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Mensagem do Ministério Público
Mauro Henrique Renner
 
Mensagem do Ministério Público
Ricardo Vaz Seelig
 
Palavra dos Editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
 
Apresentação
Roberto Speciale
 
Introdução
Annita Garibaldi Jallet
 
O mito de Garibaldi: origem e significados no Cone Sul até 1907, ano do centenário de seu nascimento
Pietro Rinaldo Fanesi
 
Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para a América Latina
Maria Pace Chiavari
 
O “aprendizado” de Garibaldi na América Latina: a “scuola delle palle” e a “escola moral”
Anna Maria Lazzarino Del Grosso
 
Garibaldi: republicano e revolucionário internacional
Carmen Lícia Palazzo
 
Memória de Garibaldi e a construção da identidade entre italianos no
Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
 
A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário da Revolução Farroupilha
Rosemary Fritsch Brum
 
Garibaldi: a gênese do mito
Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
 
Garibaldi na América do Sul
Yvonne Capuano
 
Livro Completo
 
 
 
Patrocinio Cultural:
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Os caminhos de Garibaldi na América

Livro Completo


Mauro Henrique Renner
____________________________________________________
Procurador-Geral de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul

A edição do livro Os Caminhos de Garibaldi na América é um dos resultados concretos do Seminário Internacional “170 anos da Revolução Farroupilha – o legado de Bento Gonçalves, Garibaldi e Anita”, ocorrido no ano de 2005, e que contou com o apoio da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul e da comunidade italiana.

Giuseppe Garibaldi (1807-1882), revolucionário italiano, o “herói de dois mundos” devido à sua participação nas lutas pela liberdade, tanto na Europa como na América do Sul, foi figura importante na Guerra dos Farrapos, e serve de exemplo atual na busca dos valores republicanos de democracia, independência, liberdade e justiça social para todos.

Nesse sentido, o presente livro é uma contribuição à valorização da história de uma das personalidades essenciais na formação e consolidação do Estado do Rio Grande do Sul. Nossa instituição, ao dar conta do comando constitucional que lhe encarrega de velar pelo patrimônio histórico e cultural, mais do que zelar por sua proteção, dedica-se a implementar os meios para a sua devida promoção. A presente obra é exemplo dessa postura.

Conhecer o passado, fixar a memória e beber da experiência de figuras exemplares, personagens históricos de nosso Estado, é imprescindível para a construção de um futuro sonhado para a sociedade gaúcha. O Memorial de nossa instituição, inclusive, está situado no prédio mais antigo do cadastro do patrimônio imobiliário do Rio Grande do Sul, sendo que o projeto arquitetônico da restauração foi elaborado pelo próprio Ministério Público, com o que estamos conferindo significado presente ao passado, e utilizando-o para alavancar o futuro.

Assim como Garibaldi, homem criado nas lides marítimas, e que singrou por dois mundos muito antes das tormentas e oportunidades da globalização, o Ministério Público navega pelos mares atuais, firme no timão e na direção que a Constituição lhe apontou.

Olhar o passado para projetar o futuro, nada melhor, ainda mais quando a instituição já se move com o olhar no horizonte de 2022, a fim de concretizar um Ministério Público à altura do bicentenário da independência.
Sempre é tempo de aprender com as antigas trilhas e de projetar novos caminhos.

Mensagem do Ministério Público

Ricardo Vaz Seelig
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Procurador de Justiça
Ministério

Quando o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul passou a desempenhar a missão constitucional que lhe foi conferida, de zelar pela proteção do patrimônio histórico e cultural, entendeu que o cumprimento desse comando não deveria se limitar a tão somente estabelecer demandas em caso de ofensa aos bens que lhe foram confiados, mas também empenhar-se na implantação de projetos que visassem a proporcionar a integração dos diversos meios sociais no seu conhecimento, respeito e proteção.

Com este objetivo, o Ministério Público, através de seus diversos canais de atuação, tem dedicado seus melhores esforços, não na constituição de um mero e estéril repositório de memórias e reminiscências do passado, mas na consecução deste verdadeiro fundamento da cidadania, apoiando ações culturais voltadas ao estudo e à divulgação desse patrimônio, como é o caso da obra Os Caminhos de Garibaldi na América, que ora ajudamos a organizar.
Ao assinalarmos, neste ano de 2007, o bicentenário de Giuseppe Garibaldi, alvitramos reunir eminentes estudiosos para refletir sobre a biografia de um dos mais importantes personagens da história universal, tentando compor, no mosaico multifacetado de sua atuação no Velho e no Novo Mundo, um retrato inteligível não só de seu caráter, mas de sua trajetória de jovem aventureiro a grande estadista, responsável pela unificação italiana.

O estudo dos fatos históricos leva-nos à conclusão de que é impossível estabelecer os fundamentos do que poder-se-ia denominar de “ciência histórica”, pois nunca conseguiremos verificar exatamente o resultado de uma hipótese. Isso posto, poderíamos supor que, não fossem suas experiências militares no sul do Brasil e no Uruguai, Garibaldi teria logrado materializar os sucessos que veio a obter em sua terra natal?

Giuseppe Garibaldi teve enorme projeção na opinião dos povos quando sua vida foi retratada pelo escritor Alexandre Dumas, autor de clássicos como O Conde de Monte Cristo e Os Três Mosqueteiros. Sua vida, tal como contada, teria sido uma ficção? Ora, o problema da ficção é que ela faz sentido, ao contrário da realidade — esta, sob a perspectiva humana, pelo menos, não faz sentido algum. Como diria Aldous Huxley, no seu romance outonal O Gênio e a Deusa, o critério da realidade é a sua incongruência intrínseca. Sob esse enfoque, quanto “mais real” a ficção, menos verossímil será.

Como os grandes personagens da História, a figura do “herói de dois mundos” ora é mitificada, ora vilipendiada. Sua imagem foi apropriada por diversos segmentos e matizes ideológicos, da esquerda à direita, e em diversos momentos históricos, desde a propaganda política do Partido Republicano, no Rio Grande do Sul, ao fascismo de Mussolini, por exemplo.

Daí a importância da presente publicação, onde a contribuição dos historiadores e pesquisadores que se debruçaram sobre esse grande personagem é inestimável e significativa para o estudo dos seus “caminhos”.

Em seu ensaio Garibaldi: republicano e revolucionário internacional, por exemplo, a pesquisadora Carmen Lícia Palazzo observa que não obstante, na chamada História Cultural, o estudo e a escrita dos acontecimentos não se façam mais em torno de relatos factuais ou de biografias de grandes personalidades, tais paradigmas não excluem o interesse por personalidades que, como Garibaldi, merecem figurar como objeto de estudo por que muito acrescentaram ao conhecimento histórico.

Neste diapasão, portanto, destaca-se a importância desta obra, que se inscreve em um projeto com diversificada agenda de eventos, exposições, espetáculos artísticos, concursos escolares, tanto na América como na Europa.

Esperamos, pois, ao somar os nossos esforços aos das demais instituições participantes dessa ampla agenda internacional, contribuir, através do estímulo ao pensamento crítico e ao resgate histórico, manter aberto um importante espaço de reflexão sobre a história e a cultura européia e sul-americana.

Se este for o resultado desta iniciativa cultural – valorizar uma das mais emocionantes epopéias da história da humanidade – , então teremos alcançado nosso objetivo.

Palavra dos editores

Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
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Jornalistas e editores

O desafio de editar uma obra sobre a atribulada trajetória de Giuseppe Garibaldi, nos marcos do bicentenário de seu nascimento, facilmente poderia nos levar a um labirinto. O motivo, como logo constatamos, é a vasta, polêmica, e muitas vezes contraditória contribuição legada à história européia e de nossa terra pelo general da unificação e da independência nacional italiana.

Hoje, passados 200 anos de seu nascimento, em 4 de julho de 1807, ainda ecoam por aqui as controvérsias e paixões que cercaram seu nome, desde que, ainda jovem, desembarcou no Rio de Janeiro, aliou-se aos farroupilhas, no Rio Grande do Sul, em 1836, e participou, posteriormente, das lutas do cerco a Montevidéu, na Guerra Grande. Somente após seu retorno ao cenário italiano, alcançaria, entretanto, o direito à eternidade da História como cidadão e internacionalista, ao sacudir os alicerces da ordem política européia.

Em novembro de 2005, uma visita à Itália, com o fim de participar de um evento investigativo promovido pela Fundação Casa América, em Gênova, sobre a contribuição de Giuseppe Mazzini, o ideólogo do Ressurgimento, cujo pensamento político e libertário guiou Giuseppe Garibaldi, abriu-nos os olhos para uma questão relevante. As jornadas de Garibaldi, tanto no sul do Brasil e no Uruguai, como no Atlântico e no Rio da Prata, ainda não foram suficientemente analisadas pelos especialistas europeus. De certo modo, nos círculos de estudos garibaldinos, permanece a visão de que não passaram de incursões românticas, sem grandes conseqüências.

Alguns dos importantes pesquisadores, que encontramos durante o simpósio genovês, incentivaram-nos a realizar a tarefa editorial que idealizávamos, em busca de respostas às lacunas existentes nas várias facetas da obra do herói e de suas relações com nosso passado. As mais notáveis, segundo eles, estariam localizadas na primeira passagem de Garibaldi pela América do Sul, período marcante de amadurecimento do jovem marinheiro, militante republicano, quando aqui aportou, condenado à morte por suas atividades subversivas.

Decidimos, então, por uma clivagem que demarcasse sua biografia, protagonismo social e mito, tendo como alvo principal o nosso próprio espaço histórico e geográfico, o Cone Sul da América Latina. Assim, como resultado de uma extensa articulação de âmbito internacional à qual nos integramos, foi possível identificar e reunir autores italianos e brasileiros com visões diferenciadas, que se dispuseram a contribuir com novos contrastes e interpretações relacionados a essa etapa da vida de Garibaldi.

Entre os autores italianos participantes deste trabalho coletivo, o Prof. Dr. Pietro Rinaldo Fanesi, da Universidade de Camerino, ao abordar o mito de Garibaldi, sua formação e representações no Cone Sul, na época do centenário de seu nascimento, indaga se ele teria contribuído para a construção de uma identidade nacional entre os imigrantes italianos da região ou se, ao contrário, simbolizaria exatamente uma comunidade dividida.

Já a pesquisadora italiana radicada no Brasil, Maria Pace Chiavari, do Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro, descreve o cenário que Garibaldi encontrou ao desembarcar no Rio de Janeiro, sua porta de entrada para o Brasil, que lhe proporcionou as condições para a integração aos movimentos políticos e sociais que se desenvolviam no país naquele período. A Profa. Dra. Anna Maria Lazzarino Del Grosso, da Faculdade de Ciência Política da Universidade de Gênova, por sua vez, analisa a experiência de Garibaldi na América Latina sob o ponto de vista de um fértil aprendizado como combatente e líder, e de amadurecimento de nobres valores morais, democráticos e cosmopolitas.

No grupo de pesquisadores brasileiros, Carmen Lícia Palazzo, Doutora em História, apresenta uma visão global sobre o personagem Garibaldi como sujeito histórico republicano, associado à Jovem Itália, e comprometido com o ideal revolucionário de liberdade para todos que caracterizou o seu tempo. No âmbito do Rio Grande do Sul, a Profa. Dra. Núncia Santoro de Constantino, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, desenvolve uma abordagem centrada nas diversas representações do personagem ao longo do tempo, e do uso que delas fizeram as comunidades italianas emigradas em seu processo de construção identitária, em busca de novas raízes sociais, econômicas e culturais.

A densidade social que adquire o mito de Garibaldi na época das celebrações pelo centenário da Revolução Farroupilha é objeto do estudo elaborado pela socióloga Rosemary Fritsch Brum, Doutora em História do Brasil. O culto a Garibaldi e os sucessivos relatos de sua atuação no irredentismo farrapo é discutido também pelos historiadores Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto, do Memorial do Ministério Público gaúcho. Por fim, a escritora e pesquisadora paulista Yvonne Capuano revisita o percurso garibaldino no Continente, desde sua chegada ao Rio de Janeiro até a partida de Anita e dos filhos de Montevidéu para a Itália, seguida do retorno de Garibaldi à pátria, após as heróicas porfias em terras uruguaias.

Em seu conjunto, a leitura deste diversificado painel de textos reforça a idéia de que a fama de Garibaldi, assim como a de outros tantos personagens da história universal, esteve sujeita a conveniências de governos, partidárias ou ideológicas, muitas vezes manipulada por grupos interessados em alcançar certa coesão social e política por meio da atração das comunidades originadas da Itália. Nesse sentido, cabe observar que a apropriação do herói, através do tempo, não é um processo pacífico. Ocorre, sim, mas em meio a contradições que envolvem governantes, ideólogos, líderes da igreja, maçonaria, imprensa, intelectuais e dirigentes comunitários.

Tudo isso aumenta a convicção dos organizadores, patrocinadores e apoiadores desta edição de que é preciso aprofundar o conhecimento sobre o passado e as ligações entre os povos e as culturas. Com este objetivo, associaram-se à presente iniciativa cultural a empresa Souza Cruz e o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, que, com o apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura, viabilizaram a concretização de um projeto gestado em conjunto por italianos e brasileiros desde 2005, mais uma vez em profícua parceria com o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul e com a Assembléia Legislativa gaúcha.

Como editores, estamos conscientes de que muitas interrogações acerca de Giuseppe Garibaldi não encontrarão respostas definitivas aqui. Permanecerão como silêncio, em segredo, até que alguém as desvende. O desafio fabuloso lançado por Giuseppe Garibaldi aos historiadores, porém, nunca ficará ultrapassado. Isso nos traz uma única certeza definitiva: outras iniciativas como esta deverão se repetir ao longo do tempo, sem que se esgote a multiplicidade do debate e das interpretações a cada nova revelação.

Apresentação

Roberto Speciale

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Presidente da Fundação Casa América, Gênova, Itália

Chegamos a 2007, bicentenário do nascimento de Giuseppe Garibaldi. Não somente na Itália, mas em muitas cidades do mundo preparam-se encontros, publicações, exposições e manifestações. O propósito é recordar, como merece, uma grande personalidade do passado, e também preservar o núcleo fundamental de sua vida e retomá-lo na atualidade. Acredito que a força da mensagem que Garibaldi nos deixa ainda hoje não está somente no papel de “libertador global” para a independência e liberdade de todos os povos, o que é evidente, mas, sobretudo, no modo como interpretou, mesmo que involuntariamente, este papel. Poderemos discutir ainda por muito tempo seus defeitos, também sua simplicidade e ingenuidade, mas o que se impõe é sua generosidade, coragem, lealdade e absoluta abnegação.

São justamente essas características que, em paralelo a seus sucessos militares, permitem a difusão da admiração por ele e até a veneração popular como, talvez, nunca tenha acontecido com outra personalidade da história.

Deseja-se que tais qualidades, que eram fortemente concentradas em Garibaldi, possam ser replicadas. Aconselhar os homens de ação e de governo que se inspirem, hoje, mesmo parcialmente, nessas virtudes, não deveria ser um exercício banal ou trabalho inútil. Espero, sinceramente, que também no Brasil, e em especial no Rio Grande do Sul, se conceda o necessário para reevocar o seu mito e o de Anita, mas se dedique o máximo de energia para salvar o que ainda pode falar às mentes e aos sentimentos dos homens de hoje.

Justamente porque o mundo inteiro e, em particular, o continente americano estão interessados nos processos de crescimento e na gigantesca transformação econômica, social e política, deveria ser avaliada a importância que poderiam assumir as virtudes mencionadas antes como mais uma alavanca de mudanças e como modelo ético laico.

O Brasil, e depois o Uruguai, foram fundamentais para a formação completa de Garibaldi e para suas ações futuras. Quando chega ao Rio de Janeiro é, em essência, um homem do mar, grande nadador, marinheiro experiente, comandante de navios, qualidades que adquiriu ao freqüentar o mar em Nizza* e através da família, originária da província de Gênova, e que praticou navegando por muitos anos no Mediterrâneo. É também um exilado político, imbuído pelos ideais de Mazzini, pela ânsia de liberdade, de independência, de justiça social para a Itália e para todos os povos.

Naquelas terras encontra a amizade de Bento Gonçalves, de Rossetti, de Cuneo e de tantos outros, e encontra o amor. Aprende a combater sem se deixar abater pela crueldade da guerra, adquire prestígio e honra sem a obsessão e o interesse pelo poder e pelo dinheiro. Permanece sendo ele mesmo, e reforça seus ideais e sua seriedade nas relações com os outros homens. Cria-se uma grande simbiose entre Garibaldi e a América do Sul: uma liberdade em espaço aberto, talvez selvagem, mas generosa e coerente.

O período do século XIX, que para nós é o Ressurgimento italiano, redescobre a importância da formação das nações, da independência de qualquer opressão, da aspiração à liberdade, não somente dos indivíduos, mas dos povos. Porém, não se torna um nacionalismo restrito aos seus melhores homens (como Giuseppe Mazzini) porque está ligado a uma concepção universal de liberdade e democracia, e antecipa o conceito supranacional, com a idéia dos Estados Unidos da Europa. Não se limita a teorizar sobre uma troca de classes dirigentes porque, no fundo, existe uma idéia de solidariedade, de emancipação do trabalho, de instrução popular e também de uma diferente relação homem-mulher, que não deixa inalterada a ordem social, mas que tende, mesmo que de modo antigo, a “revolucioná-la”.

Desejo que 2007 seja a ocasião para um entrelaçamento de relações mais estreitas e fecundas entre a Itália e a América do Sul, entre as Nações, mas também entre as autoridades locais, as instituições e as fundações culturais. Tentemos imaginar para o futuro um trabalho em comum, de reflexão, de aprofundamento, de troca de experiências sobre temas que atravessam o mar e que possam nos unir.

Introdução

Annita Garibaldi Jallet
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Cientista política, bisneta de Giuseppe e Anita Garibaldi

O mito que se formou sobre Giuseppe Garibaldi, desde a sua juventude, chegou a nós com uma nitidez surpreendente, duzentos anos após seu nascimento. Sua imagem parece ter se separado de sua figura terrena, de sua epopéia, dos locais de suas batalhas, para elevar-se a uma dimensão supe-rior, no limite do imaterial. Enquanto se distanciam os fatos que ligam o herói à sua história, fazendo-o parecer antigo, Garibaldi levanta, levita, torna-se pura imagem. Representa ainda valores e esperanças, além dos limites de sua obra, de seu tempo, de seu espaço. Talvez não seja o único que ingressou no panteão da imortalidade, ao qual poucos tiveram acesso.

Sem dúvida, suas façanhas foram grandiosas. Entretanto, essa consciência ainda não é suficiente para explicar o caráter duradouro de seu fascínio e universal de sua fama.

Tentarei apresentar uma explicação ousada: o mito praticamente se desmaterializou. O século dos ressurgimentos nacionais e a própria unificação da Itália passam para um segundo plano. “Garibaldi” torna-se o nome de um fato que não é mais história, não é mais lugar, é valor. É valor positivo. Não existe nada de obscuro neste herói. O cavalo é branco, a capa é vermelha ou de cores vivas, a barba é castanho claro, o olhar é nítido.

Tudo nele é equilibrado. Com sua voz suave, ele toma todos os cuidados. Este guerreiro inspira um sentimento de paz. Em torno dele, não é o grito dos feridos e dos mortos que se eleva, mas o canto de seu lamento pelos amigos perdidos. Pede algo, mas não é para ele: quer melhor tratamento para seus companheiros e que os mártires sejam lembrados. Parece que o sonho nunca morre neste homem, a quem não faltaram sofrimentos e desilusões. O adolescente que queria ser um homem do mar está presente naquele que construiu seu reino em uma ilha, onde se refugiou nos anos de repouso e de onde contemplou, com igual amor, a natureza, o céu e o universo que nunca o desiludiram, fiéis ao marinheiro. Parece que a vida nunca o ofendeu, nunca o feriu.

Assim o mito o devolve. Sabemos que a história foi diferente. Muitas vezes tudo lhe foi tirado: a glória, o amor, a paz. E também a integridade do corpo, coberto de feridas, dolorido pelos males de uma vida difícil, sem teto, sem boas roupas e alimentação suficiente. Mas em sua alma permaneceu adolescente, tal como entrara na vida e como a sonhara. Este traço de seu caráter foi bem apresentado por Elio Vittorini, que descreve Caprera como o sonho de uma criança, em uma Sardenha que é como a infância. Aquela infância que escolheu para si e para os seus se encontra nas terras antigas, nos restos de velhas civilizações, nas plantas rudes, robustas, que resistiram a todos os ventos, no jardim cuidado palmo a palmo, nas plantas amadas, nos animais amigos com os quais conversa, e que respondem em uma língua que somente eles conhecem. Uma infância fixada, também, à eternidade.

Uma outra dimensão de Garibaldi é a territorial. Naqueles tempos onde as distâncias do mundo eram ainda muito grandes em relação às poucas possibilidades do homem de contê-las em seus desenhos, Garibaldi tem um grande domínio do mar, tanto que o faz seu, ou mais: usa-o como instrumento para conquistar o mundo. Depois do Mediterrâneo, na juventude, depois do Atlântico, nos anos da América Latina, o encontramos no Pacífico e nos mares da Ásia. Sua presença, tanto como capitão de navios mercantes ou de guerra, transforma cada viagem em um episódio de sua lenda. Independentemente da importância do território onde estivesse, era ele mesmo em qualquer lugar.

Era quase Sandokan, ou melhor, Sandokan era quase ele.

Sua história o vincula para sempre à unificação da Itália. Mas foi ele, de fato, um herói italiano? Se tivesse sido um italiano antes de tudo – um lígure, um toscano, um vêneto, um napolitano – teria assumido as características e os limites de cada uma dessas culturas. Ao contrário, era ligado a um sonho chamado Itália, que via unida na sua história – herdeira de Roma – e nos seus aspectos, circundada totalmente pelo mar e pela cadeia dos Alpes. Uma visão que tinha pouco em comum com a dos italianos tão diferentes entre si. Foi essa visão que levou adiante um projeto que nenhuma das partes da Itália teria conseguido realizar para as outras, e que nenhum italiano – lígure, toscano, vêneto, napolitano – teria conseguido concluir.

Reuniu o melhor de tudo que havia visto: o mundo oriental o tinha marcado profundamente, mas não o deteve. A longa permanência em Constantinopla poderia tê-lo seduzido e aculturado. Obrigado a se exilar, preferiu outros horizontes. As comunidades de exilados que viviam na América Latina o aproximaram de seu desenho de unificação da Itália. Ali começou o combate (Revolução Farroupilha), ali formou a Legião Italiana (Montevidéu) e tornou-se general (Sant’Antonio). Daquela experiência trouxe o método revolucionário que permitiu que vencesse, na Itália, um inimigo que estava, ao contrário, ancorado ao território. Tinha, sim, lido Bianco di Saint Jorioz, e também o comentário de Giuseppe Mazzini sobre a guerra de pequenos grupos, mas, sem a aplicação prática e empírica que fez nos campos de batalha da América Latina, nunca teria tido tal domínio sobre o território italiano.

Nós nos perguntamos por que tantos heróis sul-americanos se inspiraram em Giuseppe Garibaldi. Na realidade, ele era mais estrangeiro na Itália do que na América Latina, onde viveu 14 anos, enquanto nunca vivera na Itália, senão em breves ocasiões na Ligúria. Era justamente aquele ser “outro” que o fazia impor-se sobre aqueles que não sabiam levantar o olhar para outros céus. É necessário considerar também que, tendo permanecido por um longo tempo em Istambul, depois em Montevidéu, tinha uma idéia muito precisa das relações de força entre as grandes potências presentes no mar e na cena internacional. Essa bagagem de conhecimentos compreendidos entre o instintivo, o experimental e o adquirido é um valor raro, imenso. A humanidade reconhece os homens que o possuem. Considera-os como faróis na noite escura do seu caminho. Estes trazem confiança e esperança. A lenda se expande, por essas características, até para lugares onde Garibaldi nunca esteve. Sua existência, freqüentemente vivida de forma impulsiva, foi na realidade uma obra-prima de coerência. Ele era um homem simples, nos modos e no pensamento. Não exercitou o que normalmente se chama poder. Mas foi o guia dos homens e dos povos que muitos ainda gostariam de ter.

Não nos perguntemos o porquê. Existem, na vida e no homem, muitas faixas de mistério. Garibaldi quis que o seu pairasse no coração de uma pequena ilha, refúgio de perfumes e de cores, em um oceano de beleza, em meio ao mar e ao vento, inalcançável. O mar ocupa uma superfície do globo sem descontinuidade, ao contrário da terra. Se não é possível explicar o caso Garibaldi, recorrendo-se a uma comparação, tentemos esta: Garibaldi é o mar.

O mito de Garibaldi: origem
e significados no Cone Sul até 1907,
ano do centenário de seu nascimento

Pietro Rinaldo Fanesi
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Historiador e pesquisador, é colaborador da Cátedra de História
e Instituições da América, da Universidade de Camerino, Itália



As raízes do mito garibaldino

Nesta oportunidade, o objetivo é compreender o quanto o mito de Garibaldi contribuiu para a construção de uma identidade nacional entre as comunidades italianas nos países do Cone Sul ou se, ao contrário, este foi o elemento que caracterizou uma identidade “dividida”, um reconhecimento de uma idéia de Pátria que nem sempre conseguia ter valor para todas as camadas sociais e representações político-econômicas.

As linhas mestras deste trabalho retomam as celebrações dos “aniversários” garibaldinos – entre o fim de 1800 e o início de 1900 – no Brasil, Argentina e Uruguai, e o impacto que essas têm nas comunidades ítalo-americanas e nas sociedades locais, com atenção especial à dialética entre “laicos” e católicos, republicanos e monarquistas, que, aos poucos, se instaurou em torno do “uso político” da figura de Giuseppe Garibaldi.

Neste sentido, de fato, é quase impossível não considerar uma ambigüidade estrutural ligada à utilização do mito garibaldino, que se prestou, por mais de um século, a um “duplo uso” apoiado no binômio patriotismo-italianidade: um Garibaldi certamente maçom, anticlerical, democrático e populista, internacionalista, mas também “pai da pátria” (especialmente a partir dos primeiros anos de 1900) e, em alguns casos, “consagrado” não somente pelo componente laico da sociedade.

A propósito da questão mencionada, da identidade “dividida”, vale a pena citar uma passagem que se aplica à Argentina:

No una sino dos comunidades en Buenos Aires, con una miriada de instituciones y con sus simbolos contrapuestos. En los ambitos monarquicos flameaba la bandera de la casa de Savoia, se tocaba la Marcha Real y se commemoraban con celebraciones el aniversario del Estatuto albertino y el dia del nacimiento de Vittorio Emanuele. En los republicanos, en cambio flameaba la bandera tricolor, resonaba el himno a Garibaldi y se realizaban celebraciones en recuerdo de los cinco jornadas milanesas y los aniversarios de Garibaldi y Mazzini.”1

Este comportamento não vale somente para a comunidade italiana da capital argentina, mas é encontrado em quase todas as cidades dos países do Cone Sul, onde as comunidades apresentavam um pluralismo social, ideológico e regional, correspondente às características dos diversos fluxos imigratórios. Especialmente nessa área do continente latino-americano, a figura de Garibaldi assumia uma função peculiar, eivada de momentos de exaltação, mas também de críticas. De fato, as façanhas da guerra civil pratense, a chamada Guerra Grande, e a participação direta de Garibaldi e dos italianos que chegaram ao Uruguai desde a primeira metade de 1800, contribuíram muito para movimentar por décadas um debate político, por exemplo, entre as duas principais formações políticas da Banda Oriental, os colorados e os blancos, onde os primeiros viam em Garibaldi o chefe da “Legião italiana”, o herói da Defensa e da batalha de San Antonio do Salto, e, os segundos, somente como um mercenário que tinha se inserido arbitrariamente em uma guerra “não sua”.2

A mesma polêmica atinge a comunidade ítalo-argentina e a sociedade local, mesmo que por uma perspectiva diferente, dada a ausência física, aqui, de Garibaldi. Entretanto, as agremiações reunidas em torno da corrente democrática, de um lado, e dos setores mais conservadores do outro, diferenciaram-se, como será possível averiguar sobre o juízo histórico-político da figura de Giuseppe Garibaldi.

O caso do Brasil não se apresenta muito diferente, pelo menos nos estados meridionais do país, mesmo que, em honra da verdade, o mito garibaldino – e o de Anita (Ana Maria de Jesus Ribeiro) – mantenha no tempo um valor “único”, de grande consenso popular, seja entre as comunidades de italianos emigrados, ou entre a sociedade local, como uma longa onda que atravessa os séculos. Não faltaram alguns momentos, porém, onde as tensões se aguçaram em torno da interpretação da figura de Garibaldi. O fenômeno parece mais limitado do que os casos apenas citados dos países pratenses, e, quando se verificam momentos de tensão no interior da comunidade ítalo-brasileira e da sociedade local, estes são caracterizados pelo enfrentamento, geralmente entre laicos e católicos.

