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Os caminhos de Garibaldi na América
Livro Completo
Mauro Henrique Renner
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Procurador-Geral de Justiça do Estado
do Rio Grande do Sul
A edição do livro Os Caminhos de Garibaldi
na América é um dos resultados concretos
do Seminário Internacional “170 anos da Revolução
Farroupilha – o legado de Bento Gonçalves, Garibaldi
e Anita”, ocorrido no ano de 2005, e que contou com
o apoio da Assembléia Legislativa do Estado do Rio
Grande do Sul e da comunidade italiana.
Giuseppe Garibaldi (1807-1882), revolucionário italiano,
o “herói de dois mundos” devido à
sua participação nas lutas pela liberdade, tanto
na Europa como na América do Sul, foi figura importante
na Guerra dos Farrapos, e serve de exemplo atual na busca
dos valores republicanos de democracia, independência,
liberdade e justiça social para todos.
Nesse sentido, o presente livro é uma contribuição
à valorização da história de uma
das personalidades essenciais na formação e
consolidação do Estado do Rio Grande do Sul.
Nossa instituição, ao dar conta do comando constitucional
que lhe encarrega de velar pelo patrimônio histórico
e cultural, mais do que zelar por sua proteção,
dedica-se a implementar os meios para a sua devida promoção.
A presente obra é exemplo dessa postura.
Conhecer o passado, fixar a memória e beber da experiência
de figuras exemplares, personagens históricos de nosso
Estado, é imprescindível para a construção
de um futuro sonhado para a sociedade gaúcha. O Memorial
de nossa instituição, inclusive, está
situado no prédio mais antigo do cadastro do patrimônio
imobiliário do Rio Grande do Sul, sendo que o projeto
arquitetônico da restauração foi elaborado
pelo próprio Ministério Público, com
o que estamos conferindo significado presente ao passado,
e utilizando-o para alavancar o futuro.
Assim como Garibaldi, homem criado nas lides marítimas,
e que singrou por dois mundos muito antes das tormentas e
oportunidades da globalização, o Ministério
Público navega pelos mares atuais, firme no timão
e na direção que a Constituição
lhe apontou.
Olhar o passado para projetar o futuro, nada melhor, ainda
mais quando a instituição já se move
com o olhar no horizonte de 2022, a fim de concretizar um
Ministério Público à altura do bicentenário
da independência.
Sempre é tempo de aprender com as antigas trilhas e
de projetar novos caminhos.
Mensagem do Ministério Público
Ricardo Vaz Seelig
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Procurador de Justiça
Ministério
Quando o Ministério Público do
Estado do Rio Grande do Sul passou a desempenhar a missão
constitucional que lhe foi conferida, de zelar pela proteção
do patrimônio histórico e cultural, entendeu
que o cumprimento desse comando não deveria se limitar
a tão somente estabelecer demandas em caso de ofensa
aos bens que lhe foram confiados, mas também empenhar-se
na implantação de projetos que visassem a proporcionar
a integração dos diversos meios sociais no seu
conhecimento, respeito e proteção.
Com este objetivo, o Ministério Público, através
de seus diversos canais de atuação, tem dedicado
seus melhores esforços, não na constituição
de um mero e estéril repositório de memórias
e reminiscências do passado, mas na consecução
deste verdadeiro fundamento da cidadania, apoiando ações
culturais voltadas ao estudo e à divulgação
desse patrimônio, como é o caso da obra Os
Caminhos de Garibaldi na América, que ora ajudamos
a organizar.
Ao assinalarmos, neste ano de 2007, o bicentenário
de Giuseppe Garibaldi, alvitramos reunir eminentes estudiosos
para refletir sobre a biografia de um dos mais importantes
personagens da história universal, tentando compor,
no mosaico multifacetado de sua atuação no Velho
e no Novo Mundo, um retrato inteligível não
só de seu caráter, mas de sua trajetória
de jovem aventureiro a grande estadista, responsável
pela unificação italiana.
O estudo dos fatos históricos leva-nos à conclusão
de que é impossível estabelecer os fundamentos
do que poder-se-ia denominar de “ciência histórica”,
pois nunca conseguiremos verificar exatamente o resultado
de uma hipótese. Isso posto, poderíamos supor
que, não fossem suas experiências militares no
sul do Brasil e no Uruguai, Garibaldi teria logrado materializar
os sucessos que veio a obter em sua terra natal?
Giuseppe Garibaldi teve enorme projeção na opinião
dos povos quando sua vida foi retratada pelo escritor Alexandre
Dumas, autor de clássicos como O Conde de Monte
Cristo e Os Três Mosqueteiros. Sua vida, tal como
contada, teria sido uma ficção? Ora, o problema
da ficção é que ela faz sentido, ao contrário
da realidade — esta, sob a perspectiva humana, pelo
menos, não faz sentido algum. Como diria Aldous Huxley,
no seu romance outonal O Gênio e a Deusa, o
critério da realidade é a sua incongruência
intrínseca. Sob esse enfoque, quanto “mais real”
a ficção, menos verossímil será.
Como os grandes personagens da História, a figura do
“herói de dois mundos” ora é mitificada,
ora vilipendiada. Sua imagem foi apropriada por diversos segmentos
e matizes ideológicos, da esquerda à direita,
e em diversos momentos históricos, desde a propaganda
política do Partido Republicano, no Rio Grande do Sul,
ao fascismo de Mussolini, por exemplo.
Daí a importância da presente publicação,
onde a contribuição dos historiadores e pesquisadores
que se debruçaram sobre esse grande personagem é
inestimável e significativa para o estudo dos seus
“caminhos”.
Em seu ensaio Garibaldi: republicano e revolucionário
internacional, por exemplo, a pesquisadora Carmen Lícia
Palazzo observa que não obstante, na chamada História
Cultural, o estudo e a escrita dos acontecimentos não
se façam mais em torno de relatos factuais ou de biografias
de grandes personalidades, tais paradigmas não excluem
o interesse por personalidades que, como Garibaldi, merecem
figurar como objeto de estudo por que muito acrescentaram
ao conhecimento histórico.
Neste diapasão, portanto, destaca-se a importância
desta obra, que se inscreve em um projeto com diversificada
agenda de eventos, exposições, espetáculos
artísticos, concursos escolares, tanto na América
como na Europa.
Esperamos, pois, ao somar os nossos esforços aos das
demais instituições participantes dessa ampla
agenda internacional, contribuir, através do estímulo
ao pensamento crítico e ao resgate histórico,
manter aberto um importante espaço de reflexão
sobre a história e a cultura européia e sul-americana.
Se este for o resultado desta iniciativa cultural –
valorizar uma das mais emocionantes epopéias da história
da humanidade – , então teremos alcançado
nosso objetivo.
Palavra dos editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
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Jornalistas e editores
O desafio de editar uma obra sobre a atribulada trajetória
de Giuseppe Garibaldi, nos marcos do bicentenário de
seu nascimento, facilmente poderia nos levar a um labirinto.
O motivo, como logo constatamos, é a vasta, polêmica,
e muitas vezes contraditória contribuição
legada à história européia e de nossa
terra pelo general da unificação e da independência
nacional italiana.
Hoje, passados 200 anos de seu nascimento, em 4 de julho de
1807, ainda ecoam por aqui as controvérsias e paixões
que cercaram seu nome, desde que, ainda jovem, desembarcou
no Rio de Janeiro, aliou-se aos farroupilhas, no Rio Grande
do Sul, em 1836, e participou, posteriormente, das lutas do
cerco a Montevidéu, na Guerra Grande. Somente após
seu retorno ao cenário italiano, alcançaria,
entretanto, o direito à eternidade da História
como cidadão e internacionalista, ao sacudir os alicerces
da ordem política européia.
Em novembro de 2005, uma visita à Itália, com
o fim de participar de um evento investigativo promovido pela
Fundação Casa América, em Gênova,
sobre a contribuição de Giuseppe Mazzini, o
ideólogo do Ressurgimento, cujo pensamento político
e libertário guiou Giuseppe Garibaldi, abriu-nos os
olhos para uma questão relevante. As jornadas de Garibaldi,
tanto no sul do Brasil e no Uruguai, como no Atlântico
e no Rio da Prata, ainda não foram suficientemente
analisadas pelos especialistas europeus. De certo modo, nos
círculos de estudos garibaldinos, permanece a visão
de que não passaram de incursões românticas,
sem grandes conseqüências.
Alguns dos importantes pesquisadores, que encontramos durante
o simpósio genovês, incentivaram-nos a realizar
a tarefa editorial que idealizávamos, em busca de respostas
às lacunas existentes nas várias facetas da
obra do herói e de suas relações com
nosso passado. As mais notáveis, segundo eles, estariam
localizadas na primeira passagem de Garibaldi pela América
do Sul, período marcante de amadurecimento do jovem
marinheiro, militante republicano, quando aqui aportou, condenado
à morte por suas atividades subversivas.
Decidimos, então, por uma clivagem que demarcasse sua
biografia, protagonismo social e mito, tendo como alvo principal
o nosso próprio espaço histórico e geográfico,
o Cone Sul da América Latina. Assim, como resultado
de uma extensa articulação de âmbito internacional
à qual nos integramos, foi possível identificar
e reunir autores italianos e brasileiros com visões
diferenciadas, que se dispuseram a contribuir com novos contrastes
e interpretações relacionados a essa etapa da
vida de Garibaldi.
Entre os autores italianos participantes deste trabalho coletivo,
o Prof. Dr. Pietro Rinaldo Fanesi, da Universidade de Camerino,
ao abordar o mito de Garibaldi, sua formação
e representações no Cone Sul, na época
do centenário de seu nascimento, indaga se ele teria
contribuído para a construção de uma
identidade nacional entre os imigrantes italianos da região
ou se, ao contrário, simbolizaria exatamente uma comunidade
dividida.
Já a pesquisadora italiana radicada no Brasil, Maria
Pace Chiavari, do Instituto Italiano de Cultura do Rio de
Janeiro, descreve o cenário que Garibaldi encontrou
ao desembarcar no Rio de Janeiro, sua porta de entrada para
o Brasil, que lhe proporcionou as condições
para a integração aos movimentos políticos
e sociais que se desenvolviam no país naquele período.
A Profa. Dra. Anna Maria Lazzarino Del Grosso, da Faculdade
de Ciência Política da Universidade de Gênova,
por sua vez, analisa a experiência de Garibaldi na América
Latina sob o ponto de vista de um fértil aprendizado
como combatente e líder, e de amadurecimento de nobres
valores morais, democráticos e cosmopolitas.
No grupo de pesquisadores brasileiros, Carmen Lícia
Palazzo, Doutora em História, apresenta uma visão
global sobre o personagem Garibaldi como sujeito histórico
republicano, associado à Jovem Itália, e comprometido
com o ideal revolucionário de liberdade para todos
que caracterizou o seu tempo. No âmbito do Rio Grande
do Sul, a Profa. Dra. Núncia Santoro de Constantino,
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul, desenvolve uma abordagem centrada nas diversas representações
do personagem ao longo do tempo, e do uso que delas fizeram
as comunidades italianas emigradas em seu processo de construção
identitária, em busca de novas raízes sociais,
econômicas e culturais.
A densidade social que adquire o mito de Garibaldi na época
das celebrações pelo centenário da Revolução
Farroupilha é objeto do estudo elaborado pela socióloga
Rosemary Fritsch Brum, Doutora em História do Brasil.
O culto a Garibaldi e os sucessivos relatos de sua atuação
no irredentismo farrapo é discutido também pelos
historiadores Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto,
do Memorial do Ministério Público gaúcho.
Por fim, a escritora e pesquisadora paulista Yvonne Capuano
revisita o percurso garibaldino no Continente, desde sua chegada
ao Rio de Janeiro até a partida de Anita e dos filhos
de Montevidéu para a Itália, seguida do retorno
de Garibaldi à pátria, após as heróicas
porfias em terras uruguaias.
Em seu conjunto, a leitura deste diversificado painel de textos
reforça a idéia de que a fama de Garibaldi,
assim como a de outros tantos personagens da história
universal, esteve sujeita a conveniências de governos,
partidárias ou ideológicas, muitas vezes manipulada
por grupos interessados em alcançar certa coesão
social e política por meio da atração
das comunidades originadas da Itália. Nesse sentido,
cabe observar que a apropriação do herói,
através do tempo, não é um processo pacífico.
Ocorre, sim, mas em meio a contradições que
envolvem governantes, ideólogos, líderes da
igreja, maçonaria, imprensa, intelectuais e dirigentes
comunitários.
Tudo isso aumenta a convicção dos organizadores,
patrocinadores e apoiadores desta edição de
que é preciso aprofundar o conhecimento sobre o passado
e as ligações entre os povos e as culturas.
Com este objetivo, associaram-se à presente iniciativa
cultural a empresa Souza Cruz e o Banco do Estado do Rio Grande
do Sul, que, com o apoio da Lei Federal de Incentivo à
Cultura, do Ministério da Cultura, viabilizaram a concretização
de um projeto gestado em conjunto por italianos e brasileiros
desde 2005, mais uma vez em profícua parceria com o
Ministério Público do Estado do Rio Grande do
Sul e com a Assembléia Legislativa gaúcha.
Como editores, estamos conscientes de que muitas interrogações
acerca de Giuseppe Garibaldi não encontrarão
respostas definitivas aqui. Permanecerão como silêncio,
em segredo, até que alguém as desvende. O desafio
fabuloso lançado por Giuseppe Garibaldi aos historiadores,
porém, nunca ficará ultrapassado. Isso nos traz
uma única certeza definitiva: outras iniciativas como
esta deverão se repetir ao longo do tempo, sem que
se esgote a multiplicidade do debate e das interpretações
a cada nova revelação.
Apresentação
Roberto Speciale
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Presidente da Fundação Casa América,
Gênova, Itália
Chegamos a 2007, bicentenário do nascimento de Giuseppe
Garibaldi. Não somente na Itália, mas em muitas
cidades do mundo preparam-se encontros, publicações,
exposições e manifestações. O
propósito é recordar, como merece, uma grande
personalidade do passado, e também preservar o núcleo
fundamental de sua vida e retomá-lo na atualidade.
Acredito que a força da mensagem que Garibaldi nos
deixa ainda hoje não está somente no papel de
“libertador global” para a independência
e liberdade de todos os povos, o que é evidente, mas,
sobretudo, no modo como interpretou, mesmo que involuntariamente,
este papel. Poderemos discutir ainda por muito tempo seus
defeitos, também sua simplicidade e ingenuidade, mas
o que se impõe é sua generosidade, coragem,
lealdade e absoluta abnegação.
São justamente essas características que, em
paralelo a seus sucessos militares, permitem a difusão
da admiração por ele e até a veneração
popular como, talvez, nunca tenha acontecido com outra personalidade
da história.
Deseja-se que tais qualidades, que eram fortemente concentradas
em Garibaldi, possam ser replicadas. Aconselhar os homens
de ação e de governo que se inspirem, hoje,
mesmo parcialmente, nessas virtudes, não deveria ser
um exercício banal ou trabalho inútil. Espero,
sinceramente, que também no Brasil, e em especial no
Rio Grande do Sul, se conceda o necessário para reevocar
o seu mito e o de Anita, mas se dedique o máximo de
energia para salvar o que ainda pode falar às mentes
e aos sentimentos dos homens de hoje.
Justamente porque o mundo inteiro e, em particular, o continente
americano estão interessados nos processos de crescimento
e na gigantesca transformação econômica,
social e política, deveria ser avaliada a importância
que poderiam assumir as virtudes mencionadas antes como mais
uma alavanca de mudanças e como modelo ético
laico.
O Brasil, e depois o Uruguai, foram fundamentais para a formação
completa de Garibaldi e para suas ações futuras.
Quando chega ao Rio de Janeiro é, em essência,
um homem do mar, grande nadador, marinheiro experiente, comandante
de navios, qualidades que adquiriu ao freqüentar o mar
em Nizza* e através da família, originária
da província de Gênova, e que praticou navegando
por muitos anos no Mediterrâneo. É também
um exilado político, imbuído pelos ideais de
Mazzini, pela ânsia de liberdade, de independência,
de justiça social para a Itália e para todos
os povos.
Naquelas terras encontra a amizade de Bento Gonçalves,
de Rossetti, de Cuneo e de tantos outros, e encontra o amor.
Aprende a combater sem se deixar abater pela crueldade da
guerra, adquire prestígio e honra sem a obsessão
e o interesse pelo poder e pelo dinheiro. Permanece sendo
ele mesmo, e reforça seus ideais e sua seriedade nas
relações com os outros homens. Cria-se uma grande
simbiose entre Garibaldi e a América do Sul: uma liberdade
em espaço aberto, talvez selvagem, mas generosa e coerente.
O período do século XIX, que para nós
é o Ressurgimento italiano, redescobre a importância
da formação das nações, da independência
de qualquer opressão, da aspiração à
liberdade, não somente dos indivíduos, mas dos
povos. Porém, não se torna um nacionalismo restrito
aos seus melhores homens (como Giuseppe Mazzini) porque está
ligado a uma concepção universal de liberdade
e democracia, e antecipa o conceito supranacional, com a idéia
dos Estados Unidos da Europa. Não se limita a teorizar
sobre uma troca de classes dirigentes porque, no fundo, existe
uma idéia de solidariedade, de emancipação
do trabalho, de instrução popular e também
de uma diferente relação homem-mulher, que não
deixa inalterada a ordem social, mas que tende, mesmo que
de modo antigo, a “revolucioná-la”.
Desejo que 2007 seja a ocasião para um entrelaçamento
de relações mais estreitas e fecundas entre
a Itália e a América do Sul, entre as Nações,
mas também entre as autoridades locais, as instituições
e as fundações culturais. Tentemos imaginar
para o futuro um trabalho em comum, de reflexão, de
aprofundamento, de troca de experiências sobre temas
que atravessam o mar e que possam nos unir.
Introdução
Annita Garibaldi Jallet
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Cientista política, bisneta de Giuseppe
e Anita Garibaldi
O mito que se formou sobre Giuseppe Garibaldi,
desde a sua juventude, chegou a nós com uma nitidez
surpreendente, duzentos anos após seu nascimento. Sua
imagem parece ter se separado de sua figura terrena, de sua
epopéia, dos locais de suas batalhas, para elevar-se
a uma dimensão supe-rior, no limite do imaterial. Enquanto
se distanciam os fatos que ligam o herói à sua
história, fazendo-o parecer antigo, Garibaldi levanta,
levita, torna-se pura imagem. Representa ainda valores e esperanças,
além dos limites de sua obra, de seu tempo, de seu
espaço. Talvez não seja o único que ingressou
no panteão da imortalidade, ao qual poucos tiveram
acesso.
Sem dúvida, suas façanhas foram grandiosas.
Entretanto, essa consciência ainda não é
suficiente para explicar o caráter duradouro de seu
fascínio e universal de sua fama.
Tentarei apresentar uma explicação ousada: o
mito praticamente se desmaterializou. O século dos
ressurgimentos nacionais e a própria unificação
da Itália passam para um segundo plano. “Garibaldi”
torna-se o nome de um fato que não é mais história,
não é mais lugar, é valor. É valor
positivo. Não existe nada de obscuro neste herói.
O cavalo é branco, a capa é vermelha ou de cores
vivas, a barba é castanho claro, o olhar é nítido.
Tudo nele é equilibrado. Com sua voz suave, ele toma
todos os cuidados. Este guerreiro inspira um sentimento de
paz. Em torno dele, não é o grito dos feridos
e dos mortos que se eleva, mas o canto de seu lamento pelos
amigos perdidos. Pede algo, mas não é para ele:
quer melhor tratamento para seus companheiros e que os mártires
sejam lembrados. Parece que o sonho nunca morre neste homem,
a quem não faltaram sofrimentos e desilusões.
O adolescente que queria ser um homem do mar está presente
naquele que construiu seu reino em uma ilha, onde se refugiou
nos anos de repouso e de onde contemplou, com igual amor,
a natureza, o céu e o universo que nunca o desiludiram,
fiéis ao marinheiro. Parece que a vida nunca o ofendeu,
nunca o feriu.
Assim o mito o devolve. Sabemos que a história foi
diferente. Muitas vezes tudo lhe foi tirado: a glória,
o amor, a paz. E também a integridade do corpo,
coberto de feridas, dolorido pelos males de uma vida difícil,
sem teto, sem boas roupas e alimentação suficiente.
Mas em sua alma permaneceu adolescente, tal como entrara na
vida e como a sonhara. Este traço de seu caráter
foi bem apresentado por Elio Vittorini, que descreve Caprera
como o sonho de uma criança, em uma Sardenha que é
como a infância. Aquela infância que escolheu
para si e para os seus se encontra nas terras antigas, nos
restos de velhas civilizações, nas plantas rudes,
robustas, que resistiram a todos os ventos, no jardim cuidado
palmo a palmo, nas plantas amadas, nos animais amigos com
os quais conversa, e que respondem em uma língua que
somente eles conhecem. Uma infância fixada, também,
à eternidade.
Uma outra dimensão de Garibaldi é a territorial.
Naqueles tempos onde as distâncias do mundo eram ainda
muito grandes em relação às poucas possibilidades
do homem de contê-las em seus desenhos, Garibaldi tem
um grande domínio do mar, tanto que o faz seu, ou mais:
usa-o como instrumento para conquistar o mundo. Depois do
Mediterrâneo, na juventude, depois do Atlântico,
nos anos da América Latina, o encontramos no Pacífico
e nos mares da Ásia. Sua presença, tanto como
capitão de navios mercantes ou de guerra, transforma
cada viagem em um episódio de sua lenda. Independentemente
da importância do território onde estivesse,
era ele mesmo em qualquer lugar.
Era quase Sandokan, ou melhor, Sandokan era quase ele.
Sua história o vincula para sempre à unificação
da Itália. Mas foi ele, de fato, um herói italiano?
Se tivesse sido um italiano antes de tudo – um lígure,
um toscano, um vêneto, um napolitano – teria assumido
as características e os limites de cada uma dessas
culturas. Ao contrário, era ligado a um sonho chamado
Itália, que via unida na sua história –
herdeira de Roma – e nos seus aspectos, circundada totalmente
pelo mar e pela cadeia dos Alpes. Uma visão que tinha
pouco em comum com a dos italianos tão diferentes entre
si. Foi essa visão que levou adiante um projeto que
nenhuma das partes da Itália teria conseguido realizar
para as outras, e que nenhum italiano – lígure,
toscano, vêneto, napolitano – teria conseguido
concluir.
Reuniu o melhor de tudo que havia visto: o mundo oriental
o tinha marcado profundamente, mas não o deteve. A
longa permanência em Constantinopla poderia tê-lo
seduzido e aculturado. Obrigado a se exilar, preferiu outros
horizontes. As comunidades de exilados que viviam na América
Latina o aproximaram de seu desenho de unificação
da Itália. Ali começou o combate (Revolução
Farroupilha), ali formou a Legião Italiana (Montevidéu)
e tornou-se general (Sant’Antonio). Daquela experiência
trouxe o método revolucionário que permitiu
que vencesse, na Itália, um inimigo que estava, ao
contrário, ancorado ao território. Tinha, sim,
lido Bianco di Saint Jorioz, e também o comentário
de Giuseppe Mazzini sobre a guerra de pequenos grupos, mas,
sem a aplicação prática e empírica
que fez nos campos de batalha da América Latina, nunca
teria tido tal domínio sobre o território italiano.
Nós nos perguntamos por que tantos heróis sul-americanos
se inspiraram em Giuseppe Garibaldi. Na realidade, ele era
mais estrangeiro na Itália do que na América
Latina, onde viveu 14 anos, enquanto nunca vivera na Itália,
senão em breves ocasiões na Ligúria.
Era justamente aquele ser “outro” que o fazia
impor-se sobre aqueles que não sabiam levantar o olhar
para outros céus. É necessário considerar
também que, tendo permanecido por um longo tempo em
Istambul, depois em Montevidéu, tinha uma idéia
muito precisa das relações de força entre
as grandes potências presentes no mar e na cena internacional.
Essa bagagem de conhecimentos compreendidos entre o instintivo,
o experimental e o adquirido é um valor raro, imenso.
A humanidade reconhece os homens que o possuem. Considera-os
como faróis na noite escura do seu caminho. Estes trazem
confiança e esperança. A lenda se expande, por
essas características, até para lugares onde
Garibaldi nunca esteve. Sua existência, freqüentemente
vivida de forma impulsiva, foi na realidade uma obra-prima
de coerência. Ele era um homem simples, nos modos e
no pensamento. Não exercitou o que normalmente se chama
poder. Mas foi o guia dos homens e dos povos que muitos ainda
gostariam de ter.
Não nos perguntemos o porquê. Existem, na vida
e no homem, muitas faixas de mistério. Garibaldi quis
que o seu pairasse no coração de uma pequena
ilha, refúgio de perfumes e de cores, em um oceano
de beleza, em meio ao mar e ao vento, inalcançável.
O mar ocupa uma superfície do globo sem descontinuidade,
ao contrário da terra. Se não é possível
explicar o caso Garibaldi, recorrendo-se a uma comparação,
tentemos esta: Garibaldi é o mar.
O mito de Garibaldi: origem
e significados no Cone Sul até 1907,
ano do centenário de seu nascimento
Pietro Rinaldo Fanesi
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Historiador e pesquisador, é colaborador da Cátedra
de História
e Instituições da América, da Universidade
de Camerino, Itália
As raízes do mito garibaldino
Nesta oportunidade, o objetivo é compreender
o quanto o mito de Garibaldi contribuiu para a construção
de uma identidade nacional entre as comunidades italianas
nos países do Cone Sul ou se, ao contrário,
este foi o elemento que caracterizou uma identidade “dividida”,
um reconhecimento de uma idéia de Pátria que
nem sempre conseguia ter valor para todas as camadas sociais
e representações político-econômicas.
As linhas mestras deste trabalho retomam as celebrações
dos “aniversários” garibaldinos –
entre o fim de 1800 e o início de 1900 – no Brasil,
Argentina e Uruguai, e o impacto que essas têm nas comunidades
ítalo-americanas e nas sociedades locais, com atenção
especial à dialética entre “laicos”
e católicos, republicanos e monarquistas, que, aos
poucos, se instaurou em torno do “uso político”
da figura de Giuseppe Garibaldi.
Neste sentido, de fato, é quase impossível não
considerar uma ambigüidade estrutural ligada à
utilização do mito garibaldino, que se prestou,
por mais de um século, a um “duplo uso”
apoiado no binômio patriotismo-italianidade: um Garibaldi
certamente maçom, anticlerical, democrático
e populista, internacionalista, mas também “pai
da pátria” (especialmente a partir dos primeiros
anos de 1900) e, em alguns casos, “consagrado”
não somente pelo componente laico da sociedade.
A propósito da questão mencionada, da identidade
“dividida”, vale a pena citar uma passagem que
se aplica à Argentina:
No una sino dos comunidades en Buenos Aires, con una miriada
de instituciones y con sus simbolos contrapuestos. En los
ambitos monarquicos flameaba la bandera de la casa de Savoia,
se tocaba la Marcha Real y se commemoraban con celebraciones
el aniversario del Estatuto albertino y el dia del nacimiento
de Vittorio Emanuele. En los republicanos, en cambio flameaba
la bandera tricolor, resonaba el himno a Garibaldi y se realizaban
celebraciones en recuerdo de los cinco jornadas milanesas
y los aniversarios de Garibaldi y Mazzini.”1
Este comportamento não vale somente para a comunidade
italiana da capital argentina, mas é encontrado em
quase todas as cidades dos países do Cone Sul, onde
as comunidades apresentavam um pluralismo social, ideológico
e regional, correspondente às características
dos diversos fluxos imigratórios. Especialmente nessa
área do continente latino-americano, a figura de Garibaldi
assumia uma função peculiar, eivada de momentos
de exaltação, mas também de críticas.
De fato, as façanhas da guerra civil pratense, a chamada
Guerra Grande, e a participação direta
de Garibaldi e dos italianos que chegaram ao Uruguai desde
a primeira metade de 1800, contribuíram muito para
movimentar por décadas um debate político, por
exemplo, entre as duas principais formações
políticas da Banda Oriental, os colorados e os blancos,
onde os primeiros viam em Garibaldi o chefe da “Legião
italiana”, o herói da Defensa e da batalha
de San Antonio do Salto, e, os segundos, somente como um mercenário
que tinha se inserido arbitrariamente em uma guerra “não
sua”.2
A mesma polêmica atinge a comunidade ítalo-argentina
e a sociedade local, mesmo que por uma perspectiva diferente,
dada a ausência física, aqui, de Garibaldi. Entretanto,
as agremiações reunidas em torno da corrente
democrática, de um lado, e dos setores mais conservadores
do outro, diferenciaram-se, como será possível
averiguar sobre o juízo histórico-político
da figura de Giuseppe Garibaldi.
O caso do Brasil não se apresenta muito diferente,
pelo menos nos estados meridionais do país, mesmo que,
em honra da verdade, o mito garibaldino – e o de Anita
(Ana Maria de Jesus Ribeiro) – mantenha no tempo um
valor “único”, de grande consenso popular,
seja entre as comunidades de italianos emigrados, ou entre
a sociedade local, como uma longa onda que atravessa os séculos.
Não faltaram alguns momentos, porém, onde as
tensões se aguçaram em torno da interpretação
da figura de Garibaldi. O fenômeno parece mais limitado
do que os casos apenas citados dos países pratenses,
e, quando se verificam momentos de tensão no interior
da comunidade ítalo-brasileira e da sociedade local,
estes são caracterizados pelo enfrentamento, geralmente
entre laicos e católicos.
Na realidade, a “questão garibaldina” parece
restrita às zonas onde foi mais consistente a imigração
italiana, especialmente a vêneta, grande matriz católico-conservadora,
como a área de Caxias do Sul. Aqui, a figura de Garibaldi
será aos poucos objeto de um confronto político-cultural
– como veremos a seguir – com repercussões
que chegam até os tempos mais recentes. De fato, em
2002, por exemplo, em um semanário de cunho católico,
de Caxias do Sul, constam cinco longos artigos que narram
as façanhas de Garibaldi no Rio Grande do Sul e no
Uruguai, mas com evidente tom crítico ao seu comportamento,
excessivamente violento, durante a Revolução
Farroupilha e no Uruguai.3
Antes disso, por exemplo, durante as comemorações
de 1982, em um jornal de grande tiragem de Porto Alegre, a
Zero Hora, entre muitos aspectos enfáticos e retóricos,
lê-se também uma notável crítica
ao comportamento dos ingleses e dos italianos em Londres,
um autêntico delírio popular, durante a visita
de Garibaldi à cidade britânica, incomodando,
na ocasião, de maneira instrumental, até Marx:
“[…] ‘Um miserável espetáculo
de imbecilidade’ escreveu Karl Marx sobre a acolhida
que Giuseppe Garibaldi recebeu em 1868, quando, convidado
por amigos, visitou Londres.”4
_____________________________________________________________
1 F.J. Devoto, Inventando a los Italianos?
Imagen de los primeros inmigrantes en Buenos Aires (1810-1880),
em “Annuario do IHES”. Tandil: VII, 1992, p. 133.
2 A propósito, para o Uruguai, além do datado
mas importante trabalho de C.M. Rama, Garibaldi y el Uruguay.
Montevidéu: Ediciones Nuestro Tempo, 1968 (útil
também pela rica bibliografia “garibaldina”),
veja-se ainda J.A. Oddone, Italians in Uruguay: Political
Participation and Country Consolidation during Mass Immigration,
in Aa.Vv:, The Colombus People. Perspectives in Italian Inmigration
to the America and Australia. New York: Center for Migration
Studies, 1994, p. 210-228 e C. Zubillaga, Religiosità,
devozione popolare e immigrazione italiana in Uruguay, em
Aa.Vv., L’emigrazione italiana e la formazione dell’Uruguay
moderno. Torino: Edizioni della Fondazione Giovanni Agnelli,
1993, p. 121-170. Aqui quer-se fazer menção
também a alguns trabalhos como S. Candido, Giuseppe
Garibaldi nel Rio della Plata (1841-1848), Firenze, 1972 e
R. Ugolini, Garibaldi. Genesi di un mito, Roma: Edizioni dell’Ateneo,
1982, também A. Corneli, Giuseppe Garibaldi nell’Uruguay,
Comitato pro casa di Garibaldi in Montevideo, Buenos Aires,
1951. Além disso, é de especial interesse o
periódico anual Garibaldi, editado desde 1986 pela
“Asociacion cultural Garibaldina” de Montevidéu,
como tentativa, além de alguns trabalhos de cunho retórico,
de traçar um balanço crítico da historiografia
garibaldina.
3 “Correio Riograndense”, 7-14-21-28 de agosto
e 4 de setembro de 2002, artigos de Moacyr Flores, Giuseppe
Garibaldi. Herói de Dois Mundos.
4 “Zero Hora”, 11 de junho de 1982, encarte dedicado
a Garibaldi, p. 10.
____________________________________________________________
Agora, é preferível remeter a outros trabalhos
apresentados aqui – e à ampla bibliografia existente5
– as narrações das façanhas que
envolveram Garibaldi no Brasil, em especial por sua participação
na Revolução Farroupilha. É útil,
porém, no final do presente trabalho, mencionar que,
nas instâncias de independência em bases republicanas
representadas pelas ações de Bento Gonçalves,
inserem-se idéias mazzinianas devido à
presença, naquela zona meridional do Brasil, de exilados
como Livio Zambeccari, Luigi Rossetti e Francesco Anzani e,
mais tarde, na segunda metade dos anos 1830, de Giuseppe Garibaldi.
De fato, para tentar analisar o humus político
e cultural de onde se origina o mito garibaldino na América
Latina, não pode-se deixar de levar em consideração
o ambiente rio-grandense, e sucessivamente o uruguaio, deixando,
por enquanto, como pano de fundo, a Argentina.
Mas, antes mesmo de ver as marcas deixadas por Garibaldi no
Rio Grande do Sul, é importante citar sua atividade
no Rio de Janeiro e as possíveis motivações
que alimentaram o seu mito desde o início, e para sempre.
Antes de tudo, é necessário evidenciar que,
quando Garibaldi atraca na costa brasileira, mais precisamente
no Rio de Janeiro, no final de 1835, tenta logo unir-se ao
mundo dos exilados do Risorgimento. O seu primeiro
contato “político”, em especial, será
com Giuseppe Stefano Grondona, lígure, no Rio de Janeiro
desde 1815, apreciador do pensamento mazziniano e,
de certa maneira, ligado com os círculos de Marselha,
porto de onde Garibaldi embarcou para o Brasil. Garibaldi
traz para Grondona, desejoso de receber as publicações
mais recentes, as “Instruções gerais”
da Giovine Europa e o último fascículo
da Giovine Italia.
Parece que Grondona recebeu bem Garibaldi no Rio de Janeiro
e que teria sido o meio para a iniciação maçônica
do herói dos dois mundos em uma loja local, “Asil
de la Vertud”, uma loja na realidade “irregular”
e não reconhecida pelos Orientes europeus.6 Garibaldi,
por sua vez, retribuirá o apreço de Grondona
oferecendo-lhe a presidência da Giovine Italia
do Rio, fundada em janeiro de 1836. Na realidade, a ligação
entre os dois logo esfriou, enquanto que, com os outros dois
exilados no Rio, estreitou uma relação que duraria
por muito tempo. São eles: Luigi Rossetti, que chegou
em 1827, e Giovan Battista Cuneo, que havia recém chegado
ao Rio. Enquanto que o ativismo de Garibaldi era dirigido
à coordenação do pequeno grupo de exilados
italianos com o objetivo declarado de retornar em breve à
pátria, Cuneo será mais incisivo na ação
política com a fundação de uma revista,
La Giovine Italia, para propagar as idéias
de Mazzini entre os italianos no Brasil, a fim de predispor
um núcleo de assistência à insurreição
prevista na Itália.7
Essas breves considerações sobre a presença
inicial de Garibaldi em terra brasileira, como motivo do presente
trabalho e em relação ao nascimento do mito
garibaldino, oferecem a possibilidade de compreender alguns
aspectos peculiares. O mais interessante resulta na ligação
maçônico-conspiradora que unia exilados italianos,
como Garibaldi, Grondona e Zambeccari, a Bento Gonçalves,
e que proporcionava um seguro elo de união com a classe
dirigente do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Pouco
se sabe dessa atividade maçônica movida pelo
idealismo humanitário de caráter internacionalista
e decididamente republicano, que poderia bem explicar a persistência
e a valorização do mito garibaldino nas décadas
sucessivas, além da retórica sobre a participação
de Garibaldi na Revolução Farroupilha.
Observou-se que:
“A entrada (de Garibaldi) na Maçonaria, em outras
palavras, preservou o patriotismo garibaldino do endurecimento
estritamente nacional (diferentemente do que acontece com
a maior parte dos protagonistas do Risorgimento, a começar
por Mazzini, o termo ‘nação’ fica
quase estranho à sua prosa, onde, em vez, retorna aquele
de ‘povo’) ofereceu a ele uma imediata percepção,
também de caráter prático, operacional,
da universalidade dos objetivos que ele havia escolhido e
estava perseguindo.”8
_____________________________________________________________
5 Aqui, mesmo que em síntese e com uma escolha que
se espera não seja muito limitante, indica-se, além
do trabalho pioneiro na Itália de S. Candido, Giuseppe
Garibaldi corsaro riograndense (1837-1838), Roma: 1964, e
aquele no Brasil de L. Collor, Garibaldi e a Guerra dos Farrapos.
Porto Alegre: Globo, 1958, ao recente estudo de N. Santoro
de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento
italiano: l’azione di Garibaldi nella Rivoluzione Farroupilha
e sue implicazioni, in Aa.Vv:, Il Risorgimento Italiano in
America Latina, Atti del convegno internazionale di Genova
del 24-25-26 novembre 2005, affinità elettive. Ancona,
2006, p. 337-347, onde se faz uma análise sobre a influência
e a ação dos exilados italianos na revolução
rio-grandense de 1835. Além disso, para um estudo do
ambiente rio-grandense, e de Porto Alegre em especial, onde
viveu, desde as origens, a comunidade dos imigrantes italianos,
veja-se N. Santoro de Constantino, O italiano da esquina.
Imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST,
1991.
6 A propósito da afiliação maçônica
de Garibaldi no Brasil não existem documentos oficiais.
Resulta, ao invés, “regular” a sua iniciação,
que aconteceu em 18 de agosto de 1844, na Loja “Amis
de la Patrie” de Montevidéu, de referência
ao Grande Oriente da França. Para uma documentação
sobre o “percurso maçônico” de Garibaldi,
ver V. Gnocchini, L’Italia dei Liberi Muratori. Brevi
biografie di Massoni famosi. Roma-Milão: Mimemis-Erasmo
Editore, 2005, p. 139.
7 A propósito, ver S. Candido, L’azione mazziniana
in Brasile ed il giornale “La Giovine Italia”
di Rio de Janeiro (1836) attraverso documenti inediti o poco
noti, em “Bollettino Domus”, 1968, n.2.
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Deveria ser esclarecida a fundo – e não
é possível neste momento – a relação
entre o idealismo republicano dos “italianos”
e o “republicanismo” dos “brasileiros do
sul”, que assume um caráter essencialmente “emancipado”
e também separatista em confronto ao establishment
local, muito ligado à aristocracia do país,
que se tornara independente de Portugal há pouco tempo.
Tal divagação permite ver, mesmo com alguma
confusão teórica, como o retorno aos “dois
republicanismos” poderia servir, naquele período,
para consolidar ligações úteis, seja
aos separatistas rio-grandenses, seja à comunidade
dos exilados do Risorgimento italiano. Depois, será
também útil encontrar as ligações
ideológicas entre os diversos protagonistas da revolução
rio-grandense e a posterior classe dirigente local e a comunidade
italiana laico-republicana, como no caso do futuro presidente
do Estado rio-grandense, Julio de Castilhos, ideólogo
do Partido Republicano e seguidor de Auguste Comte. Tanto
que, em um jornal italiano de Porto Alegre, é possível
ler que:
“Talvez todo o pensamento de Julio de Castilhos
se resume nesta breve fórmula: o pensamento de Giordano
Bruno, inserido naquele outro político de Giuseppe
Mazzini: permanecer na sua idéia republicana que deveria
conduzir os seus compatriotas, não à redenção
no céu, mas na terra.”9
Não é por acaso que o tema será
sucessivamente retomado, no primeiro centenário da
Revolução Farroupilha, em 1935. 10
Enfim, no que diz respeito à origem do mito garibaldino
no Brasil e sua matriz de caráter popular, não
pode ser ocultada a importância da relação
com Anita, originária do Estado de Santa Catarina11,
que serve em muitas ocasiões como ligação
com a cultura popular local, para chegar, como se sabe, até
os nossos dias. Em seguida, nos vários períodos,
veremos quanto o uso político da companheira “brasileira”
de Garibaldi pode ter sido, também, determinante, até
por parte do regime de Mussolini.
É interessante observar, referindo-se ao Brasil
meridional, como a presença de Garibaldi e suas famosas
“façanhas”, por outro lado bem descritas
em suas Memórias, nas várias biografias
do herói e na vasta bibliografia que deixamos de citar,
ecoam muito forte também nas décadas seguintes,
e como a comunidade dos ítalo-brasileiros e a sociedade
local não esqueceram o herói.12 Na década
de 1870, no Rio Grande do Sul, a comunidade dos imigrantes
italianos estava aumentando. Surgiram, então, diversas
associações de caráter prevalentemente
mutualista, em muitas cidades. Emblemático é
o caso de Porto Alegre, onde, em 1877, foi fundada a “Vittorio
Emanuele II”, e Garibaldi nomeado presidente honorário
da sociedade, encontrando o agradecimento deste, que escreve
uma carta aos “caros amigos” na qual recorda “com
gratidão a hospitalidade recebida da generosa população
do Rio Grande”. Observa-se que muitos sócios
dessa associação eram veteranos da Revolução
Farroupilha e também da Legião Italiana de Garibaldi
no Uruguai.13
Conceder a Garibaldi a presidência de uma sociedade
italiana será um gesto comum para muitas experiências
análogas; aqui vale a pena registrar a observação
de uma estudiosa rio-grandense, porque é inerente à
questão da identidade da pátria:
A ‘Vittorio’ reforçou traços
culturais italianos, através de símbolos, como
o general Garibaldi, cujo nome já era glorificado na
Itália. Torna-se a figura predileta, representado com
o uniforme de general ou com o uniforme dos camisas vermelhas.
O atelier fotográfico de Calegari, o mais importante
de Porto Alegre, vende fotografias pintadas a óleo,
multiplicando a imagem com a camisa vermelha. O quadro estará
nas casas dos italianos, símbolo da patriótica
italianidade, visto que finalmente têm uma pátria-mãe.”14
_____________________________________________________________
8 Conforme A.A. Mola, L’internazionalismo massonico
di Giuseppe Garibaldi, em G. Cingari (aos cuidados de), Garibaldi
e il socialismo. Roma-Bari: Laterza, 1984, p. 148.
9 L’Italiano, 24 de novembro de 1903, número
extraordinário dedicado a Julio de Castilhos na ocasião
da sua morte, em 24 de outubro de 1903. Aqui, afirma-se que
Julio de Castilhos conhecia a fundo o pensamento mazziniano.
10 “Correio do Povo”, 20 de setembro de 1935,
Porto Alegre, encarte para celebrar o 1° centenário
da Revolução Farroupilha, artigos intitulados
Os italianos na Repubblica Farroupilha e Os italianos e a
Repubblica de Piratiny.
11 Interessante, a propósito, é o discurso do
deputado federal Octacilio Costa, representante do Estado
de Santa Catarina na Câmara dos Deputados, proNúnciado
em 4 de agosto de 1949, no Congresso Nacional, em ocasião
do 1° centenário da morte de Anita, citado em Anita
Garibaldi. Heroina de dois mundos, Rio de Janeiro, 1949.
12 É interessante notar como, no final do século,
em um momento de recuperação do mito farroupilha,
várias localidades rio-grandenses receberam o nome
do herói da Revolução de 1835; entre
essas a ex-colônia Conde d’Eu, que passou a se
chamar Garibaldi, em 31 de outubro de 1900, ainda que lá
houvesse poucos italianos garibaldinos. Sobre a história
dessa comunidade, ver E. Clemente-M. Ungaretti, História
de Garibaldi. 1870-1993. Porto Alegre: Edipucrs, 1993.
13 N. Santoro de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti
del Risorgimento italiano, cit.,
p. 122-123.
_____________________________________________________________
É interessante ressaltar como a “transferência”
de Garibaldi nos anos 1840, do sul do Brasil para o Uruguai,
tenha comportado, de alguma maneira, também a sobreposição
em terra uruguaia dos ideais e motivações de
independência que tinham caracterizado a ação
garibaldina, como se fosse um tipo de continuidade. Porém,
enquanto no Rio Grande do Sul, como vimos, são poucas
as vozes contrárias ao valor da figura de Garibaldi
(exceto o reacender de uma forte polêmica entre laicos
e católicos, no final do século, o que veremos
mais tarde), no Uruguai, suas façanhas tendem a não
ser universalmente reconhecidas como unificadoras da sociedade
local.
Na sociedade de Montevidéu, e no Uruguai em geral,
o mito de Garibaldi, seja em vida, ou mesmo após sua
morte, torna-se prerrogativa quase que exclusivamente da parte
colorada, permitindo, assim, à grande comunidade italiana
imigrada vincular-se amplamente ao establishment
político local com a afirmação de um
ponto de vista laico-republicano da sociedade. Esse último
aspecto, cada vez mais contestado pelos setores clérigo-conservadores,
com reflexos significativos também na recente historiografia
de inspiração católica e blanca,
permite observar que:
“A identificação da filosofia liberalista
(e das principais fontes inspiradoras do movimento anticlerical
emergente) com a tradição garibaldina do partido
colorado causou muitas confusões na opinião
pública popular (e também naquela acadêmica).
Entre essas, por exemplo, estão aquelas que identificaram
as concessões sustentadas em matéria política
pelo partido colorado com o ‘espírito de Garibaldi’,
sem dar-se conta de que a sucessiva opção monárquica
do derrotado de Mentana estava batendo de frente com o ‘igualitarismo’
republicano do qual se vangloriava o ´partido da defesa`.”
15
Para dizer a verdade, esta observação pode
parecer esquemática e até distante, se não
for enquadrada no contexto da dialética colorados/blancos
que, não por acaso, encontra no Uruguai os seus reflexos
também nas interpretações historiográficas.
Sem dúvida, o ponto de origem do qual se alimenta a
lenda de Garibaldi no país do Prata é pesquisado
nos episódios da “Defesa de Montevidéu”,
na luta dos unionistas para liberar a cidade do assédio
imposto pelo “ditador” argentino Rosas e pelo
blanco Oribe.
Mas, na realidade, não se deve esquecer que, nas
décadas sucessivas, depois do retorno de Garibaldi
à pátria, houve grande afluência de “garibaldinos”
que desembarcaram no Prata, em Montevidéu, sobreviventes
das lutas pela independência nacional italiana. Deve
ser especialmente evidenciado o consistente fluxo de seguidores
de Garibaldi que se registrou depois da derrota de Mentana
(1867), com a chegada na capital uruguaia de mais de 1.700
camisas vermelhas, muitos dos quais com a própria família,
consolidando assim uma ligação com os garibaldinos
e com a maior parte dos italianos no Uruguai, que jamais enfraqueceu.
Essa imigração “especial” contribuiu,
certamente, para revigorar, além de outros fatores,
os ideais garibaldinos que sempre encontraram no Prata uma
fácil articulação – sendo por sua
vez influenciados – nas correntes de pensamento proto-socialistas
e sansimonistas16 , e também liberais de referência
maçônica.
Isso ocorre especialmente depois da metade de 1800, quando
o liberalismo uruguaio tende a assumir um aspecto militante
em relação ao clericalismo, desmanchando, assim,
algumas ambigüidades de fundo da relação
dialética entre racionalismo e liberalismo, originando,
come se sabe, relevantes aspectos inovadores da legislação
uruguaia que concretizam a hegemonia naquele período
da cultura liberal sobre o conservadorismo clerical e também
uma clara predominância do alinhamento laico-maçônico
pratense que detém, talvez, uma parte da herança
garibaldina.17
_____________________________________________________________
14 Idem
15 C. Zubillaga, Religiosità, devozione popolare, cit.,
pág. 127.
16 Para este aspecto específico, conferir C. Zubillaga,
El pensamento socialista en Uruguay. La reflexion precursora,
in Aa: Vv., Ensayos en homenaje al doctor Arturo Ardao. Montevidéu:
Universidad de la Repubblica, 1995, p. 203-234, e também
L. Fabbri Cressatti, Garibaldi y el socialismo de su tempo,
em Garibaldi, a.1, 1986, p. 74-85. Enquanto para o socialismo
de Garibaldi, ver G. Cingari, Garibaldi e il socialismo, cit.,
e L. Briguglio, Garibaldi e il socialismo. Milão: SugarCo,
1982.
17 Para uma cronologia dos aspectos mais importantes das afirmações
civis do liberalismo uruguaio, conferir P. Barron, Iglesia
catolica y burguesion en el Uruguay de la modernizacion (1860-1900),
Montevidéu, 1988, p. 5-6.
