Em noite de tempestade, Garibaldi fugiu. Solicitou guia e cavalos, pois desejava alcançar a residência de um inglês, dono de barco que o levaria a Montevidéu para encontrar-se com Rossetti e os amigos italianos. Mas o guia, depois de cavalgarem quase oitenta quilômetros, o traiu nas proximidades da estância de Ibicuy. Preso e amarrado pelas mãos e pés ao cavalo, retornou a Gualeguay. Sua narrativa prossegue:

“Conduzido à presença de Leonardo Millán, fui intimado por ele a deNúnciar quem me havia fornecido os meios de efetuar a minha fuga. É escusado dizer que não fiz tal confissão, pois declarei que só eu a tinha arranjado e executado. Então, como me achava imobilizado e Leonardo não tinha coisa alguma a temer, aproximou-se de mim e começou a bater-me nas faces com o chicote. Depois renovou as suas perguntas, não sendo mais feliz que da primeira vez. Mandou-me conduzir à prisão e disse em voz baixa algumas palavras ao ouvido de um dos guardas. Estas palavras eram a ordem de me aplicar a tortura.”6

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5 MARIO, 1884, p. 80.

6 GARIBALDI, 1907, pp. 64-67.


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Echagüe, ao voltar, informado do que sucedera, enviou Garibaldi à Província de Bajada e, pouco tempo depois, sem explicações, libertou-o. Livre, ele embarcou num navio italiano até a desembocadura do rio Paraná-Iguaçu, onde conseguiu outra condução e chegou a Montevidéu. Escondeu-se na casa do italiano Pesenti, pois ainda vigorava contra ele a ordem de prisão emitida pelo combate que travara em Punta de Jesús y María. Aproximadamente um mês depois, encontrou-se com Rossetti e soube que ele, ao descer do navio e dirigir-se a Montevidéu, foi perseguido pela polícia e somente não foi preso porque um amigo o protegeu.

Em Piratini

Em 15 de junho de 1838, Oribe renunciou, e os presos políticos foram anistiados. Garibaldi e Rossetti prepararam-se para retornar ao Brasil e juntar-se novamente aos farroupilhas, defendendo os ideais que acreditavam ser iguais aos da Itália. A viagem de retorno, difícil e cansativa, com cavalgadas nas extensas planícies uruguaias, tornava-os ansiosos. Ao alcançarem a fronteira do Brasil, avistaram pequenas casas construídas ao pé da serra, cavaleiros exímios e carretas puxadas por bois. Esperançosos, procuraram a sede do governo farroupilha, que sabiam estar instalada em Piratini. O local foi escolhido por vários motivos: situava-se próximo ao rio Jaguarão, o que em caso de invasão legalista os favoreceria na retirada, e era um ponto central de difícil acesso.

Ao se aproximarem da sede do governo, procuraram pelo presidente, mas Bento Gonçalves estava em campanha. Foram recebidos pelo ministro da Fazenda, Domingos José de Almeida, que ao ouvir a história dos italianos surpreendeu-se com sua coragem; não podia deixar de aproveitá-los, incorporando-os novamente ao movimento revolucionário.

Rossetti, culto, dominando o idioma português, foi designado para redigir O Povo, jornal político e literário da República Rio-Grandense; Garibaldi, que crescera tendo o mar por horizonte, foi encaminhado a Camaquã para auxiliar na construção dos barcos. Nessa ocasião Bento Gonçalves chegou a Piratini e avistou-se com Garibaldi:

“Foi então que pela primeira vez vi aquele valente, gozando alguns dias a sua intimidade. Era realmente o filho querido da natureza — que lhe havia prodigalizado tudo o que torna o homem um verdadeiro herói. Bento Gonçalves teria então sessenta anos. Alto, esbelto, montava a cavalo [...] com um garbo e agilidade admiráveis. Naquela posição ninguém o julgaria com mais de vinte e cinco anos. [...] Fora um dos primeiros a levantar o grito de guerra, não com vistas de ambição pessoal, mas como qualquer outro beligerante filho daquele povo. Na campanha passava como o mais ínfimo habitante das campinas; isto é, com a carne assada e água pura. No dia em que nos encontramos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal; e conversamos com tanta familiaridade como se fossemos companheiros de infância e iguais em posição. Com tais dotes naturais e adquiridos, Bento Gonçalves era o ídolo de seus concidadãos; porém, coisa estranha, foi quase sempre infeliz nas empresas guerreiras, o que me faz acreditar que o acaso é superior ao gênio para os sucessos da guerra e para a fortuna dos heróis.”7

Camaquã

A família de Bento Gonçalves possuía vasta extensão de terra em Camaquã. Ao chegar, Garibaldi foi conduzido ao estaleiro do Brejo, cuja proprietária, Antônia, era irmã do líder farroupilha. O local era antes usado para preparação do charque e depósito de erva-mate, transformando-se então no arsenal de marinha dos farrapos.

Lá o italiano encontrou-se com John Griggs, conhecido como Big John, que diziam ser um padre irlandês nascido em família rica, que abandonara a vida eclesiástica para se tornar um homem do mar. Sobre ele corriam várias histórias.

“Afirmam que ele deixou a vida religiosa por ter atentado contra a moral e depois, arrependido, converteu-se à seita dos quakers, que proibia o uso de qualquer tipo de arma. Por esse motivo, andava sempre com um cajado de madeira para se defender, manejando-o com grande habilidade; quando lutava, tomava cuidado para não ferir de morte os seus adversários. Caso acidentalmente isso viesse a acontecer, repetia: Accipe ad huc illum, Domine, in misericordiam tuam. (Recebei-o, Senhor, em Vossa misericórdia.)”8

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7 GARIBALDI, 1907, p. 71.

8 BENTO, p. 231.


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Garibaldi foi encarregado da construção de dois lanchões. Rossetti, que se demitira da redação do jornal O Povo por discordar de várias idéias publicadas, juntou-se a ele. O trabalho era lento e árduo, já que todo o material tinha que ser extraído da região: couro, madeira e ferro para a fabricação das peças. Garibaldi recorreu a Luigi Carniglia, conhecedor de construção naval, que em Montevidéu reuniu vários refugiados italianos, entre eles Edoardo Mutru, seu antigo companheiro de lutas em Gênova.

“No fim de dois meses a esquadrilha estava pronta. Cada um dos vasos foi armado com duas peças de bronze; quarenta negros ou mulatos foram agregados aos trinta europeus, formando desse modo duas equipagens que compreendiam setenta homens. Tomei o comando do mais forte, a que pusemos o nome de Rio-Pardo. John Griggs foi encarregado do segundo, que se chamou — O Republicano [...]. Começaram então as nossas correrias pela lagoa dos Patos. Passaram-se alguns dias sem fazermos mais do que presas insignificantes. Os imperiais tinham navios de guerra e um barco a vapor. Porém nós tínhamos a nosso favor os baixios das águas. A lagoa não era navegável para os grandes barcos, senão n’uma espécie de canal que seguia ao longo da sua margem no oriente. No lado oposto sucedia o contrário, porque o solo era cortado em declive e nós mesmos víamo-nos às vezes encalhados antes de tocar na margem. Os bancos de areia estendiam-se pela lagoa à semelhança dos dentes de um pente e só havia de bom que esses dentes eram bastante afastados uns dos outros. Quando éramos forçados a encalhar, ou os canhões do navio de guerra ou do vapor nos incomodavam, dizia: — Avante, meus patos, saltemos à água. E os meus patos caíam n’água e à força dos braços erguiam o lanchão, transportando-o para o outro lado do banco de areia.”9

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9 GARIBALDI, 1907, p. 73. Há entre os estudiosos controvérsias quanto aos nomes dos barcos.