Na realidade, a “questão garibaldina” parece restrita às zonas onde foi mais consistente a imigração italiana, especialmente a vêneta, grande matriz católico-conservadora, como a área de Caxias do Sul. Aqui, a figura de Garibaldi será aos poucos objeto de um confronto político-cultural – como veremos a seguir – com repercussões que chegam até os tempos mais recentes. De fato, em 2002, por exemplo, em um semanário de cunho católico, de Caxias do Sul, constam cinco longos artigos que narram as façanhas de Garibaldi no Rio Grande do Sul e no Uruguai, mas com evidente tom crítico ao seu comportamento, excessivamente violento, durante a Revolução Farroupilha e no Uruguai.3

Antes disso, por exemplo, durante as comemorações de 1982, em um jornal de grande tiragem de Porto Alegre, a Zero Hora, entre muitos aspectos enfáticos e retóricos, lê-se também uma notável crítica ao comportamento dos ingleses e dos italianos em Londres, um autêntico delírio popular, durante a visita de Garibaldi à cidade britânica, incomodando, na ocasião, de maneira instrumental, até Marx: “[…] ‘Um miserável espetáculo de imbecilidade’ escreveu Karl Marx sobre a acolhida que Giuseppe Garibaldi recebeu em 1868, quando, convidado por amigos, visitou Londres.”4

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1 F.J. Devoto, Inventando a los Italianos? Imagen de los primeros inmigrantes en Buenos Aires (1810-1880), em “Annuario do IHES”. Tandil: VII, 1992, p. 133.

2 A propósito, para o Uruguai, além do datado mas importante trabalho de C.M. Rama, Garibaldi y el Uruguay. Montevidéu: Ediciones Nuestro Tempo, 1968 (útil também pela rica bibliografia “garibaldina”), veja-se ainda J.A. Oddone, Italians in Uruguay: Political Participation and Country Consolidation during Mass Immigration, in Aa.Vv:, The Colombus People. Perspectives in Italian Inmigration to the America and Australia. New York: Center for Migration Studies, 1994, p. 210-228 e C. Zubillaga, Religiosità, devozione popolare e immigrazione italiana in Uruguay, em Aa.Vv., L’emigrazione italiana e la formazione dell’Uruguay moderno. Torino: Edizioni della Fondazione Giovanni Agnelli, 1993, p. 121-170. Aqui quer-se fazer menção também a alguns trabalhos como S. Candido, Giuseppe Garibaldi nel Rio della Plata (1841-1848), Firenze, 1972 e R. Ugolini, Garibaldi. Genesi di un mito, Roma: Edizioni dell’Ateneo, 1982, também A. Corneli, Giuseppe Garibaldi nell’Uruguay, Comitato pro casa di Garibaldi in Montevideo, Buenos Aires, 1951. Além disso, é de especial interesse o periódico anual Garibaldi, editado desde 1986 pela “Asociacion cultural Garibaldina” de Montevidéu, como tentativa, além de alguns trabalhos de cunho retórico, de traçar um balanço crítico da historiografia garibaldina.

3 “Correio Riograndense”, 7-14-21-28 de agosto e 4 de setembro de 2002, artigos de Moacyr Flores, Giuseppe Garibaldi. Herói de Dois Mundos.

4 “Zero Hora”, 11 de junho de 1982, encarte dedicado a Garibaldi, p. 10.

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Agora, é preferível remeter a outros trabalhos apresentados aqui – e à ampla bibliografia existente5 – as narrações das façanhas que envolveram Garibaldi no Brasil, em especial por sua participação na Revolução Farroupilha. É útil, porém, no final do presente trabalho, mencionar que, nas instâncias de independência em bases republicanas representadas pelas ações de Bento Gonçalves, inserem-se idéias mazzinianas devido à presença, naquela zona meridional do Brasil, de exilados como Livio Zambeccari, Luigi Rossetti e Francesco Anzani e, mais tarde, na segunda metade dos anos 1830, de Giuseppe Garibaldi. De fato, para tentar analisar o humus político e cultural de onde se origina o mito garibaldino na América Latina, não pode-se deixar de levar em consideração o ambiente rio-grandense, e sucessivamente o uruguaio, deixando, por enquanto, como pano de fundo, a Argentina.

Mas, antes mesmo de ver as marcas deixadas por Garibaldi no Rio Grande do Sul, é importante citar sua atividade no Rio de Janeiro e as possíveis motivações que alimentaram o seu mito desde o início, e para sempre. Antes de tudo, é necessário evidenciar que, quando Garibaldi atraca na costa brasileira, mais precisamente no Rio de Janeiro, no final de 1835, tenta logo unir-se ao mundo dos exilados do Risorgimento. O seu primeiro contato “político”, em especial, será com Giuseppe Stefano Grondona, lígure, no Rio de Janeiro desde 1815, apreciador do pensamento mazziniano e, de certa maneira, ligado com os círculos de Marselha, porto de onde Garibaldi embarcou para o Brasil. Garibaldi traz para Grondona, desejoso de receber as publicações mais recentes, as “Instruções gerais” da Giovine Europa e o último fascículo da Giovine Italia.

Parece que Grondona recebeu bem Garibaldi no Rio de Janeiro e que teria sido o meio para a iniciação maçônica do herói dos dois mundos em uma loja local, “Asil de la Vertud”, uma loja na realidade “irregular” e não reconhecida pelos Orientes europeus.6 Garibaldi, por sua vez, retribuirá o apreço de Grondona oferecendo-lhe a presidência da Giovine Italia do Rio, fundada em janeiro de 1836. Na realidade, a ligação entre os dois logo esfriou, enquanto que, com os outros dois exilados no Rio, estreitou uma relação que duraria por muito tempo. São eles: Luigi Rossetti, que chegou em 1827, e Giovan Battista Cuneo, que havia recém chegado ao Rio. Enquanto que o ativismo de Garibaldi era dirigido à coordenação do pequeno grupo de exilados italianos com o objetivo declarado de retornar em breve à pátria, Cuneo será mais incisivo na ação política com a fundação de uma revista, La Giovine Italia, para propagar as idéias de Mazzini entre os italianos no Brasil, a fim de predispor um núcleo de assistência à insurreição prevista na Itália.7

Essas breves considerações sobre a presença inicial de Garibaldi em terra brasileira, como motivo do presente trabalho e em relação ao nascimento do mito garibaldino, oferecem a possibilidade de compreender alguns aspectos peculiares. O mais interessante resulta na ligação maçônico-conspiradora que unia exilados italianos, como Garibaldi, Grondona e Zambeccari, a Bento Gonçalves, e que proporcionava um seguro elo de união com a classe dirigente do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Pouco se sabe dessa atividade maçônica movida pelo idealismo humanitário de caráter internacionalista e decididamente republicano, que poderia bem explicar a persistência e a valorização do mito garibaldino nas décadas sucessivas, além da retórica sobre a participação de Garibaldi na Revolução Farroupilha.

Observou-se que:

“A entrada (de Garibaldi) na Maçonaria, em outras palavras, preservou o patriotismo garibaldino do endurecimento estritamente nacional (diferentemente do que acontece com a maior parte dos protagonistas do Risorgimento, a começar por Mazzini, o termo ‘nação’ fica quase estranho à sua prosa, onde, em vez, retorna aquele de ‘povo’) ofereceu a ele uma imediata percepção, também de caráter prático, operacional, da universalidade dos objetivos que ele havia escolhido e estava perseguindo.”8

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5 Aqui, mesmo que em síntese e com uma escolha que se espera não seja muito limitante, indica-se, além do trabalho pioneiro na Itália de S. Candido, Giuseppe Garibaldi corsaro riograndense (1837-1838), Roma: 1964, e aquele no Brasil de L. Collor, Garibaldi e a Guerra dos Farrapos. Porto Alegre: Globo, 1958, ao recente estudo de N. Santoro de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento italiano: l’azione di Garibaldi nella Rivoluzione Farroupilha e sue implicazioni, in Aa.Vv:, Il Risorgimento Italiano in America Latina, Atti del convegno internazionale di Genova del 24-25-26 novembre 2005, affinità elettive. Ancona, 2006, p. 337-347, onde se faz uma análise sobre a influência e a ação dos exilados italianos na revolução rio-grandense de 1835. Além disso, para um estudo do ambiente rio-grandense, e de Porto Alegre em especial, onde viveu, desde as origens, a comunidade dos imigrantes italianos, veja-se N. Santoro de Constantino, O italiano da esquina. Imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST, 1991.

6 A propósito da afiliação maçônica de Garibaldi no Brasil não existem documentos oficiais. Resulta, ao invés, “regular” a sua iniciação, que aconteceu em 18 de agosto de 1844, na Loja “Amis de la Patrie” de Montevidéu, de referência ao Grande Oriente da França. Para uma documentação sobre o “percurso maçônico” de Garibaldi, ver V. Gnocchini, L’Italia dei Liberi Muratori. Brevi biografie di Massoni famosi. Roma-Milão: Mimemis-Erasmo Editore, 2005, p. 139.

7 A propósito, ver S. Candido, L’azione mazziniana in Brasile ed il giornale “La Giovine Italia” di Rio de Janeiro (1836) attraverso documenti inediti o poco noti, em “Bollettino Domus”, 1968, n.2.

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Deveria ser esclarecida a fundo – e não é possível neste momento – a relação entre o idealismo republicano dos “italianos” e o “republicanismo” dos “brasileiros do sul”, que assume um caráter essencialmente “emancipado” e também separatista em confronto ao establishment local, muito ligado à aristocracia do país, que se tornara independente de Portugal há pouco tempo.

Tal divagação permite ver, mesmo com alguma confusão teórica, como o retorno aos “dois republicanismos” poderia servir, naquele período, para consolidar ligações úteis, seja aos separatistas rio-grandenses, seja à comunidade dos exilados do Risorgimento italiano. Depois, será também útil encontrar as ligações ideológicas entre os diversos protagonistas da revolução rio-grandense e a posterior classe dirigente local e a comunidade italiana laico-republicana, como no caso do futuro presidente do Estado rio-grandense, Julio de Castilhos, ideólogo do Partido Republicano e seguidor de Auguste Comte. Tanto que, em um jornal italiano de Porto Alegre, é possível ler que:

“Talvez todo o pensamento de Julio de Castilhos se resume nesta breve fórmula: o pensamento de Giordano Bruno, inserido naquele outro político de Giuseppe Mazzini: permanecer na sua idéia republicana que deveria conduzir os seus compatriotas, não à redenção no céu, mas na terra.”9

Não é por acaso que o tema será sucessivamente retomado, no primeiro centenário da Revolução Farroupilha, em 1935. 10

Enfim, no que diz respeito à origem do mito garibaldino no Brasil e sua matriz de caráter popular, não pode ser ocultada a importância da relação com Anita, originária do Estado de Santa Catarina11, que serve em muitas ocasiões como ligação com a cultura popular local, para chegar, como se sabe, até os nossos dias. Em seguida, nos vários períodos, veremos quanto o uso político da companheira “brasileira” de Garibaldi pode ter sido, também, determinante, até por parte do regime de Mussolini.

É interessante observar, referindo-se ao Brasil meridional, como a presença de Garibaldi e suas famosas “façanhas”, por outro lado bem descritas em suas Memórias, nas várias biografias do herói e na vasta bibliografia que deixamos de citar, ecoam muito forte também nas décadas seguintes, e como a comunidade dos ítalo-brasileiros e a sociedade local não esqueceram o herói.12 Na década de 1870, no Rio Grande do Sul, a comunidade dos imigrantes italianos estava aumentando. Surgiram, então, diversas associações de caráter prevalentemente mutualista, em muitas cidades. Emblemático é o caso de Porto Alegre, onde, em 1877, foi fundada a “Vittorio Emanuele II”, e Garibaldi nomeado presidente honorário da sociedade, encontrando o agradecimento deste, que escreve uma carta aos “caros amigos” na qual recorda “com gratidão a hospitalidade recebida da generosa população do Rio Grande”. Observa-se que muitos sócios dessa associação eram veteranos da Revolução Farroupilha e também da Legião Italiana de Garibaldi no Uruguai.13

Conceder a Garibaldi a presidência de uma sociedade italiana será um gesto comum para muitas experiências análogas; aqui vale a pena registrar a observação de uma estudiosa rio-grandense, porque é inerente à questão da identidade da pátria:

A ‘Vittorio’ reforçou traços culturais italianos, através de símbolos, como o general Garibaldi, cujo nome já era glorificado na Itália. Torna-se a figura predileta, representado com o uniforme de general ou com o uniforme dos camisas vermelhas. O atelier fotográfico de Calegari, o mais importante de Porto Alegre, vende fotografias pintadas a óleo, multiplicando a imagem com a camisa vermelha. O quadro estará nas casas dos italianos, símbolo da patriótica italianidade, visto que finalmente têm uma pátria-mãe.”14

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8 Conforme A.A. Mola, L’internazionalismo massonico di Giuseppe Garibaldi, em G. Cingari (aos cuidados de), Garibaldi e il socialismo. Roma-Bari: Laterza, 1984, p. 148.

9 L’Italiano, 24 de novembro de 1903, número extraordinário dedicado a Julio de Castilhos na ocasião da sua morte, em 24 de outubro de 1903. Aqui, afirma-se que Julio de Castilhos conhecia a fundo o pensamento mazziniano.

10 “Correio do Povo”, 20 de setembro de 1935, Porto Alegre, encarte para celebrar o 1° centenário da Revolução Farroupilha, artigos intitulados Os italianos na Repubblica Farroupilha e Os italianos e a Repubblica de Piratiny.


11 Interessante, a propósito, é o discurso do deputado federal Octacilio Costa, representante do Estado de Santa Catarina na Câmara dos Deputados, proNúnciado em 4 de agosto de 1949, no Congresso Nacional, em ocasião do 1° centenário da morte de Anita, citado em Anita Garibaldi. Heroina de dois mundos, Rio de Janeiro, 1949.

12 É interessante notar como, no final do século, em um momento de recuperação do mito farroupilha, várias localidades rio-grandenses receberam o nome do herói da Revolução de 1835; entre essas a ex-colônia Conde d’Eu, que passou a se chamar Garibaldi, em 31 de outubro de 1900, ainda que lá houvesse poucos italianos garibaldinos. Sobre a história dessa comunidade, ver E. Clemente-M. Ungaretti, História de Garibaldi. 1870-1993. Porto Alegre: Edipucrs, 1993.

13 N. Santoro de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento italiano, cit.,
p. 122-123.

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É interessante ressaltar como a “transferência” de Garibaldi nos anos 1840, do sul do Brasil para o Uruguai, tenha comportado, de alguma maneira, também a sobreposição em terra uruguaia dos ideais e motivações de independência que tinham caracterizado a ação garibaldina, como se fosse um tipo de continuidade. Porém, enquanto no Rio Grande do Sul, como vimos, são poucas as vozes contrárias ao valor da figura de Garibaldi (exceto o reacender de uma forte polêmica entre laicos e católicos, no final do século, o que veremos mais tarde), no Uruguai, suas façanhas tendem a não ser universalmente reconhecidas como unificadoras da sociedade local.

Na sociedade de Montevidéu, e no Uruguai em geral, o mito de Garibaldi, seja em vida, ou mesmo após sua morte, torna-se prerrogativa quase que exclusivamente da parte colorada, permitindo, assim, à grande comunidade italiana imigrada vincular-se amplamente ao establishment político local com a afirmação de um ponto de vista laico-republicano da sociedade. Esse último aspecto, cada vez mais contestado pelos setores clérigo-conservadores, com reflexos significativos também na recente historiografia de inspiração católica e blanca, permite observar que:

“A identificação da filosofia liberalista (e das principais fontes inspiradoras do movimento anticlerical emergente) com a tradição garibaldina do partido colorado causou muitas confusões na opinião pública popular (e também naquela acadêmica). Entre essas, por exemplo, estão aquelas que identificaram as concessões sustentadas em matéria política pelo partido colorado com o ‘espírito de Garibaldi’, sem dar-se conta de que a sucessiva opção monárquica do derrotado de Mentana estava batendo de frente com o ‘igualitarismo’ republicano do qual se vangloriava o ´partido da defesa`.” 15

Para dizer a verdade, esta observação pode parecer esquemática e até distante, se não for enquadrada no contexto da dialética colorados/blancos que, não por acaso, encontra no Uruguai os seus reflexos também nas interpretações historiográficas. Sem dúvida, o ponto de origem do qual se alimenta a lenda de Garibaldi no país do Prata é pesquisado nos episódios da “Defesa de Montevidéu”, na luta dos unionistas para liberar a cidade do assédio imposto pelo “ditador” argentino Rosas e pelo blanco Oribe.

Mas, na realidade, não se deve esquecer que, nas décadas sucessivas, depois do retorno de Garibaldi à pátria, houve grande afluência de “garibaldinos” que desembarcaram no Prata, em Montevidéu, sobreviventes das lutas pela independência nacional italiana. Deve ser especialmente evidenciado o consistente fluxo de seguidores de Garibaldi que se registrou depois da derrota de Mentana (1867), com a chegada na capital uruguaia de mais de 1.700 camisas vermelhas, muitos dos quais com a própria família, consolidando assim uma ligação com os garibaldinos e com a maior parte dos italianos no Uruguai, que jamais enfraqueceu.

Essa imigração “especial” contribuiu, certamente, para revigorar, além de outros fatores, os ideais garibaldinos que sempre encontraram no Prata uma fácil articulação – sendo por sua vez influenciados – nas correntes de pensamento proto-socialistas e sansimonistas16 , e também liberais de referência maçônica.

Isso ocorre especialmente depois da metade de 1800, quando o liberalismo uruguaio tende a assumir um aspecto militante em relação ao clericalismo, desmanchando, assim, algumas ambigüidades de fundo da relação dialética entre racionalismo e liberalismo, originando, come se sabe, relevantes aspectos inovadores da legislação uruguaia que concretizam a hegemonia naquele período da cultura liberal sobre o conservadorismo clerical e também uma clara predominância do alinhamento laico-maçônico pratense que detém, talvez, uma parte da herança garibaldina.17

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14 Idem

15 C. Zubillaga, Religiosità, devozione popolare, cit., pág. 127.

16 Para este aspecto específico, conferir C. Zubillaga, El pensamento socialista en Uruguay. La reflexion precursora, in Aa: Vv., Ensayos en homenaje al doctor Arturo Ardao. Montevidéu: Universidad de la Repubblica, 1995, p. 203-234, e também L. Fabbri Cressatti, Garibaldi y el socialismo de su tempo, em Garibaldi, a.1, 1986, p. 74-85. Enquanto para o socialismo de Garibaldi, ver G. Cingari, Garibaldi e il socialismo, cit., e L. Briguglio, Garibaldi e il socialismo. Milão: SugarCo, 1982.

17 Para uma cronologia dos aspectos mais importantes das afirmações civis do liberalismo uruguaio, conferir P. Barron, Iglesia catolica y burguesion en el Uruguay de la modernizacion (1860-1900), Montevidéu, 1988, p. 5-6.

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“ [...] se a maçonaria uruguaia se converteu ao anti-clericalismo e se o anti-clericalismo foi um componente importante nas opções da classe política colorada, isto se deve também, e não de modo irrelevante, à luta de Garibaldi e do partido democrático contra o poder temporal em nome de Roma, capital da Itália unida.”18

Enfim, veremos alguns traços quanto à realidade argentina e às características que aqui assume o mito garibaldino enquanto o herói estava vivo. Na Argentina, e especialmente em Buenos Aires, assinala-se a presença consistente de exilados do Risorgimento, a partir das rebeliões de 1820-1821. Muitos marinheiros e mercadores estabeleceram-se no Porto do Prata e, seguramente, contribuíram para alimentar as idéias ressurgimentais entre os primeiros núcleos de imigrantes italianos e a própria sociedade portenha.

Além disso, esses personagens cuja história política é embebida de “carbonaria” e insurreição, chegavam, não por acaso, aos portos latino-americanos, considerando que isso era comum naquelas primeiras décadas de 1800, quando tomavam vida e forma as experiências iniciais republicanas revolucionárias que, freqüentemente, não se limitavam a operar nos restritos âmbitos de uma implantação passiva, mas interagiam com a já numerosa colônia italiana emigrada por motivos de trabalho na sociedade local 19, jogando as primeiras sementes de um ativismo político fervoroso que se desenvolverá mais tarde, próximo do final do século, baseado em correntes fortemente ideologizadas e caracterizadas por um republicanismo militante, socialista e também anárquico, como se verá depois.

Certamente, a realidade argentina não é aquela do Uruguai ou do Rio Grande do Sul, porque não pôde contar com a presença de Garibaldi, mas, apesar disso, a influência do pensamento de Mazzini é forte, essencialmente devido a Giovan Battista Cuneo, que exercerá “uma notável influência sobre os liberais latino-americanos da chamada Geração dos Banidos e da Geração Jovem Argentina (também conhecida como Asociación de Mayo e ponto de reunião, desde 1837, de um grupo onde eram membros Esteban Echeverria, Juan Battista Allberdi, Bartolomé Mitre e Miguel Irigoyen, ou seja, a nata da futura classe dirigente do Prata nos anos da grande enxurrada imigratória).”20

Cuneo exerce freqüentemente o papel de “protetor” intelectual das ações de Garibaldi em terras latino-americanas, e sua influência é amplamente comprovada, tanto que foi escrito que “a história das doutrinas de Mazzini em terra latino-americana foi em grande parte a história deste grande italiano no exterior.”21 E, quando também em terra argentina, as façanhas da Guerra Grande haviam terminado há tempo, e na segunda metade do século registram-se outras situações políticas e institucionais, o germe plantado muitos anos antes pelo denso trabalho de propaganda de Cuneo e dos outros mazzinianos – que, além disso, já nos anos 1870 eram bem organizados em Buenos Aires com um jornal chamado L´amico del Popolo, órgão do PRI na Argentina, já em 1879, e com um Centro Republicano Italiano22 – não tardará a propor a validade da figura de Garibaldi também aqui.

Não será por acaso – como veremos no próximo parágrafo – que, no momento da morte do “herói dos dois mundos”, em junho de 1882, nos países do Cone Sul, as celebrações e as honras fúnebres assumirão não somente características de ritual mas terão, também, um forte valor político.

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18 G. Marocco, Sull’altra sponda del Plata. Gli italiani in Uruguay, Milão: Franco Angeli, 1986, p. 24. A propósito, para o papel desenvolvido pelos maçons italianos no Prata, ver A.F. Cabrelli, Participación de los masones italianos en la trasformación de la sociedad oriental, em Garibaldi, a.4, 1989, p. 89-110.

19 A propósito, para uma atenta análise do fenômeno imigratório italiano na Argentina durante o período do ressurgimento italiano, ver o recentíssimo trabalho de F.J. Devoto, Storia degli italiani in Argentina, Roma: Donzelli Editore, 2007, em especial o cap. I, p. 7-83. Além disso, recorda-se para a compreensão do fenômeno desta primeira emigração política do ressurgimento e a sua “contribuição” de maneira mais geral aos fatos americanos, o determinante trabalho di E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo. L’emigrazione italiana in America. 1492.1942. Milão: Arnoldo Mondadori Editore, 1995, em especial o cap. III, “Emigrazione e Risorgimento”, p. 87-140.

20 E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo, cit., p. 121.

21 Idem

22A propósito, ver P.R. Fanesi, Verso l’altra Italia. Albano Corneli e l’esilio antifascista in Argentina. Milão: Franco Angeli, 1991, p. 58.

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A memória de Garibaldi do ano da sua morte à retórica dos aniversários “fin de siècle”

A notícia da morte de Garibaldi, ocorrida em 2 de junho de 1882, propagou-se imediatamente além-mar provocando um abalo nas comunidades de emigrados italianos, especialmente naqueles países onde o herói teve a oportunidade de deixar uma marca indestrutível com suas viagens e façanhas.

Em Buenos Aires, o anúncio da morte de Garibaldi foi dado por um jornal, em língua italiana, de inspiração republicana, La Patria Italiana, que, como em muitos artigos similares que apareceram naqueles dias nos jornais de quase todo o mundo, expressava uma profunda dor por seu desaparecimento23.

Após alguns dias, superada a fase do abalo, o mesmo jornal, além de reproduzir o grande eco do fato na imprensa argentina e os artigos de solidariedade por parte de outras numerosas associações, não somente italianas (por exemplo, o “Club Eslavo” de Buenos Aires), indica algumas iniciativas de celebração a serem desenvolvidas nos dias seguintes.

Primeiramente, a nomeação de um comitê para as honras ao herói, para o qual é indicada à presidência a figura de D. Parodi, com a participação, por direito, dos presidentes de todas as “sociedades italianas” de Buenos Aires, e “daqueles que justificassem terem feito parte da Cruzada dos Mil” (presente em Buenos Aires, Torre Torelli), depois a construção, na capital argentina, de um monumento a Garibaldi ao lado daquele de Mazzini, e, enfim, a realização das honras fúnebres com um simples ritual civil e com uma “procissão cívica”24.

De fato, o auge dessas iniciativas em Buenos Aires será o cortejo “garibaldino” cuja data é fixada para o dia 25 de junho. A manifestação é promovida e organizada pela associação “Voluntários Garibaldinos”, com o envolvimento de todas as sociedades italianas presentes na capital25. Os “garibaldinos” reúnem-se na “Stella di Roma” e “decidem formar um pelotão de 40 ex-voluntários com uniforme garibaldino, e que irão encabeçar a manifestação e serão a guarda de honra do troféu sob o arco da Recoba [onde foi montada uma espécie de câmara ardente].”26

O cortejo será acompanhado por grande parte dos italianos em Buenos Aires e os “garibaldinos” marcharão em ordem militar com as armas em punho fornecidas para a ocasião pelo exército argentino, seguidos por representantes da sociedade italiana portenha, representantes maçônicos locais27, e por simples imigrantes solidários com a figura do “seu” herói nacional, o que realçava o fato de pertencer à terra e à pátria longínqüa. Nesta ocasião, esquecem os motivos do “exílio” e também as divisões sociais, econômicas e ainda de classe deixadas na Itália.28

No que diz respeito ao Brasil, e em especial aos estados meridionais onde Garibaldi viveu e atuou, as fontes disponíveis atualmente não permitem encontrar a narrativa dos eventos verificados na ocasião de sua morte. Por outro lado, é provável que a mesma difusão na imprensa de língua italiana, ou seja, na comunidade que melhor podia assinalar o ocorrido, tenha sido posterior a 1882, especialmente no Rio Grande do Sul e em Caxias do Sul, sendo esta última um centro ativo sob este ponto de vista29.

Totalmente diferente é o registro do impacto da morte de Garibaldi na comunidade italiana e local do Uruguai. Em Montevidéu, quando, em junho de 1882, chega a notícia da morte de Garibaldi, a emoção é grande. A folha de inspiração mazziniana (em língua italiana) da capital do Prata, L´Italia (ou L‘Era Italiana), dirigida por Luis Desteffanis30 e por Joaquin Odicini, filho de Bartolomeo, o médico da Legião Italiana de Garibaldi 31, dá a notícia com poucas palavras:

“Dominados pelo mais profundo pesar, comunicamos aos nossos leitores uma dolorosa notícia que chegou esta manhã de Gênova. Ontem, 2 de junho, morreu em Caprera o General Giuseppe Garibaldi. O nosso estado de ânimo não nos permite adicionar nem mais uma palavra a esta terrível desgraça que afunda a Itália no luto. Até amanhã.”

Identifica-se o apelido “General” entre as palavras de comoção do órgão dos republicanos italianos de Montevidéu. De fato, a experiência militar de Garibaldi assume uma importância relevante na imprensa ítalo-uruguaia, e parece prevalecer – na verdade tanto antes da morte como em vida – na hereditariedade político-ideológica. Um Garibaldi “general e comandante que se também na Itália terá a sua glorificação neste sentido” 32, em terra pratense não faz somente parte do aspecto retórico do personagem, mas funciona como trait d´union com a tradição político-militar da elite do jovem Estado.

Nesta primeira fase do mito garibaldino post mortem, os italianos do Uruguai tendem a exaltar do “grande italiano” especialmente os seus dotes militares, e, fazendo isso, ligam idealmente o “seu” pai da pátria ao compromisso militar executado por ele no Prata. Da mesma forma, as autoridades políticas locais – encabeçadas pelo presidente Maximo Santos – rendem a Garibaldi “honras militares”, tanto que, em 5 de junho, acontece uma manifestação oficial em Montevidéu com um desfile de tropas uruguaias e de garibaldinos veteranos. O cortejo vai até a Real Representação da Itália, onde o conde de Brichanteau, então Regente, em uma cerimônia com a presença de todas as autoridades locais e da comunidade italiana, faz um discurso comemorativo. O próprio Santos encarrega-se de requisitar diretamente ao Senado e à Câmara dos Deputados que prestem a Garibaldi “as honras fúnebres correspondentes à mais alta insígnia hierárquica militar.”33

Nestes primeiros dias de junho, parece que toda a numerosa comunidade italiana de Montevidéu e a sociedade local se encontram, mesmo no pluralismo ideológico e cultural, unidos na dor pelo desaparecimento do herói dos dois mundos. Mas, na realidade, o fulcro das celebrações do herói girará em torno das iniciativas promovidas pela Maçonaria. E, no decorrer de uma dessas cerimônias, na loja de Garibaldi, onde tinha sido montada uma câmara ardente aberta ao público por ordem do “venerável em exercício” Bacciarini, ocorre um episódio doloroso que contribuirá para aumentar as divergências – que sempre existiram – entre os maçons e parte da comunidade religiosa local34.