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“ [...] se a maçonaria uruguaia se converteu
ao anti-clericalismo e se o anti-clericalismo foi um componente
importante nas opções da classe política
colorada, isto se deve também, e não de modo
irrelevante, à luta de Garibaldi e do partido democrático
contra o poder temporal em nome de Roma, capital da Itália
unida.”18
Enfim, veremos alguns traços quanto à realidade
argentina e às características que aqui assume
o mito garibaldino enquanto o herói estava vivo. Na
Argentina, e especialmente em Buenos Aires, assinala-se a
presença consistente de exilados do Risorgimento,
a partir das rebeliões de 1820-1821. Muitos marinheiros
e mercadores estabeleceram-se no Porto do Prata e, seguramente,
contribuíram para alimentar as idéias ressurgimentais
entre os primeiros núcleos de imigrantes italianos
e a própria sociedade portenha.
Além disso, esses personagens cuja história
política é embebida de “carbonaria”
e insurreição, chegavam, não por acaso,
aos portos latino-americanos, considerando que isso era comum
naquelas primeiras décadas de 1800, quando tomavam
vida e forma as experiências iniciais republicanas revolucionárias
que, freqüentemente, não se limitavam a operar
nos restritos âmbitos de uma implantação
passiva, mas interagiam com a já numerosa colônia
italiana emigrada por motivos de trabalho na sociedade local
19, jogando as primeiras sementes de um ativismo político
fervoroso que se desenvolverá mais tarde, próximo
do final do século, baseado em correntes fortemente
ideologizadas e caracterizadas por um republicanismo militante,
socialista e também anárquico, como se verá
depois.
Certamente, a realidade argentina não é aquela
do Uruguai ou do Rio Grande do Sul, porque não pôde
contar com a presença de Garibaldi, mas, apesar disso,
a influência do pensamento de Mazzini é forte,
essencialmente devido a Giovan Battista Cuneo, que exercerá
“uma notável influência sobre os liberais
latino-americanos da chamada Geração dos Banidos
e da Geração Jovem Argentina (também
conhecida como Asociación de Mayo e ponto
de reunião, desde 1837, de um grupo onde eram membros
Esteban Echeverria, Juan Battista Allberdi, Bartolomé
Mitre e Miguel Irigoyen, ou seja, a nata da futura classe
dirigente do Prata nos anos da grande enxurrada imigratória).”20
Cuneo exerce freqüentemente o papel de “protetor”
intelectual das ações de Garibaldi em terras
latino-americanas, e sua influência é amplamente
comprovada, tanto que foi escrito que “a história
das doutrinas de Mazzini em terra latino-americana foi em
grande parte a história deste grande italiano no exterior.”21
E, quando também em terra argentina, as façanhas
da Guerra Grande haviam terminado há tempo,
e na segunda metade do século registram-se outras situações
políticas e institucionais, o germe plantado muitos
anos antes pelo denso trabalho de propaganda de Cuneo e dos
outros mazzinianos – que, além disso, já
nos anos 1870 eram bem organizados em Buenos Aires com um
jornal chamado L´amico del Popolo, órgão
do PRI na Argentina, já em 1879, e com um Centro Republicano
Italiano22 – não tardará a propor a validade
da figura de Garibaldi também aqui.
Não será por acaso – como veremos no próximo
parágrafo – que, no momento da morte do “herói
dos dois mundos”, em junho de 1882, nos países
do Cone Sul, as celebrações e as honras fúnebres
assumirão não somente características
de ritual mas terão, também, um forte valor
político.
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18 G. Marocco, Sull’altra sponda del Plata. Gli
italiani in Uruguay, Milão: Franco Angeli, 1986, p.
24. A propósito, para o papel desenvolvido pelos maçons
italianos no Prata, ver A.F. Cabrelli, Participación
de los masones italianos en la trasformación de la
sociedad oriental, em Garibaldi, a.4, 1989, p. 89-110.
19 A propósito, para uma atenta análise do fenômeno
imigratório italiano na Argentina durante o período
do ressurgimento italiano, ver o recentíssimo trabalho
de F.J. Devoto, Storia degli italiani in Argentina, Roma:
Donzelli Editore, 2007, em especial o cap. I, p. 7-83. Além
disso, recorda-se para a compreensão do fenômeno
desta primeira emigração política do
ressurgimento e a sua “contribuição”
de maneira mais geral aos fatos americanos, o determinante
trabalho di E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo. L’emigrazione
italiana in America. 1492.1942. Milão: Arnoldo Mondadori
Editore, 1995, em especial o cap. III, “Emigrazione
e Risorgimento”, p. 87-140.
20 E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo, cit., p. 121.
21 Idem
22A propósito, ver P.R. Fanesi, Verso l’altra
Italia. Albano Corneli e l’esilio antifascista in Argentina.
Milão: Franco Angeli, 1991, p. 58.
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A memória de Garibaldi do ano da sua morte
à retórica dos aniversários “fin
de siècle”
A notícia da morte de Garibaldi, ocorrida
em 2 de junho de 1882, propagou-se imediatamente além-mar
provocando um abalo nas comunidades de emigrados italianos,
especialmente naqueles países onde o herói teve
a oportunidade de deixar uma marca indestrutível com
suas viagens e façanhas.
Em Buenos Aires, o anúncio da morte de Garibaldi foi
dado por um jornal, em língua italiana, de inspiração
republicana, La Patria Italiana, que, como em muitos
artigos similares que apareceram naqueles dias nos jornais
de quase todo o mundo, expressava uma profunda dor por seu
desaparecimento23.
Após alguns dias, superada a fase do abalo, o mesmo
jornal, além de reproduzir o grande eco do fato na
imprensa argentina e os artigos de solidariedade por parte
de outras numerosas associações, não
somente italianas (por exemplo, o “Club Eslavo”
de Buenos Aires), indica algumas iniciativas de celebração
a serem desenvolvidas nos dias seguintes.
Primeiramente, a nomeação de um comitê
para as honras ao herói, para o qual é indicada
à presidência a figura de D. Parodi, com a participação,
por direito, dos presidentes de todas as “sociedades
italianas” de Buenos Aires, e “daqueles que justificassem
terem feito parte da Cruzada dos Mil” (presente em Buenos
Aires, Torre Torelli), depois a construção,
na capital argentina, de um monumento a Garibaldi ao lado
daquele de Mazzini, e, enfim, a realização das
honras fúnebres com um simples ritual civil e com uma
“procissão cívica”24.
De fato, o auge dessas iniciativas em Buenos Aires será
o cortejo “garibaldino” cuja data é fixada
para o dia 25 de junho. A manifestação é
promovida e organizada pela associação “Voluntários
Garibaldinos”, com o envolvimento de todas as sociedades
italianas presentes na capital25. Os “garibaldinos”
reúnem-se na “Stella di Roma” e “decidem
formar um pelotão de 40 ex-voluntários com uniforme
garibaldino, e que irão encabeçar a manifestação
e serão a guarda de honra do troféu sob o arco
da Recoba [onde foi montada uma espécie de câmara
ardente].”26
O cortejo será acompanhado por grande parte dos italianos
em Buenos Aires e os “garibaldinos” marcharão
em ordem militar com as armas em punho fornecidas para a ocasião
pelo exército argentino, seguidos por representantes
da sociedade italiana portenha, representantes maçônicos
locais27, e por simples imigrantes solidários com a
figura do “seu” herói nacional, o que realçava
o fato de pertencer à terra e à pátria
longínqüa. Nesta ocasião, esquecem os motivos
do “exílio” e também as divisões
sociais, econômicas e ainda de classe deixadas na Itália.28
No que diz respeito ao Brasil, e em especial aos estados meridionais
onde Garibaldi viveu e atuou, as fontes disponíveis
atualmente não permitem encontrar a narrativa dos eventos
verificados na ocasião de sua morte. Por outro lado,
é provável que a mesma difusão na imprensa
de língua italiana, ou seja, na comunidade que melhor
podia assinalar o ocorrido, tenha sido posterior a 1882, especialmente
no Rio Grande do Sul e em Caxias do Sul, sendo esta última
um centro ativo sob este ponto de vista29.
Totalmente diferente é o registro do impacto da morte
de Garibaldi na comunidade italiana e local do Uruguai. Em
Montevidéu, quando, em junho de 1882, chega a notícia
da morte de Garibaldi, a emoção é grande.
A folha de inspiração mazziniana (em língua
italiana) da capital do Prata, L´Italia (ou
L‘Era Italiana), dirigida por Luis Desteffanis30
e por Joaquin Odicini, filho de Bartolomeo, o médico
da Legião Italiana de Garibaldi 31, dá a notícia
com poucas palavras:
“Dominados pelo mais profundo pesar, comunicamos
aos nossos leitores uma dolorosa notícia que chegou
esta manhã de Gênova. Ontem, 2 de junho, morreu
em Caprera o General Giuseppe Garibaldi. O nosso estado de
ânimo não nos permite adicionar nem mais uma
palavra a esta terrível desgraça que afunda
a Itália no luto. Até amanhã.”
Identifica-se o apelido “General” entre as
palavras de comoção do órgão dos
republicanos italianos de Montevidéu. De fato, a experiência
militar de Garibaldi assume uma importância relevante
na imprensa ítalo-uruguaia, e parece prevalecer –
na verdade tanto antes da morte como em vida – na hereditariedade
político-ideológica. Um Garibaldi “general
e comandante que se também na Itália
terá a sua glorificação neste sentido”
32, em terra pratense não faz somente parte do aspecto
retórico do personagem, mas funciona como trait
d´union com a tradição político-militar
da elite do jovem Estado.
Nesta primeira fase do mito garibaldino post mortem,
os italianos do Uruguai tendem a exaltar do “grande
italiano” especialmente os seus dotes militares, e,
fazendo isso, ligam idealmente o “seu” pai da
pátria ao compromisso militar executado por ele no
Prata. Da mesma forma, as autoridades políticas locais
– encabeçadas pelo presidente Maximo Santos –
rendem a Garibaldi “honras militares”, tanto que,
em 5 de junho, acontece uma manifestação oficial
em Montevidéu com um desfile de tropas uruguaias e
de garibaldinos veteranos. O cortejo vai até a Real
Representação da Itália, onde o conde
de Brichanteau, então Regente, em uma cerimônia
com a presença de todas as autoridades locais e da
comunidade italiana, faz um discurso comemorativo. O próprio
Santos encarrega-se de requisitar diretamente ao Senado e
à Câmara dos Deputados que prestem a Garibaldi
“as honras fúnebres correspondentes à
mais alta insígnia hierárquica militar.”33
Nestes primeiros dias de junho, parece que toda a numerosa
comunidade italiana de Montevidéu e a sociedade local
se encontram, mesmo no pluralismo ideológico e cultural,
unidos na dor pelo desaparecimento do herói dos dois
mundos. Mas, na realidade, o fulcro das celebrações
do herói girará em torno das iniciativas promovidas
pela Maçonaria. E, no decorrer de uma dessas cerimônias,
na loja de Garibaldi, onde tinha sido montada uma câmara
ardente aberta ao público por ordem do “venerável
em exercício” Bacciarini, ocorre um episódio
doloroso que contribuirá para aumentar as divergências
– que sempre existiram – entre os maçons
e parte da comunidade religiosa local34.
Em 11 de junho de 1882, ocorrem, nas dependências da
loja de Montevidéu, os funerais maçônicos
em nome do herói dos dois mundos. No decorrer da cerimônia,
porém, acontece um grave incêndio: no final contabilizam-se
entre os participantes do rito 18 mortos, 10 feridos gravemente
(entre os quais o próprio Venerável da loja,
Salvatore Ingenieros), e cerca de outra centena de feridos
com menor gravidade. O episódio já foi evidenciado
por alguns estudiosos35, mas é interessante seguir
o desenvolvimento – aspecto este inédito e não
explorado – da grande polêmica posterior ao acontecimento
considerado pelos maçons como criminoso e não
casual.
A imprensa de Montevidéu36 logo deu a notícia
do acontecimento, considerando-o um fato acidental, mas, nos
dias seguintes ao incidente, torna-se objeto de uma discussão
entre os católicos e os filiados das lojas do Grande
Oriente, a partir do momento que L´Italia,
na crônica dos funerais das vítimas, acusa abertamente
os “negros” [Jesuítas] de terem provocado
o incêndio.37 Naturalmente os católicos repudiam
a acusação, e nas colunas de El Bien Publico
de 15 de junho acusam L´Italia de fomentar
possíveis represálias contra eles, com perigosas
e não provadas insinuações.
Mas, se a polêmica na imprensa tende a enfraquecer-se
logo, a mesma retoma vigor quando a Maçonaria autoriza
(e provavelmente patrocina) a publicação de
um pamphlet cujos conteúdos representam um
j´accuse direcionado aos ambientes clericais
mais radicais, embora, para dizer a verdade, nas conclusões
– mesmo não deixando espaço à casualidade
– sejam indicadas mais hipóteses: da possibilidade
de um plano de furto premeditado, obra de “um fanático
inimigo das doutrinas maçônicas” 38. O
ambiente católico e a própria hierarquia não
reagem publicamente a esse enésimo ataque contra eles,
provavelmente com a intenção de acalmar os ânimos
– o que acontecerá, tanto é verdade que,
um ano depois, a própria Maçonaria uruguaia,
recordando o episódio doloroso, não acena mais
ao onipresente “complô jesuíta” contra
eles.39
_____________________________________________________________
32 Ver a respeito o volume que contém as atas da
convenção promovida pelo Istituto studi e ricerca
difesa a Chiavari em setembro de 1982, F. Mazzonis (aos cuidados
de), Garibaldi condottiero. Storia, teoria, prassi. Milão:
Franco Angeli, 1984.
33 L’Italia, 6 de junho de 1882, onde é
reproduzido por extenso o decreto presidencial.
34 Na realidade, é necessário distinguir entre
a comunidade religiosa entendida em lato sensu e as posições
da Cúria e da elite católica, expressas na folha
montevideana El Bien Publico. Provavelmente a maioria do “povo”
católico não aceitava as posições
intransigentes da Cúria. Mais tarde, quando em 1910
se forma o partido católico, a União Cívica,
este obterá somente 535 votos, igual a 1,71% do total,
e nas eleições de 1913 ainda menos, 482, igual
a 0,88%. Esses dados contrastam com a vitalidade das paróquias
e dos colégios religiosos, mas dizem muito a respeito
do sentido de religiosidade da população local,
substancialmente referida à esfera privada, tanto para
os uruguaios como para os imigrantes, também italianos.
35 Conferir a respeito, em C. Rama, Garibaldi y el Uruguay,
cit., p. 71 e C. Zubillaga, Religiosità, devozione
popolare, cit., p. 134.
36 El Ferrocarril, 12 de junho de 1882, edição
extraordinária e L’Italia, 13 de junho de 1882,
Orribile catastrofe.
37 L’Italia, 14 de junho de 1882, Note dolorose.
38 S. Maciel, La noche del 11 de junio detalles sobre el desastre
en la Logia Garibaldi, Montevidéu, 1882.
39 Conferir Boletin Masonico, 5 de junho de 1883, vol. I,
n. 17, p. 283-4.
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Observando os aniversários garibaldinos posteriores
à sua morte, nota-se logo como, ao longo dos anos,
a partir de 1883, ano seguinte ao desaparecimento do herói,
inicia um percurso no qual a imagem de Giuseppe Garibaldi
assume uma certa fisionomia simbólica com diversas
iniciativas que relembram o doloroso acontecimento,
já em forma de memórias. Por exemplo, em Porto
Alegre é aberto o trecho inicial da rua Garibaldi40
e, no Uruguai, existem várias manifestações
para recordar o herói, mesmo com as diferentes concepções
entre blancos e colorados, assim como foi evidenciado41.
De qualquer maneira, em geral, parece que o aniversário
é comemorado com pouco entusiasmo, quase “desfocado”.
De fato, o impacto da hereditariedade cultural e política
de Garibaldi, nos ambientes das comunidades italianas no Cone
Sul, ocorre em 1892, no décimo aniversário de
sua morte. Porém, analisando as numerosas celebrações,
é possível constatar como o mito de Garibaldi
muda também no seu ritual, em alguns casos observando
um renovado fervor, em outros casos – a maior parte
– marcando um verdadeiro enfraquecimento evocativo.
Por exemplo, neste último aspecto vale a pena citar
o caso emblemático de Montevidéu, onde foi mais
profunda a marca deixada pela presença de Garibaldi:
o primeiro fato que aparece aqui, de uma certa importância,
é que o “Círculo Legionários e
Garibaldinos”42, fundado de modo simbólico em
Montevidéu, em 2 de junho de 1882, por 58 garibaldinos
“combatentes”43, não parece capaz de assumir
a frente das iniciativas garibaldinas devido a uma crise interna
na sua direção.
Assim, incrivelmente, os “herdeiros diretos” de
Garibaldi no Prata não conseguem – segundo documentos
– celebrar o 10° aniversário da morte do
herói dos dois mundos, e limitam-se a enviar uma mensagem
ao arquiteto e “soldado garibaldino”, Giovanni
Ferrari, referindo-se ao monumento erguido a Garibaldi, além
de reunir-se no cemitério de Buceo para inaugurar um
pequeno busto do herói, em mármore44.
Parece que o “espírito” de Garibaldi encontra
dificuldades para pairar entre os camisas vermelhas de Montevidéu,
entre aqueles que podem, mais do que todos, reivindicar a
sua hereditariedade de combatente e comandante.
De qualquer maneira, apesar da falta de iniciativa do “Círculo
Legionários e Garibaldinos”, em geral, seja em
Montevidéu ou no país, não acontecerão
celebrações de uma certa importância,
com exceção da manifestação imponente
organizada na ocasião de 20 de setembro e à
qual se quer dar o caráter, como que para diminuir
o vazio, de “homenaje de la masoneria uruguaya a José
Garibaldi”, uma iniciativa em que participaram cerca
de 15.000 pessoas, entre as quais alguns legionários
da batalha de San Antonio45.
A figura de Garibaldi, evidentemente, cria alguma tensão
dialética em um período em que, ao contrário,
as relações entre a Igreja e o Estado, no Uruguai,
mesmo não normalizadas, estão vivendo um período
de trégua relativa, e as repercussões de um
clima político alterado na Itália, em fase de
pós-ressurgimento, com a manifestação
de uma crise social e política aguda, induzem a própria
comunidade italiana imigrada a não agravar o conflito
interno.
Se, no final de 1800, as tensões entre laicos
e católicos parecem perder força no Uruguai,
é interessante notar que em outra área do Cone
Sul, já colocada em evidência e com grande presença
de imigrantes italianos de fé católica, como
aquela de Caxias do Sul, registra-se uma violenta polêmica
entre a parte laica da sociedade e a Igreja local.
A discussão não acontece sobre a interpretação
da figura de Garibaldi, mas vale a pena repetir os termos
do conflito porque dizem respeito aos temas ligados à
identidade político-cultural da comunidade italiana
imigrada.
Em 1897, em Caxias do Sul, inicia-se um trabalho de constituição
das sociedades católicas por obra do vigário
Pietro Nosadini. Em 14 de outubro do mesmo ano, acontece a
primeira assembléia geral da Federação
Católica caxiense com a participação
de cerca de 800 pessoas46. A ação política
de Nosadini e dos católicos locais é intensamente
caracterizada por uma discriminação contra o
componente laico da sociedade local, tanto que o próprio
vigário sugere explicitamente aos católicos
locais que não participem das comemorações
pelo 20 de setembro porque “ali [na sede da sociedade
mutualista não católica de Caxias] era exposta
a bandeira social do Mútuo Socorro”47. Um comportamento,
portanto, profundamente contrário às instâncias
republicanas e democratizantes por parte da comunidade local.
Com o mesmo propósito, é emblemática
a crítica, retirada do jornal mensal católico
de Caxias, na data de Primeiro de Maio, quando, durante
a festa dos trabalhadores, presentes 150 operários,
acontece um comício socialista48.
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40 N. Santoro de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti
del Risorgimento italiano, cit., p. 124.
41 Conferir C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p.73-74.
42 Na sede dell’Associazione Nazionale Combattenti e
Reduci Italiani (ANCRI) de Montevidéu são conservados
materiais de arquivo, em parte disponíveis em microfilme
na CEMLA de Buenos Aires.
43 O original do Estatuto e a lista com os nomes dos sócios
encontram-se no Arquivo do ANCRI, Corrispondenza 1901-1905.
44 Os discursos para celebrar serão feitos pelo presidente
do círculo, Antonio Bandino, e pelo representante da
loja Garibaldi. Conferir Arquivo do ANCRI, Livro de Ata e
processos verbais 1892-1909.
45 Conferir. A. Ardao, Razionalismo y Liberalismo en Uruguay,
Publicaciones de la Universidad, Montevidéu, 1962,
p. 262-3 e C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p. 75-6.
46 Il Colono Italiano, boletim católico mensal, n.
1, 1°de janeiro de 1898.
47 Ver O Caxiense de 6 de novembro de 1898.
48 Il Colono Italiano de 15 de maio de 1898.
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O comportamento intransigente do vigário apostólico
e dos católicos caxienses parece de algum modo ser
minoritário, ou, pelo menos, um elemento de grande
distúrbio da harmonia da comunidade italiana local.
Tanto é verdade que também sob pressão
das autoridades locais o prelado é obrigado a deixar
Caxias do Sul por Porto Alegre; mesmo assim, “abandonando”
ob torto collo a cidade de Caxias, em fevereiro de
1899, Nosadini não deixará de evocar sua ação
às diretivas de Leão XIII, sobre a constituição
das associações católicas e do tipo de
ação a ser desenvolvida entre os fiéis
e os cidadãos49.
Continuando, então, a seguir os traços da evolução
do mito de Garibaldi na área pratense, eis que, no
final do século, encontra-se outra etapa significativa
deste percurso, mesmo que aqui seja considerado apenas em
seu caráter essencialmente comemorativo, isto é,
o 50° aniversário da batalha de San Antonio del
Salto, um evento que sempre assumiu, para os italianos no
Prata, o caráter emblemático da contribuição
trazida pela comunidade à construção
do Uruguai moderno. Ao contrário daquilo que se poderia
pensar, em fevereiro de 1896, observa-se como a imprensa de
língua italiana não enfatiza de modo especial
este aniversário. Provavelmente as razões disso
sejam devido ao clima geral que se respira, isto é,
o da guerra da África.
Realmente, a imprensa local é mais orientada a evidenciar
a crônica das façanhas bélicas que determina
um grande interesse entre os nossos conterrâneos, além
de uma substancial unidade de opinião. Além
disso, não parece secundária a avaliação
de que talvez, para os republicanos e os garibaldinos locais
(estes também favoráveis à intervenção
italiana na África), certamente não era fácil
explicar a ênfase dada aos valores implícitos
no episódio garibaldino da batalha de San Antonio –
de liberdade e independência – com aqueles de
metas opostas, da empresa colonial e imperialista da Itália.
Eis, então, que aos cronistas da folha italiana de
tradição republicana não resta, depois
de ter resumido a crônica da épica batalha vencida
por Garibaldi, outra alternativa que usar os tons retóricos
habituais, além de tudo reforçados por um inédito
e adoçado cultismo: “Espírito nobre e
generoso tu [Garibaldi] e os teus companheiros de armas, mostraste
em San Antonio del Salto que o antigo valor latino difundiu-se
pelo sangue dos italianos de hoje e por vossa obra a Itália
se fortificou.”50
Também este episódio confirma a situação
de dificuldade em que, periodicamente, vem-se a encontrar
a comunidade italiana em Montevidéu, ou parte desta,
toda vez que os acontecimentos na pátria encontram
reverberação no complexo processo de construção
de uma identidade nacional fora da península. Ainda
no que diz respeito à celebração da batalha
de San Antonio e das façanhas militares do herói
dos dois mundos e dos seus seguidores, deve-se recordar que
esta serve também para consolidar, ano após
ano, a ligação política ideal entre a
tradição garibaldina e os olorados,
uma estreita relação que encontrará,
mais tarde, com a subida ao poder de José Batlle y
Ordóñez, no início do novo século,
o seu revigoramento ideal.
Em relação ao tema do desenvolvimento do mito
garibaldino na outra margem pratense, na Argentina, nota-se
que aqui não se vai além de uma retórica
de fachada e, no fundo, procede-se a uma série de operações
de caráter nominalista; por exemplo, a nomeação
de Giuseppe Garibaldi para presidente honorário de
numerosas associações mutualistas ou de instituições
do país, como no caso de Rosário, onde, em 1893,
a colônia italiana dotou-se de um “seu”
hospital que será dedicado ao herói dos dois
mundos51.
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48 Il Colono Italiano de 15 de maio de 1898.
49 A carta de Nosadini aos cidadãos de Caxias é
publicada sob forma de panfleto. Cópia no Arquivo Histórico
Municipal de Caxias do Sul.
50 L’Italia al Plata, 8 de fevereiro de 1896, Il Giubileo
di Sant’Antonio.
51 Conferir. E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo, cit.,
p. 365.
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Novos e velhos significados do mito no início
de 1900
Com a chegada do novo século, e sem nenhum aniversário
especial de Garibaldi a ser celebrado, os garibaldinos e seus
adeptos empenham-se em terminar alguns projetos iniciados
nos anos precedentes, essencialmente ligados à consolidação
“visual” da memória de Garibaldi, através
da construção de monumentos, inaugurações
de ruas e praças em vários centros, com uma
data altamente simbólica à frente: 4 de julho
de 1907, primeiro centenário do nascimento de Giuseppe
Garibaldi.
A história da construção de monumentos
dedicados à figura de Garibaldi (e também de
Anita) mereceria uma reconstrução mais minuciosa,
mas, nesta ocasião, interessa antes de tudo observar
como essa “atividade” incide no tecido político
e cultural das comunidades ítalo-americanas e nos ambientes
locais. Por exemplo, em Montevidéu, os “camisas
vermelhas” locais, espíritos (divindades) tutelares
da imagem do herói dos dois mundos, comprometeram-se
a convencer as autoridades locais sobre a necessidade de tornar
“visível” a presença de Garibaldi
na capital da República Oriental. E os seus esforços
são premiados em 1900, quando é colocada a primeira
pedra de um monumento nacional à memória de
Garibaldi com um discurso inaugural de Pietro Gori52, incansável
organizador do movimento anárquico entre os imigrados
italianos nas duas margens do Prata, nos anos de virada de
século.
Na realidade, a obra – projetada pelo escultor espanhol
Augustin Querol, e financiada em parte com 10.000 pesos colocados
à disposição pelo governo, já
em 1883 – não verá nunca a luz por diversas
circunstâncias. A causa principal deve ser pesquisada
no prematuro desaparecimento do escultor, provavelmente, mas
não menos determinante para o insucesso da iniciativa
será a permanente oposição à realização
do projeto por parte dos blancos, que continuavam
a considerar Garibaldi um mercenário estrangeiro e,
por isso, não merecedor de um monumento nacional: uma
linha intransigente que leva, em 1906, ao episódio
da clamorosa reprovação do monumento, no Parlamento,
e à reabertura de uma áspera polêmica
sobre a questão entre blancos e colorados53.
Também em Porto Alegre o projeto de erguer um
monumento a Garibaldi encontra algumas dificuldades, tanto
que, depois de ter iniciado em 1907 uma subscrição
pública para a construção do monumento
comemorativo ao centenário do nascimento (simultaneamente
com a intitulação a Garibaldi da praça
destinada a hospedar a obra de mármore), a obra definitiva
virá à luz somente seis anos depois, mesmo que
com grande participação por parte da colônia
italiana54. O monumento apresenta uma particularidade interessante:
“Garibaldi não é apresentado com o
uniforme habitual. Garibaldi agora é o revolucionário
farroupilha, veste o poncho e comparece na companhia de Anita,
a mulher guerreira.”55
Mais sorte teve a construção de um monumento
a Garibaldi na capital federal. A primeira pedra é
colocada em 1898, mas é preciso esperar alguns anos
antes de ver a obra concluída. Além disso, a
realização do monumento encontra resistências
por parte de alguns setores políticos do parlamento
argentino, que não consideram o herói protagonista
e participante da história argentina e, conseqüentemente,
indigno de ser recordado com uma obra daquele tamanho56. Finalmente,
o monumento, uma estátua eqüestre do escultor
C. Mascagnani é completado e, em 18 de junho de 1904,
no bairro Palermo, em Buenos Aires, acontece a cerimônia
de inauguração, na presença do presidente
da República, Julio A. Roca57.
Depois deste breve excursus sobre a evolução
do mito também através dos acontecimentos da
iconografia, vale a pena concentrar a atenção
nas celebrações pelo centenário de nascimento
de Garibaldi, em 1907.
No Uruguai, em julho de 1907, ocorrem manifestações
em honra do herói em todo o país; especialmente
no dia 4, as ruas da capital encontram-se repletas de “garibaldinos”
que dão vida a um imponente cortejo com mais de 40.000
participantes que atravessa toda a cidade. A manifestação
conclui-se com uma comemoração oficial, no teatro
Urquiza, na presença das principais autoridades do
Estado, de representantes da comunidade italiana e dos maiores
expoentes do socialismo local, entre os quais Emilio Frugoni,
e também do anarquismo, como o poeta Angel Falco58.
As celebrações acontecem em um clima especialmente
favorável ao ambiente garibaldino, até porque,
não esqueçamos, o batllismo favoreceu
e exaltou sem reservas os aspectos ideais do garibaldinismo,
tendo, além de tudo, o cuidado de valorizar as
experiências da elite ítalo-uruguaia nos vários
setores da sociedade.
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52 Conferir G. Marocco, Sull’altra sponda del Plata,
cit., p. 77.
53 Do quanto é possível reconstruir a partir
da documentação, os únicos monumentos
a Garibaldi de um certo nível serão inaugurados
em Montevidéu, em 1933, depois da posse de Gabriel
Terra e não sem ásperos contrastes entre os
colorados e os blancos (a propósito ver idem, p. 77-78,
n.16) e em 1934, em Salta, pela iniciativa e pressão
do cônsul fascista no Uruguai, Serafino Mazzolini, recém
chegado do Brasil. Mazzolini teve que solicitar – e
em alguns casos ameaçar – as comunidades italianas
espalhadas pela república pratense a fim de dar sua
contribuição material à realização
do monumento a um “dos pais da pátria e primeiro
artífice da irmandade ítalo-uruguaia”,
como afirmou em mais de uma ocasião. Pelo assíduo
comprometimento de Mazzolini, a propósito, ver a abundante
correspondência endereçada aos representantes
das várias comunidades conservada no Arquivo ANCRI,
Correspondência Recebida 1928-1933.
54 N. Santoro de Constantino, O Italiano da Esquina, cit.,
p. 50.
55 ID, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento italiano,
cit., p. 124.
56 A propósito, ver os detalhes do debate exaltado
ocorrido em julho-agosto de 1897 na Câmara dos Deputados,
relatado, em partes, em J.B. Tonelli, Garibaldi y la masoneria
argentina, cit., p. 56-58.
57 Para a crônica da cerimônia, ver idem, p. 60-61.
58 Para a crônica destes acontecimentos, ver L’Italia
al Plata de 4 e 5 de julho de 1907.
59 C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p. 125.
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Em termos mais ideológicos, observou-se que “El
jacobinismo batllista con un sentido democratico de la vida
politica, su anticlericalismo, su organizacion popular favorable
a los nuevos apellidos, su populismo en una palabra, receuerda
insistentemente al radicalismo garibaldino.”59 Além
disso, neste julho dedicado à memória de Garibaldi,
o próprio presidente da República, Cláudio
Williman, sucedido em março, em Batlle, será
fiel à longa e profunda ligação entre
os colorados os garibaldinos participando pessoalmente
às mais importantes manifestações organizadas
pelo “Comitê Executivo” pelas comemorações
do 1o centenário do nascimento de Garibaldi, com Paolo
de Maria na presidência, e às quais aderem grande
parte das sociedades mutualistas italianas, numerosos clubes
colorados, liberais, socialistas e anarquistas do Uruguai60.
Obviamente a imprensa de inspiração laica
de língua italiana e local dá uma grande ênfase
aos eventos garibaldinos, enquanto que os jornais católicos
da capital, a começar por El bien Publico,
ignoram completamente o acontecimento61.
É interessante notar como, não muito longe
de Montevidéu, no sul do Brasil, acontecem as celebrações
do “centenário”. Além do episódio
citado do monumento a Garibaldi em Porto Alegre, parece que
a maior parte das iniciativas efetua-se no Rio de Janeiro.
A comunidade ítalo-brasileira da metrópole carioca
já em junho procura uma unidade de intenções
quanto às celebrações garibaldinas.
La Voce d´Italia, o semanal em língua italiana
do Rio, “órgão da Colônia Italiana
do Brasil” (de tendência liberal, anticlerical,
não maçônico, mas também simpatizante
da monarquia), dirigido por Giovanni Luglio, preocupa-se em
reatar os fios de uma memória garibaldina que tenda
a dar uma unidade unitária à comunidade italiana;
já em 2 de junho de 1907, na ocasião do aniversário
de morte do herói, apresenta um editorial intitulado
“Per Garibaldi”, onde são enfatizados os
valores que unem os italianos em terra brasileira e dá-se
o anúncio de que a preparação das iniciativas
é coordenada pelo cônsul, o Marquês L.
Centurione.
Depois de pouco tempo é publicado um “manifesto
patriótico” que o “Comitê
do Rio de Janeiro para o Centenário” dirige aos
“conterrâneos e aos indígenas”, que
vale a pena transcrever por extenso:
“Cidadãos! A nação italiana comemora
no dia 4 de julho o 1° centenário do nascimento
de Garibaldi, que foi o fermento mais generoso da sua história,
o fator mais heróico da sua unidade política
e civil. Mas o espírito de Garibaldi deixou as fronteiras
da pátria para unir todos os povos oprimidos atrás
de uma bandeira, sol de reivindicação e de justiça,
difundiu-se com os primeiros e maravilhosos impulsos do seu
gênio e do seu altruísmo no continente americano
e, especialmente na terra brasileira, onde encontrou a sua
gêmea na incomparável Anita, uma filha do povo
que não foi inferior a ele no heroísmo, na abnegação
e no sacrifício.
E Garibaldi nesta terra não pode ser e não pode
ser chamado de estrangeiro.
Nós o recordaremos e glorificaremos como apóstolo
de irmandade humana e como símbolo de vínculos
sacros que nos unem à nação brasileira;
e estamos certos que naquele dia [4 de julho], unidos pela
gratidão, pelo amor e pelo entusiasmo, italianos e
brasileiros com o espírito consciente de destinos comuns,
concorreremos à grandiosa apoteose que o mundo civil
consagra ao Herói dos Dois Mundos.”62
E, de fato, em 4 de julho de 1907, acontece no Rio de
Janeiro uma bela manifestação da comunidade
italiana, da qual também participarão as autoridades
brasileiras; inicia entre os dias 3 e 4 com fogos de artifício
e, pela manhã, depois de uma reunião nos salões
da “Sociedade Italiana de Beneficência”,
entre associações, representações63
e bandas musicais, um cortejo, encabeçado por cinco
sobreviventes garibaldinos, avança pelas ruas do Rio
até o teatro São Pedro, onde se realizam os
comícios comemorativos oficiais.
Em outros centros desenvolvem-se também iniciativas
para celebrar o centenário do nascimento, como em Juiz
de Fora e em Bragança, além de São Paulo,
onde é inaugurada uma lápide comemorativa com
a epígrafe escrita por Guglielmo Ferrero.
Enfim, parece que, no Brasil, ao menos na parte meridional
do país, onde viveu e atuou Garibaldi, o primeiro centenário
do nascimento do herói dos dois mundos celebrou-se
com um discreto sucesso, a ponto de consolidar
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62 La Voce d’Italia de 14 de junho de 1907.
63 As associações que aderem são: a Società
Italiana di Beneficenza e Mutuo Soccorso, a Fuscaldese Umberto
I, a Fratellanza Massonica, o Centro d’Istruzione Principe
di Piemonte, a Internazionale di Beneficenza Umberto I, o
Circolo Operaio Italiano, a Lega Operaia Italiana. Também
aderem os jornais italianos do Rio de Janeiro La Voced’Italia
e Il Bersagliere. Ver La Voce d’Italia de 4 de julho
1907.
Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para
a América Latina
Maria Pace Chiavari*
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Graduada em Arquitetura pela Universidade de Florença
(Itália), pesquisadora da história dos italianos
no Brasil do Século XIX, trabalha no Instituto Italiano
de Cultura do Rio de Janeiro
Ao desembarcar no Brasil, em 1835, Garibaldi encontrou no
Rio de Janeiro um espaço geográfico e um meio
político-cultural favoráveis ao cumprimento
das atividades que tinha se proposto realizar com a vinda
ao país. A tentativa de reconstituir a breve estada
carioca do jovem mazziniano visa a mostrar como o Rio de Janeiro
aparece aos olhos do recém-chegado e como o seu progressivo
entrosamento na vida local é capaz de revelar sua personalidade,
despojada de qualquer mito.
A falta de interesse, tanto por parte da historiografia
italiana quanto da brasileira, sobre a etapa carioca de Garibaldi
deve-se, talvez, à pouca consideração
atribuída pelo próprio Garibaldi a este período,
ao escrever, muito anos depois, as suas memórias1.
Frente aos grandes sucessos e reconhecimentos pessoais obtidos
nas lutas de libertação da Itália, no
momento de transmitir às futuras gerações
a história de sua vida, o herói dos dois mundos
preferiu fortalecer sua personagem, apagando momentos de sua
formação humana e política pelos quais
era devedor ao grande mestre e concidadão Giuseppe
Mazzini.
A viagem de Garibaldi ao Brasil – após a condenação
à morte por seu envolvimento na conspiração
de 1834, em Gênova – é freqüentemente
apresentada como uma fuga, resultado de uma aventura pessoal.
Entretanto, depreende-se da releitura das cartas escritas
pelo próprio Garibaldi neste período, bem como
das informações constantes nos jornais e nos
relatórios dos representantes dos Estados Italianos
no Brasil, ter sido Mazzini o organizador da vinda de Garibaldi
ao Rio.
De fato, após várias tentativas frustradas de
organização das lutas de independência
italiana, o grande teórico de uma Itália livre
e republicana decidiu priorizar o projeto europeu, universalista
e messiânico por ele concebido. Um projeto aberto a
toda a humanidade, no qual à Itália era reservada
uma missão entre os povos. A primeira providência
de Mazzini foi ativar, no estrangeiro, associações
que perseguissem os ideais de liberdade e fraternidade da
Giovine Italia, por ele fundada em 1834. Após
a Congrega central, em Paris, seguiram-se outras,
em países com relativa concentração de
italianos, como foi o caso, entre outros, da Bélgica,
Espanha, Turquia e, além mar, Estados Unidos, Cuba,
Venezuela, Equador, Argentina, Uruguai e Brasil.
Formou-se, desse modo, uma densa rede internacional de correspondentes
e viajantes que levavam, de um lado ao outro do oceano, bandeiras
e cartas com as palavras de Mazzini. Além de divulgar
os novos princípios e os ideais patrióticos,
esta rede tinha por objetivo obter apoio financeiro dos afiliados
ou simpatizantes mais abastados e formar uma reserva de militantes
dispostos, no momento certo, a voltar para a Itália
e libertar o país do domínio estrangeiro.
No âmbito desta missão, Mazzini decidiu confiar
um importante papel a Garibaldi, pelo entusiasmo e espírito
de liderança revelados durante as revoltas de Gênova,
assim como na sua iniciação aos princípios
da Giovine Europa.2 Os posteriores desentendimentos
entre os dois principais personagens-símbolo da unidade
e independência da Itália – motivados pela
aproximação de Garibaldi à monarquia
sabauda, atitude interpretada por Mazzini como uma traição
a ele e aos princípios republicanos – ofuscarão
o intenso relacionamento deste primeiro período.
A escolha da outrora capital do Brasil como meta do jovem
lígure, justifica-se por sua localização
estratégica na rota dos navios da marinha mercante
do Reino de Piemonte e Sardenha para Montevidéu e Buenos
Aires. Outro fator que deve ter influenciado a preferência
pelo Brasil foi a efervescência da situação
política no período de Regência (1831-1840),
definida por alguns historiadores3 como uma inusitada “experiência
republicana” no interior do Império, devido à
menoridade de D. Pedro II. E não se pode minimizar
o interesse econômico, uma vez que, neste período,
as novas riquezas produzidas pela expansão cafeeira
na região movimentavam o porto do Rio de Janeiro e
as atividades comerciais a ele relacionadas.
Entre o Rio de Janeiro e Gênova – e, por extensão,
toda a região da Ligúria – havia uma antiga
ligação marítima que se estreitou ainda
mais após o Tratado de Viena (1815), quando Gênova
se tornou o porto do Reino de Piemonte e Sardenha, e os navios
lígures passaram a constituir a Marinha Sabauda. Na
comunidade italiana então existente no Rio, a presença
lígure era preponderante, construída através
uma rede de relações pessoais, ligações
familiares e de trabalho ou simples afinidades de ideais.
Liberais e carbonaros procedentes de outros estados da Itália,
após os movimentos de 1821, 1831 e 1834, integravam-se
igualmente. Tal conformação política
e social tornava tênue a distinção entre
patrícios, marinheiros, exilados ou emigrantes, assim
como a diferença entre os provenientes dos diversos
estados nos quais a península italiana estava então
dividida. A importante trajetória desta colônia
carioca – que vivia a unidade e a independência
da Itália quase trinta anos antes de sua unificação
oficial – ainda é pouco conhecida, mas faz parte
da história do Risorgimento italiano.
A imprensa representava para os patrícios italianos
um elo de ligação com a terra distante. Jornais
cariocas às vezes reportavam notícias sobre
a situação política da península
italiana e alguns, relatando as lutas de um povo submetido,
no próprio país, aos poderes de invasores estrangeiros,
defendiam os ideais de liberdade, dos quais Garibaldi se tornou
o símbolo. No início de cada novo ano, o Jornal
do Commercio – diário carioca de grande
difusão, em particular no meio marítimo e comercial,
por informar sobre os movimentos diário dos navios,
assim como sobre a entrada e saída das mercadorias
destinadas a importação e exportação
- relacionava os principais eventos ocorridos no país
e no mundo durante o ano anterior. Em 2 de janeiro de 1835,
na rubrica dedicada às notícias do exterior,
estavam retratados os movimentos italianos de 1834:
“À par da Áustria forçoso lembrar
a Itália, onde as baionetas dos soldados húngaros
prestes a ferir toda a vez que as encantadoras recordações
da Republica Romana... fação ardir de novo nos
briosos peitos dos seus descendentes o desejo de recuperarem
huma porção da antiga independência. Agrilhoar
a imprensa, lançar em humildes masmorras os escriptores
mais ousados, escravizar os patrióticos filhos da Jovem
Itália eis a tarefa dos executores subalternos das
vontades austríacas.”
No mesmo número, comentavam-se as insurreições
dos polacos no Reino Sabaudo:
_____________________________________________________________
2 Mazzini, referindo-se à conspiração
de Gênova e a fuga de Garibaldi para se salvar , numa
nota escreve “Daquele dia eu o conheci. Seu nome de
luta era Borel” em Scritti di Giuseppe Mazzini. Ed Daelliana
vol.III Politica p.334.
3 BASILE DE CAMPOS, MACEDO OTÁVIO NERI, O Império
em construção; Projetos de Brasil e Ação
política na Corte regencial, doutorado IFCS Instituto
de Filosofia e Ciências Sociais - UFRJ Universidade
Federal do Rio de Janeiro, 2004, p.15.
_____________________________________________________________
“Na Itália ainda o espírito
de liberdade não pode respirar. O despotismo Austríaco
e Sardo continua a oprimir com mão de ferro aquele
povo digno de melhor sorte.”4
É interessante sublinhar a peculiar atitude de
abertura do Brasil, neste momento histórico, em relação
à liberdade dos povos oprimidos. Paul Frischauer, em
Garibaldi herói de dois mundos5, observa que,
neste período muito turbulento da Regência, a
monarquia mantinha-se, graças a um “liberalismo
incompreensível para todo europeu reacionário”.
A liberdade de imprensa favorecia o aparecimento de novos
jornais que exprimiam às claras a opinião pública.
De fato, tal “liberdade” era um meio para “controlar
e dobrar as arestas dos opositores”6, aos quais era
oferecido o direito a se exprimir. A impermeabilidade de tais
notícias e pensamentos à maioria da população
devia-se ao alto nível de analfabetismo.
No que se refere aos problemas internos do país, o
mesmo Jornal do Commercio, no dia 5 de janeiro de
1835, limitando-se a um breve comentário crítico
no final, publica na íntegra um artigo tratando da
Revolução Farroupilha, extraído do jornal
Continentista, de Porto Alegre, periódico
dos revolucionários que incitava o povo à rebelião:
“ (...) reuni-vos (...) aos beneméritos coronéis
Bento Gonçalves, Bento Manoel Oliveira Ortiz e mais
patriotas que vos conduzirão ao campo de honra, os
quais devem desconfiar de quaisquer prometimentos da parte
do traidor Gabinete do Rio de Janeiro.”
Mesmo no que se refere à cultura e diversões,
no programa do Teatro Constitucional Fluminense daquele ano
constam peças cujos assuntos vertem sobre temas liberais,
como Independência dos Estados Unidos e Heroísmo
das mulheres.7
No dia 12 de outubro de 1835, o padre Diogo Antônio
Feijó, criador do novo partido dos Progressistas, assume
a Regência e estende seu mandato até 19 de setembro
de 1837, cobrindo, curiosamente, o período da permanência
de Garibaldi no Rio de Janeiro.
Na seção do Jornal do Commercio do
dia 23 de novembro de 1835, registro da chegada ao porto do
brigue francês Nautonier, de 205 toneladas,
comandado pelo mestre P. Beauregard, conforme relatos do próprio
Garibaldi em suas Memórias8 O jornal não
menciona a lista de passageiros. É possível
que Garibaldi tenha entrado no país com falsa identidade,
tendo sido a sua condenação à morte publicada
nos jornais franceses.9
Entretanto, a chegada de Garibaldi ao Rio era esperada. Mazzini,
de fato, tinha comunicado com antecedência por cartas
aos seus partidários10 aNúnciando o embarque
de Borel no navio Nautonier, devendo os mesmos recebê-lo
e tomar eventuais providências cabíveis. O codinome
Borel11, assumido por Garibaldi como era a norma no momento
da iniciação na associação mazziniana,
foi sempre utilizado por ele no epistolário brasileiro.12
No Rio, em 25 de janeiro de 1836, Garibaldi escreveu para
Luigi Canessa13, afiliado da Giovine Italia em Marselha,
contando-lhe que, graças às cartas de apresentação
dirigidas aos companheiros cariocas que ele tinha lhe confiado
na França antes de sua viagem, desde sua chegada nesta
cidade sentiu-se como se estivesse morando aqui há
muitos anos.
Uma viva descrição das primeiras impressões
do Novo Mundo – bem como das decepções
diante das dificuldades encontradas para realizar as tarefas
das quais estava encarregado – está na carta
escrita no Rio de Janeiro, datada de 27 de janeiro de 183614,
e dirigida a Mazzini, dois meses após sua chegada.
Conforme instruções recebidas, Garibaldi encontrou-se
com Giuseppe Stefano Grondona, que pertencia à leva
dos mais antigos residentes no Rio de Janeiro. Tendo chegado
em 1815, Grondona foi expulso em 1823 por suas idéias
revolucionárias, mas retornou em 1834, beneficiando-se
do clima mais liberal da Regência. Inspirado na Giovine
Itália, Grondona fundou no Rio de Janeiro a Società
Filantropica Italiana. Tal histórico justificava
o fato de Mazzini tê-lo escolhido como seu referente
direto no Rio. Garibaldi devia, portanto, entregar-lhe todo
o material “político” trazido da França,
mais alguns “bônus”, talvez financeiros,
para a constituição da iovine Itália,
fração da Universal Giovine Europa.15
A Grondona competiria o título de presidente da nova
associação. As eleições para presidente
organizadas por Garibaldi junto aos outros “irmãos”
– era esta a forma convencional com a qual se tratavam
entre si os afiliados à Giovine Italia, e
que fazia parte da tradição das sociedades secretas,
como a Maçonaria – confirmaram o previsível
resultado. Mas, o comportamento do presidente recém-empossado
surpreendeu a todos pela sucessiva publicação
de insultos e maldades sobre seus eleitores. E ainda mais
grave foi Grondona ter dado prova do total esquecimento do
juramento de irmandade vitalícia proNúnciado
no momento de sua eleição.16
Para Garibaldi, que tinha se jogado de corpo e alma nessa
atuação política, por vezes difícil
devido à sua índole de homem prático
e pouco apto a formulas doutrinárias, foi um golpe
inesperado. Na carta que escreveu a Mazzini, responsabilizou
pela frustrada iniciativa o “gênio quase infernal”
de Grondona, dono do “mais inconciliável e mexeriqueiro
caráter que podia existir neste mundo”, sem aduzir
qualquer outro comentário, talvez para não magoar
ainda mais seu mestre. O caráter provocador de Grondona
aparece já em 183417, quando na redação
de uma petição oficial para obter a licença
para fabricar sorvetes, utiliza como máxima “ao
gosto sensual dos gelatos”. A petição
foi considerada pelas autoridades brasileiras “imoral
e anticonstitucional”, tendo sido, portanto, indeferida.
Garibaldi, então, dedicou-se a ampliar aquela que ele
definiu na carta a Mazzini como a “imortal Giovine
Europa”. Neste caminho, descobriu novos companheiros
e, neles, uma grande virtude, “a dignidade”, compensadora
da frustração que lhe causou a primeira tentativa.