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A caminho de Laguna

Os farroupilhas, otimistas, continuavam as conquistas e planejavam invadir Santa Catarina, agregando-a à República Rio-Grandense. Havia outra causa importante para tomá-la: a barra do Rio Grande, cujo porto era regulador comercial da Província do Rio Grande do Sul, e o rio São Gonçalo, que ligava a lagoa Mirim à lagoa dos Patos e ao estuário do rio Guaíba, estavam dominados pelos imperiais. Os farroupilhas controlavam algumas regiões de lagoas e rios navegáveis ameaçados de conquista por John Grenfell, mercenário inglês contratado pelo Império, mas não possuíam um porto, o que era fundamental. A invasão de Laguna resolveria o problema, pois daria aos revoltosos a possibilidade de conquistá-lo.

Garibaldi, Big John e companheiros construíram no estaleiro quatro barcos, e planejaram que dois continuariam realizando o corso na lagoa dos Patos, chefiados por Zeferino Dutra, enquanto os outros seriam lançados no oceano para alcançar Laguna. Mas ocorria um problema quase intransponível: a barra do Rio Grande, tomada pelos imperiais, impedia que os barcos na lagoa alcançassem o oceano.

Garibaldi então armou duas imensas carretas, colocando-as em um terreno em declive, e deslizou sobre elas os barcos; puxadas por bois, levou-as até as praias do Capivari. Partiu em 5 de julho de 1839, e depois de percorrer por terra aproximadamente sessenta quilômetros em terreno arenoso e salino, chegou às praias, onde durante três dias reparou as embarcações, e lançou-as ao mar.

“Esse memorável projeto executado por Garibaldi — o transporte dos barcos Seival e Farroupilha por terra, desde a lagoa dos Patos, na foz do Capivari, até as praias de Tramandaí — tornou-se célebre não tanto pelo transporte em si, pois nada de novo nele havia (Fournire e Sorriano, na guerra entre o Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata, executaram façanha idêntica, e os venezianos, em 1439, fizeram idêntico transporte, mas em maiores proporções, pois levaram 30 navios, de Revoredo a Torbole), mas pela audácia do feito, desorientando completamente os imperiais, que o julgavam perdido pelo bloqueio que lhe faziam no saco do Capivari, e pela rapidez do transporte de um a outro ponto (nove dias).”10


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10 SPALDING, 1982, pp. 161-162.

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Ao atingirem o mar, desfraldaram a bandeira da República Rio-Grandense. O barco Seival, comandado por Big John, de maior porte, navegava na dianteira, seguido pelo Farroupilha, comandado por Edoardo Mutru, onde estavam Garibaldi, Carniglia, Starderini, Giovanni e Nadonne.

Na altura do cabo de Santa Marta, em Santa Catarina, o oceano Atlântico, violento, prenunciou uma tempestade que pouco depois desabou. O Seival conseguiu atravessá-la sem que Big John percebesse que o Farroupilha, de tamanho menor, naufragava. Garibaldi, exímio nadador, vária vezes mergulhou para salvar os amigos; em vão, porque não conseguiu vencer o turbilhão das ondas. Chegando à praia, exausto, encontrou poucos sobreviventes.

“Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos. Carniglia, Mutru, Starderini, Nadonne e Giovanni [...]. Não me recordo do nome do sexto. Não obstante, devia me lembrar de seu nome. Peço perdão à pátria por havê-lo esquecido. G.G.”11

A República Catarinense

No dia seguinte, a cavalo, Garibaldi partiu ao encontro de Davi Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes, comandante dos lanceiros negros. O Seival encontrava-se ancorado na lagoa de Garopaba, com Big John e Rossetti, que souberam do acontecido.

Os farroupilhas invadiram a vila de Laguna. Davi Canabarro, em 22 de julho de 1839, proclamou a República Catarinense, e a população, esperançosa, regozijou-se com os revoltosos. Antônio Sousa Neto, um dos mais conceituados líderes farroupilhas, homenageou os heróis na sua ordem do dia:

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11 GARIBALDI, 1907, pp. 84-88.


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“1839, 22 de julho. Tomada da Laguna por Davi Canabarro. Quartel-general na vila Setembrina, de agosto de 1839. O comandante-em-chefe do exército, extasiado de prazer, faz público ao mesmo o brilhante triunfo que acabam de alcançar as armas republicanas sobre a horda imperial estacionada na vila da Laguna, triunfo tanto mais glorioso quanto é seguro, garantindo a completa regeneração do Estado Catarinense. O dia 22 de julho raiou glorioso no horizonte político daquela nascente república e seus efeitos serão com letras indeléveis levados à mais remota posteridade. O intrépido e perito coronel Davi Canabarro, digno comandante da divisão libertadora, ao aproximar-se daquela importante posição, cujo mando estava confiado ao decrépito Vilas-Boas, menosprezando seus canhões, mercenárias baionetas e só escudado no valor dos seus bravos companheiros, não evitou em carregar-lhe e a deusa da vitória coroou seu esforços! [...] O general-comandante tributa sinceros encômios ao cidadão coronel Davi Canabarro, [...] ao bravo tenente-coronel Joaquim Teixeira Nunes, [...] ao tenente de marinha Lourenço Valerigini e tenente da mesma, Inácio Bilbao, bem como ao comandante da esquadrilha capitão-tenente José Garibaldi [...]. Antônio Neto.”12

Encontro com Anita

Garibaldi registrou em suas Memórias que nunca havia pensado em casamento. Considerava-se incapaz de ter família, por prezar a independência e ter paixão por aventuras. Mas o destino decidiu o contrário. Ao perder os amigos, embora existisse Rossetti ocupado com a organização de Laguna, ele se sentia só. Nesse isolamento encontrou Ana Maria de Jesus Ribeiro ou Ana Maria Ribeiro da Silva, como alguns historiadores preferem chamar Anita Garibaldi:

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12 Apud BOITEUX, 1985, pp. 125-127.