Em 11 de junho de 1882, ocorrem, nas dependências da loja de Montevidéu, os funerais maçônicos em nome do herói dos dois mundos. No decorrer da cerimônia, porém, acontece um grave incêndio: no final contabilizam-se entre os participantes do rito 18 mortos, 10 feridos gravemente (entre os quais o próprio Venerável da loja, Salvatore Ingenieros), e cerca de outra centena de feridos com menor gravidade. O episódio já foi evidenciado por alguns estudiosos35, mas é interessante seguir o desenvolvimento – aspecto este inédito e não explorado – da grande polêmica posterior ao acontecimento considerado pelos maçons como criminoso e não casual.

A imprensa de Montevidéu36 logo deu a notícia do acontecimento, considerando-o um fato acidental, mas, nos dias seguintes ao incidente, torna-se objeto de uma discussão entre os católicos e os filiados das lojas do Grande Oriente, a partir do momento que L´Italia, na crônica dos funerais das vítimas, acusa abertamente os “negros” [Jesuítas] de terem provocado o incêndio.37 Naturalmente os católicos repudiam a acusação, e nas colunas de El Bien Publico de 15 de junho acusam L´Italia de fomentar possíveis represálias contra eles, com perigosas e não provadas insinuações.

Mas, se a polêmica na imprensa tende a enfraquecer-se logo, a mesma retoma vigor quando a Maçonaria autoriza (e provavelmente patrocina) a publicação de um pamphlet cujos conteúdos representam um j´accuse direcionado aos ambientes clericais mais radicais, embora, para dizer a verdade, nas conclusões – mesmo não deixando espaço à casualidade – sejam indicadas mais hipóteses: da possibilidade de um plano de furto premeditado, obra de “um fanático inimigo das doutrinas maçônicas” 38. O ambiente católico e a própria hierarquia não reagem publicamente a esse enésimo ataque contra eles, provavelmente com a intenção de acalmar os ânimos – o que acontecerá, tanto é verdade que, um ano depois, a própria Maçonaria uruguaia, recordando o episódio doloroso, não acena mais ao onipresente “complô jesuíta” contra eles.39

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32 Ver a respeito o volume que contém as atas da convenção promovida pelo Istituto studi e ricerca difesa a Chiavari em setembro de 1982, F. Mazzonis (aos cuidados de), Garibaldi condottiero. Storia, teoria, prassi. Milão: Franco Angeli, 1984.

33 L’Italia, 6 de junho de 1882, onde é reproduzido por extenso o decreto presidencial.

34 Na realidade, é necessário distinguir entre a comunidade religiosa entendida em lato sensu e as posições da Cúria e da elite católica, expressas na folha montevideana El Bien Publico. Provavelmente a maioria do “povo” católico não aceitava as posições intransigentes da Cúria. Mais tarde, quando em 1910 se forma o partido católico, a União Cívica, este obterá somente 535 votos, igual a 1,71% do total, e nas eleições de 1913 ainda menos, 482, igual a 0,88%. Esses dados contrastam com a vitalidade das paróquias e dos colégios religiosos, mas dizem muito a respeito do sentido de religiosidade da população local, substancialmente referida à esfera privada, tanto para os uruguaios como para os imigrantes, também italianos.

35 Conferir a respeito, em C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p. 71 e C. Zubillaga, Religiosità, devozione popolare, cit., p. 134.

36 El Ferrocarril, 12 de junho de 1882, edição extraordinária e L’Italia, 13 de junho de 1882, Orribile catastrofe.

37 L’Italia, 14 de junho de 1882, Note dolorose.

38 S. Maciel, La noche del 11 de junio detalles sobre el desastre en la Logia Garibaldi, Montevidéu, 1882.

39 Conferir Boletin Masonico, 5 de junho de 1883, vol. I, n. 17, p. 283-4.

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Observando os aniversários garibaldinos posteriores à sua morte, nota-se logo como, ao longo dos anos, a partir de 1883, ano seguinte ao desaparecimento do herói, inicia um percurso no qual a imagem de Giuseppe Garibaldi assume uma certa fisionomia simbólica com diversas iniciativas que relembram o doloroso acontecimento, já em forma de memórias. Por exemplo, em Porto Alegre é aberto o trecho inicial da rua Garibaldi40 e, no Uruguai, existem várias manifestações para recordar o herói, mesmo com as diferentes concepções entre blancos e colorados, assim como foi evidenciado41. De qualquer maneira, em geral, parece que o aniversário é comemorado com pouco entusiasmo, quase “desfocado”.

De fato, o impacto da hereditariedade cultural e política de Garibaldi, nos ambientes das comunidades italianas no Cone Sul, ocorre em 1892, no décimo aniversário de sua morte. Porém, analisando as numerosas celebrações, é possível constatar como o mito de Garibaldi muda também no seu ritual, em alguns casos observando um renovado fervor, em outros casos – a maior parte – marcando um verdadeiro enfraquecimento evocativo. Por exemplo, neste último aspecto vale a pena citar o caso emblemático de Montevidéu, onde foi mais profunda a marca deixada pela presença de Garibaldi: o primeiro fato que aparece aqui, de uma certa importância, é que o “Círculo Legionários e Garibaldinos”42, fundado de modo simbólico em Montevidéu, em 2 de junho de 1882, por 58 garibaldinos “combatentes”43, não parece capaz de assumir a frente das iniciativas garibaldinas devido a uma crise interna na sua direção.

Assim, incrivelmente, os “herdeiros diretos” de Garibaldi no Prata não conseguem – segundo documentos – celebrar o 10° aniversário da morte do herói dos dois mundos, e limitam-se a enviar uma mensagem ao arquiteto e “soldado garibaldino”, Giovanni Ferrari, referindo-se ao monumento erguido a Garibaldi, além de reunir-se no cemitério de Buceo para inaugurar um pequeno busto do herói, em mármore44.

Parece que o “espírito” de Garibaldi encontra dificuldades para pairar entre os camisas vermelhas de Montevidéu, entre aqueles que podem, mais do que todos, reivindicar a sua hereditariedade de combatente e comandante.

De qualquer maneira, apesar da falta de iniciativa do “Círculo Legionários e Garibaldinos”, em geral, seja em Montevidéu ou no país, não acontecerão celebrações de uma certa importância, com exceção da manifestação imponente organizada na ocasião de 20 de setembro e à qual se quer dar o caráter, como que para diminuir o vazio, de “homenaje de la masoneria uruguaya a José Garibaldi”, uma iniciativa em que participaram cerca de 15.000 pessoas, entre as quais alguns legionários da batalha de San Antonio45.

A figura de Garibaldi, evidentemente, cria alguma tensão dialética em um período em que, ao contrário, as relações entre a Igreja e o Estado, no Uruguai, mesmo não normalizadas, estão vivendo um período de trégua relativa, e as repercussões de um clima político alterado na Itália, em fase de pós-ressurgimento, com a manifestação de uma crise social e política aguda, induzem a própria comunidade italiana imigrada a não agravar o conflito interno.

Se, no final de 1800, as tensões entre laicos e católicos parecem perder força no Uruguai, é interessante notar que em outra área do Cone Sul, já colocada em evidência e com grande presença de imigrantes italianos de fé católica, como aquela de Caxias do Sul, registra-se uma violenta polêmica entre a parte laica da sociedade e a Igreja local.

A discussão não acontece sobre a interpretação da figura de Garibaldi, mas vale a pena repetir os termos do conflito porque dizem respeito aos temas ligados à identidade político-cultural da comunidade italiana imigrada.

Em 1897, em Caxias do Sul, inicia-se um trabalho de constituição das sociedades católicas por obra do vigário Pietro Nosadini. Em 14 de outubro do mesmo ano, acontece a primeira assembléia geral da Federação Católica caxiense com a participação de cerca de 800 pessoas46. A ação política de Nosadini e dos católicos locais é intensamente caracterizada por uma discriminação contra o componente laico da sociedade local, tanto que o próprio vigário sugere explicitamente aos católicos locais que não participem das comemorações pelo 20 de setembro porque “ali [na sede da sociedade mutualista não católica de Caxias] era exposta a bandeira social do Mútuo Socorro”47. Um comportamento, portanto, profundamente contrário às instâncias republicanas e democratizantes por parte da comunidade local. Com o mesmo propósito, é emblemática a crítica, retirada do jornal mensal católico de Caxias, na data de Primeiro de Maio, quando, durante a festa dos trabalhadores, presentes 150 operários, acontece um comício socialista48.

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40 N. Santoro de Constantino, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento italiano, cit., p. 124.

41 Conferir C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p.73-74.

42 Na sede dell’Associazione Nazionale Combattenti e Reduci Italiani (ANCRI) de Montevidéu são conservados materiais de arquivo, em parte disponíveis em microfilme na CEMLA de Buenos Aires.

43 O original do Estatuto e a lista com os nomes dos sócios encontram-se no Arquivo do ANCRI, Corrispondenza 1901-1905.

44 Os discursos para celebrar serão feitos pelo presidente do círculo, Antonio Bandino, e pelo representante da loja Garibaldi. Conferir Arquivo do ANCRI, Livro de Ata e processos verbais 1892-1909.

45 Conferir. A. Ardao, Razionalismo y Liberalismo en Uruguay, Publicaciones de la Universidad, Montevidéu, 1962, p. 262-3 e C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p. 75-6.

46 Il Colono Italiano, boletim católico mensal, n. 1, 1°de janeiro de 1898.

47 Ver O Caxiense de 6 de novembro de 1898.

48 Il Colono Italiano de 15 de maio de 1898.

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O comportamento intransigente do vigário apostólico e dos católicos caxienses parece de algum modo ser minoritário, ou, pelo menos, um elemento de grande distúrbio da harmonia da comunidade italiana local. Tanto é verdade que também sob pressão das autoridades locais o prelado é obrigado a deixar Caxias do Sul por Porto Alegre; mesmo assim, “abandonando” ob torto collo a cidade de Caxias, em fevereiro de 1899, Nosadini não deixará de evocar sua ação às diretivas de Leão XIII, sobre a constituição das associações católicas e do tipo de ação a ser desenvolvida entre os fiéis e os cidadãos49.

Continuando, então, a seguir os traços da evolução do mito de Garibaldi na área pratense, eis que, no final do século, encontra-se outra etapa significativa deste percurso, mesmo que aqui seja considerado apenas em seu caráter essencialmente comemorativo, isto é, o 50° aniversário da batalha de San Antonio del Salto, um evento que sempre assumiu, para os italianos no Prata, o caráter emblemático da contribuição trazida pela comunidade à construção do Uruguai moderno. Ao contrário daquilo que se poderia pensar, em fevereiro de 1896, observa-se como a imprensa de língua italiana não enfatiza de modo especial este aniversário. Provavelmente as razões disso sejam devido ao clima geral que se respira, isto é, o da guerra da África.

Realmente, a imprensa local é mais orientada a evidenciar a crônica das façanhas bélicas que determina um grande interesse entre os nossos conterrâneos, além de uma substancial unidade de opinião. Além disso, não parece secundária a avaliação de que talvez, para os republicanos e os garibaldinos locais (estes também favoráveis à intervenção italiana na África), certamente não era fácil explicar a ênfase dada aos valores implícitos no episódio garibaldino da batalha de San Antonio – de liberdade e independência – com aqueles de metas opostas, da empresa colonial e imperialista da Itália.

Eis, então, que aos cronistas da folha italiana de tradição republicana não resta, depois de ter resumido a crônica da épica batalha vencida por Garibaldi, outra alternativa que usar os tons retóricos habituais, além de tudo reforçados por um inédito e adoçado cultismo: “Espírito nobre e generoso tu [Garibaldi] e os teus companheiros de armas, mostraste em San Antonio del Salto que o antigo valor latino difundiu-se pelo sangue dos italianos de hoje e por vossa obra a Itália se fortificou.”50

Também este episódio confirma a situação de dificuldade em que, periodicamente, vem-se a encontrar a comunidade italiana em Montevidéu, ou parte desta, toda vez que os acontecimentos na pátria encontram reverberação no complexo processo de construção de uma identidade nacional fora da península. Ainda no que diz respeito à celebração da batalha de San Antonio e das façanhas militares do herói dos dois mundos e dos seus seguidores, deve-se recordar que esta serve também para consolidar, ano após ano, a ligação política ideal entre a tradição garibaldina e os olorados, uma estreita relação que encontrará, mais tarde, com a subida ao poder de José Batlle y Ordóñez, no início do novo século, o seu revigoramento ideal.

Em relação ao tema do desenvolvimento do mito garibaldino na outra margem pratense, na Argentina, nota-se que aqui não se vai além de uma retórica de fachada e, no fundo, procede-se a uma série de operações de caráter nominalista; por exemplo, a nomeação de Giuseppe Garibaldi para presidente honorário de numerosas associações mutualistas ou de instituições do país, como no caso de Rosário, onde, em 1893, a colônia italiana dotou-se de um “seu” hospital que será dedicado ao herói dos dois mundos51.

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48 Il Colono Italiano de 15 de maio de 1898.

49 A carta de Nosadini aos cidadãos de Caxias é publicada sob forma de panfleto. Cópia no Arquivo Histórico Municipal de Caxias do Sul.

50 L’Italia al Plata, 8 de fevereiro de 1896, Il Giubileo di Sant’Antonio.

51 Conferir. E. Franzina, Gli italiani al nuovo mondo, cit., p. 365.

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Novos e velhos significados do mito no início de 1900

Com a chegada do novo século, e sem nenhum aniversário especial de Garibaldi a ser celebrado, os garibaldinos e seus adeptos empenham-se em terminar alguns projetos iniciados nos anos precedentes, essencialmente ligados à consolidação “visual” da memória de Garibaldi, através da construção de monumentos, inaugurações de ruas e praças em vários centros, com uma data altamente simbólica à frente: 4 de julho de 1907, primeiro centenário do nascimento de Giuseppe Garibaldi.

A história da construção de monumentos dedicados à figura de Garibaldi (e também de Anita) mereceria uma reconstrução mais minuciosa, mas, nesta ocasião, interessa antes de tudo observar como essa “atividade” incide no tecido político e cultural das comunidades ítalo-americanas e nos ambientes locais. Por exemplo, em Montevidéu, os “camisas vermelhas” locais, espíritos (divindades) tutelares da imagem do herói dos dois mundos, comprometeram-se a convencer as autoridades locais sobre a necessidade de tornar “visível” a presença de Garibaldi na capital da República Oriental. E os seus esforços são premiados em 1900, quando é colocada a primeira pedra de um monumento nacional à memória de Garibaldi com um discurso inaugural de Pietro Gori52, incansável organizador do movimento anárquico entre os imigrados italianos nas duas margens do Prata, nos anos de virada de século.

Na realidade, a obra – projetada pelo escultor espanhol Augustin Querol, e financiada em parte com 10.000 pesos colocados à disposição pelo governo, já em 1883 – não verá nunca a luz por diversas circunstâncias. A causa principal deve ser pesquisada no prematuro desaparecimento do escultor, provavelmente, mas não menos determinante para o insucesso da iniciativa será a permanente oposição à realização do projeto por parte dos blancos, que continuavam a considerar Garibaldi um mercenário estrangeiro e, por isso, não merecedor de um monumento nacional: uma linha intransigente que leva, em 1906, ao episódio da clamorosa reprovação do monumento, no Parlamento, e à reabertura de uma áspera polêmica sobre a questão entre blancos e colorados53.

Também em Porto Alegre o projeto de erguer um monumento a Garibaldi encontra algumas dificuldades, tanto que, depois de ter iniciado em 1907 uma subscrição pública para a construção do monumento comemorativo ao centenário do nascimento (simultaneamente com a intitulação a Garibaldi da praça destinada a hospedar a obra de mármore), a obra definitiva virá à luz somente seis anos depois, mesmo que com grande participação por parte da colônia italiana54. O monumento apresenta uma particularidade interessante:

“Garibaldi não é apresentado com o uniforme habitual. Garibaldi agora é o revolucionário farroupilha, veste o poncho e comparece na companhia de Anita, a mulher guerreira.”55

Mais sorte teve a construção de um monumento a Garibaldi na capital federal. A primeira pedra é colocada em 1898, mas é preciso esperar alguns anos antes de ver a obra concluída. Além disso, a realização do monumento encontra resistências por parte de alguns setores políticos do parlamento argentino, que não consideram o herói protagonista e participante da história argentina e, conseqüentemente, indigno de ser recordado com uma obra daquele tamanho56. Finalmente, o monumento, uma estátua eqüestre do escultor C. Mascagnani é completado e, em 18 de junho de 1904, no bairro Palermo, em Buenos Aires, acontece a cerimônia de inauguração, na presença do presidente da República, Julio A. Roca57.

Depois deste breve excursus sobre a evolução do mito também através dos acontecimentos da iconografia, vale a pena concentrar a atenção nas celebrações pelo centenário de nascimento de Garibaldi, em 1907.

No Uruguai, em julho de 1907, ocorrem manifestações em honra do herói em todo o país; especialmente no dia 4, as ruas da capital encontram-se repletas de “garibaldinos” que dão vida a um imponente cortejo com mais de 40.000 participantes que atravessa toda a cidade. A manifestação conclui-se com uma comemoração oficial, no teatro Urquiza, na presença das principais autoridades do Estado, de representantes da comunidade italiana e dos maiores expoentes do socialismo local, entre os quais Emilio Frugoni, e também do anarquismo, como o poeta Angel Falco58. As celebrações acontecem em um clima especialmente favorável ao ambiente garibaldino, até porque, não esqueçamos, o batllismo favoreceu e exaltou sem reservas os aspectos ideais do garibaldinismo, tendo, além de tudo, o cuidado de valorizar as experiências da elite ítalo-uruguaia nos vários setores da sociedade.

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52 Conferir G. Marocco, Sull’altra sponda del Plata, cit., p. 77.

53 Do quanto é possível reconstruir a partir da documentação, os únicos monumentos a Garibaldi de um certo nível serão inaugurados em Montevidéu, em 1933, depois da posse de Gabriel Terra e não sem ásperos contrastes entre os colorados e os blancos (a propósito ver idem, p. 77-78, n.16) e em 1934, em Salta, pela iniciativa e pressão do cônsul fascista no Uruguai, Serafino Mazzolini, recém chegado do Brasil. Mazzolini teve que solicitar – e em alguns casos ameaçar – as comunidades italianas espalhadas pela república pratense a fim de dar sua contribuição material à realização do monumento a um “dos pais da pátria e primeiro artífice da irmandade ítalo-uruguaia”, como afirmou em mais de uma ocasião. Pelo assíduo comprometimento de Mazzolini, a propósito, ver a abundante correspondência endereçada aos representantes das várias comunidades conservada no Arquivo ANCRI, Correspondência Recebida 1928-1933.

54 N. Santoro de Constantino, O Italiano da Esquina, cit., p. 50.


55 ID, Protagonisti, idee, eroi e miti del Risorgimento italiano, cit., p. 124.

56 A propósito, ver os detalhes do debate exaltado ocorrido em julho-agosto de 1897 na Câmara dos Deputados, relatado, em partes, em J.B. Tonelli, Garibaldi y la masoneria argentina, cit., p. 56-58.

57 Para a crônica da cerimônia, ver idem, p. 60-61.

58 Para a crônica destes acontecimentos, ver L’Italia al Plata de 4 e 5 de julho de 1907.

59 C. Rama, Garibaldi y el Uruguay, cit., p. 125.

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Em termos mais ideológicos, observou-se que “El jacobinismo batllista con un sentido democratico de la vida politica, su anticlericalismo, su organizacion popular favorable a los nuevos apellidos, su populismo en una palabra, receuerda insistentemente al radicalismo garibaldino.”59 Além disso, neste julho dedicado à memória de Garibaldi, o próprio presidente da República, Cláudio Williman, sucedido em março, em Batlle, será fiel à longa e profunda ligação entre os colorados os garibaldinos participando pessoalmente às mais importantes manifestações organizadas pelo “Comitê Executivo” pelas comemorações do 1o centenário do nascimento de Garibaldi, com Paolo de Maria na presidência, e às quais aderem grande parte das sociedades mutualistas italianas, numerosos clubes colorados, liberais, socialistas e anarquistas do Uruguai60.

Obviamente a imprensa de inspiração laica de língua italiana e local dá uma grande ênfase aos eventos garibaldinos, enquanto que os jornais católicos da capital, a começar por El bien Publico, ignoram completamente o acontecimento61.

É interessante notar como, não muito longe de Montevidéu, no sul do Brasil, acontecem as celebrações do “centenário”. Além do episódio citado do monumento a Garibaldi em Porto Alegre, parece que a maior parte das iniciativas efetua-se no Rio de Janeiro. A comunidade ítalo-brasileira da metrópole carioca já em junho procura uma unidade de intenções quanto às celebrações garibaldinas. La Voce d´Italia, o semanal em língua italiana do Rio, “órgão da Colônia Italiana do Brasil” (de tendência liberal, anticlerical, não maçônico, mas também simpatizante da monarquia), dirigido por Giovanni Luglio, preocupa-se em reatar os fios de uma memória garibaldina que tenda a dar uma unidade unitária à comunidade italiana; já em 2 de junho de 1907, na ocasião do aniversário de morte do herói, apresenta um editorial intitulado “Per Garibaldi”, onde são enfatizados os valores que unem os italianos em terra brasileira e dá-se o anúncio de que a preparação das iniciativas é coordenada pelo cônsul, o Marquês L. Centurione.

Depois de pouco tempo é publicado um “manifesto patriótico” que o “Comitê do Rio de Janeiro para o Centenário” dirige aos “conterrâneos e aos indígenas”, que vale a pena transcrever por extenso:

“Cidadãos! A nação italiana comemora no dia 4 de julho o 1° centenário do nascimento de Garibaldi, que foi o fermento mais generoso da sua história, o fator mais heróico da sua unidade política e civil. Mas o espírito de Garibaldi deixou as fronteiras da pátria para unir todos os povos oprimidos atrás de uma bandeira, sol de reivindicação e de justiça, difundiu-se com os primeiros e maravilhosos impulsos do seu gênio e do seu altruísmo no continente americano e, especialmente na terra brasileira, onde encontrou a sua gêmea na incomparável Anita, uma filha do povo que não foi inferior a ele no heroísmo, na abnegação e no sacrifício.
E Garibaldi nesta terra não pode ser e não pode ser chamado de estrangeiro.
Nós o recordaremos e glorificaremos como apóstolo de irmandade humana e como símbolo de vínculos sacros que nos unem à nação brasileira; e estamos certos que naquele dia [4 de julho], unidos pela gratidão, pelo amor e pelo entusiasmo, italianos e brasileiros com o espírito consciente de destinos comuns, concorreremos à grandiosa apoteose que o mundo civil consagra ao Herói dos Dois Mundos.”62

E, de fato, em 4 de julho de 1907, acontece no Rio de Janeiro uma bela manifestação da comunidade italiana, da qual também participarão as autoridades brasileiras; inicia entre os dias 3 e 4 com fogos de artifício e, pela manhã, depois de uma reunião nos salões da “Sociedade Italiana de Beneficência”, entre associações, representações63 e bandas musicais, um cortejo, encabeçado por cinco sobreviventes garibaldinos, avança pelas ruas do Rio até o teatro São Pedro, onde se realizam os comícios comemorativos oficiais.

Em outros centros desenvolvem-se também iniciativas para celebrar o centenário do nascimento, como em Juiz de Fora e em Bragança, além de São Paulo, onde é inaugurada uma lápide comemorativa com a epígrafe escrita por Guglielmo Ferrero.

Enfim, parece que, no Brasil, ao menos na parte meridional do país, onde viveu e atuou Garibaldi, o primeiro centenário do nascimento do herói dos dois mundos celebrou-se com um discreto sucesso, a ponto de consolidar

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62 La Voce d’Italia de 14 de junho de 1907.

63 As associações que aderem são: a Società Italiana di Beneficenza e Mutuo Soccorso, a Fuscaldese Umberto I, a Fratellanza Massonica, o Centro d’Istruzione Principe di Piemonte, a Internazionale di Beneficenza Umberto I, o Circolo Operaio Italiano, a Lega Operaia Italiana. Também aderem os jornais italianos do Rio de Janeiro La Voced’Italia e Il Bersagliere. Ver La Voce d’Italia de 4 de julho 1907.

Rio de Janeiro, a porta de entrada de Garibaldi para a América Latina

Maria Pace Chiavari*
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Graduada em Arquitetura pela Universidade de Florença (Itália), pesquisadora da história dos italianos no Brasil do Século XIX, trabalha no Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro

Ao desembarcar no Brasil, em 1835, Garibaldi encontrou no Rio de Janeiro um espaço geográfico e um meio político-cultural favoráveis ao cumprimento das atividades que tinha se proposto realizar com a vinda ao país. A tentativa de reconstituir a breve estada carioca do jovem mazziniano visa a mostrar como o Rio de Janeiro aparece aos olhos do recém-chegado e como o seu progressivo entrosamento na vida local é capaz de revelar sua personalidade, despojada de qualquer mito.

 A falta de interesse, tanto por parte da historiografia italiana quanto da brasileira, sobre a etapa carioca de Garibaldi deve-se, talvez, à pouca consideração atribuída pelo próprio Garibaldi a este período, ao escrever, muito anos depois, as suas memórias1. Frente aos grandes sucessos e reconhecimentos pessoais obtidos nas lutas de libertação da Itália, no momento de transmitir às futuras gerações a história de sua vida, o herói dos dois mundos preferiu fortalecer sua personagem, apagando momentos de sua formação humana e política pelos quais era devedor ao grande mestre e concidadão Giuseppe Mazzini.

A viagem de Garibaldi ao Brasil – após a condenação à morte por seu envolvimento na conspiração de 1834, em Gênova – é freqüentemente apresentada como uma fuga, resultado de uma aventura pessoal. Entretanto, depreende-se da releitura das cartas escritas pelo próprio Garibaldi neste período, bem como das informações constantes nos jornais e nos relatórios dos representantes dos Estados Italianos no Brasil, ter sido Mazzini o organizador da vinda de Garibaldi ao Rio.

De fato, após várias tentativas frustradas de organização das lutas de independência italiana, o grande teórico de uma Itália livre e republicana decidiu priorizar o projeto europeu, universalista e messiânico por ele concebido. Um projeto aberto a toda a humanidade, no qual à Itália era reservada uma missão entre os povos. A primeira providência de Mazzini foi ativar, no estrangeiro, associações que perseguissem os ideais de liberdade e fraternidade da Giovine Italia, por ele fundada em 1834. Após a Congrega central, em Paris, seguiram-se outras, em países com relativa concentração de italianos, como foi o caso, entre outros, da Bélgica, Espanha, Turquia e, além mar, Estados Unidos, Cuba, Venezuela, Equador, Argentina, Uruguai e Brasil.

Formou-se, desse modo, uma densa rede internacional de correspondentes e viajantes que levavam, de um lado ao outro do oceano, bandeiras e cartas com as palavras de Mazzini. Além de divulgar os novos princípios e os ideais patrióticos, esta rede tinha por objetivo obter apoio financeiro dos afiliados ou simpatizantes mais abastados e formar uma reserva de militantes dispostos, no momento certo, a voltar para a Itália e libertar o país do domínio estrangeiro.

No âmbito desta missão, Mazzini decidiu confiar um importante papel a Garibaldi, pelo entusiasmo e espírito de liderança revelados durante as revoltas de Gênova, assim como na sua iniciação aos princípios da Giovine Europa.2 Os posteriores desentendimentos entre os dois principais personagens-símbolo da unidade e independência da Itália – motivados pela aproximação de Garibaldi à monarquia sabauda, atitude interpretada por Mazzini como uma traição a ele e aos princípios republicanos – ofuscarão o intenso relacionamento deste primeiro período.

A escolha da outrora capital do Brasil como meta do jovem lígure, justifica-se por sua localização estratégica na rota dos navios da marinha mercante do Reino de Piemonte e Sardenha para Montevidéu e Buenos Aires. Outro fator que deve ter influenciado a preferência pelo Brasil foi a efervescência da situação política no período de Regência (1831-1840), definida por alguns historiadores3 como uma inusitada “experiência republicana” no interior do Império, devido à menoridade de D. Pedro II. E não se pode minimizar o interesse econômico, uma vez que, neste período, as novas riquezas produzidas pela expansão cafeeira na região movimentavam o porto do Rio de Janeiro e as atividades comerciais a ele relacionadas.