Na sua vivência quotidiana na cidade, conforme descrito
na carta, percebeu que “neste país os italianos
não são muito amados, mas não são
considerados covardes”. O que incomodava, nesta época,
os brasileiros era que os italianos, à diferença
de outros emigrados, portugueses ou árabes, não
possuíam um clichê determinado, eles eram, no
que se refere ao trabalho, multiformes18 e, portanto, ambíguos.
Tal característica pode ser verificada no próprio
Garibaldi, marinheiro, comerciante, político e revolucionário,
bem como em seus companheiros de luta, para os quais a atividade
profissional era apenas uma maneira de sobreviver: a importância
estava na personagem em si, não na profissão.
Aos poucos, amplia-se o círculo de afiliados e, sobretudo,
de amigos de Garibaldi. O Rio era, na época, uma cidade
relativamente pequena, e os novos companheiros moravam e trabalhavam
nas imediações do porto, fulcro de todas as
atividades. Suas residências costumavam abrir-se para
acolher os refugiados italianos recém chegados. Na
Rua Fresca no 7 morava, num sobrado, Luigi Delle Case (ou
Delecasi)19, capitão e armador, também originário
de Gênova, de onde fugiu após os movimentos de
1834. É possível que Garibaldi e o estudante
Rossetti, num primeiro momento, tenham se hospedados na casa
dele.20
Uma sobrinha da senhora Delle Case, talvez Anita de Lima Barreto
que, segundo relatado pelo Cenni21, acompanhou o casal de
tios em suas viagens pelo mundo e aprendeu onze idiomas, graças
ao ensino do “extravagante” Delle Case, contou
ao biógrafo Virgilio Várzea, apreciado cronista
do jornal O País, ter encontrado Garibaldi
na casa dos tios. Assim ela o descreveu: “Era um rapaz
louro e forte que se distinguia dos compatriotas por uma expressão
de viva inteligência e fisionomia pensativa”.22
Outro genovês que chegou ao Rio alguns meses antes de
Garibaldi foi Luigi Rossetti, discípulo de Mazzini,
cuja casa na Rua do Carmo se tornou um novo centro de hospedagem.
A vivacidade e a emoção expressas nas memórias
pelo autor23 ao falar de Rossetti demonstram a importância
que Garibaldi atribuía à amizade em geral, em
especial àquela com Rossetti, nascida a partir do primeiro
encontro no Largo do Paço. Ambos lígures, mas
com expressiva diferença de temperamento e de formação:
Rossetti culto e racional, com 26 anos, e Garibaldi aventureiro
e explosivo, com 28; homem de letras o primeiro e de mar o
segundo. Tal diversidade permitiu que, da complementaridade
e do comum ideal, nascesse um forte entrosamento.
_____________________________________________________________
24 Ibid. 13 p.8.
25 Ibid. 2 p.16.
26 Ibid. 20 p.12
27 CURATOLO, Giacomo Emilio. Il dissidio tra Mazzini e Garibaldi
Milão: Mondadori, 1928, p.44.
28 Jornal do Commercio, 5 de janeiro de 1836.
29 Ibid. 6 p.63.
_____________________________________________________________
Além de Rossetti – que se tornou
seu inseparável companheiro de viagem – na carta
para Mazzini são apresentados como os mais próximos
colaboradores de Garibaldi, Gian Battista Cuneo, Domenico
Terrizzano e Giacomo Picasso. Cada um é citado pelo
próprio nome seguido, entre parêntesis, pelo
apelido de combate, assumido no momento de sua entrada na
Giovine Itália.
Gian Battista Cuneo (“Farinata degli Uberti”),
era genovês e da mesma geração de Garibaldi,
tendo à época 27 anos. Ele havia se envolvido
nos movimentos de 1833-34. Chegara ao Rio em janeiro de 1835
e foi trabalhar na casa de comercio de um seu primo. À
mesma turma dos genoveses pertencia também Terrizzano,
capitão de navio, e Giacomo Picasso que assumiu o papel
do “irmão abastado patrocinador” e responsabilizou-se
pela compra de um barco em favor da associação,
com a finalidade de dar emprego a Garibaldi e a Rossetti.
Os “irmãos” decidiram dar ao barco o nome
de Mazzini. “Acreditamos que o primeiro cargueiro
italiano não poderia ter recebido outro nome”24.
A possibilidade de dispor de um barco, cuja capacidade de
20 toneladas permitia fazer cabotagem ao longo das costas
da região próxima ao Rio de Janeiro, acendeu
em Borel a vontade de retomar as atividades marítimas,
idealizando o Mazzini como uma ponte para atravessar
o oceano e voltar a lutar pela Itália.
Uma vez relatadas na carta a Mazzini, as tarefas desenvolvidas;
tendo, ainda, comunicado a grande admiração
pelo mestre, demonstrada por todos os seus fiéis patrícios
encontrados nesta cidade, percebe-se a impaciência do
homem de ação diante da vida urbana carioca,
demasiadamente tranqüila. Nas memórias, Garibaldi
se refere a estes primeiros meses como a um período
“de vida ociosa”.25
Devido à sua índole impulsiva, Garibaldi se
irritava diante da presença, no porto do Rio, de navios
mercantes em que se evidenciavam brasões das monarquias
dos Bourbon de Nápoles, dos Habsburgo, ou dos Savóia.
A ostentação desses símbolos torna-se,
para ele, uma forma de provocação das forças
inimigas.
Com ingenuidade, mas ao mesmo tempo com insistência,
Garibaldi passou a pedir a Mazzini que assinasse e lhe enviasse
um salvo-conduto, ou seja, uma carta autorizando-o a combater
as bandeiras sardas e austríacas, considerando que
tal autorização seria o passo inicial para que
fosse providenciado o armamento necessário. O endereço
fornecido por Garibaldi no Rio de Janeiro para receber tal
correspondência era a conhecida casa Zignago Irmãos,
corretores da maior parte dos navios do Reino de Piemonte
e Sardenha, com funções também de consignatários
e, num primeiro momento, simpatizantes mazzinianos.
Não se sabe ao certo se Mazzini recebeu esta carta,
nem se Garibaldi obteve uma resposta a tal pedido, mas, sem
esperar qualquer autorização, ele mesmo decidiu
içar no mastro do Mazzinia andeira da Giovine
Italia. Foi uma satisfação tardia à
frustração experimentada nos movimentos de Gênova,
onde seu papel junto ao amigo Matru26 era o de colocar nos
navios sabaudos o símbolo da iovine Itália,
papel este que se tornou impossível diante do fracasso
da revolta.
No número de janeiro de 1836, o jornal Paquete
do Rio – que hoje nas Obras Raras da Biblioteca
Nacional, infelizmente, só se encontra a partir do
número de março de 1836 – relatava fatos
sobre a presença de Gian Battista Cuneo e de Garibaldi
no Rio de Janeiro27. Uma declaração contra o
rei Carlo Alberto de Sabóia, do Reino de Piemonte e
Sardenha, foi a forma escolhida por Garibaldi para comunicar
aos outros exilados italianos a sua chegada no Rio. É,
quem sabe, a única vez que, com o nome de Garibaldi
ou mesmo com o pseudônimo Borel, ele aparece nos jornais
cariocas, talvez pelo fato do italiano J. C. Muzzi trabalhar
na redação deste jornal.28
Quase um mês depois de tal publicação,
no dia 1o de fevereiro de 1836, como se refere Paul Frischhauer29,
o encarregado de negócios da Sardenha escrevera dizendo
que tinha lido nos jornais que um certo “Garibaldi,
súdito de sua majestade de Savóia, assim como
o genovês Cuneo, estavam no Rio de Janeiro”. O
diplomata assegurava que “tais homens de aparência
insignificantes eram perigosos se si pensasse que além
de trabalharem na difusão de tendências republicanas
na América do Sul ainda introduziam seus panfletos
na Itália”.
A motivação grave que teria justificado redigir
um relatório sobre “tais homens insignificantes”
era, segundo o representante do rei da Sardenha, a de que
“o comércio da Sardenha na América do
Sul estava ameaçado”. A responsabilidade seria
da ação provocatória do Mazzini,
“um brigue que desfraldava a bandeira revolucionária
da Jovem Itália e percorria impunemente os portos,
afrontando os navios e insultando os marinheiros”.
Mesmo inimigos na península italiana, diante do perigo
comum, os representantes da Áustria e do Reino do Piemonte
se reuniram para encontrar uma estratégia de defesa.
A primeira proposta foi a de apresentar um pedido de intervenção
ao governo local. Mas desistiram logo dessa estratégia
pelo pavor que tal comunicação fosse remetida
aos jornais locais, prontos a ridicularizá-los perante
a opinião pública em razão da verdadeira
dimensão das forças adversárias, constituídas
por um brigue de 20 toneladas. Uma possível alternativa
considerada pelos representantes dos dois governos para se
livrarem dos “homens perigosos” foi a de lançar
mão de “uma pequena liberdade que pode ser tomada
na América”, encarregando alguns capitães
que estariam dispostos a “acabar com isto”.30
Em pouco tempo, a idéia de Garibaldi – de utilizar
a própria embarcação para divulgar seu
pensamento, como fez com o Mazzini – foi adotada
por seus companheiros. Delle Case nomeou seu brigue La
Giovine Itália. Domenico Terrazzano, ao mudar
o nome do seu barco de Grão Sultão
para La Giovane Europa, soube que circularam calúnias
sobre o suposto mau estado do casco da embarcação.
Para se defender destas ignominiosas acusações,
publicou no jornal Paquete do Rio, de 11 de maio
de 1836, uma firme resposta, colocando os mestres calafates
à disposição para os mal-intencionados
verificarem seu engano.
A conformação do território fluminense
praticamente impedia a penetração no interior.
Portanto, era difícil a comunicação pelas
vias de terra. No âmbito de um sistema de agricultura
de subsistência, o transporte de grande parte dos gêneros
alimentícios tanto para o uso interno quanto para a
exportação era realizado através de uma
estrutura de navegação de cabotagem que conectava
o porto do Rio de Janeiro aos portos de Campos, Cabo Frio,
Mangaratiba, Angra dos Reis e Taguany.
A carta de Garibaldi a Gian Battista Cuneo, proveniente de
Cabo Frio, escrita em 17 de outubro de 183631, permite penetrar
na nova vida do marinheiro a bordo do Mazzini, engajado
no comércio de cabotagem. Diferentemente do estilo
erudito das memórias, ou daquele mais rebuscado da
carta a Mazzini, a linguagem utilizada para se dirigir ao
companheiro é muito simples, coloquial e direta. Garibaldi
se confessa enternecido pela imaginação romântica
suscitada pela beleza da filha do calafate, a quem, no entanto,
deve esquecer porque, infelizmente, não é hora
para pensar nisto. Tal imagem sentimental é de fato
uma metáfora utilizada por Garibaldi para esconder
seu grande sonho, mais forte e obsessivo neste momento que
qualquer amor humano.
Na realidade, a filha do calafate, cuja beleza o apaixonou,
subentende aquela nave, da qual ele fantasia se tornar o comandante,
para poder lutar, junto com seus companheiros, em defesa de
um ideal. Mas, ele mesmo comenta na carta, precisa esperar
ainda muito tempo para que este sonho se realize. A preocupação
do momento é o “Dinheiro! Dinheiro!”. Garibaldi,
em lugar de utilizar a forma italiana, compartilha com Cuneo
a expressão do idioma genovês “Dinè!
Dinè!”.
Aparentemente pressionado pelas necessidades mais urgentes,
Garibaldi quase esquece as preocupações políticas.
No final da carta trata de assuntos comerciais, perguntando
sobre o preço do milho na praça do Rio de Janeiro,
e prevê sua volta ao Rio para o dia 15 do mesmo mês.
Mas o jornal Paquete do Rio registra a entrada do Mazzini
no porto no dia 27 de outubro, trazendo uma carga de milho
e feijão, e o passageiro italiano Luiz Ruchet, deformação
do nome de Luigi Rossetti, seu fiel companheiro.
No Jornal do Commercio do dia 7 de novembro de 1836,
encontra-se registrada, na coluna Entrada dia 6,
a chegada ao porto do patacho de guerra brasileiro Vênus.
E consta da lista dos presos os mais importantes personagens
da Revolução Farroupilha para serem remetidos
para a corte. Estavam, entre outros, Bento Gonçalves,
cadete Onofre, Marques Pereira Lima e o italiano Lívio
Zambicari, deformação de Zambeccari, até
então, secretário do presidente Bento Gonçalves.
Zambeccari e Bento Gonçalves foram recolhidos à
fortaleza de Santa Cruz.
_____________________________________________________________
30 Ibid. 6. p.65.
31 Ibid. 13 p.10-11.
32 Ibid. 13 p.11-12.
_____________________________________________________________
Em 27 de dezembro de 183632, uma nova carta
de Garibaldi – sempre proveniente de Cabo Frio e dirigida
a Cuneo – comunica que Rossetti viajou sozinho para
o Rio, mas declara não poder explicar por carta a motivação
deste fato. Tal reticência poderia ser interpretada
como intenção de não divulgar o plano
de Rossetti, que talvez fosse o de encontrar-se com Zambeccari.
A falta do companheiro Rossetti reforça ainda mais
o sentimento de isolamento, solidão, afastamento dos
amigos, do próprio país e de sua verdadeira
vocação. Garibaldi confessa, assim, ao amigo,
a infelicidade da vida que está levando, tão
inútil em relação aos projetos relacionados
à “nossa terra”. E pede que Cuneo se comunique
com Folco/Mazzini33, do qual espera o sinal para começar
a se movimentar.
O Mazzini volta ao Rio no dia 21 de janeiro de 1837,
como confirma o Jornal do Commercio, e parte novamente
no dia 25 de fevereiro em direção a Campos.
No período em que permaneceu no Rio, Garibaldi escreveu
uma carta para Cuneo34, que, no entanto, tinha se transferido
para Montevidéu. Não tinha novidades no campo
da ação, que era o que mais lhe interessava.
Em compensação, as condições financeiras
estavam melhorando graças a experiências adquiridas
neste tempo e à mudança para Campos, com algumas
estadas em Santa Cruz. A região de Campos mantinha
com o Rio, à época, uma grande atividade comercial,
como demonstrado pelo intenso fluxo de barcos e de mercadoria
registrado na coluna Movimento do Porto dos diferentes
jornais cariocas. A carta termina com um desabafo de Garibaldi,
que declara não estar gostando nada deste período,
nunca gostou, e termina reforçando com um “ainda
mais agora”, deixando intuir que algo está se
movimentando.
É provável que já tivesse ocorrido o
encontro, que Rossetti conseguira marcar, de Garibaldi com
Zambeccari na fortaleza de Santa Cruz, onde se iniciou o planejamento
de uma intervenção de ajuda à revolução
Farroupilha por meio de um navio corsário, capaz de
levar mantimentos e apoio, servindo de conexão marítima
nas lutas contra os imperiais. Garibaldi pediu a Zambeccari
a concessão de uma carta oficial assinada pelas autoridades
da nova República Rio-grandense para poder sair do
porto do Rio como corsário. O mesmo que Garibaldi havia
pedido a Mazzini, para assaltar os navios austríacos,
sardos e napolitanos no porto do Rio.
A volta de Garibaldi de Campos para o Rio ocorre no dia 2
de abril de 1837 e corresponde à última viagem
de cabotagem do Mazzini, na qual figuram como passageiros
os italianos Luiz Rossetto e José C., cujo nome encontra-se
ilegível no exemplar do Jornal do Commercio.
A partir de então, iniciou-se a fase de preparação
para a grande aventura. Desde sua chegada ao Rio, Garibaldi
procurou entender de que forma poderia realizar no Brasil
o que não conseguira na própria Itália.
Após o encontro com Zambeccari, ficou claro que sua
missão era a de juntar-se à recém-criada
República Rio-grandense na luta pela liberdade e independência
contra o Império. O seu papel era o de comandante de
navio e, neste caso, de um navio corsário, algo que
ele sabia fazer bem. Entretanto, o objetivo principal era
equipar o Mazzini, transformando-o em uma embarcação
de combate, sem aparentemente nada mudar, para que ele pudesse
sair do porto do Rio com o mesmo aspecto de lancha de cabotagem
com que havia entrado. Rossetti assume a organização
e pede a todos os amigos, irmãos e simpatizantes que
colaborem para a organização da viagem.
A tensão de Garibaldi pode ser percebida pela leitura
da última carta escrita no Rio, datada de 22 de abril
de 1837, a Cuneo,35 o qual já estava no Uruguai. Ele
se desculpava com o amigo por não poder ir encontrá-lo
em Montevidéu, o que era impossível por uma
motivação “prepotente” da qual não
podia falar e qualquer explicação seria perigosa.
Mas, em seguida Garibaldi esclarecia: “Estou me preparando
para uma nova existência que obedece aos nossos princípios,
sempre!”.
O entusiasmo pelos próximos eventos, dos quais Garibaldi
deveria ser protagonista, se misturava às impressões
trazidas pelas notícias sobre os movimentos na Itália
e sobre Giuseppe Mazzini que ele acabava de ler nos jornais
franceses, encontrados no Rio devido, talvez, a chegada no
porto de um navio proveniente deste país. A progressiva
integração de Garibaldi ao meio local transparece
nesta carta ao comunicar a Cuneo que ele e os outros companheiros
procuravam defender suas opiniões até com a
própria vida, em respostas ao que os jornalistas locais
publicavam sobre a Itália naquele momento.
____________________________________________________________
33 Este nome, na carta, não fica compreensível,
alguns interpretaram como se fosse um pseudônimo inventado
em honra de Mazzini, mas Folco é também um “irmão”
da Giovine Italia que tinha no Rio uma firma menor, mas parecida
com a dos irmãos Zignago como corretor de navios.
34 Ibid. 13 p.13.
35 Ibid. 13 p.14.
_____________________________________________________________
Como desfecho da carta encontra-se ainda uma
metáfora cheia de graça: “Não sei
se enviarei para você laranjas ou flores... vou fazer
o possível!”. As flores e as laranjas,
lembranças da terra comum, a Ligúria, assumem
neste contexto o significado simbólico de uma
promessa de boas notícias em relação
à grande aventura que Garibaldi estava iniciando e
cujos resultados esperava poder cedo comunicar ao amigo.
São os últimos dias cariocas de Garibaldi, faltava
apenas receber a patente de corsário para poder lançar-se
à luta em direção ao Sul. Tal patente
autoriza a navegar em rios e mares e atacar livremente os
navios de guerra e do comércio do Império encontrados
pelo caminho, podendo apropriar-se livremente das armas com
o uso da força.
A emissão da carta atrasou, chegando ao Rio somente
no dia 4 de maio de 1837. Existe, todavia, uma contradição
cronológica, pois os salvo-condutos apresentados por
Salvatore Cândido36 estão datados de 14 de novembro
de 1836 e assinados por João Manuel de Lima e Silva,
general-comandante-em-chefe ao qual Bento Gonçalves
tinha feito o pedido, conforme o acordo com Zambeccari. Ocorre
que a data de 14 de novembro de 1836, constante das patentes,
corresponde a uma semana depois da chegada de Bento Gonçalves
e Zambeccari ao Rio como prisioneiros. Será esta a
verdadeira data da assinatura? Ou foi colocada propositalmente
uma data anterior para despistar os imperiais?
As diferenças entre os dois documentos de patente de
corso encontrados, ambos assinados por João Manuel
de Lima e Silva, demonstram terem sido os mesmos confeccionados
para obedecer, provavelmente, a uma determinada estratégia.
Um documento fazia referência à lancha Mazzini,
de vinte toneladas, ao passo que o outro mencionava uma eventual
sumaca denominada Farroupilha, de 130 toneladas.
Quando os documentos foram redigidos, existia somente o Mazzini.
A estratégia adotada poderia ser a de que o primeiro
documento fosse utilizado na saída do Rio, quando a
embarcação ainda era uma lancha de cabotagem,
enquanto o segundo documento se tornaria válido uma
vez capturado um navio de dimensão capaz de representar
a marinha da República Rio-grandense que, no caso,
teria assumido o nome de Farroupilha.
No dia 8 de maio de 1837, está registrada no Jornal
do Commercio a saída da lancha Mazzini em
direção a Campos. As armas e munições
estavam escondidas embaixo da carga dos produtos alimentares
– farinha, carne seca37 – que eram usualmente
comercializados. Quase 17 meses depois, o jovem mazziniano
– desembarcado do navio Nautonier no porto
do Rio, na veste de um exilado sem nome – conseguiu
deixar a cidade com um valioso projeto. E, sobretudo, com
o que mais desejava: o título de corsário.
Pouco depois que o Mazzini deixou a Baía de
Guanabara, apresentou-se a ocasião de colocar a prova
a capacidade do novo corsário: uma pequena lancha denominada
Maribondo, saída pouco antes do porto do Rio.
Garibaldi não tinha particular interesse no barco nem
em sua carga, mas sim em apropriar-se de víveres para
enfrentar a longa travessia.
Na altura da Ilha Grande, eis que surgiu Luísa,
uma escuna de 120 toneladas, com o pavilhão do Império.
Foi esta a embarcação escolhida para tornar-se
a Farroupilha. Após um assalto, sem que a
tripulação brasileira tivesse oposto resistência,
a apropriação da embarcação foi
marcada pela substituição da bandeira do Império
pela bandeira verde, amarela e vermelha da República
Rio-grandense. A alegria de Garibaldi foi maior ainda ao descobrir
que a sumaca pertencia a dona Felisbella Cândida Stockmeyer,
de família austríaca, e que levava, para o porto
do Rio, café destinado a exportação para
a Europa. Com um único golpe, Garibaldi tinha acertado
dois inimigos: o império brasileiro e o império
austro-húngaro, opressor dos italianos.
Entre os 13 companheiros38 que tripulavam o Mazzini,
só um tinha capacidade de comandar um barco em alto
mar. Desta forma, decidiu-se abandonar o Mazzini,
transferindo todos para o navio maior, o Farroupilha.
O afundamento da lancha de cabotagem Mazzini assume,
então, um valor simbólico. Ao encerrar sua história
carioca, Giuseppe Garibaldi conquistou a independência.
Agora estava pronto para tomar o comando de um navio, enfrentar
o oceano e desafiar o império brasileiro, lutando pela
jovem república do Rio Grande do Sul, na qual projetava
os sonhos e os ideais que a Itália ainda não
podia realizar.
_____________________________________________________________
36 CANDIDO, Salvatore. Giuseppe Garibaldi: corsário
rio-grandense: 1837-1838. EDIPUCRS. Instituto Estadual do
Livro p.139-140.
37 GARIBALDI, José. Memórias. Tradução
do manuscrito original por Alexandre Dumas. Rio Grande. O
Intransigente, 1907, p.46.
38. Ibid. 37 p.71.
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O “aprendizado” de Garibaldi
na América Latina: a “scuola
delle palle” e a “escola moral”
Anna Maria Lazzarino Del Grosso
_____________________________________________________
Professora da Faculdade de Ciência
Política da Universidade de Gênova, Itália
Quando Garibaldi chegou ao Rio de Janeiro, com vinte e oito
anos, no final de 18351 ou início de 1836, com uma
condenação à morte por “traição
militar” e uma apaixonada determinação
em contribuir para o sucesso da causa italiana entre as fileiras
de organizações de exilados mazzinianos, de
longe, momentaneamente, não dispunha senão de
uma longa experiência de navegação mercantil,
pouquíssimos dias de serviço na Marinha de guerra
dos Sabóias e uma cultura simples, mas original, de
autodidata ávido por leitura. Não consta que
tivesse prática com armas, e suas idéias políticas,
poucas e claras, fortemente radicadas em um sistema de valores
simples mas imbatíveis, eram fruto de sentimentos juvenis
e do ensinamento, tão casual quanto iluminado, recebido
na primavera de 1833 do saint-simonista Émile Barrault,
que embarcou com um grupo de partidários na Clorinda
e, pouco depois, pelo jovem “crente” mazziniano
encontrado em uma taverna de Taganrog.
Quando em 15 de abril de 1848, quase treze anos depois, zarpou
com sessenta e três companheiros do porto de Montevidéu
a bordo da embarcação Speranza rumo
à Itália, finalmente empenhada naquela que parecia
a ele uma luta geral de emancipação, com a intenção
de colocar-se à disposição do exército
comandado por Carlo Alberto, Garibaldi passava dos quarenta
anos, e sua fama de herói, que ele não cansa
nunca de refletir sobre os seus valentes e generosos companheiros
de armas, difundiu-se em toda a Europa, além das Américas,
graças ao empenho público de Mazzini e de Giovan
Battista Cuneo2. Tal fama reanima as expectativas dos patriotas
italianos e não tardará, apesar das dificuldades
freqüentemente postas pelos governos dos Sabóias,
a encontrar luminosas e cada vez mais aclamadas confirmações.
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1 Esta data de chegada é referência de A
. SCIROCCO, Garibaldi. Battaglie, amori, ideali di um cittadino
del mondo. Roma-Bari: Laterza, p. 29. Em janeiro de 1836 era
fixada por S. CANDIDO, Garibaldi in America. De ‘Memorie’
ao ‘Documenti’, em Garibaldi cento anni dopo.
Atos do Convênio de Estudos Garibaldinos, Bergamo, 5-7
de março de 1982, aos cuidados de A. Benini e P.C.Masini.
Florença: Le Monnier, 1983, p. 25.
2 Cfr. A . SCIROCCO, op. cit., pp. 129-130, 134-135.
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Durante seu “primeiro” longo exílio na
América Latina, antes no Brasil e depois no Uruguai,
o jovem capitão de Nizza, perseguindo profundas motivações
ideais, incontrolável sede de ação e
de aventura, amadureceu um aprendizado determinante, multiforme
e cada vez mais comprometido, não somente na condução
da guerra, no mar e terrestre, mas também na aquisição
de uma liderança sábia e carismática,
inspirada rigorosamente nos valores democráticos, cosmopolitas
e humanitários, e fundada em uma real capacidade organizacional
e política, atenta seja nos mínimos detalhes
práticos, como se exige a um chefe que tem responsabilidade
direta sobre os seus homens, seja na exigência de ligar
os objetivos perseguidos, ideais ou concretos, às altas
esferas do poder.
Amadureceu, também, através de experiências
afetivas que não se podem apagar, de contato social
ou com vários ambientes políticos, e graças
a uma inclinação à reflexão crítica
e à comunicação eficaz, nada banais,
aquela personalidade que irradia audácia e ardor, energia
e compaixão humana, segurança e modéstia,
generosidade e abertura, que, mesmo com aversões às
vezes fortes, é um elemento central, junto ao valor
militar, tanto do seu sucesso histórico quanto da formação
do seu mito que persiste até hoje, um mito que já
pairava em 1848, mas que as sucessivas ações
italianas e em terra francesa teriam agigantado e legado à
posteridade.
No mais, já em novembro de 1842, Mazzini, ao noticiar
suas façanhas no oitavo número do L’Apostolato
popolare, indicava-o como merecedor de afeto,
expressando a convicção “de que ele não
considera a sua carreira na América meridional senão
como um aprendizado à guerra italiana que o chamará
um dia para a Europa” 3.
As etapas e os aspectos mais salientes deste “aprendizado”
americano, que na realidade cresceu com a dedicação
à causa da liberdade dos povos, também esta
mazziniana, explicitada nos objetivos da “Jovem Europa”,
à qual Garibaldi provavelmente aderiu em Marselha4,
mas também de origem saint-simonista, podem ser seguidos
através de uma releitura das Memórias,
grande parte escritas em Tanger, entre o final de 1849 e a
primavera de 1850, no início do seu “segundo
exílio”, pois me parece mais apropriado, pela
maior proximidade temporal dos eventos narrados, analisar
no texto da terceira redação completada no final
de 1859 5, e também do precioso corpus de
cartas publicado em 1973 por Giuseppe Fonterossi, Salvatore
Candido e Emília Morelli, no VII volume da Edição
Nacional, que oferece um testemunho vivo e direto da obra
e dos pensamentos de Garibaldi, no período que vai
de 1834 até a véspera de sua partida para o
Uruguai.6
Se as Memórias testemunham também,
do ponto de vista subjetivo de seu autor, os sinais profundos
e o valor determinante conferido à sua existência
naquele universo de experiências, principalmente vividas
nas regiões do Brasil meridional e da República
oriental do Uruguai, atravessadas pelos grandes afluentes
do Rio de La Plata e da densa rede de tributários,
as centenas de cartas até hoje encontradas (graças,
sobretudo, às longas pesquisas in loco de
Salvatore Candido) que Garibaldi escreveu naqueles anos, freqüentemente
pressionado pela urgência de suas tarefas e deveres,
revelam o aumento progressivo de sua capacidade de ação
e de suas competências, o formar-se gradativo de uma
experimentada visão crítica a propósito
das decisões e das práticas dos seus diversos
interlocutores, militares e políticas, a assunção
no próprio patrimônio intelectual e ideal de
novos modelos morais e políticos influentes, o precisar
de declinações concretas, à prova dos
fatos, dos valores professados. Revelam, em outros termos,
o desenvolver de um itinerário de crescimento pessoal,
não menos diferente e aventuroso do que aquele exterior,
que do “aprendizado” o conduz à plenitude
da “profissão”, da condição
de soldado “aprendiz” a comandante e guia reconhecido
e amado, mestre das armas e das estratégias bélicas
em cada terreno ou extensão de água, mas também
mestre da vida, em sentido amplo e, por que não, da
política no sentido mais nobre, mas também mais
sagaz do termo.
Neste campo, sua primeira e principal lição,
talvez elementar em sua simplicidade e concisão expressiva,
mas no fundo, me parece, reconhecível em certos comportamentos
discutidos ao longo dos sucessivos acontecimentos do Ressurgimento,
não foi suficientemente compreendida, e raramente foi
seguida: esta aparece mais vezes nestes anos, sobretudo no
que se refere à causa italiana, e encontra-se sintetizada
de modo eficaz na passagem de uma carta enviada de Salto a
Napoleone Castellini, em 26 de fevereiro de 1846: “em
uma tua, me falas das coisas da Itália: eu, quando
diminui em mim o amor que sinto por ela, gostaria que um raio
me incinerasse; mas é preciso que eu te chame a atenção
da qual tu necessitas; é que na “scuola delle
palle”, e outras coisinhas similares, que estamos fazendo
hoje, é importante acrescentar a escola moral das conciliações,
que talvez mais do que tudo, é necessária a
todos nós. Me dirás que te encho o saco…”
7
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3 Cit. Em G. TRAMAROLLO, Garibaldi e la “Giovine
Italia”, em Garibaldi cento anni dopo, cit., p.66.
4 Cfr. A . SCIROCCO, op.cit., p.27.
5 Ver pp.186-188,190.
6 Edizione Nazionale degli scritti di Giuseppe Garibaldi,
(de agora em diante: E.N.), vol. VII, Epistolario, vol. I
(1834-1848) sob cuidados de G. Fonterossi, S. Candido, E.Morelli.
Roma: Istituto per la Storia del Risorgimento, 1973. De agora
em diante: Epistolario.
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Utilizando sua feliz expressão dicotômica, podemos
dizer que, para Garibaldi, a sua primeira longa estada na
América meridional foi uma “scuola delle palle”
e “escola moral”. Se a primeira afirmação
parece óbvia e bem conhecida no nível da cultura
popular, talvez alguma reflexão e documentação
mereça a segunda, deixando claro que entendo o adjetivo
“moral” no seu mais amplo significado.
Não existe dúvida de que a trajetória
rio-grandense do primeiro itinerário de Garibaldi na
América Latina tenha constituído e permanecido
até o fim, também na sua consciência,
como a experiência mais grandiosa e rica de momentos
felizes de sua vida, aquela que talvez tornava com maior prazer
e emoção à recordação.
Demonstram-no o tom lírico de algumas páginas
das Memórias que fazemos referência8, entre as
que melhor se destacam do ponto de vista literário,
e algumas afirmações explícitas do seu
autor, que define “bela e de acordo com a minha índole”
a vida “muito ativa” e também “cheia
de perigos” de “corsário” (mas, na
realidade, como acentuou Candido, já estava a serviço
do exército regular da República do Rio Grande
do Sul 9) que conduzia em 1838, dirigindo a construção
de navios de guerra, e guiando expedições corsárias
contra a frota imperial na foz do rio Camaquã, na Lagoa
dos Patos 10.
Relembrando as visitas festivas às casas hospitaleiras
das irmãs do Presidente Bento Gonçalves, situadas
naquela zona, escrevia: “Não sei se a minha idade
influenciou na minha imaginação, predispondo-me
a todas as coisas e embelezando-a como nova e inexperiente.
Mas, de qualquer maneira, posso assegurar que nenhuma circunstância
da minha vida se apresenta ao pensamento com tanta doçura
e aspecto agradável, do que aquela passada naquele
amável terra”11.
No Brasil, Garibaldi conhece e cultiva a força da amizade
que nasce da partilha dos mesmos ideais e do mesmo extremo
empenho na luta política de emancipação,
e conhece, infelizmente, primeiro com o naufrágio da
embarcação Rio Pardo (mas rebatizado
Farroupilha), onde pereceram os seus mais
queridos companheiros, mais tarde com o heróico fim
de Luigi Rossetti, a lancinante dor da perda que, à
distância de anos, ainda vibra nas páginas das
Memórias, assim como nos perfis biográficos
dedicados a eles12, mas é, sobretudo, a lembrança
do encontro com Anita, do nascimento do primogênito
na extrema pobreza do campo de São Simão, e
das épicas e romanescas aventuras comuns, em uma natureza
livre e selvagem, a suscitar-lhe uma enternecida e apaixonada
saudade, que compreende também o grupo dos seus companheiros:
“Entre as tantas peripécias de minha tempestuosa
vida não deixei de ter belos momentos, e estes, embora
não pareça, eram aqueles em que à frente
de poucos homens, que tinham restado de tantos combates, e
que justamente mereciam o título de valentes, eu marchava
a cavalo, com a mulher da minha vida ao lado, digna da admiração
universal, e lançando-me em uma carreira, que mais
do que aquela do mar, tinha para mim imensos atrativos. E
o que me importava de não ter outras vestes? E de servir
uma República pobre, que não podia pagar ninguém?…
Minha Anita era o meu tesouro; fervorosa quanto eu pela sacrossanta
causa dos povos… o futuro nos sorria afortunado e quanto
mais selvagens se apresentavam os espaçosos desertos
americanos, mais agradáveis e belos nos pareciam.”
13
Homem chegado à sua plenitude afetiva, à serena
auto-satisfação, depois da dura experiência
da prisão em Gualeguay, o Garibaldi que entra oficialmente
a serviço da República Rio-grandense e, segue,
no campo, o Presidente Bento Gonçalves, encontra sem
dúvida nele um modelo de liderança política
e militar, caracterizada pelas altas qualidades humanas e
democráticas, que respondem aos próprios valores
e os reforçam, e, apesar da visão mais crítica
que desenvolverá mais tarde a propósito de alguns
erros seus na condução da guerra, pode-se deduzir
que influenciou e orientou no tempo o seu próprio modo
de entender o governo dos homens: “Passei algum tempo
nas terras daquele homem, onde a natureza havia favorecido
com o que há de melhor, mas a sorte contrariou quase
sempre, beneficiando o Império brasileiro. Bento Gonçalves
era o tipo de guerreiro generoso, e o era ainda, perto dos
sessenta anos, quando eu o conheci. Alto de estatura e rápido,
ele cavalgava um fogoso ginete com a facilidade e a destreza
de um jovem conterrâneo seu. Pessoa valorosíssima,
ele teria lutado em combates extraordinários e talvez
vencido os melhores cavaleiros do mundo. De espírito
generosíssimo e modesto, não creio que ele tenha
excitado os rio-grandenses a emancipar-se, com a finalidade
de engrandecimento próprio. Simples como todos os filhos
desta nação guerreira, o seu sustento no campo
era um assado, como o do último soldado, e
eu dividi os seus alimentos campeiros com tanta familiaridade
como se fôssemos companheiros desde a infância.
Com tais predicados Bento foi o ídolo dos compatriotas,
por outro lado com tantas habilidades foi desventurado nas
suas batalhas: isto sempre me fez supor que a sorte não
è suficiente nos acontecimentos da guerra.”14
_____________________________________________________________
7 Ver p.182 (n. 217, pp. 181-183).
8 Como, por exemplo, a famosa descrição do soberbo
espetáculo da campanha povoada por cavalos e outros
animais em torno de Jesus Maria: Le Memorie di Garibaldi in
una delle redazioni anteriori alla definitiva del 1872, (E.N.,
I). Bologna: Cappelli, 1932, cap. VII, pp. 15-16.
9 Cfr. S. CANDIDO, Garibaldi in America, cit., p.34
10 Le Memorie cit., cap. XIII, p. 29.
11 Ver cap.XIII, p.31.
12 Encontra-se a respeito A . M. LAZZARINO DEL GROSSO, Amici
e amicizia nelle Memorie di Giuseppe Garibaldi, in G. ANGELINI.
M. TESORO, aos cuidados de, De amicitia. Scritti dedicati
a Arturo Colombo. Milão: Franco Angeli, 2006, pp. 441-459,
em especial pp.443-446.
13 Le Memorie cit., cap. XXII, pp. 52-53.
_____________________________________________________________
No que diz respeito aos combatentes rio-grandenses, chamados
muitas vezes de “filhos do Continente”, “republicanos
vigorosos”, Garibaldi não se cansa de elogiar
a coragem, as habilidades militares, a capacidade de enfrentar
sofrimentos e privações em nome da causa perseguida,
chegando a mostrar o exemplo aos próprios compatriotas:
“Italianos! O dia em que sereis unidos e modestos como
os filhos do Continente! O estrangeiro não pisará
o vosso solo! Não contaminará o vosso leito!
A Itália terá recuperado o seu lugar entre as
primeiras nações do Universo.”15
A experiência da guerra pela liberdade rio-grandense
e o admirado e doloroso afeto pelos seus mortos proporciona
também a Garibaldi os primeiros modelos emblemáticos,
nobres, de um heroísmo voluntário desinteressado,
que muita influência terá na definição
dos ideais e da ideologia do voluntariado garibaldino, a começar
por aqueles da Legião Italiana que, em poucos anos,
se constituiria como suporte na luta de liberdade da República
Oriental do Uruguai, obtendo com o seu valor, junto com os
seus chefes, uma fama que não perece.
A primeira figura-modelo que se encontra nas Memórias,
é a do americano John Griggs, que tinha deixado em
pátria uma notável fortuna para servir à
nascente República brasileira, dedicando-se à
construção de embarcações de cujo
armamento o próprio Garibaldi se ocupou. Havia participado
com ele da difícil expedição pela libertação
da cidade de Laguna, que levou à proclamação
da República de Santa Catarina, e lá foi morto
poucos meses depois, enquanto defendia corajosamente a capital
do ataque da frota imperial. Mas, aos poucos, foram-se juntando
outras figuras de mártires pela liberdade de uma pátria
desinteressadamente e apaixonadamente adotada como sua: a
começar pelos companheiros italianos mortos no naufrágio,
como Edoardo Mutru e Luigi Carniglia, a quem parece que Garibaldi
gostaria de erguer, com as próprias palavras, uma espécie
de monumento simbólico, para compensar a falta da sepultura.
Escrevi acima que é na prova concreta do seu empenho
no serviço àquela que repetidamente chama, tanto
nas Memórias, quanto nas cartas, a causa dos
povos, que Garibaldi encontra a ocasião de declinar
e verificar concretamente em termos de sustentabilidade os
seus já sólidos princípios éticos,
marcados nos valores da humanidade. O texto auto-biográfico
oferece numerosos exemplos, com isso indicando o dever, mas
também a oportunidade em termos de sucesso político-militar.
A libertação dos escravos negros, que Garibaldi
mesmo pretendia quando efetuou a sua primeira “tomada”corsária16,
que levou à formação de um precioso corpo
escolhido de “verdadeiros filhos da liberdade”17,
o respeito às pessoas e aos bens dos prisioneiros civis,
o repúdio aos saques e à represália feroz18,
o cuidado e a solicitude com as populações expostas
aos danos e perigos da guerra, o imparcial reconhecimento
dos atos nobres e valorosos do inimigo, a distinção
entre o mal a ser combatido (o absolutismo) e os homens que
o encarnam, antes para compadecer-se do que para odiar19 ,
o deixar aos próprios subalternos, nos momentos mais
difíceis, a liberdade de escolha do próprio
destino20, são comportamentos que se evidenciam como
eticamente necessários no andar das campanhas rio-grandenses,
e que constituem em seu conjunto, ao lado dos modelos humanos
já indicados acima, os conteúdos daquela “escola
moral” que Garibaldi praticamente freqüentou e
construiu, e que pretendia transmitir, também com a
redação das suas Memórias, aos
seus compatriotas.
O exame das cartas confirma a existência deste percurso
de consciência ética. Se nas poucas mas importantes
correspondências que nos restaram dos anos de 1836-1837
(entre as quais a famosa carta à Mazzini de janeiro
de 1836) prevalece a preocupação de dar o quanto
antes uma contribuição de mazziniano adepto
à Jovem Europa, à causa italiana, àquelas
sucessivas, e até a véspera do retorno à
pátria, interlocutores, referências e problemas
enfrentados são principalmente “americanos”,
ligados à vida quotidiana do militante. Depois da passagem
pelo exército rio-grandense, inicia a série
de despachos informativos às autoridades superiores,
que também ocupam muitas páginas da correspondência
do Uruguai.
_____________________________________________________________
14 Ver cap. XII, p.28.
15 Ver cap. XXV, p.66.
16 Não se detém a este episódio nas
Memórias, mas como mostrou S CANDIDO, Garibaldi in
America cit., pp. 40-45, está irrefutavelmente comprovado
pelos documentos do processo desenvolvido em Gualeguay e de
uma carta sua para Cuneo.
17 Le Memorie cit., cap. XXV, p.64.
18 Ver cap. XX, p.49.
19 Ver cap. XXIV, p.60.
20 Cfr. Ver cap. XXIII, p. 58.
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Na comovente carta enviada em 28 de julho de 1839 à
irmã do Presidente, Dona Ana Joaquina Gonçalves
da Costa Santos, onde conta sobre o naufrágio da Farroupilha
(Rio Pardo) e sobre a morte dos companheiros, fala da
própria “vida de apostolado perseguido”,
que o endureceu frente às desgraças, mas não
ao ponto de não ser atacado pelo desespero frente a
uma tragédia tão horrível.
No Uruguai, empenhado na “Guerra Grande” contra
as tropas do ditador argentino Juan Manuel Rosas e de Oribe,
Garibaldi foi chamado a fazer parte da marinha militar uruguaia
com o grau de coronel. Colocado no comando da corveta Constitución
recebe, em 1842, a difícil e arriscada tarefa de alcançar
com outros dois navios, subindo o Rio Paraná, a província
argentina de Corrientes, governada por Pedro Ferré,
rebelde em Rosas, levando ao tribunal local algumas presas,
cujo valor recebido depois teria colocado à disposição
dos membros da expedição, todas as embarcações
argentinas capturadas durante o percurso.
O êxito da operação foi desastroso, mas
Garibaldi e os seus corsários conquistaram uma admirada
celebridade graças à heróica resistência
frente à frota argentina guiada pelo almirante Brown,
perto da Costa Brava. O relato do episódio nas Memórias
é muito técnico, quase profissional, rico em
detalhes, mas sem desviar do tema: aqui também se esboça
o modelo de uma extraordinária e desesperada tarefa
sustentada por uma motivação de ética
militar: combater até o fim, desafiando a morte, mesmo
na certeza da derrota, “pela honra” 21, símbolo
que será emblemático do voluntariado garibaldino.
Também a luta do “generoso povo Oriental”
é apontada como exemplo a todos os povos que quiserem
no futuro resistir aos ataques do inimigo, e o coronel Pacheco,
que depois tornou-se general, configura um outro modelo de
chefe militar, marcado pela “superioridade sublime,
pela coragem, pela energia, pela capacidade”.22
O quadro da direção política uruguaia
é, entretanto, contrastante: nas Memórias,
Garibaldi usa palavras duras em confronto com o Ministro Geral
da República, general Francisco Antonino Vidal, que
define “de infausta e desprezível memória”,
considerando-o responsável de uma errada e absurda
política de destruição da frota, além
do desastre sofrido na expedição para Corrientes
23, preocupado somente em acumular “dobrões,
para utilizar em passeios de carruagem e aparições
esplêndidas nas primeiras capitais da Europa”
24 e, no final, fugir com o dinheiro do tesouro25.
Grande, porém, é a admiração pelo
comportamento firme e heróico do povo na iminência
do cerco da capital, depois da terrível derrota sofrida
pelas forças aliadas no Arroio Grande, que atribui
às “discórdias fomentadas pela ambição
de poucos”26: “Em breve formou-se um novo exército!
Senão tão numeroso, não tão disciplinado,
pelo menos cheio de ímpeto e entusiasmo, mais imbuído
da causa sacrossanta que os movia. Não era mais a causa
de um homem que estimulava as multidões, o astro daquele
homem havia desaparecido na última batalha e o esforço
de levantar-se foi em vão. Era a causa nacional, perante
a qual calavam-se as odes, as personalidades, as divergências.
O estrangeiro preparou-se para invadir o território
da república; cada cidadão corria com armas
e cavalos para alistar-se nas bandeiras para rechaçá-lo.
O perigo aumentava; aumentava o brio, a devoção
daquela população generosa. Não uma voz
de transação! De pacto!.”27
Depois de anos a recordação daquela reação
unitária oferece a ele matéria para uma amarga
comparação com o que aconteceu no dia seguinte
à derrota de Novara e para um sinal, por sua vez não
desenvolvido, de uma possível explicação
de tanta diversidade. Também o novo exército
de infantaria organizado em Montevidéu, sob o comando
do general Paz, incluía escravos livres e chefes ilustres,
“esquecidos e que desprezavam as guerras onde primavam
interesses pessoais”. Pacheco assume o Ministério
da Guerra e a Garibaldi é confiada a tarefa de organizar
a frota. Os franceses e os italianos imigrados organizam as
respectivas Legiões, com “generoso ímpeto”.
O empenho de Garibaldi na organização e na condução
da Legião italiana, sustentada, com a sua mediação,
pelo Ministro Pacheco, protagonista de páginas gloriosas
da história da Guerra Grande, bem como a de comandante
da frota republicana, constituem o teste de conclusão
de seu “aprendizado”, obrigando-o a uma intensa
atividade de relação com os Ministérios,
em parte de ordinária administração “burocrática”,
em parte direcionada à política.
_____________________________________________________________
21 Ver cap. XXXI, pp. 87-88.
22 Ver cap. XXXIII, p. 96.
23 Ver cap. XXIX, p.80.
24 Ver cap. XXXI, p.88.
25 Ver cap. XXXIV, p.99.
26 Ver cap. XXXII, p.92.
27 Ver cap. XXXII, p. 95.
_____________________________________________________________
O julgamento de Garibaldi quanto à administração
do governo Pacheco é extremamente positivo, e também
quanto à condução da guerra por parte
do general Paz 28, considerado um verdadeiro e próprio
gênio militar. Muito severo quanto a Rivera e Madariaga
que, depois da relevante vitória de San Antonio del
Salto obtida pela Legião Italiana, tomaram posse do
poder, com uma espécie de revolução,
respectivamente em Montevidéu e em Corrientes, determinando
o exílio de Pacheco e de Paz e o início de um
inexorável declínio político e militar.
29
As numerosas cartas escritas no período uruguaio revelam
que os interlocutores de Garibaldi transformaram-se em ‘políticos”,
e comprovam como a sua atividade, com o crescer das responsabilidades,
veio a conter também pesadas tarefas de correspondência
com as autoridades, com o objetivo de relatar as próprias
ações e as dos homens a ele confiados e, sobretudo,
de fazer chegar a eles uma série de pedidos segundo
as necessidades da frota e dos seus equipamentos ou os da
Legião. A benevolência da relação
existente entre o comandante e os seus soldados emerge nas
suas numerosas mensagens de mediação em favor
de suas causas pessoais: ênfase dos seus méritos,
pedidos de promoções, de ajuda na cobrança
de créditos ou no pagamento de débitos, de vários
tipos de apoio em caso de necessidade, de clemência
em alguns casos de transgressão desculpável.