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“Eu andava pelo tombadilho do Itaparica, quando decidi procurar uma mulher que me tirasse daquela insuportável e tediosa situação. Lancei um olhar às habitações da Barra, situada na entrada sul de Laguna. Com a luneta avistei uma jovem e pedi que me transportassem até ela. Desembarquei e dirigi-me às residências onde estava o motivo da minha viagem. Não a encontrei, mas um homem que conheci logo após meu desembarque convidou-me para tomar café em sua casa. Entramos e a primeira pessoa que avistei era aquela que eu procurava: Anita, a mãe dos meus filhos, a companheira da minha vida, na boa e má sorte, a mulher com a coragem que eu sempre quis ter. Ambos ficamos estáticos e silenciosos, olhando-nos um ao outro como duas pessoas que já se encontraram e tentam reconhecer reminiscências nas fisionomias... Finalmente cumprimentei-a e disse-lhe em italiano: Tu devi essere mia. (Você deve ser minha). Fui magnético na minha insolência e tinha atado naquele momento as nossas existências, dando um nó que só a morte poderia desfazer.”13

A reação imperial

A conquista de Laguna amedrontou o Império, que se articulou para reconquistá-la. Francisco José Soares de Andréa, português com duvidosa reputação e conhecido como o carrasco do Pará, pelas atrocidades cometidas durante a Cabanagem, foi nomeado presidente do Rio Grande do Sul. Junto com Frederico Mariath, comandante naval, elaborou planos para retomar Laguna.

Os habitantes, que haviam recebido os farroupilhas com entusiasmo, mostravam-se descontentes. Temiam Canabarro, que adotava postura rígida e inflexível. As desavenças com Rossetti, Garibaldi e outros líderes, que discordavam de sua conduta, desnorteavam a população e os próprios farroupilhas. A situação piorou com o episódio de Imaruí, pequena aldeia próxima a Laguna, cujos moradores, pesarosos, trocaram a bandeira revolucionária pela do Império.

Garibaldi recebeu ordem de Canabarro para verificar o que se passava, acompanhado pelos soldados baderneiros do comandante farroupilha, que não lhe obedeceram e destruíram a aldeia sem que o líder italiano pudesse contê-los. Canabarro, soberbo, ao ordenar aos seus subordinados que destruíssem Imaruí, contribuiu para a decadência de seu comando sem que Garibaldi pudesse interferir. Confessou mais tarde:

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13 GARIBALDI, 1888, p. 56.

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“Em lugar de encontrar inimigos, encontramos aliados, em lugar de sermos combatidos, fomos festejados. Os habitantes nos trataram como irmãos e libertadores, título que desgraçadamente não soubemos justificar enquanto estivemos nessa povoação amiga.”14

Ao lado de Garibaldi, Anita vivia momentos difíceis, mormente pela decepção dos seus irmãos, que almejavam para ela uma situação melhor. Sofria os preconceitos da união com Garibaldi, mas não retrocedeu, e ao seu lado demonstrou o idealismo e o heroísmo que a consagrariam na história.

Soares de Andréa, coordenando as forças em Imbituba, sob o comando naval de Frederico Mariath, atacou Laguna com uma frota de vinte e dois navios. Investiu contra os farroupilhas, que tentaram impedir a sua passagem na barra, quando Garibaldi colocou os barcos em semicírculo, presos entre si por fortes correntes. Tinham poucas lanchas e cinco navios: Rio Pardo, Itaparica, Caçapava, Santana e Seival.15 Numa luta desigual, os farroupilhas foram vencidos. Ao pressentir que estavam perdidos, Garibaldi incendiou os barcos. Durante todo o conflito, contou com o auxílio de Anita, que transportou as armas para terra firme, num pequeno barco, em inúmeras travessias.

Garibaldi, em suas Memórias, e Mariath, em relatório ao Império, narraram o combate. Embora em lados opostos, as descrições comprovam o sangrento confronto e o heroísmo de Garibaldi, que lutou bravamente:

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14 Apud CABRAL, p. 133.

15 VARELA, 1933, v. 4. p. 448.


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“Era um verdadeiro açougue de carne humana; andava-se por cima de montões de cadáveres. O comandante do Itaparica, João Henrique, de Laguna, estava deitado no meio de dois terços da sua equipagem com uma bala que lhe tinha feito no meio do peito um buraco, por onde podia entrar perfeitamente um braço. O pobre João Griggs tinha, como já disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha. Fiquei sufocado, à vista de semelhante espetáculo, e perguntei a mim mesmo como poderia ter escapado. Num momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos navios e os nossos bravos tiveram ao menos uma sepultura digna deles. Enquanto tinha cumprido a minha obra de destruição, Anita, pela sua parte, havia cumprido a sua salvação. Era noite fechada quando, tendo reunido todos os marinheiros que haviam escapado, me juntei com a nossa divisão e nos retiramos para o Rio Grande, seguindo o mesmo caminho que alguns meses antes tínhamos atravessado com o coração cheio de esperança e precedidos pela vitória.”16

Mariath escreve:

“O inimigo opôs uma resistência formidável [...], uma chuva de balas disparadas, quase à queima-roupa, pela sua infantaria, abrigada por uma cortina de pedra ao lado da mesma fortaleza, causava-nos um dano terrível [...]; desorientados alguns práticos, causaram o encalhe de três das nossas embarcações; o combate tornou-se então muito caloroso. Garibaldi, seja isto dito em abono da verdade, desenvolveu nessa ocasião uma coragem digna de inveja.[...] Não devo deixar desapercebido o projeto que Garibaldi diz formara de ir ele mesmo incendiar a esquadrilha imperial e isto quando já estava derrotado. [...] Se tal coisa empreendesse, talvez não lhe restasse tempo de escapar-se de um pequeno bote com a sua heroína. Frederico Mariath.”17

Passo de Santa Vitória, Lajes e Curitibanos

Garibaldi, Anita e Rossetti seguiram, após a derrota, a coluna chefiada por Teixeira Nunes. Não aceitavam a conduta intransigente de Canabarro. Ao passarem por Passo de Santa Vitória e Lajes, confrontaram-se com os imperiais. A vitória alcançada alimentou as esperanças dos corajosos combatentes. Entretanto, pouco depois, em Curitibanos, ao caírem numa armadilha, Teixeira Nunes e Garibaldi foram obrigados, quando acuados num matão, a fugir sem poder regressar ao local onde lutavam.

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16 GARIBALDI, 1907, pp. 100-102.

17 MARIATH, pp. 175-178. (Carta original publicada no Correio Mercantil do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1860)


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Mais uma vez Anita demonstrou sua coragem quando, tomando conta das armas, lutou com destemor ao ser atacada. Presa e levada ao coronel Antônio Melo de Albuquerque, apelidado Melo Manso, respondeu às perguntas com altivez; poucos dias depois fugiu pela floresta, atravessando o rio Canoas, e encontrou Garibaldi em Lajes.

Os últimos combates

Após a perda de Laguna começou o declínio farroupilha. Os líderes desentendiam-se constantemente, sem que Bento Gonçalves pudesse contê-los. As tentativas de reconciliação com o Império, por sua vez, não chegavam a bom termo, provocando descontentamentos e a suspeita de traição. As derrotas militares em Taquari e São José do Norte foram fatais para o movimento revolucionário.