Entre o Rio de Janeiro e Gênova – e, por extensão, toda a região da Ligúria – havia uma antiga ligação marítima que se estreitou ainda mais após o Tratado de Viena (1815), quando Gênova se tornou o porto do Reino de Piemonte e Sardenha, e os navios lígures passaram a constituir a Marinha Sabauda. Na comunidade italiana então existente no Rio, a presença lígure era preponderante, construída através uma rede de relações pessoais, ligações familiares e de trabalho ou simples afinidades de ideais.

Liberais e carbonaros procedentes de outros estados da Itália, após os movimentos de 1821, 1831 e 1834, integravam-se igualmente. Tal conformação política e social tornava tênue a distinção entre patrícios, marinheiros, exilados ou emigrantes, assim como a diferença entre os provenientes dos diversos estados nos quais a península italiana estava então dividida. A importante trajetória desta colônia carioca – que vivia a unidade e a independência da Itália quase trinta anos antes de sua unificação oficial – ainda é pouco conhecida, mas faz parte da história do Risorgimento italiano.

A imprensa representava para os patrícios italianos um elo de ligação com a terra distante. Jornais cariocas às vezes reportavam notícias sobre a situação política da península italiana e alguns, relatando as lutas de um povo submetido, no próprio país, aos poderes de invasores estrangeiros, defendiam os ideais de liberdade, dos quais Garibaldi se tornou o símbolo. No início de cada novo ano, o Jornal do Commercio – diário carioca de grande difusão, em particular no meio marítimo e comercial, por informar sobre os movimentos diário dos navios, assim como sobre a entrada e saída das mercadorias destinadas a importação e exportação - relacionava os principais eventos ocorridos no país e no mundo durante o ano anterior. Em 2 de janeiro de 1835, na rubrica dedicada às notícias do exterior, estavam retratados os movimentos italianos de 1834:

“À par da Áustria forçoso lembrar a Itália, onde as baionetas dos soldados húngaros prestes a ferir toda a vez que as encantadoras recordações da Republica Romana... fação ardir de novo nos briosos peitos dos seus descendentes o desejo de recuperarem huma porção da antiga independência. Agrilhoar a imprensa, lançar em humildes masmorras os escriptores mais ousados, escravizar os patrióticos filhos da Jovem Itália eis a tarefa dos executores subalternos das vontades austríacas.”

No mesmo número, comentavam-se as insurreições dos polacos no Reino Sabaudo:

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2 Mazzini, referindo-se à conspiração de Gênova e a fuga de Garibaldi para se salvar , numa nota escreve “Daquele dia eu o conheci. Seu nome de luta era Borel” em Scritti di Giuseppe Mazzini. Ed Daelliana vol.III Politica p.334.

3 BASILE DE CAMPOS, MACEDO OTÁVIO NERI, O Império em construção; Projetos de Brasil e Ação política na Corte regencial, doutorado IFCS Instituto de Filosofia e Ciências Sociais - UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2004, p.15.

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“Na Itália ainda o espírito de liberdade não pode respirar. O despotismo Austríaco e Sardo continua a oprimir com mão de ferro aquele povo digno de melhor sorte.”4

É interessante sublinhar a peculiar atitude de abertura do Brasil, neste momento histórico, em relação à liberdade dos povos oprimidos. Paul Frischauer, em Garibaldi herói de dois mundos5, observa que, neste período muito turbulento da Regência, a monarquia mantinha-se, graças a um “liberalismo incompreensível para todo europeu reacionário”. A liberdade de imprensa favorecia o aparecimento de novos jornais que exprimiam às claras a opinião pública. De fato, tal “liberdade” era um meio para “controlar e dobrar as arestas dos opositores”6, aos quais era oferecido o direito a se exprimir. A impermeabilidade de tais notícias e pensamentos à maioria da população devia-se ao alto nível de analfabetismo.

No que se refere aos problemas internos do país, o mesmo Jornal do Commercio, no dia 5 de janeiro de 1835, limitando-se a um breve comentário crítico no final, publica na íntegra um artigo tratando da Revolução Farroupilha, extraído do jornal Continentista, de Porto Alegre, periódico dos revolucionários que incitava o povo à rebelião:

“ (...) reuni-vos (...) aos beneméritos coronéis Bento Gonçalves, Bento Manoel Oliveira Ortiz e mais patriotas que vos conduzirão ao campo de honra, os quais devem desconfiar de quaisquer prometimentos da parte do traidor Gabinete do Rio de Janeiro.”


Mesmo no que se refere à cultura e diversões, no programa do Teatro Constitucional Fluminense daquele ano constam peças cujos assuntos vertem sobre temas liberais, como Independência dos Estados Unidos e Heroísmo das mulheres.7

No dia 12 de outubro de 1835, o padre Diogo Antônio Feijó, criador do novo partido dos Progressistas, assume a Regência e estende seu mandato até 19 de setembro de 1837, cobrindo, curiosamente, o período da permanência de Garibaldi no Rio de Janeiro.

Na seção do Jornal do Commercio do dia 23 de novembro de 1835, registro da chegada ao porto do brigue francês Nautonier, de 205 toneladas, comandado pelo mestre P. Beauregard, conforme relatos do próprio Garibaldi em suas Memórias8 O jornal não menciona a lista de passageiros. É possível que Garibaldi tenha entrado no país com falsa identidade, tendo sido a sua condenação à morte publicada nos jornais franceses.9

Entretanto, a chegada de Garibaldi ao Rio era esperada. Mazzini, de fato, tinha comunicado com antecedência por cartas aos seus partidários10 aNúnciando o embarque de Borel no navio Nautonier, devendo os mesmos recebê-lo e tomar eventuais providências cabíveis. O codinome Borel11, assumido por Garibaldi como era a norma no momento da iniciação na associação mazziniana, foi sempre utilizado por ele no epistolário brasileiro.12

No Rio, em 25 de janeiro de 1836, Garibaldi escreveu para Luigi Canessa13, afiliado da Giovine Italia em Marselha, contando-lhe que, graças às cartas de apresentação dirigidas aos companheiros cariocas que ele tinha lhe confiado na França antes de sua viagem, desde sua chegada nesta cidade sentiu-se como se estivesse morando aqui há muitos anos.

Uma viva descrição das primeiras impressões do Novo Mundo – bem como das decepções diante das dificuldades encontradas para realizar as tarefas das quais estava encarregado – está na carta escrita no Rio de Janeiro, datada de 27 de janeiro de 183614, e dirigida a Mazzini, dois meses após sua chegada.

Conforme instruções recebidas, Garibaldi encontrou-se com Giuseppe Stefano Grondona, que pertencia à leva dos mais antigos residentes no Rio de Janeiro. Tendo chegado em 1815, Grondona foi expulso em 1823 por suas idéias revolucionárias, mas retornou em 1834, beneficiando-se do clima mais liberal da Regência. Inspirado na Giovine Itália, Grondona fundou no Rio de Janeiro a Società Filantropica Italiana. Tal histórico justificava o fato de Mazzini tê-lo escolhido como seu referente direto no Rio. Garibaldi devia, portanto, entregar-lhe todo o material “político” trazido da França, mais alguns “bônus”, talvez financeiros, para a constituição da iovine Itália, fração da Universal Giovine Europa.15

A Grondona competiria o título de presidente da nova associação. As eleições para presidente organizadas por Garibaldi junto aos outros “irmãos” – era esta a forma convencional com a qual se tratavam entre si os afiliados à Giovine Italia, e que fazia parte da tradição das sociedades secretas, como a Maçonaria – confirmaram o previsível resultado. Mas, o comportamento do presidente recém-empossado surpreendeu a todos pela sucessiva publicação de insultos e maldades sobre seus eleitores. E ainda mais grave foi Grondona ter dado prova do total esquecimento do juramento de irmandade vitalícia proNúnciado no momento de sua eleição.16

Para Garibaldi, que tinha se jogado de corpo e alma nessa atuação política, por vezes difícil devido à sua índole de homem prático e pouco apto a formulas doutrinárias, foi um golpe inesperado. Na carta que escreveu a Mazzini, responsabilizou pela frustrada iniciativa o “gênio quase infernal” de Grondona, dono do “mais inconciliável e mexeriqueiro caráter que podia existir neste mundo”, sem aduzir qualquer outro comentário, talvez para não magoar ainda mais seu mestre. O caráter provocador de Grondona aparece já em 183417, quando na redação de uma petição oficial para obter a licença para fabricar sorvetes, utiliza como máxima “ao gosto sensual dos gelatos”. A petição foi considerada pelas autoridades brasileiras “imoral e anticonstitucional”, tendo sido, portanto, indeferida.

Garibaldi, então, dedicou-se a ampliar aquela que ele definiu na carta a Mazzini como a “imortal Giovine Europa”. Neste caminho, descobriu novos companheiros e, neles, uma grande virtude, “a dignidade”, compensadora da frustração que lhe causou a primeira tentativa. Na sua vivência quotidiana na cidade, conforme descrito na carta, percebeu que “neste país os italianos não são muito amados, mas não são considerados covardes”. O que incomodava, nesta época, os brasileiros era que os italianos, à diferença de outros emigrados, portugueses ou árabes, não possuíam um clichê determinado, eles eram, no que se refere ao trabalho, multiformes18 e, portanto, ambíguos. Tal característica pode ser verificada no próprio Garibaldi, marinheiro, comerciante, político e revolucionário, bem como em seus companheiros de luta, para os quais a atividade profissional era apenas uma maneira de sobreviver: a importância estava na personagem em si, não na profissão.

Aos poucos, amplia-se o círculo de afiliados e, sobretudo, de amigos de Garibaldi. O Rio era, na época, uma cidade relativamente pequena, e os novos companheiros moravam e trabalhavam nas imediações do porto, fulcro de todas as atividades. Suas residências costumavam abrir-se para acolher os refugiados italianos recém chegados. Na Rua Fresca no 7 morava, num sobrado, Luigi Delle Case (ou Delecasi)19, capitão e armador, também originário de Gênova, de onde fugiu após os movimentos de 1834. É possível que Garibaldi e o estudante Rossetti, num primeiro momento, tenham se hospedados na casa dele.20

Uma sobrinha da senhora Delle Case, talvez Anita de Lima Barreto que, segundo relatado pelo Cenni21, acompanhou o casal de tios em suas viagens pelo mundo e aprendeu onze idiomas, graças ao ensino do “extravagante” Delle Case, contou ao biógrafo Virgilio Várzea, apreciado cronista do jornal O País, ter encontrado Garibaldi na casa dos tios. Assim ela o descreveu: “Era um rapaz louro e forte que se distinguia dos compatriotas por uma expressão de viva inteligência e fisionomia pensativa”.22

Outro genovês que chegou ao Rio alguns meses antes de Garibaldi foi Luigi Rossetti, discípulo de Mazzini, cuja casa na Rua do Carmo se tornou um novo centro de hospedagem. A vivacidade e a emoção expressas nas memórias pelo autor23 ao falar de Rossetti demonstram a importância que Garibaldi atribuía à amizade em geral, em especial àquela com Rossetti, nascida a partir do primeiro encontro no Largo do Paço. Ambos lígures, mas com expressiva diferença de temperamento e de formação: Rossetti culto e racional, com 26 anos, e Garibaldi aventureiro e explosivo, com 28; homem de letras o primeiro e de mar o segundo. Tal diversidade permitiu que, da complementaridade e do comum ideal, nascesse um forte entrosamento.

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24 Ibid. 13 p.8.

25 Ibid. 2 p.16.

26 Ibid. 20 p.12

27 CURATOLO, Giacomo Emilio. Il dissidio tra Mazzini e Garibaldi Milão: Mondadori, 1928, p.44.

28 Jornal do Commercio, 5 de janeiro de 1836.

29 Ibid. 6 p.63.

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Além de Rossetti – que se tornou seu inseparável companheiro de viagem – na carta para Mazzini são apresentados como os mais próximos colaboradores de Garibaldi, Gian Battista Cuneo, Domenico Terrizzano e Giacomo Picasso. Cada um é citado pelo próprio nome seguido, entre parêntesis, pelo apelido de combate, assumido no momento de sua entrada na Giovine Itália.

Gian Battista Cuneo (“Farinata degli Uberti”), era genovês e da mesma geração de Garibaldi, tendo à época 27 anos. Ele havia se envolvido nos movimentos de 1833-34. Chegara ao Rio em janeiro de 1835 e foi trabalhar na casa de comercio de um seu primo. À mesma turma dos genoveses pertencia também Terrizzano, capitão de navio, e Giacomo Picasso que assumiu o papel do “irmão abastado patrocinador” e responsabilizou-se pela compra de um barco em favor da associação, com a finalidade de dar emprego a Garibaldi e a Rossetti. Os “irmãos” decidiram dar ao barco o nome de Mazzini. “Acreditamos que o primeiro cargueiro italiano não poderia ter recebido outro nome”24. A possibilidade de dispor de um barco, cuja capacidade de 20 toneladas permitia fazer cabotagem ao longo das costas da região próxima ao Rio de Janeiro, acendeu em Borel a vontade de retomar as atividades marítimas, idealizando o Mazzini como uma ponte para atravessar o oceano e voltar a lutar pela Itália.

Uma vez relatadas na carta a Mazzini, as tarefas desenvolvidas; tendo, ainda, comunicado a grande admiração pelo mestre, demonstrada por todos os seus fiéis patrícios encontrados nesta cidade, percebe-se a impaciência do homem de ação diante da vida urbana carioca, demasiadamente tranqüila. Nas memórias, Garibaldi se refere a estes primeiros meses como a um período “de vida ociosa”.25

Devido à sua índole impulsiva, Garibaldi se irritava diante da presença, no porto do Rio, de navios mercantes em que se evidenciavam brasões das monarquias dos Bourbon de Nápoles, dos Habsburgo, ou dos Savóia. A ostentação desses símbolos torna-se, para ele, uma forma de provocação das forças inimigas.

Com ingenuidade, mas ao mesmo tempo com insistência, Garibaldi passou a pedir a Mazzini que assinasse e lhe enviasse um salvo-conduto, ou seja, uma carta autorizando-o a combater as bandeiras sardas e austríacas, considerando que tal autorização seria o passo inicial para que fosse providenciado o armamento necessário. O endereço fornecido por Garibaldi no Rio de Janeiro para receber tal correspondência era a conhecida casa Zignago Irmãos, corretores da maior parte dos navios do Reino de Piemonte e Sardenha, com funções também de consignatários e, num primeiro momento, simpatizantes mazzinianos.

Não se sabe ao certo se Mazzini recebeu esta carta, nem se Garibaldi obteve uma resposta a tal pedido, mas, sem esperar qualquer autorização, ele mesmo decidiu içar no mastro do Mazzinia andeira da Giovine Italia. Foi uma satisfação tardia à frustração experimentada nos movimentos de Gênova, onde seu papel junto ao amigo Matru26 era o de colocar nos navios sabaudos o símbolo da iovine Itália, papel este que se tornou impossível diante do fracasso da revolta.

No número de janeiro de 1836, o jornal Paquete do Rio – que hoje nas Obras Raras da Biblioteca Nacional, infelizmente, só se encontra a partir do número de março de 1836 – relatava fatos sobre a presença de Gian Battista Cuneo e de Garibaldi no Rio de Janeiro27. Uma declaração contra o rei Carlo Alberto de Sabóia, do Reino de Piemonte e Sardenha, foi a forma escolhida por Garibaldi para comunicar aos outros exilados italianos a sua chegada no Rio. É, quem sabe, a única vez que, com o nome de Garibaldi ou mesmo com o pseudônimo Borel, ele aparece nos jornais cariocas, talvez pelo fato do italiano J. C. Muzzi trabalhar na redação deste jornal.28

Quase um mês depois de tal publicação, no dia 1o de fevereiro de 1836, como se refere Paul Frischhauer29, o encarregado de negócios da Sardenha escrevera dizendo que tinha lido nos jornais que um certo “Garibaldi, súdito de sua majestade de Savóia, assim como o genovês Cuneo, estavam no Rio de Janeiro”. O diplomata assegurava que “tais homens de aparência insignificantes eram perigosos se si pensasse que além de trabalharem na difusão de tendências republicanas na América do Sul ainda introduziam seus panfletos na Itália”.

A motivação grave que teria justificado redigir um relatório sobre “tais homens insignificantes” era, segundo o representante do rei da Sardenha, a de que “o comércio da Sardenha na América do Sul estava ameaçado”. A responsabilidade seria da ação provocatória do Mazzini, “um brigue que desfraldava a bandeira revolucionária da Jovem Itália e percorria impunemente os portos, afrontando os navios e insultando os marinheiros”.

Mesmo inimigos na península italiana, diante do perigo comum, os representantes da Áustria e do Reino do Piemonte se reuniram para encontrar uma estratégia de defesa. A primeira proposta foi a de apresentar um pedido de intervenção ao governo local. Mas desistiram logo dessa estratégia pelo pavor que tal comunicação fosse remetida aos jornais locais, prontos a ridicularizá-los perante a opinião pública em razão da verdadeira dimensão das forças adversárias, constituídas por um brigue de 20 toneladas. Uma possível alternativa considerada pelos representantes dos dois governos para se livrarem dos “homens perigosos” foi a de lançar mão de “uma pequena liberdade que pode ser tomada na América”, encarregando alguns capitães que estariam dispostos a “acabar com isto”.30

Em pouco tempo, a idéia de Garibaldi – de utilizar a própria embarcação para divulgar seu pensamento, como fez com o Mazzini – foi adotada por seus companheiros. Delle Case nomeou seu brigue La Giovine Itália. Domenico Terrazzano, ao mudar o nome do seu barco de Grão Sultão para La Giovane Europa, soube que circularam calúnias sobre o suposto mau estado do casco da embarcação. Para se defender destas ignominiosas  acusações, publicou no jornal Paquete do Rio, de 11 de maio de 1836, uma firme resposta, colocando os mestres calafates à disposição para os mal-intencionados verificarem seu engano.

A conformação do território fluminense praticamente impedia a penetração no interior. Portanto, era difícil a comunicação pelas vias de terra. No âmbito de um sistema de agricultura de subsistência, o transporte de grande parte dos gêneros alimentícios tanto para o uso interno quanto para a exportação era realizado através de uma estrutura de navegação de cabotagem que conectava o porto do Rio de Janeiro aos portos de Campos, Cabo Frio, Mangaratiba, Angra dos Reis e Taguany.

A carta de Garibaldi a Gian Battista Cuneo, proveniente de Cabo Frio, escrita em 17 de outubro de 183631, permite penetrar na nova vida do marinheiro a bordo do Mazzini, engajado no comércio de cabotagem. Diferentemente do estilo erudito das memórias, ou daquele mais rebuscado da carta a Mazzini, a linguagem utilizada para se dirigir ao companheiro é muito simples, coloquial e direta. Garibaldi se confessa enternecido pela imaginação romântica suscitada pela beleza da filha do calafate, a quem, no entanto, deve esquecer porque, infelizmente, não é hora para pensar nisto. Tal imagem sentimental é de fato uma metáfora utilizada por Garibaldi para esconder seu grande sonho, mais forte e obsessivo neste momento que qualquer amor humano.

Na realidade, a filha do calafate, cuja beleza o apaixonou, subentende aquela nave, da qual ele fantasia se tornar o comandante, para poder lutar, junto com seus companheiros, em defesa de um ideal. Mas, ele mesmo comenta na carta, precisa esperar ainda muito tempo para que este sonho se realize. A preocupação do momento é o “Dinheiro! Dinheiro!”. Garibaldi, em lugar de utilizar a forma italiana, compartilha com Cuneo a expressão do idioma genovês “Dinè! Dinè!”.

Aparentemente pressionado pelas necessidades mais urgentes, Garibaldi quase esquece as preocupações políticas. No final da carta trata de assuntos comerciais, perguntando sobre o preço do milho na praça do Rio de Janeiro, e prevê sua volta ao Rio para o dia 15 do mesmo mês. Mas o jornal Paquete do Rio registra a entrada do Mazzini no porto no dia 27 de outubro, trazendo uma carga de milho e feijão, e o passageiro italiano Luiz Ruchet, deformação do nome de Luigi Rossetti, seu fiel companheiro.

No Jornal do Commercio do dia 7 de novembro de 1836, encontra-se registrada, na coluna Entrada dia 6, a chegada ao porto do patacho de guerra brasileiro Vênus. E consta da lista dos presos os mais importantes personagens da Revolução Farroupilha para serem remetidos para a corte. Estavam, entre outros, Bento Gonçalves, cadete Onofre, Marques Pereira Lima e o italiano Lívio Zambicari, deformação de Zambeccari, até então, secretário do presidente Bento Gonçalves. Zambeccari e Bento Gonçalves foram recolhidos à fortaleza de Santa Cruz.

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30 Ibid. 6. p.65.

31 Ibid. 13 p.10-11.


32 Ibid. 13 p.11-12.


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Em 27 de dezembro de 183632, uma nova carta de Garibaldi – sempre proveniente de Cabo Frio e dirigida a Cuneo – comunica que Rossetti viajou sozinho para o Rio, mas declara não poder explicar por carta a motivação deste fato. Tal reticência poderia ser interpretada como intenção de não divulgar o plano de Rossetti, que talvez fosse o de encontrar-se com Zambeccari. A falta do companheiro Rossetti reforça ainda mais o sentimento de isolamento, solidão, afastamento dos amigos, do próprio país e de sua verdadeira vocação. Garibaldi confessa, assim, ao amigo, a infelicidade da vida que está levando, tão inútil em relação aos projetos relacionados à “nossa terra”. E pede que Cuneo se comunique com Folco/Mazzini33, do qual espera o sinal para começar a se movimentar.

O Mazzini volta ao Rio no dia 21 de janeiro de 1837, como confirma o Jornal do Commercio, e parte novamente no dia 25 de fevereiro em direção a Campos. No período em que permaneceu no Rio, Garibaldi escreveu uma carta para Cuneo34, que, no entanto, tinha se transferido para Montevidéu. Não tinha novidades no campo da ação, que era o que mais lhe interessava. Em compensação, as condições financeiras estavam melhorando graças a experiências adquiridas neste tempo e à mudança para Campos, com algumas estadas em Santa Cruz. A região de Campos mantinha com o Rio, à época, uma grande atividade comercial, como demonstrado pelo intenso fluxo de barcos e de mercadoria registrado na coluna Movimento do Porto dos diferentes jornais cariocas. A carta termina com um desabafo de Garibaldi, que declara não estar gostando nada deste período, nunca gostou, e termina reforçando com um “ainda mais agora”, deixando intuir que algo está se movimentando.

É provável que já tivesse ocorrido o encontro, que Rossetti conseguira marcar, de Garibaldi com Zambeccari na fortaleza de Santa Cruz, onde se iniciou o planejamento de uma intervenção de ajuda à revolução Farroupilha por meio de um navio corsário, capaz de levar mantimentos e apoio, servindo de conexão marítima nas lutas contra os imperiais. Garibaldi pediu a Zambeccari a concessão de uma carta oficial assinada pelas autoridades da nova República Rio-grandense para poder sair do porto do Rio como corsário. O mesmo que Garibaldi havia pedido a Mazzini, para assaltar os navios austríacos, sardos e napolitanos no porto do Rio.

A volta de Garibaldi de Campos para o Rio ocorre no dia 2 de abril de 1837 e corresponde à última viagem de cabotagem do Mazzini, na qual figuram como passageiros os italianos Luiz Rossetto e José C., cujo nome encontra-se ilegível no exemplar do Jornal do Commercio.

A partir de então, iniciou-se a fase de preparação para a grande aventura. Desde sua chegada ao Rio, Garibaldi procurou entender de que forma poderia realizar no Brasil o que não conseguira na própria Itália. Após o encontro com Zambeccari, ficou claro que sua missão era a de juntar-se à recém-criada República Rio-grandense na luta pela liberdade e independência contra o Império. O seu papel era o de comandante de navio e, neste caso, de um navio corsário, algo que ele sabia fazer bem. Entretanto, o objetivo principal era equipar o Mazzini, transformando-o em uma embarcação de combate, sem aparentemente nada mudar, para que ele pudesse sair do porto do Rio com o mesmo aspecto de lancha de cabotagem com que havia entrado. Rossetti assume a organização e pede a todos os amigos, irmãos e simpatizantes que colaborem para a organização da viagem.

A tensão de Garibaldi pode ser percebida pela leitura da última carta escrita no Rio, datada de 22 de abril de 1837, a Cuneo,35 o qual já estava no Uruguai. Ele se desculpava com o amigo por não poder ir encontrá-lo em Montevidéu, o que era impossível por uma motivação “prepotente” da qual não podia falar e qualquer explicação seria perigosa. Mas, em seguida Garibaldi esclarecia: “Estou me preparando para uma nova existência que obedece aos nossos princípios, sempre!”.

O entusiasmo pelos próximos eventos, dos quais Garibaldi deveria ser protagonista, se misturava às impressões trazidas pelas notícias sobre os movimentos na Itália e sobre Giuseppe Mazzini que ele acabava de ler nos jornais franceses, encontrados no Rio devido, talvez, a chegada no porto de um navio proveniente deste país. A progressiva integração de Garibaldi ao meio local transparece nesta carta ao comunicar a Cuneo que ele e os outros companheiros procuravam defender suas opiniões até com a própria vida, em respostas ao que os jornalistas locais publicavam sobre a Itália naquele momento.

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33 Este nome, na carta, não fica compreensível, alguns interpretaram como se fosse um pseudônimo inventado em honra de Mazzini, mas Folco é também um “irmão” da Giovine Italia que tinha no Rio uma firma menor, mas parecida com a dos irmãos Zignago como corretor de navios.

34 Ibid. 13 p.13.


35 Ibid. 13 p.14.

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Como desfecho da carta encontra-se ainda uma metáfora cheia de graça: “Não sei se enviarei para você laranjas ou flores... vou fazer o possível!”.  As flores e as laranjas, lembranças da terra comum, a Ligúria, assumem neste contexto o significado simbólico de  uma promessa de boas notícias em relação à grande aventura que Garibaldi estava iniciando e cujos resultados esperava poder cedo comunicar ao amigo.

São os últimos dias cariocas de Garibaldi, faltava apenas receber a patente de corsário para poder lançar-se à luta em direção ao Sul. Tal patente autoriza a navegar em rios e mares e atacar livremente os navios de guerra e do comércio do Império encontrados pelo caminho, podendo apropriar-se livremente das armas com o uso da força.

A emissão da carta atrasou, chegando ao Rio somente no dia 4 de maio de 1837. Existe, todavia, uma contradição cronológica, pois os salvo-condutos apresentados por Salvatore Cândido36 estão datados de 14 de novembro de 1836 e assinados por João Manuel de Lima e Silva, general-comandante-em-chefe ao qual Bento Gonçalves tinha feito o pedido, conforme o acordo com Zambeccari. Ocorre que a data de 14 de novembro de 1836, constante das patentes, corresponde a uma semana depois da chegada de Bento Gonçalves e Zambeccari ao Rio como prisioneiros. Será esta a verdadeira data da assinatura? Ou foi colocada propositalmente uma data anterior para despistar os imperiais?

As diferenças entre os dois documentos de patente de corso encontrados, ambos assinados por João Manuel de Lima e Silva, demonstram terem sido os mesmos confeccionados para obedecer, provavelmente, a uma determinada estratégia. Um documento fazia referência à lancha Mazzini, de vinte toneladas, ao passo que o outro mencionava uma eventual sumaca denominada Farroupilha, de 130 toneladas. Quando os documentos foram redigidos, existia somente o Mazzini. A estratégia adotada poderia ser a de que o primeiro documento fosse utilizado na saída do Rio, quando a embarcação ainda era uma lancha de cabotagem, enquanto o segundo documento se tornaria válido uma vez capturado um navio de dimensão capaz de representar a marinha da República Rio-grandense que, no caso, teria assumido o nome de Farroupilha.

No dia 8 de maio de 1837, está registrada no Jornal do Commercio a saída da lancha Mazzini em direção a Campos. As armas e munições estavam escondidas embaixo da carga dos produtos alimentares – farinha, carne seca37 – que eram usualmente comercializados. Quase 17 meses depois, o jovem mazziniano – desembarcado do navio Nautonier no porto do Rio, na veste de um exilado sem nome – conseguiu deixar a cidade com um valioso projeto. E, sobretudo, com o que mais desejava: o título de corsário.

Pouco depois que o Mazzini deixou a Baía de Guanabara, apresentou-se a ocasião de colocar a prova a capacidade do novo corsário: uma pequena lancha denominada Maribondo, saída pouco antes do porto do Rio. Garibaldi não tinha particular interesse no barco nem em sua carga, mas sim em apropriar-se de víveres para enfrentar a longa travessia.