Não faltam trechos ou páginas de conteúdo
político, que reforçam e às vezes ilustram
as idéias de fundo que movem na América latina,
e acompanharão a ação de Garibaldi mais
tarde na Itália. É evocada mais vezes a sua
concepção de guerra justa como luta pela “causa
da humanidade”30, a mais alta proclamação
desse princípio se encontra na carta a Fructuoso Rivera,
que contém a orgulhosa e firme declaração
dos Oficiais italianos, em nome de toda a Legião, com
a qual recusa a abundante doação disposta pelo
General:
“Que persuadidos que es deber de todo hombre libre
combatir por la libertad de quiera que asome la tiranía,
sin distinción de tierra ni di Pueblo, porque es el
patrimonio de la humanidad, no han seguido sino la voz de
su conciencia, al ir a pedir um arma a los hijos de esta tierra,
para dividir com ellos los peligros que los amenazaban. Que
satisfechos com haber cumplido com sus deberes de hombres
libres ,continuarán a dividir como hasta aquí
‘pan y peligros’con sus valientes camaradas de
la guarnición de la capital, hasta que las exigencias
del sitio lo requieran, sin aspirar a admitir distinciones
ni premios de ninguna clase´.”31
Em 30 de março de 1846, Garibaldi recusará,
com uma carta ao Ministro da Guerra Francisco Joaquim Muñoz,
a promoção a Coronel Major, com a argumentação
que “o sólo qualquier benefício o
ricompensa, también los honores me pesaríam
sobre el alma que fueran comprados con la sangre de mis paesanes.”32
Perante a exigência de combater o “déspota”
Rosas, Garibaldi apela para o recurso da mesma “política
maquiavélica” que ele adota sanguinariamente,
mas deixa claro que “en nuestras manos semejantes armas
sólo servirán para las exigencias del momento,
el triunfo de la humanidad, y de los sanos principios.”33
A escola de conciliação que na já
citada carta a Castellini é invocada para a Itália,
como escreve para Cuneo, em 18 de outubro de 1842, é
considerada necessária também para “os
nossos amigos Orientais e Argentinos” de quem lamenta
o “maldito espírito de provincianismo.”34
Na carta enviada em 6 de outubro de 1845 a Manuel Lavalleja,
ilustre coronel uruguaio a serviço de Rosas, para solicitar
um encontro na esperança de levá-lo para o seu
lado, Garibaldi expressa a confiança que ele compartilhe
a mesma livre dedicação pela causa do Povo e
da democracia, sem vínculos partidários, que
ele abraçou com total desinteresse e que reúne
os defensores de Montevidéu, pedindo a eles cooperação
com o bem-estar “de este Pueblo desdichado y generoso.”35
_____________________________________________________________
28 Ver cap. XXXIV, p. 103; cap. XXXVII, p.109.
29 Ver cap. XXXVI, pp. 138-139; XXXVIII, pp. 148-150.
30 Cfr. Epistolario, cit, nn.24 (A Francisco Antonino Vidal,
2 de julho de 1842), 25 (A Pedro Ferré, 19 de julho
de 1842).
31 Ver n. 147 (A Fructuoso Rivera, 23 de março de 1845).
32 Ver n. 229, (A Francisco Joaquin Muñoz, 30 de março
de 1846), p. 192.
33 Ver n.26, (A Pedro Ferré, 20 de agosto de 1842),
p.85.
34 Ver n. 34 (A Giovan Battista Cuneo, 18 de outubro de 1842),
p.43.
35 Ver n. 178, (A Manuel Lavalleja, 6 de outubro de 1845),
p. 143.
_____________________________________________________________
Não faltam cartas de total franqueza aos Ministros
e Chefes de Estado, com sugestões, conselhos, pedidos.
Especialmente crítica é a sua posição
frente aos governantes nos meses seguintes à batalha
de San Antonio, quando é obrigado junto com os seus
legionários à inércia na região
de Salto, privado de reabastecimento e das roupas necessárias
aos seus homens para enfrentar o inverno ameaçador.
Sentindo-se abandonado, ou pior, boicotado, dirigiu-se ao
contra-almirante francês Laîné, recusando-se
por outro lado a aceitar a sua proposta de assumir o alto
comando das forças uruguaias36. Uma carta a Cuneo,
de 15 de junho, demonstra sua irritação com
o Ministro da Guerra Antonio Costa: julga-o hostil à
Legião italiana, que ele gostaria que fosse toda reunida
em volta dele e em concordância, para melhor defender
o povo uruguaio.37
Nas cartas de 1847, manifesta-se preponderante o chamado da
pátria italiana, já em alvoroço. Ao patriota
Eugenio Belluomini, que pediu a ele que retornasse, deixa
clara a sua consciência de não abandonar “este
país infeliz” e “tantos bons e valorosos
companheiros” e, ao mesmo tempo, manifesta a própria
abertura em relação ao “projeto iniciado
por Pio IX e por Carlo Alberto”38. A última correspondência
propriamente “política”, escrita no Uruguai,
foi enviada ao núncio apostólico no Rio de Janeiro,
Gaetano Bedini: esta expressa admiração e esperança
a respeito da política liberal e patriótica
inaugurada por Pio IX e oferece, humildemente, o serviço
da Legião italiana à sustentação
de sua “sua obra redentora”.39
O “aprendizado” de Garibaldi terminou há
tempo. As coisas andarão bem diferentes de como ele
imaginava nesta carta, mas depois de alguns meses partirá
para a Itália, junto com outros homens criados (e amados)
como filhos naquela “escola moral” da qual se
tornou mestre, escola que tomou forma e substância no
decorrer das generosas lutas pela liberdade dos povos do Rio
Grande do Sul e da República Uruguaia, um homem dotado
de todas as qualidades para desenvolver uma ação
decisiva nos destinos da Pátria.
____________________________________________________________
36 Ver n. 242 (A Jean-Pierre Honorat Laîné,
21 de maio de 1846), pp. 202-203. Cfr. também a carta
ao mesmo de 1º de maio de 1846, ver n.236, pp. 197-199.
37 Ver n.246, (A Giovan Battista Cuneo, 15 de junho de 1846),
pp. 207-210.
38 Ver n. 296 (A Eugenio Belluomini, 7 de agosto de 1847),
pp. 238-239.
39 Ver n.304, (A Gaetano Bedini, 12 de outubro de 1847), pp.
245-247.
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Garibaldi: republicano e
revolucionário internacional
Carmen Lícia Palazzo
________________________________________________________
Doutora em História, pesquisadora convidada do
UniCeub, Brasília, D.F.
Já há algum tempo que a escrita da história
não se faz mais em torno de relatos puramente factuais
ou de biografias das grandes personalidades que, por intermédio
de suas ações, teriam sido responsáveis
por mudanças decisivas nos acontecimentos de determinadas
épocas. A denominada escola dos “Annales”
representou um marco importante de uma nova maneira de escrever
história, e o estudo das mentalidades, que dela se
originou, abriu um caminho muito rico para os pesquisadores,
conduzindo ao que hoje denomina-se História Cultural.1
O surgimento de novos paradigmas, porém, não
excluiu o interesse por determinadas figuras que merecem ser
objeto de pesquisas que muito têm a acrescentar ao conhecimento
histórico. O italiano Giuseppe Garibaldi é um
destes casos, e suas ações devem ser analisadas
levando em conta não apenas o agitado contexto da época
mas também os aspectos míticos que passaram
a ser incorporados aos relatos de suas aventuras. Acompanhar
sua trajetória é, de certa forma, mergulhar
também nos sonhos, nas esperanças e na violência
de um período conturbado da história ocidental,
no qual as lutas pela liberdade eram travadas, tanto na Europa
quanto no continente americano, sem garantias de vitória.
Nossa intenção, neste trabalho, foi a de apresentar
o personagem em suas múltiplas facetas, sem pretensões
de esgotar o assunto, já que cada passagem de sua vida
permite um grande leque de interpretações.
Garibaldi, que aportou no Rio de Janeiro em 1836, fugindo
do absolutismo do reino do Piemonte, lutou na Revolução
Farroupilha e posteriormente no Uruguai, ao lado de Rivera,
tendo sido elevado à categoria de mito vivo em seu
próprio tempo. Foi alvo tanto dos mais entusiasmados
elogios quanto de duras críticas, despertando o interesse
de escritores como Alexandre Dumas, George Sand e Victor Hugo.
_____________________________________________________________
1 Sobre a escola dos Annales ver Peter BURKE. A escola
dos Annales: 1929-1989. São Paulo: USP, 1991. Ver também
Jacques LE GOFF e Pierre NORA (orgs.) Faire l’histoire.
Paris: Gallimard, 1974.
_____________________________________________________________
Em geral, na historiografia latino-americana, são
destacadas as passagens mais romanescas de sua vida, como
o encontro com Anita em Laguna, o que, sem dúvida,
impede uma análise objetiva da trajetória daquele
que foi uma das mais marcantes personalidades do século
XIX. Por outro lado, é pouco lembrada sua atuação
no Congresso pela Paz, realizado em Genebra, em setembro de
1867, sua participação como republicano na guerra
francesa de 1870 e sua atividade como parlamentar italiano,
eleito em fevereiro de 1871.
Garibaldi deixou, além das conhecidas Memórias,
uma vasta correspondência, proclamas, discursos e romances
— e em todo este material escrito é possível
perceber um pensamento original, que amalgamou as idéias
da “Giovine Italia” de Mazzini2 à sua própria
vivência dentro e fora do continente europeu. Da análise
de seus textos, de suas ações revolucionárias
e de sua participação política, surge
uma figura complexa cujo fascínio não se esgota
no que é normalmente reproduzido pelo imaginário
popular.
Da Europa à América do Sul
Nice, cidade onde nasceu Garibaldi, em 1807, teve grande parte
de sua história estreitamente ligada à Casa
Real de Savóia. Pertencendo ora a ela, ora aos franceses,
esteve nas mãos da monarquia piemontesa entre 1815
e 1860, quando retornou — então, definitivamente
— à França. Assim, quando em 1822 Giuseppe
Garibaldi iniciou, muito jovem, suas viagens na condição
de marinheiro mercante, sua cidade integrava mais uma vez
o chamado Reino do Piemonte e da Sardenha. O panorama europeu
estava conturbado, os austríacos já haviam derrotado
os piemonteses em Novara, em 1821, e as grandes potências
debatiam-se entre posições liberais e abolutistas.
Mais adiante, a partir de 1830, ocorre uma nova onda de revoluções
liberais, com a guerra dos Bourbon, na França, e as
independências da Bélgica e da Polônia.
É sob todo este clima que Garibaldi descobre, no porto
russo de Taganrog, através do contato com outros marinheiros
lígures, os ideais de Pátria e Liberdade que
irão guiar o longo processo de unificação
italiana.
Embarcando na marinha sarda, em 1833, para o serviço
militar, Garibaldi participou da fracassada insurreição
da “Giovine Italia”, no início de 1834.
Foi, portanto, como seguidor de Mazzini que atuou de modo
a receber uma condenação à morte, ditada
pelo Tribunal de Guerra de Gênova. Adotando os pseudônimos
de Giuseppe Pane e de Borel, Garibaldi inicia o que virá
a ser um exílio de doze anos, durante os quais, como
comprovam seus escritos, e especialmente sua correspondência,
estará permanentemente referindo-se à libertação
da Itália, dentro de um quadro mais amplo de liberdade
para todos os povos3.
Para melhor entender o internacionalismo revolucionário
de Garibaldi, é importante salientar que o nacionalismo
italiano do século XIX era bastante distinto de outras
correntes nacionalistas da mesma época, especialmente
da alemã. Tratava-se, no caso da Itália, de
um nacionalismo abrangente e integrador. Para Mazzini, a pátria
era a “consciência de pátria” e não
havia nesta definição nenhuma característica
de hereditariedade, o que ocorria com o “Volksgeist”
alemão. Assim, de acordo com a doutrina da “Giovine
Italia”, não era necessário ter nascido
num determinado lugar para entender profundamente as reivindicações
de seu povo. Nos ambientes revolucionários italianos,
circulavam idéias que vinculavam a luta contra os opressores
a um projeto mais amplo de liberdade para todos.
Não era, portanto, um aventureiro que desembarcava
no Rio de Janeiro em 1836, mas um exilado que se enquadrava
nos ideais de sua época. Durante seu período
brasileiro, Garibaldi optou, como outros refugiados italianos,
pela luta ao lado dos que considerava oprimidos, contra o
poder do Império, muito embora tivesse uma idéia
romântica sobre a Revolução Farroupilha.
“Corsaro! lanciato sull’oceano con dodici
compagni a bordo d’una garopera, si sfidava un impero,
si faceva sventolare per i primi, in quelle meridionale coste,
una bandiera d’emancipazione! La bandiera repubblicana
del Rio Grande!”4
Recebendo uma carta de corso para, junto com Luigi Rossetti,
apresar outras embarcações, Garibaldi iniciou
suas atividades a favor dos farrapos. Avesso a qualquer tipo
de submissão às autoridades, criticou seguidamente
as ordens de Canabarro e atribuiu a Bento Gonçalves
a indecisão nos momentos em que seria importante não
recuar na luta contra o Império5. Mas, de todos os
contatos que manteve durante o longo exílio sul-americano,
foi justamente a personalidade de Bento Gonçalves que
mais o marcou, exercendo sobre ele um grande fascínio,
tanto por sua maneira de ser, quanto pelo modo de vida dos
gaúchos, tão distinto do europeu.
_____________________________________________________________
2 Giuseppe Mazzini, advogado genovês, fundou a “Giovine
Italia” em Marselha, em 1831. Revolucionário
e mentor intelectual de muitas conspirações
de caráter republicano, viveu grande parte de sua vida
no exílio.
3 Utilizamos como fontes primárias os seguintes escritos
de Giuseppe Garibaldi, editados na Itália: Le Memorie
di Garibaldi nella redazione definitiva del 1872, Bolonha:
L. Capelli Editore, 1932; Scritti e discorsi politici e militari,
vol. I (1838-1861), Bolonha: L. Caprelli Editore, 1934; Epistolario,
vol. I (1834-1848), I stituto per la Storia del Risorgimento
Italiano, 1973; I Mille, Bolonha: L. Caprelli Editore, 1933.
Trabalhamos também com textos pesquisados nos acervos
dos museus do Risorgimento de Milão e de Turim.
4 “Corsário! Lançado no oceano com doze
companheiros a bordo de uma garoupeira, desafiava-se um império,
desfraldava-se pela primeira vez, naquelas costas meridionais,
uma bandeira de emancipação! A bandeira republicana
do Rio Grande.” Le Memorie di Garibaldi..., op. cit.,
p. 30.
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“Sobrio [Bento Gonçalves] come ogni figlio
di quella valorosa nazione, la sua vita nel campo era un açado
(arrosto) come un semplice milite: alimento unico, in quelle
campagne richissime di bestiame, ed ove, per far la guerra,
non si usano le ingombranti impedimenta, inciampo principale
degli eserciti europei.” 6
Da sua vasta correspondência constam algumas cartas
datadas de 1838 e 1839, dirigidas a Ana Gonçalves da
Costa Santos e a Antonia Gonçalves da Silva, irmãs
de Bento Gonçalves, nas quais descreve determinadas
operações de guerra mas sobretudo expressa,
de modo muito efusivo, a gratidão pela maneira como
foi tratado quando esteve nas estâncias de ambas, em
Arroio Grande e em Camaquã.7
Sobre seus companheiros de combates, Garibaldi descreve o
que certamente ocorria em todas as guerras: um grupo heterogêneo,
composto tanto por dedicados idealistas, lutando em nome da
liberdade, quanto por mercenários que, segundo ele,
haviam feito parte, em outras oportunidades, da equipagem
de barcos de piratas 8.
O fato de ter lidado com todo tipo de comandados não
significa que o próprio Garibaldi tenha agido como
mercenário — o que, aliás, não
se pode concluir nem do seu comportamento, impulsivo, porém
sempre coerente, nem da maneira como viveu, passando muitas
privações. Combateu, tanto no Brasil quanto
no Uruguai, sempre do mesmo lado para o qual se engajou (o
que, inclusive, não foi o que ocorreu em várias
oportunidades com farroupilhas ou com “blancos”
e “colorados”) e contou com limitadíssimos
meios financeiros, ocupando, em Montevidéu, apenas
uma pequena parte do que é hoje chamada a Casa de Garibaldi.
Do ponto de vista militar, sua participação
na guerra contra Rosas, também chamada Guerra Grande,
defendendo a posição de Rivera contra Oribe,
foi mais significativa do que sua atuação junto
aos farrapos. No Uruguai, lutou de forma constante e esteve
a cargo da marinha e à frente dos homens que compunham
a Legião Italiana, um dos grupos de estrangeiros organizados
em virtude da perda quase total do exército uruguaio
na batalha de Arroyo Grande, vencida por Oribe.
Garibaldi havia chegado a Montevidéu em 1841, em busca
de maior contato com a Itália, o que efetivamente se
realizava através do movimento daquele porto, e também
procurando as melhores condições de vida para
sua família, já então composta da mulher,
Anita, e do filho Menotti9. Após trabalhar algum tempo
como agente de comércio e como professor de matemática
e de história em uma escola, cujo diretor era um padre
refugiado, de origem corsa, foi chamado para lutar contra
Rosas, pois sua experiência de marinheiro era mais do
que bem-vinda numa guerra em que os rios desempenhavam um
papel decisivo.
Dentre os muitos combates dos quais Garibaldi participou durante
a Guerra Grande, uma operação totalmente vitoriosa
foi devida, em grande parte, à sua capacidade militar
e às suas qualidades de estrategista10. Tratava-se
da subida pelo rio Uruguai, iniciada em 5 de setembro de 1845,
ocupando inicialmente a ilha de Martin Garcia e continuando
sempre rio acima, em meio a inúmeras batalhas, até
culminar com a de San Antonio, de Salto, onde concentrava-se
uma grande força argentina, comandada por Brown.
Embora ainda faltasse muito para o final da guerra, a significativa
vitória de Salto, que teve como principal conseqüência
a recuperação, para o livre comércio,
de toda aquela região fluvial, fez com que a figura
de Giuseppe Garibaldi ultrapassasse as fronteiras da América
Latina. Isto porque, com a participação da França
e da Inglaterra no conflito, diversos jornalistas europeus
estavam em Montevidéu, cobrindo os acontecimentos.
Nascia, então, o herói, o revolucionário
que foi, em seguida, festejado nas obras de escritores como
Alexandre Dumas e George Sand. Começava a surgir o
mito, o de um homem que, à frente de um grupo de italianos,
emigrados e refugiados, lutava no Uruguai contra a tirania
de Rosas, levando como símbolo a camisa vermelha e
uma bandeira na qual fora pintado o vulcão Vesúvio.
Bandeira negra, cujo significado para a Legião Italiana
era o luto pela opressão na qual a Itália ainda
vivia. Estavam, então, criadas as condições
para que Garibaldi, posteriormente, ficasse conhecido como
o “herói dos dois mundos”.
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5 Ibidem, p. 55.
6 “Sóbrio [Bento Gonçalves] como os filhos
daquela valorosa nação, a sua vida no campo
era um assado como um simples soldado: alimento único
naquela campanha riquíssima de gado e onde, para guerrear,
não se usam os incômodos paramentos, estorvo
principal dos exércitos europeus.”
Ibidem, p. 54.
7 Epistolario, op. cit., pp. 24 a 29.
8 Le Memorie di Garibaldi..., op. cit., p. 57.
9 Ibidem, p. 125.
10 “Sono infatti convinto che la più grande capacità
di Garibaldi, anche se certo non l’unica, si sia manifesta
quante volte egli riuscì a combinare accortamente il
momento politico e il momento tecnico-militare dell’azione
bellica”. CEVA, Lucio, Garibaldi Stratega. In: Garibaldi
dopo i Mille (conferenze), Turim: Museu Nacional do Risorgimento
Italiano, 1983, p. 41.
_____________________________________________________________
Naquele momento, Giuseppe Garibaldi não apenas era
festejado em Montevidéu, mas sobretudo emergia como
uma figura de que a Itália necessitava, quando um novo
ciclo revolucionário estava em gestação
na Europa. Por outro lado, ele também começava
a receber notícias animadoras do seu país, até
que, no início de 1848, soube da reforma pontifícia
e da então eventual possibilidade de uma unificação
sob a égide de Pio IX11.
O retorno à Europa com o prestígio
das lutas sul-americanas
A formação de Garibaldi foi feita essencialmente
na América Latina, e a experiência revolucionária
do Brasil e do Uruguai originou um comportamento, por um lado,
mais solto, mais livre do que o europeu e, por outro, com
muitas desconfianças nas instituições
parlamentares. Das atitudes dos caudilhos, tantas vezes por
ele criticadas, herdou algumas características que
dificultaram bastante suas relações com o mundo
oficial piemontês. Sem dúvida, o comportamento
ditatorial, também presente em Bento Gonçalves,
pode ser observado em diversas ações de Garibaldi.
Em várias passagens, chegou a justificá-lo em
seus escritos12. O poncho sempre presente, sobre a camisa
vermelha, nas campanhas da Itália, era mais do que
uma lembrança latino-americana, era o próprio
símbolo de um homem transformado pelo contato com outra
cultura.
A atuação de Garibaldi na Europa deu-se
em duas etapas. A primeira delas, entre 1848 e 1849, quando
o processo de unificação parecia condenado ao
fracasso em vista da retomada do poderio da Áustria
em território italiano. A segunda, a partir de 1859,
quando, já de volta de outro exílio, engaja-se
novamente na luta para a expulsão dos austríacos,
desta vez ao lado de Vittorio Emanuele II. Quando o “Speranza”
aportou em Nice, em junho de 1848, e ali desembarcou Garibaldi,
a euforia das rebeliões de janeiro, em Palermo e de
março, em Milão e Veneza, já havia cedido
lugar a um clima bem mais comedido e que em breve se transformaria
na grande decepção da derrota de Custoza.
Próximo a Mantova, no dia 5 de julho, o rei, Carlo
Alberto, recebia aquele revolucionário que, em 1834,
havia condenado à morte. Agora, porém, era um
herói, um nome conhecido não apenas na Itália,
mas em vários países europeus, e tanto podia
servir aos interesses da Casa de Savóia — que
almejava um Grande Piemonte — como também ameaçá-la,
caso levantasse a bandeira da república13. Mas Garibaldi
acreditava que o mais importante era expulsar o opressor,
lutar contra a Áustria, ainda que para isto tivesse
que contar com o apoio da monarquia, abdicando do ideal republicano14.
Sonhava, porém, com uma insurreição popular,
o que estava longe de ocorrer, pois os camponeses, secularmente
explorados e pouco sensíveis à causa da unificação,
não respondiam da maneira como ele havia imaginado,
pactuando, inclusive, com o inimigo. Mas, por seu lado, o
aristocrático exército piemontês também
via com desconfiança aquele homem que queria uma “guerra
per bande”15.
Os anos de 1848 e 1849 foram um período difícil.
Pio IX, que havia assumido suas funções, em
1846, como um papa liberal e até mesmo constitucionalista,
revelava-se incapaz de manter uma oposição aos
austríacos, temeroso, também, de perder o poder
temporal sobre seus estados, o que acabou ocorrendo por um
breve período, quando Roma se tornou republicana. A
monarquia, após a derrota de Custoza, em julho de 1848,
agia com cautela. Quando decide declarar novamente guerra
à Áustria, é vencida, em março
de 1849, em Novara, o que leva Carlo Alberto a abdicar em
favor de seu filho, Vittorio Emanuele II.
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11 Não apenas Garibaldi, mas diversos patriotas italianos
acreditaram, num determinado momento, que Pio IX seria capaz
de fazer as reformas necessárias para que Roma se tornasse
uma peça-chave na unificação e no combate
aos austríacos. Em 16 de julho o papa proclama uma
anistia para todos os condenados políticos, permitindo
o retorno dos exilados. Mas, na realidade, tudo foi se tornando
mais complicado quando faltou ao Vaticano a coragem necessária
para seguir em frente apoiando a liberdade.
12 “Repubblicano, ma sempre più convinto della
necessità d’una dittatura onesta e temporaria
a capo di quelle nazioni che, come la Francia, la Spagna e
l’Italia, sono vittime del bisantismo il più
pernicioso.” Le Memorie di Garibaldi..., op. cit., p.
11.
13 Tanto Carlo Alberto quanto, posteriormente, Vittorio Emanuele
II, utilizam a grande popularidade de Garibaldi para seus
propósitos de fortalecer a monarquia e ampliar o reino,
com a unificação dos Estados italianos. No entanto
as constantes referências do revolucionário à
liberdade e ao direito dos povos, bem como seu anticlericalismo
fazem com que seja também uma figura temida pela aristocracia.
14 “Io fu repubblicano; ma quando seppi che Carlo Alberto
si era fatto campione d’Italia, io ho giurato di ubbidirlo,
e seguitare fedelmente la sua bandiera. In lui solo vidi riposta
la speranza della nostra independenza: Carlos Alberto sia
dunque il nostro capo, il nostro simbolo.” Discurso
no Círculo Nacional de Gênova, em 3 de julho
de 1848. In: Scritti e discorsi politici e militari, op. cit.,
p. 88.
15 Garibaldi estará sempre em conflito com os generais
piemonteses e seus voluntários serão vistos
como um grupo desorganizado e ameaçador, cujo extremismo
poderia levantar as massas não apenas em favor da unificação,
mas também contra o rei e sobretudo contra o poder
temporal do Papa. Não obstante, a chamada “guerra
per bande” foi quase sempre bem sucedida, alcançando
vitórias significativas.
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Em meio a todos esses acontecimentos, Garibaldi
continua lutando, percorrendo a península e juntando-se
aos republicanos em Roma, no início de 1849, quando
chega a se eleger deputado para a Assembléia Constituinte.
Mas também a república romana terá curta
duração. O poder temporal do Papa é restabelecido
com o apoio não apenas dos austríacos, mas ainda
de Luís Napoleão e de seu exército comandado
por Oudinot. Garibaldi, que havia também participado
de um bem-sucedido ataque ao exército do rei de Nápoles,
deve contentar-se em deixar Roma, numa longa e dolorosa marcha
para o norte, durante a qual morre Anita, em agosto de 1849.
A monarquia teme perder suas possessões, em face da
agressividade dos invasores, e não pretende, então,
entrar em novos litígios nem com a França e
nem mesmo com a própria Áustria. Não
restava, pois, a Garibaldi, outra solução que
não fosse mais um exílio, já que ele
havia continuado a lutar, com a sua legião, mesmo após
a queda de Roma e o retorno de Pio IX. Passando inicialmente
pela Sardenha, onde fica sabendo que o ameaçam de prisão,
embarca primeiro para Tanger e depois para os Estado Unidos.
Viverá na América do Norte de 1850 a 1854, trabalhando
mais uma vez como marinheiro mercante. Viaja muito, vai à
Austrália, ao Peru, à Bolívia, à
China e, por último, à Inglaterra, onde mantém
contatos políticos importantes. Desembarca em Londres
em 1854, encontrando-se ali com Ledru-Rollin, com o socialista
russo Herzen e com o próprio Mazzini. Naquela oportunidade
decide retornar à Itália, ao saber que Cavour
não impediria sua volta16. Na verdade a monarquia do
Piemonte havia recebido informações de seu embaixador
na Inglaterra acerca das divergências entre Garibaldi
e Mazzini, o que tornava o primeiro menos perigoso, a seus
olhos17.
As campanhas da Sicília e de
Nápoles
O retorno de Garibaldi é o início não
apenas de uma série de campanhas militares, das quais
a mais famosa — a Expedição dos Mil, à
Sicília — confirmou seu carisma e suas qualidades
de estrategista, mas também de um conturbado período
no qual ele irá se chocar freqüentemente com a
ambigüidade das posições de Vittorio Emanuele
II e, sobretudo, com Cavour.
Decidido a permanecer algum tempo tranqüilo, instala-se
na ilha de Caprera, entre a Córsega e a Sardenha, onde
constrói uma casa e cultiva a terra. Mas, a idéia
da unificação italiana não o abandona.
Quando, em 1859, o reino do Piemonte prepara a chamada Segunda
Guerra de Independência, contra a Áustria, com
o apoio de Napoleão III, Cavour e Vittorio Emanuele
dão a Garibaldi o comando do corpo de voluntários
“Cacciatori delle Alpi”, com o qual ele terá
oportunidade de demonstrar sua grande habilidade estratégica.
Alcança vitórias importantes contra os austríacos,
mas insiste na conquista de Roma e na marcha para o Sul, o
que não estava nos planos, ao menos imediatos, da Casa
Real.
Cavour procurava ser, acima de tudo, prudente. Talvez até
mais do que o próprio rei, que algumas vezes se mostrava
interessado na possibilidade de aumentar seus domínios.
Mas, o primeiro-ministro era um liberal, preocupado com a
modernização, nos moldes ingleses, e com a prosperidade
da burguesia do Piemonte e da Lombardia e, portanto, pouco
animado a estimular uma campanha para a liberação
do Sul.
A insurreição da Sicília (Palermo, em
abril de 1860), e as diversas revoltas na ilha vão
acelerar o processo a favor de uma guerra. Crispi, junto com
outros sicilianos unitários, pede ajuda a Garibaldi,
que organiza então a Expedição dos Mil,
desembarcando em Marsala, a 11 de maio de 1860, e travando
uma vitoriosa batalha em Calatafimi. É o início
da guerra contra o domínio dos Bourbon e o primeiro
passo importante que conduzirá as chamadas Duas Sicílias
à integração com o Reino da Itália.
Garibaldi conquista Palermo, Messina e, em fins de junho de
1860, assume o título de “ditador”. Suas
atitudes, seu carisma e também a maneira como justifica
a necessidade de um governo forte, para o bem da população,
assemelham-se muito, neste momento, ao comportamento dos caudilhos
latino-americanos com os quais conviveu em seu primeiro exílio.
Ao mesmo tempo em que Garibaldi parte para o ataque a Nápoles,
onde, mais uma vez vencedor, se instalará no Palácio
do Governo, então como “ditador das Duas Sicílias”,
Vittorio Emanuele II movimenta-se com suas tropas sardas em
direção ao Sul, pois apesar das reticências
de Cavour, percebe que a partida está ganha e que a
monarquia pode assumir a vitória dos garibaldinos.
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16 Cavour preocupava-se em expulsar os austríacos,
mas sem conquistar os Estados Pontificais, protegidos por
Napoleão III. Assim, contaria com a boa-vontade da
França na guerra contra a Áustria.
17 GALLO, Max. Garibaldi — La force d’un destin,
Paris: Éditions Fayard, 1982, p. 210.
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A Inglaterra, neste meio tempo, seguia com sua
própria política de neutralidade, porém
favorável à unificação e condescendente
com os revolucionários que gozavam de uma excelente
imagem em Londres. Em Marsala, diversos ingleses possuíam
propriedades vitivinicultoras, e navios britânicos encontravam-se
ancorados no porto quando ocorreu o desembarque dos Mil18.
Interessada sobretudo na paz e na estabilidade, que permitia
florescer o liberalismo, esperava que um reino italiano unificado
fosse um contrapeso importante ao crescente desenvolvimento
francês sob Napoleão III.
Dia 7 de novembro de 1860, um “proclama”
participa oficialmente a entrada de Vittorio Emanuele em Nápoles19.
Garibaldi entrega, então, o governo ao rei, embora
lamentando que Roma continue subordinada ao poder temporal
do Papa, sob a proteção dos franceses. No ano
seguinte, atacará violentamente Cavour, em um proNúnciamento
feito no parlamento italiano, para o qual havia sido eleito.
A sessão será muito tumultuada, com grande agitação
nas tribunas, repletas de assistentes que ali se encontravam
especialmente para vê-lo20.
Garibaldi aceitava com dificuldade a política
da monarquia que, apoiada no elemento urbano liberal e na
elite, era levada a fazer concessões, especialmente
em nível internacional, na luta contra a Áustria.
A Casa Real italiana, mas principalmente Cavour, com sua diplomacia
voltada para obter ajuda francesa, agia com muita cautela
com relação ao poder temporal do Papa, já
que Roma era defendida por tropas de Napoleão III.
Quando, em 1862, Garibaldi volta a insistir numa campanha
para tomá-la, será atacado pelos soldados de
Vittorio Emanuele II em Aspromonte, o que um dos historiadores
do “Risorgimento” qualifica como uma página
negra da história italiana. “Après l’Aspromonte,
l’Europe sut que l’Italie avait un gouvernement,
mais combien hyprocrite et combien brutal”21.
Republicano e revolucionário
Giuseppe Garibaldi não encerrou suas atividades
militares no triste episódio de Aspromonte. Em 1864,
esteve pela segunda vez em Londres, dez anos após o
desembarque que marcou seu retorno à Europa, vindo
do exílio norte-americano. Mas agora suas relações
com Mazzini eram mais cordiais, e sua decepção
com o reino italiano, muito grande. Encontrou-se novamente
com Herzen, com membros de sociedades operárias, retornando
à ilha de Caprera sem desistir da idéia de conquistar
o Vêneto e Roma. Quando, em 1866, Vittorio Emanuele
II, numa aliança com a Prússia, entra novamente
em guerra contra a Áustria, Garibaldi está presente,
comandando o Corpo de Voluntários.
Novas batalhas, nova reclusão, a “liberdade vigiada”
em Caprera e, em 1870, a participação na guerra
francesa, em Dijon, lutando pela república. Em outubro
de 1870, havia divulgado uma carta aberta à população
de Nice, na qual explicava os motivos pelos quais se solidarizava
com a França, defendendo a república, e condenando
a política de Napoleão III22. Nesta mesma carta,
voltava a falar sobre a necessidade de liberar Roma, o que,
afinal, ocorreria sem a sua participação, com
o exército real, em 1870.
Republicano de primeira hora, mas convicto de que a única
possibilidade para a unificação italiana era
o apoio aos projetos da Casa Real, Garibaldi foi um revolucionário
com um desenvolvido senso de estratégia nos campos
de batalha, porém um homem que se adaptava mal às
necessidades da política. Justificava as atitudes de
Vittorio Emanuele II, das quais, no entanto, discordava, acusando
Cavour de manipular o monarca e de ser ele a causa de todos
os infortúnios que dificultavam a unificação.
Lutava pela liberdade, agia em favor da liberdade, escrevia
contra a opressão e trabalhava permanentemente para
a unidade do país.
Também fora dos campos de batalha Garibaldi confirmou
sua cruzada libertadora. Em 1867 foi à Conferência
Internacional pela Paz, realizada em Genebra, e apresentou
um programa propondo um sistema de arbitragem internacional
que tornasse impossível a guerra entre as nações.
Mas, seu discurso, marcadamente anti-clerical, sofreu duras
críticas, tanto da imprensa católica quanto
da protestante.
O relacionamento de Garibaldi com a esquerda européia
foi bastante polêmico, em parte devido a seu caráter
impulsivo e individualista. Numa carta a Giuseppe Petroni,
em outubro de 1871, critica os “doutrinários”
da Comuna de Paris, considerando-a, porém, uma revolta
justa de oprimidos contra opressores23. Em novembro desse
mesmo ano, escreve a Giorgio Pallavicino, sobre a Internacional:
_____________________________________________________________
18 Ibidem, p. 260.
19 Despacho-proclama, aos napolitanos e sicilianos, aNúnciando
a entrada de Vittorio Emanuele II em Nápoles e assumindo
a soberania dos Estados do Sul. Milão: Acervo do Museu
do Risorgimento (Pesquisa nossa).
20 Scritti e discorsi politici e militari, op. cit., pp. 358-382.
22 Carta de Garibaldi à população de
Nice, datada de 5 de outubro de 1870. Citada no Catálogo
da exposição Garibaldi dopo i Mille (1861-1882).
Turim: Museu Nacional do Risorgimento Italiano, 23 outubro/20
dezembro 1982, p. 74.
23 Carta a Giuseppe Petroni, datada de 21 de outubro de 1871,
ibidem, p. 82.
_____________________________________________________________
“(...) io appartengo all’Internazionale
da quando serviva la Repubblica del Rio Grande e di Montevideo,
cioè molto prima di essersi costituita in Europa tale
Società (...)”24
Eleito para o Parlamento em 1874, é considerado um
deputado de esquerda, embora uma declaração
da Internacional, neste mesmo ano, diga que o socialismo garibaldino
é um equívoco. Seu trabalho para melhorar as
condições de vida da população
é, porém, digno de nota. Em 1875 obtém
a aprovação de um projeto favorável à
região agrícola em volta de Roma e apresenta
sugestões importantes para a navegabilidade do rio
Tibre. Defende constantemente o ensino obrigatório
e gratuito e a liberdade de imprensa.
No início de 1882, já muito doente, viaja a
Palermo, para participar das comemorações do
VI Centenário das Vésperas Sicilianas25, atendendo
a um apelo de Crispi. Naquela oportunidade, transmite uma
mensagem ao povo palermitano, convidando-o a “combattere
l’ignoranza, svegliare il libero pensiero”. É
um apelo dirigido a “tutti gli italiani, fino alle plebi
delle città e campagne”26. Poucos meses depois
desta aparição em público e do texto
comovente, considerado como seu “testamento político”,
Garibaldi morre, dia 2 de junho, em Caprera.
Piangi, Italia, la morte del padre
che i suoi figli correvan ad abraciar.
Che al suon di tromba all’armi
Lor correvan per terra e per mar.”27
_____________________________________________________________
24 “…eu pertenço à
Internacional desde quando servia a República do Rio
Grande e de Montevidéu, isto é, muito antes
de constituir-se tal sociedade na Europa…” Carta
a Giorgio Pallavicino, datada de 14 de novembro de 1871, ibidem,
p. 82.
25 Vésperas Sicilianas designa a revolta de 1282, contra
o rei Carlos da dinastia de Anjou.
26 GARRONE, Alessandro Galante. Garibaldi Politico. In: Garibaldi
dopo i Mille, op. cit., p. 40.
27 “Chora, Itália, a morte do pai / que os seus
filhos corriam a abraçar / que ao som da corneta às
armas / então corriam por terra e mar” Folheto
avulso, intitulado Lode al Prode Generale Giuseppe Garibaldi.
Milão: Acervo do Museu do Risorgimento. (Pesquisa nossa).
_____________________________________________________________
Fontes primárias e referências
bibliográficas
Fontes
EXPOSIÇÃO Garibaldi dopo i Mille
(1861-1882). Catálogo. Turim:
Museu Nacional do Risorgimento Italiano, 23 outubro/20 dezembro
1982.
GARIBALDI, Giuseppe. Le Memorie di Garibaldi nella redazione
definitiva del 1872, . Capelli Editore, Bolonha, 1932;
. Scritti e discorsi politici e militari, vol. I (1838-1861),
L Caprelli Editore, Bolonha, 1934;
. Epistolario, vol. I (1834-1848), Istituto per la
Storia del Risorgimento Italiano, 1973; I Mille, L. Caprelli
Editore, Bolonha, 1933.
PROCLAMA aos napolitanos e sicilianos. Milão: Acervo
do Museu do Risorgimento, 7 de novembro de 1860.
Bibliografia básica
CANDELORO, Giorgio. Storia dell’Italia Moderna:
Dalla Restaurazione alla Rivoluzione Nazionale.
Milão: Feltrinelli, 1990.
Storia dell’Italia Moderna: La Rivoluzione Nazionale.
Milão: Feltrinelli, 1990.
Storia dell’Italia Moderna: Dalla Rivoluzione Nazionale
all’Unità. Milão: Feltrinelli, 1990.
GALLO, Max. Garibaldi — La force d’un destin.
Paris: Fayard, 1982.
MONTANARI, Luigi (org.). Garibaldi a Ravenna. Ravenna:
Societá Conservatrice del Capanno Garibaldi, 1982.
ROMANO, Sergio. Histoire de l’Italie du Risorgimento
à nos jours. Paris: Seuil, 1977.
Memória de Garibaldi e a
construção da identidade entre
italianos no Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
_____________________________________________________
Doutora em História Social, docente do
Programa de Pós-graduação em História
da PUC-RS
As mais freqüentes representações
de Garibaldi, no Rio Grande do Sul, são acompanhadas
por imagens bem conhecidas: a imagem do general unificador
da pátria italiana e a imagem do herói da Revolução
Farroupilha. Destes símbolos fazem uso os imigrantes
italianos, no processo de construção de uma
italianidade no Brasil meridional.
Para analisar o processo de construção da identidade
entre imigrantes, é necessário historiar a presença
dos mesmos no Rio Grande do Sul, considerando diferentes contextos.
Pois, para Conzen, identidade étnica é uma construção
cultural que se realiza em determinado tempo histórico;
grupos étnicos se recriam constantemente e a etnicidade
é sempre reinventada para fazer frente a realidades
que mudam, comportando diálogo com a cultura dominante.
Conzen esclarece que, para tanto, os símbolos expressivos
da etnicidade ou as tradições étnicas
são reinterpretados continuamente; que construir uma
identidade implica participação ativa de parte
expressiva da comunidade de imigrantes. A mesma autora acrescenta
que, nessas comunidades, surgiu uma forma de nacionalismo
italiano militar patriótico, presente, sobretudo, nas
associações de mútuo socorro que abraçavam
símbolos criados no Reino recém fundado; tais
associações cultuavam representantes da família
real italiana ou heróis do Ressurgimento, sendo Garibaldi
o favorito.1 Processo semelhante ocorria em vários
países e também no sul do Brasil.
No presente ensaio, pretende-se analisar o papel simbólico
fundamental de Garibaldi na construção de uma
italianidade, considerando diferentes contextos históricos
rio-grandenses, entre 1835 e 1930, com ênfase na imigração,
e considerando a participação de Garibaldi na
Revolução Farroupilha e no processo da unificação
italiana. Delimito como espaço principal a cidade de
Porto Alegre, capital da Província, porque apresenta
a maior concentração populacional, e porque
é espaço de decisões e de confluência
entre pessoas de diferentes origens, desde o início
do século XIX.
_____________________________________________________________
1CONZEN, Kathlen Neil et. alii. The invention of ethnicity.
Altreitalie. Torino: Fondazione Giovanni Agnelli. n.3, ano
II, abril, 1990 pp 6;24.
_____________________________________________________________
Qualquer estudo que se possa fazer sobre os italianos no
Rio Grande do Sul precisa considerar, no mínimo, três
tipos de presença desses estrangeiros: a presença
de especialistas e de religiosos notada desde a segunda metade
do século XVIII; a presença precoce de profissionais
liberais, artistas e comerciantes, registrada a partir da
segunda década do século XIX nas zonas urbanas;
a presença de italianos através dos grandes
fluxos imigratórios estimulados pelo governo, fluxos
que também oportunizaram a presença de imigrantes
espontâneos, em grande parte provenientes da Itália
meridional.
Assim, dentre os pioneiros já havia grandes diferenças
culturais, pois eram oriundos de várias regiões
italianas; muito maior foi a diversidade encontrada entre
aqueles que fizeram parte dos grandes contingentes. Constata-se,
portanto, uma grande heterogeneidade entre pessoas que falavam
diferentes dialetos, que apresentavam usos e costumes muito
diversos entre si, correspondentes a distintas regiões
então recém unidas sob o escudo da casa de Savóia.
A partir destas constatações, pergunto como
esses imigrantes conseguiram evidenciar italianidade, se a
maioria desconhecia o idioma italiano e se, considerando a
variável tempo, nem mesmo poderiam ter desenvolvido
uma concepção nacionalista, o patriotismo desejado
pelas elites responsáveis pela Unificação,
presos que ainda se encontravam às diferentes regiões
de origem.
Tempo de Imigração
A presença italiana que chamo precoce na capital
da Província é ainda esparsa e constituída
por indivíduos provenientes das diversas regiões
italianas, nos meados do século XIX; há evidências
que apontam para grande número de lígures, a
exemplo do que aconteceu em outras cidades sul-americanas,
como demonstram estudos de Chiara Vangelista.2
Sabe-se que italianos encontravam-se no território
do Rio Grande do Sul antes do surgimento de núcleos
urbanos. Participaram das guerras entre Portugal e Espanha,
assim como das campanhas de demarcação do território,
como astrônomos, cartógrafos, engenheiros, cirurgiões.
São apenas exemplos de especialistas contratados pelas
coroas ibéricas. No século XVIII é uma
presença esporádica e rarefeita ao extremo,
tornando-se mais notada nas primeiras décadas do século
XIX, sobretudo a partir da Revolução Farroupilha.
Além de nomes conhecidos como Garibaldi, Rossetti ou
Zambeccari, sabe-se que foram muitos os italianos envolvidos
no movimento revolucionário: Matru, Cuneo, Carniglia,
Valerini, Staderini, Torrisan e outros, que deixaram registro
de sua passagem em território rio-grandense.
Na primeira metade do século XIX, a presença
de italianos na Província já não é
novidade. São elementos ligados à navegação
ou ao comércio, como se pode depreender dos relatos
de viajantes ou da correspondência diplomática.
Porto Alegre, capital administrativa e principal centro comer-cial,
exerceu atração para estrangeiros. Não
seria diferente com italianos, cujas evidências de presença
podem ser encontradas nos livros paroquiais e, mais do que
isto, nos livros de registro de batismo, que permitem concluir
por relativa fixação, visto que alguns indivíduos
batizam vários filhos, sobretudo a partir da década
de 1840. Fato é que, por volta de 1850, havia comprovadamente
41 famílias radicadas na cidade. 3
A origem de Porto Alegre encontra-se no povoado formado por
açorianos em 1752 que, em 1822, fora elevado à
condição de cidade por carta imperial.
No início do século XIX o núcleo urbano
crescera rapidamente, em decorrência da ampliação
da lavoura tritícola, da qual era o principal centro
exportador. Com a decadência desta lavoura, a cidade
estagnou, entre 1820 e 1858, sendo reativada pelas exportações
das colônias alemãs, estabelecidas nas suas proximidades
desde 1824.
Nas primeiras décadas do século XIX, houve aquela
intensa movimentação política, concentrando
intelectuais cujas idéias são veiculadas pela
imprensa, depois de discutidas nas lojas maçônicas.
A eclosão da Revolução Farroupilha fez
com que a cidade fosse ocupada por revolucionários
e que, por algum tempo, republicanos italianos nela estivessem
atuando.
A partir de 1840, há traços da presença
de italianos em Porto Alegre, encontrados na imprensa, como
anúncios de estabelecimentos comerciais e participações
de falecimento; há maior incidência de registros
nos livros de batismo da Paróquia Matriz de Nossa Senhora
Mãe de Deus. De 1850 em diante, esta presença
é constante e, até 1914, será crescente.
_____________________________________________________________
2 VANGELISTA,Chiara. Traders and workers: sardinian subjetcs
in Argentina and Brazil. In: RAMIREZ,Bruno & POZZETTA,G.
The Italian Diaspora: migrations across the globe. Toronto:
News Cultural History Society, 1992. p.37-50.
3 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano da esquina:
imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST,
1991.
_____________________________________________________________
Por volta de 1870, já podem ser notados alguns homens
que se destacam no grupo italiano, considerado psicossocial
em forma de comunidade. Seus componentes têm projeto
comum, laços ideológicos, estabilidade e normas
de coexistência.4 Analisando suas trajetórias,
a característica da estabilidade é percebida,
sobretudo, pelo estabelecimento de laços de compadrio.5
O crescimento da presença italiana e a formação
de uma comunidade podem ser explicados.
A guerra contra o Paraguai oportunizara bons negócios
ao comércio porto-alegrense, como registra Franco.
O arsenal ampliara sua produção, chegando a
empregar mais de 200 trabalhadores. Foi estimulado o surgimento
de indústrias e da Praça do Comércio,
fundada em 1858, cujo quadro de associados foi sendo aumentado.6
Desde a década de 1870, apareciam na cidade nítidos
sinais de modernização. Foram introduzidos o
transporte urbano por tração animal e a iluminação
pública a gás. A Companhia Telefônica
inaugurou seus serviços; a Praça da Matriz foi
embelezada com a inauguração de imponentes edifícios
públicos que formaram harmonioso conjunto com o Theatro
São Pedro. Fundou-se a Biblioteca Pública, inaugurou-se
o primeiro trecho de ferrovia na Província, ligando
a capital à zona de colonização alemã.
Em trânsito chegavam à cidade, desde 1875, grandes
contingentes de imigrantes italianos, que seguiriam para as
colônias recém estabelecidas pelo governo imperial.
Os italianos já radicados em Porto Alegre formavam
uma comunidade, e logo apresentariam diferenças dos
imigrantes que passaram a engrossar os contingentes, grande
maioria constituída por camponeses humildes, desprovidos
de recursos, atraídos por agentes que atingiam, intencionalmente,
as populações rurais mais desamparadas do Vêneto,
Lombardia, Trentino e Friuli.7
Alguns conterrâneos de Garibaldi no Rio Grande do Sul
ingressaram através do movimento revolucionário,
cerca de 30 anos antes. Na década de 1870, apareciam
as agremiações fundadas por italianos, sendo
a primeira delas na cidade de Bagé, em 1871, seguida
de muitas outras e marcadas por inspiração político-patriótica.
Em Porto Alegre, evidenciando uma comunidade, os italianos
fundam, em 1º de julho de 1877, a Sociedade “Mutuo
Soccorso e Benevolenza”, nome que, em março do
ano seguinte, foi mudado para “Vittorio Emanuelle IIº”,
em homenagem ao rei unificador recentemente falecido. Dentre
os primeiros sócios encontram-se Azzarini e Obino,
antigos companheiros revolucionários de Garibaldi.
Os estatutos são redigidos ainda em 1877, sendo aprovados
pelo Governo Provincial em 1882. Prevêem número
de sócios ilimitado, desde que fossem italianos, nascidos
em solo italiano ou nas províncias ainda não
unificadas, ou ainda fossem filhos de italianos. Foram objetivos
estabelecidos à sociedade: unir todos os italianos
radicados em Porto Alegre; promover o bem-estar dos sócios;
socorrer os mesmos na doença; pagar despesas de enterros;
auxiliar na procura de trabalho.8
A premência em construir uma sede própria revela-se
à diretoria da Vittorio quando outra sociedade,
a Umberto Iº, inicia a construção
do seu prédio. Os fundos que haviam sido arrecadados
para o Hospital Italiano, insuficientes ao empreendimento,
serviram para iniciar as obras do edifício próprio
em terreno adquirido na rua Sete de Setembro, área
central da cidade.
Às duas horas da tarde do dia 3 de julho de 1904, em
cerimônia prestigiada por representantes do presidente
do Estado, pelo intendente municipal, por representante do
distrito militar e pelo cônsul geral, houve sessão
solene de inauguração do palacete.