Em Taquari, Garibaldi, Antônio Sousa Neto, Canabarro, Teixeira Nunes, Corte Real e Domingos Crescêncio prepararam-se para enfrentar as tropas legalistas chefiadas por Manuel Jorge Rodrigues, significativamente superiores. Aguardavam apenas a ordem de Bento Gonçalves para atacar. Ao fazê-lo, após hesitação, Manuel Jorge já se afastara, perdendo os farroupilhas a oportunidade de vencer pela posição privilegiada que ocupavam. No dia seguinte, ao iniciarem a contenda, o desânimo atingira os revoltosos e o resultado final foi considerado incerto. Garibaldi deixou nas Memórias:

“O resultado foi para nós péssimo, porque não sabíamos como reparar as faltas que havia sofrido a infantaria, arma em que o inimigo nos era muito superior e se achava todos os dias recebendo novos reforços. [...] Uma operação concebida neste tempo pelo general teria podido pôr-nos em excelente posição, se a fortuna tivesse, como devia, secundado os esforços deste homem tão superior e tão desgraçado.”18


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18 GARIBALDI, 1907, pp. 114-119.

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A posição estratégica de São José do Norte, onde havia um comércio razoável, capaz de abastecer as tropas necessitadas, era de suma importância para os farroupilhas. O plano traçado para invadi-la consistia em tomar o local de surpresa. Após conquistá-la, Garibaldi transportaria parte das tropas para a outra margem da lagoa, nas embarcações que ele conquistasse, e obstruiria a única passagem para a entrada dos navios legalistas. Bloquearia, dessa maneira, a esquadra imperial vinda de Porto Alegre. Garibaldi e Rossetti entusiasmaram-se com o plano, pois sempre alertavam para a necessidade de terem um porto.

A contenda foi quase um corpo-a-corpo, com inúmeros mortos que se espalhavam pela cidade. Os farroupilhas venciam a batalha. Bento Gonçalves ordenou aos imperiais, reunidos no quartel local à espera de reforços, que se rendessem. Ao perguntar aos companheiros qual o meio mais rápido para que os adversários saíssem do refúgio, ouviu que seria através de um incêndio, que poderia matar também muitos habitantes. Respondeu que por essa forma não queria a vitória, e deu ordem para a retirada. A medida foi severamente criticada por soldados e líderes que o acompanhavam.

Na opinião de Garibaldi, Bento Gonçalves tomou essa atitude baseada no péssimo desempenho das tropas, que saqueavam indiscriminadamente a vila, embebedando-se e dispersando-se.

“O mais glorioso dos triunfos estava mudado, ao meio-dia, na mais vergonhosa retirada, e os verdadeiros amigos da liberdade choravam de desesperação. A nossa perda, comparativamente à nossa situação, foi enorme. Desde este momento a nossa infantaria não foi senão um esqueleto; enquanto que a pouca cavalaria que tinha vindo na expedição serviu para proteger a retirada.”19

Garibaldi partiu para uma propriedade abandonada, situada às margens da lagoa dos Patos, que pertencia ao conde de São Simão, legalista; sua missão era construir canoas usando troncos de árvores, com as quais abririam comunicações entre as paragens da lagoa. Mas as árvores prometidas não chegaram, e ele ocupou o tempo, pois odiava o ócio, domando cavalos. Acompanhava o desenrolar dos acontecimentos à distância, ao lado de Anita, que estava grávida.

Em 16 de setembro de 1840 nasceu um menino, a quem chamaram de Menotti, em homenagem ao revolucionário Ciro Menotti, que dera a vida pela causa da unificação da Itália. Sem qualquer proteção para Anita e o menino, Garibaldi foi a Setembrina para obter algum recurso entre os amigos italianos que pudessem ajudá-lo.

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19 GARIBALDI, 1907, pp. 120-121.

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Ao chegar, encontrou Luigi Rossetti frustrado com os rumos da revolução. Identificava-se com as proposições de paz apresentadas por Bento Gonçalves, e ponderava que a luta entre irmãos deveria terminar o mais rápido possível. Mostrou a correspondência mantida com líderes legalistas, onde expunha seus sentimentos e defendia a necessidade de um acordo para o término das contendas. Garibaldi concordou com as ponderações do amigo, mas precisava partir. Com o auxílio desejado, retornou ao encontro da mulher e do filho, que durante esse período foram atacados pelo legalista Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, salvando-se graças à coragem e determinação de Anita.

Garibaldi sentiu-se penalizado pela situação dos farroupilhas. Bento Gonçalves, que se estabelecera provisoriamente em São Gabriel, então capital da República Rio-Grandense, enfrentava o descontentamento do exército e dos seus principais líderes. Desde que encontrara Rossetti, Garibaldi refletia sobre seu futuro: os ideais farroupilhas dificilmente seriam alcançados; faltavam armas e alimentos; os amigos italianos estavam mortos; e havia Anita e Menotti, que estavam vivos por milagre.

A retirada

Os acontecimentos se precipitavam, reforçando a decisão a ser tomada. Rossetti, que acampara em Setembrina após o ataque chefiado por Moringue, foi morto. Garibaldi, Anita e Menotti, nas fileiras comandadas por Davi Canabarro, marcharam em retirada até alcançar São Gabriel.

“Esta retirada empreendida na estação invernosa, por um lugar montanhoso e debaixo de uma chuva incessante, foi a mais terrível e mais desastrosa que tenho visto. Conduzimos por precaução algumas vacas, sabendo perfeitamente que no caminho que tínhamos a atravessar não encontraríamos comestíveis alguns. [...] Anita, durante a caminhada, sofreu toda a casta de privações e incômodos com um estoicismo e uma coragem admiráveis. É necessário ter algum conhecimento das florestas desta parte do Brasil, para fazer idéia das privações sofridas por uma porção de homens sem meios de transporte e tendo unicamente por recurso o laço, arma muito útil nas planícies cobertas de animais, mas perfeitamente inútil nessas espessas florestas, abundantes em tigres e leões. Para a nossa desgraça ser ainda maior, os rios muito próximos uns dos outros nestas florestas virgens engrossavam cada vez mais. A horrível chuva que nos perseguia não cessava de cair, acontecendo muitas vezes que uma parte dos nossos soldados se achavam entre duas correntes de água e aí ficavam privados de todo alimento, morrendo muitos de fome e principalmente as mulheres e crianças, que não podiam suportar tanto as privações. Era uma carnificina mais horrível do que a de uma sanguinolenta batalha. [...] De doze mulas e cavalos com que tinha entrado na floresta e que eram destinadas ao meu serviço, não tinha podido salvar mais que duas mulas e dois cavalos, os demais tinham morrido de fome ou de fadiga. [...] Enviei Anita adiante com um criado e meu filho, a fim de que ele procurasse o fim dessa interminável floresta e algum alimento. Os dois cavalos que eu havia deixado a Anita e que ela montava simultaneamente, foi que nos salvaram. Ela achou o fim da floresta e aí encontrou um piquete dos meus bravos soldados assentados a um belo fogo, o que não era comum pelo tempo que fazia. Os meus companheiros, que por felicidade tinham conservado alguns vestidos de lã, embrulharam neles a criança, aquecendo-a e chamando-a por este modo à vida, quando já a pobre mãe começava a perder todas as esperanças. Mas ainda não é tudo: esses excelentes rapazes começaram então a procurar com uma grande solicitude alguns alimentos, que eles não tinham procurado para si, mas que agora procuravam por minha causa. O que dentre todos prestou à minha esposa e filho os primeiros e mais eficazes socorros foi Mangio: que o seu nome seja abençoado. Encontrei minha mulher e filho e soube então o que os meus companheiros tinham feito por causa dela. Nove dias depois da nossa entrada na floresta conseguimos sair! Poucos oficiais tinham conseguido salvar os seus cavalos. [...] As tempestades pareciam circunscritas à floresta. Apenas saímos dela e nos aproximamos de Cima da Serra e de Vacaria que o bom tempo começou, caindo então em nosso poder alguns bois, que indenizando-nos do nosso longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome e a chuva.[...].” 20

As tropas chegaram a São Gabriel, onde Anita e Garibaldi se instalaram. Sua participação no movimento farroupilha chegava ao fim. As discussões entre os oficiais aumentavam, pois sabiam não ser possível prolongar a luta por mais tempo. Havia a hipótese de se unirem ao ditador argentino Juan Manuel Rosas, mas isto Bento Gonçalves jamais aceitou, atestando que apenas mantinha relações com os orientais sem desejar associar-se a eles. Garibaldi apresentou ao líder farroupilha seus planos de partir.