Na altura da Ilha Grande, eis que surgiu Luísa, uma escuna de 120 toneladas, com o pavilhão do Império. Foi esta a embarcação escolhida para tornar-se a Farroupilha. Após um assalto, sem que a tripulação brasileira tivesse oposto resistência, a apropriação da embarcação foi marcada pela substituição da bandeira do Império pela bandeira verde, amarela e vermelha da República Rio-grandense. A alegria de Garibaldi foi maior ainda ao descobrir que a sumaca pertencia a dona Felisbella Cândida Stockmeyer, de família austríaca, e que levava, para o porto do Rio, café destinado a exportação para a Europa. Com um único golpe, Garibaldi tinha acertado dois inimigos: o império brasileiro e o império austro-húngaro, opressor dos italianos.

Entre os 13 companheiros38 que tripulavam o Mazzini, só um tinha capacidade de comandar um barco em alto mar. Desta forma, decidiu-se abandonar o Mazzini, transferindo todos para o navio maior, o Farroupilha. O afundamento da lancha de cabotagem Mazzini assume, então, um valor simbólico. Ao encerrar sua história carioca, Giuseppe Garibaldi conquistou a independência. Agora estava pronto para tomar o comando de um navio, enfrentar o oceano e desafiar o império brasileiro, lutando pela jovem república do Rio Grande do Sul, na qual projetava os sonhos e os ideais que a Itália ainda não podia realizar.

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36 CANDIDO, Salvatore. Giuseppe Garibaldi: corsário rio-grandense: 1837-1838. EDIPUCRS. Instituto Estadual do Livro p.139-140.

37 GARIBALDI, José. Memórias. Tradução do manuscrito original por Alexandre Dumas. Rio Grande. O Intransigente, 1907, p.46.

38. Ibid. 37 p.71.

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O “aprendizado” de Garibaldi
na América Latina: a “scuola
delle palle” e a “escola moral”

Anna Maria Lazzarino Del Grosso
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Professora da Faculdade de Ciência Política da Universidade de Gênova, Itália

Quando Garibaldi chegou ao Rio de Janeiro, com vinte e oito anos, no final de 18351 ou início de 1836, com uma condenação à morte por “traição militar” e uma apaixonada determinação em contribuir para o sucesso da causa italiana entre as fileiras de organizações de exilados mazzinianos, de longe, momentaneamente, não dispunha senão de uma longa experiência de navegação mercantil, pouquíssimos dias de serviço na Marinha de guerra dos Sabóias e uma cultura simples, mas original, de autodidata ávido por leitura. Não consta que tivesse prática com armas, e suas idéias políticas, poucas e claras, fortemente radicadas em um sistema de valores simples mas imbatíveis, eram fruto de sentimentos juvenis e do ensinamento, tão casual quanto iluminado, recebido na primavera de 1833 do saint-simonista Émile Barrault, que embarcou com um grupo de partidários na Clorinda e, pouco depois, pelo jovem “crente” mazziniano encontrado em uma taverna de Taganrog.

Quando em 15 de abril de 1848, quase treze anos depois, zarpou com sessenta e três companheiros do porto de Montevidéu a bordo da embarcação Speranza rumo à Itália, finalmente empenhada naquela que parecia a ele uma luta geral de emancipação, com a intenção de colocar-se à disposição do exército comandado por Carlo Alberto, Garibaldi passava dos quarenta anos, e sua fama de herói, que ele não cansa nunca de refletir sobre os seus valentes e generosos companheiros de armas, difundiu-se em toda a Europa, além das Américas, graças ao empenho público de Mazzini e de Giovan Battista Cuneo2. Tal fama reanima as expectativas dos patriotas italianos e não tardará, apesar das dificuldades freqüentemente postas pelos governos dos Sabóias, a encontrar luminosas e cada vez mais aclamadas confirmações.

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1 Esta data de chegada é referência de A . SCIROCCO, Garibaldi. Battaglie, amori, ideali di um cittadino del mondo. Roma-Bari: Laterza, p. 29. Em janeiro de 1836 era fixada por S. CANDIDO, Garibaldi in America. De ‘Memorie’ ao ‘Documenti’, em Garibaldi cento anni dopo. Atos do Convênio de Estudos Garibaldinos, Bergamo, 5-7 de março de 1982, aos cuidados de A. Benini e P.C.Masini. Florença: Le Monnier, 1983, p. 25.

2 Cfr. A . SCIROCCO, op. cit., pp. 129-130, 134-135.

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Durante seu “primeiro” longo exílio na América Latina, antes no Brasil e depois no Uruguai, o jovem capitão de Nizza, perseguindo profundas motivações ideais, incontrolável sede de ação e de aventura, amadureceu um aprendizado determinante, multiforme e cada vez mais comprometido, não somente na condução da guerra, no mar e terrestre, mas também na aquisição de uma liderança sábia e carismática, inspirada rigorosamente nos valores democráticos, cosmopolitas e humanitários, e fundada em uma real capacidade organizacional e política, atenta seja nos mínimos detalhes práticos, como se exige a um chefe que tem responsabilidade direta sobre os seus homens, seja na exigência de ligar os objetivos perseguidos, ideais ou concretos, às altas esferas do poder.

Amadureceu, também, através de experiências afetivas que não se podem apagar, de contato social ou com vários ambientes políticos, e graças a uma inclinação à reflexão crítica e à comunicação eficaz, nada banais, aquela personalidade que irradia audácia e ardor, energia e compaixão humana, segurança e modéstia, generosidade e abertura, que, mesmo com aversões às vezes fortes, é um elemento central, junto ao valor militar, tanto do seu sucesso histórico quanto da formação do seu mito que persiste até hoje, um mito que já pairava em 1848, mas que as sucessivas ações italianas e em terra francesa teriam agigantado e legado à posteridade.

No mais, já em novembro de 1842, Mazzini, ao noticiar suas façanhas no oitavo número do L’Apostolato popolare, indicava-o como merecedor de afeto, expressando a convicção “de que ele não considera a sua carreira na América meridional senão como um aprendizado à guerra italiana que o chamará um dia para a Europa” 3.

As etapas e os aspectos mais salientes deste “aprendizado” americano, que na realidade cresceu com a dedicação à causa da liberdade dos povos, também esta mazziniana, explicitada nos objetivos da “Jovem Europa”, à qual Garibaldi provavelmente aderiu em Marselha4, mas também de origem saint-simonista, podem ser seguidos através de uma releitura das Memórias, grande parte escritas em Tanger, entre o final de 1849 e a primavera de 1850, no início do seu “segundo exílio”, pois me parece mais apropriado, pela maior proximidade temporal dos eventos narrados, analisar no texto da terceira redação completada no final de 1859 5, e também do precioso corpus de cartas publicado em 1973 por Giuseppe Fonterossi, Salvatore Candido e Emília Morelli, no VII volume da Edição Nacional, que oferece um testemunho vivo e direto da obra e dos pensamentos de Garibaldi, no período que vai de 1834 até a véspera de sua partida para o Uruguai.6

Se as Memórias testemunham também, do ponto de vista subjetivo de seu autor, os sinais profundos e o valor determinante conferido à sua existência naquele universo de experiências, principalmente vividas nas regiões do Brasil meridional e da República oriental do Uruguai, atravessadas pelos grandes afluentes do Rio de La Plata e da densa rede de tributários, as centenas de cartas até hoje encontradas (graças, sobretudo, às longas pesquisas in loco de Salvatore Candido) que Garibaldi escreveu naqueles anos, freqüentemente pressionado pela urgência de suas tarefas e deveres, revelam o aumento progressivo de sua capacidade de ação e de suas competências, o formar-se gradativo de uma experimentada visão crítica a propósito das decisões e das práticas dos seus diversos interlocutores, militares e políticas, a assunção no próprio patrimônio intelectual e ideal de novos modelos morais e políticos influentes, o precisar de declinações concretas, à prova dos fatos, dos valores professados. Revelam, em outros termos, o desenvolver de um itinerário de crescimento pessoal, não menos diferente e aventuroso do que aquele exterior, que do “aprendizado” o conduz à plenitude da “profissão”, da condição de soldado “aprendiz” a comandante e guia reconhecido e amado, mestre das armas e das estratégias bélicas em cada terreno ou extensão de água, mas também mestre da vida, em sentido amplo e, por que não, da política no sentido mais nobre, mas também mais sagaz do termo.

Neste campo, sua primeira e principal lição, talvez elementar em sua simplicidade e concisão expressiva, mas no fundo, me parece, reconhecível em certos comportamentos discutidos ao longo dos sucessivos acontecimentos do Ressurgimento, não foi suficientemente compreendida, e raramente foi seguida: esta aparece mais vezes nestes anos, sobretudo no que se refere à causa italiana, e encontra-se sintetizada de modo eficaz na passagem de uma carta enviada de Salto a Napoleone Castellini, em 26 de fevereiro de 1846: “em uma tua, me falas das coisas da Itália: eu, quando diminui em mim o amor que sinto por ela, gostaria que um raio me incinerasse; mas é preciso que eu te chame a atenção da qual tu necessitas; é que na “scuola delle palle”, e outras coisinhas similares, que estamos fazendo hoje, é importante acrescentar a escola moral das conciliações, que talvez mais do que tudo, é necessária a todos nós. Me dirás que te encho o saco…” 7

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3 Cit. Em G. TRAMAROLLO, Garibaldi e la “Giovine Italia”, em Garibaldi cento anni dopo, cit., p.66.

4 Cfr. A . SCIROCCO, op.cit., p.27.

5 Ver pp.186-188,190.


6 Edizione Nazionale degli scritti di Giuseppe Garibaldi, (de agora em diante: E.N.), vol. VII, Epistolario, vol. I (1834-1848) sob cuidados de G. Fonterossi, S. Candido, E.Morelli. Roma: Istituto per la Storia del Risorgimento, 1973. De agora em diante: Epistolario.

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Utilizando sua feliz expressão dicotômica, podemos dizer que, para Garibaldi, a sua primeira longa estada na América meridional foi uma “scuola delle palle” e “escola moral”. Se a primeira afirmação parece óbvia e bem conhecida no nível da cultura popular, talvez alguma reflexão e documentação mereça a segunda, deixando claro que entendo o adjetivo “moral” no seu mais amplo significado.

Não existe dúvida de que a trajetória rio-grandense do primeiro itinerário de Garibaldi na América Latina tenha constituído e permanecido até o fim, também na sua consciência, como a experiência mais grandiosa e rica de momentos felizes de sua vida, aquela que talvez tornava com maior prazer e emoção à recordação. Demonstram-no o tom lírico de algumas páginas das Memórias que fazemos referência8, entre as que melhor se destacam do ponto de vista literário, e algumas afirmações explícitas do seu autor, que define “bela e de acordo com a minha índole” a vida “muito ativa” e também “cheia de perigos” de “corsário” (mas, na realidade, como acentuou Candido, já estava a serviço do exército regular da República do Rio Grande do Sul 9) que conduzia em 1838, dirigindo a construção de navios de guerra, e guiando expedições corsárias contra a frota imperial na foz do rio Camaquã, na Lagoa dos Patos 10.

Relembrando as visitas festivas às casas hospitaleiras das irmãs do Presidente Bento Gonçalves, situadas naquela zona, escrevia: “Não sei se a minha idade influenciou na minha imaginação, predispondo-me a todas as coisas e embelezando-a como nova e inexperiente. Mas, de qualquer maneira, posso assegurar que nenhuma circunstância da minha vida se apresenta ao pensamento com tanta doçura e aspecto agradável, do que aquela passada naquele amável terra”11.

No Brasil, Garibaldi conhece e cultiva a força da amizade que nasce da partilha dos mesmos ideais e do mesmo extremo empenho na luta política de emancipação, e conhece, infelizmente, primeiro com o naufrágio da embarcação Rio Pardo (mas rebatizado Farroupilha), onde pereceram os seus mais queridos companheiros, mais tarde com o heróico fim de Luigi Rossetti, a lancinante dor da perda que, à distância de anos, ainda vibra nas páginas das Memórias, assim como nos perfis biográficos dedicados a eles12, mas é, sobretudo, a lembrança do encontro com Anita, do nascimento do primogênito na extrema pobreza do campo de São Simão, e das épicas e romanescas aventuras comuns, em uma natureza livre e selvagem, a suscitar-lhe uma enternecida e apaixonada saudade, que compreende também o grupo dos seus companheiros: “Entre as tantas peripécias de minha tempestuosa vida não deixei de ter belos momentos, e estes, embora não pareça, eram aqueles em que à frente de poucos homens, que tinham restado de tantos combates, e que justamente mereciam o título de valentes, eu marchava a cavalo, com a mulher da minha vida ao lado, digna da admiração universal, e lançando-me em uma carreira, que mais do que aquela do mar, tinha para mim imensos atrativos. E o que me importava de não ter outras vestes? E de servir uma República pobre, que não podia pagar ninguém?… Minha Anita era o meu tesouro; fervorosa quanto eu pela sacrossanta causa dos povos… o futuro nos sorria afortunado e quanto mais selvagens se apresentavam os espaçosos desertos americanos, mais agradáveis e belos nos pareciam.” 13

Homem chegado à sua plenitude afetiva, à serena auto-satisfação, depois da dura experiência da prisão em Gualeguay, o Garibaldi que entra oficialmente a serviço da República Rio-grandense e, segue, no campo, o Presidente Bento Gonçalves, encontra sem dúvida nele um modelo de liderança política e militar, caracterizada pelas altas qualidades humanas e democráticas, que respondem aos próprios valores e os reforçam, e, apesar da visão mais crítica que desenvolverá mais tarde a propósito de alguns erros seus na condução da guerra, pode-se deduzir que influenciou e orientou no tempo o seu próprio modo de entender o governo dos homens: “Passei algum tempo nas terras daquele homem, onde a natureza havia favorecido com o que há de melhor, mas a sorte contrariou quase sempre, beneficiando o Império brasileiro. Bento Gonçalves era o tipo de guerreiro generoso, e o era ainda, perto dos sessenta anos, quando eu o conheci. Alto de estatura e rápido, ele cavalgava um fogoso ginete com a facilidade e a destreza de um jovem conterrâneo seu. Pessoa valorosíssima, ele teria lutado em combates extraordinários e talvez vencido os melhores cavaleiros do mundo. De espírito generosíssimo e modesto, não creio que ele tenha excitado os rio-grandenses a emancipar-se, com a finalidade de engrandecimento próprio. Simples como todos os filhos desta nação guerreira, o seu sustento no campo era um assado, como o do último soldado, e eu dividi os seus alimentos campeiros com tanta familiaridade como se fôssemos companheiros desde a infância. Com tais predicados Bento foi o ídolo dos compatriotas, por outro lado com tantas habilidades foi desventurado nas suas batalhas: isto sempre me fez supor que a sorte não è suficiente nos acontecimentos da guerra.”14

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7 Ver p.182 (n. 217, pp. 181-183).

8 Como, por exemplo, a famosa descrição do soberbo espetáculo da campanha povoada por cavalos e outros animais em torno de Jesus Maria: Le Memorie di Garibaldi in una delle redazioni anteriori alla definitiva del 1872, (E.N., I). Bologna: Cappelli, 1932, cap. VII, pp. 15-16.

9 Cfr. S. CANDIDO, Garibaldi in America, cit., p.34

10 Le Memorie cit., cap. XIII, p. 29.

11 Ver cap.XIII, p.31.

12 Encontra-se a respeito A . M. LAZZARINO DEL GROSSO, Amici e amicizia nelle Memorie di Giuseppe Garibaldi, in G. ANGELINI. M. TESORO, aos cuidados de, De amicitia. Scritti dedicati a Arturo Colombo. Milão: Franco Angeli, 2006, pp. 441-459, em especial pp.443-446.

13 Le Memorie cit., cap. XXII, pp. 52-53.

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No que diz respeito aos combatentes rio-grandenses, chamados muitas vezes de “filhos do Continente”, “republicanos vigorosos”, Garibaldi não se cansa de elogiar a coragem, as habilidades militares, a capacidade de enfrentar sofrimentos e privações em nome da causa perseguida, chegando a mostrar o exemplo aos próprios compatriotas: “Italianos! O dia em que sereis unidos e modestos como os filhos do Continente! O estrangeiro não pisará o vosso solo! Não contaminará o vosso leito! A Itália terá recuperado o seu lugar entre as primeiras nações do Universo.”15

A experiência da guerra pela liberdade rio-grandense e o admirado e doloroso afeto pelos seus mortos proporciona também a Garibaldi os primeiros modelos emblemáticos, nobres, de um heroísmo voluntário desinteressado, que muita influência terá na definição dos ideais e da ideologia do voluntariado garibaldino, a começar por aqueles da Legião Italiana que, em poucos anos, se constituiria como suporte na luta de liberdade da República Oriental do Uruguai, obtendo com o seu valor, junto com os seus chefes, uma fama que não perece.

A primeira figura-modelo que se encontra nas Memórias, é a do americano John Griggs, que tinha deixado em pátria uma notável fortuna para servir à nascente República brasileira, dedicando-se à construção de embarcações de cujo armamento o próprio Garibaldi se ocupou. Havia participado com ele da difícil expedição pela libertação da cidade de Laguna, que levou à proclamação da República de Santa Catarina, e lá foi morto poucos meses depois, enquanto defendia corajosamente a capital do ataque da frota imperial. Mas, aos poucos, foram-se juntando outras figuras de mártires pela liberdade de uma pátria desinteressadamente e apaixonadamente adotada como sua: a começar pelos companheiros italianos mortos no naufrágio, como Edoardo Mutru e Luigi Carniglia, a quem parece que Garibaldi gostaria de erguer, com as próprias palavras, uma espécie de monumento simbólico, para compensar a falta da sepultura.

Escrevi acima que é na prova concreta do seu empenho no serviço àquela que repetidamente chama, tanto nas Memórias, quanto nas cartas, a causa dos povos, que Garibaldi encontra a ocasião de declinar e verificar concretamente em termos de sustentabilidade os seus já sólidos princípios éticos, marcados nos valores da humanidade. O texto auto-biográfico oferece numerosos exemplos, com isso indicando o dever, mas também a oportunidade em termos de sucesso político-militar.

A libertação dos escravos negros, que Garibaldi mesmo pretendia quando efetuou a sua primeira “tomada”corsária16, que levou à formação de um precioso corpo escolhido de “verdadeiros filhos da liberdade”17, o respeito às pessoas e aos bens dos prisioneiros civis, o repúdio aos saques e à represália feroz18, o cuidado e a solicitude com as populações expostas aos danos e perigos da guerra, o imparcial reconhecimento dos atos nobres e valorosos do inimigo, a distinção entre o mal a ser combatido (o absolutismo) e os homens que o encarnam, antes para compadecer-se do que para odiar19 , o deixar aos próprios subalternos, nos momentos mais difíceis, a liberdade de escolha do próprio destino20, são comportamentos que se evidenciam como eticamente necessários no andar das campanhas rio-grandenses, e que constituem em seu conjunto, ao lado dos modelos humanos já indicados acima, os conteúdos daquela “escola moral” que Garibaldi praticamente freqüentou e construiu, e que pretendia transmitir, também com a redação das suas Memórias, aos seus compatriotas.

O exame das cartas confirma a existência deste percurso de consciência ética. Se nas poucas mas importantes correspondências que nos restaram dos anos de 1836-1837 (entre as quais a famosa carta à Mazzini de janeiro de 1836) prevalece a preocupação de dar o quanto antes uma contribuição de mazziniano adepto à Jovem Europa, à causa italiana, àquelas sucessivas, e até a véspera do retorno à pátria, interlocutores, referências e problemas enfrentados são principalmente “americanos”, ligados à vida quotidiana do militante. Depois da passagem pelo exército rio-grandense, inicia a série de despachos informativos às autoridades superiores, que também ocupam muitas páginas da correspondência do Uruguai.

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14 Ver cap. XII, p.28.

15 Ver cap. XXV, p.66.


16 Não se detém a este episódio nas Memórias, mas como mostrou S CANDIDO, Garibaldi in America cit., pp. 40-45, está irrefutavelmente comprovado pelos documentos do processo desenvolvido em Gualeguay e de uma carta sua para Cuneo.

17 Le Memorie cit., cap. XXV, p.64.

18 Ver cap. XX, p.49.

19 Ver cap. XXIV, p.60.

20 Cfr. Ver cap. XXIII, p. 58.


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Na comovente carta enviada em 28 de julho de 1839 à irmã do Presidente, Dona Ana Joaquina Gonçalves da Costa Santos, onde conta sobre o naufrágio da Farroupilha (Rio Pardo) e sobre a morte dos companheiros, fala da própria “vida de apostolado perseguido”, que o endureceu frente às desgraças, mas não ao ponto de não ser atacado pelo desespero frente a uma tragédia tão horrível.

No Uruguai, empenhado na “Guerra Grande” contra as tropas do ditador argentino Juan Manuel Rosas e de Oribe, Garibaldi foi chamado a fazer parte da marinha militar uruguaia com o grau de coronel. Colocado no comando da corveta Constitución recebe, em 1842, a difícil e arriscada tarefa de alcançar com outros dois navios, subindo o Rio Paraná, a província argentina de Corrientes, governada por Pedro Ferré, rebelde em Rosas, levando ao tribunal local algumas presas, cujo valor recebido depois teria colocado à disposição dos membros da expedição, todas as embarcações argentinas capturadas durante o percurso.

O êxito da operação foi desastroso, mas Garibaldi e os seus corsários conquistaram uma admirada celebridade graças à heróica resistência frente à frota argentina guiada pelo almirante Brown, perto da Costa Brava. O relato do episódio nas Memórias é muito técnico, quase profissional, rico em detalhes, mas sem desviar do tema: aqui também se esboça o modelo de uma extraordinária e desesperada tarefa sustentada por uma motivação de ética militar: combater até o fim, desafiando a morte, mesmo na certeza da derrota, “pela honra” 21, símbolo que será emblemático do voluntariado garibaldino.

Também a luta do “generoso povo Oriental” é apontada como exemplo a todos os povos que quiserem no futuro resistir aos ataques do inimigo, e o coronel Pacheco, que depois tornou-se general, configura um outro modelo de chefe militar, marcado pela “superioridade sublime, pela coragem, pela energia, pela capacidade”.22

O quadro da direção política uruguaia é, entretanto, contrastante: nas Memórias, Garibaldi usa palavras duras em confronto com o Ministro Geral da República, general Francisco Antonino Vidal, que define “de infausta e desprezível memória”, considerando-o responsável de uma errada e absurda política de destruição da frota, além do desastre sofrido na expedição para Corrientes 23, preocupado somente em acumular “dobrões, para utilizar em passeios de carruagem e aparições esplêndidas nas primeiras capitais da Europa” 24 e, no final, fugir com o dinheiro do tesouro25.

Grande, porém, é a admiração pelo comportamento firme e heróico do povo na iminência do cerco da capital, depois da terrível derrota sofrida pelas forças aliadas no Arroio Grande, que atribui às “discórdias fomentadas pela ambição de poucos”26: “Em breve formou-se um novo exército! Senão tão numeroso, não tão disciplinado, pelo menos cheio de ímpeto e entusiasmo, mais imbuído da causa sacrossanta que os movia. Não era mais a causa de um homem que estimulava as multidões, o astro daquele homem havia desaparecido na última batalha e o esforço de levantar-se foi em vão. Era a causa nacional, perante a qual calavam-se as odes, as personalidades, as divergências. O estrangeiro preparou-se para invadir o território da república; cada cidadão corria com armas e cavalos para alistar-se nas bandeiras para rechaçá-lo. O perigo aumentava; aumentava o brio, a devoção daquela população generosa. Não uma voz de transação! De pacto!.”27

Depois de anos a recordação daquela reação unitária oferece a ele matéria para uma amarga comparação com o que aconteceu no dia seguinte à derrota de Novara e para um sinal, por sua vez não desenvolvido, de uma possível explicação de tanta diversidade. Também o novo exército de infantaria organizado em Montevidéu, sob o comando do general Paz, incluía escravos livres e chefes ilustres, “esquecidos e que desprezavam as guerras onde primavam interesses pessoais”. Pacheco assume o Ministério da Guerra e a Garibaldi é confiada a tarefa de organizar a frota. Os franceses e os italianos imigrados organizam as respectivas Legiões, com “generoso ímpeto”. O empenho de Garibaldi na organização e na condução da Legião italiana, sustentada, com a sua mediação, pelo Ministro Pacheco, protagonista de páginas gloriosas da história da Guerra Grande, bem como a de comandante da frota republicana, constituem o teste de conclusão de seu “aprendizado”, obrigando-o a uma intensa atividade de relação com os Ministérios, em parte de ordinária administração “burocrática”, em parte direcionada à política.

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21 Ver cap. XXXI, pp. 87-88.

22 Ver cap. XXXIII, p. 96.

23 Ver cap. XXIX, p.80.

24 Ver cap. XXXI, p.88.

25 Ver cap. XXXIV, p.99.

26 Ver cap. XXXII, p.92.

27 Ver cap. XXXII, p. 95.


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O julgamento de Garibaldi quanto à administração do governo Pacheco é extremamente positivo, e também quanto à condução da guerra por parte do general Paz 28, considerado um verdadeiro e próprio gênio militar. Muito severo quanto a Rivera e Madariaga que, depois da relevante vitória de San Antonio del Salto obtida pela Legião Italiana, tomaram posse do poder, com uma espécie de revolução, respectivamente em Montevidéu e em Corrientes, determinando o exílio de Pacheco e de Paz e o início de um inexorável declínio político e militar. 29

As numerosas cartas escritas no período uruguaio revelam que os interlocutores de Garibaldi transformaram-se em ‘políticos”, e comprovam como a sua atividade, com o crescer das responsabilidades, veio a conter também pesadas tarefas de correspondência com as autoridades, com o objetivo de relatar as próprias ações e as dos homens a ele confiados e, sobretudo, de fazer chegar a eles uma série de pedidos segundo as necessidades da frota e dos seus equipamentos ou os da Legião. A benevolência da relação existente entre o comandante e os seus soldados emerge nas suas numerosas mensagens de mediação em favor de suas causas pessoais: ênfase dos seus méritos, pedidos de promoções, de ajuda na cobrança de créditos ou no pagamento de débitos, de vários tipos de apoio em caso de necessidade, de clemência em alguns casos de transgressão desculpável.

Não faltam trechos ou páginas de conteúdo político, que reforçam e às vezes ilustram as idéias de fundo que movem na América latina, e acompanharão a ação de Garibaldi mais tarde na Itália. É evocada mais vezes a sua concepção de guerra justa como luta pela “causa da humanidade”30, a mais alta proclamação desse princípio se encontra na carta a Fructuoso Rivera, que contém a orgulhosa e firme declaração dos Oficiais italianos, em nome de toda a Legião, com a qual recusa a abundante doação disposta pelo General:

“Que persuadidos que es deber de todo hombre libre combatir por la libertad de quiera que asome la tiranía, sin distinción de tierra ni di Pueblo, porque es el patrimonio de la humanidad, no han seguido sino la voz de su conciencia, al ir a pedir um arma a los hijos de esta tierra, para dividir com ellos los peligros que los amenazaban. Que satisfechos com haber cumplido com sus deberes de hombres libres ,continuarán a dividir como hasta aquí ‘pan y peligros’con sus valientes camaradas de la guarnición de la capital, hasta que las exigencias del sitio lo requieran, sin aspirar a admitir distinciones ni premios de ninguna clase´.”31

Em 30 de março de 1846, Garibaldi recusará, com uma carta ao Ministro da Guerra Francisco Joaquim Muñoz, a promoção a Coronel Major, com a argumentação que “o sólo qualquier benefício o ricompensa, también los honores me pesaríam sobre el alma que fueran comprados con la sangre de mis paesanes.”32

Perante a exigência de combater o “déspota” Rosas, Garibaldi apela para o recurso da mesma “política maquiavélica” que ele adota sanguinariamente, mas deixa claro que “en nuestras manos semejantes armas sólo servirán para las exigencias del momento, el triunfo de la humanidad, y de los sanos principios.”33

A escola de conciliação que na já citada carta a Castellini é invocada para a Itália, como escreve para Cuneo, em 18 de outubro de 1842, é considerada necessária também para “os nossos amigos Orientais e Argentinos” de quem lamenta o “maldito espírito de provincianismo.”34

Na carta enviada em 6 de outubro de 1845 a Manuel Lavalleja, ilustre coronel uruguaio a serviço de Rosas, para solicitar um encontro na esperança de levá-lo para o seu lado, Garibaldi expressa a confiança que ele compartilhe a mesma livre dedicação pela causa do Povo e da democracia, sem vínculos partidários, que ele abraçou com total desinteresse e que reúne os defensores de Montevidéu, pedindo a eles cooperação com o bem-estar “de este Pueblo desdichado y generoso.”35

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28 Ver cap. XXXIV, p. 103; cap. XXXVII, p.109.