Encerrados os discursos, deram-se “vivas à Itália
e ao Brasil” e os brindes foram acompanhados pela banda
do 1º Batalhão da Brigada Militar.9 A nova sede
passou a ser considerada como imóvel “mais precioso
moralmente do que materialmente [...] edifício que
conferia decoro e atendia aspirações da coletividade.10
Através de fotografias pode-se admirar a imponência
da construção de dois pisos, em estilo neoclássico,
com parte da fachada em mármore, seis aberturas frontais,
e sacadas de ferro, sendo que as três portas do piso
superior encontravam-se guarnecidas, na parte superior, por
nichos. Ao centro estava o busto do Rei Vittorio Emanuelle
II, ladeado por aqueles de Garibaldi e de Mazzini; destacava-se
ainda no frontão uma alegoria à pátria
italiana.
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4 BASBAUM, Leôncio. História e Consciência
Social. S.Paulo: Global, 1982. p.145-50
5 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da Esquina
: imigrantes na sociedade porto-alegrense.
Porto Alegre: EST, 1991.
6 FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre e seu comércio.
Porto Alegre: Associação Comercial de Porto
Alegre, 1983.
7 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Gli emigranti dall´Italia
del sud a Porto Alegre: studio di storia sociale. In: TRENTO,
Angelo org. La Presenza italiana nella storia e nella cultura
del Brasile. Torino: Fondazione Giovanni Agnelli, 1991. p.263-283.
8 RIO GRANDE DO SUL. Actos do Governo da Província
do Rio Grande do Sul de 1882. Porto Alegre: Officina Typographica
de Carlos Echenique, 1908. p. 6-21
9 A Federação. Porto Alegre, 4 de julho de 1904.
10 CINQUANTENARIO... Op.cit p. 366-7.
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Os dois personagens republicanos no alto da fachada oferecem
indício da orientação política
do grupo que dirigia a agremiação. Orientação
que é explícita quando a diretoria, no mesmo
ano da fundação da sociedade, escolhe Garibaldi
como presidente honorário. O general agradece de Caprera,
onde se encontra, através de carta escrita em setembro
do mesmo ano:
“Miei cari amici,
Grazie per il pregiato titolo di vostro presidente onorario.
Ricordo con gratitudine l’ospitalità ricevuta
tra la generosa popolazione del Rio Grande. Sempre vostro,
G.Garibaldi.”11
Agradecia aos membros da diretoria da Sociedade Vittorio
Emanuele II, alguns remanescentes dos batalhões
farroupilhas, outros da Legião Garibaldina no Uruguai:
Viale, Ratto, Raffo, Piccardo, Azzarini, Obino. 12
Construíam uma identidade italiana através
de processo semelhante àquele que se verificou em outros
países, tendo Garibaldi como personagem símbolo
preferido. Entretanto, se tal preferência era perceptível
em outras regiões estrangeiras ou brasileiras, muito
mais justificada seria no Rio Grande do Sul, onde, na liderança
da comunidade, encontravam-se antigos companheiros do General.13
Durante os quarenta anos em que a sociedade funcionou
na sede da rua Sete de Setembro, serviu como referência
à vida social da cidade, promovendo e destacando a
coletividade peninsular através da liderança
que exercia em todo o Rio Grande do Sul. Nas suas dependências
eram recebidas personalidades brasileiras, representantes
de governos estrangeiros e visitantes italianos, como Annita
Italia Garibaldi, em 1929, neta do General, cujo nome continuaria
sendo homenageado.
Mas a imagem de Garibaldi sofria transformações
no curso do tempo, em decorrência de um diálogo
permanente com a cultura dominante, sempre a reforçar
o papel de símbolo de uma comunidade que se radicara
desde muito no Rio Grande do Sul, e que se multiplicara também
a partir de 1875, quando ingressaram os primeiros
contingentes de imigrantes como resultado da ação
do governo imperial. O Rio Grande do Sul passara a desenvolver
projetos de colonização, com recrutamento de
imigrantes no norte da Itália. Assim, foram chegando
os italianos e formando os primeiros núcleos coloniais:
Nova Milano, Conde d’Eu, Dona Isabel, Caxias, Alfredo
Chaves, Silveira Martins, entre 1875 e 1884. Mas o sistema
de colonização seria efetivamente desenvolvido
pelo Governo Estadual, uma vez implantado o regime republicano.
O grupo ampliara-se muito depois da fundação
da Società Vittorio Emanuele II. Seus fundadores evidenciaram
consciência de nacionalidade, cultuaram os heróis
e os feitos do Ressurgimento, pois o nome de Garibaldi já
estava glorificado na Itália. É o retrato de
Garibaldi que se encontra na parede da casa dos que desejam
ser italianos. Foi reproduzido em série pelo fotógrafo
Calegari, feito Cavaliere pelo representante do Reino
da Itália. O ateliê Calegari vende uma fotografia
pintada a óleo, representando o general da Unificação,
vestido com a camisa vermelha, uniforme dos soldados que fizeram
parte da Expedição dos Mil.
Dentro em pouco outra representação somar-se-ia
à figura do general, extraída da tradição
rio-grandense, resgatada da narrativa da Revolução
Farropilha.
Tempo de crise e revolução
A Província encontrava-se mal e a insatisfação
manifesta-se entre os poderosos. Proprietários rurais
formam o grupo de poder desde que as sesmarias começaram
a ser generosamente distribuídas. Das estâncias
comandava-se os homens e a produção; delas saíam
as ordens que administravam as vilas, através de suas
pobres câmaras. Estas, como instituições
dependentes das ordenações portuguesas, tinham
pouquíssima autonomia. Entretanto, mais e mais insatisfação
notou-se quando a dependência do poder central perpetuava-se,
uma vez realizada a independência política de
Portugal.
Se idéias republicanas e federalistas manifestavam-se
no Brasil desde o final do século XVIII, foram neutralizadas
na euforia em torno de D. Pedro, que se fizera o primeiro
imperador ao desafiar as famigeradas cortes portuguesas, que
dizia escravizarem D.João, seu pai. Antes que outro
o fizesse, colocou a coroa na própria cabeça,
seguindo o conselho recebido.
Ao contrário do que aconteceu em outras províncias,
como no Pará ou na Bahia, o Rio Grande do Sul acolheu
bem a idéia do país independente, comandado
pelo jovem Imperador. Ressurgira a esperança de que
as coisas melhorassem, esperança que logo se revelou
vã, porque começava um longo tempo de crise.
_____________________________________________________________
11 Cinquentenario della Colonizazione Italiana nello Stato
del Rio Grande del Sud: 1875-1925. Porto Alegre: Globo; Roma:
Ministero degli Affari Esteri d’Italia, 1925. p.365.
12 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da esquina.
Op.Cit
13 Santoro de Constantino, N. & Ospital, M.S., Construção
de identitade e associações italianas: La Plata
e Porto Alegre (1880-1920), Estudios Ibero-Americanos, XXV,
2, 1999.
_____________________________________________________________
Realizada e consolidada a independência, as elites
do sudeste tratam de organizar um estado em que fossem hegemônicas,
o que efetivamente transparece na promulgação
da Constituição de 1824. O desenvolvimento econômico
das outras regiões era prejudicado pela política
do Império, a serviço dos interesses do Sudeste.
Essa política se manifestava, sobretudo, na cobrança
exagerada de impostos e no uso da receita cambial das províncias
em benefício do Sudeste.
Durante a década de 1820, cresceram as dificuldades
para o Rio Grande do Sul. Os impostos sobre o charque inviabilizavam
a produção; a taxa de transporte elevara-se
de tal forma que o charque platino alcançava o Sudeste
quase pela metade do preço daquele produzido na Província.
Os países platinos se reorganizavam economicamente,
após suas guerras de independência, produzindo
melhor e em maior quantidade, introduzidas máquinas
a vapor e mão-de-obra assalariada. Além do mais,
para estimular a produção, esses países
isentavam de impostos seus produtos, em verdadeira guerra
fiscal.
Nossos couros, produto similar àquele dos países
platinos e outra importante fonte de renda, pagavam o “quinto”
para a comercialização e, se exportados, teriam
a tributação duplicada; a erva-mate também
perdia mercado, porque todos os produtos rio-grandenses foram
sobretaxados, a título de “dízimo”.
A decadência econômica era percebida e discutida,
fosse na agricultura, especialmente a do trigo, ou na pecuária;
fosse nas manufaturas ou no comércio, como é
exemplar o caso do charque.
A situação política agravou-se quando
as tropas das Províncias Unidas do Prata invadiram
a Província Cisplatina, em 1825, invasão de
que resultou um estado independente, a República Oriental
do Uruguai. O governo brasileiro reagira, enviando um exército
e uma armada para evitar a perda da Província. A batalha
decisiva foi a do Passo do Rosário, em fevereiro de
1827, com vantagem para os argentinos. Como sempre, o grosso
do contingente brasileiro era constituído por militares
rio-grandenses.
A maior parte dos recrutamentos era feita na Província,
e a requisição tornava-se “o espantalho
geral... Por isso o Rio Grande era denominado ‘Estalagem
do Império’”, como escreveu Batista Pereira
.14
Francisco de Sá Brito, nascido em 1808 e falecido em
1875, em suas memórias, considera as causas da Revolução
Farroupilha, destacando o “despotismo militar que pesou
sobre a província, desde a fundação do
seu presídio em 1737...” Afirma que, às
vésperas da Revolução, o presidente da
Província continuava empenhando-se para colocar “farda
às costas dos filhos das principais famílias”.
Acrescenta que o Barão do Cerro Largo, General José
de Abreu, foi a principal vítima da imperícia
do General-em-chefe, o Marquês de Barbacena; que o desastre
da Batalha do Rosário contribuiu para “indispor
os ânimos contra o governo do Brasil”.15
Os militares rio-grandenses acreditavam que o comando das
forças militares era um direito que lhes pertencia;
Barbacena não só perde a batalha, como aumenta
as antipatias regionais. O desastre brasileiro de Passo do
Rosário, ou a vitória de Ituzaingó como
querem os argentinos, serviu de motivo para uma acirrada campanha
contra o governo imperial.
A abdicação de D. Pedro I só fez piorar
o quadro, com a polarização em duas facções.
De um lado os retrógrados, também chamados galegos,
caramurus, restauradores, escravos do Duque de Bragança
ou absolutistas. De outro lado os exaltados, também
conhecidos como anarquistas, farrapos ou farroupilhas,
em referência aos sans-culotte franceses.
A partida de D. Pedro I revolta os retrógrados
que, em todo o país, articulam o retorno do Imperador
ao trono brasileiro. No Rio Grande não seria diferente,
envolvendo sociedades, lojas maçônicas e a imprensa.
Em Porto Alegre há tumulto: o presidente Fernandes
Braga, que agradava aos exaltados, passara a apoiar
os retrógrados, companhando a posição
de seu irmão, o juiz de Direito Pedro Chaves que, diante
das manifestações de apoio às idéias
liberais da Constituinte, toma o Arsenal de Guerra e ordena
a repressão; os populares prendem o Brigadeiro Carneiro
da Fontoura e provocam vexame ao Visconde de Castro, acusados
de ordenarem disparos contra o povo. Em Rio Pardo, verifica-se
agudo o conflito que se manifesta com intensidade também
em Rio Grande, Cachoeira e Viamão.16
Em todo o país aumentam insatisfações
que se materializam no Ato Adicional de 1834, a refletir negociação
e conciliação, mas longe de estabele cer o pleiteado
federalismo. Estabelecida a Assembléia Provincial no
Rio Grande do Sul, nela passam a atuar deputados das diferentes
facções, acirrando-se o debate, para o qual
então existia um espaço apropriado. Já
na sua abertura, o discurso do presidente Fernandes Braga
menciona uma conspiração para entregar o Rio
Grande aos países platinos, e aponta alguns deputados
influentes como responsáveis, entre os quais Bento
Gonçalves.
Em junho de 1834, encerram-se os trabalhos na Assembléia,
em meio à ampla conspiração que refletia
um clima de revolta no país. Todas as regiões
brasileiras de alguma forma lutam contra o centralismo do
Império, com exceção da região
Sudeste, interessada em mantê-lo porque concentrava
o poder entre seus representantes. Em Pernambuco, durante
1824, eclodira a Confederação do Equador
e, em 1835, além do Rio Grande do Sul, sublevou-se
a Amazônia no movimento denominado Cabanagem;
dois anos mais tarde verificou-se, na Bahia, a Sabinada;
em 1838 eclodiu a Balaiada no Maranhão e,
em 1848, após o término da Revolução
Farroupilha, novamente Pernambuco foi conflagrado pela Praieira.
Esses movimentos, acompanhados de outros de menor repercussão,
todos sufocados a ferro e fogo, demonstram que a revolução
no Rio Grande fez parte de uma ampla revolta nacional contra
o centralismo imposto pelo Sudeste, como afirma Freitas. 17
Sob o ponto de vista ideológico, sabe-se que a
rebelião no Rio Grande absorveu elementos do liberalismo
europeu que estiveram também difusos no movimento de
independência dos Estados Unidos, na Revolução
Francesa e nos processos de independência das colônias
latino-americanas em geral. Mas foi efetivamente o ideal federalista
que catalisou os principais objetivos. Para a elite rio-grandense,
constituída basicamente por estancieiros, interessava
uma autonomia política que permitisse desenvolvimento
econômico. Bem mais do que um real liberalismo, exigia-se
o laissez-faire, laissez passer, ou seja, uma maior
liberdade para a ação produtiva.
Tanto é que o projeto de Constituição
da República Rio-grandense não reflete os princípios
democráticos do liberalismo francês, tão
decantados nos primeiros anos do século XIX. Neste
projeto rio-grandense, os escravos foram excluídos
da nacionalidade e nem mesmo alcançaram a igualdade
civil, fundamento da moderna nação liberal.
Discriminava ainda mais do que o regime monárquico,
ao negar a cidadania aos libertos nascidos no Brasil. Por
outro lado, também excluía da vida política
a maior parte da população livre,
porque estabelecia eleições censitárias.
Seriam excluídos de votar “os criados de servir”,
com exceção dos “guarda-livros, dos primeiros
caixeiros das casas de comércio, dos administradores
e capatazes das fazendas rurais”. Todos poderiam ser
votados, “menos os que não tiverem de renda líquida
anual a quantia de trezentos mil réis, (...) os libertos
(...) os que não professam a religião católica
romana”18.
Assim, ficavam de fora do sistema peões, agregados,
negros, índios, colonos, enfim, o povo que lutou e
morreu, permitindo manter uma guerra durante dez anos, como
sustenta Moacyr Flores, ao afirmar que a Revolução
Farroupilha caracterizou-se por ser movimento de minoria prestigiada
e dominante.19 Representava forma de alcançar projeto
político que atendia principalmente os estancieiros
e, por isso, não recebeu apoio de todos os grupos sociais
provinciais, apesar de que a autonomia regional traria benefícios
à população rio-grandense em geral, já
que algum desenvolvimento só seria possível
sem os entraves impostos pelo governo imperial.
Repete-se que, na ideologia do movimento, destaca-se o federalismo.
Se a autonomia não fosse alcançada através
da formação de um estado nacional nos moldes
federativos, tratava-se de proclamar um estado republicano
independente. A criação da República
Rio-Grandense decorre fundamentalmente de tensões de
caráter econômico que, somadas àquelas
de caráter político e administrativo, desencadearam
a luta armada.
A insurreição começa com a ocupação
de Porto Alegre que, um ano depois, é retomada pelos
imperiais. Nesta primeira fase, Tito Livio Zambeccari tornara-se
secretário de Bento Gonçalves. Encontrava-se
na capital da Província desde 1834, exercendo atividades
junto a lojas maçônicas e trabalhando como redator
em jornais republicanos que iam surgindo, onde tratava de
divulgar os ideais da Giovine Italia. Dessa maneira,
tentava contribuir com as idéias de Mazzini para a
revolução rio-grandense que se encontrava em
gestação. O Conde Zambeccari é preso
juntamente com Bento Gonçalves; ambos são levados
ao Rio de Janeiro, de onde deportam o revolucionário
italiano.
A fase revolucionária inicia, portanto, em 1836, com
a retomada de Porto Alegre; outros líderes passaram
a conduzir o movimento durante a período em que Bento
Gonçalves esteve preso. A Província separou-se
do Brasil, com a fundação da República
Rio-grandense; ocorre a tomada de Laguna pelos republicanos
e, nesta fase, muitos são os italianos a ingressarem
no movimento, como Anzani, Rosseti e Garibaldi.
_____________________________________________________________
17 FREITAS, Décio. Federação
ou morte. Jornal Universitário, Porto Alegre, outubro
de 1984.
18 PROJETO DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA
RIO-GRANDENSE. Apud. FLORES, Moacyr.
Modelo político dos Farrapos. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1978.
19 FLORES, Moacyr. Op Cit.
_____________________________________________________________
Francesco Anzani lutara pelos liberais na Península
Ibérica e, no Brasil, prestou serviços à
República Rio-grandense, primeiro no jornalismo doutrinário,
depois como comandante de infantaria. Luigi Rosseti estava
no Brasil há cerca de dez anos, participando ativamente
da Congrega Giovine Italia no Rio de Janeiro.
No ambiente da Corte as idéias liberais circulavam
há algum tempo. O republicanismo era latente desde
a década de 1820, quando surgiu a Congrega
para difundir os ideais mazzinianos. Salvatore Candido afirma
que, desde a segunda década do século XIX, havia
numerosas coletividades italianas no Brasil, formadas principalmente
por italianos setentrionais, a maioria oriunda de cidades
portuárias.20
Gênova, Savóia e Nizza tinham intercâmbio
constante com os portos mais movimentados do Atlântico,
como Buenos Aires, Montevidéu e Rio de Janeiro, desde
que os países americanos fizeram suas independências
políticas. Escreve Candido que “[...] a possibilidade
de encontrar-se rápidos meios de ganhar a vida e a
facilidade de enriquecimento favoreceram, em primeiro lugar,
a deserção de tripulantes das embarcações
mercantis sardas. Estes elementos formariam, em seguida, núcleos
familiares e são, sucessivamente numerosos, também,
os exilados políticos”21.
Os novos Estados que se organizavam no continente sul-americano
tinham necessidade de atrair gente ativa que fosse capaz de
colaborar na formação de uma nação.
À medida que as pesquisas se desenvolvem, observa o
mencionado autor, há possibilidade de publicar sucessivamente
listas com nomes de emigrados civis e militares, “ou
melhor, militarizados”, que partiam para a Argentina,
Uruguai e Brasil. Entre fontes documentais encontradas na
Itália, aparecem nomes de pessoas que desenvolviam
atividades consideradas subversivas no Rio de Janeiro, durante
a década de 1830, acusados de pertenceram ao movimento
Congrega della Giovine Italia: Giacomo Alessi, Gio
Batta Folco, Vincenzo Raimondi, Cesare Corridi, Giuseppe Stefano
Grondona, Cuneo, Rossetti,. Luigi Vaccani, Michele Lando,
Paolo Tausch Di Livorno, Carlo Belgrano, Giacomo Cris ou Gris
e Pietro Gaggini, que viveram e trabalharam no Rio de Janeiro.22
O movimento mazziniano desenvolvia-se, inclusive em São
Paulo, onde foi assassinado Libero Badaró, médico
lígure que estudou nas universidades de Pavia, Bolonha
e Turim. Perseguido na Itália por suas idéias
liberais, embarcara para o Brasil em 1826, vivendo por pouco
tempo no Rio de Janeiro, transferindo-se para São Paulo,
onde exerceu a medicina, além de lecionar matemática
e geometria. Funda um jornal, o Observador Constitucional,
divulgando idéias liberais e criticando o Imperador
pela desobediência à Constituição
e pelo despotismo. Em 20 de setembro de 1830, foi assassinado
à porta de sua casa, fato que desencadeou levantes
populares e que está na origem da abdicação
ao trono por parte de D.Pedro I, suspeito de ser o mandante
do crime.23
A conspiração liberal de origem italiana estendia
ramificações e, no Rio de Janeiro, Rosseti faz
o contato com Bento Gonçalves e com Zambeccari, quando
estavam na prisão. Naquela ocasião, apresentou-lhes
Giuseppe Garibaldi, também foragido, pois condenado
à morte na Itália. Ambos recebem do chefe revolucionário
uma carta de corso e partem para o sul no veleiro Mazzini.
Alcançam o Uruguai de onde retornam ao Rio Grande,
chegando à capital da nova república, Piratini,
onde Rosseti funda e redige o jornal O Povo que estampa na
primeira página o dístico de Mazzini: O
poder que conduz a revolução deve preparar as
almas dos cidadãos para os sentimentos de fraternidade,
modéstia, igualdade, ardente e desinteressado amor
pela Pátria.24
Assim, Garibaldi chegou ao Rio Grande do Sul em 1838,
com outros italianos. Na Estância do Brejo,
propriedade da família de Bento Gonçalves, encontrou
os dois lanchões que foram transportados sobre rodas,
puxados por bois, até a barra do rio Tramandaí,
onde foram lançados ao oceano, em façanha extraordinária.
Um dos lanchões, o Farroupilha, naufragou,
resultando na morte de sete revolucionários italianos.
O Seival alcançou Santa Catarina, onde ajudou a derrotar
os imperiais.
A reação dos imperiais não tardou, bloqueando
os farroupilhas. Naqueles dias de Laguna, sob o disparo de
canhões, Garibaldi encontrou Ana Maria de Jesus Ribeiro
que estava com 28 anos e era casada com Manuel Duarte de Aguiar.
Garibaldi, enamorado, levou-a consigo quando partiu, em outubro
de 1839, enfrentando o bloqueio da marinha imperial.
_____________________________________________________________
20 CANDIDO, Salvatore. L’azione mazziniana in Brasile
ed. il giornale ‘La Giovine Italia’ di Rio de
Janeiro (1836) attraverso documenti inediti o poco noti. Estratto
da Bolletini della Domus Mazziniana, Pisa, n. 2, 1968.
21 Id. Ibid. p.3-4.
22 Id. Ibid. p.p.4-6; 32-3,42.
23 CENNI, Franco. Italianos no Brasil. 3ª ed. São
Paulo: Edusp, 2003. pp. 65-73.
24 O Povo, jornal de Piratini, n.1, 1 de setembro de 1838.
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Mas o movimento revolucionário enfraquecia paulatinamente
e Garibaldi abandonou a luta pelos farroupilhas em 1841. Três
anos depois começava a última fase revolucionária,
a chamada fase de pacificação, terminada em
março de 1845 com a Paz de Ponche Verde. Garibaldi
já havia partido para o Uruguai, levando como indenização
uma tropa de bois. Com a mulher e o filho alcançou
Montevidéu, de onde solicitou anistia a D.Pedro II,
conforme documentos transcritos e comentados por Spalding.25
Ensaiava a paz com a monarquia, para, mais tarde, aliar-se
aos príncipes do Piemonte, na luta pela Unificação.
O jovem Garibaldi estivera entre os propagandistas republicanos
na primeira hora, inspirados no pensamento de Mazzini; tentara
inclusive a insurreição de Gênova que,
malograda, valeu-lhe a condenação à morte,
a fuga para Marselha e depois para a América. Retornou
à Itália em 1848, para continuar a luta, quando
Roma viveu uma breve temporada republicana que culmina com
a derrota de Mazzini e de Garibaldi.
Ao retornar, os tempos eram bem outros, quando a presença
de Cavour junto aos soberanos do Piemonte resultava em complexa
política externa, cujo objetivo era proclamar o Reino
da Itália. Em 1861 está proclamado o Reino,
e Garibaldi, aliando-se a Cavour, organiza a Expedição
dos Mil, cujos soldados voluntários foram chamados
os camisas vermelhas, para incorporar o sul da península
ao novo reino.
A massa popular esteve ausente do movimento de unificação,
constituído por intelectuais, comerciantes, estudantes
universitários que “... foram os primeiros a
unir-se aos voluntários de Garibaldi” 26. Porque
Garibaldi, perigosamente, tomava conta da cena que deveria
ter Vittorio Emanuelle II como principal protagonista. Garibaldi,
que representava a facção política à
esquerda, sofreu toda a sorte de pressões e retirou-se
para Caprera.
Tempos republicanos
A república foi implantada no Brasil em 1889
e, em 1893, eclodia a sangrenta Revolução Federalista.
Interrompidos pela guerra, os fluxos imigratórios retomam
a intensidade. Ficou evidente que muitos italianos haviam
feito oposição à facção
liderada por Julio de Castilhos, de inspiração
positivista, inclusive aderindo às hostes federalistas
chefiadas por Silveira Martins, e que acabaram derrotadas.
Houve freqüentes tumultos nas cidades e na zona colonial,
acompanhados por respectivas ações diplomáticas.27
Mas, na virada para o século XX, o processo de construção
da italianidade está novamente progredindo, reforçado
pela ideologia que aponta para Augusto Comte. O grupo positivista
fizera propaganda da república no Rio Grande do Sul,
e tomou conta do governo estadual desde os primeiros tempos,
vencidos os maragatos, Com a morte de Julio de Castilhos,
o novo presidente do Estado, Borges de Medeiros, procurou
revitalizar a colonização. As antigas colônias
passaram a ser cuidadosamente protegidas enquanto desenvolvia-se
um projeto de nacionalização. O ingresso de
italianos passou a caracterizar-se pela imigração
espontânea em detrimento da subvencionada, segundo diretrizes
que foram expressas nas Teses Financeiras e Econômicas
do Partido Republicano Riograndense. Ademais, ao assumir
o poder, Borges de Medeiros passou a usar como estratégia
um elaborado discurso de valorização do imigrante
italiano que, assim, acabou servindo como modelo de cidadão
operoso e ordeiro, capaz de fácil assimilação.
Nacionalismo e operosidade passaram a ser a tônica do
discurso oficial. Pretendeu-se neutralizar os chamados “quistos
étnicos” e incentivar mudanças nas relações
de produção, estimulando o crescimento de uma
classe social intermediária.
A reativação do projeto de colonização
faz-se também sentir na cidade, onde a presença
de imigrantes aumenta e diversifica cada vez mais. Relatórios
consulares como o de Pasquale Corte, em 1884, ou o do Cônsul
De Velutiis, em 1908, fornecem informações sobre
os súditos italianos em Porto Alegre, que perfazem
mais de 10% da população da cidade da década
de 1890. Esclarecem ainda sobre o grande número de
meridionais, com predominância de calabreses da Província
de Cosenza.
No final do século XIX, o republicanismo gaúcho
adere e reforça o movimento regionalista, acompanhando
o romantismo iniciado tardiamente no sul pelos membros da
Partenon Literário. Revitaliza-se o culto da Garibaldi
de outra forma e com bons motivos.
_____________________________________________________________
25 SPALDING, Walter. A epopéia farroupilha. Rio
de Janeiro: Biblioteca do Exército-Editora, 1963. p.248-9.
26 SMITH, Denis Mack. Storia d’Italia. Roma-Bari: Laterza,
2000. p. 17.
27 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Emigranti e
Guerra Civile nel Brasile di fine ottocento. Daedalus. Castrovillari;
n. 10 janeiro-junho 1993.
_____________________________________________________________
Ao tempo da Guerra do Paraguai, precisamente em 1868, um
grupo de intelectuais fundara o “Partenon Literário”,
agremiação que iniciou a exaltação
da temática gauchesca, com apologias às figuras
heróicas. Veicula um movimento literário romântico
e tardio, valorizando o gaúcho como figura do nativo
puro, valente, generoso, na trilha iniciada por José
de Alencar ao publicar o romance O Gaúcho;
o autor, que nunca veio ao Rio Grande do Sul, idealiza o tipo
humano que denomina “centauro dos pampas”.28 Escreve
Sergius Gonzaga que “...Caberia aos integrantes da Sociedade
Partenon o esforço para a louvação dos
tipos representativos mais caros à classe dirigente.”
29
No início do século estava inaugurada a estátua
de Garibaldi, na praça principal da Cidade Baixa, bairro
por excelência dos italianos, cuja coletividade fez
a doação do monumento, depois de grande campanha
para obtenção de fundos. Em termos de outros
países, a homenagem aconteceu tardiamente, mas verificou-se
em momento mais do que oportuno. A representação
de Garibaldi já não está sendo feita
com o fardamento militar que envergou na campanha da Unificação.
Garibaldi agora traja o poncho, vestimenta típica do
gaúcho, que adotou como agasalho. Aos seus pés
encontra-se Anita, sublinhado o seu papel de mulher corajosa,
guerreira.
A representação de Garibaldi vestindo o poncho
surgirá timidamente, mas a figura de Anita é
destacada; aparece a catarinense guerreira, companheira nos
percursos revolucionários no Brasil e na Itália.
Logo no final do século XIX surgiria a primeira agremiação
tradicionalista: o Grêmio Gaúcho de Porto Alegre,
criado em 1898 pelo republicano e positivista José
Cezimbra Jacques.30
A Revolução Farroupilha assumia o primeiro plano
na narrativa histórica rio-grandense. E um destaque
foi atribuído a Garibaldi em decorrência de sua
participação na mesma. No herói dos dois
mundos demonstrava-se a magnitude dos ideais farroupilhas,
por um lado. Por outro, demonstrava-se a profunda ligação
e dedicação dos italianos ao Rio Grande e à
sua gente, lembrando em plano secundário Zambeccari
e Rosseti.
Em 1883, foi aberto o trecho inicial da Rua Garibaldi. Em
1907, no dia do centenário do nascimento de Garibaldi,
a antiga Praça da Concórdia, coração
do bairro por excelência dos italianos, a Cidade Baixa,
recebeu do Intendente José Montaury o nome do General.
Alguns anos mais tarde, como foi visto, precisamente em 1913,
estava inaugurada a estátua de Garibaldi na praça
que tem o seu nome.
Há grandes festejos marcando o cinqüentenário
da colonização italiana no Rio Grande do Sul,
em 1925. Um grande álbum é publicado pela Editora
Globo, com subsídios do governo italiano, aberto com
mensagens do presidente do Estado, Borges de Medeiros e de
Benito Mussolini, ministro do exterior, que desenvolve uma
ação diplomática mais agressiva, com
cooptação das lideranças da comunidade
italiana. A cultura italiana estava sendo exportada com eficiência
e o jornalista Mansueto Bernardi fez-se dela portador; na
Editora Globo, do conterrâneo Bertaso, faz publicar
autores italianos, divulgando suas obras. Cada vez mais destaca-se
na coletividade italiana, a quem honra pelo seu prestígio
intelectual.
Pois no álbum do Cinquantenario, feito um
proêmio pelo Embaixador italiano Luigi Ardoini, o primeiro
texto é intitulado Gli Italiani e la Repubblica
di Piratiny, escrito por Mansueto Bernardi, coordenador
da obra, que inaugura uma narrativa dos italianos no Rio Grande
por eles mesmos, narrativa que tardava. Mansueto era um intelectual
a representar italianos, porque podemos considerá-lo
também brasileiro. Nascera em 1888, e veio com três
meses do Vêneto, criando raízes em Veranópolis;
era membro destacado do Partido Republicano Riograndense,
ocupou cargos públicos num tempo de nacionalismo exacerbado.
Em plena década dos 20, depois da Semana de Arte Moderna,
quando fica evidenciada a identificação com
as renovações artísticas do Velho Mundo,
depois do levante do Forte de Copacabana, da Revolta de 24
e da formação da coluna Prestes, havia um certo
espírito de época a defender a cultura
regional.
Lembra Gutfreind que, apesar de ser limitado o ambiente cultural
no início dos anos 20, também notou-se no Rio
Grande do Sul uma relativa efervescência cultural e
o mais importante acontecimento foi a refundação
do Instituto Histórico Geográfico, logo em 1920,
aglutinando importante grupo de intelectuais, cuja produção
poderia ser entendida a partir de duas matrizes: uma de orientação
lusitana e a outra de orientação platina.31
Em todos os sentidos as mudanças aceleravam-se desde
o final da Primeira Grande Guerra. A Revolução
de 30 é uma forma de expressão do conjunto de
transformações que alcançava a sociedade
brasileira e um produto de heterogêneas alianças.
Explode no sul, mais precisamente em Porto Alegre e seu líder
é um gaúcho. O “Rio Grande em Pé
pelo Brasil” foi frase proferida por Vargas ao final
do discurso que inaugurava a Revolução. E continuou
sempre salientando a liderança do Rio Grande na regeneração
do Brasil. 32
_____________________________________________________________
28 OLIVEN, p.51.
29 GONZAGA, Sergius. p. 125.
30 OLIVEN, p. 72-3.
31 GUTFREIND, pp.11 e 23.
_____________________________________________________________
Com a eclosão da Revolução de 30 fica
reforçada a tendência regionalista. O lançamento
da obra de Alfredo Varella, sobre a Revolução
Farroupilha, em 33, alimenta a tendência, ainda que
inserisse a Revolução na platinidade. Contrariava
uma tendência historiográfica predominante, que
sublinhava o nacionalismo e que negava as intenções
separatistas da Revolução, assim como as influências
platinas nos nossos hábitos e costumes. 33 A corrente
lusitana era representada principalmente por Souza Docca,
Othelo Rosa e por Aurélio Porto; ganhava força
à medida que se aproximava o centenário da Revolução
Farroupilha, festejado com grandiosidade inusitada, em 1935.
A capital revolucionária desejou a modernidade e mostrou-se
“moderna” nessas comemorações. No
antigo Campo da Redenção, construiu-se o Parque
que receberia a exposição internacional, e que
passou a chamar-se Parque Farroupilha. A exposição
reafirmava a importância da cidade onde começara
a revolução de 30, entendida como movimento
que conduziria à modernidade. A feira foi ousada, grandiosa,
no estilo art deco, símbolo dessa modernidade.
A narrativa da revolução e dos revolucionários
foi reforçada. As abordagens em torno de Garibaldi
e de sua trajetória no Rio Grande do Sul serão
recorrentes e destacadas, motivadas pelo desejo de exaltar
a amplitude dos ideais farroupilhas que enalteciam líderes
revolucionários, acusados tantas vezes de separatismo.
Zambeccari e Rosseti também recebem atenção
dos historiadores, identificados com os valores do Rio Grande
e com a causa da liberdade.
O esforço de Garibaldi no comando da esquadra farroupilha
é descrito com entusiasmo por historiadores fundadores
do Instituto Histórico Geográfico, na década
de 1930.
Othelo Rosa e Dante de Laytano revezam-se nesta narrativa,
o último um filho de italianos imigrantes. São
seguidos por Souza Docca e por Walter Spalding, que mantém
certa austeridade.
Othelo Rosa exalta o personagem, descrevendo sua passagem
pelo Estado como uma fantástica epopéia; sublinha
a importância do papel de Garibaldi na Revolução.
Laytano enaltece o idealismo garibaldino e destaca a famosa
travessia dos lanchões por terra.34
Souza Docca, ainda que de forma contida, descreverá
a travessia por terra com os lanchões Seival e Farroupilha,
desde Camaquã até Tramandaí, uma vez
que, em 1839, os farrapos não tinham porto, pois Rio
Grande estava bloqueado pelos imperiais.
Spalding vai mais além registrando razões econômicas
que teriam motivado Garibaldi a abandonar a Revolução.35
Com sutis variações, a imagem de Garibaldi permanece
no primeiro plano da historiografia rio-grandense. A eclosão
da Segunda Guerra, em 39, e a declaração de
guerra aos países do Eixo, em fevereiro de 1942, não
alteram tal imagem ou, antes, beneficiam o grupo italiano
no Rio Grande do Sul.
Não obstante a forma dramática como o tempo
do conflito é freqüentemente narrado, sabe-se
que os italianos foram tratados com certa “amabilidade”,
se comparados aos imigrantes alemães ou a seus descendentes.
36 Pois não era italiano Garibaldi, que tanto contribuíra
para a Revolução Farroupilha?
Fato é que, no contexto da Segunda Guerra, os italianos
beneficiaram-se da imagem que lhes representava diante da
sociedade gaúcha.
Na seqüência da paz, e na rapidez com que se verificaram
os tratados entre os dez países, fica reforçada
a idéia das afinidades entre a Itália e o Brasil.
Tanto que, entre 1941 e 1950, compreendendo o período
da guerra e o imediato, a imigração italiana
no Brasil aumentaria cinco vezes. Retém-se claramente
que aos italianos e seus descendentes convinha um alinhamento
com o poder no Brasil, como forma de proteger interesses e
alcançar reivindicações; a postura de
reconhecimento às autoridades brasileiras foi sempre
recomendada pelos representantes da diplomacia italiana. A
guerra representava um acidente de percurso, decorrente da
vontade dos líderes europeus, com os quais não
precisava haver qualquer identificação. Os imigrantes
italianos e seus descendentes aproveitavam a oportunidade
para evidenciar que desejavam fosse o Brasil a sua pátria.
Nos anos 80, festejou-se o sesquicentenário da Revolução
Farroupilha, que foi novamente narrada, desta vez em perspectiva
bem mais crítica, através de inúmeros
trabalhos, a maioria de natureza acadêmica, acompanhando
o surgimento de vários programas de pós-graduação
em História no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
Uma das novidades surgidas diz respeito à incorporação
efetiva de Anita nas narrativas, como resultado da ampla discussão
que se tornou possível em torno do movimento feminista
ou das questões de gênero na História.
Anita passa a ser contada com os olhos do presente, tão
diferente dos anos trinta quando se trata da narrativa de
mulheres.
A imagem de Garibaldi continuaria sendo mantida como aquela
do herói de dois mundos, inclusive do mundo sul-brasileiro.
Entretanto, o general unificador, símbolo à
formação de uma coletividade, voltou à
juventude, vestindo um poncho, como o idealista republicano,
capaz de grandes feitos durante a nossa Revolução.
_____________________________________________________________
32 OLIVEN, p. 60.
33 GUTFREIND, p.115.
34 Segundo Flores, Garibaldi entra em contato com os revolucionários
em 1836, já deflagrada a guerra. Anita conheceu-o em
1839, quando da invasão de Laguna. Os lanchões
Seival e Farroupilha, cuja construção foi fiscalizada
pelo irmão de Bento Gonçalves, o juiz de paz
José, subiram o Rio Capivari e, sob armações
com grandes rodas, foram puxados por juntas de bois até
a barra do rio Tramandaí, em percurso de cerva de 50
milhas. O Seival, comandado por Grigs, fez-se ao largo, mas
o Farroupilha, comandado por Mutru, levando a bordo Garibaldi,
soçobrou , morrendo muita gente, como recorda Garibaldi
nas suas memórias.
35 Rosa, Laytano, Souza Docca e Spalding foram membros do
Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande
do Sul.
36 CONSTANTINO, 2005.p.p 211-220.
_____________________________________________________________
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A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário
da Revolução Farroupilha
Rosemary Fritsch Brum
___________________________________________________________
Doutora em História do Brasil, socióloga
da UFRGS, pesquisadora do Núcleo
de Pesquisa em História do Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas
O presente texto apresenta algumas linhas de interpretação
sobre as potencialidades analíticas da multifacetada
figura de Giuseppe Garibaldi, na conjuntura compreendida pela
celebração do Centenário da Revolução
Farroupilha no Rio Grande do Sul, em especial na capital,
Porto Alegre, entre 1931 e 1936. Nesse sentido, aventa-se
a presença da reconfiguração conforme
os interesses em jogo, tais como a exacerbação
do mito Garibaldi1 ou sua redução.
Essa trajetória não ficaria imune ao modo de
construção do imaginário da auto-representação
da migração e colonização italiana
para as Américas, tangida pelas perdas decorrentes
da Unificação Italiana do século XIX.
As dificuldades de absorção da mão-de-obra
agrária ao sul, na conhecida questão do Messogiorno,
mais a sociedade capitalista representada pelo Norte, tornam
a emigração uma interessante saída para
desafogar a pressão sobre o frágil novo arranjo
de poder.
No Brasil, a economia agroexportadora requeria trabalhadores
para a cafeicultura, e os interesses delinearam uma política
favorável ao que se lhe seguiu, ou seja, a impressionante
massa de europeus, em sua maioria italianos, para substituir
a mão-de-obra africana escrava, recém liberta.
____________________________________________________________
1A narrativa padrão sobre Garibaldi agente histórico
concreto do século XIX nascido em Nizza, atual Nice,
em 1870, e da configuração do mito “herói
de dois mundos”, inicia a partir de sua participação
política na conflituosa Unificação da
Itália. Aderindo à Carbonária italiana
de Mazzini e sua proposta de república que se choca
contra a monarquia, o catolicismo e os interesses do Papa,
e que levaria posteriormente ao cabo o movimento do Risorgimento,
unidade em torno do Piemonte sustentado por Massimo d’Azeglio
- tem decretada sua prisão na Itália. A fuga
para o Brasil e sua chegada ao Rio de Janeiro (1835/36?) constitui
a componente mazziniana da emigração política,
ao lado de Livio Zambeccari, Luigi Rossetti, Garioni, Anzani,
Cuneo, Dalla Case, Messero, Gris, Terezani Lando, Corrigi.
Em seguida envolve-se com a revolução no Rio
Grande, a Revolução Farroupilha, (deflagrada
em 1935), que proclamaria a República Piratini, sob
comando do General Bento Gonçalves, movida pelo espírito
federativo contra o Império de Dom Pedro. Em 1939,
conhece aquela que seria sua companheira, Ana Maria Ribeiro
da Silva, conhecida como Anita Garibaldi, em Laguna, Santa
Catarina, ao lutar pela conquista da região para os
farroupilhas. Em 1841, chegando ao Uruguai, Montevidéu,
empenha-se nas lutas empreendidas na Bacia do Prata entre
Frutuoso Rivera e a política do Presidente Juan Manuel
de Rosas, da Argentina. Após, retorna com Anita à
Itália, em 1848, e retoma sua participação
no processo político em curso, falecendo em Caprera,
em 1882. Esses dados foram recolhidos na bibliografia corrente,
ao dispor da pesquisa histórica e, evidentemente, sempre
passível de revisão histórica.
____________________________________________________________
Para o Rio Grande do Sul foram encaminhados
os migrantes conforme o ordenamento da política de
colonização de áreas devolutas, que diversificariam
a economia com produtos para prover os centros urbanos em
expansão, desde que não afetassem a estrutura
agrária da pecuária gaúcha e seu mando
político. O modo diferencial de instalação
dos italianos no Estado, nos minifúndios rurais levados
pela mão-de-obra familiar, além dos italianos
instalados nas cidades do sul, muitos advindos do Prata, varridos
pelas guerras, formariam uma camada de pequenos proprietários
e, da República em diante, de vigorosos industriais.
O pêndulo político começava a mudar, e
a zona da Campanha era forçada a partilhar poderes
e projetos.
Na ante-sala do Estado Novo: as comemorações
do Centenário Farroupilha
O processo de industrialização começava
a deslocar os poderosos proprietários rurais, ou, no
limite, a fazer novas parcerias com a injeção
de capitais no setor agrário, no Rio Grande do Sul,
timidamente, mas de modo importante no eixo agro-exportador
nacional. No século XX, o Brasil urbanizava-se e industrializava-se,
ainda que de modo descontínuo. Surgiam novas camadas
sociais, além dos imigrantes. Classe média,
operariado, profissionais liberais, forças armadas
iam enriquecendo o mosaico social.
A crise da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, terá
efeitos na política brasileira, assinalando o canto
dos cisnes da hegemonia agro-exportadora cafeeira, dado o
seu grau de dependência de grupos financeiros, vulnerabilizados
com a grande crise.
O centro do poder é questionado pelas oligarquias dos
relegados, até então, ao conformismo, desde
a Primeira República, à chamada “política
café com leite”, alternância no poder da
burguesia paulista e parte da burguesia mineira. Perde base
de sustentação o governo de Washington Luis,
e abre flancos para a provisória união das facções
burguesas não alinhadas com a produção
agro-exportadora que sustentara o primeiro período
republicano.
Em 1927, Getúlio Vargas e João Neves da Fontoura
são respectivamente os novos presidente e vice-presidente
do Estado. É momento de conciliação:
Assis Brasil lidera o Partido Nacional (Aliança Libertadora
gaúcha, depois Partido Libertador e Partido Democrático
de São Paulo). Na cidade de Porto Alegre, o PRR indica
para Intendente Municipal Alberto Bins, que, eleito em pleito
pouco disputado, em 1928, permanece no cargo longos 10 anos.
Cresce a contestação ao Governo Washington.
Classes médias emergentes, ligadas ao expansionismo
da economia urbana, somadas aos setores militares descontentes
com os caminhos da República, expressos no Movimento
Tenentista dos anos 20, confluem para uma frente de oposições
estaduais. No Estado, libertadores e republicanos criam a
Frente Única. Com Minas Gerais e Paraíba, fundam
a Aliança Liberal, em 1929.
O poder centrado em Getúlio Vargas, iniciado com a
Revolução de 30, com a deposição
do Presidente da República, Washington Luis, será
um poder que harmonizará os setores agrários,
que continuam sustentando a economia brasileira, além
da injeção de capitais para a promoção
das bases da industrialização no país.
Em 1935, o Centenário da Revolução Farroupilha
é comemorado sob grande tensão. Alberto Bins
preside o Comissariado Geral da Festividade. Mas, a conjuntura
pesa sobre o Governo do Estado: José Antonio Flores
da Cunha, republicano como Getúlio, o apoiou quando
da oposição das oligarquias paulistas descontentes,
em 1932, e agora está sob crescente isolamento do poder.
Perde a base de apoio local quando o partido liberal gaúcho
vê afastarem-se Raul Pilla, Lindolfo Collor, Batista
Luzardo, João Neves da Fontoura, e os republicanos
de Borges de Medeiros, que, conjuntamente, questionam os rumos
da Aliança Liberal. Quando Getúlio visita Porto
Alegre para os comemorativos do Centenário da Revolução
Farroupilha, está preparada o que viria a seguir, ou
seja, a intervenção no Estado e a fuga do Interventor
Flores da Cunha.2
Enquanto isso, no plano internacional, desenha-se o cenário
para a deflagração da Segunda Guerra Mundial.
Os anos de 1930 e 1937 são, pois, de oscilação
do governo brasileiro entre o alinhamento com as idéias
nazi-fascistas, ou com as forças contrárias.
Ao final, o governo Vargas filia-se ao campo das democracias
alinhadas, embora internamente esteja longe de empreender,
ao contrário, uma política democrática.
____________________________________________________________
2 No plano político nacional, a eliminação
dos focos de oposição segue seu rumo: sustém
o movimento dos tenentes, embora persista a polarização
social entre os projetos antagônicos entre o integralismo
da Ação Brasileira (AIB), de Plínio Salgado,
fortemente instalado nas zonas de colonização
de migrantes, o comunismo da Aliança Liberal Libertadora
(ANL0), com Roberto Sisson, o liberalismo do partido libertador.
Na Presidência do Governo Provisório da República,
Getúlio intervém, suspende direitos, nomeia
interventores nos Estados, não aciona a discussão
da Constituição. A pretexto de debelar o comunismo,
implanta a Lei de Segurança Nacional, em 1936, com
o Estado de Sítio. Enfim, a imposição
do autoritarismo no final da conjuntura, com o Estado Novo,
a 10 de novembro de 1937, consagra também o controle
da massa operária com a implantação da
legislação trabalhista de corte corporativista.
____________________________________________________________
Para os imigrantes, estão reservados
momentos difíceis, tais como a suspensão do
uso da língua materna, a suspeição sobre
as atividades políticas, como uma latente base de sustentação
do regime nazi-fascista nas antigas colônias de imigrantes,
principalmente no sul do país (Santa Catarina e Rio
Grande do Sul).
Nada disso é visível em 1935, nos atos comemorativos,
quando as elites italianas visam a hegemonizar a auto-representação
dos migrantes italianos. Em que pese o fato de que a força
social de uma representação social não
seja, forçosamente, equivalente ao seu valor de verdade,
ver-se-á como foi possível conjugar fascismo,
italianidade, farroupilhas, ao Garibaldi “herói
dos dois mundos”.
A síntese de uma identidade simbolizada na costura
de mitos e ideários tão divergentes internamente
é possível na medida em que estão presentes
determinadas condições particulares daquela,
e só daquela, conjuntura.
Nesse momento, os italianos e seus descendentes são
simultaneamente reféns e autores de uma intriga retórica;
pretender uma identidade narrativa que relacionasse o tempo
de uma narrativa unívoca, qual seja, a italianidade,
com a ação efetiva de cada indivíduo,
o que é, na realidade, uma verdade totalitária
do social. Trata-se, nesse sentido, do interesse apenas de
determinadas frações da colônia italiana
no Rio Grande do Sul. Produz-se, assim, a fusão de
acontecimentos reais, levados à categoria do mito.
Anulam-se os atributos dos símbolos singulares e institui-se
a base comum para solidarizar os eventos comemorados.
Entre o dever de memória e o
ofício de historiador:
a visita da neta3
O Correio do Povo, jornal diário de Porto Alegre, aos
20 de agosto de 1931, estampa o comentário de Clemenciano
Barasque:
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3 Não há como não incorporar, nesse
item, as categorias analíticas onde a socióloga
argentina Beatriz Sarlo, em recente livro, investe sobre a
possibilidade de estarmos diante da guinada “subjetiva”,
após a guinada lingüística haver em parte
esgotado sua capacidade de sustentação das ciências
humanas. O memorialismo hoje retorna para o gosto de historiadores
e grande público, sendo o testemunho a dimensão
mais crítica da capacidade de, através da linguagem,
ligar o plano individual ao coletivo. As memórias escritas
pelo próprio Garibaldi prefiguram a investidura do
mito Garibaldi.