Há controvérsias quanto ao que resolveram. Alfredo Varela, na obra A história da Grande Revolução, admite que Garibaldi iria a Montevidéu levar fundos para cobrir despesas urgentes de fornecimento de armas e víveres, e que nunca retornou ao Brasil porque existia um relacionamento entre rio-grandenses e orientais. Garibaldi nada mencionou sobre o diálogo mantido com Bento Gonçalves, e apenas escreveu: “Decidi então ir a Montevidéu, temporariamente, e pedi, pois, licença ao presidente e que me concedesse uma pequena tropa de bovinos para pagar as despesas.”21

Rumo ao Uruguai

Garibaldi e Anita prepararam-se para a partida, desejosos de fazê-lo antes do inverno. Como os corsários não recebiam soldo, o que se constata pela penúria em que viviam, Domingos José de Almeida, ministro da Fazenda, concordou que Garibaldi reunisse novecentas cabeças de gado, a título de auxílio para a viagem.

A família partiu acompanhada de peões que conduziam o gado. Caminhavam com cuidado pelos pampas, pois sabiam que poderiam encontrar tropas legalistas e ser atacados. A marcha monótona e exaustiva decepcionou Garibaldi. Peão improvisado, constatava a cada dia a diminuição da boiada, que se perdia ou morria pelo caminho; o roubo das reses, a fuga dos peões e as churrasqueadas para se alimentarem também reduziam o número de cabeças. Admitiu ter errado ao conduzir animais recolhidos ao acaso, onde reses xucras não tinham condições de fazer caminhada forçada. As chuvas torrenciais fizeram com que o rio Negro transbordasse, ocasionando a perda de muitos animais. Das novecentas cabeças restaram apenas quinhentas, e sem alternativas resolveram sacrificá-las, retirando o couro e deixando a carne para ser devorada pelos corvos. Depois de pagar os peões, sobraram trezentos couros.

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21 GARIBALDI, 1888, p. 95.

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Anita seguia em silêncio. Acostumara-se ao sacrifício das caminhadas, e, carregando Menotti ao lado de Garibaldi, sentia-se feliz e segura.

“A minha Anita era o meu tesouro, amante como eu da sagrada causa dos povos e de uma vida aventureira. Para ela, as batalhas eram uma diversão, e o desconforto da vida do campo, um passatempo. Portanto, não nos importávamos com o que pudesse acontecer. O futuro seria sempre promissor e quanto mais selvagens fossem os desertos infindáveis americanos, mais agradáveis e mais bonitos nos pareciam.”22

Em Montevidéu

Em meados de 1841, Garibaldi, Anita e Menotti alcançaram Montevidéu, onde foram acolhidos com amizade e carinho pelos italianos. Hospedaram-se na residência de Napoleone Castelini, antigo carbonário que lutara na Revolução Farroupilha. Tornara-se um comerciante de sucesso e protegia os refugiados na América do Sul. Republicano corajoso, sem medo de se expor aos perigos inerentes à situação, colaborava no comércio de gado entre uruguaios e farroupilhas, vendendo-o ou permutando-o por armas.

Sem recursos, Garibaldi começou a lecionar Matemática, História e Caligrafia no colégio de Paolo Semidei, ex-sacerdote. Filiou-se à loja maçônica italiana ligada ao Grande Oriente de Nápoles, e posteriormente à loja maçônica francesa Amis de la Patrie, associada ao Grande Oriente do Rio Grande.

Apesar da família e dos amigos, Garibaldi não vivia feliz, pois estava afastado das lutas ideológicas. Como necessitasse aumentar sua renda, trabalhou também como corretor de cargas para navios, o que lhe proporcionava convívio com os italianos que chegavam ao porto. Passou a realizar, na pequena casa que alugara, reuniões freqüentadas não só pelos italianos, como os irmãos Giacomo e Paolo Antonini, Giovanni Battista Cuneo, Francesco Anzani e os irmãos Rizzo, mas também por José Rivera Indarte, intelectual, e Bartolomeu Mitre, militar, historiador e humanista.

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22 GARIBALDI, 1888, p. 65.


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Nessa época, d. Pedro II concedeu anistia a todos os rebeldes que depusessem armas. Como a situação política do Uruguai era preocupante, Garibaldi procurou o encarregado dos negócios do Brasil, José Dias da Cruz Lima, para regularizar sua situação. Cruz Lima informou ao governo brasileiro que acreditava ser Garibaldi perigoso, pois comandara a marinha dos revolucionários em Laguna e solicitava, para iniciar um comércio pelo Prata, permissão para que o comandante das forças navais não o atacasse. Acreditava que o melhor era dar-lhe anistia, pois dessa forma evitaria que ele retornasse ao Rio Grande do Sul para lutar. Garibaldi, informado, assinou um documento reNúnciando a qualquer hostilidade contra o Império e às lutas da Província do Rio Grande do Sul, comprometendo-se a exercer a atividade comercial iniciada.

O caso Régis

A situação da Província complicou-se. Juan Manuel Rosas, que tencionava tornar-se ditador de todas as Províncias do Prata, apoiado por Manuel Oribe, demonstrou a intenção de invadir o Uruguai, cujo governo, reconhecendo em Garibaldi um idealista e sabendo que se encontrava em Montevidéu, consultou-o sobre a possibilidade de comandar sua frota naval. Na realidade, ele não se adaptara às profissões de professor e corretor.

Cruz Lima foi substituído por João Francisco Régis, que soube, ao assumir, que Garibaldi, chefe naval da República do Uruguai, apreendera um pequeno barco brasileiro que navegava irregularmente em águas uruguaias. E ameaçou Garibaldi de que, se houvesse novo episódio, chamaria Frederico Mariath para enfrentá-lo. O líder italiano compreendeu que ele se referia à derrota em Laguna, e sentiu-se insultado. A provocação continuou quando, num discurso, chamou-o de reles ladrão. Garibaldi desafiou-o para um duelo, que ele não aceitou, alegando como desculpa seu posto diplomático. Acusado de covarde, Régis afirmou que um oficial do Império do Brasil não poderia ser desafiado por um pirata e fugitivo da Itália. Sentindo-se ameaçado, Régis solicitou ao ministro dos Negócios Estrangeiros do Uruguai que demitisse e banisse Garibaldi.