29 Ver cap. XXXVI, pp. 138-139; XXXVIII, pp. 148-150.

30 Cfr. Epistolario, cit, nn.24 (A Francisco Antonino Vidal, 2 de julho de 1842), 25 (A Pedro Ferré, 19 de julho de 1842).

31 Ver n. 147 (A Fructuoso Rivera, 23 de março de 1845).

32 Ver n. 229, (A Francisco Joaquin Muñoz, 30 de março de 1846), p. 192.

33 Ver n.26, (A Pedro Ferré, 20 de agosto de 1842), p.85.

34 Ver n. 34 (A Giovan Battista Cuneo, 18 de outubro de 1842), p.43.

35 Ver n. 178, (A Manuel Lavalleja, 6 de outubro de 1845), p. 143.

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Não faltam cartas de total franqueza aos Ministros e Chefes de Estado, com sugestões, conselhos, pedidos. Especialmente crítica é a sua posição frente aos governantes nos meses seguintes à batalha de San Antonio, quando é obrigado junto com os seus legionários à inércia na região de Salto, privado de reabastecimento e das roupas necessárias aos seus homens para enfrentar o inverno ameaçador. Sentindo-se abandonado, ou pior, boicotado, dirigiu-se ao contra-almirante francês Laîné, recusando-se por outro lado a aceitar a sua proposta de assumir o alto comando das forças uruguaias36. Uma carta a Cuneo, de 15 de junho, demonstra sua irritação com o Ministro da Guerra Antonio Costa: julga-o hostil à Legião italiana, que ele gostaria que fosse toda reunida em volta dele e em concordância, para melhor defender o povo uruguaio.37

Nas cartas de 1847, manifesta-se preponderante o chamado da pátria italiana, já em alvoroço. Ao patriota Eugenio Belluomini, que pediu a ele que retornasse, deixa clara a sua consciência de não abandonar “este país infeliz” e “tantos bons e valorosos companheiros” e, ao mesmo tempo, manifesta a própria abertura em relação ao “projeto iniciado por Pio IX e por Carlo Alberto”38. A última correspondência propriamente “política”, escrita no Uruguai, foi enviada ao núncio apostólico no Rio de Janeiro, Gaetano Bedini: esta expressa admiração e esperança a respeito da política liberal e patriótica inaugurada por Pio IX e oferece, humildemente, o serviço da Legião italiana à sustentação de sua “sua obra redentora”.39

O “aprendizado” de Garibaldi terminou há tempo. As coisas andarão bem diferentes de como ele imaginava nesta carta, mas depois de alguns meses partirá para a Itália, junto com outros homens criados (e amados) como filhos naquela “escola moral” da qual se tornou mestre, escola que tomou forma e substância no decorrer das generosas lutas pela liberdade dos povos do Rio Grande do Sul e da República Uruguaia, um homem dotado de todas as qualidades para desenvolver uma ação decisiva nos destinos da Pátria.

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36 Ver n. 242 (A Jean-Pierre Honorat Laîné, 21 de maio de 1846), pp. 202-203. Cfr. também a carta ao mesmo de 1º de maio de 1846, ver n.236, pp. 197-199.

37 Ver n.246, (A Giovan Battista Cuneo, 15 de junho de 1846), pp. 207-210.

38 Ver n. 296 (A Eugenio Belluomini, 7 de agosto de 1847), pp. 238-239.

39 Ver n.304, (A Gaetano Bedini, 12 de outubro de 1847), pp. 245-247.


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Garibaldi: republicano e
revolucionário internacional

Carmen Lícia Palazzo

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Doutora em História, pesquisadora convidada do UniCeub, Brasília, D.F.

Já há algum tempo que a escrita da história não se faz mais em torno de relatos puramente factuais ou de biografias das grandes personalidades que, por intermédio de suas ações, teriam sido responsáveis por mudanças decisivas nos acontecimentos de determinadas épocas. A denominada escola dos “Annales” representou um marco importante de uma nova maneira de escrever história, e o estudo das mentalidades, que dela se originou, abriu um caminho muito rico para os pesquisadores, conduzindo ao que hoje denomina-se História Cultural.1

O surgimento de novos paradigmas, porém, não excluiu o interesse por determinadas figuras que merecem ser objeto de pesquisas que muito têm a acrescentar ao conhecimento histórico. O italiano Giuseppe Garibaldi é um destes casos, e suas ações devem ser analisadas levando em conta não apenas o agitado contexto da época mas também os aspectos míticos que passaram a ser incorporados aos relatos de suas aventuras. Acompanhar sua trajetória é, de certa forma, mergulhar também nos sonhos, nas esperanças e na violência de um período conturbado da história ocidental, no qual as lutas pela liberdade eram travadas, tanto na Europa quanto no continente americano, sem garantias de vitória. Nossa intenção, neste trabalho, foi a de apresentar o personagem em suas múltiplas facetas, sem pretensões de esgotar o assunto, já que cada passagem de sua vida permite um grande leque de interpretações.

Garibaldi, que aportou no Rio de Janeiro em 1836, fugindo do absolutismo do reino do Piemonte, lutou na Revolução Farroupilha e posteriormente no Uruguai, ao lado de Rivera, tendo sido elevado à categoria de mito vivo em seu próprio tempo. Foi alvo tanto dos mais entusiasmados elogios quanto de duras críticas, despertando o interesse de escritores como Alexandre Dumas, George Sand e Victor Hugo.

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1 Sobre a escola dos Annales ver Peter BURKE. A escola dos Annales: 1929-1989. São Paulo: USP, 1991. Ver também Jacques LE GOFF e Pierre NORA (orgs.) Faire l’histoire. Paris: Gallimard, 1974.

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Em geral, na historiografia latino-americana, são destacadas as passagens mais romanescas de sua vida, como o encontro com Anita em Laguna, o que, sem dúvida, impede uma análise objetiva da trajetória daquele que foi uma das mais marcantes personalidades do século XIX. Por outro lado, é pouco lembrada sua atuação no Congresso pela Paz, realizado em Genebra, em setembro de 1867, sua participação como republicano na guerra francesa de 1870 e sua atividade como parlamentar italiano, eleito em fevereiro de 1871.

Garibaldi deixou, além das conhecidas Memórias, uma vasta correspondência, proclamas, discursos e romances — e em todo este material escrito é possível perceber um pensamento original, que amalgamou as idéias da “Giovine Italia” de Mazzini2 à sua própria vivência dentro e fora do continente europeu. Da análise de seus textos, de suas ações revolucionárias e de sua participação política, surge uma figura complexa cujo fascínio não se esgota no que é normalmente reproduzido pelo imaginário popular.

Da Europa à América do Sul

Nice, cidade onde nasceu Garibaldi, em 1807, teve grande parte de sua história estreitamente ligada à Casa Real de Savóia. Pertencendo ora a ela, ora aos franceses, esteve nas mãos da monarquia piemontesa entre 1815 e 1860, quando retornou — então, definitivamente — à França. Assim, quando em 1822 Giuseppe Garibaldi iniciou, muito jovem, suas viagens na condição de marinheiro mercante, sua cidade integrava mais uma vez o chamado Reino do Piemonte e da Sardenha. O panorama europeu estava conturbado, os austríacos já haviam derrotado os piemonteses em Novara, em 1821, e as grandes potências debatiam-se entre posições liberais e abolutistas.

Mais adiante, a partir de 1830, ocorre uma nova onda de revoluções liberais, com a guerra dos Bourbon, na França, e as independências da Bélgica e da Polônia. É sob todo este clima que Garibaldi descobre, no porto russo de Taganrog, através do contato com outros marinheiros lígures, os ideais de Pátria e Liberdade que irão guiar o longo processo de unificação italiana.

Embarcando na marinha sarda, em 1833, para o serviço militar, Garibaldi participou da fracassada insurreição da “Giovine Italia”, no início de 1834. Foi, portanto, como seguidor de Mazzini que atuou de modo a receber uma condenação à morte, ditada pelo Tribunal de Guerra de Gênova. Adotando os pseudônimos de Giuseppe Pane e de Borel, Garibaldi inicia o que virá a ser um exílio de doze anos, durante os quais, como comprovam seus escritos, e especialmente sua correspondência, estará permanentemente referindo-se à libertação da Itália, dentro de um quadro mais amplo de liberdade para todos os povos3.

Para melhor entender o internacionalismo revolucionário de Garibaldi, é importante salientar que o nacionalismo italiano do século XIX era bastante distinto de outras correntes nacionalistas da mesma época, especialmente da alemã. Tratava-se, no caso da Itália, de um nacionalismo abrangente e integrador. Para Mazzini, a pátria era a “consciência de pátria” e não havia nesta definição nenhuma característica de hereditariedade, o que ocorria com o “Volksgeist” alemão. Assim, de acordo com a doutrina da “Giovine Italia”, não era necessário ter nascido num determinado lugar para entender profundamente as reivindicações de seu povo. Nos ambientes revolucionários italianos, circulavam idéias que vinculavam a luta contra os opressores a um projeto mais amplo de liberdade para todos.

Não era, portanto, um aventureiro que desembarcava no Rio de Janeiro em 1836, mas um exilado que se enquadrava nos ideais de sua época. Durante seu período brasileiro, Garibaldi optou, como outros refugiados italianos, pela luta ao lado dos que considerava oprimidos, contra o poder do Império, muito embora tivesse uma idéia romântica sobre a Revolução Farroupilha.

“Corsaro! lanciato sull’oceano con dodici compagni a bordo d’una garopera, si sfidava un impero, si faceva sventolare per i primi, in quelle meridionale coste, una bandiera d’emancipazione! La bandiera repubblicana del Rio Grande!”4

Recebendo uma carta de corso para, junto com Luigi Rossetti, apresar outras embarcações, Garibaldi iniciou suas atividades a favor dos farrapos. Avesso a qualquer tipo de submissão às autoridades, criticou seguidamente as ordens de Canabarro e atribuiu a Bento Gonçalves a indecisão nos momentos em que seria importante não recuar na luta contra o Império5. Mas, de todos os contatos que manteve durante o longo exílio sul-americano, foi justamente a personalidade de Bento Gonçalves que mais o marcou, exercendo sobre ele um grande fascínio, tanto por sua maneira de ser, quanto pelo modo de vida dos gaúchos, tão distinto do europeu.

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2 Giuseppe Mazzini, advogado genovês, fundou a “Giovine Italia” em Marselha, em 1831. Revolucionário e mentor intelectual de muitas conspirações de caráter republicano, viveu grande parte de sua vida no exílio.

3 Utilizamos como fontes primárias os seguintes escritos de Giuseppe Garibaldi, editados na Itália: Le Memorie di Garibaldi nella redazione definitiva del 1872, Bolonha: L. Capelli Editore, 1932; Scritti e discorsi politici e militari, vol. I (1838-1861), Bolonha: L. Caprelli Editore, 1934; Epistolario, vol. I (1834-1848), I stituto per la Storia del Risorgimento Italiano, 1973; I Mille, Bolonha: L. Caprelli Editore, 1933. Trabalhamos também com textos pesquisados nos acervos dos museus do Risorgimento de Milão e de Turim.

4 “Corsário! Lançado no oceano com doze companheiros a bordo de uma garoupeira, desafiava-se um império, desfraldava-se pela primeira vez, naquelas costas meridionais, uma bandeira de emancipação! A bandeira republicana do Rio Grande.” Le Memorie di Garibaldi..., op. cit., p. 30.

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“Sobrio [Bento Gonçalves] come ogni figlio di quella valorosa nazione, la sua vita nel campo era un açado (arrosto) come un semplice milite: alimento unico, in quelle campagne richissime di bestiame, ed ove, per far la guerra, non si usano le ingombranti impedimenta, inciampo principale degli eserciti europei.” 6

Da sua vasta correspondência constam algumas cartas datadas de 1838 e 1839, dirigidas a Ana Gonçalves da Costa Santos e a Antonia Gonçalves da Silva, irmãs de Bento Gonçalves, nas quais descreve determinadas operações de guerra mas sobretudo expressa, de modo muito efusivo, a gratidão pela maneira como foi tratado quando esteve nas estâncias de ambas, em Arroio Grande e em Camaquã.7

Sobre seus companheiros de combates, Garibaldi descreve o que certamente ocorria em todas as guerras: um grupo heterogêneo, composto tanto por dedicados idealistas, lutando em nome da liberdade, quanto por mercenários que, segundo ele, haviam feito parte, em outras oportunidades, da equipagem de barcos de piratas 8.

O fato de ter lidado com todo tipo de comandados não significa que o próprio Garibaldi tenha agido como mercenário — o que, aliás, não se pode concluir nem do seu comportamento, impulsivo, porém sempre coerente, nem da maneira como viveu, passando muitas privações. Combateu, tanto no Brasil quanto no Uruguai, sempre do mesmo lado para o qual se engajou (o que, inclusive, não foi o que ocorreu em várias oportunidades com farroupilhas ou com “blancos” e “colorados”) e contou com limitadíssimos meios financeiros, ocupando, em Montevidéu, apenas uma pequena parte do que é hoje chamada a Casa de Garibaldi.

Do ponto de vista militar, sua participação na guerra contra Rosas, também chamada Guerra Grande, defendendo a posição de Rivera contra Oribe, foi mais significativa do que sua atuação junto aos farrapos. No Uruguai, lutou de forma constante e esteve a cargo da marinha e à frente dos homens que compunham a Legião Italiana, um dos grupos de estrangeiros organizados em virtude da perda quase total do exército uruguaio na batalha de Arroyo Grande, vencida por Oribe.

Garibaldi havia chegado a Montevidéu em 1841, em busca de maior contato com a Itália, o que efetivamente se realizava através do movimento daquele porto, e também procurando as melhores condições de vida para sua família, já então composta da mulher, Anita, e do filho Menotti9. Após trabalhar algum tempo como agente de comércio e como professor de matemática e de história em uma escola, cujo diretor era um padre refugiado, de origem corsa, foi chamado para lutar contra Rosas, pois sua experiência de marinheiro era mais do que bem-vinda numa guerra em que os rios desempenhavam um papel decisivo.

Dentre os muitos combates dos quais Garibaldi participou durante a Guerra Grande, uma operação totalmente vitoriosa foi devida, em grande parte, à sua capacidade militar e às suas qualidades de estrategista10. Tratava-se da subida pelo rio Uruguai, iniciada em 5 de setembro de 1845, ocupando inicialmente a ilha de Martin Garcia e continuando sempre rio acima, em meio a inúmeras batalhas, até culminar com a de San Antonio, de Salto, onde concentrava-se uma grande força argentina, comandada por Brown.

Embora ainda faltasse muito para o final da guerra, a significativa vitória de Salto, que teve como principal conseqüência a recuperação, para o livre comércio, de toda aquela região fluvial, fez com que a figura de Giuseppe Garibaldi ultrapassasse as fronteiras da América Latina. Isto porque, com a participação da França e da Inglaterra no conflito, diversos jornalistas europeus estavam em Montevidéu, cobrindo os acontecimentos. Nascia, então, o herói, o revolucionário que foi, em seguida, festejado nas obras de escritores como Alexandre Dumas e George Sand. Começava a surgir o mito, o de um homem que, à frente de um grupo de italianos, emigrados e refugiados, lutava no Uruguai contra a tirania de Rosas, levando como símbolo a camisa vermelha e uma bandeira na qual fora pintado o vulcão Vesúvio. Bandeira negra, cujo significado para a Legião Italiana era o luto pela opressão na qual a Itália ainda vivia. Estavam, então, criadas as condições para que Garibaldi, posteriormente, ficasse conhecido como o “herói dos dois mundos”.

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5 Ibidem, p. 55.

6 “Sóbrio [Bento Gonçalves] como os filhos daquela valorosa nação, a sua vida no campo era um assado como um simples soldado: alimento único naquela campanha riquíssima de gado e onde, para guerrear, não se usam os incômodos paramentos, estorvo principal dos exércitos europeus.”
Ibidem, p. 54.

7 Epistolario, op. cit., pp. 24 a 29.

8 Le Memorie di Garibaldi..., op. cit., p. 57.

9 Ibidem, p. 125.

10 “Sono infatti convinto che la più grande capacità di Garibaldi, anche se certo non l’unica, si sia manifesta quante volte egli riuscì a combinare accortamente il momento politico e il momento tecnico-militare dell’azione bellica”. CEVA, Lucio, Garibaldi Stratega. In: Garibaldi dopo i Mille (conferenze), Turim: Museu Nacional do Risorgimento Italiano, 1983, p. 41.

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Naquele momento, Giuseppe Garibaldi não apenas era festejado em Montevidéu, mas sobretudo emergia como uma figura de que a Itália necessitava, quando um novo ciclo revolucionário estava em gestação na Europa. Por outro lado, ele também começava a receber notícias animadoras do seu país, até que, no início de 1848, soube da reforma pontifícia e da então eventual possibilidade de uma unificação sob a égide de Pio IX11.

O retorno à Europa com o prestígio
das lutas sul-americanas

A formação de Garibaldi foi feita essencialmente na América Latina, e a experiência revolucionária do Brasil e do Uruguai originou um comportamento, por um lado, mais solto, mais livre do que o europeu e, por outro, com muitas desconfianças nas instituições parlamentares. Das atitudes dos caudilhos, tantas vezes por ele criticadas, herdou algumas características que dificultaram bastante suas relações com o mundo oficial piemontês. Sem dúvida, o comportamento ditatorial, também presente em Bento Gonçalves, pode ser observado em diversas ações de Garibaldi. Em várias passagens, chegou a justificá-lo em seus escritos12. O poncho sempre presente, sobre a camisa vermelha, nas campanhas da Itália, era mais do que uma lembrança latino-americana, era o próprio símbolo de um homem transformado pelo contato com outra cultura.

A atuação de Garibaldi na Europa deu-se em duas etapas. A primeira delas, entre 1848 e 1849, quando o processo de unificação parecia condenado ao fracasso em vista da retomada do poderio da Áustria em território italiano. A segunda, a partir de 1859, quando, já de volta de outro exílio, engaja-se novamente na luta para a expulsão dos austríacos, desta vez ao lado de Vittorio Emanuele II. Quando o “Speranza” aportou em Nice, em junho de 1848, e ali desembarcou Garibaldi, a euforia das rebeliões de janeiro, em Palermo e de março, em Milão e Veneza, já havia cedido lugar a um clima bem mais comedido e que em breve se transformaria na grande decepção da derrota de Custoza.

Próximo a Mantova, no dia 5 de julho, o rei, Carlo Alberto, recebia aquele revolucionário que, em 1834, havia condenado à morte. Agora, porém, era um herói, um nome conhecido não apenas na Itália, mas em vários países europeus, e tanto podia servir aos interesses da Casa de Savóia — que almejava um Grande Piemonte — como também ameaçá-la, caso levantasse a bandeira da república13. Mas Garibaldi acreditava que o mais importante era expulsar o opressor, lutar contra a Áustria, ainda que para isto tivesse que contar com o apoio da monarquia, abdicando do ideal republicano14. Sonhava, porém, com uma insurreição popular, o que estava longe de ocorrer, pois os camponeses, secularmente explorados e pouco sensíveis à causa da unificação, não respondiam da maneira como ele havia imaginado, pactuando, inclusive, com o inimigo. Mas, por seu lado, o aristocrático exército piemontês também via com desconfiança aquele homem que queria uma “guerra per bande”15.

Os anos de 1848 e 1849 foram um período difícil. Pio IX, que havia assumido suas funções, em 1846, como um papa liberal e até mesmo constitucionalista, revelava-se incapaz de manter uma oposição aos austríacos, temeroso, também, de perder o poder temporal sobre seus estados, o que acabou ocorrendo por um breve período, quando Roma se tornou republicana. A monarquia, após a derrota de Custoza, em julho de 1848, agia com cautela. Quando decide declarar novamente guerra à Áustria, é vencida, em março de 1849, em Novara, o que leva Carlo Alberto a abdicar em favor de seu filho, Vittorio Emanuele II.

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11 Não apenas Garibaldi, mas diversos patriotas italianos acreditaram, num determinado momento, que Pio IX seria capaz de fazer as reformas necessárias para que Roma se tornasse uma peça-chave na unificação e no combate aos austríacos. Em 16 de julho o papa proclama uma anistia para todos os condenados políticos, permitindo o retorno dos exilados. Mas, na realidade, tudo foi se tornando mais complicado quando faltou ao Vaticano a coragem necessária para seguir em frente apoiando a liberdade.

12 “Repubblicano, ma sempre più convinto della necessità d’una dittatura onesta e temporaria a capo di quelle nazioni che, come la Francia, la Spagna e l’Italia, sono vittime del bisantismo il più pernicioso.” Le Memorie di Garibaldi..., op. cit., p. 11.

13 Tanto Carlo Alberto quanto, posteriormente, Vittorio Emanuele II, utilizam a grande popularidade de Garibaldi para seus propósitos de fortalecer a monarquia e ampliar o reino, com a unificação dos Estados italianos. No entanto as constantes referências do revolucionário à liberdade e ao direito dos povos, bem como seu anticlericalismo fazem com que seja também uma figura temida pela aristocracia.

14 “Io fu repubblicano; ma quando seppi che Carlo Alberto si era fatto campione d’Italia, io ho giurato di ubbidirlo, e seguitare fedelmente la sua bandiera. In lui solo vidi riposta la speranza della nostra independenza: Carlos Alberto sia dunque il nostro capo, il nostro simbolo.” Discurso no Círculo Nacional de Gênova, em 3 de julho de 1848. In: Scritti e discorsi politici e militari, op. cit., p. 88.

15 Garibaldi estará sempre em conflito com os generais piemonteses e seus voluntários serão vistos como um grupo desorganizado e ameaçador, cujo extremismo poderia levantar as massas não apenas em favor da unificação, mas também contra o rei e sobretudo contra o poder temporal do Papa. Não obstante, a chamada “guerra per bande” foi quase sempre bem sucedida, alcançando vitórias significativas.

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Em meio a todos esses acontecimentos, Garibaldi continua lutando, percorrendo a península e juntando-se aos republicanos em Roma, no início de 1849, quando chega a se eleger deputado para a Assembléia Constituinte. Mas também a república romana terá curta duração. O poder temporal do Papa é restabelecido com o apoio não apenas dos austríacos, mas ainda de Luís Napoleão e de seu exército comandado por Oudinot. Garibaldi, que havia também participado de um bem-sucedido ataque ao exército do rei de Nápoles, deve contentar-se em deixar Roma, numa longa e dolorosa marcha para o norte, durante a qual morre Anita, em agosto de 1849.

A monarquia teme perder suas possessões, em face da agressividade dos invasores, e não pretende, então, entrar em novos litígios nem com a França e nem mesmo com a própria Áustria. Não restava, pois, a Garibaldi, outra solução que não fosse mais um exílio, já que ele havia continuado a lutar, com a sua legião, mesmo após a queda de Roma e o retorno de Pio IX. Passando inicialmente pela Sardenha, onde fica sabendo que o ameaçam de prisão, embarca primeiro para Tanger e depois para os Estado Unidos.

Viverá na América do Norte de 1850 a 1854, trabalhando mais uma vez como marinheiro mercante. Viaja muito, vai à Austrália, ao Peru, à Bolívia, à China e, por último, à Inglaterra, onde mantém contatos políticos importantes. Desembarca em Londres em 1854, encontrando-se ali com Ledru-Rollin, com o socialista russo Herzen e com o próprio Mazzini. Naquela oportunidade decide retornar à Itália, ao saber que Cavour não impediria sua volta16. Na verdade a monarquia do Piemonte havia recebido informações de seu embaixador na Inglaterra acerca das divergências entre Garibaldi e Mazzini, o que tornava o primeiro menos perigoso, a seus olhos17.

As campanhas da Sicília e de Nápoles

O retorno de Garibaldi é o início não apenas de uma série de campanhas militares, das quais a mais famosa — a Expedição dos Mil, à Sicília — confirmou seu carisma e suas qualidades de estrategista, mas também de um conturbado período no qual ele irá se chocar freqüentemente com a ambigüidade das posições de Vittorio Emanuele II e, sobretudo, com Cavour.

Decidido a permanecer algum tempo tranqüilo, instala-se na ilha de Caprera, entre a Córsega e a Sardenha, onde constrói uma casa e cultiva a terra. Mas, a idéia da unificação italiana não o abandona. Quando, em 1859, o reino do Piemonte prepara a chamada Segunda Guerra de Independência, contra a Áustria, com o apoio de Napoleão III, Cavour e Vittorio Emanuele dão a Garibaldi o comando do corpo de voluntários “Cacciatori delle Alpi”, com o qual ele terá oportunidade de demonstrar sua grande habilidade estratégica. Alcança vitórias importantes contra os austríacos, mas insiste na conquista de Roma e na marcha para o Sul, o que não estava nos planos, ao menos imediatos, da Casa Real.

Cavour procurava ser, acima de tudo, prudente. Talvez até mais do que o próprio rei, que algumas vezes se mostrava interessado na possibilidade de aumentar seus domínios. Mas, o primeiro-ministro era um liberal, preocupado com a modernização, nos moldes ingleses, e com a prosperidade da burguesia do Piemonte e da Lombardia e, portanto, pouco animado a estimular uma campanha para a liberação do Sul.

A insurreição da Sicília (Palermo, em abril de 1860), e as diversas revoltas na ilha vão acelerar o processo a favor de uma guerra. Crispi, junto com outros sicilianos unitários, pede ajuda a Garibaldi, que organiza então a Expedição dos Mil, desembarcando em Marsala, a 11 de maio de 1860, e travando uma vitoriosa batalha em Calatafimi. É o início da guerra contra o domínio dos Bourbon e o primeiro passo importante que conduzirá as chamadas Duas Sicílias à integração com o Reino da Itália. Garibaldi conquista Palermo, Messina e, em fins de junho de 1860, assume o título de “ditador”. Suas atitudes, seu carisma e também a maneira como justifica a necessidade de um governo forte, para o bem da população, assemelham-se muito, neste momento, ao comportamento dos caudilhos latino-americanos com os quais conviveu em seu primeiro exílio.

Ao mesmo tempo em que Garibaldi parte para o ataque a Nápoles, onde, mais uma vez vencedor, se instalará no Palácio do Governo, então como “ditador das Duas Sicílias”, Vittorio Emanuele II movimenta-se com suas tropas sardas em direção ao Sul, pois apesar das reticências de Cavour, percebe que a partida está ganha e que a monarquia pode assumir a vitória dos garibaldinos.

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16 Cavour preocupava-se em expulsar os austríacos, mas sem conquistar os Estados Pontificais, protegidos por Napoleão III. Assim, contaria com a boa-vontade da França na guerra contra a Áustria.

17 GALLO, Max. Garibaldi — La force d’un destin, Paris: Éditions Fayard, 1982, p. 210.


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A Inglaterra, neste meio tempo, seguia com sua própria política de neutralidade, porém favorável à unificação e condescendente com os revolucionários que gozavam de uma excelente imagem em Londres. Em Marsala, diversos ingleses possuíam propriedades vitivinicultoras, e navios britânicos encontravam-se ancorados no porto quando ocorreu o desembarque dos Mil18. Interessada sobretudo na paz e na estabilidade, que permitia florescer o liberalismo, esperava que um reino italiano unificado fosse um contrapeso importante ao crescente desenvolvimento francês sob Napoleão III.

Dia 7 de novembro de 1860, um “proclama” participa oficialmente a entrada de Vittorio Emanuele em Nápoles19. Garibaldi entrega, então, o governo ao rei, embora lamentando que Roma continue subordinada ao poder temporal do Papa, sob a proteção dos franceses. No ano seguinte, atacará violentamente Cavour, em um proNúnciamento feito no parlamento italiano, para o qual havia sido eleito. A sessão será muito tumultuada, com grande agitação nas tribunas, repletas de assistentes que ali se encontravam especialmente para vê-lo20.

Garibaldi aceitava com dificuldade a política da monarquia que, apoiada no elemento urbano liberal e na elite, era levada a fazer concessões, especialmente em nível internacional, na luta contra a Áustria. A Casa Real italiana, mas principalmente Cavour, com sua diplomacia voltada para obter ajuda francesa, agia com muita cautela com relação ao poder temporal do Papa, já que Roma era defendida por tropas de Napoleão III. Quando, em 1862, Garibaldi volta a insistir numa campanha para tomá-la, será atacado pelos soldados de Vittorio Emanuele II em Aspromonte, o que um dos historiadores do “Risorgimento” qualifica como uma página negra da história italiana. “Après l’Aspromonte, l’Europe sut que l’Italie avait un gouvernement, mais combien hyprocrite et combien brutal”21.

Republicano e revolucionário

Giuseppe Garibaldi não encerrou suas atividades militares no triste episódio de Aspromonte. Em 1864, esteve pela segunda vez em Londres, dez anos após o desembarque que marcou seu retorno à Europa, vindo do exílio norte-americano. Mas agora suas relações com Mazzini eram mais cordiais, e sua decepção com o reino italiano, muito grande. Encontrou-se novamente com Herzen, com membros de sociedades operárias, retornando à ilha de Caprera sem desistir da idéia de conquistar o Vêneto e Roma. Quando, em 1866, Vittorio Emanuele II, numa aliança com a Prússia, entra novamente em guerra contra a Áustria, Garibaldi está presente, comandando o Corpo de Voluntários.