____________________________________________________________
“Desde alguns dias, encontra-se nesta
capital a escritora Anita Garibaldi, neta de Garibaldi, que
percorre a América do Sul, coligindo dados sobre a
atuação do grande ‘condottiere’,
deste lado do Atlântico. Com a aproximação
do centenário farroupilha e a presença, aqui,
da escritora que ora nos visita, ocorre-nos, despretensiosamente,
lembrar à neta do herói dos dois mundos e da
heroína de duas pátrias lançar no seio
da colônia italiana, domiciliada no Rio Grande do Sul,
a idéia de serem perpetuados os marcos ou padrões,
erigidos do próprio local, os dois feitos já
imortalizados nas telas cujos ‘clichês’
reproduzimos. (fotos-clichê) No primeiro, revive Garibaldi,
guiando, na planície rio-grandense, o transporte, por
terra, de sua esquadrilha, da barra de Capivari, na Lagoa
dos Patos, à foz do Tramandaí, em 14 de julho
de 1839; e o segundo lembra a destemida Anita fugindo a cavalo,
levando ao colo Menotti Garibaldi, então recém-nascido
em local próximo ao mesmo, da épica façanha
um ano depois, como se vê. Malograda a tentativa da
República Catarinense, após os combates da Laguna,
Passo de Santa Vitória e outros, Canabarro voltava
com seu exército, ao qual se havia incorporado Garibaldi.
Nessa acidentada marcha do exército republicano, perseguido
sempre pelo inimigo, em direção ao sul do Estado,
resolveu Garibaldi ficar na costa oriental da Lagoa dos Patos,
na estância de São Simião. Pretendia ainda
o ilustre ‘condottiere’ construir algumas embarcações,
nas quais pudesse transpor a Lagoa dos Patos, atingindo a
margem oposta, tornando novamente ao seu arsenal do Camaquã,
a fim de construir novos lanchões, que seriam armados
com a artilharia deixada por Garibaldi, enterrada nas imediações
do antigo barracão-arsenal, cujos pesadíssimos
canhões, atualmente recolhidos ao Museu do Estado,
não puderam ser armados no ‘Seival’ e ‘Rio
Pardo’. Entregue ao afã de construir tais embarcações,
o casal Garibaldi e Anita foi, aí, no dia 16 de setembro
de 1840, surpreendido com o nascimento de seu primogênito,
que tomou o nome de Menotti. Como se vê, o ilustre general
italiano, que tanto honrou, depois, as gloriosas tradições
da pátria unificada por seu pai, nasceu em plena campanha
gaúcha, num acampamento de marcha, como devia nascer
o filho de dois heróis. Que glorioso legado cumpriria
a escritora Anita Garibaldi, lembrando os seus patrícios
perpetuar, no centenário farroupilha, em dois monumentos,
no próprio local, a glória de seus maiores!”4
Prosseguindo na pesquisa, a Anita escritora lança a
obra “Garibaldi na América”, traduzida
por Renato Travassos e publicada pela ALBA, no Rio de Janeiro,
em 1931. Filha de Ricciotti, nascido em Montevidéu,
em 1847, são suas palavras sobre essa jornada:
“Ao chegar ao porto do o Rio de Janeiro, eu bem
podia parecer uma dessas viajantes que andam em busca de sensações
estéticas e prazerosas; o livro, porém, que
eu trazia em mãos, não era o infalível
Baedeker, mas sim, a auto-biografia do meu avô, escrita
pelo seu próprio punho e letra, dando-me então
a impressão de ouvir uma voz grave e dulcíssima
a sussurrar-me: ‘Atenção, filha; foi aqui!’
E o livro continha parte da história de três
grandes povos, o Brasil, o Uruguai e a Argentina [...].”
Nas suas elucubrações, segue a escritora Anita:
“[...] Que poderia representar o Rio de Janeiro
para Garibaldi? Um ponto de contato; um ponto de partida,
talvez. A idéia que perseguia desde a Itália,
a idéia básica para sua vida futura, forçosamente
de desterro, seria a de sempre e que era o centro de sua existência:
continuar combatendo pela redenção da Itália,
em qualquer parte do mundo que lhe assinalasse a sorte. Pôr
em execução esses preceitos, refazer a trama,
reencetar o contato com Mazzini e os demais conspiradores,
em suma, de qual quer modo que fosse, a luta pela idéia[...].”5
Antes da pesquisa para seu livro, percorrendo os caminhos
indicados na auto-biografia do avô, possivelmente Anita
terá usado como base o escritor Alexandre Dumas, no
livro datado de 1870, “Memórias de Garibaldi”,
no qual o escritor registra inúmeras conversas com
Garibaldi e que foi traduzido para o Brasil por Antonio Caruccio-Caporale.
Essas obras constituem os principais parâmetros que
sedimentam o campo compreendido entre o mito Garibaldi e a
História. Uma crítica textual — que não
cabe nessa nossa proposta, apenas aNúncia-se, poderia
salientar o aspecto assinalado por Man (1979, in SARLO, 2006,
p.31) que, ao seguir uma autobiografia, está-se diante
da auto-referência do eu, onde
“ a consciência de si não é
uma representação, mas a ‘forma de uma
representação’, a figura que indica que
uma máscara está falando. Fala o personagem
(persona, máscara do teatro clássico), que não
pode ser avaliado em relação à referência
que seu próprio discurso propõe, nem pode ser
julgado (como não se julga o ator) por sua sinceridade,
e sim por sua apresentação de um estado de “sinceridade[...].”
Esse estado de “sinceridade” foi predominante
na leitura sobre Garibaldi para os comemorativos da Revolução
Farroupilha de 1935. Como foi a projeção da
representação da italianidade em Porto Alegre.
Leitura que se expressa na arte, nas festividades, na disseminação
da língua italiana. Por quê?
Poderia ser a mera repetição narrativa, que
adquire foro de verdade. Mas o importante é a versão.
As condições sócio-históricas
estão favoráveis. O mito é bom o suficiente
para a apropriação social dos italianos reunidos
numa conjuntura difícil, onde se decidia a inclinação
da política internacional brasileira diante da agudização
da cena européia. Um mito não é interrogável,
“é uma modalidade social de certeza”. (KOLAKOWISKI,
1990, in MITJAVILA, 1994, p.97)
____________________________________________________________
4 “Um apelo à colônia italiana”.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n.195, p.14, agosto
1931. O jornal fundado pelo sergipano Francisco Antonio Vieira
Caldas Jr., em 1895, foi o principal concorrente da “Federação”
do Partido Republicano. A visibilidade da presença
italiana pode ser acompanhada, como de fato, realizamos, ao
longo de sua tiragem diária, concentradamente entre
1920 e 1937. Foi mesmo um dos principais modos dessa auto-representação.
Todas as referências do Correio do Povo foram extraídas
da minha tese de Doutorado, “Uma cidade se conta...”,
relacionada na bibliografia.
5 GARIBALDI, Anita, 1931, p. 12-13. Além do diário,
a neta Anita escreve essa obra, considerada como referência.
Alexandre Dumas, em 1860, teria registrado inúmeras
conversas até publicar o livro “Memórias
de Garibaldi”. Traduzido por Antonio Caruccio-Caporale,
trabalhamos com a edição brasileira de 1998,
Memórias de Garibaldi/Alexandre Dumas. A autenticidade
da obra é assim apresentada pelo editor: “Entre
Dumas e Garibaldi a cumplicidade é total. O primeiro
assevera que as memórias foram escritas pelo segundo,
sendo ele apenas o editor... No entanto, nada é mais
evidente que a autoria de Dumas quando se trata de analisar
estas páginas [...].” DUMAS, 1998.
____________________________________________________________
De modo que seguir os passos da autobiografia
de Garibaldi tem o dom da confirmação ex-post.
De certo modo esse é o roteiro da escrita de Anita.
Com importantes registros de veracidade, como quando obtém
a carta de corsário de Garibaldi, em Montevidéu.
Documentos que corroboram a densidade do mito...
A circulação do mito
e as demais retóricas
No período que antecede e em que ocorrem os comemorativos
do Centenário da Revolução Farroupilha,
onde o mito Garibaldi é disputado, essas celebrações
extravasam uma leitura circunscrita ao local, ao regional.
Prendem-se à densa atmosfera da política internacional
no sentido da radicalização ideológica
entre distintos projetos políticos. Aqui, os mitos
são macro, dizem respeito à criação
de movimentos sociais tal como o nacional socialismo.
Por sua vez, o nível micro trata do papel do mito nos
universos simbólicos dos sujeitos, grupos, organizações.
Aproxima o cotidiano e convida o historiador a perceber que
o mítico é apreensível na/em ação.
Exige colocar-se “na pele dos atores”, para perceber
o “domínio das representações do
tempo e das representações de si”. (CORBIN,
in VIDAL, 2005, p.16-21). E o que fez Anita, perseguindo as
possíveis sensações e experiências
do vivido e relatado pelo célebre avô? Difícil
saber. Vale trazer Fernando Pessoa, quando afirma que nenhuma
época transmite à outra a sua sensibilidade,
apenas sua inteligência.
Já a relação com o campo lingüístico
é evidente6: a circulação do mito Garibaldi
carrega a língua italiana nos anos 30. Ao lado de Dante
e Petrarca, Garibaldi é referência para a assimilação
do universo lingüístico latino. Atua no programa
mais recente de aproximação Brasil-Itália,
quando a disseminação dos cursos de língua
italiana é fato consumado.
Seja nas Sociedades italianas, seja nos colégios, com
apoio do Governo italiano, os atos de abertura e encerramento
do ano letivo são prestigiados. Como o ocorrido na
Sociedade Dante Alighieri, sob a presidência de Rafael
Guaspari. Na solenidade de reabertura, em abril, estão
presentes “[...] o Comendador Barbarisi, Cônsul
da Itália neste Estado, figuras representativas da
colônia italiana aqui radicada, representantes da imprensa
local e cerca de 200 alunos inscritos nos cursos de língua
italiana [...].7
O mesmo ocorre no Colégio Americano, quando o professor
Gino Battocchio, diretor das escolas italianas em Porto Alegre,
coronel Tito Fernandes, professor do Ginásio, os representantes
da imprensa e diversos convidados assistem ao discurso da
professora Valentina Paiva. Como sempre, Garibaldi é
mencionado:
“[...] é nesta data tão sugestiva
para nós, que procurais estreitar mais esses laços
que uniam italianos e brasileiros, esta época em que
celebramos o centenário farroupilha, essa fase de nossa
história em que o coração do povo gaúcho
sente palpitar bem unido a ele o grande coração
de José Garibaldi, pelas íntimas revelações
de um objetivo comum, solidário conosco nos interesses
e aspirações do Rio Grande do Sul.”8
Também o uso de alegorias e imagens alinha-se para,
nesse sistema de representação do mundo desde
a italianidade acoplada à figura de Garibaldi, fazer
prevalecer o convencimento identitário e a mobilização
de poder. Como se a memória e a biografia do indivíduo
Garibaldi houvesse, por fim, realizado a utopia libertária
da qual se enunciou portador na autobiografia.
Trata-se de perfilar quais e como serão os usos de
alegorias e imagens acionados pelos grupos de italianos na
cidade. A iniciativa parte da diretoria da Sociedade Dante
Alighieri: para além das solenidades em comemoração,
a Natal de Roma e da Festa do Trabalho Italiano, já
está empenhada para a organização de
um Comitê Colonial com a finalidade de agregar aos comemorativos
do Centenário Farroupilha, a “colônia italiana
do Estado”.
____________________________________________________________
6 Ver a discussão do giro lingüístico
que dominou as Ciências Humanas desde os anos 1980,
predominantemente. As sociedades italianas no Estado atuam
em várias frentes, com destaque para a disseminação
da língua e da cultura latina. Dentre elas, em Porto
Alegre destaca-se a Sociedade “Dante Alighieri”.
Vinculada à Roma e espécie de sub-representação
político-diplomática italiana, a Sociedade não
é freqüentada além da pequena burguesia
instalada na cidade.
7 “Para maior aproximação ítalo-brasileira”.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLV, n.78, p.9, 4 abr.1935.
8 “O ensino da língua italiana nas escolas”.
Correio do Povo, ano XLI, n.86, p.14, abr.1935.
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A idéia da celebração através
das figuras emblemáticas tais como inscrições
em bustos, estátuas, monumentos, que trazem forte potência
de reforço à sensibilidade no entendimento de
si e do outro não está cogitada, desta vez.
Lançam a proposta de um “monumento social”,
isto é, uma subscrição para a construção
de um pavilhão para tuberculosos junto ao Sanatório
Belém, homenageando o cientista Carlo Forlanine. Imediatamente
aprovada, manifesta-se o Cônsul conforme “o programa
que V. S. me expôs relativo ao Centenário Farroupilha,
programa que virá realçar a participação
da Colônia Italiana a manifestação em
que o fervor do trabalho e do progresso coincide com o centenário
daquela epopéia que deu ao povo rio-grandense o supremo
bem da liberdade. – (ass. ) G. Barbarisi, Cônsul
Geral da Itália.9
Ainda vão reunir-se inúmeras vezes para tratar
desse assunto. Em uma delas formam, além do comitê
da Colônia, o sub-comitê dos Profissionais Descendentes
de Italianos. Mais uma vez rememoram a participação
de Garibaldi, de Rossetti e de Zambeccari. Semeadores das
idéias de liberdade dos povos, tal como escrevem os
cronistas, atuaram na implantação do regime
republicano no Rio Grande com Bento Gonçalves e David
Canabarro.
Tal entrelaçamento de italianos e rio-grandenses se
expressa no epílogo das gerações de italianos
e seus descendentes, conquistando posições na
intelectualidade. De desbravadores das matas, para a presença
na arte e na cultura da civilização moderna
no Estado, a odisséia dos imigrantes está completa,
discursam.
____________________________________________________________
9 “A colônia italiana e o sanatório
Belém”. Porto Alegre, ano XLI,.n. 105, p.12,
maio 1935.
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A disputa da memória da Revolução
Farroupilha
Nem tudo é consenso, no entanto. Na perspectiva historiográfica,
um objeto sensível como um quadro, por exemplo, reflete
tanto a experiência histórica do pintor, como
do momento histórico no qual se realiza. Como discurso
visual, sua significação pode ser contestada.
O suporte da discordância, de novo, está nas
páginas de jornal. Não é uma crítica
nem da figura, nem da alegoria, mas da incongruência
entre forma e contexto histórico. O historiador Souza
Docca, em artigo, esgrime argumentos:
“O Correio do Povo, de 4 de abril, estampou o quadro
do pintor rio-grandense José Francesco – ‘A
última visão de Anita Garibaldi’ –
onde a heroína brasileira deitada ‘tendo a seu
lado a figura simbólica da República de 35.
Ao fundo, em uma cavalgada da epopéia, aparecem duas
colunas de guerreiros farrapos, flâmulas ao alto, tendo
à frente Garibaldi e Bento Gonçalves.’
[...] A heroína, em seus últimos momentos, nenhuma
manifestação fez que se possa crer pensasse
ela na cruzada farroupilha. Não há, mesmo, em
sua correspondência conhecida, referências que
demonstrem que aquele passado de lutas era uma de suas preocupações,
de todos os momentos, especialmente nos lances arriscados
ou difíceis. Considerando-se as circunstâncias
em que a heroína morreu e as cenas patéticas
de seus últimos momentos, não se pode aceitar
a visão idealizada pelo artista. Anita, longe de seus
filhos pequenos, minada por uma febre palustre, em uma retirada
penosa, de muitos dias, depois de um destroço da coluna
comandada por Garibaldi e carregada nos braços deste,
atinge, agonizante, a casa do Marquês de Guiccioli.
Ali, no dia seguinte, sentindo que ia morrer, levanta-se da
cama, fita profundamente os olhos do esposo. Este, tomando-a
nos braços, a beija, em lágrimas. Ouve-se, nesse
momento, o som trágico dos tambores e trombetas dos
austríacos, em perseguição feroz. Anita
morre nos braços de Garibaldi, que a coloca sobre a
cama e foge, célere, dos perseguidores. Cremos, por
tudo isso, que “A última visão de Anita
Garibaldi”, por maior que seja o seu valor artístico,
nenhum valor tem como verdade histórica. A Revolução
Farroupilha é riquíssima em episódios
memoráveis e dignos de serem perpetuados na tela, por
artistas de talento, como José Francesco e, por isso,
é lamentável que se os despreze, pela fantasia.
Que quadro admirável e majestoso poderá dar-nos
o artista que fixe na tela a ‘Abertura da Assembléia
Constituinte’, no momento em que Bento Gonçalves
lê sua fala.[...] Temos, neste fato, uma magnífica
lição para os nossos pintores, que quiserem
empregar suas aptidões artísticas em quadros
históricos, onde a verdade deve ser respeitada e o
meio ambiente reproduzido com a maior fidelidade possível.
Abandonemos as lendas e as invencionices que se têm
criado e escrito sobre Garibaldi entre os farroupilhas.[...]
Não obstante isto, não nos é lícito
esquecer e cumpre-nos glorificar seus feitos, durante o tempo
que serviu nas fileiras rio-grandenses. Tem-se, entretanto,
exagerado [...] com esquecimento dos nossos, com maiores e
mais nobres dedicações na cruzada memorável.
[...] o herói italiano entrou para o serviço
da República Rio-grandense em 1838, quando ela atingia
o período áureo de seus triunfos, e abandonou-a,
em 1841, quando se iniciava o declínio de suas glórias.
Foram os braços dos brasileiros do Rio Grande e de
outras Províncias do Brasil, que iniciaram e sustentaram
a contenda, a custa de sacrifícios ingentes, a golpes
de heroísmos assombrosos, mantendo uma tenacidade sem
igual nos fatos de nossas lutas. Com essa falta de fundamento
histórico e com aqueles anacronismos flagrantes, se
tem criado uma lenda em torno de Garibaldi no Rio Grande do
Sul, lenda essa que ele não precisa para ser enquadrado
entre os heróis farroupilhas, mas que, lamentavelmente,
o tem sobreposto a vultos de proporções maiores
que as suas, quer no terreno das idéias, quer na constância
da luta, durante a cruzada homérica.”10
Na seqüência, os jornalistas Crocco, Carrazoni
e Barbieri11, sem investirem contra essa linha de argumentação
(recomendando prudência e rigor), retomam o discurso
glorificador. Como se deixar sem contestação
a linha de análise de Docca fosse prioritário
para os comemorativos. Em suma, além do mito, há
um modo mítico de construir discursos. É o que
fazem nas três crônicas a seguir. Crocco destaca
o caráter exilar. Lembra que, entre tantos, Machiavel
e Dante promoveram seus exílios ao defenderem seus
ideais. Que,
“depois da Revolução Francesa e da
coroação de Napoleão 1o, imperador e
rei da Itália, os maiores vultos e atletas do Risorgimento
Italiano nasceram e criaram-se, até certa idade, súditos
franceses. Giobert (em Turim), Mazzini (em Gênova),
Garibaldi (em Nizza ou... Nice), Cavour (em Turim), Zambeccari
(em Bologna), e assim Rossetti, Anzani e muitos outros, os
quais, depois de Waterloo, educados republicanamente, não
‘agüentaram’ mais os paternos governos austríacos
e borbonios, e foram na Espanha ou em Portugal a defender
a constituição liberal ou vieram para este sul
em defesa de seus ideais em auxílio dos heróicos
correligionários.”
Para Carrazzoni,
“[...] Não pode haver patriotismo, e patriotismo
como função da terra e da história, sem
o culto dos antepassados, o respeito da tradição,
o sentimento de ativa e militante solidariedade que, através
de um complexo de ações e reações,
une os homens de hoje às gerações de
ontem. Arco-íris romântico abrindo entre tormentas
de ódios e paixões, nem o poema idílico
do coração humano falta ao drama dos Farrapos:
Garibaldi, ‘condottieri’ e apóstolo, compõe
a pastoral americana do seu destino, com a sonhadora mulher
que – ‘Belíssima filha do Continente’
– havia de ser, como ele, a heroína de dois mundos.
São essas figuras que varam as névoas dos tempos,
enchendo a história de transfigurações
poéticas, ou legendas, e de deformações
líricas da realidade, ou mitos [...].”
Por último, Barbieri alinha os ideais da liberdade,
da fraternidade e da igualdade, “um século agoniza
sobre a glória dos Farrapos, outro século surge.
O século que morre traz ao século que vem avançando
de dentro das brumas do tempo uma tocha imensa, como que para
iluminar às gerações vindouras o caminho.
Que caminho será?”.
____________________________________________________________
10 DOCCA, Souza. A última visão de Anita
Garibaldi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.106,
p.3, 7 de mai 1935
11 CROCCO, Gesualdo. Um italiano “Farroupilha”.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.147, p.3, 25 jun
1935. CARRAZONI, André. Mitos, símbolos, emblemas.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.211, p.3, 8 set.
1935; BARBIERI, Sante Umberto Barbieri. Os Farrapos atiram-nos
a tocha! Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.219, p.14,
19 set.1935.
____________________________________________________________
As representações que
se querem eternizar:
do migrante ao general
Embora a proposta da celebração farroupilha
pela comunidade italiana eleja a construção
de ala no Sanatório Belém, monumentos serão
erigidos. Dentre eles, aquele que homenageia o trabalho do
migrante. É importante solidarizar os mitos.
O escolhido em Porto Alegre é o obelisco que homenageia
a odisséia de Vicente Monteggia, o “fundador
do moderno centro agrícola”, na Vila Nova, na
Barra do Ribeiro, margem direita do Guaíba, e a alguns
quilômetros de Porto Alegre. A inclusão desse
evento na programação oficial Farroupilha desvia
o foco sobre a memória dos italianos revolucionários
e faz incidir luminosamente a função da migração
e colonização no Estado, ocorrida volumosamente
desde o século anterior. Mas é preciso registrar
que, em 1930, a Itália já vem reduzindo a sua
imigração, antes mesmo da implantação
dos sistemas de cotas pelo governo brasileiro.12
Falecido em 1933 e nascido em Laveno, ao sul do Lago Maggiore,
Vicente percorre a Tunísia, Marcela, antes de vir para
América, Rio Grande do Sul. Foi industrial, agricultor,
organizador de empresas, construtor e técnico de estradas.
Considerado como “uma das individualidades mais representativas
da colônia italiana”, o professor Francisco Benoni
identifica que Vicente “sintetizava a homenagem a milhares
de imigrantes,(sic) voluntários, por circunstâncias
várias, e, por isso, esse simpático feito ecoaria
entre a colônia italiana e se enraizaria no coração
dos muitos sobreviventes que familiarizavam com o nobre povo
rio-grandense, há mais de sessenta anos [...]”.
A presença do Cônsul geral da Itália,
representantes das sociedades italianas, alunos das escolas
ítalo-brasileiras e italianas em geral prestigiam o
evento.13
No ano seguinte, em 15 de janeiro de 1936, ocorre a inauguração
mais esperada: a estátua eqüestre de Bento Gonçalves
esculpida por Antonio Caringi. O pedestal da estátua
se levantará em frente ao pórtico da Exposição
Farroupilha em Porto Alegre. Para a prefeitura da cidade de
Pelotas, traz a escultura em bronze da “Sentinela farroupilha”.
Diz em entrevista: “aproveitei então a ocasião
de homenagear o gaúcho pobre, o rebelde humilde, o
soldado farrapo, o peão da estância.[...] em
que reproduzo a sentinela de 35 com a fisionomia máscula
do índio charrua, trazendo a indumentária aqui
usada há um século: o xiripá, o poncho,
bota de cano a meio-pé, o lenço ao pescoço
com o laço de 35”. Ainda são dele as duzentas
e cinqüenta medalhas com a efígie de Bento Gonçalves
[...].Toda a imprensa européia, diz Caringi “evoca
o decênio formidável dos rebeldes dos pampas
e recorda a ação de seus líderes e o
perfil atrevido e glorioso de sua figura máxima –
Bento Gonçalves.[...] esculpindo o general do grande
levante e a sentinela anônima e imprescindível
do decênio farrapo, Caringi cultua uma das mais garbosas
etapas do “pugilato milenar entre o cativeiro e a liberdade”.14
No discurso de inauguração o deputado Dario
Crespo, descendente de Bento Gonçalves (bisavô),
“[...] ao raiar o ano memorável de 1835, o Rio
Grande estava mobilizado para a grande luta. É que
já se formara uma consciência coletiva. A iluminá-la,
a chama de um verdadeiro ideal. [...] nunca o Rio Grande foi
menos ele próprio, nunca pensou e obrou por si mesmo,
do que durante a revolução farroupilha”,
é que o Rio Grande excedeu-se a si próprio,
tocado de um nobre idealismo, pensando e agindo pelo Brasil,
que desejava unido pelos laços federativos, sob o regime
republicano.”
Desta feita a inauguração atenua a soldadura
narrativa que aproxima o mito Garibaldi à italianidade
e à Revolução Farroupilha. A mesma reconstitui-se
quando da oferta, finalmente, ao Sanatório Belém,
de 120 contos de réis e de todos os móveis e
utensílios para o Pavilhão Forlanini. Estamos
próximos do fim das celebrações dessa
conjuntura.
Finaliza o período com a inauguração
dos retratos de Garibaldi e Anita, de Zambeccari, Anzani,
Costellini etc., na sala das recepções da Dante
Alighieri (Itálica Domus) e da exposição
de uma grande coroa de louros no obelisco erigido no Campo
da Redenção como lembrança do Cinqüentenário
da Colonização Italiana no Rio Grande, no qual
figuram os medalhões em bronze de Zambecari e a placa
com os nomes de todos os italianos que participaram da campanha
farroupilha.15 A cidade de Viamão recebe uma lápide
na fachada do edifício da Prefeitura Municipal em homenagem
à memória de Luiz Rossetti, morto em combate
no Passo do Vigário, em 1840, estendendo os comemorativos
para a histórica cidade.
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12 1920,10.0055;1923,15.839;1927,12.487;1930,4.253;1933,1.1920;1934,1.389
e, provavelmente em 1935, 1.266. PIERINI, Sylvio. Cotas de
imigração. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XLII, n.7, p.3 26 mar 1936.
13 “Inauguração de monumento”. Correio
do Povo, Porto Alegre, ano XVL, n.280, p.4, 1 dez 1935.
15 UMA HORA de palestra com o escultor Ângelo Guido.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 280, p.14, 1 de
dezembro 1935; FOI INAUGURADA ontem, a estátua eqüestre
de Bento Gonçalves. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XLII, n.13, p.16 janeiro 1936. A descrição:
“ O major Alberto Bins convidou os generais, o Governador
do Estado, Flores da Cunha e Parga Rodrigues, para puxarem
as cordas, afim de assim descobrir a estátua, que estava
coberta com bandeiras nacional e rio-grandense.[...] Nas faces
laterais, há também baixos relevos, simbolizando
cargas de cavalaria rio-grandense. Na frente, há apenas
os dizeres: “Bento Gonçalves – 1835"
e na parte posterior, três frases artisticamente trabalhadas.
A primeira delas tem os seguintes dizeres: “Aos heróis
farroupilhas, homenagem da aviação naval, 20-9-1835
– 20-9-1935". No centro, a outra com esta dedicatória:
“Homenagem da Prefeitura aos heróis de 1835.
[...] Finalmente, a ultima das placas tem estas palavras:
“A guarnição do couraçado “Rio
Grande do Sul”, ao povo gaúcho, simbolizado no
seu grande herói farroupilha – Porto Alegre,
20-9-1935.”
16 A COLÔNIA italiana e o Centenário Farroupilha.
Correio do Povo, Porto Alegre ano XLII,n.276,p.15, 22 nov
1936.
____________________________________________________________
Considerações finais
As descrições de homenagens, a citação
fragmentada de discursos, a repetição da labiríntica
autobiografia de Garibaldi e a bibliografia de desequilibrada
qualidade que se lhe seguiu, são rastros do espaço
social de uma dada construção mítica.
Vimos como essa pode ser capturada numa conjuntura, como nesses
anos 30. Não se compreende nada sobre o mito se não
é posto à prova da sua adequação
e funcionalidade para os sujeitos, os grupos, as instituições.
Dialética em movimento, o herói necessário
surge quando e como se faz carne e espírito.
Para o conhecimento histórico, é desejável
a busca do regime de verdade onde possa se distinguir a utilização
da memória, na construção do fato histórico.
Assim como destacar o fator gerador de realidades, através
das representações sociais que se impõem
numa dada conjuntura.
Os comemorativos aqui relatados, na sua pompa e discursividade,
mais que salvar do esquecimento a figura de Garibaldi (e outros),
pretenderam celebrar uma continuidade mítica que, na
verdade, inexiste. As circunstâncias possibilitaram,
não obstante, tal amálgama. O herói projetado
pelo coletivo e o sujeito histórico singular podem
— como devem — ser confrontados pela pesquisa
histórica. São, ambos, faces do perspectivismo,
atitude do conhecimento desinteressado, e, exatamente por
isso, aquele que realmente faz avançar a representação
de si e do outro; o imaginário construído para
dar conta da revelação da historicidade implicada
nisso tudo é nossa tarefa.
Os comemorativos do Centenário da Revolução
Farroupilha, conforme a estratégia textual adotada,
pretenderam exemplificar essa possibilidade.
Referências bibliográficas
DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Tradução
de Antonio Caruccio-Caporale. Porto Alegre: L&PM, 1998.
BRUM, Rosemary Fritsch. Uma cidade que se conta.
Imigrantes italianos e narrativas no espaço social
da cidade de Porto Alegre (1920-1937). 2003. Tese (Doutorado),
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul, Porto Alegre, 2003.
GARIBALDI, Anita. Garibaldi na América. Tradução
de Renato Travassos. Rio de Janeiro: Alba, 1931.
MITJAVILA, Myriam. Sobre a densidade social do
mito. Notas para uma leitura sociológica do tema.
Plural: São Paulo: USP, 1;87-105.1 sem.1994
SARLO, Beatriz. Cultura da memória e guinada subjetiva.
São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG,
2007.
VIDAL, Laurent. Alain Corbin. O prazer do historiador.
Rev. Bras. Hist. São Paulo. v 25 n.49, 2005.
Garibaldi: a gênese do mito
Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
___________________________________________________________
Historiadores e pesquisadores do Memorial do
Ministério Público do Estado do Rio Grande do
Sul
“Heróis são símbolos poderosos,
encarnações de idéias e aspirações,
pontos de referência, fulcros de identificação
coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para
atingir a cabeça e o coração dos cidadãos
a serviço da legitimação de regimes políticos.
Não há regime que não promova o culto
de seus heróis e não possua seu panteão
cívico.”1
Introdução
Sob essa perspectiva — do culto aos heróis como
pontos de referência e de identificação
coletiva — podemos desvelar de que maneira alguns personagens
são retirados de uma condição de obscuridade
e alçados à posição de destaque
e por que outros, de notória influência e participação
em determinados episódios, — no caso da Revolução
Farroupilha, por exemplo, Silva Tavares, Bento Manoel, Francisco
Pedro — são relegados a uma condição
de “esquecimento”.
Com base nesses breves indicativos pretendemos situar a atuação
de Giuseppe Garibaldi na Revolução Farroupilha,
ou melhor, analisar de que maneira o corsário da República
Rio-Grandense, um dentre muitos estrangeiros a lutar ao lado
dos farroupilhas, alcançou posição de
destaque no panteão dos revolucionários.
____________________________________________________________
1 CARVALHO, José Murilo. A formação
das almas: o imaginário da República no Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 55.
____________________________________________________________
Nesse sentido, procederemos a uma análise diacrônica
de como a participação de Garibaldi foi sendo
concebida e reproduzida por escritores, historiadores e políticos
no Rio Grande do Sul. Levaremos em conta três momentos:
em primeiro lugar, Garibaldi visto pelos seus contemporâneos
farroupilhas; em segundo, os primeiros trabalhos produzidos
e publicados sobre o tema, entre o quartel final do século
XIX e as duas primeiras décadas do século XX,
quando Garibaldi já estava consagrado como herói
da unificação italiana e, finalmente, o terceiro
momento correspondente ao período que vai da criação,
no início dos anos vinte, do Instituto Histórico
e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS) até
as comemorações do cinqüentenário
da morte de Garibaldi, em 1932, quando surgem estudos e obras
especializadas sobre Garibaldi e a Revolução
Farroupilha.
Não é pretensão deste estudo fazer a
apologia de Garibaldi, tampouco buscamos a desconstituição
do mito do “herói dos dois mundos”. Nosso
esforço é no sentido de compreender a atuação
do sujeito histórico no seu tempo, premido pelas estruturas
de sua época e, a partir daí, entender como
foram surgindo as representações acerca de Garibaldi:
de corsário a herói farroupilha.
Para tanto, é preciso ter em conta que os relatos acerca
da atuação de Garibaldi, que serviram para criar
a sua imagem heróica, têm como principal fonte
suas próprias Memórias. Conforme Paulo Markun
explica:
“Sua trajetória não foi documentada
como a de outras figuras históricas da mesma dimensão,
seu grupo dissolveu-se sem deixar arquivos, suas batalhas
não seguiam nenhum plano preestabelecido que permitisse
recriá-las e ninguém anotava seus passos. Em
suas cartas, deixou de lado experiências pessoais.”2
Garibaldi começou a escrever as suas memórias
em Tânger, em 1849. Fugido da Itália e atuando
como comerciante, preencheu centenas de folhas de papel de
carta com a sua própria letra. A partir dessas anotações
foram feitas, ao menos, cinco versões: a de Theodore
Dwight, publicada nos EUA, em 1859; a de O. Fere e R. Hyenne,
publicada na França em 1859; a de Francesco Carrano,
publicada na Itália (Turin) em 1860; a de Alexandre
Dumas, publicada na França (Paris) também em
1860; e a da baronesa Marie Espérance von Brandt (Elpis
Melena), publicada na Alemanha (Hamburgo) em 1861. Nenhuma
dessas versões é fiel ao manuscrito de Garibaldi,
que está no Arquivo do Estado de Roma. A mais conhecida,
todavia, e que se tornou a biografia de Garibaldi por excelência,
é a de Alexandre Dumas.
_____________________________________________________________
2 MARKUN, Paulo. Anita Garibaldi: uma heroína brasileira.
5ª ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo,
2003, p. 166.
_____________________________________________________________
Garibaldi na Revolução Farroupilha
Os indícios da época apontam Garibaldi
como um dos tantos estrangeiros que se bateram pela causa
farroupilha. Dos jornais da época, apenas O Povo
menciona Garibaldi. Esse foi o periódico mais importante
da República Rio-Grandense e circulou durante um ano
e nove meses em Piratini e Caçapava.
Garibaldi foi mencionado nas páginas de O Povo
pelo menos 11 vezes, entre setembro de 1838 e novembro de
1839. Trata-se de ofícios, comunicados e expedientes
de caráter oficial.
Os números de 4 de maio e de 10 de agosto de 1839 fazem
referência à atuação de Garibaldi
em dois momentos. O primeiro relata a defesa da Estância
do Brejo, quando do ataque de Moringue, em 17 de abril de
1839:
“O comandante da Esquadrilha da República
continua a dar provas não equívocas de seu civismo
e bravura: eis a ordem do dia por ele endereçada aos
valentes de tripulação dos vasos a seu mando,
que em número de 11 rechaçaram 150 cativos que
os foram atacar .”3
O segundo conta a travessia por terra dos lanchões
Seival e Farroupilha, comandados pelos “honrados e corajosos
Garibaldi e Rossetti”.4
Os demais jornais farroupilhas consultados não mencionam
Garibaldi. Todavia, tanto O Mensageiro, quanto O
Americano e Estrela do Sul (esses dois últimos
de Alegrete), cobrem períodos em que o italiano não
estava no Rio Grande do Sul.
Os jornais legalistas a que temos acesso igualmente não
falam de Garibaldi. O Artilheiro menciona Bento Gonçalves,
Bento Manoel, Onofre Pires, Corte Real, Pedro Boticário,
David Canabarro, Antônio de Souza Netto, Rafael Calvet,
Marques Alfaiate e Teixeira Nunes. O Imparcial, que
circulou de 22 de outubro de 1844 até o final do movimento
(mais precisamente, até 1849), tampouco fala do italiano.
Nessa época, Garibaldi estava em Montevidéu.
O periódico dá muitas notícias da capital
uruguaia, mas não menciona Garibaldi.
____________________________________________________________
3 O Povo, 4 de maio de 1839, n.º 63, 3º boletim
de Caçapava.
4 O Povo, 10 de agosto de 1839, nº , 7º boletim
de Caçapava, p. 4.
____________________________________________________________
O número expressivo de citações em O
Povo não significa que Garibaldi tivesse um destaque
maior do que os demais oficiais envolvidos no movimento farroupilha.
Diversos oficiais são citados até porque o jornal
era um instrumento de comunicação entre as tropas
e os comandantes. Não havia notícias propriamente
ditas no periódico. Havia avisos oficiais, como os
decretos e proclamações do comando da revolução,
ofícios e circulares, artigos de cunho ideológico
e anúncios para compra e venda de escravos e outros
produtos.
Na extensa correspondência de Bento Gonçalves
da Silva, há apenas duas referências a Garibaldi.
Uma delas é a carta de corsário, que foi reproduzida
em O Povo, datada de 10 de junho de 18385. A outra
consta numa carta do líder Bento Gonçalves ao
genro, com data de 26 de agosto de 1842, na qual narra os
acontecimentos de que toma parte Garibaldi, já no Uruguai.
Episódio interessante é o envolvimento de Garibaldi
com Manoela, sobrinha de Bento Gonçalves, narrado nas
Memórias e conhecido do público em
função de sua exploração em uma
minissérie de televisão6. Tal registro afigura-se
importante porque apresenta indícios da maneira como
Garibaldi era visto por seus contemporâneos. A história,
que já foi até tema de romance7, é atraente
também por humanizar os heróis farroupilhas,
Garibaldi e Bento Gonçalves: o primeiro, homem apaixonado
disposto a se casar sem maiores reflexões; o segundo,
tio zeloso, preocupado com a sorte da sobrinha. Manoela, igualmente,
fornece um contraponto à Anita: a sinhazinha frágil
em oposição à camponesa guerreira.
O namoro com Manoela, de fato, ocorreu. Não só
Garibaldi o recorda nas Memórias, como existem
outros indícios. Cartas de Luigi Rosseti a João
Batista Cuneo relatam que Garibaldi estava apaixonado e que
pretendia se casar:
____________________________________________________________
5 Coletânea de Documentos de Bento Gonçalves
da Silva – 1835-1845 – Arquivo Histórico
do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Comissão Executiva
do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha,
Subcomissão de Publicações e Concursos,
1985, p. 61.
6 A Casa das Sete Mulheres exibida pela Rede Globo de Televisão
em 2003.
7 GUIMARÃES, Josué. Garibaldi e Manoela: Uma
história de amor. Porto Alegre: L&PM, 2002.
____________________________________________________________
“19 de janeiro, 1839, Piratini.
Fratello:
(...) Garibaldi esteve gravemente doente. Mas restabeleceu-se
e ameaça se casar. Me escreveu pedindo que eu lhe sirva
de mentor. Imagine se o farei. Depois de amanhã, como
o governo me pediu para ir acompanhar o trabalho dos marinheiros,
partirei para vê-lo e farei com ele aquilo que um amigo
faria na mesma circunstância. Se for adiante, então
não terei remédio e eu mesmo o forçarei
a cumprir o seu dever. Não sei quem seja a tirana.”8
Outra carta, de 9 de fevereiro de 1839, volta ao tema: “(...)
Garibaldi está apaixonado e ameaça se casar.
Mas não vai fazê-lo, de jeito nenhum. Ele me
prometeu”.9
Ao que tudo indica, os amigos eram contrários ao relacionamento
que implicaria o abandono da causa revolucionária por
Garibaldi. Se casasse com Manoela, Garibaldi teria de se estabelecer
como estancieiro, deixando a incerta vida de aventuras. Apesar
do descontentamento dos amigos, foi Bento Gonçalves
quem acabou com o romance. Disse a Garibaldi que Manoela estava
prometida ao seu filho Joaquim. Não era verdade. Bento
Gonçalves recebia Garibaldi em sua casa, mas considerava-o
um aventureiro, um homem indigno de desposar uma sinhazinha
de família tradicional como Manoela. O historiador
Otelo Rosa, após uma palestra proferida em 4 de julho
de 1932, no Theatro São Pedro, por ocasião das
comemorações do cinqüentenário da
morte de Garibaldi, recebeu uma carta de Otacílio Ferreira,
descendente de Manoela. Ele relata:
“O suposto noivado com seu primo, filho de Bento
Gonçalves, não passou de um pretexto de seus
pais para recusarem o pedido de Garibaldi, pois embora o recebessem
em seu lar e o cumulassem de gentilezas não deixavam
de considerá-lo como aventureiro, motivo pelo qual
opuseram-se ao casamento.”10
_____________________________________________________________
8 MARKUN, Paulo. Op. cit. p. 116. A carta é citada
por SALVATORE,Candido. La rivoluzione riograndense nel carteggio
inedito di due giornaliste mazziniani: Luigi Rosseti e G.
B. Cuneo, 1837-1840. Florença: Valmartine Editora,
1973, p. 75-76.
9 Ibidem. p. 117.
10 Cincoentenário da morte de José Garibaldi.
Revista do Instituto Histórico e Geográfico
do Rio Grande do Sul. II trimestre, ano XII. Porto Alegre:
Livraria do Globo, 1932, p. 254-256.
_____________________________________________________________
Nesse passo, há um contraste entre o que se lê
nas Memórias e o que ficou registrado nos
documentos da época. Nesse sentido, vejamos como Garibaldi
relatou sua relação com o chefe farroupilha
Bento Gonçalves: “No dia em que nos encontramos
pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal;
e conversávamos com tanta familiaridade como se fôssemos
companheiros de infância e iguais em posição11”.
Os chefes civis e militares farroupilhas, em sua maioria,
eram estancieiros e escravocratas. Não havia espaço,
nos postos de comando, para outros segmentos sociais. Garibaldi,
um entre tantos estrangeiros a se bater por uma causa que
não era sua, não era visto como um igual. De
fato, dos documentos compulsados, aqueles que apresentam de
maneira mais clara e precisa a condição dos
estrangeiros na Revolução Farroupilha são
as cartas de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida.
Da carta datada de 11 de agosto de 1839, quando Rossetti estava
já em Santa Catarina, como secretário de governo
da efêmera República Juliana, colhemos a seguinte
passagem, bastante elucidativa:
“O General Canabarro escreveu não sei se
ao governo ou ao General Netto. (...) Consta-me que ele também
ou escreveu, ou queria escrever, ao Ministro José Mariano
de Matos, lastimando que Garibaldi fosse o Comandante da Esquadrilha
e eu o Secretário do Governo. (...) Sei que sou estrangeiro,
e sei à custa de muitos desgastes que por nenhum modo
me cansa defender os princípios que professo em emprego
onde só se faz preciso a pena. Os guerreiros estimam
que o estrangeiro combata ao seu lado, mas os letrados não
gostam de ver um estrangeiro sentado ao mesmo escritório.”12
Em outra carta Rossetti reclama da falta de notícias
sobre os acontecimentos da Revolução:
____________________________________________________________
11DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Porto
Alegre: L&PM, 2002, p.73.
12 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida,
datada de 11 de agosto de
1839. Coleção Alfredo Varela, Maço 51,
Caixa 15, AHRGS.
____________________________________________________________
“Não sei nem posso entender como tudo isso
andasse perdido. Garibaldi também nunca recebeu uma
só linha do Governo, e é muito de admirar que
desde um ofício por nós recebido no Camaquã
depois do dia 14 de abril não recebemos nunca mais
uma linha nem amistosa nem oficial e não esconderei
a esse respeito que nós estávamos bem decididos
a não nos queixarmos e esperar melhor justiça
do tempo.”13
Pelo teor do documento fica patente a fragilidade das
comunicações, se considerarmos que Rossetti
era um secretário de Estado e Garibaldi, o comandante
da esquadrilha farrapa, bem como o fato de que os estrangeiros
não tinham praticamente acesso às decisões
tomadas pelos chefes farroupilhas. As cartas de Rossetti são,
ainda, elucidativas também ao precisar o papel de Garibaldi:
(...)”dirigira-se [Garibaldi] à Barra do Rio
de Janeiro, onde certamente fará muito mais estrago”.
(...) “Garibaldi já fez quatro presas, mas desafortunadamente
duas delas foram separadas da Caçapava que as conduzia
por um temporal e uma foi retomada pelo inimigo. Estão
hoje descarregando uma outra em Imbituba”.14 Enfim,
as cartas delimitam bastante bem qual era a função
de Garibaldi: a de corsário.
Alguns anos depois, surgiu um documento que muito confundiu
os historiadores: uma carta de Garibaldi para Domingos José
de Almeida escrita em 10 de setembro de 1859. Na carta, o
italiano, exaltando a coragem e a capacidade guerreira dos
rio-grandeses, afirma: “(...) quando penso no acolhimento
com que fui recebido no grêmio das suas famílias,
onde fui considerado como filho”.15 Passados quinze
anos dos acontecimentos em solo gaúcho, Garibaldi parece
ter selecionado as melhores memórias. Há um
nítido contraste entre os registros da época
e essa carta que foi bastante difundida.
Um outro documento daquela época dá pistas a
respeito de Garibaldi contemporâneo da Revolução
Farroupilha. No ano de 1849, foi publicado em forma de folhetim
no jornal O Americano, do Rio de Janeiro, o romance
O Corsário, de José Antônio do
Vale Caldre e Fião. A história se passa no Rio
Grande do Sul durante a Revolução Farroupilha.
O corsário em questão não é Garibaldi,
embora num primeiro momento pareça que esse serviu
de inspiração para o protagonista Giuseppe Vanzini:
aventureiro, louro, longos cabelos, conquistador16. O que
desfaz a identificação é o fato do próprio
Garibaldi ser citado duas vezes no romance.
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13 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida,
datada de 1º de agosto de 1839. Coleção
de Alfredo Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.
14 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida,
datada de 30 de outubro de 1839. Coleção Alfredo
Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.
15 A FEDERAÇÂO. 4 de julho de 1907.
16 CALDRE E FIÃO, José Antônio do Vale.
O Corsário. Porto Alegre: Movimento, Instituto Estadual
do Livro, 1979, p. 14. Guilhermino Cesar, na introdução,
identifica Garibaldi com Vanzini.
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Caldre e Fião foi contrário à Revolução
Farroupilha. Devemos, portanto, considerar a sua palavra com
cautela. Contudo, seu relato destaca a função
que Garibaldi desempenhou no movimento: a de corsário.
Numa passagem, Manoel da Cunha, legalista relata:
“Contava-se ainda mais, como cousa certa, que um
dos companheiros de Garibaldi, que com ele tinha feito as
mais infames piratarias na Lagoa dos Patos, era o que comandava
e dirigia essa reunião. Algumas das famílias
que existem ainda por aí queixaram-se amargamente de
se verem expostas a visitas desses ladrões, aves de
rapina que levavam consigo quanto encontravam, ainda mesmo
dos mais pobres...”17
Mas adiante, o mesmo Manoel da Cunha afirma, comparando
Garibaldi a Vanzini, “o seu comandante era Vanzini,
porque Vanzini servira com Garibaldi, e porque ele era, como
Garibaldi, um homem amigo da pilhagem”.18
Por outro lado, o fato de mencionar Garibaldi no romance mostra
que a participação do italiano na Revolução
era conhecida. Além de Garibaldi, Caldre e Fião
menciona Bento Gonçalves (que aparece em diversas passagens),
Gomes Jardim e Tito Lívio Zambeccari, esse último
de forma negativa.
Garibaldi e a propaganda republicana 1880-1920
O período que compreende o término da Revolução
Farroupilha até a instauração do regime
republicano, em 1889, não foi propriamente fecundo
no que diz respeito à publicação de trabalhos
referentes ao “Decênio Heróico”.
Isso se deve à consolidação do Segundo
Reinado e ao sistema político subjacente a ele. Dentre
os produzidos, excluindo-se “Guerra Civil no Rio Grande
do Sul”, de Tristão de Alencar Araripe, trazido
a lume em 1881 — tida como a primeira obra impressa
a tratar sistematicamente sobre a quadra revolucionária
—, visivelmente contrária aos farroupilhas, os
demais apresentavam caráter panfletário.
____________________________________________________________
17 CALDRE E FIÃO, José Antônio do
Vale. Op. cit. p. 256.
18 Ibidem.
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Tristão de Alencar Araripe, nascido no Ceará,
exerceu diversos cargos políticos pelo Partido Conservador,
entre eles, o de presidente da Província do Rio Grande
do Sul, de 4 de abril de 1876 a 5 de fevereiro de 1877. Era
visivelmente contrário aos revolucionários de
1835, aos quais trata com indisfarçável menoscabo,
principalmente a seus líderes, em especial Bento Gonçalves.