O Império enviou o comendador Lins Vieira Cansanção de Sinimbu para intermediar a questão. Embora o caso fosse complicado, Sinimbu considerou as dificuldades dos uruguaios em enfrentar Rosas e a ameaça que sua ambição representava para o Brasil. Garibaldi era útil à Província, e o caso deveria ser esquecido.

Não satisfeito, Régis exigiu desculpas ao governo brasileiro. Garibaldi declarou que devotava o maior respeito ao governo de sua majestade imperial e a todas as autoridades brasileiras, e que não quisera ofender nenhum súbito do imperador. E o caso foi encerrado.

O casamento

Ao encontrar-se com Garibaldi, Anita estava casada com Manuel Duarte de Aguiar, pretendente escolhido por sua mãe. Dez anos mais velho, introspectivo, não combinava com o temperamento vibrante e irrequieto de Anita. Separaram-se quando, ao eclodir a Revolução Farroupilha, ele se alistou nas forças imperiais. Era comum na época as esposas acompanharem os soldados, mas não se tem conhecimento da razão por que Manuel não o fez. Anita, portanto, estava só quando conheceu Garibaldi.

Sem jamais saberem do paradeiro de Manuel Aguiar, que julgavam morto em combate, Garibaldi e Anita resolveram regularizar sua situação matrimonial e legitimar o filho. O casamento, realizado em Montevidéu, em 26 de março de 1842, cumpriu todas as formalidades de praxe, conforme se vê no documento encontrado por Emílio Curatolo nos arquivos de Garibaldi:

“Certifico yo, infrascrito cura rector de esta paroquia de San Francisco de Assisi, en Montevideo, quae en libro primiero de casados de esta Paroquia, a folias veinti y seinte, a la svuelta està la partita en del tenor seguiente: “El dia veinte y seis marzo de mil ochocientos quaranta y dos, el presbitero don Zenon Aspiazu, mi lugarteniente en esta parroquia de San Francisco de Assisi, en Montevideo, autorizò el matrimonio, que in facie ecclesiae contrajo, por palabras de presente, don Josè Domingo Garibaldi, natural de Italia, hijo legitimo de don Domingo Garibaldi, y de doña Rosa Raimunda, con doña Anna Maria de Jesus, natural de la Laguna, en el Brasil, hija legitima de don Benito Riveira y de doña Maria Antônia de Jesus; habiendose leído una sola proclama por habere dispensado las otras dos, practicadas las demas diligencias que previene el derecho canonico. No recibieros las benediciones nupciales, siendo testigos de su otorgamiento don Pablo Semidei y doña Feliciana Garcia Billegas, lo que, per verdade, firmo. Lorenzo A. Fernandez. Està conforme al original, que me remito en caso necesario y para los fines que convenga. Montevideo, 16 de junio de 1842. Lorenzo A. Fernandez.”23

O casal teve mais três filhos em Montevidéu: Rosa ou Rosita, nascida em 1843 e morta com dezoito meses, Teresita, nascida em 1845, e Riccioti, nascido em 1847.

A campanha uruguaia

Apesar dos ciúmes de Anita, Garibaldi, ao assumir o comando naval, partiu só. Os estrangeiros estavam isentos da obrigação militar, e em virtude dos tratados vigentes não poderiam combater, mas os italianos apresentaram-se e lutaram. Radicados no Uruguai, geralmente dedicavam-se ao comércio e à navegação de cabotagem ao longo dos rios Paraná e Uruguai. Muitos, abastados como Napoleone Castellini, auxiliavam os amigos a se envolverem nas lutas ao lado dos uruguaios.

Desde a queda de Carlos IV, rei da Espanha, e de seu filho Fernando VII, motivada pela invasão da Espanha por Napoleão Bonaparte, a América espanhola encontrava-se agitada. Juntas governativas formaram-se em Sevilha para dirigi-la, mas a agitação das Províncias Platinas não diminuiu. Líderes surgiram para libertá-las do jugo espanhol, como José Artigas, que lutou pela independência do Uruguai, e outros patriotas como Manuel Oribe, José Frutuoso Rivera e Manuel Lavalleja. Com o tempo, entretanto, antagonizaram-se; Oribe apoiava Rosas e Frutuoso Rivera lutava contra ele. Garibaldi assim os classificou:

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23 Apud CURATOLO, 1932, p. 247-248.

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“Em 1833 foi que começou o verdadeiro poder de Rosas. No primeiro governo, cheio de dissimulação, não tinha apresentado os seus instintos de crueldade, que fizeram dele, depois, uma celebridade de sangue [...]. Rosas contava trinta e nove anos. Tinha o aspecto europeu, cabelos louros, olhos azuis e uma presença sofrível. Não usava nem barbas nem bigode. O seu olhar seria belo, se o pudéssemos examinar, mas Rosas havia se habituado a não olhar de frente nem os seus amigos, nem os seus inimigos, porque sabia que num amigo existia, quase sempre, um inimigo disfarçado. A sua voz era doce e, quando tinha necessidade de agradar, sua conversação tinha muito de atraente. Sua reputação de covarde era proverbial e a de esperto, universal. Adorava as mistificações, sendo esta a sua grande ocupação, antes de se entregar aos negócios sérios. Uma vez chegado ao poder, suas atitudes não foram senão uma distração, que eram brutais como a sua natureza [...]. Temos um exemplo: Camilla O’Gorman, menina de dezoito anos e oriunda de uma das principais famílias de Buenos Aires, foi seduzida por um padre de 24 anos. Fugiram ambos de Buenos Aires, refugiando-se numa pequena vila de Corrientes, onde, passando por esposos, estabeleceram uma pequena escola. Corrientes cai em poder de Rosas e os dois fugitivos, reconhecidos por um padre e deNúnciados a Rosas, são presos e conduzidos a Buenos Aires, onde, sem julgamento, Rosas os mandou fuzilar. — Mas, diz alguém a Rosas, Camilla está grávida! — Batizai o ventre, diz Rosas que, como excelente cristão, quer salvar a alma do menino. Esta cerimônia foi executada e Camilla O’Gorman foi fuzilada. [...] Como homem de guerra, a bravura de Rivera não podia ser excedida; como chefe de partido, a sua generosidade não podia ser igualada. Durante trinta e cinco anos figurou nas cenas políticas do seu país. Quando a revolução contra a Espanha começou, Rivera sacrificou a sua fortuna, porque não era só generoso, era pródigo. [...] Mas, se Rivera como homem era muito apreciável, como administrador nunca houve nenhum que desorganizasse mais os recursos pecuniários de uma nação. Assim como havia destruído a sua fortuna particular, destruiu a fortuna pública, não para enriquecer, mas porque, homem público, tinha conservado todos os hábitos do homem particular. Oribe pertencia às primeiras famílias do país. Seu espírito era fraco, sua inteligência, acanhada, explicando-se, por isso, a sua aliança com Rosas, a quem se entregou totalmente, sem pensar que essa aliança trazia, consigo, a perda dessa mesma independência, pela qual tantas vezes havia combatido. Como general, sua incapacidade era completa. As suas paixões tinham a violência das organizações nervosas e arrastavam-no à crueldade. Como particular, era um homem honesto. O Uruguai interessava ao Império do Brasil. Como administrador, foi mais econômico que Rivera e não se lhe pode censurar o ter aumentado o déficit do tesouro; contudo, é a ele que cabe toda a responsabilidade da ruína do Estado Oriental.”24

Rosas opunha-se aos princípios liberais e federativos que existiam na região e desejava reunir as diversas Províncias sob o seu comando. Cruz Lima não desconhecia que Frutuoso Rivera tinha interesse no Brasil, e preferiu não se comprometer com disputas.