Novas batalhas, nova reclusão, a “liberdade vigiada” em Caprera e, em 1870, a participação na guerra francesa, em Dijon, lutando pela república. Em outubro de 1870, havia divulgado uma carta aberta à população de Nice, na qual explicava os motivos pelos quais se solidarizava com a França, defendendo a república, e condenando a política de Napoleão III22. Nesta mesma carta, voltava a falar sobre a necessidade de liberar Roma, o que, afinal, ocorreria sem a sua participação, com o exército real, em 1870.

Republicano de primeira hora, mas convicto de que a única possibilidade para a unificação italiana era o apoio aos projetos da Casa Real, Garibaldi foi um revolucionário com um desenvolvido senso de estratégia nos campos de batalha, porém um homem que se adaptava mal às necessidades da política. Justificava as atitudes de Vittorio Emanuele II, das quais, no entanto, discordava, acusando Cavour de manipular o monarca e de ser ele a causa de todos os infortúnios que dificultavam a unificação. Lutava pela liberdade, agia em favor da liberdade, escrevia contra a opressão e trabalhava permanentemente para a unidade do país.

Também fora dos campos de batalha Garibaldi confirmou sua cruzada libertadora. Em 1867 foi à Conferência Internacional pela Paz, realizada em Genebra, e apresentou um programa propondo um sistema de arbitragem internacional que tornasse impossível a guerra entre as nações. Mas, seu discurso, marcadamente anti-clerical, sofreu duras críticas, tanto da imprensa católica quanto da protestante.

O relacionamento de Garibaldi com a esquerda européia foi bastante polêmico, em parte devido a seu caráter impulsivo e individualista. Numa carta a Giuseppe Petroni, em outubro de 1871, critica os “doutrinários” da Comuna de Paris, considerando-a, porém, uma revolta justa de oprimidos contra opressores23. Em novembro desse mesmo ano, escreve a Giorgio Pallavicino, sobre a Internacional:

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18 Ibidem, p. 260.

19 Despacho-proclama, aos napolitanos e sicilianos, aNúnciando a entrada de Vittorio Emanuele II em Nápoles e assumindo a soberania dos Estados do Sul. Milão: Acervo do Museu do Risorgimento (Pesquisa nossa).

20 Scritti e discorsi politici e militari, op. cit., pp. 358-382.

22 Carta de Garibaldi à população de Nice, datada de 5 de outubro de 1870. Citada no Catálogo da exposição Garibaldi dopo i Mille (1861-1882). Turim: Museu Nacional do Risorgimento Italiano, 23 outubro/20 dezembro 1982, p. 74.

23 Carta a Giuseppe Petroni, datada de 21 de outubro de 1871, ibidem, p. 82.


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“(...) io appartengo all’Internazionale da quando serviva la Repubblica del Rio Grande e di Montevideo, cioè molto prima di essersi costituita in Europa tale Società (...)”24

Eleito para o Parlamento em 1874, é considerado um deputado de esquerda, embora uma declaração da Internacional, neste mesmo ano, diga que o socialismo garibaldino é um equívoco. Seu trabalho para melhorar as condições de vida da população é, porém, digno de nota. Em 1875 obtém a aprovação de um projeto favorável à região agrícola em volta de Roma e apresenta sugestões importantes para a navegabilidade do rio Tibre. Defende constantemente o ensino obrigatório e gratuito e a liberdade de imprensa.

No início de 1882, já muito doente, viaja a Palermo, para participar das comemorações do VI Centenário das Vésperas Sicilianas25, atendendo a um apelo de Crispi. Naquela oportunidade, transmite uma mensagem ao povo palermitano, convidando-o a “combattere l’ignoranza, svegliare il libero pensiero”. É um apelo dirigido a “tutti gli italiani, fino alle plebi delle città e campagne”26. Poucos meses depois desta aparição em público e do texto comovente, considerado como seu “testamento político”, Garibaldi morre, dia 2 de junho, em Caprera.

Piangi, Italia, la morte del padre
che i suoi figli correvan ad abraciar.
Che al suon di tromba all’armi
Lor correvan per terra e per mar.”27

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24 “…eu pertenço à Internacional desde quando servia a República do Rio Grande e de Montevidéu, isto é, muito antes de constituir-se tal sociedade na Europa…” Carta a Giorgio Pallavicino, datada de 14 de novembro de 1871, ibidem, p. 82.

25 Vésperas Sicilianas designa a revolta de 1282, contra o rei Carlos da dinastia de Anjou.

26 GARRONE, Alessandro Galante. Garibaldi Politico. In: Garibaldi dopo i Mille, op. cit., p. 40.

27 “Chora, Itália, a morte do pai / que os seus filhos corriam a abraçar / que ao som da corneta às armas / então corriam por terra e mar” Folheto avulso, intitulado Lode al Prode Generale Giuseppe Garibaldi. Milão: Acervo do Museu do Risorgimento. (Pesquisa nossa).


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Fontes primárias e referências bibliográficas

Fontes

EXPOSIÇÃO Garibaldi dopo i Mille (1861-1882). Catálogo. Turim: Museu Nacional do Risorgimento Italiano, 23 outubro/20 dezembro 1982.

GARIBALDI, Giuseppe. Le Memorie di Garibaldi nella redazione definitiva del 1872, . Capelli Editore, Bolonha, 1932;

. Scritti e discorsi politici e militari, vol. I (1838-1861), L Caprelli Editore, Bolonha, 1934;

. Epistolario, vol. I (1834-1848), Istituto per la Storia del Risorgimento Italiano, 1973; I Mille, L. Caprelli Editore, Bolonha, 1933.
PROCLAMA aos napolitanos e sicilianos. Milão: Acervo do Museu do Risorgimento, 7 de novembro de 1860.

Bibliografia básica

CANDELORO, Giorgio. Storia dell’Italia Moderna: Dalla Restaurazione alla Rivoluzione Nazionale. Milão: Feltrinelli, 1990.

Storia dell’Italia Moderna: La Rivoluzione Nazionale. Milão: Feltrinelli, 1990.

Storia dell’Italia Moderna: Dalla Rivoluzione Nazionale all’Unità.
Milão: Feltrinelli, 1990.

GALLO, Max. Garibaldi — La force d’un destin. Paris: Fayard, 1982.

MONTANARI, Luigi (org.). Garibaldi a Ravenna. Ravenna: Societá Conservatrice del Capanno Garibaldi, 1982.

ROMANO, Sergio. Histoire de l’Italie du Risorgimento à nos jours. Paris: Seuil, 1977.

Memória de Garibaldi e a
construção da identidade entre
italianos no Rio Grande do Sul

Núncia Santoro de Constantino
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Doutora em História Social, docente do
Programa de Pós-graduação em História da PUC-RS

As mais freqüentes representações de Garibaldi, no Rio Grande do Sul, são acompanhadas por imagens bem conhecidas: a imagem do general unificador da pátria italiana e a imagem do herói da Revolução Farroupilha. Destes símbolos fazem uso os imigrantes italianos, no processo de construção de uma italianidade no Brasil meridional.

Para analisar o processo de construção da identidade entre imigrantes, é necessário historiar a presença dos mesmos no Rio Grande do Sul, considerando diferentes contextos. Pois, para Conzen, identidade étnica é uma construção cultural que se realiza em determinado tempo histórico; grupos étnicos se recriam constantemente e a etnicidade é sempre reinventada para fazer frente a realidades que mudam, comportando diálogo com a cultura dominante.

Conzen esclarece que, para tanto, os símbolos expressivos da etnicidade ou as tradições étnicas são reinterpretados continuamente; que construir uma identidade implica participação ativa de parte expressiva da comunidade de imigrantes. A mesma autora acrescenta que, nessas comunidades, surgiu uma forma de nacionalismo italiano militar patriótico, presente, sobretudo, nas associações de mútuo socorro que abraçavam símbolos criados no Reino recém fundado; tais associações cultuavam representantes da família real italiana ou heróis do Ressurgimento, sendo Garibaldi o favorito.1 Processo semelhante ocorria em vários países e também no sul do Brasil.

No presente ensaio, pretende-se analisar o papel simbólico fundamental de Garibaldi na construção de uma italianidade, considerando diferentes contextos históricos rio-grandenses, entre 1835 e 1930, com ênfase na imigração, e considerando a participação de Garibaldi na Revolução Farroupilha e no processo da unificação italiana. Delimito como espaço principal a cidade de Porto Alegre, capital da Província, porque apresenta a maior concentração populacional, e porque é espaço de decisões e de confluência entre pessoas de diferentes origens, desde o início do século XIX.

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1CONZEN, Kathlen Neil et. alii. The invention of ethnicity. Altreitalie. Torino: Fondazione Giovanni Agnelli. n.3, ano II, abril, 1990 pp 6;24.

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Qualquer estudo que se possa fazer sobre os italianos no Rio Grande do Sul precisa considerar, no mínimo, três tipos de presença desses estrangeiros: a presença de especialistas e de religiosos notada desde a segunda metade do século XVIII; a presença precoce de profissionais liberais, artistas e comerciantes, registrada a partir da segunda década do século XIX nas zonas urbanas; a presença de italianos através dos grandes fluxos imigratórios estimulados pelo governo, fluxos que também oportunizaram a presença de imigrantes espontâneos, em grande parte provenientes da Itália meridional.

Assim, dentre os pioneiros já havia grandes diferenças culturais, pois eram oriundos de várias regiões italianas; muito maior foi a diversidade encontrada entre aqueles que fizeram parte dos grandes contingentes. Constata-se, portanto, uma grande heterogeneidade entre pessoas que falavam diferentes dialetos, que apresentavam usos e costumes muito diversos entre si, correspondentes a distintas regiões então recém unidas sob o escudo da casa de Savóia.

A partir destas constatações, pergunto como esses imigrantes conseguiram evidenciar italianidade, se a maioria desconhecia o idioma italiano e se, considerando a variável tempo, nem mesmo poderiam ter desenvolvido uma concepção nacionalista, o patriotismo desejado pelas elites responsáveis pela Unificação, presos que ainda se encontravam às diferentes regiões de origem.

Tempo de Imigração

A presença italiana que chamo precoce na capital da Província é ainda esparsa e constituída por indivíduos provenientes das diversas regiões italianas, nos meados do século XIX; há evidências que apontam para grande número de lígures, a exemplo do que aconteceu em outras cidades sul-americanas, como demonstram estudos de Chiara Vangelista.2

Sabe-se que italianos encontravam-se no território do Rio Grande do Sul antes do surgimento de núcleos urbanos. Participaram das guerras entre Portugal e Espanha, assim como das campanhas de demarcação do território, como astrônomos, cartógrafos, engenheiros, cirurgiões. São apenas exemplos de especialistas contratados pelas coroas ibéricas. No século XVIII é uma presença esporádica e rarefeita ao extremo, tornando-se mais notada nas primeiras décadas do século XIX, sobretudo a partir da Revolução Farroupilha. Além de nomes conhecidos como Garibaldi, Rossetti ou Zambeccari, sabe-se que foram muitos os italianos envolvidos no movimento revolucionário: Matru, Cuneo, Carniglia, Valerini, Staderini, Torrisan e outros, que deixaram registro de sua passagem em território rio-grandense.

Na primeira metade do século XIX, a presença de italianos na Província já não é novidade. São elementos ligados à navegação ou ao comércio, como se pode depreender dos relatos de viajantes ou da correspondência diplomática. Porto Alegre, capital administrativa e principal centro comer-cial, exerceu atração para estrangeiros. Não seria diferente com italianos, cujas evidências de presença podem ser encontradas nos livros paroquiais e, mais do que isto, nos livros de registro de batismo, que permitem concluir por relativa fixação, visto que alguns indivíduos batizam vários filhos, sobretudo a partir da década de 1840. Fato é que, por volta de 1850, havia comprovadamente 41 famílias radicadas na cidade. 3

A origem de Porto Alegre encontra-se no povoado formado por açorianos em 1752 que, em 1822, fora elevado à condição de cidade por carta imperial. No início do século XIX o núcleo urbano crescera rapidamente, em decorrência da ampliação da lavoura tritícola, da qual era o principal centro exportador. Com a decadência desta lavoura, a cidade estagnou, entre 1820 e 1858, sendo reativada pelas exportações das colônias alemãs, estabelecidas nas suas proximidades desde 1824.

Nas primeiras décadas do século XIX, houve aquela intensa movimentação política, concentrando intelectuais cujas idéias são veiculadas pela imprensa, depois de discutidas nas lojas maçônicas. A eclosão da Revolução Farroupilha fez com que a cidade fosse ocupada por revolucionários e que, por algum tempo, republicanos italianos nela estivessem atuando.

A partir de 1840, há traços da presença de italianos em Porto Alegre, encontrados na imprensa, como anúncios de estabelecimentos comerciais e participações de falecimento; há maior incidência de registros nos livros de batismo da Paróquia Matriz de Nossa Senhora Mãe de Deus. De 1850 em diante, esta presença é constante e, até 1914, será crescente.

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2 VANGELISTA,Chiara. Traders and workers: sardinian subjetcs in Argentina and Brazil. In: RAMIREZ,Bruno & POZZETTA,G. The Italian Diaspora: migrations across the globe. Toronto: News Cultural History Society, 1992. p.37-50.

3 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano da esquina: imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST, 1991.


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Por volta de 1870, já podem ser notados alguns homens que se destacam no grupo italiano, considerado psicossocial em forma de comunidade. Seus componentes têm projeto comum, laços ideológicos, estabilidade e normas de coexistência.4 Analisando suas trajetórias, a característica da estabilidade é percebida, sobretudo, pelo estabelecimento de laços de compadrio.5 O crescimento da presença italiana e a formação de uma comunidade podem ser explicados.

A guerra contra o Paraguai oportunizara bons negócios ao comércio porto-alegrense, como registra Franco. O arsenal ampliara sua produção, chegando a empregar mais de 200 trabalhadores. Foi estimulado o surgimento de indústrias e da Praça do Comércio, fundada em 1858, cujo quadro de associados foi sendo aumentado.6

Desde a década de 1870, apareciam na cidade nítidos sinais de modernização. Foram introduzidos o transporte urbano por tração animal e a iluminação pública a gás. A Companhia Telefônica inaugurou seus serviços; a Praça da Matriz foi embelezada com a inauguração de imponentes edifícios públicos que formaram harmonioso conjunto com o Theatro São Pedro. Fundou-se a Biblioteca Pública, inaugurou-se o primeiro trecho de ferrovia na Província, ligando a capital à zona de colonização alemã.

Em trânsito chegavam à cidade, desde 1875, grandes contingentes de imigrantes italianos, que seguiriam para as colônias recém estabelecidas pelo governo imperial. Os italianos já radicados em Porto Alegre formavam uma comunidade, e logo apresentariam diferenças dos imigrantes que passaram a engrossar os contingentes, grande maioria constituída por camponeses humildes, desprovidos de recursos, atraídos por agentes que atingiam, intencionalmente, as populações rurais mais desamparadas do Vêneto, Lombardia, Trentino e Friuli.7

Alguns conterrâneos de Garibaldi no Rio Grande do Sul ingressaram através do movimento revolucionário, cerca de 30 anos antes. Na década de 1870, apareciam as agremiações fundadas por italianos, sendo a primeira delas na cidade de Bagé, em 1871, seguida de muitas outras e marcadas por inspiração político-patriótica.

Em Porto Alegre, evidenciando uma comunidade, os italianos fundam, em 1º de julho de 1877, a Sociedade “Mutuo Soccorso e Benevolenza”, nome que, em março do ano seguinte, foi mudado para “Vittorio Emanuelle IIº”, em homenagem ao rei unificador recentemente falecido. Dentre os primeiros sócios encontram-se Azzarini e Obino, antigos companheiros revolucionários de Garibaldi. Os estatutos são redigidos ainda em 1877, sendo aprovados pelo Governo Provincial em 1882. Prevêem número de sócios ilimitado, desde que fossem italianos, nascidos em solo italiano ou nas províncias ainda não unificadas, ou ainda fossem filhos de italianos. Foram objetivos estabelecidos à sociedade: unir todos os italianos radicados em Porto Alegre; promover o bem-estar dos sócios; socorrer os mesmos na doença; pagar despesas de enterros; auxiliar na procura de trabalho.8

A premência em construir uma sede própria revela-se à diretoria da Vittorio quando outra sociedade, a Umberto Iº, inicia a construção do seu prédio. Os fundos que haviam sido arrecadados para o Hospital Italiano, insuficientes ao empreendimento, serviram para iniciar as obras do edifício próprio em terreno adquirido na rua Sete de Setembro, área central da cidade.

Às duas horas da tarde do dia 3 de julho de 1904, em cerimônia prestigiada por representantes do presidente do Estado, pelo intendente municipal, por representante do distrito militar e pelo cônsul geral, houve sessão solene de inauguração do palacete. Encerrados os discursos, deram-se “vivas à Itália e ao Brasil” e os brindes foram acompanhados pela banda do 1º Batalhão da Brigada Militar.9 A nova sede passou a ser considerada como imóvel “mais precioso moralmente do que materialmente [...] edifício que conferia decoro e atendia aspirações da coletividade.10

Através de fotografias pode-se admirar a imponência da construção de dois pisos, em estilo neoclássico, com parte da fachada em mármore, seis aberturas frontais, e sacadas de ferro, sendo que as três portas do piso superior encontravam-se guarnecidas, na parte superior, por nichos. Ao centro estava o busto do Rei Vittorio Emanuelle II, ladeado por aqueles de Garibaldi e de Mazzini; destacava-se ainda no frontão uma alegoria à pátria italiana.

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4 BASBAUM, Leôncio. História e Consciência Social. S.Paulo: Global, 1982. p.145-50

5 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da Esquina : imigrantes na sociedade porto-alegrense.
Porto Alegre: EST, 1991.

6 FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre e seu comércio. Porto Alegre: Associação Comercial de Porto Alegre, 1983.

7 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Gli emigranti dall´Italia del sud a Porto Alegre: studio di storia sociale. In: TRENTO, Angelo org. La Presenza italiana nella storia e nella cultura del Brasile. Torino: Fondazione Giovanni Agnelli, 1991. p.263-283.

8 RIO GRANDE DO SUL. Actos do Governo da Província do Rio Grande do Sul de 1882. Porto Alegre: Officina Typographica de Carlos Echenique, 1908. p. 6-21

9 A Federação. Porto Alegre, 4 de julho de 1904.
10 CINQUANTENARIO... Op.cit p. 366-7.

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Os dois personagens republicanos no alto da fachada oferecem indício da orientação política do grupo que dirigia a agremiação. Orientação que é explícita quando a diretoria, no mesmo ano da fundação da sociedade, escolhe Garibaldi como presidente honorário. O general agradece de Caprera, onde se encontra, através de carta escrita em setembro do mesmo ano:

“Miei cari amici,
Grazie per il pregiato titolo di vostro presidente onorario.
Ricordo con gratitudine l’ospitalità ricevuta tra la generosa popolazione del Rio Grande. Sempre vostro,
G.Garibaldi.”11


Agradecia aos membros da diretoria da Sociedade Vittorio Emanuele II, alguns remanescentes dos batalhões farroupilhas, outros da Legião Garibaldina no Uruguai: Viale, Ratto, Raffo, Piccardo, Azzarini, Obino. 12

Construíam uma identidade italiana através de processo semelhante àquele que se verificou em outros países, tendo Garibaldi como personagem símbolo preferido. Entretanto, se tal preferência era perceptível em outras regiões estrangeiras ou brasileiras, muito mais justificada seria no Rio Grande do Sul, onde, na liderança da comunidade, encontravam-se antigos companheiros do General.13

Durante os quarenta anos em que a sociedade funcionou na sede da rua Sete de Setembro, serviu como referência à vida social da cidade, promovendo e destacando a coletividade peninsular através da liderança que exercia em todo o Rio Grande do Sul. Nas suas dependências eram recebidas personalidades brasileiras, representantes de governos estrangeiros e visitantes italianos, como Annita Italia Garibaldi, em 1929, neta do General, cujo nome continuaria sendo homenageado.

Mas a imagem de Garibaldi sofria transformações no curso do tempo, em decorrência de um diálogo permanente com a cultura dominante, sempre a reforçar o papel de símbolo de uma comunidade que se radicara desde muito no Rio Grande do Sul, e que se multiplicara também a partir de 1875, quando ingressaram os primeiros contingentes de imigrantes como resultado da ação do governo imperial. O Rio Grande do Sul passara a desenvolver projetos de colonização, com recrutamento de imigrantes no norte da Itália. Assim, foram chegando os italianos e formando os primeiros núcleos coloniais: Nova Milano, Conde d’Eu, Dona Isabel, Caxias, Alfredo Chaves, Silveira Martins, entre 1875 e 1884. Mas o sistema de colonização seria efetivamente desenvolvido pelo Governo Estadual, uma vez implantado o regime republicano.

O grupo ampliara-se muito depois da fundação da Società Vittorio Emanuele II. Seus fundadores evidenciaram consciência de nacionalidade, cultuaram os heróis e os feitos do Ressurgimento, pois o nome de Garibaldi já estava glorificado na Itália. É o retrato de Garibaldi que se encontra na parede da casa dos que desejam ser italianos. Foi reproduzido em série pelo fotógrafo Calegari, feito Cavaliere pelo representante do Reino da Itália. O ateliê Calegari vende uma fotografia pintada a óleo, representando o general da Unificação, vestido com a camisa vermelha, uniforme dos soldados que fizeram parte da Expedição dos Mil.

Dentro em pouco outra representação somar-se-ia à figura do general, extraída da tradição rio-grandense, resgatada da narrativa da Revolução Farropilha.

Tempo de crise e revolução

A Província encontrava-se mal e a insatisfação manifesta-se entre os poderosos. Proprietários rurais formam o grupo de poder desde que as sesmarias começaram a ser generosamente distribuídas. Das estâncias comandava-se os homens e a produção; delas saíam as ordens que administravam as vilas, através de suas pobres câmaras. Estas, como instituições dependentes das ordenações portuguesas, tinham pouquíssima autonomia. Entretanto, mais e mais insatisfação notou-se quando a dependência do poder central perpetuava-se, uma vez realizada a independência política de Portugal.

Se idéias republicanas e federalistas manifestavam-se no Brasil desde o final do século XVIII, foram neutralizadas na euforia em torno de D. Pedro, que se fizera o primeiro imperador ao desafiar as famigeradas cortes portuguesas, que dizia escravizarem D.João, seu pai. Antes que outro o fizesse, colocou a coroa na própria cabeça, seguindo o conselho recebido.

Ao contrário do que aconteceu em outras províncias, como no Pará ou na Bahia, o Rio Grande do Sul acolheu bem a idéia do país independente, comandado pelo jovem Imperador. Ressurgira a esperança de que as coisas melhorassem, esperança que logo se revelou vã, porque começava um longo tempo de crise.

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11 Cinquentenario della Colonizazione Italiana nello Stato del Rio Grande del Sud: 1875-1925. Porto Alegre: Globo; Roma: Ministero degli Affari Esteri d’Italia, 1925. p.365.

12 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da esquina. Op.Cit

13 Santoro de Constantino, N. & Ospital, M.S., Construção de identitade e associações italianas: La Plata e Porto Alegre (1880-1920), Estudios Ibero-Americanos, XXV, 2, 1999.


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Realizada e consolidada a independência, as elites do sudeste tratam de organizar um estado em que fossem hegemônicas, o que efetivamente transparece na promulgação da Constituição de 1824. O desenvolvimento econômico das outras regiões era prejudicado pela política do Império, a serviço dos interesses do Sudeste. Essa política se manifestava, sobretudo, na cobrança exagerada de impostos e no uso da receita cambial das províncias em benefício do Sudeste.

Durante a década de 1820, cresceram as dificuldades para o Rio Grande do Sul. Os impostos sobre o charque inviabilizavam a produção; a taxa de transporte elevara-se de tal forma que o charque platino alcançava o Sudeste quase pela metade do preço daquele produzido na Província. Os países platinos se reorganizavam economicamente, após suas guerras de independência, produzindo melhor e em maior quantidade, introduzidas máquinas a vapor e mão-de-obra assalariada. Além do mais, para estimular a produção, esses países isentavam de impostos seus produtos, em verdadeira guerra fiscal.

Nossos couros, produto similar àquele dos países platinos e outra importante fonte de renda, pagavam o “quinto” para a comercialização e, se exportados, teriam a tributação duplicada; a erva-mate também perdia mercado, porque todos os produtos rio-grandenses foram sobretaxados, a título de “dízimo”.

A decadência econômica era percebida e discutida, fosse na agricultura, especialmente a do trigo, ou na pecuária; fosse nas manufaturas ou no comércio, como é exemplar o caso do charque.

A situação política agravou-se quando as tropas das Províncias Unidas do Prata invadiram a Província Cisplatina, em 1825, invasão de que resultou um estado independente, a República Oriental do Uruguai. O governo brasileiro reagira, enviando um exército e uma armada para evitar a perda da Província. A batalha decisiva foi a do Passo do Rosário, em fevereiro de 1827, com vantagem para os argentinos. Como sempre, o grosso do contingente brasileiro era constituído por militares rio-grandenses.

A maior parte dos recrutamentos era feita na Província, e a requisição tornava-se “o espantalho geral... Por isso o Rio Grande era denominado ‘Estalagem do Império’”, como escreveu Batista Pereira .14

Francisco de Sá Brito, nascido em 1808 e falecido em 1875, em suas memórias, considera as causas da Revolução Farroupilha, destacando o “despotismo militar que pesou sobre a província, desde a fundação do seu presídio em 1737...” Afirma que, às vésperas da Revolução, o presidente da Província continuava empenhando-se para colocar “farda às costas dos filhos das principais famílias”. Acrescenta que o Barão do Cerro Largo, General José de Abreu, foi a principal vítima da imperícia do General-em-chefe, o Marquês de Barbacena; que o desastre da Batalha do Rosário contribuiu para “indispor os ânimos contra o governo do Brasil”.15

Os militares rio-grandenses acreditavam que o comando das forças militares era um direito que lhes pertencia; Barbacena não só perde a batalha, como aumenta as antipatias regionais. O desastre brasileiro de Passo do Rosário, ou a vitória de Ituzaingó como querem os argentinos, serviu de motivo para uma acirrada campanha contra o governo imperial.

A abdicação de D. Pedro I só fez piorar o quadro, com a polarização em duas facções. De um lado os retrógrados, também chamados galegos, caramurus, restauradores, escravos do Duque de Bragança ou absolutistas. De outro lado os exaltados, também conhecidos como anarquistas, farrapos ou farroupilhas, em referência aos sans-culotte franceses.

A partida de D. Pedro I revolta os retrógrados que, em todo o país, articulam o retorno do Imperador ao trono brasileiro. No Rio Grande não seria diferente, envolvendo sociedades, lojas maçônicas e a imprensa. Em Porto Alegre há tumulto: o presidente Fernandes Braga, que agradava aos exaltados, passara a apoiar os retrógrados, companhando a posição de seu irmão, o juiz de Direito Pedro Chaves que, diante das manifestações de apoio às idéias liberais da Constituinte, toma o Arsenal de Guerra e ordena a repressão; os populares prendem o Brigadeiro Carneiro da Fontoura e provocam vexame ao Visconde de Castro, acusados de ordenarem disparos contra o povo. Em Rio Pardo, verifica-se agudo o conflito que se manifesta com intensidade também em Rio Grande, Cachoeira e Viamão.16

Em todo o país aumentam insatisfações que se materializam no Ato Adicional de 1834, a refletir negociação e conciliação, mas longe de estabele cer o pleiteado federalismo. Estabelecida a Assembléia Provincial no Rio Grande do Sul, nela passam a atuar deputados das diferentes facções, acirrando-se o debate, para o qual então existia um espaço apropriado. Já na sua abertura, o discurso do presidente Fernandes Braga menciona uma conspiração para entregar o Rio Grande aos países platinos, e aponta alguns deputados influentes como responsáveis, entre os quais Bento Gonçalves.