No que diz respeito a Garibaldi, há apenas breves passagens
em seu trabalho:
“A república jamais teve força naval;
apenas José Garibaldi, esse que posteriormente constituiu-se
herói na Itália, sustentando a causa da unificação
da sua pátria, comandou alguns lanchões, que
foram logo tomados pela marinha nacional.”19
Mais adiante, após referir-se a Garibaldi jocosamente
como pirata, relata brevemente o combate de Laguna em que
os republicanos perdem definitivamente o controle sobre Santa
Catarina:
“A força imperial teve, entre mortos e feridos,
180 pessoas, isto é, mais de um décimo da sua
totalidade, e os rebeldes contaram mais de 200. Daqui podemos
avaliar do encarniçamento do combate. Os comandantes
de todos os navios rebeldes foram mortos, à exceção
de seu chefe José Garibaldi.”20
Mais interessante, contudo, é que as fontes utilizadas
por Araripe foram as próprias Memórias
de Garibaldi: “Nas Memórias de José
Garibaldi, publicadas por Alexandre Dumas, se diz que do navio,
onde comandava esse caudilho, só ele escapou vivo”.21
Julio de Castilhos, em editorial de A Federação,
de 26 de setembro de 1886, caracterizou Araripe como “fazedor
de crônicas oficiais” e anunciou as respostas
da “nova geração rio-grandense”.
____________________________________________________________
19 ARARIPE, Tristão de Alencar. Guerra Civil no
Rio Grande do Sul: Memória Acompanhada de documentos
lida no Instituto Histórico e Geográfico do
Brasil. Porto Alegre: Corag, 1986, p. 88. Obs. Ed. fac-similar
do original publicado: Rio de Janeiro: E. & H Laemmert,
1881.
20 ARARIPE, cit., p. 98.
21 Ibidem.
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Referia-se Julio de Castilhos às obras: História
da República Rio-Grandense, de Joaquim Francisco
de Assis Brasil (1882) e História Popular do Rio
Grande do Sul (1882), de Alcides Lima, embora somente
o primeiro trate especificamente da Revolução
Farroupilha. Outra obra, A Revolução de
1835 no Rio Grande do Sul, de Ramiro Fortes Barcellos,
surge em seguida (1885). Obras de feição republicana,
as duas primeiras, elaboradas sob encomenda do Clube Republicano
20 de Setembro, procuram justificar as razões da revolta
e a incapacidade do poder central de compreender as “justas”
reivindicações do Rio Grande, o que teria sido
a causa precípua dos eventos que levaram à proclamação
republicana.
No que diz respeito a Garibaldi, limitam-se a descrever brevemente
os principais episódios de sua atuação.
Vejamos o que diz Barcellos:
“Em 1838 este ilustre italiano veio novamente prestar
os seus serviços à causa rio-grandense, à
qual serviu com aquela dedicação e com aquela
bravura, que o tornaram um dos homens mais notáveis
na sua pátria e um dos mais admirados no presente século.”22
À evidência, Ramiro Barcellos, propagandista
republicano, senador pelo Rio Grande do Sul entre 1890 e 1906,
não estava se referindo ao corsário estrangeiro
que se colocara a serviço das armas rio-grandenses,
mas, tecia elogios ao herói da unificação
italiana. Já Assis Brasil, também um dos principais
próceres republicanos no Rio Grande do Sul, primeiro
deputado do PRR ainda no período do Império,
tão somente alude à atuação de
Garibaldi à frente da Marinha Rio-Grandense, por todos
considerada, aliás, a maior fragilidade dos rebeldes.
Para Assis Brasil, contudo, mais importante foi a atuação
de outro italiano, Zambeccari, a quem considerava, com certo
exagero, o “verdadeiro e real diretor mental”
da revolução, sendo o responsável pelo
“influxo que exerciam no Rio Grande as doutrinas da
‘Jovem Itália’ de Mazzini”23.
____________________________________________________________
22 BARCELLOS, Ramiro Fortes de. A Revolução
de 1835 no Rio Grande do Sul. Ed. com fixação
do texto completo do original publicado: Porto Alegre, Jornal
do Comércio, 1882. Porto Alegre: C omissão Executiva
do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha
- Corag, 1986.
23 BRASIL, Joaquim Francisco de. A Guerra dos Farrapos: História
da República Rio-Grandense. (1º ed. 1882) Rio
de Janeiro: Andersen, 1930, p.71.
____________________________________________________________
Foi, todavia, nas páginas do jornal A Federação
que os jovens republicanos afirmaram sua identidade com os
farroupilhas. Na edição comemorativa ao cinqüentenário
da Revolução Farroupilha, em 1885, apareceram
referências a Garibaldi e à Itália. O
20 de setembro é também a data que simboliza
a unificação italiana, com a entrada do exército
do Piemonte em Roma, completando o processo de unificação.
Assim, na edição de 20 de setembro 1885, há
uma matéria fazendo alusão a esse evento:
“Glorioso para a província do Rio Grande
do Sul, por recordar o grande feito revolucionário
de 35, o 20 de Setembro relembra à Itália o
fato soleníssimo da unificação da Pátria
sublime de Dante, do excelso Mazzini, do severo Cavour e do
imortal Garibaldi. A completa unificação da
Itália há 15 anos representa a mais bela conquista
da democracia, assegurando à Itália as liberdades
que hoje a tornam notável entre os países monárquicos
do velho mundo. Trabalhadores, enérgicos pensadores
e altivos, os italianos transigiam com o governo da casa de
Sabóia, mas cimentam maior grandeza futura. Aos patriotas
de 70 — um bravo.”
Garibaldi surgia, então, nas páginas de A
Federação, porém a referência
não mencionava sua atuação na Revolução
Farroupilha, mas na Itália. Conquanto tenha a unificação
italiana ocorrido sob os auspícios de uma monarquia,
a matéria não perdia o seu desiderato de propaganda
republicana como se percebe na passagem assinalada.
A partir dos elementos até aqui apresentados, identificamos
de maneira clara o processo de construção da
imagem de Garibaldi como um dos heróis da Revolução
Farroupilha. As obras consultadas, os livros e editoriais
do Jornal A Federação, apresentam,
de certa forma, a percepção que a elite política
— e para o período também a elite cultural
— tinha e que procurava reproduzir sobre a Revolução
Farroupilha e, em especial, sobre Garibaldi. É sempre
necessário enfatizar que as menções referentes
a ele dizem respeito mais ao Garibaldi herói da Itália
e menos ao Garibaldi corsário da República Rio-Grandense.
Com respeito ao apelo de sua figura nos meios populares, dispomos
do Cancioneiro da Revolução de 1835,
de Apolinário Porto Alegre. O jornalista colheu, após
o final do século XIX, composições, versos
e quadras a respeito da Revolução Farroupilha
preservados na tradição oral.
“Reuni sob esta denominação as poesias
colhidas da tradição oral do povo rio-grandense.
(...) Os rudes bardos, em torno dos fogões dos acampamentos,
ao som das violas dedilhadas vigorosamente, inspirados pelos
sucessos da luta e paixões do momento, vazavam nos
moldes de um verso tosco o que lhes ia pela alma.”24
Diversas quadras são dedicadas aos heróis da
Revolução Farroupilha: Bento Gonçalves,
Netto, Crescêncio, Corte Real, Lima e Silva, João
Antônio da Silveira. Sátiras são dirigidas
aos imperiais, em especial Bento Manoel Ribeiro e Silva Tavares.
O que chama a atenção, contudo, é o fato
de que, nessa grande quantidade de quadras, cerca de 55, não
há nenhuma em que os feitos de Garibaldi tenham sido
mencionados. A travessia dos lanchões ou o combate
contra Francisco Pedro, o Moringue, em Camaquã, tão
freqüentemente relembrados nos discursos e comemorações
oficiais, foram simplesmente eclipsados no Cancioneiro
da Revolução de 35. Assim, podemos
inferir que Garibaldi e seus feitos não estavam tão
presentes no imaginário popular do Rio Grande do Sul
do século XIX. Considerando, ainda, o fato de haver
quadras e sonetos destinados, por exemplo, a João Antônio
da Silveira, e outros menos conhecidos, a ausência de
Garibaldi se torna bastante significativa.
Com o fim da monarquia, o PRR foi alçado ao poder,
inaugurando uma forma de dominação sobre o Estado
e seu aparelho político e burocrático que se
estenderia, de modo não inconteste, até a Revolução
de 1930. Conforme Trindade, tentaram transformar sua situação,
de classe política dirigente em nova classe dominante
hegemônica, buscando o apoio de novos setores da oligarquia
rural, ligada à agropecuária no Litoral e na
Serra, e de segmentos das camadas médias urbanas (profissionais
liberais, comerciantes e funcionários)25.
Começou, então, o trabalho de cooptação,
através de uma “integração entre
os vultos da pátria distante [a Itália] e os
líderes políticos do estado”26. O próprio
20 de Setembro, comum às duas comunidades, podia ser
comemorado conjuntamente; assim, nas comemorações
da cidade de Caxias do Sul:
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24 PORTO ALEGRE, Apolinário. O Cancioneiro da Revolução
de 1835. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais,
1981, p.27.
25 TRINDADE, Hélgio. Aspectos Políticos do Sistema
Partidário Republicano Rio-Grandense. In: DACANAL,
José H. e GONZAGA, Sergius. RS: Economia e Política.
Série Documenta. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1979,
p. 144.
26 PESAVENTO, Sandra Jatahy. O Imigrante na Política
Rio-Grandense. In: DACANAL, José H. e GONZAGA, Sergius.
RS: Imigração e Colonização. Série
Documenta. 2ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992, p. 169.
_______________________________________________________________
“O jornal dos Republicanos [O Cosmopolita –20/09/1904
– Caxias do Sul 27] em 20 de setembro de 1904 publica
na primeira página uma alegoria consistindo em um grande
retrato de Borges de Medeiros, Governador do Estado, ladeado,
no alto à esquerda, por Bento Gonçalves com
a bandeira da República Rio-Grandense e o dístico
“1835”; à direita, por Garibaldi, com a
bandeira do Reino da Itália e o dístico “1870”;
os dois seguram uma coroa circular, dentro da qual se lê
‘A união faz a força’, tudo a simbolizar
a coligação dos colonos com os gaúchos”.28
Não por acaso, foi nesse período que começou
a se falar de Anita. As obras, discursos e homenagens até
então silenciavam a respeito da esposa de Garibaldi.
Aqui a idéia de uma família ítalo-brasileira
adquire importância. Claro que se omite o fato de Anita
ter sido casada com outro homem antes de se unir a Garibaldi.
A invenção de cerimônias e a produção
de monumentos públicos foram elementos largamente utilizados
pela dominação castilhista-borgista, principalmente
no processo de integração entre gaúchos
e italianos. Com respeito a Garibaldi e, agora, Anita, os
principais eventos foram as comemorações do
centenário do nascimento de Garibaldi (1907) e a inauguração
do Monumento a Garibaldi e Anita, em 1913, em Porto Alegre.
Em todas essas ocasiões houve comemorações
oficiais por parte do Governo do Estado em associação
com a comunidade italiana e também com o consulado
daquele país.
_______________________________________________________________
27 O COSMOPOLITA, Caxias do Sul, 20 de setembro de 1904.
Arquivo Histórico de Caxias do Sul.
28 AZEVEDO, Thales de. Italianos e Gaúchos; Os anos
pioneiros da colonização italiana no Rio Grande
do Sul. Porto Alegre: A Nação – Instituto
Estadual do Livro, 1975, p.252. Citado também por PESAVENTO,
Op. cit., 1992.
29 A FEDERAÇÃO, Porto Alegre, 04 de julho 1907.
_______________________________________________________________
Em 4 de julho de 1907, o intendente José Montaury,
pelo ato de nº 50, modificou o nome da praça da
Concórdia para Praça Garibaldi. O descerramento
da placa foi precedido por passeata pelas ruas do centro da
cidade 29. Nos textos de A Federação,
Garibaldi aparece como o que “amparou, com braço
forte, magnânimo peito, e por vezes guiou”, os
pioneiros que obtiveram a vitória final em 1889. O
importante a destacar é que nesses textos nunca aparecem
as descrições da atuação de Garibaldi
durante a Revolução Farroupilha, embora as Memórias
estivessem publicadas desde 1860 e as elites tivessem
acesso a livros em francês. Anita ainda não é
mencionada.
As comemorações oficiais do dia 20 de setembro
de 1913 foram quase que exclusivamente dedicadas a Garibaldi
e Anita. Nesse dia, em continuidade ao evento de 1907, foi
apresentado ao povo porto-alegrense e gaúcho o monumento
em homenagem a Garibaldi e Anita. O monumento foi o primeiro
relativo à Revolução Farroupilha na capital,
e foi oferecido pela colônia italiana 30. A Federação,
de 19 de setembro de 1913, trazia estampada — ocupando
a íntegra da capa — a imagem do monumento. Já
a edição seguinte, do dia 22 de setembro, apresentou
todo o roteiro da celebração, desde o “préstito”
organizado pela comunidade italiana da capital, com a participação
da guarda de honra da Brigada Militar. Da cerimônia
participaram diversas autoridades, entre elas, o cônsul
italiano no Estado, o intendente municipal, José Montaury,
e o presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de
Medeiros.
O discurso de Ildefonso Pinto, representando Borges de
Medeiros, dava parte de interesses comuns às duas nacionalidades
que habitavam uma pátria comum:
“O monumento seria o símbolo imperecível
da aliança dos elementos das duas nacionalidades, visando
aos mesmos fins e tendo os mesmos interesses sociais, concretizados
no desenvolvimento do Rio Grande do Sul, que se tornou a pátria
comum.”31
Concatenavam-se, assim, os interesses políticos do
partido dominante com os da comunidade italiana, em especial
o grupo de comerciantes em processo de acumulação
de capital, que, conforme Pesavento, “optou pelo apoio
ao governo como forma mais vantajosa de ver atendidas suas
reivindicações”.32
____________________________________________________________
30 O marmorista Carlo Fossati organizou a concorrência
vencida pela empresa Fratelli Giorgini da Massa Carrara, de
Carrara. A firma italiana contratou o pintor florentino Filadelfo
Simi (1849-1923) para executar o monumento. ALVES, José
Francisco. A escultura pública de Porto Alegre: história,
contexto e significado. Porto Alegre: Artfolia, 2004, p. 59.
31 A FEDERAÇÃO, Porto Alegre, 22 de setembro
de 1913.
32 PESAVENTO, Sandra Jatahy. Op. cit. p. 171-173.
____________________________________________________________
O interessante é que aqui aparece, pela primeira vez,
a narração dos feitos de Garibaldi em solo rio-grandense.
Diversos discursos lembram episódios de suas memórias,
como a travessia dos lanchões ou o primeiro combate
do qual Anita participou. Anita surge, nesse momento, com
toda a força, não só no monumento, mas
também como participante da vida do herói.
Garibaldi era um dos elos fortes da ligação
entre gaúchos e italianos. É preciso destacar,
contudo, que se por um lado o Governo do Estado tecia consideráveis
elogios aos italianos — o próprio Castilhos havia
chamado Caxias do Sul de “pérola da colônia”
— exigia “(...) o engajamento ao partido no poder
e, subjacentemente, respeito à hierarquia e autoridade”.33
Bem denotam essa situação os 113 italianos expulsos
do Estado em 1907 e 1921, através da lei de expulsão
de 1907.
Entre 1920-1932
Apesar da apropriação da figura de Garibaldi,
exígua foi a produção historiográfica
sobre sua atuação na Revolução
Farroupilha. Essa situação somente se modificou
no início dos anos 20, cujo “grande acontecimento
foi a criação do Instituto Histórico
e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS)”.34
Esse sentimento nacionalista correspondia no Brasil à
ascensão de Getúlio Vargas, a partir de 1930,
no comando da Nação, assim como as lideranças
de Hitler e Mussolini na Alemanha e Itália, respectivamente:
“Não foi por acaso que o fascismo fez do cinqüentenário
do aniversário de Garibaldi, em 1932 — que coincidia
com o decennale, dez anos de fascismo —, uma
de suas grandes datas.”35
_____________________________________________________________
33 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da
Esquina. Imigrantes na Sociedade Porto-Alegrense. Porto Alegre:
Sulian, 1991, p. 136.
34 GUTFREIND, Ieda. A Historiografia Rio-Grandense. 2ª
ed. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 1998, p. 29.
35 GALLO, Max. Garibaldi: a força do destino. São
Paulo: Scritta, 1996, p.379.
36 Decreto nº 21.438, de 24 de maio de 1932, com o seguinte
texto: “O Chefe do Governo Provisório da República
dos Estados Unidos do Brasil: atendendo a que as cerimônias
comemorativas do 50º aniversário da morte de Giuseppe
Garibaldi interessam vivamente à Nação;
Atendendo a que a epopéia garibaldina está associada
à figura da harmonia brasileira Anita Garibaldi; Resolve
decretar feriado nacional o dia 2 de junho próximo,
no qual se comemorará o 50º aniversário
do falecimento do grande general libertador”.
37 Ver, entre outros, DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto
Alegre, 1º a 3 de junho de 1932.
_____________________________________________________________
No ano de 1932, ocorreram várias solenidades em Porto
Alegre, no Brasil e na Itália. Getúlio Vargas,
então chefe do governo provisório da República,
decretou feriado no dia 2 de junho de 1932 36. As comemorações
no Rio de Janeiro, então capital federal, incluíram
desfiles militares, cerimônia no Palácio do Itamaraty,
presidida por Getúlio Vargas, com a participação
dos embaixadores da Itália, Argentina, França
e Uruguai37. Oswaldo Aranha, em seu discurso, preocupa-se
em afastar o caráter separatista da Revolução
Farroupilha, no momento em que a dissidência paulista
colocava em xeque a revolução vitoriosa de 1930.
O ministro selecionou proclamações de Bento
Gonçalves nas quais o herói farroupilha declara
sua fidelidade à pátria brasileira. Não
faltaram elogios ao Duque de Caxias cuja “palavra era
a de um irmão, as (...) ordens eram conselhos cívicos,
exortações patrióticas”.38 Garibaldi
aparece como o maior dos heróis: “Ninguém
o excedeu na destreza, na audácia, no desinteresse,
nem no destemor”.39 A narração dos seus
feitos em solo gaúcho também não é
esquecida por Aranha: “Foi um dos heróis da retirada
de Canabarro, um dos chefes da gloriosa expedição
de Curitibanos, um dos bravos da descida da serra, comandou
na sangueira do Taquari, participou do ataque, infeliz, mas
heróico de São José do Norte (...).”40
Em Porto Alegre, as comemorações do dia 2 de
junho iniciaram pela manhã com uma cerimônia
realizada junto à estátua de Garibaldi, na praça
de mesmo nome. Discursaram Flores da Cunha, pelo Governo do
Estado e Lourenço Lotti, pelo consulado italiano. O
interventor federal fez, em seu breve discurso, uma interessante
observação a respeito da ascensão social
de Garibaldi, que sendo oriundo das classes menos favorecidas,
obteve trânsito junto às camadas mais abastadas
da sociedade européia41. Comentário ilustrativo,
num momento em que o movimento de 1930 tentava dar conta da
complexidade social que ocorrera no Brasil nas últimas
décadas.
À tarde, as comemorações incluíram
uma sessão solene, realizada no Theatro São
Pedro, sob o patrocínio do Governo do Estado e do Consulado
italiano. Nessa sessão, palestraram o cônsul
italiano Mario Carli e Darcy Azambuja42, representando o Governo
do Estado. Os discursos foram publicados pela revista do Instituto
Histórico e Geográfico43. Mario Carli fez o
panegírico de Anita, retratando uma imagem idealizada
da companheira de Garibaldi, sem nenhuma base histórica.
Ao retratar o translado dos restos mortais de Anita, de Nice
para Roma, deixa transparecer o sentido político que
esse gesto representou na Itália 44. De fato, Mussolini
buscava proveito da popularidade de Garibaldi, o herói
popular da unificação italiana.
____________________________________________________________
38 DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 03
de junho de 1932, p. 7.
39 Ibidem
40 Ibidem.
41 DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 03 de junho
de 1932, p. 3.
42 Darcy Azambuja exerceu diversos cargos políticos,
entre os quais o de deputado e Procurador-Geral do Estado.
No ano de 1937, foi agraciado com título honorífico
de Comendador da Ordem da Coroa da Itália, concedido
pelo Rei Vittoro Emmanuelli III em 1937.
43 Cincoentenário da morte de José Garibaldi.
Revista do IHGRS. Op. cit.
44 CARLI, Mario. Revista do IHGRS. Op. cit. p. 226.
_____________________________________________________________
Mario Carli, em sua palestra, ratificava o discurso de união
entre o povo italiano e brasileiro:
“E nós, embora longe em pessoa, estamos neste
momento perto em espírito ao rito solene que se realiza
sobre Gianicolo, neste mesmo momento, na presença de
Benito Mussolini, e que lança laço invisível
de fraternidade para todo o povo brasileiro, e especialmente
ao rio-grandense com o qual tantos vínculos de sangue
e de ideais nos têm unido através de um século
de história.”45
Darcy Azambuja fez um proNúnciamento um pouco menos
ufanista. Apresentou a conjuntura política européia
no século XIX em que se contrastavam as idéias
liberais oriundas da Revolução Francesa e as
tentativas reacionárias da Santa Aliança. Nesse
contexto, aparecia o jovem marinheiro: “É preciso
compreender o século dezenove para compreender Garibaldi”46,
dizia. Após historiar sua atuação na
Revolução Farroupilha — em que mais uma
vez foi visível a utilização das
Memórias de Garibaldi, como fonte —, retratou
sua passagem no Uruguai à frente da brigada italiana,
“(...) à frente da qual escreveu algumas das
páginas mais estupendas da história uruguaia”,
finalizando com o seu retorno à Europa onde atuaria
ainda na unificação da Itália e na França,
na luta contra a Prússia. Se sua apresentação
buscou contextualizar a atuação de Garibaldi
como inserida no século XIX, o epílogo de sua
palestra convergiu com as demais manifestações:
“No Rio Grande a figura senhoril do formidável
guerreiro incorporou-se ao patrimônio comum das glórias
de sua tradição e ainda hoje o seu nome congrega
em uma homenagem fraternal os dois grandes povos. Que a sua
memória seja o laço de perene amizade entre
as duas pátrias e que os pósteros aprendam na
vida do legendário batalhador a desprezar a morte para
servir à liberdade.”47
____________________________________________________________
45 CARLI, Mario. Op. cit., p. 227.
46 AZAMBUJA, Darcy. Cincoentenário da morte de José
Garibaldi. Revista do IHGRS. II trimestre, ano XII. Porto
Alegre: Livraria do Globo, 1932, p. 254-256.
47 Ibidem.
____________________________________________________________
À noite do dia 2 de junho estava reservada ainda uma
conferência pública organizada pelo IHGRS que
consistia em uma palestra do historiador Otelo Rosa, na Biblioteca
Pública. Ele rememora os feitos de Garibaldi em solo
gaúcho, utilizando como fonte, principalmente, as Memórias.
No campo da historiografia, na década de 1930 foram
produzidas as obras que consagraram Garibaldi como herói
farroupilha. Em 1933, Alfredo Varela publicou a História
da Grande Revolução, e em 1939 surgiu Garibaldi
e a Guerra dos Farrapos, de Lindolfo Collor.
A História da Grande Revolução
é considerada o mais completo estudo sobre o período
farroupilha. Por sua vinculação à matriz
platina, a obra causou grande polêmica à época,
gerando discussões entre Varela e outros membros do
IHGRS. Para nosso objetivo, todavia, interessa o contraste
entre o Garibaldi que é retratado pelo próprio
Alfredo Varela, em 1897, na obra Descrição
Física, Histórica e Econômica e o de História
da Grande Revolução.
Na obra de 1897, Garibaldi é pouco mencionado. As passagens
a ele referentes são similares às das obras
de Tristão de Alencar Araripe, Assis Brasil e Ramiro
Barcelos. Os únicos episódios heróicos
mencionados são o combate com Moringue, na Fazenda
do Brejo e a travessia dos lanchões. Garibaldi aparece
como “o cavaleiro andante do século”, mais
como o “herói de dois mundos” do que como
o “corsário da República Rio-Grandense”.
Em contraste, em História da Grande Revolução,
Garibaldi é elevado a herói de primeira grandeza:
“Em verdade, parece que, com a presença de Garibaldi,
menos tivemos a de um egrégio mortal, do que a de um
desses benignos deuses do paganismo, cultuados antanho”
48. Os episódios antes apenas mencionados são
relatados com contornos épicos, com abundantes alusões
à mitologia grega. A atuação de Garibaldi
em Santa Catarina, esquecida em 1897, aparece de forma bastante
detalhada (ao contrário da maior parte das obras que
falam sobre Garibaldi, a de Varela utiliza outras fontes,
além das Memórias). A derrota em Santa
Catarina é, segundo o historiador, responsabilidade
de Canabarro, acusado de “nada prever e nada prover”.
Enfim, Alfredo Varela, a despeito da ampla pesquisa e do uso
de múltiplas fontes, retratou Garibaldi, em 1933, à
luz da construção feita nas primeiras décadas
do século XX em torno da figura de Garibaldi como herói
farroupilha.
_____________________________________________________________
48 VARELA, Alfredo. História da Grande Revolução:
o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Ed. Globo, 1933,
v. 5, p. 292.
_____________________________________________________________
Garibaldi e a Guerra dos Farrapos é a primeira
obra de fôlego a sistematizar a atuação
do italiano em solo gaúcho. Collor não apresenta
fatos novos. Utiliza amplamente as Memórias,
a História da Grande Revolução
e as obras do final do século XIX. Aqui Garibaldi já
surge como herói farroupilha. Sua participação
na Revolução é tida como decisiva e ele
figura entre os protagonistas. Em contraste com Varela, que
pouco fala de Anita, Collor a coloca ao lado do herói
em todos os episódios nos quais ela aparece nas Memórias.
E, corajosamente, ao contrário inclusive de historiadores
de períodos mais recentes, não deixa de mencionar
que Anita era casada quando uniu-se a Garibaldi, fato aliás
sabido desde 1907.49
Considerações Finais
José Murilo de Carvalho, na obra A Formação
das Almas, explica como Tiradentes, um desconhecido até
a década de 1880, foi alçado à condição
de herói da República. No caso, a falta de envolvimento
popular na implantação do novo regime reforçava
a necessidade de um símbolo. Igualmente, a ausência
de bons candidatos a herói diretamente envolvidos no
evento, caso de Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamin
Constant, levou ao resgate de Tiradentes.
Não foi o caso de Garibaldi. O italiano esteve diretamente
envolvido na Revolução Farroupilha, ainda que
por pouco tempo, e apesar do pedido de anistia ao Imperador
do Brasil. Tampouco carecia de “bons” heróis
o movimento farroupilha.
Ao que tudo indica, o motivo principal da eleição
de Garibaldi como herói farroupilha e elemento legitimador
da República Rio-Grandense foi a condição
alcançada de herói italiano. Se tivesse morrido
nos campos do Rio Grande do Sul, como Luigi Rosseti, provavelmente
menor teria sido a sua projeção.
O culto a Garibaldi trouxe a herança dos ideais farroupilhas
para o partido político que se afirmava no poder no
Rio Grande do Sul da República Velha. Como herói
do Rio Grande do Sul e da Itália, tornou-se um precioso
elo de ligação com a comunidade imigrante italiana
que, em finais do século XIX e início do século
XX, adquiria grande importância econômica e política
no Estado. O elo não precisou ser construído.
Ele já existia.
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49 “Em 1907, depois de muita pesquisa, ele [o historiador
Henrique Boiteux] encontrou no livro quinto dos “Atos
Matrimoniais da Diocese de Laguna”, que cobre o período
de 1832 a 1844, a certidão de casamento de Anita”.
MARKUN, Op. cit. p. 70.
_____________________________________________________________
Todavia, como lembra José Murilo de Carvalho, a construção
de símbolos não é arbitrária e
não se faz no vazio social. O candidato a herói
“tem que responder a alguma necessidade ou aspiração
coletiva, refletir algum tipo de personalidade ou de comportamento
que corresponda ao modelo coletivamente valorizado”.50
Garibaldi possuía certas características que
facilitavam essa identificação. Foi herói
no mar e na terra. Max Gallo, discorrendo a respeito da atuação
do italiano em Montevidéu, afirma: “A luta principal
se trava em terra e Garibaldi vai tornar-se, também,
nesse terreno – no próprio local, através
da imprensa em toda a Europa e nos Estados Unidos -, uma figura
heróica.”51 Era um homem de ação,
ao contrário de Tito Lívio Zambeccari e Luigi
Rosseti, cuja participação no movimento foi
mais intelectual. Do ponto de vista ideológico, mantinha-se
mais neutro. Fazia parte da Jovem Itália, mas não
escrevia como Rosseti, que chegou a se desentender com os
líderes farroupilhas por suas idéias democratas
radicais. Casou-se e teve filhos com uma brasileira, fato
que sempre aparece nas homenagens a Garibaldi. Finalmente,
teve a sua biografia mundialmente conhecida por ter sido produzida
por um escritor famoso, Alexandre Dumas, autor de Os Três
Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo.
Todos esses elementos garantem a Giuseppe Garibaldi um
lugar no imaginário popular. Todavia, quando analisamos
a Revolução Farroupilha, vemos um estrangeiro
entre outros, cuja participação foi transitória
e não decisiva. Garibaldi como herói farroupilha
é uma construção, bem cimentada acabada,
mas construção.
____________________________________________________________
50 CARVALHO, José Murilo de. Op. cit. p. 55.
51 GALLO, Max. Op. cit. p. 105.
____________________________________________________________
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de 1835 no Rio Grande do Sul. Ed. com fixação
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identifica Garibaldi com Vanzini.
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datada de 1º de agosto de 1839. Coleção
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Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida,
datada de 11 de agosto de 1839. Coleção Alfredo
Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.
Coletânea de Documentos de Bento Gonçalves da
Silva – 1835-1845 – Arquivo
Histórico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Comissão
Executiva do Sesquicentenário da Revolução
Farroupilha, Subcomissão de Publicações
e Concursos, 1985
O COSMOPOLITA – Caxias do Sul
DIÁRIO DE NOTÍCIAS – Porto Alegre
A FEDERAÇÃO – Porto Alegre
O POVO – Piratini e Caçapava
Garibaldi na América do Sul
Yvonne Capuano
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Pesquisadora de História e escritora, autora
do livro De sonhos e Utopias –
Anita e Giuseppe Garibaldi, é graduada pela Escola
Paulista de Medicina
Chegada ao Brasil
O navio Nautonnier aproximou-se lentamente do porto
do Rio de Janeiro, destinado a embarcações mercantes,
em data imprecisa: fins de 1835, início de 1836. Trazia
a bordo um jovem italiano esperançoso que lutava pela
unificação da Itália e que fugira por
envolver-se em questões políticas. O idealista
era Giuseppe Garibaldi, revolucionário republicano
nascido em Nizza, Itália, em 4 de junho de 1807, cosmopolita
que sempre lutaria pela liberdade dos povos. Angelo Maria,
seu avô, e Domenico, seu pai, homens do mar, possibilitaram
ao jovem Giuseppe tornar-se marinheiro e comandante de navios.
Garibaldi, numa das viagens, no porto de Taganrog, encontrou-se
com Giovanni Battista Cuneo, marinheiro filiado à Jovem
Itália. Tratava-se de organização fundada
por Giuseppe Mazzini, que pregava: os povos que não
soubessem, pela energia do seu caráter, conquistar
a liberdade de pensamento, eram indignos de possuí-la.
Seu programa resumia-se na expressão Unidade e
República e sua divisa era Deus e povo,
pensamento e ação. Mazzini, genovês
nascido em 1805, exercia a profissão de advogado junto
aos menos afortunados e lutava para libertar a Itália
do jugo estrangeiro.
Quando Garibaldi decidiu entrar para o movimento, adotou o
cognome Borel. Envolvendo-se com Mazzini num levante,
foram delatados e condenados à morte, o que os obrigou
a fugir: Mazzini para Londres e Garibaldi para o Brasil.
Ao chegar, Garibaldi encontrou-se com Luigi Rossetti, que
o acolheu. Rossetti era de Gênova e fervoroso discípulo
de Mazzini, com quem havia fundado o jornal La Voce del
Popolo. Pelas mesmas razões – a difusão
de idéias políticas então consideradas
subversivas – viera foragido para o Brasil. Rossetti
era um homem culto, e aqui dedicou-se ao magistério,
de início, e ao comércio, mais tarde, o que
lhe permitiu condições financeiras para auxiliar
os companheiros que chegavam da Itália. Garibaldi passou
então a dedicar-se ao comércio de cabotagem
no litoral brasileiro, atividade que não se revelou
muito lucrativa.
Italianos na Revolução
Farroupilha
Em 20 de setembro de 1835, irrompera em Porto Alegre, Rio
Grande do Sul, a Revolução Farroupilha. Italianos
sonhadores associaram-se aos revolucionários, e entre
eles encontrava-se Tito Livio Zambecari, conde bolonhês
adepto de Mazzini. Em outubro do ano seguinte, Bento Gonçalves,
líder da revolução, foi vítima
da perseguição implacável dos imperiais,
que o levaram preso, junto com Zambeccari, para o Rio de Janeiro.
Enviados pela organização italiana Congrega
della Giovine, que se formara no Rio de Janeiro e reunia
italianos emigrados, Rossetti e Garibaldi visitaram Zambeccari
na prisão. Ficaram encantados com os relatos sobre
o movimento e resolveram aderir à causa. Começava
dessa forma a luta de Garibaldi na América do Sul.
Ao receberem do governo farrapo uma carta de corso, em maio
de 1837, Garibaldi e Rossetti lançaram-se ao oceano
em perseguição às embarcações
imperiais. O pequeno barco, a que deram o nome de Mazzini,
saiu do Rio de Janeiro com armas e munições,
embalado pelo entusiasmo e idealismo dos tripulantes:
“Finalmente éramos livres, navegávamos
debaixo de um pavilhão republicano; enfim éramos
corsários. Com dezesseis homens de equipagem e um navio,
éramos capazes de declarar a guerra a um império.
[...] O oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu império.”1
Ações guerrilheiras
Durante a travessia aprisionaram duas embarcações:
a lancha Marimbondo e o navio Luísa.
A primeira continha poucos víveres e um escravo chamado
Antônio, que se ligou ao grupo e foi alforriado por
Garibaldi, embora isso não tivesse valor legal. A segunda,
carregada de café, pertencia ao austríaco Guilherm
Brohun e ao brasileiro Filipe Néri de Carvalho, e tinha
nove tripulantes: o comandante, o contramestre, quatro escravos,
um passageiro e dois marinheiros. Como não havia possibilidade
de Garibaldi comandar ao mesmo tempo as duas embarcações,
afundou o Mazzini e continuou com o Luísa,
de maior porte2. Na altura da Província de Santa Catarina,
libertou a tripulação e ficou com os escravos
Luís, Pedro, Bentura e Manuel, que preferiram continuar
ao seu lado e também foram alforriados.
____________________________________________________________
1 GARIBALDI, 1907, pp. 46-47.
2 Alguns historiadores admitem que Garibaldi trocou o nome
Luísa por Mazzini, pelo qual passaremos a chamá-lo.
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Os portos do Rio Grande do Sul encontravam-se vigiados pelos
imperiais e Garibaldi não podia se arriscar. Continuou
navegando até o rio da Prata e atracou em Maldonado,
Uruguai. Ao chegar, tremulava no mastro a bandeira farroupilha,
desconhecida das autoridades, o que causou curiosidade e preocupação.
Rossetti partiu para Montevidéu à procura dos
amigos italianos, e Garibaldi esperou seu retorno, tentando
vender o café. A polícia marítima procurou
identificar o país de origem dos visitantes, mas nada
conseguiu. O navio permanecia no porto. As águas uruguaias,
constantemente invadidas por embarcações revolucionárias
que navegavam pelo rio da Prata, obrigavam os diplomatas brasileiros
a exigir do governo oriental uma constante vigilância.
O vice-cônsul do Brasil radicado em Maldonado, Juan
Manuel Acosta Pereyra, ao ser avisado sobre o navio ancorado,
informou o fato à capitania dos portos e exigiu a prisão
dos tripulantes.
Garibaldi zarpou sem Rossetti com destino a Punta de Jesús
y María, a aproximadamente setenta quilômetros
de Montevidéu. A chefia dos portos ordenou a captura
do Mazzini e, em cumprimento à intimação
feita pelo ministro da Guerra e da Marinha, enviou os navios
Maria e Loba no seu encalço. Garibaldi avistou do convés
as embarcações, mas não sabia se eram
amigas, pois não traziam bandeiras hasteadas; somente
quando se avizinharam é que o jovem italiano constatou
que vinham atacá-lo. A situação se complicou
quando vários tripulantes do navio inimigo conseguiram
passar para o Mazzini, cujo leme ficou desgovernado
com a morte de Fiorentino, encarregado das manobras. O próprio
Garibaldi foi atingido por uma bala na região do pescoço,
permanecendo inconsciente por algum tempo3. A luta continuou
por cerca de uma hora, sustentada por Luigi Carniglia, Pasquale
Lodola, Giovanni Lamberti e outros. Repentinamente, as embarcações
inimigas se afastaram, e em relatório oficial posterior
consta a informação de que o fizeram por falta
de munição.
Os amigos preocupavam-se com o estado de Garibaldi, que durante
dias, com séria lesão entre as vértebras
cervicais e a faringe, delirava de febre. Cuidado com desvelo
por Carniglia, a quem se ligou fielmente até o fim
da vida, recuperou aos poucos a saúde:
___________________________________________________________
3 Há controvérsias sobre o combate. Em relatório
oficial, o governo uruguaio afirma que o confronto deu-se
apenas com o lanchão Maria, e que somente no dia seguinte
o Loba partiu em direção a Punta de Jesús
y María.
___________________________________________________________
“Quando estava deitado no meu leito
de agonia, abandonado por todos e delirava com o
delírio da morte, era Luigi que sentado à cabeceira
do meu leito com a dedicação e paciência
de um anjo não se afastava de mim um instante senão
para ir chorar e ocultar as suas lágrimas [...]. Luigi
Carniglia era de Deiva, pequeno país do levante. Não
havia recebido instrução literária, mas
supria esta falta por um maravilhoso entendimento. Privado
de todos os conhecimentos náuticos que são necessários
aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com
a sagacidade e felicidade de um piloto consumado.”4
Impedido de falar, Garibaldi apontou o rumo a seguir, sem
convicção. Sabia que em qualquer lugar em que
aportassem seriam aprisionados. Navegavam com rumo incerto,
em região desconhecida, hasteando uma bandeira de revolucionários.
Aproximaram-se da Província de Entre Ríos; ao
encontrarem a galeota Pinturesca, seu comandante,
dom Lucas Tantalo, comovido com o relato dos italianos, forneceu-lhes
víveres e socorreu Garibaldi.
A viagem continuou. Em 26 de junho o navio chegou a Gualeguay,
porto de Entre Ríos, onde Garibaldi procurou o governador,
Pascual Echagüe, e lhe entregou uma carta de recomendação
fornecida por dom Lucas. Constatando o precário estado
de saúde em que ele se encontrava, Echagüe enviou-o
ao seu médico particular, Ramon del Arca, que constatou
que a bala ficara alojada no pescoço, provocando-lhe
febre e dificuldade de deglutição.
Garibaldi escreveu a Giovanni Batista Cuneo, companheiro revolucionário,
que se encontrava em Montevidéu:
____________________________________________________________
4 GARIBALDI, 1907, p. 61.
____________________________________________________________
“Gualeguay, 1o de outubro de 1837.
Vamos às questões que o seu precioso coração
me manda. As minhas feridas estão quase curadas, assim
como a operação feita em minha nuca; aquela
maldita bala entrou sob a minha orelha esquerda e, depois
de ter atravessado diametralmente o pescoço, ficou
alojada no lado direito, a meia polegada da pele, e provocou
uma operação de quase meia hora que dava gosto,
principalmente quando o doutor afastava os tendões
nervosos entre os quais ela se alojara. A ferida do braço
direito foi muito leve; a bala somente havia passado de raspão.
Borel.”5
Juan Manuel Rosas, presidente da Argentina e das Províncias
Unidas do Rio da Prata, dominava Entre Ríos. Ao ser
informado da presença de Garibaldi em Gualeguay, enviou
a Echagüe ordem para prendê-lo. Confinado na residência
de dom Jacinto Andreu, tinha relativa liberdade, pois o governador
conhecia Bento Gonçalves e o movimento farroupilha.
O corsário italiano ficou seis meses com Andreu, que
lhe dedicou uma amizade sincera. Mas planejava a fuga, já
que o ócio não combinava com seu temperamento,
e o ideal era continuar lutando pelos povos. A oportunidade
surgiu quando Pascual Echagüe, chamado por Rosas a Buenos
Aires, foi substituído pelo comandante Leonardo Millán,
famoso pela violência de seus atos. Em noite de tempestade,
Garibaldi fugiu. Solicitou guia e cavalos, pois desejava alcançar
a residência de um inglês, dono de barco que o
levaria a Montevidéu para encontrar-se com Rossetti
e os amigos italianos. Mas o guia, depois de cavalgarem quase
oitenta quilômetros, o traiu nas proximidades da estância
de Ibicuy. Preso e amarrado pelas mãos e pés
ao cavalo, retornou a Gualeguay. Sua narrativa prossegue:
“Conduzido à presença de Leonardo
Millán, fui intimado por ele a deNúnciar quem
me havia fornecido os meios de efetuar a minha fuga. É
escusado dizer que não fiz tal confissão, pois
declarei que só eu a tinha arranjado e executado. Então,
como me achava imobilizado e Leonardo não tinha coisa
alguma a temer, aproximou-se de mim e começou a bater-me
nas faces com o chicote. Depois renovou as suas perguntas,
não sendo mais feliz que da primeira vez. Mandou-me
conduzir à prisão e disse em voz baixa algumas
palavras ao ouvido de um dos guardas. Estas palavras eram
a ordem de me aplicar a tortura.”6
___________________________________________________________
5 MARIO, 1884, p. 80.
6 GARIBALDI, 1907, pp. 64-67.
___________________________________________________________
Echagüe, ao voltar, informado do que sucedera,
enviou Garibaldi à Província de Bajada e, pouco
tempo depois, sem explicações, libertou-o. Livre,
ele embarcou num navio italiano até a desembocadura
do rio Paraná-Iguaçu, onde conseguiu outra condução
e chegou a Montevidéu. Escondeu-se na casa do italiano
Pesenti, pois ainda vigorava contra ele a ordem de prisão
emitida pelo combate que travara em Punta de Jesús
y María. Aproximadamente um mês depois, encontrou-se
com Rossetti e soube que ele, ao descer do navio e dirigir-se
a Montevidéu, foi perseguido pela polícia e
somente não foi preso porque um amigo o protegeu.
Em Piratini
Em 15 de junho de 1838, Oribe renunciou, e os presos políticos
foram anistiados. Garibaldi e Rossetti prepararam-se para
retornar ao Brasil e juntar-se novamente aos farroupilhas,
defendendo os ideais que acreditavam ser iguais aos da Itália.
A viagem de retorno, difícil e cansativa, com cavalgadas
nas extensas planícies uruguaias, tornava-os ansiosos.
Ao alcançarem a fronteira do Brasil, avistaram pequenas
casas construídas ao pé da serra, cavaleiros
exímios e carretas puxadas por bois. Esperançosos,
procuraram a sede do governo farroupilha, que sabiam estar
instalada em Piratini. O local foi escolhido por vários
motivos: situava-se próximo ao rio Jaguarão,
o que em caso de invasão legalista os favoreceria na
retirada, e era um ponto central de difícil acesso.
Ao se aproximarem da sede do governo, procuraram pelo presidente,
mas Bento Gonçalves estava em campanha. Foram recebidos
pelo ministro da Fazenda, Domingos José de Almeida,
que ao ouvir a história dos italianos surpreendeu-se
com sua coragem; não podia deixar de aproveitá-los,
incorporando-os novamente ao movimento revolucionário.
Rossetti, culto, dominando o idioma português, foi designado
para redigir O Povo, jornal político e literário
da República Rio-Grandense; Garibaldi, que crescera
tendo o mar por horizonte, foi encaminhado a Camaquã
para auxiliar na construção dos barcos. Nessa
ocasião Bento Gonçalves chegou a Piratini e
avistou-se com Garibaldi:
“Foi então que pela primeira vez vi aquele
valente, gozando alguns dias a sua intimidade. Era realmente
o filho querido da natureza — que lhe havia prodigalizado
tudo o que torna o homem um verdadeiro herói. Bento
Gonçalves teria então sessenta anos. Alto, esbelto,
montava a cavalo [...] com um garbo e agilidade admiráveis.
Naquela posição ninguém o julgaria com
mais de vinte e cinco anos. [...] Fora um dos primeiros a
levantar o grito de guerra, não com vistas de ambição
pessoal, mas como qualquer outro beligerante filho daquele
povo. Na campanha passava como o mais ínfimo habitante
das campinas; isto é, com a carne assada e água
pura. No dia em que nos encontramos pela primeira vez, convidou-me
para o seu banquete frugal; e conversamos com tanta familiaridade
como se fossemos companheiros de infância e iguais em
posição. Com tais dotes naturais e adquiridos,
Bento Gonçalves era o ídolo de seus concidadãos;
porém, coisa estranha, foi quase sempre infeliz nas
empresas guerreiras, o que me faz acreditar que o acaso é
superior ao gênio para os sucessos da guerra e para
a fortuna dos heróis.”7
Camaquã
A família de Bento Gonçalves possuía
vasta extensão de terra em Camaquã. Ao chegar,
Garibaldi foi conduzido ao estaleiro do Brejo, cuja proprietária,
Antônia, era irmã do líder farroupilha.
O local era antes usado para preparação do charque
e depósito de erva-mate, transformando-se então
no arsenal de marinha dos farrapos.
Lá o italiano encontrou-se com John Griggs, conhecido
como Big John, que diziam ser um padre irlandês nascido
em família rica, que abandonara a vida eclesiástica
para se tornar um homem do mar. Sobre ele corriam várias
histórias.
“Afirmam que ele deixou a vida religiosa por ter
atentado contra a moral e depois, arrependido, converteu-se
à seita dos quakers, que proibia o uso de qualquer
tipo de arma. Por esse motivo, andava sempre com um cajado
de madeira para se defender, manejando-o com grande habilidade;
quando lutava, tomava cuidado para não ferir de morte
os seus adversários. Caso acidentalmente isso viesse
a acontecer, repetia: Accipe ad huc illum, Domine,
in misericordiam tuam. (Recebei-o, Senhor, em Vossa
misericórdia.)”8
____________________________________________________________
7 GARIBALDI, 1907, p. 71.
8 BENTO, p. 231.
____________________________________________________________
Garibaldi foi encarregado da construção
de dois lanchões. Rossetti, que se demitira da redação
do jornal O Povo por discordar de várias idéias
publicadas, juntou-se a ele. O trabalho era lento e árduo,
já que todo o material tinha que ser extraído
da região: couro, madeira e ferro para a fabricação
das peças. Garibaldi recorreu a Luigi Carniglia, conhecedor
de construção naval, que em Montevidéu
reuniu vários refugiados italianos, entre eles Edoardo
Mutru, seu antigo companheiro de lutas em Gênova.
“No fim de dois meses a esquadrilha estava pronta.
Cada um dos vasos foi armado com duas peças de bronze;
quarenta negros ou mulatos foram agregados aos trinta europeus,
formando desse modo duas equipagens que compreendiam setenta
homens. Tomei o comando do mais forte, a que pusemos o nome
de Rio-Pardo. John Griggs foi encarregado do segundo, que
se chamou — O Republicano [...]. Começaram então
as nossas correrias pela lagoa dos Patos. Passaram-se alguns
dias sem fazermos mais do que presas insignificantes. Os imperiais
tinham navios de guerra e um barco a vapor. Porém nós
tínhamos a nosso favor os baixios das águas.
A lagoa não era navegável para os grandes barcos,
senão n’uma espécie de canal que seguia
ao longo da sua margem no oriente. No lado oposto sucedia
o contrário, porque o solo era cortado em declive e
nós mesmos víamo-nos às vezes encalhados
antes de tocar na margem. Os bancos de areia estendiam-se
pela lagoa à semelhança dos dentes de um pente
e só havia de bom que esses dentes eram bastante afastados
uns dos outros. Quando éramos forçados a encalhar,
ou os canhões do navio de guerra ou do vapor nos incomodavam,
dizia: — Avante, meus patos, saltemos à água.
E os meus patos caíam n’água e à
força dos braços erguiam o lanchão, transportando-o
para o outro lado do banco de areia.”9
____________________________________________________________
9 GARIBALDI, 1907, p. 73. Há entre os estudiosos
controvérsias quanto aos nomes dos barcos.
____________________________________________________________
A caminho de Laguna
Os farroupilhas, otimistas, continuavam as conquistas
e planejavam invadir Santa Catarina, agregando-a
à República Rio-Grandense. Havia outra causa
importante para tomá-la: a barra do Rio Grande, cujo
porto era regulador comercial da Província do Rio Grande
do Sul, e o rio São Gonçalo, que ligava a lagoa
Mirim à lagoa dos Patos e ao estuário do rio
Guaíba, estavam dominados pelos imperiais. Os farroupilhas
controlavam algumas regiões de lagoas e rios navegáveis
ameaçados de conquista por John Grenfell, mercenário
inglês contratado pelo Império, mas não
possuíam um porto, o que era fundamental. A invasão
de Laguna resolveria o problema, pois daria aos revoltosos
a possibilidade de conquistá-lo.