Garibaldi pertencia às forças navais uruguaias, acreditando que continuaria a lutar pela liberdade dos povos em favor da humanidade. Rosas era um déspota e os uruguaios, sofridos, sem proteção e defendendo sua liberdade, sensibilizaram o revolucionário italiano. Mazzini, em Londres, incentivava-o. Escrevendo a Giovanni Batista Cuneo, argumentava que a participação de Garibaldi defendia os ideais da Jovem Itália, além de prepará-lo, ao retornar ao seu país, para continuar a luta pela unificação da Itália. Bento Gonçalves também o seguia, e em 26 de agosto de 1842 escreveu a Domingos José de Almeida: “Nosso Garibaldi cruza nossas águas com forte esquadrilha, depois de haver se chocado por duas vezes com as naves de Rosas, sempre com descalabro para as últimas.” 25

A frota sob o comando de Garibaldi compunha-se de três pequenas embarcações: Constituição, Pereyra e Procida. Sabia que dificilmente poderia resistir, com a precariedade da frota, à bem preparada armada argentina de William Brown, conhecido por seus méritos nas campanhas do exterior.

Ao se defrontarem em Costa Brava, após três dias sem munições e perdendo metade dos homens, Garibaldi não teve a possibilidade de continuar. Incendiou os navios, reuniu os que restavam e partiu para Montevidéu.

“Reunimo-nos aos fugitivos e, depois de cinco ou seis dias de lutas, combates e privações, de que ninguém pode formar idéia, entramos em Montevidéu, levando intato o que eu tinha julgado que perderíamos: a honra!” 26

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24 GARIBALDI, 1907, pp. 161-162, 184, 176-178.

25 VARELA, 1933, v.5, p.382.

26 GARIBALDI, 1907, pp. 2-4.

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Manuel Oribe ordenou que as tropas marchassem em direção a Montevidéu, que se preparou para a defesa. A guerra era iminente. Garibaldi, encarregado de manter a comunicação da cidade com a fortaleza do Cerro, próximo de Montevidéu, o que somente poderia ser feito por mar, realizava-a com êxito. Auxiliou na expulsão dos inimigos da ilha dos Ratos, abastecendo os resistentes com armas. Anita navegou com ele nessa operação num pequeno barco que rebocava as armas, demonstrando mais uma vez ser destemida. O almirante Brown, com formidável esquadra, tentou apoderar-se do Cerro e da ilha, mas foi obrigado pela resistência a retirar-se com grandes perdas.

A Legião Italiana

Garibaldi sabia que em Montevidéu vivia um significativo número de italianos, negociantes e foragidos. Conclamou-os às armas; formariam um exército que defenderia os uruguaios até a morte, porque eram gratos aos que os receberam com amizade. Formou-se assim a Legião Italiana com cerca de quatrocentos homens no início, que aumentavam à medida que os navios aportavam. O grupo heterogêneo principiou com dificuldade. Não recebia pagamento a não ser ração, e a promessa de que, no final da guerra, se bem-sucedida, seus herdeiros seriam agraciados com terras e bois.

Apesar dos problemas, a Legião Italiana transformou-se numa tropa disciplinada e uniformizada. Francesco Anzani, nascido em Alzate, fugitivo político, agindo com rigor, disciplinou-a, fazendo-a acreditar que lutava pela liberdade dos uruguaios e preparava-se para, futuramente, defender a Itália. Os combatentes usavam camisas vermelhas que se tornaram famosas por terem sido adotadas pelos garibaldinos na Itália, e levavam nos combates uma bandeira de seda preta em cujo centro pintaram o Vesúvio em erupção. Quem a carregava era Gaetano Sacchi, jovem de vinte e quatro anos que enfrentou bravamente os adversários na defesa de Cerro.

Mazzini encorajava-os de Londres e propagava pela Europa as lendárias realizações de Garibaldi e sua Legião. Foram várias as batalhas enfrentadas: Cerro, Las Tres Cruces, Colônia, Paysandú, Gualeguaychu, Paso de la Boyada e Santo Antonio de Salto, que, ocorrida em 8 de fevereiro de 1846, foi uma das mais importantes. Garibaldi, depois de subir o rio Uruguai e retomar os portos que se encontravam sob o domínio de Oribe, instalou-se em Salto, com seiscentos italianos sitiados pelas tropas inimigas chefiadas por Justo José Urquiza, que, a despeito de comandar três mil homens, não conseguiu vencer a Legião.

Joaquim Suárez, lutador incansável pela independência uruguaia, que consumiu sua fortuna na defesa de seus ideais, foi grato ao desempenho de Garibaldi e decretou:

“Desejando o Governo demonstrar a gratidão da pátria aos valentes que combateram com tanto heroísmo nos campos de Santo Antônio, no dia 8 do corrente, consultado o Conselho de Estado, decreta: Art. 1o O sr. general Garibaldi e todos aqueles que o acompanharam naquele dia glorioso são beneméritos da República. Art. 2o Na bandeira da Legião Italiana serão inscritas, em letras de ouro, na parte superior ao Vesúvio, estas palavras: “Vitória de 8 de fevereiro de 1846, obtida pela Legião Italiana sob as ordens de Garibaldi.” Art. 3o Os nomes daqueles que combateram naquele dia, depois da separação da cavalaria, serão inscritos em um quadro, que será colocado na sala do governo, defronte ao brasão nacional, começando a lista com o nome dos que morreram.. Art. 4o As famílias dos que tinham direito a pensão a desfrutarão em dobro. Art. 5o Destina-se, àqueles que participaram deste acontecimento, depois de ter sido separada a cavalaria, um escudo, que levarão no braço esquerdo, com esta inscrição, cercada de louro: — “invencíveis combateram no 8 de fevereiro de 1846”. Art. 6o Até o momento em que um outro corpo do exército não se ilustre em questão de armas semelhantes a esta, a Legião Italiana terá, em cada desfile, a direita de nossa Infantaria. Art. 7o Este decreto será entregue, em cópia autenticada, à Legião Italiana e se repetirá na ordem geral em todos os aniversários deste combate. Art.8o O ministro da Guerra fica encarregado da execução deste decreto, que será apresentado à assembléia dos notáveis: que seja publicado e inserido no registro nacional. Suárez — José de Bejar — Santiago Vasquez — Francisco J. Muñoz.”27

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27 Apud CUNEO, p. 98-99.

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Após a Batalha de Dayaman, em 20 de maio de 1846, último combate significativo sob o comando de Garibaldi, a Legião Italiana teve um período de trégua.

A decisão de partir

O casal novamente questionou-se sobre permanecer no Uruguai. Anita, em Salto, onde foi ao encontro de Garibaldi depois da morte de Rosa, auxiliou-o apesar da tristeza pela perda da filha, cuidando dos feridos e enfermos.

Ambos acreditavam ter cumprido mais uma missão. Sofreram dificuldades. Os líderes uruguaios não desconheciam que a família passava privações e que à noite, na residência, não acendiam luz porque entre o pouco que recebiam não constavam velas. Por esse motivo Pacheco y Obes, ministro da Guerra, compadecido, certa ocasião enviou cem patacões ao líder italiano, que, ao recebê-los, guardou o necessário para obter velas e distribuiu o restante entre os filhos e as viúvas dos soldados.

O general Frutuoso Rivera, em reconhecimento aos serviços prestados pela Legião Italiana, enviou a Garibaldi a seguinte carta:

“Senhor: Quando, no ano passado, dei à Legião Francesa uma certa quantidade de terras, esperava que o acaso conduzisse ao meu quartel algum oficial da Legião Italiana, dando-me, assim, ocasião de satisfazer um ardente desejo do meu coração, mostrando à Legião Italiana a estima que lhe consagro pelos importantes serviços prestados à república, na guerra que sustentamos contra o exército invasor de Buenos Aires. Para não demorar por mais tempo o que considero como o cumprimento de um dever sagrado, incluo, nesta, um ato de doação, que faço à ilustre Legião Italiana, como uma prova sincera do meu reconhecimento pessoal, pelos eminentes serviços prestados ao meu país. A oferta não é igual aos serviços, nem aos meus desejos, contudo, ouso esperar que não recusareis oferecê-la em meu nome aos vossos camaradas, informando-os da minha boa vontade e do meu reconhecimento. Aproveito esta ocasião, coronel, para vos assegurar a minha perfeita consideração e profunda estima. Frutuoso Rivera.”28

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28 Apud GARIBALDI, 1907, p. 12.

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Garibaldi comoveu-se com a carta, mas manteve-se firme em seus princípios. Para provar que lutavam por idealismo e não por serem mercenários, como muitos os consideravam, respondeu que agradecia a oferta e informou que os oficiais italianos, depois de consultados, não aceitaram ser remunerados pelos serviços prestados à República. Eles apenas quiseram ter a honra de partilhar os perigos que ocorriam no país que amigavelmente lhes ofereceu hospitalidade. Cumpriram o dever e não desejavam nenhuma recompensa.

De todas as legiões formadas para a defesa do Uruguai, entre elas a Espanhola, a Francesa e a Inglesa, foi a Italiana a que mais se destacou pela coragem e idealismo. Entretanto, Garibaldi sofreu críticas injuriosas. Muitos anos depois, confirmando sua atuação honrada, Pacheco y Obes, ao ocupar o cargo de ministro da República Oriental, derrubou em Paris as mentiras inventadas contra ele:

“Todos os habitantes de Montevidéu eram seus amigos; jamais vi uma pessoa mais universalmente amada que ele e isso era perfeitamente natural. Garibaldi, sempre o primeiro no combate, era também o primeiro a minimizar os males da guerra. Quando entrava nas salas do governo, era para pedir perdão por algum conspirador ou para pedir socorro em favor de algum infeliz; e foi por intervenção de Garibaldi que o sr. Michele Haedo, condenado pelas leis da República, teve salva a sua vida. Em Gualeguaychu, prendeu o coronel Villagra, um dos mais violentos chefes de Rosas, e o deixou em liberdade, bem como aos seus companheiros. Em sua expedição ao interior, distinguiu-se por muitos traços de generosidade e de cavalheirismo, que até em nossos dias criam motivo de acirradas conversações dos dois partidos. Cinqüenta patacões (250 liras), eis a única soma que Garibaldi recebeu da República. Enquanto ele permaneceu entre nós, sua família viveu na pobreza; ele nunca se calçou senão como soldado; freqüentemente, seus amigos eram obrigados a usar de subterfúgio para fazê-lo trocar as vestes já rotas.”29

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29 CUNEO, p 40.

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O embaixador da Inglaterra em Montevidéu, diplomata sir William Gore Ouseley, também enalteceu sua honestidade quando, por intermédio do lorde John Russel, prestigiado político britânico, enviou a seguinte nota ao Foreign Office:

“Na minha qualidade de embaixador em Montevidéu, estive em relações com Garibaldi durante dois anos. Como comandante das forças militares da cidade [...], para pôr a frota uruguaia em condições de combate, era preciso entregar, a ele, armas e munições ou os meios para adquiri-las. A venalidade e a corrupção eram de regra geral. Teria sido inoportuno confiar o emprego de dinheiro ao governo indígena. Encorajado pela reputação de Garibaldi, não só da sua bravura mas ainda da sua honestidade, decidi-me a resolver tudo pessoalmente com ele [...]. De cada prova a que eu o submetesse, a sua honorabilidade ressurtia sem mácula, cada verificação comprovava seu ponderado juízo e a perspicácia dos seus conselhos. [...] Garibaldi tinha o hábito de ver-me todas as noites, sempre vestido do seu poncho, que ele jamais tirava durante as nossas entrevistas. Isto me parecia bizarro. Soube, depois, [...] não o tirava era para esconder o miserável estado da sua roupa, pois carecia dos meios para adquirir trajes convenientes. O soldo e as rações do governo de Montevidéu não lhe eram entregues ou só lho eram em parte.”30

Reforçando a decisão da partida, notícias da Itália informavam que o povo revoltava-se contra os soberanos absolutistas, e governava o Vaticano o papa Pio IX, que concedera anistia aos condenados dos Estados Pontifícios, favorecendo muitos revolucionários. Associado ao rei Carlo Alberto, preparava a campanha de libertação da Itália do jugo austríaco.

Era hora de retornar e auxiliar a Itália. Saudoso, lembrava-se da mãe, que estaria à sua espera; voltaria à pátria e lutaria pelo sonho de ver sua terra unificada.

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30 COLLOR, p. 481-482.

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Sem dinheiro para a viagem, não quis solicitar auxílio do governo, o que poderia ser interpretado como uma exigência pelas combates empreendidos. Recorreu então a amigos, e após uma subscrição conseguiu a soma para organizar a retirada; consta que um dos maiores contribuintes foi Stefano Antonini, com 30.000 liras.

Mazzini, que considerava Garibaldi o homem necessário para as contendas na Itália, preparou seu retorno através das notícias que fazia circular por toda parte, relatando as proezas em que se vira envolvido na América do Sul, tornando-o popular.

Anita e os filhos seguiram em dia impreciso de dezembro de 1847 ou janeiro de 1848, no veleiro sardo Galavowa. Quanto a Garibaldi, partiu em 15 de abril de 1848 com os companheiros que quiseram segui-lo, setenta e três ao todo. Deixaram o porto de Montevidéu no navio sardo Bifronte, rebatizado por ele de Speranza. Na Itália, Anita e Garibaldi continuariam a lutar por seus sonhos e utopias...

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