Garibaldi, Big John e companheiros construíram no estaleiro
quatro barcos, e planejaram que dois continuariam realizando
o corso na lagoa dos Patos, chefiados por Zeferino Dutra,
enquanto os outros seriam lançados no oceano para alcançar
Laguna. Mas ocorria um problema quase intransponível:
a barra do Rio Grande, tomada pelos imperiais, impedia que
os barcos na lagoa alcançassem o oceano.
Garibaldi então armou duas imensas carretas, colocando-as
em um terreno em declive, e deslizou sobre elas os barcos;
puxadas por bois, levou-as até as praias do Capivari.
Partiu em 5 de julho de 1839, e depois de percorrer por terra
aproximadamente sessenta quilômetros em terreno arenoso
e salino, chegou às praias, onde durante três
dias reparou as embarcações, e lançou-as
ao mar.
“Esse memorável projeto executado por Garibaldi
— o transporte dos barcos Seival e Farroupilha por terra,
desde a lagoa dos Patos, na foz do Capivari, até as
praias de Tramandaí — tornou-se célebre
não tanto pelo transporte em si, pois nada de novo
nele havia (Fournire e Sorriano, na guerra entre o Brasil
e as Províncias Unidas do Rio da Prata, executaram
façanha idêntica, e os venezianos, em 1439, fizeram
idêntico transporte, mas em maiores proporções,
pois levaram 30 navios, de Revoredo a Torbole), mas pela audácia
do feito, desorientando completamente os imperiais, que o
julgavam perdido pelo bloqueio que lhe faziam no saco do Capivari,
e pela rapidez do transporte de um a outro ponto (nove dias).”10
____________________________________________________________
10 SPALDING, 1982, pp. 161-162.
____________________________________________________________
Ao atingirem o mar, desfraldaram a bandeira
da República Rio-Grandense. O barco Seival, comandado
por Big John, de maior porte, navegava na dianteira, seguido
pelo Farroupilha, comandado por Edoardo Mutru, onde
estavam Garibaldi, Carniglia, Starderini, Giovanni e Nadonne.
Na altura do cabo de Santa Marta, em Santa Catarina, o oceano
Atlântico, violento, prenunciou uma tempestade que pouco
depois desabou. O Seival conseguiu atravessá-la sem
que Big John percebesse que o Farroupilha, de tamanho
menor, naufragava. Garibaldi, exímio nadador, vária
vezes mergulhou para salvar os amigos; em vão, porque
não conseguiu vencer o turbilhão das ondas.
Chegando à praia, exausto, encontrou poucos sobreviventes.
“Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos.
Carniglia, Mutru, Starderini, Nadonne e Giovanni [...]. Não
me recordo do nome do sexto. Não obstante, devia me
lembrar de seu nome. Peço perdão à pátria
por havê-lo esquecido. G.G.”11
A República Catarinense
No dia seguinte, a cavalo, Garibaldi partiu ao encontro de
Davi Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes, comandante dos lanceiros
negros. O Seival encontrava-se ancorado na lagoa
de Garopaba, com Big John e Rossetti, que souberam do acontecido.
Os farroupilhas invadiram a vila de Laguna. Davi Canabarro,
em 22 de julho de 1839, proclamou a República Catarinense,
e a população, esperançosa, regozijou-se
com os revoltosos. Antônio Sousa Neto, um dos mais conceituados
líderes farroupilhas, homenageou os heróis na
sua ordem do dia:
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11 GARIBALDI, 1907, pp. 84-88.
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“1839, 22 de julho. Tomada da Laguna
por Davi Canabarro. Quartel-general na vila Setembrina, de
agosto de 1839. O comandante-em-chefe do exército,
extasiado de prazer, faz público ao mesmo o brilhante
triunfo que acabam de alcançar as armas republicanas
sobre a horda imperial estacionada na vila da Laguna, triunfo
tanto mais glorioso quanto é seguro, garantindo a completa
regeneração do Estado Catarinense. O dia 22
de julho raiou glorioso no horizonte político daquela
nascente república e seus efeitos serão com
letras indeléveis levados à mais remota posteridade.
O intrépido e perito coronel Davi Canabarro, digno
comandante da divisão libertadora, ao aproximar-se
daquela importante posição, cujo mando estava
confiado ao decrépito Vilas-Boas, menosprezando seus
canhões, mercenárias baionetas e só escudado
no valor dos seus bravos companheiros, não evitou em
carregar-lhe e a deusa da vitória coroou seu esforços!
[...] O general-comandante tributa sinceros encômios
ao cidadão coronel Davi Canabarro, [...] ao bravo tenente-coronel
Joaquim Teixeira Nunes, [...] ao tenente de marinha Lourenço
Valerigini e tenente da mesma, Inácio Bilbao, bem como
ao comandante da esquadrilha capitão-tenente José
Garibaldi [...]. Antônio Neto.”12
Encontro com Anita
Garibaldi registrou em suas Memórias que nunca
havia pensado em casamento. Considerava-se incapaz de ter
família, por prezar a independência e ter paixão
por aventuras. Mas o destino decidiu o contrário. Ao
perder os amigos, embora existisse Rossetti ocupado com a
organização de Laguna, ele se sentia só.
Nesse isolamento encontrou Ana Maria de Jesus Ribeiro ou Ana
Maria Ribeiro da Silva, como alguns historiadores preferem
chamar Anita Garibaldi:
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12 Apud BOITEUX, 1985, pp. 125-127.
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“Eu andava pelo tombadilho do Itaparica,
quando decidi procurar uma mulher que me tirasse daquela insuportável
e tediosa situação. Lancei um olhar às
habitações da Barra, situada na entrada sul
de Laguna. Com a luneta avistei uma jovem e pedi que me transportassem
até ela. Desembarquei e dirigi-me às residências
onde estava o motivo da minha viagem. Não a encontrei,
mas um homem que conheci logo após meu desembarque
convidou-me para tomar café em sua casa. Entramos e
a primeira pessoa que avistei era aquela que eu procurava:
Anita, a mãe dos meus filhos, a companheira da minha
vida, na boa e má sorte, a mulher com a coragem que
eu sempre quis ter. Ambos ficamos estáticos e silenciosos,
olhando-nos um ao outro como duas pessoas que já se
encontraram e tentam reconhecer reminiscências nas fisionomias...
Finalmente cumprimentei-a e disse-lhe em italiano: Tu devi
essere mia. (Você deve ser minha). Fui magnético
na minha insolência e tinha atado naquele momento as
nossas existências, dando um nó que só
a morte poderia desfazer.”13
A reação imperial
A conquista de Laguna amedrontou o Império, que se
articulou para reconquistá-la. Francisco José
Soares de Andréa, português com duvidosa reputação
e conhecido como o carrasco do Pará,
pelas atrocidades cometidas durante a Cabanagem, foi nomeado
presidente do Rio Grande do Sul. Junto com Frederico Mariath,
comandante naval, elaborou planos para retomar Laguna.
Os habitantes, que haviam recebido os farroupilhas com entusiasmo,
mostravam-se descontentes. Temiam Canabarro, que adotava postura
rígida e inflexível. As desavenças com
Rossetti, Garibaldi e outros líderes, que discordavam
de sua conduta, desnorteavam a população e os
próprios farroupilhas. A situação piorou
com o episódio de Imaruí, pequena aldeia próxima
a Laguna, cujos moradores, pesarosos, trocaram a bandeira
revolucionária pela do Império.
Garibaldi recebeu ordem de Canabarro para verificar o que
se passava, acompanhado pelos soldados baderneiros do comandante
farroupilha, que não lhe obedeceram e destruíram
a aldeia sem que o líder italiano pudesse contê-los.
Canabarro, soberbo, ao ordenar aos seus subordinados que destruíssem
Imaruí, contribuiu para a decadência de seu comando
sem que Garibaldi pudesse interferir. Confessou mais tarde:
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13 GARIBALDI, 1888, p. 56.
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“Em lugar de encontrar inimigos, encontramos
aliados, em lugar de sermos combatidos, fomos festejados.
Os habitantes nos trataram como irmãos e libertadores,
título que desgraçadamente não soubemos
justificar enquanto estivemos nessa povoação
amiga.”14
Ao lado de Garibaldi, Anita vivia momentos difíceis, mormente
pela decepção dos seus irmãos, que almejavam para ela uma
situação melhor. Sofria os preconceitos da união com Garibaldi,
mas não retrocedeu, e ao seu lado demonstrou o idealismo e
o heroísmo que a consagrariam na história.
Soares de Andréa, coordenando as forças em Imbituba,
sob o comando naval de Frederico Mariath, atacou Laguna com
uma frota de vinte e dois navios. Investiu contra os farroupilhas,
que tentaram impedir a sua passagem na barra, quando Garibaldi
colocou os barcos em semicírculo, presos entre si por
fortes correntes. Tinham poucas lanchas e cinco navios: Rio
Pardo, Itaparica, Caçapava, Santana e Seival.15
Numa luta desigual, os farroupilhas foram vencidos. Ao pressentir
que estavam perdidos, Garibaldi incendiou os barcos. Durante
todo o conflito, contou com o auxílio de Anita, que
transportou as armas para terra firme, num pequeno barco,
em inúmeras travessias.
Garibaldi, em suas Memórias, e Mariath, em
relatório ao Império, narraram o combate. Embora
em lados opostos, as descrições comprovam o
sangrento confronto e o heroísmo de Garibaldi, que
lutou bravamente:
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14 Apud CABRAL, p. 133.
15 VARELA, 1933, v. 4. p. 448.
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“Era um verdadeiro açougue
de carne humana; andava-se por cima de montões de cadáveres.
O comandante do Itaparica, João Henrique, de Laguna,
estava deitado no meio de dois terços da sua equipagem
com uma bala que lhe tinha feito no meio do peito um buraco,
por onde podia entrar perfeitamente um braço. O pobre
João Griggs tinha, como já disse, o corpo separado
em dois por um tiro de metralha. Fiquei sufocado, à
vista de semelhante espetáculo, e perguntei a mim mesmo
como poderia ter escapado. Num momento uma nuvem de fumo envolveu
os nossos navios e os nossos bravos tiveram ao menos uma sepultura
digna deles. Enquanto tinha cumprido a minha obra de destruição,
Anita, pela sua parte, havia cumprido a sua salvação.
Era noite fechada quando, tendo reunido todos os marinheiros
que haviam escapado, me juntei com a nossa divisão
e nos retiramos para o Rio Grande, seguindo o mesmo caminho
que alguns meses antes tínhamos atravessado com o coração
cheio de esperança e precedidos pela vitória.”16
Mariath escreve:
“O inimigo opôs uma resistência formidável
[...], uma chuva de balas disparadas, quase à queima-roupa,
pela sua infantaria, abrigada por uma cortina de pedra ao
lado da mesma fortaleza, causava-nos um dano terrível
[...]; desorientados alguns práticos, causaram o encalhe
de três das nossas embarcações; o combate
tornou-se então muito caloroso. Garibaldi, seja isto
dito em abono da verdade, desenvolveu nessa ocasião
uma coragem digna de inveja.[...] Não devo deixar desapercebido
o projeto que Garibaldi diz formara de ir ele mesmo incendiar
a esquadrilha imperial e isto quando já estava derrotado.
[...] Se tal coisa empreendesse, talvez não lhe restasse
tempo de escapar-se de um pequeno bote com a sua heroína.
Frederico Mariath.”17
Passo de Santa Vitória, Lajes
e Curitibanos
Garibaldi, Anita e Rossetti seguiram, após a derrota,
a coluna chefiada por Teixeira Nunes. Não aceitavam
a conduta intransigente de Canabarro. Ao passarem por Passo
de Santa Vitória e Lajes, confrontaram-se com os imperiais.
A vitória alcançada alimentou as esperanças
dos corajosos combatentes. Entretanto, pouco depois, em Curitibanos,
ao caírem numa armadilha, Teixeira Nunes e Garibaldi
foram obrigados, quando acuados num matão, a fugir
sem poder regressar ao local onde lutavam.
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16 GARIBALDI, 1907, pp. 100-102.
17 MARIATH, pp. 175-178. (Carta original publicada no Correio
Mercantil do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1860)
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Mais uma vez Anita demonstrou sua coragem quando,
tomando conta das armas, lutou com destemor ao ser atacada.
Presa e levada ao coronel Antônio Melo de Albuquerque,
apelidado Melo Manso, respondeu às perguntas com altivez;
poucos dias depois fugiu pela floresta, atravessando o rio
Canoas, e encontrou Garibaldi em Lajes.
Os últimos combates
Após a perda de Laguna começou o declínio
farroupilha. Os líderes desentendiam-se constantemente,
sem que Bento Gonçalves pudesse contê-los. As
tentativas de reconciliação com o Império,
por sua vez, não chegavam a bom termo, provocando descontentamentos
e a suspeita de traição. As derrotas militares
em Taquari e São José do Norte foram fatais
para o movimento revolucionário.
Em Taquari, Garibaldi, Antônio Sousa Neto, Canabarro,
Teixeira Nunes, Corte Real e Domingos Crescêncio prepararam-se
para enfrentar as tropas legalistas chefiadas por Manuel Jorge
Rodrigues, significativamente superiores. Aguardavam apenas
a ordem de Bento Gonçalves para atacar. Ao fazê-lo,
após hesitação, Manuel Jorge já
se afastara, perdendo os farroupilhas a oportunidade de vencer
pela posição privilegiada que ocupavam. No dia
seguinte, ao iniciarem a contenda, o desânimo atingira
os revoltosos e o resultado final foi considerado incerto.
Garibaldi deixou nas Memórias:
“O resultado foi para nós péssimo, porque
não sabíamos como reparar as faltas que havia
sofrido a infantaria, arma em que o inimigo nos era muito
superior e se achava todos os dias recebendo novos reforços.
[...] Uma operação concebida neste tempo pelo
general teria podido pôr-nos em excelente posição,
se a fortuna tivesse, como devia, secundado os esforços
deste homem tão superior e tão desgraçado.”18
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18 GARIBALDI, 1907, pp. 114-119.
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A posição estratégica de
São José do Norte, onde havia um comércio
razoável, capaz de abastecer as tropas necessitadas,
era de suma importância para os farroupilhas. O plano
traçado para invadi-la consistia em tomar o local de
surpresa. Após conquistá-la, Garibaldi transportaria
parte das tropas para a outra margem da lagoa, nas embarcações
que ele conquistasse, e obstruiria a única passagem
para a entrada dos navios legalistas. Bloquearia, dessa maneira,
a esquadra imperial vinda de Porto Alegre. Garibaldi e Rossetti
entusiasmaram-se com o plano, pois sempre alertavam para a
necessidade de terem um porto.
A contenda foi quase um corpo-a-corpo, com inúmeros
mortos que se espalhavam pela cidade. Os farroupilhas venciam
a batalha. Bento Gonçalves ordenou aos imperiais, reunidos
no quartel local à espera de reforços, que se
rendessem. Ao perguntar aos companheiros qual o meio mais
rápido para que os adversários saíssem
do refúgio, ouviu que seria através de um incêndio,
que poderia matar também muitos habitantes. Respondeu
que por essa forma não queria a vitória, e deu
ordem para a retirada. A medida foi severamente criticada
por soldados e líderes que o acompanhavam.
Na opinião de Garibaldi, Bento Gonçalves tomou
essa atitude baseada no péssimo desempenho das tropas,
que saqueavam indiscriminadamente a vila, embebedando-se e
dispersando-se.
“O mais glorioso dos triunfos estava mudado, ao
meio-dia, na mais vergonhosa retirada, e os verdadeiros amigos
da liberdade choravam de desesperação. A nossa
perda, comparativamente à nossa situação,
foi enorme. Desde este momento a nossa infantaria não
foi senão um esqueleto; enquanto que a pouca cavalaria
que tinha vindo na expedição serviu para proteger
a retirada.”19
Garibaldi partiu para uma propriedade abandonada, situada
às margens da lagoa dos Patos, que pertencia ao conde
de São Simão, legalista; sua missão era
construir canoas usando troncos de árvores, com as
quais abririam comunicações entre as paragens
da lagoa. Mas as árvores prometidas não chegaram,
e ele ocupou o tempo, pois odiava o ócio, domando cavalos.
Acompanhava o desenrolar dos acontecimentos à distância,
ao lado de Anita, que estava grávida.
Em 16 de setembro de 1840 nasceu um menino, a quem chamaram
de Menotti, em homenagem ao revolucionário Ciro Menotti,
que dera a vida pela causa da unificação da
Itália. Sem qualquer proteção para Anita
e o menino, Garibaldi foi a Setembrina para obter algum recurso
entre os amigos italianos que pudessem ajudá-lo.
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19 GARIBALDI, 1907, pp. 120-121.
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Ao chegar, encontrou Luigi Rossetti frustrado
com os rumos da revolução. Identificava-se com
as proposições de paz apresentadas por Bento
Gonçalves, e ponderava que a luta entre irmãos
deveria terminar o mais rápido possível. Mostrou
a correspondência mantida com líderes legalistas,
onde expunha seus sentimentos e defendia a necessidade de
um acordo para o término das contendas. Garibaldi concordou
com as ponderações do amigo, mas precisava partir.
Com o auxílio desejado, retornou ao encontro da mulher
e do filho, que durante esse período foram atacados
pelo legalista Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, salvando-se
graças à coragem e determinação
de Anita.
Garibaldi sentiu-se penalizado pela situação
dos farroupilhas. Bento Gonçalves, que se estabelecera
provisoriamente em São Gabriel, então capital
da República Rio-Grandense, enfrentava o descontentamento
do exército e dos seus principais líderes. Desde
que encontrara Rossetti, Garibaldi refletia sobre seu futuro:
os ideais farroupilhas dificilmente seriam alcançados;
faltavam armas e alimentos; os amigos italianos estavam mortos;
e havia Anita e Menotti, que estavam vivos por milagre.
A retirada
Os acontecimentos se precipitavam, reforçando a decisão
a ser tomada. Rossetti, que acampara em Setembrina após
o ataque chefiado por Moringue, foi morto. Garibaldi, Anita
e Menotti, nas fileiras comandadas por Davi Canabarro, marcharam
em retirada até alcançar São Gabriel.
“Esta retirada empreendida na estação
invernosa, por um lugar montanhoso e debaixo de uma chuva
incessante, foi a mais terrível e mais desastrosa que
tenho visto. Conduzimos por precaução algumas
vacas, sabendo perfeitamente que no caminho que tínhamos
a atravessar não encontraríamos comestíveis
alguns. [...] Anita, durante a caminhada, sofreu toda a casta
de privações e incômodos com um estoicismo
e uma coragem admiráveis. É necessário
ter algum conhecimento das florestas desta parte do Brasil,
para fazer idéia das privações sofridas
por uma porção de homens sem meios de transporte
e tendo unicamente por recurso o laço, arma muito útil
nas planícies cobertas de animais, mas perfeitamente
inútil nessas espessas florestas, abundantes em tigres
e leões. Para a nossa desgraça ser ainda maior,
os rios muito próximos uns dos outros nestas florestas
virgens engrossavam cada vez mais. A horrível chuva
que nos perseguia não cessava de cair, acontecendo
muitas vezes que uma parte dos nossos soldados se achavam
entre duas correntes de água e aí ficavam privados
de todo alimento, morrendo muitos de fome e principalmente
as mulheres e crianças, que não podiam suportar
tanto as privações. Era uma carnificina mais
horrível do que a de uma sanguinolenta batalha. [...]
De doze mulas e cavalos com que tinha entrado na floresta
e que eram destinadas ao meu serviço, não tinha
podido salvar mais que duas mulas e dois cavalos, os demais
tinham morrido de fome ou de fadiga. [...] Enviei Anita adiante
com um criado e meu filho, a fim de que ele procurasse o fim
dessa interminável floresta e algum alimento. Os dois
cavalos que eu havia deixado a Anita e que ela montava simultaneamente,
foi que nos salvaram. Ela achou o fim da floresta e aí
encontrou um piquete dos meus bravos soldados assentados a
um belo fogo, o que não era comum pelo tempo que fazia.
Os meus companheiros, que por felicidade tinham conservado
alguns vestidos de lã, embrulharam neles a criança,
aquecendo-a e chamando-a por este modo à vida, quando
já a pobre mãe começava a perder todas
as esperanças. Mas ainda não é tudo:
esses excelentes rapazes começaram então a procurar
com uma grande solicitude alguns alimentos, que eles não
tinham procurado para si, mas que agora procuravam por minha
causa. O que dentre todos prestou à minha esposa e
filho os primeiros e mais eficazes socorros foi Mangio: que
o seu nome seja abençoado. Encontrei minha mulher e
filho e soube então o que os meus companheiros tinham
feito por causa dela. Nove dias depois da nossa entrada na
floresta conseguimos sair! Poucos oficiais tinham conseguido
salvar os seus cavalos. [...] As tempestades pareciam circunscritas
à floresta. Apenas saímos dela e nos aproximamos
de Cima da Serra e de Vacaria que o bom tempo começou,
caindo então em nosso poder alguns bois, que indenizando-nos
do nosso longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome
e a chuva.[...].” 20
As tropas chegaram a São Gabriel, onde Anita e Garibaldi
se instalaram. Sua participação no movimento
farroupilha chegava ao fim. As discussões entre os
oficiais aumentavam, pois sabiam não ser possível
prolongar a luta por mais tempo. Havia a hipótese de
se unirem ao ditador argentino Juan Manuel Rosas, mas isto
Bento Gonçalves jamais aceitou, atestando que apenas
mantinha relações com os orientais sem desejar
associar-se a eles. Garibaldi apresentou ao líder farroupilha
seus planos de partir.
Há controvérsias quanto ao que resolveram. Alfredo
Varela, na obra A história da Grande Revolução,
admite que Garibaldi iria a Montevidéu levar fundos
para cobrir despesas urgentes de fornecimento de armas e víveres,
e que nunca retornou ao Brasil porque existia um relacionamento
entre rio-grandenses e orientais. Garibaldi nada mencionou
sobre o diálogo mantido com Bento Gonçalves,
e apenas escreveu: “Decidi então ir a Montevidéu,
temporariamente, e pedi, pois, licença ao presidente
e que me concedesse uma pequena tropa de bovinos para pagar
as despesas.”21
Rumo ao Uruguai
Garibaldi e Anita prepararam-se para a partida, desejosos
de fazê-lo antes do inverno. Como os corsários
não recebiam soldo, o que se constata pela penúria
em que viviam, Domingos José de Almeida, ministro da
Fazenda, concordou que Garibaldi reunisse novecentas cabeças
de gado, a título de auxílio para a viagem.
A família partiu acompanhada de peões que conduziam
o gado. Caminhavam com cuidado pelos pampas, pois sabiam que
poderiam encontrar tropas legalistas e ser atacados. A marcha
monótona e exaustiva decepcionou Garibaldi. Peão
improvisado, constatava a cada dia a diminuição
da boiada, que se perdia ou morria pelo caminho; o roubo das
reses, a fuga dos peões e as churrasqueadas para se
alimentarem também reduziam o número de cabeças.
Admitiu ter errado ao conduzir animais recolhidos ao acaso,
onde reses xucras não tinham condições
de fazer caminhada forçada. As chuvas torrenciais fizeram
com que o rio Negro transbordasse, ocasionando a perda de
muitos animais. Das novecentas cabeças restaram apenas
quinhentas, e sem alternativas resolveram sacrificá-las,
retirando o couro e deixando a carne para ser devorada pelos
corvos. Depois de pagar os peões, sobraram trezentos
couros.
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21 GARIBALDI, 1888, p. 95.
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Anita seguia em silêncio. Acostumara-se
ao sacrifício das caminhadas, e, carregando Menotti
ao lado de Garibaldi, sentia-se feliz e segura.
“A minha Anita era o meu tesouro, amante como eu da
sagrada causa dos povos e de uma vida aventureira. Para ela,
as batalhas eram uma diversão, e o desconforto da vida
do campo, um passatempo. Portanto, não nos importávamos
com o que pudesse acontecer. O futuro seria sempre promissor
e quanto mais selvagens fossem os desertos infindáveis
americanos, mais agradáveis e mais bonitos nos pareciam.”22
Em Montevidéu
Em meados de 1841, Garibaldi, Anita e Menotti alcançaram
Montevidéu, onde foram acolhidos com amizade e carinho
pelos italianos. Hospedaram-se na residência de Napoleone
Castelini, antigo carbonário que lutara na Revolução
Farroupilha. Tornara-se um comerciante de sucesso e protegia
os refugiados na América do Sul. Republicano corajoso,
sem medo de se expor aos perigos inerentes à situação,
colaborava no comércio de gado entre uruguaios e farroupilhas,
vendendo-o ou permutando-o por armas.
Sem recursos, Garibaldi começou a lecionar Matemática,
História e Caligrafia no colégio de Paolo Semidei,
ex-sacerdote. Filiou-se à loja maçônica
italiana ligada ao Grande Oriente de Nápoles, e posteriormente
à loja maçônica francesa Amis de la Patrie,
associada ao Grande Oriente do Rio Grande.
Apesar da família e dos amigos, Garibaldi não
vivia feliz, pois estava afastado das lutas ideológicas.
Como necessitasse aumentar sua renda, trabalhou também
como corretor de cargas para navios, o que lhe proporcionava
convívio com os italianos que chegavam ao porto. Passou
a realizar, na pequena casa que alugara, reuniões freqüentadas
não só pelos italianos, como os irmãos
Giacomo e Paolo Antonini, Giovanni Battista Cuneo, Francesco
Anzani e os irmãos Rizzo, mas também por José
Rivera Indarte, intelectual, e Bartolomeu Mitre, militar,
historiador e humanista.
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22 GARIBALDI, 1888, p. 65.
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Nessa época, d. Pedro II concedeu anistia
a todos os rebeldes que depusessem armas. Como a situação
política do Uruguai era preocupante, Garibaldi procurou
o encarregado dos negócios do Brasil, José Dias
da Cruz Lima, para regularizar sua situação.
Cruz Lima informou ao governo brasileiro que acreditava ser
Garibaldi perigoso, pois comandara a marinha dos revolucionários
em Laguna e solicitava, para iniciar um comércio pelo
Prata, permissão para que o comandante das forças
navais não o atacasse. Acreditava que o melhor era
dar-lhe anistia, pois dessa forma evitaria que ele retornasse
ao Rio Grande do Sul para lutar. Garibaldi, informado, assinou
um documento reNúnciando a qualquer hostilidade contra
o Império e às lutas da Província do
Rio Grande do Sul, comprometendo-se a exercer a atividade
comercial iniciada.
O caso Régis
A situação da Província complicou-se.
Juan Manuel Rosas, que tencionava tornar-se ditador de todas
as Províncias do Prata, apoiado por Manuel Oribe, demonstrou
a intenção de invadir o Uruguai, cujo governo,
reconhecendo em Garibaldi um idealista e sabendo que se encontrava
em Montevidéu, consultou-o sobre a possibilidade de
comandar sua frota naval. Na realidade, ele não se
adaptara às profissões de professor e corretor.
Cruz Lima foi substituído por João Francisco
Régis, que soube, ao assumir, que Garibaldi, chefe
naval da República do Uruguai, apreendera um pequeno
barco brasileiro que navegava irregularmente em águas
uruguaias. E ameaçou Garibaldi de que, se houvesse
novo episódio, chamaria Frederico Mariath para enfrentá-lo.
O líder italiano compreendeu que ele se referia à
derrota em Laguna, e sentiu-se insultado. A provocação
continuou quando, num discurso, chamou-o de reles ladrão.
Garibaldi desafiou-o para um duelo, que ele não aceitou,
alegando como desculpa seu posto diplomático. Acusado
de covarde, Régis afirmou que um oficial do Império
do Brasil não poderia ser desafiado por um pirata e
fugitivo da Itália. Sentindo-se ameaçado, Régis
solicitou ao ministro dos Negócios Estrangeiros do
Uruguai que demitisse e banisse Garibaldi.
O Império enviou o comendador Lins Vieira Cansanção
de Sinimbu para intermediar a questão. Embora o caso
fosse complicado, Sinimbu considerou as dificuldades dos uruguaios
em enfrentar Rosas e a ameaça que sua ambição
representava para o Brasil. Garibaldi era útil à
Província, e o caso deveria ser esquecido.
Não satisfeito, Régis exigiu desculpas ao governo
brasileiro. Garibaldi declarou que devotava o maior respeito
ao governo de sua majestade imperial e a todas as autoridades
brasileiras, e que não quisera ofender nenhum súbito
do imperador. E o caso foi encerrado.
O casamento
Ao encontrar-se com Garibaldi, Anita estava casada com Manuel
Duarte de Aguiar, pretendente escolhido por sua mãe.
Dez anos mais velho, introspectivo, não combinava com
o temperamento vibrante e irrequieto de Anita. Separaram-se
quando, ao eclodir a Revolução Farroupilha,
ele se alistou nas forças imperiais. Era comum na época
as esposas acompanharem os soldados, mas não se tem
conhecimento da razão por que Manuel não o fez.
Anita, portanto, estava só quando conheceu Garibaldi.
Sem jamais saberem do paradeiro de Manuel Aguiar, que julgavam
morto em combate, Garibaldi e Anita resolveram regularizar
sua situação matrimonial e legitimar o filho.
O casamento, realizado em Montevidéu, em 26 de março
de 1842, cumpriu todas as formalidades de praxe, conforme
se vê no documento encontrado por Emílio Curatolo
nos arquivos de Garibaldi:
“Certifico yo, infrascrito cura rector de esta paroquia
de San Francisco de Assisi, en Montevideo, quae en libro primiero
de casados de esta Paroquia, a folias veinti y seinte, a la
svuelta està la partita en del tenor seguiente: “El
dia veinte y seis marzo de mil ochocientos quaranta y dos,
el presbitero don Zenon Aspiazu, mi lugarteniente en esta
parroquia de San Francisco de Assisi, en Montevideo, autorizò
el matrimonio, que in facie ecclesiae contrajo, por palabras
de presente, don Josè Domingo Garibaldi, natural de
Italia, hijo legitimo de don Domingo Garibaldi, y de doña
Rosa Raimunda, con doña Anna Maria de Jesus, natural
de la Laguna, en el Brasil, hija legitima de don Benito Riveira
y de doña Maria Antônia de Jesus; habiendose
leído una sola proclama por habere dispensado las otras
dos, practicadas las demas diligencias que previene el derecho
canonico. No recibieros las benediciones nupciales, siendo
testigos de su otorgamiento don Pablo Semidei y doña
Feliciana Garcia Billegas, lo que, per verdade, firmo. Lorenzo
A. Fernandez. Està conforme al original, que me remito
en caso necesario y para los fines que convenga. Montevideo,
16 de junio de 1842. Lorenzo A. Fernandez.”23
O casal teve mais três filhos em Montevidéu:
Rosa ou Rosita, nascida em 1843 e morta com dezoito meses,
Teresita, nascida em 1845, e Riccioti, nascido em 1847.
A campanha uruguaia
Apesar dos ciúmes de Anita, Garibaldi, ao assumir o
comando naval, partiu só. Os estrangeiros estavam isentos
da obrigação militar, e em virtude dos tratados
vigentes não poderiam combater, mas os italianos apresentaram-se
e lutaram. Radicados no Uruguai, geralmente dedicavam-se ao
comércio e à navegação de cabotagem
ao longo dos rios Paraná e Uruguai. Muitos, abastados
como Napoleone Castellini, auxiliavam os amigos a se envolverem
nas lutas ao lado dos uruguaios.
Desde a queda de Carlos IV, rei da Espanha, e de seu filho
Fernando VII, motivada pela invasão da Espanha por
Napoleão Bonaparte, a América espanhola encontrava-se
agitada. Juntas governativas formaram-se em Sevilha para dirigi-la,
mas a agitação das Províncias Platinas
não diminuiu. Líderes surgiram para libertá-las
do jugo espanhol, como José Artigas, que lutou pela
independência do Uruguai, e outros patriotas como Manuel
Oribe, José Frutuoso Rivera e Manuel Lavalleja. Com
o tempo, entretanto, antagonizaram-se; Oribe apoiava Rosas
e Frutuoso Rivera lutava contra ele. Garibaldi assim os classificou:
__________________________________________________________
23 Apud CURATOLO, 1932, p. 247-248.
__________________________________________________________
“Em 1833 foi que começou o
verdadeiro poder de Rosas. No primeiro governo, cheio de dissimulação,
não tinha apresentado os seus instintos de crueldade,
que fizeram dele, depois, uma celebridade de sangue [...].
Rosas contava trinta e nove anos. Tinha o aspecto europeu,
cabelos louros, olhos azuis e uma presença sofrível.
Não usava nem barbas nem bigode. O seu olhar seria
belo, se o pudéssemos examinar, mas Rosas havia se
habituado a não olhar de frente nem os seus amigos,
nem os seus inimigos, porque sabia que num amigo existia,
quase sempre, um inimigo disfarçado. A sua voz era
doce e, quando tinha necessidade de agradar, sua conversação
tinha muito de atraente. Sua reputação de covarde
era proverbial e a de esperto, universal. Adorava as mistificações,
sendo esta a sua grande ocupação, antes de se
entregar aos negócios sérios. Uma vez chegado
ao poder, suas atitudes não foram senão uma
distração, que eram brutais como a sua natureza
[...]. Temos um exemplo: Camilla O’Gorman, menina de
dezoito anos e oriunda de uma das principais famílias
de Buenos Aires, foi seduzida por um padre de 24 anos. Fugiram
ambos de Buenos Aires, refugiando-se numa pequena vila de
Corrientes, onde, passando por esposos, estabeleceram uma
pequena escola. Corrientes cai em poder de Rosas e os dois
fugitivos, reconhecidos por um padre e deNúnciados
a Rosas, são presos e conduzidos a Buenos Aires, onde,
sem julgamento, Rosas os mandou fuzilar. — Mas, diz
alguém a Rosas, Camilla está grávida!
— Batizai o ventre, diz Rosas que, como excelente cristão,
quer salvar a alma do menino. Esta cerimônia foi executada
e Camilla O’Gorman foi fuzilada. [...] Como homem de
guerra, a bravura de Rivera não podia ser excedida;
como chefe de partido, a sua generosidade não podia
ser igualada. Durante trinta e cinco anos figurou nas cenas
políticas do seu país. Quando a revolução
contra a Espanha começou, Rivera sacrificou a sua fortuna,
porque não era só generoso, era pródigo.
[...] Mas, se Rivera como homem era muito apreciável,
como administrador nunca houve nenhum que desorganizasse mais
os recursos pecuniários de uma nação.
Assim como havia destruído a sua fortuna particular,
destruiu a fortuna pública, não para enriquecer,
mas porque, homem público, tinha conservado todos os
hábitos do homem particular. Oribe pertencia às
primeiras famílias do país. Seu espírito
era fraco, sua inteligência, acanhada, explicando-se,
por isso, a sua aliança com Rosas, a quem se entregou
totalmente, sem pensar que essa aliança trazia, consigo,
a perda dessa mesma independência, pela qual tantas
vezes havia combatido. Como general, sua incapacidade era
completa. As suas paixões tinham a violência
das organizações nervosas e arrastavam-no à
crueldade. Como particular, era um homem honesto. O Uruguai
interessava ao Império do Brasil. Como administrador,
foi mais econômico que Rivera e não se lhe pode
censurar o ter aumentado o déficit do tesouro; contudo,
é a ele que cabe toda a responsabilidade da ruína
do Estado Oriental.”24
Rosas opunha-se aos princípios liberais e federativos
que existiam na região e desejava reunir as diversas
Províncias sob o seu comando. Cruz Lima não
desconhecia que Frutuoso Rivera tinha interesse no Brasil,
e preferiu não se comprometer com disputas.
Garibaldi pertencia às forças navais uruguaias,
acreditando que continuaria a lutar pela liberdade dos povos
em favor da humanidade. Rosas era um déspota e os uruguaios,
sofridos, sem proteção e defendendo sua liberdade,
sensibilizaram o revolucionário italiano. Mazzini,
em Londres, incentivava-o. Escrevendo a Giovanni Batista Cuneo,
argumentava que a participação de Garibaldi
defendia os ideais da Jovem Itália, além de
prepará-lo, ao retornar ao seu país, para continuar
a luta pela unificação da Itália. Bento
Gonçalves também o seguia, e em 26 de agosto
de 1842 escreveu a Domingos José de Almeida: “Nosso
Garibaldi cruza nossas águas com forte esquadrilha,
depois de haver se chocado por duas vezes com as naves de
Rosas, sempre com descalabro para as últimas.”
25
A frota sob o comando de Garibaldi compunha-se de três
pequenas embarcações: Constituição,
Pereyra e Procida. Sabia que dificilmente poderia resistir,
com a precariedade da frota, à bem preparada armada
argentina de William Brown, conhecido por seus méritos
nas campanhas do exterior.
Ao se defrontarem em Costa Brava, após três dias
sem munições e perdendo metade dos homens, Garibaldi
não teve a possibilidade de continuar. Incendiou os
navios, reuniu os que restavam e partiu para Montevidéu.
“Reunimo-nos aos fugitivos e, depois de cinco ou
seis dias de lutas, combates e privações, de
que ninguém pode formar idéia, entramos em Montevidéu,
levando intato o que eu tinha julgado que perderíamos:
a honra!” 26
___________________________________________________________
24 GARIBALDI, 1907, pp. 161-162, 184, 176-178.
25 VARELA, 1933, v.5, p.382.
26 GARIBALDI, 1907, pp. 2-4.
___________________________________________________________
Manuel Oribe ordenou que as tropas marchassem
em direção a Montevidéu, que se preparou
para a defesa. A guerra era iminente. Garibaldi, encarregado
de manter a comunicação da cidade com a fortaleza
do Cerro, próximo de Montevidéu, o que somente
poderia ser feito por mar, realizava-a com êxito. Auxiliou
na expulsão dos inimigos da ilha dos Ratos, abastecendo
os resistentes com armas. Anita navegou com ele nessa operação
num pequeno barco que rebocava as armas, demonstrando mais
uma vez ser destemida. O almirante Brown, com formidável
esquadra, tentou apoderar-se do Cerro e da ilha, mas foi obrigado
pela resistência a retirar-se com grandes perdas.
A Legião Italiana
Garibaldi sabia que em Montevidéu vivia um significativo
número de italianos, negociantes e foragidos. Conclamou-os
às armas; formariam um exército que defenderia
os uruguaios até a morte, porque eram gratos aos que
os receberam com amizade. Formou-se assim a Legião
Italiana com cerca de quatrocentos homens no início,
que aumentavam à medida que os navios aportavam. O
grupo heterogêneo principiou com dificuldade. Não
recebia pagamento a não ser ração, e
a promessa de que, no final da guerra, se bem-sucedida, seus
herdeiros seriam agraciados com terras e bois.
Apesar dos problemas, a Legião Italiana transformou-se
numa tropa disciplinada e uniformizada. Francesco Anzani,
nascido em Alzate, fugitivo político, agindo com rigor,
disciplinou-a, fazendo-a acreditar que lutava pela liberdade
dos uruguaios e preparava-se para, futuramente, defender a
Itália. Os combatentes usavam camisas vermelhas que
se tornaram famosas por terem sido adotadas pelos garibaldinos
na Itália, e levavam nos combates uma bandeira de seda
preta em cujo centro pintaram o Vesúvio em erupção.
Quem a carregava era Gaetano Sacchi, jovem de vinte e quatro
anos que enfrentou bravamente os adversários na defesa
de Cerro.
Mazzini encorajava-os de Londres e propagava pela Europa as
lendárias realizações de Garibaldi e
sua Legião. Foram várias as batalhas
enfrentadas: Cerro, Las Tres Cruces, Colônia, Paysandú,
Gualeguaychu, Paso de la Boyada e Santo Antonio de Salto,
que, ocorrida em 8 de fevereiro de 1846, foi uma das mais
importantes. Garibaldi, depois de subir o rio Uruguai e retomar
os portos que se encontravam sob o domínio de Oribe,
instalou-se em Salto, com seiscentos italianos sitiados pelas
tropas inimigas chefiadas por Justo José Urquiza, que,
a despeito de comandar três mil homens, não conseguiu
vencer a Legião.
Joaquim Suárez, lutador incansável pela independência
uruguaia, que consumiu sua fortuna na defesa de seus ideais,
foi grato ao desempenho de Garibaldi e decretou:
“Desejando o Governo demonstrar a gratidão
da pátria aos valentes que combateram com tanto heroísmo
nos campos de Santo Antônio, no dia 8 do corrente, consultado
o Conselho de Estado, decreta: Art. 1o O sr. general Garibaldi
e todos aqueles que o acompanharam naquele dia glorioso são
beneméritos da República. Art. 2o Na bandeira
da Legião Italiana serão inscritas, em letras
de ouro, na parte superior ao Vesúvio, estas palavras:
“Vitória de 8 de fevereiro de 1846, obtida pela
Legião Italiana sob as ordens de Garibaldi.”
Art. 3o Os nomes daqueles que combateram naquele dia, depois
da separação da cavalaria, serão inscritos
em um quadro, que será colocado na sala do governo,
defronte ao brasão nacional, começando a lista
com o nome dos que morreram.. Art. 4o As famílias dos
que tinham direito a pensão a desfrutarão em
dobro. Art. 5o Destina-se, àqueles que participaram
deste acontecimento, depois de ter sido separada a cavalaria,
um escudo, que levarão no braço esquerdo, com
esta inscrição, cercada de louro: — “invencíveis
combateram no 8 de fevereiro de 1846”. Art. 6o Até
o momento em que um outro corpo do exército não
se ilustre em questão de armas semelhantes a esta,
a Legião Italiana terá, em cada desfile, a direita
de nossa Infantaria. Art. 7o Este decreto será entregue,
em cópia autenticada, à Legião Italiana
e se repetirá na ordem geral em todos os aniversários
deste combate. Art.8o O ministro da Guerra fica encarregado
da execução deste decreto, que será apresentado
à assembléia dos notáveis: que seja publicado
e inserido no registro nacional. Suárez — José
de Bejar — Santiago Vasquez — Francisco J. Muñoz.”27
___________________________________________________________
27 Apud CUNEO, p. 98-99.
___________________________________________________________
Após a Batalha de Dayaman, em 20 de maio
de 1846, último combate significativo sob o comando
de Garibaldi, a Legião Italiana teve um período
de trégua.
A decisão de partir
O casal novamente questionou-se sobre permanecer no Uruguai.
Anita, em Salto, onde foi ao encontro de Garibaldi depois
da morte de Rosa, auxiliou-o apesar da tristeza pela perda
da filha, cuidando dos feridos e enfermos.
Ambos acreditavam ter cumprido mais uma missão. Sofreram
dificuldades. Os líderes uruguaios não desconheciam
que a família passava privações e que
à noite, na residência, não acendiam luz
porque entre o pouco que recebiam não constavam velas.
Por esse motivo Pacheco y Obes, ministro da Guerra, compadecido,
certa ocasião enviou cem patacões ao líder
italiano, que, ao recebê-los, guardou o necessário
para obter velas e distribuiu o restante entre os filhos e
as viúvas dos soldados.
O general Frutuoso Rivera, em reconhecimento aos serviços
prestados pela Legião Italiana, enviou a Garibaldi
a seguinte carta:
“Senhor: Quando, no ano passado, dei à Legião
Francesa uma certa quantidade de terras, esperava que o acaso
conduzisse ao meu quartel algum oficial da Legião Italiana,
dando-me, assim, ocasião de satisfazer um ardente desejo
do meu coração, mostrando à Legião
Italiana a estima que lhe consagro pelos importantes serviços
prestados à república, na guerra que sustentamos
contra o exército invasor de Buenos Aires. Para não
demorar por mais tempo o que considero como o cumprimento
de um dever sagrado, incluo, nesta, um ato de doação,
que faço à ilustre Legião Italiana, como
uma prova sincera do meu reconhecimento pessoal, pelos eminentes
serviços prestados ao meu país. A oferta não
é igual aos serviços, nem aos meus desejos,
contudo, ouso esperar que não recusareis oferecê-la
em meu nome aos vossos camaradas, informando-os da minha boa
vontade e do meu reconhecimento. Aproveito esta ocasião,
coronel, para vos assegurar a minha perfeita consideração
e profunda estima. Frutuoso Rivera.”28
___________________________________________________________
28 Apud GARIBALDI, 1907, p. 12.
___________________________________________________________
Garibaldi comoveu-se com a carta, mas manteve-se
firme em seus princípios. Para provar que lutavam por
idealismo e não por serem mercenários, como
muitos os consideravam, respondeu que agradecia a oferta e
informou que os oficiais italianos, depois de consultados,
não aceitaram ser remunerados pelos serviços
prestados à República. Eles apenas quiseram
ter a honra de partilhar os perigos que ocorriam no país
que amigavelmente lhes ofereceu hospitalidade. Cumpriram o
dever e não desejavam nenhuma recompensa.
De todas as legiões formadas para a defesa do Uruguai,
entre elas a Espanhola, a Francesa e a Inglesa, foi
a Italiana a que mais se destacou pela coragem e idealismo.
Entretanto, Garibaldi sofreu críticas injuriosas. Muitos
anos depois, confirmando sua atuação honrada,
Pacheco y Obes, ao ocupar o cargo de ministro da República
Oriental, derrubou em Paris as mentiras inventadas contra
ele:
“Todos os habitantes de Montevidéu eram seus
amigos; jamais vi uma pessoa mais universalmente amada que
ele e isso era perfeitamente natural. Garibaldi, sempre o
primeiro no combate, era também o primeiro a minimizar
os males da guerra. Quando entrava nas salas do governo, era
para pedir perdão por algum conspirador ou para pedir
socorro em favor de algum infeliz; e foi por intervenção
de Garibaldi que o sr. Michele Haedo, condenado pelas leis
da República, teve salva a sua vida. Em Gualeguaychu,
prendeu o coronel Villagra, um dos mais violentos chefes de
Rosas, e o deixou em liberdade, bem como aos seus companheiros.
Em sua expedição ao interior, distinguiu-se
por muitos traços de generosidade e de cavalheirismo,
que até em nossos dias criam motivo de acirradas conversações
dos dois partidos. Cinqüenta patacões (250 liras),
eis a única soma que Garibaldi recebeu da República.
Enquanto ele permaneceu entre nós, sua família
viveu na pobreza; ele nunca se calçou senão
como soldado; freqüentemente, seus amigos eram obrigados
a usar de subterfúgio para fazê-lo trocar as
vestes já rotas.”29
___________________________________________________________
29 CUNEO, p 40.
___________________________________________________________
O embaixador da Inglaterra em Montevidéu,
diplomata sir William Gore Ouseley, também enalteceu
sua honestidade quando, por intermédio do lorde John
Russel, prestigiado político britânico, enviou
a seguinte nota ao Foreign Office:
“Na minha qualidade de embaixador em Montevidéu,
estive em relações com Garibaldi durante dois
anos. Como comandante das forças militares da cidade
[...], para pôr a frota uruguaia em condições
de combate, era preciso entregar, a ele, armas e munições
ou os meios para adquiri-las. A venalidade e a corrupção
eram de regra geral. Teria sido inoportuno confiar o emprego
de dinheiro ao governo indígena. Encorajado pela reputação
de Garibaldi, não só da sua bravura mas ainda
da sua honestidade, decidi-me a resolver tudo pessoalmente
com ele [...]. De cada prova a que eu o submetesse, a sua
honorabilidade ressurtia sem mácula, cada verificação
comprovava seu ponderado juízo e a perspicácia
dos seus conselhos. [...] Garibaldi tinha o hábito
de ver-me todas as noites, sempre vestido do seu poncho, que
ele jamais tirava durante as nossas entrevistas. Isto me parecia
bizarro. Soube, depois, [...] não o tirava era para
esconder o miserável estado da sua roupa, pois carecia
dos meios para adquirir trajes convenientes. O soldo e as
rações do governo de Montevidéu não
lhe eram entregues ou só lho eram em parte.”30
Reforçando a decisão da partida, notícias
da Itália informavam que o povo revoltava-se contra
os soberanos absolutistas, e governava o Vaticano o papa Pio
IX, que concedera anistia aos condenados dos Estados Pontifícios,
favorecendo muitos revolucionários. Associado ao rei
Carlo Alberto, preparava a campanha de libertação
da Itália do jugo austríaco.
Era hora de retornar e auxiliar a Itália. Saudoso,
lembrava-se da mãe, que estaria à sua espera;
voltaria à pátria e lutaria pelo sonho de ver
sua terra unificada.
___________________________________________________________
30 COLLOR, p. 481-482.
___________________________________________________________
Sem dinheiro para a viagem, não quis
solicitar auxílio do governo, o que poderia ser interpretado
como uma exigência pelas combates empreendidos. Recorreu
então a amigos, e após uma subscrição
conseguiu a soma para organizar a retirada; consta que um
dos maiores contribuintes foi Stefano Antonini, com 30.000
liras.
Mazzini, que considerava Garibaldi o homem necessário
para as contendas na Itália, preparou seu retorno através
das notícias que fazia circular por toda parte, relatando
as proezas em que se vira envolvido na América do Sul,
tornando-o popular.
Anita e os filhos seguiram em dia impreciso de dezembro de
1847 ou janeiro de 1848, no veleiro sardo Galavowa. Quanto
a Garibaldi, partiu em 15 de abril de 1848 com os companheiros
que quiseram segui-lo, setenta e três ao todo. Deixaram
o porto de Montevidéu no navio sardo Bifronte, rebatizado
por ele de Speranza. Na Itália, Anita e Garibaldi continuariam
a lutar por seus sonhos e utopias...
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