Em junho de 1834, encerram-se os trabalhos na Assembléia, em meio à ampla conspiração que refletia um clima de revolta no país. Todas as regiões brasileiras de alguma forma lutam contra o centralismo do Império, com exceção da região Sudeste, interessada em mantê-lo porque concentrava o poder entre seus representantes. Em Pernambuco, durante 1824, eclodira a Confederação do Equador e, em 1835, além do Rio Grande do Sul, sublevou-se a Amazônia no movimento denominado Cabanagem; dois anos mais tarde verificou-se, na Bahia, a Sabinada; em 1838 eclodiu a Balaiada no Maranhão e, em 1848, após o término da Revolução Farroupilha, novamente Pernambuco foi conflagrado pela Praieira. Esses movimentos, acompanhados de outros de menor repercussão, todos sufocados a ferro e fogo, demonstram que a revolução no Rio Grande fez parte de uma ampla revolta nacional contra o centralismo imposto pelo Sudeste, como afirma Freitas. 17

Sob o ponto de vista ideológico, sabe-se que a rebelião no Rio Grande absorveu elementos do liberalismo europeu que estiveram também difusos no movimento de independência dos Estados Unidos, na Revolução Francesa e nos processos de independência das colônias latino-americanas em geral. Mas foi efetivamente o ideal federalista que catalisou os principais objetivos. Para a elite rio-grandense, constituída basicamente por estancieiros, interessava uma autonomia política que permitisse desenvolvimento econômico. Bem mais do que um real liberalismo, exigia-se o laissez-faire, laissez passer, ou seja, uma maior liberdade para a ação produtiva.

Tanto é que o projeto de Constituição da República Rio-grandense não reflete os princípios democráticos do liberalismo francês, tão decantados nos primeiros anos do século XIX. Neste projeto rio-grandense, os escravos foram excluídos da nacionalidade e nem mesmo alcançaram a igualdade civil, fundamento da moderna nação liberal. Discriminava ainda mais do que o regime monárquico, ao negar a cidadania aos libertos nascidos no Brasil. Por outro lado, também excluía da vida política a maior parte da população livre, porque estabelecia eleições censitárias. Seriam excluídos de votar “os criados de servir”, com exceção dos “guarda-livros, dos primeiros caixeiros das casas de comércio, dos administradores e capatazes das fazendas rurais”. Todos poderiam ser votados, “menos os que não tiverem de renda líquida anual a quantia de trezentos mil réis, (...) os libertos (...) os que não professam a religião católica romana”18.

Assim, ficavam de fora do sistema peões, agregados, negros, índios, colonos, enfim, o povo que lutou e morreu, permitindo manter uma guerra durante dez anos, como sustenta Moacyr Flores, ao afirmar que a Revolução Farroupilha caracterizou-se por ser movimento de minoria prestigiada e dominante.19 Representava forma de alcançar projeto político que atendia principalmente os estancieiros e, por isso, não recebeu apoio de todos os grupos sociais provinciais, apesar de que a autonomia regional traria benefícios à população rio-grandense em geral, já que algum desenvolvimento só seria possível sem os entraves impostos pelo governo imperial.

Repete-se que, na ideologia do movimento, destaca-se o federalismo. Se a autonomia não fosse alcançada através da formação de um estado nacional nos moldes federativos, tratava-se de proclamar um estado republicano independente. A criação da República Rio-Grandense decorre fundamentalmente de tensões de caráter econômico que, somadas àquelas de caráter político e administrativo, desencadearam a luta armada.

A insurreição começa com a ocupação de Porto Alegre que, um ano depois, é retomada pelos imperiais. Nesta primeira fase, Tito Livio Zambeccari tornara-se secretário de Bento Gonçalves. Encontrava-se na capital da Província desde 1834, exercendo atividades junto a lojas maçônicas e trabalhando como redator em jornais republicanos que iam surgindo, onde tratava de divulgar os ideais da Giovine Italia. Dessa maneira, tentava contribuir com as idéias de Mazzini para a revolução rio-grandense que se encontrava em gestação. O Conde Zambeccari é preso juntamente com Bento Gonçalves; ambos são levados ao Rio de Janeiro, de onde deportam o revolucionário italiano.

A fase revolucionária inicia, portanto, em 1836, com a retomada de Porto Alegre; outros líderes passaram a conduzir o movimento durante a período em que Bento Gonçalves esteve preso. A Província separou-se do Brasil, com a fundação da República Rio-grandense; ocorre a tomada de Laguna pelos republicanos e, nesta fase, muitos são os italianos a ingressarem no movimento, como Anzani, Rosseti e Garibaldi.

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17 FREITAS, Décio. Federação ou morte. Jornal Universitário, Porto Alegre, outubro de 1984.

18 PROJETO DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA RIO-GRANDENSE. Apud. FLORES, Moacyr.
Modelo político dos Farrapos. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1978.

19 FLORES, Moacyr. Op Cit.

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Francesco Anzani lutara pelos liberais na Península Ibérica e, no Brasil, prestou serviços à República Rio-grandense, primeiro no jornalismo doutrinário, depois como comandante de infantaria. Luigi Rosseti estava no Brasil há cerca de dez anos, participando ativamente da Congrega Giovine Italia no Rio de Janeiro.

No ambiente da Corte as idéias liberais circulavam há algum tempo. O republicanismo era latente desde a década de 1820, quando surgiu a Congrega para difundir os ideais mazzinianos. Salvatore Candido afirma que, desde a segunda década do século XIX, havia numerosas coletividades italianas no Brasil, formadas principalmente por italianos setentrionais, a maioria oriunda de cidades portuárias.20

Gênova, Savóia e Nizza tinham intercâmbio constante com os portos mais movimentados do Atlântico, como Buenos Aires, Montevidéu e Rio de Janeiro, desde que os países americanos fizeram suas independências políticas. Escreve Candido que “[...] a possibilidade de encontrar-se rápidos meios de ganhar a vida e a facilidade de enriquecimento favoreceram, em primeiro lugar, a deserção de tripulantes das embarcações mercantis sardas. Estes elementos formariam, em seguida, núcleos familiares e são, sucessivamente numerosos, também, os exilados políticos”21.

Os novos Estados que se organizavam no continente sul-americano tinham necessidade de atrair gente ativa que fosse capaz de colaborar na formação de uma nação. À medida que as pesquisas se desenvolvem, observa o mencionado autor, há possibilidade de publicar sucessivamente listas com nomes de emigrados civis e militares, “ou melhor, militarizados”, que partiam para a Argentina, Uruguai e Brasil. Entre fontes documentais encontradas na Itália, aparecem nomes de pessoas que desenvolviam atividades consideradas subversivas no Rio de Janeiro, durante a década de 1830, acusados de pertenceram ao movimento Congrega della Giovine Italia: Giacomo Alessi, Gio Batta Folco, Vincenzo Raimondi, Cesare Corridi, Giuseppe Stefano Grondona, Cuneo, Rossetti,. Luigi Vaccani, Michele Lando, Paolo Tausch Di Livorno, Carlo Belgrano, Giacomo Cris ou Gris e Pietro Gaggini, que viveram e trabalharam no Rio de Janeiro.22

O movimento mazziniano desenvolvia-se, inclusive em São Paulo, onde foi assassinado Libero Badaró, médico lígure que estudou nas universidades de Pavia, Bolonha e Turim. Perseguido na Itália por suas idéias liberais, embarcara para o Brasil em 1826, vivendo por pouco tempo no Rio de Janeiro, transferindo-se para São Paulo, onde exerceu a medicina, além de lecionar matemática e geometria. Funda um jornal, o Observador Constitucional, divulgando idéias liberais e criticando o Imperador pela desobediência à Constituição e pelo despotismo. Em 20 de setembro de 1830, foi assassinado à porta de sua casa, fato que desencadeou levantes populares e que está na origem da abdicação ao trono por parte de D.Pedro I, suspeito de ser o mandante do crime.23

A conspiração liberal de origem italiana estendia ramificações e, no Rio de Janeiro, Rosseti faz o contato com Bento Gonçalves e com Zambeccari, quando estavam na prisão. Naquela ocasião, apresentou-lhes Giuseppe Garibaldi, também foragido, pois condenado à morte na Itália. Ambos recebem do chefe revolucionário uma carta de corso e partem para o sul no veleiro Mazzini. Alcançam o Uruguai de onde retornam ao Rio Grande, chegando à capital da nova república, Piratini, onde Rosseti funda e redige o jornal O Povo que estampa na primeira página o dístico de Mazzini: O poder que conduz a revolução deve preparar as almas dos cidadãos para os sentimentos de fraternidade, modéstia, igualdade, ardente e desinteressado amor pela Pátria.24

Assim, Garibaldi chegou ao Rio Grande do Sul em 1838, com outros italianos. Na Estância do Brejo, propriedade da família de Bento Gonçalves, encontrou os dois lanchões que foram transportados sobre rodas, puxados por bois, até a barra do rio Tramandaí, onde foram lançados ao oceano, em façanha extraordinária. Um dos lanchões, o Farroupilha, naufragou, resultando na morte de sete revolucionários italianos. O Seival alcançou Santa Catarina, onde ajudou a derrotar os imperiais.

A reação dos imperiais não tardou, bloqueando os farroupilhas. Naqueles dias de Laguna, sob o disparo de canhões, Garibaldi encontrou Ana Maria de Jesus Ribeiro que estava com 28 anos e era casada com Manuel Duarte de Aguiar. Garibaldi, enamorado, levou-a consigo quando partiu, em outubro de 1839, enfrentando o bloqueio da marinha imperial.

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20 CANDIDO, Salvatore. L’azione mazziniana in Brasile ed. il giornale ‘La Giovine Italia’ di Rio de Janeiro (1836) attraverso documenti inediti o poco noti. Estratto da Bolletini della Domus Mazziniana, Pisa, n. 2, 1968.

21 Id. Ibid. p.3-4.

22 Id. Ibid. p.p.4-6; 32-3,42.

23 CENNI, Franco. Italianos no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Edusp, 2003. pp. 65-73.

24 O Povo, jornal de Piratini, n.1, 1 de setembro de 1838.


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Mas o movimento revolucionário enfraquecia paulatinamente e Garibaldi abandonou a luta pelos farroupilhas em 1841. Três anos depois começava a última fase revolucionária, a chamada fase de pacificação, terminada em março de 1845 com a Paz de Ponche Verde. Garibaldi já havia partido para o Uruguai, levando como indenização uma tropa de bois. Com a mulher e o filho alcançou Montevidéu, de onde solicitou anistia a D.Pedro II, conforme documentos transcritos e comentados por Spalding.25 Ensaiava a paz com a monarquia, para, mais tarde, aliar-se aos príncipes do Piemonte, na luta pela Unificação.

O jovem Garibaldi estivera entre os propagandistas republicanos na primeira hora, inspirados no pensamento de Mazzini; tentara inclusive a insurreição de Gênova que, malograda, valeu-lhe a condenação à morte, a fuga para Marselha e depois para a América. Retornou à Itália em 1848, para continuar a luta, quando Roma viveu uma breve temporada republicana que culmina com a derrota de Mazzini e de Garibaldi.

Ao retornar, os tempos eram bem outros, quando a presença de Cavour junto aos soberanos do Piemonte resultava em complexa política externa, cujo objetivo era proclamar o Reino da Itália. Em 1861 está proclamado o Reino, e Garibaldi, aliando-se a Cavour, organiza a Expedição dos Mil, cujos soldados voluntários foram chamados os camisas vermelhas, para incorporar o sul da península ao novo reino.

A massa popular esteve ausente do movimento de unificação, constituído por intelectuais, comerciantes, estudantes universitários que “... foram os primeiros a unir-se aos voluntários de Garibaldi” 26. Porque Garibaldi, perigosamente, tomava conta da cena que deveria ter Vittorio Emanuelle II como principal protagonista. Garibaldi, que representava a facção política à esquerda, sofreu toda a sorte de pressões e retirou-se para Caprera.

Tempos republicanos

A república foi implantada no Brasil em 1889 e, em 1893, eclodia a sangrenta Revolução Federalista. Interrompidos pela guerra, os fluxos imigratórios retomam a intensidade. Ficou evidente que muitos italianos haviam feito oposição à facção liderada por Julio de Castilhos, de inspiração positivista, inclusive aderindo às hostes federalistas chefiadas por Silveira Martins, e que acabaram derrotadas. Houve freqüentes tumultos nas cidades e na zona colonial, acompanhados por respectivas ações diplomáticas.27

Mas, na virada para o século XX, o processo de construção da italianidade está novamente progredindo, reforçado pela ideologia que aponta para Augusto Comte. O grupo positivista fizera propaganda da república no Rio Grande do Sul, e tomou conta do governo estadual desde os primeiros tempos, vencidos os maragatos, Com a morte de Julio de Castilhos, o novo presidente do Estado, Borges de Medeiros, procurou revitalizar a colonização. As antigas colônias passaram a ser cuidadosamente protegidas enquanto desenvolvia-se um projeto de nacionalização. O ingresso de italianos passou a caracterizar-se pela imigração espontânea em detrimento da subvencionada, segundo diretrizes que foram expressas nas Teses Financeiras e Econômicas do Partido Republicano Riograndense. Ademais, ao assumir o poder, Borges de Medeiros passou a usar como estratégia um elaborado discurso de valorização do imigrante italiano que, assim, acabou servindo como modelo de cidadão operoso e ordeiro, capaz de fácil assimilação. Nacionalismo e operosidade passaram a ser a tônica do discurso oficial. Pretendeu-se neutralizar os chamados “quistos étnicos” e incentivar mudanças nas relações de produção, estimulando o crescimento de uma classe social intermediária.

A reativação do projeto de colonização faz-se também sentir na cidade, onde a presença de imigrantes aumenta e diversifica cada vez mais. Relatórios consulares como o de Pasquale Corte, em 1884, ou o do Cônsul De Velutiis, em 1908, fornecem informações sobre os súditos italianos em Porto Alegre, que perfazem mais de 10% da população da cidade da década de 1890. Esclarecem ainda sobre o grande número de meridionais, com predominância de calabreses da Província de Cosenza.

No final do século XIX, o republicanismo gaúcho adere e reforça o movimento regionalista, acompanhando o romantismo iniciado tardiamente no sul pelos membros da Partenon Literário. Revitaliza-se o culto da Garibaldi de outra forma e com bons motivos.

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25 SPALDING, Walter. A epopéia farroupilha. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército-Editora, 1963. p.248-9.

26 SMITH, Denis Mack. Storia d’Italia. Roma-Bari: Laterza, 2000. p. 17.


27 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Emigranti e Guerra Civile nel Brasile di fine ottocento. Daedalus. Castrovillari; n. 10 janeiro-junho 1993.

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Ao tempo da Guerra do Paraguai, precisamente em 1868, um grupo de intelectuais fundara o “Partenon Literário”, agremiação que iniciou a exaltação da temática gauchesca, com apologias às figuras heróicas. Veicula um movimento literário romântico e tardio, valorizando o gaúcho como figura do nativo puro, valente, generoso, na trilha iniciada por José de Alencar ao publicar o romance O Gaúcho; o autor, que nunca veio ao Rio Grande do Sul, idealiza o tipo humano que denomina “centauro dos pampas”.28 Escreve Sergius Gonzaga que “...Caberia aos integrantes da Sociedade Partenon o esforço para a louvação dos tipos representativos mais caros à classe dirigente.” 29

No início do século estava inaugurada a estátua de Garibaldi, na praça principal da Cidade Baixa, bairro por excelência dos italianos, cuja coletividade fez a doação do monumento, depois de grande campanha para obtenção de fundos. Em termos de outros países, a homenagem aconteceu tardiamente, mas verificou-se em momento mais do que oportuno. A representação de Garibaldi já não está sendo feita com o fardamento militar que envergou na campanha da Unificação. Garibaldi agora traja o poncho, vestimenta típica do gaúcho, que adotou como agasalho. Aos seus pés encontra-se Anita, sublinhado o seu papel de mulher corajosa, guerreira.

A representação de Garibaldi vestindo o poncho surgirá timidamente, mas a figura de Anita é destacada; aparece a catarinense guerreira, companheira nos percursos revolucionários no Brasil e na Itália.

Logo no final do século XIX surgiria a primeira agremiação tradicionalista: o Grêmio Gaúcho de Porto Alegre, criado em 1898 pelo republicano e positivista José Cezimbra Jacques.30

A Revolução Farroupilha assumia o primeiro plano na narrativa histórica rio-grandense. E um destaque foi atribuído a Garibaldi em decorrência de sua participação na mesma. No herói dos dois mundos demonstrava-se a magnitude dos ideais farroupilhas, por um lado. Por outro, demonstrava-se a profunda ligação e dedicação dos italianos ao Rio Grande e à sua gente, lembrando em plano secundário Zambeccari e Rosseti.

Em 1883, foi aberto o trecho inicial da Rua Garibaldi. Em 1907, no dia do centenário do nascimento de Garibaldi, a antiga Praça da Concórdia, coração do bairro por excelência dos italianos, a Cidade Baixa, recebeu do Intendente José Montaury o nome do General. Alguns anos mais tarde, como foi visto, precisamente em 1913, estava inaugurada a estátua de Garibaldi na praça que tem o seu nome.

Há grandes festejos marcando o cinqüentenário da colonização italiana no Rio Grande do Sul, em 1925. Um grande álbum é publicado pela Editora Globo, com subsídios do governo italiano, aberto com mensagens do presidente do Estado, Borges de Medeiros e de Benito Mussolini, ministro do exterior, que desenvolve uma ação diplomática mais agressiva, com cooptação das lideranças da comunidade italiana. A cultura italiana estava sendo exportada com eficiência e o jornalista Mansueto Bernardi fez-se dela portador; na Editora Globo, do conterrâneo Bertaso, faz publicar autores italianos, divulgando suas obras. Cada vez mais destaca-se na coletividade italiana, a quem honra pelo seu prestígio intelectual.

Pois no álbum do Cinquantenario, feito um proêmio pelo Embaixador italiano Luigi Ardoini, o primeiro texto é intitulado Gli Italiani e la Repubblica di Piratiny, escrito por Mansueto Bernardi, coordenador da obra, que inaugura uma narrativa dos italianos no Rio Grande por eles mesmos, narrativa que tardava. Mansueto era um intelectual a representar italianos, porque podemos considerá-lo também brasileiro. Nascera em 1888, e veio com três meses do Vêneto, criando raízes em Veranópolis; era membro destacado do Partido Republicano Riograndense, ocupou cargos públicos num tempo de nacionalismo exacerbado.

Em plena década dos 20, depois da Semana de Arte Moderna, quando fica evidenciada a identificação com as renovações artísticas do Velho Mundo, depois do levante do Forte de Copacabana, da Revolta de 24 e da formação da coluna Prestes, havia um certo espírito de época a defender a cultura regional.

Lembra Gutfreind que, apesar de ser limitado o ambiente cultural no início dos anos 20, também notou-se no Rio Grande do Sul uma relativa efervescência cultural e o mais importante acontecimento foi a refundação do Instituto Histórico Geográfico, logo em 1920, aglutinando importante grupo de intelectuais, cuja produção poderia ser entendida a partir de duas matrizes: uma de orientação lusitana e a outra de orientação platina.31

Em todos os sentidos as mudanças aceleravam-se desde o final da Primeira Grande Guerra. A Revolução de 30 é uma forma de expressão do conjunto de transformações que alcançava a sociedade brasileira e um produto de heterogêneas alianças. Explode no sul, mais precisamente em Porto Alegre e seu líder é um gaúcho. O “Rio Grande em Pé pelo Brasil” foi frase proferida por Vargas ao final do discurso que inaugurava a Revolução. E continuou sempre salientando a liderança do Rio Grande na regeneração do Brasil. 32

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28 OLIVEN, p.51.

29 GONZAGA, Sergius. p. 125.

30 OLIVEN, p. 72-3.

31 GUTFREIND, pp.11 e 23.


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Com a eclosão da Revolução de 30 fica reforçada a tendência regionalista. O lançamento da obra de Alfredo Varella, sobre a Revolução Farroupilha, em 33, alimenta a tendência, ainda que inserisse a Revolução na platinidade. Contrariava uma tendência historiográfica predominante, que sublinhava o nacionalismo e que negava as intenções separatistas da Revolução, assim como as influências platinas nos nossos hábitos e costumes. 33 A corrente lusitana era representada principalmente por Souza Docca, Othelo Rosa e por Aurélio Porto; ganhava força à medida que se aproximava o centenário da Revolução Farroupilha, festejado com grandiosidade inusitada, em 1935.

A capital revolucionária desejou a modernidade e mostrou-se “moderna” nessas comemorações. No antigo Campo da Redenção, construiu-se o Parque que receberia a exposição internacional, e que passou a chamar-se Parque Farroupilha. A exposição reafirmava a importância da cidade onde começara a revolução de 30, entendida como movimento que conduziria à modernidade. A feira foi ousada, grandiosa, no estilo art deco, símbolo dessa modernidade.

A narrativa da revolução e dos revolucionários foi reforçada. As abordagens em torno de Garibaldi e de sua trajetória no Rio Grande do Sul serão recorrentes e destacadas, motivadas pelo desejo de exaltar a amplitude dos ideais farroupilhas que enalteciam líderes revolucionários, acusados tantas vezes de separatismo. Zambeccari e Rosseti também recebem atenção dos historiadores, identificados com os valores do Rio Grande e com a causa da liberdade.

O esforço de Garibaldi no comando da esquadra farroupilha é descrito com entusiasmo por historiadores fundadores do Instituto Histórico Geográfico, na década de 1930.

Othelo Rosa e Dante de Laytano revezam-se nesta narrativa, o último um filho de italianos imigrantes. São seguidos por Souza Docca e por Walter Spalding, que mantém certa austeridade.

Othelo Rosa exalta o personagem, descrevendo sua passagem pelo Estado como uma fantástica epopéia; sublinha a importância do papel de Garibaldi na Revolução. Laytano enaltece o idealismo garibaldino e destaca a famosa travessia dos lanchões por terra.34

Souza Docca, ainda que de forma contida, descreverá a travessia por terra com os lanchões Seival e Farroupilha, desde Camaquã até Tramandaí, uma vez que, em 1839, os farrapos não tinham porto, pois Rio Grande estava bloqueado pelos imperiais.

Spalding vai mais além registrando razões econômicas que teriam motivado Garibaldi a abandonar a Revolução.35

Com sutis variações, a imagem de Garibaldi permanece no primeiro plano da historiografia rio-grandense. A eclosão da Segunda Guerra, em 39, e a declaração de guerra aos países do Eixo, em fevereiro de 1942, não alteram tal imagem ou, antes, beneficiam o grupo italiano no Rio Grande do Sul.

Não obstante a forma dramática como o tempo do conflito é freqüentemente narrado, sabe-se que os italianos foram tratados com certa “amabilidade”, se comparados aos imigrantes alemães ou a seus descendentes. 36 Pois não era italiano Garibaldi, que tanto contribuíra para a Revolução Farroupilha?

Fato é que, no contexto da Segunda Guerra, os italianos beneficiaram-se da imagem que lhes representava diante da sociedade gaúcha.

Na seqüência da paz, e na rapidez com que se verificaram os tratados entre os dez países, fica reforçada a idéia das afinidades entre a Itália e o Brasil. Tanto que, entre 1941 e 1950, compreendendo o período da guerra e o imediato, a imigração italiana no Brasil aumentaria cinco vezes. Retém-se claramente que aos italianos e seus descendentes convinha um alinhamento com o poder no Brasil, como forma de proteger interesses e alcançar reivindicações; a postura de reconhecimento às autoridades brasileiras foi sempre recomendada pelos representantes da diplomacia italiana. A guerra representava um acidente de percurso, decorrente da vontade dos líderes europeus, com os quais não precisava haver qualquer identificação. Os imigrantes italianos e seus descendentes aproveitavam a oportunidade para evidenciar que desejavam fosse o Brasil a sua pátria.

Nos anos 80, festejou-se o sesquicentenário da Revolução Farroupilha, que foi novamente narrada, desta vez em perspectiva bem mais crítica, através de inúmeros trabalhos, a maioria de natureza acadêmica, acompanhando o surgimento de vários programas de pós-graduação em História no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Uma das novidades surgidas diz respeito à incorporação efetiva de Anita nas narrativas, como resultado da ampla discussão que se tornou possível em torno do movimento feminista ou das questões de gênero na História. Anita passa a ser contada com os olhos do presente, tão diferente dos anos trinta quando se trata da narrativa de mulheres.

A imagem de Garibaldi continuaria sendo mantida como aquela do herói de dois mundos, inclusive do mundo sul-brasileiro. Entretanto, o general unificador, símbolo à formação de uma coletividade, voltou à juventude, vestindo um poncho, como o idealista republicano, capaz de grandes feitos durante a nossa Revolução.

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32 OLIVEN, p. 60.

33 GUTFREIND, p.115.

34 Segundo Flores, Garibaldi entra em contato com os revolucionários em 1836, já deflagrada a guerra. Anita conheceu-o em 1839, quando da invasão de Laguna. Os lanchões Seival e Farroupilha, cuja construção foi fiscalizada pelo irmão de Bento Gonçalves, o juiz de paz José, subiram o Rio Capivari e, sob armações com grandes rodas, foram puxados por juntas de bois até a barra do rio Tramandaí, em percurso de cerva de 50 milhas. O Seival, comandado por Grigs, fez-se ao largo, mas o Farroupilha, comandado por Mutru, levando a bordo Garibaldi, soçobrou , morrendo muita gente, como recorda Garibaldi nas suas memórias.

35 Rosa, Laytano, Souza Docca e Spalding foram membros do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul.

36 CONSTANTINO, 2005.p.p 211-220.

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Referências bibliográficas

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A densidade social do mito: Garibaldi no Centenário da Revolução Farroupilha

Rosemary Fritsch Brum
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Doutora em História do Brasil, socióloga da UFRGS, pesquisadora do Núcleo
de Pesquisa em História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas




O presente texto apresenta algumas linhas de interpretação sobre as potencialidades analíticas da multifacetada figura de Giuseppe Garibaldi, na conjuntura compreendida pela celebração do Centenário da Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, em especial na capital, Porto Alegre, entre 1931 e 1936. Nesse sentido, aventa-se a presença da reconfiguração conforme os interesses em jogo, tais como a exacerbação do mito Garibaldi1 ou sua redução.

Essa trajetória não ficaria imune ao modo de construção do imaginário da auto-representação da migração e colonização italiana para as Américas, tangida pelas perdas decorrentes da Unificação Italiana do século XIX. As dificuldades de absorção da mão-de-obra agrária ao sul, na conhecida questão do Messogiorno, mais a sociedade capitalista representada pelo Norte, tornam a emigração uma interessante saída para desafogar a pressão sobre o frágil novo arranjo de poder.

No Brasil, a economia agroexportadora requeria trabalhadores para a cafeicultura, e os interesses delinearam uma política favorável ao que se lhe seguiu, ou seja, a impressionante massa de europeus, em sua maioria italianos, para substituir a mão-de-obra africana escrava, recém liberta.

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1A narrativa padrão sobre Garibaldi agente histórico concreto do século XIX nascido em Nizza, atual Nice, em 1870, e da configuração do mito “herói de dois mundos”, inicia a partir de sua participação política na conflituosa Unificação da Itália. Aderindo à Carbonária italiana de Mazzini e sua proposta de república que se choca contra a monarquia, o catolicismo e os interesses do Papa, e que levaria posteriormente ao cabo o movimento do Risorgimento, unidade em torno do Piemonte sustentado por Massimo d’Azeglio - tem decretada sua prisão na Itália. A fuga para o Brasil e sua chegada ao Rio de Janeiro (1835/36?) constitui a componente mazziniana da emigração política, ao lado de Livio Zambeccari, Luigi Rossetti, Garioni, Anzani, Cuneo, Dalla Case, Messero, Gris, Terezani Lando, Corrigi. Em seguida envolve-se com a revolução no Rio Grande, a Revolução Farroupilha, (deflagrada em 1935), que proclamaria a República Piratini, sob comando do General Bento Gonçalves, movida pelo espírito federativo contra o Império de Dom Pedro. Em 1939, conhece aquela que seria sua companheira, Ana Maria Ribeiro da Silva, conhecida como Anita Garibaldi, em Laguna, Santa Catarina, ao lutar pela conquista da região para os farroupilhas. Em 1841, chegando ao Uruguai, Montevidéu, empenha-se nas lutas empreendidas na Bacia do Prata entre Frutuoso Rivera e a política do Presidente Juan Manuel de Rosas, da Argentina. Após, retorna com Anita à Itália, em 1848, e retoma sua participação no processo político em curso, falecendo em Caprera, em 1882. Esses dados foram recolhidos na bibliografia corrente, ao dispor da pesquisa histórica e, evidentemente, sempre passível de revisão histórica.

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Para o Rio Grande do Sul foram encaminhados os migrantes conforme o ordenamento da política de colonização de áreas devolutas, que diversificariam a economia com produtos para prover os centros urbanos em expansão, desde que não afetassem a estrutura agrária da pecuária gaúcha e seu mando político. O modo diferencial de instalação dos italianos no Estado, nos minifúndios rurais levados pela mão-de-obra familiar, além dos italianos instalados nas cidades do sul, muitos advindos do Prata, varridos pelas guerras, formariam uma camada de pequenos proprietários e, da República em diante, de vigorosos industriais. O pêndulo político começava a mudar, e a zona da Campanha era forçada a partilhar poderes e projetos.

Na ante-sala do Estado Novo: as comemorações
do Centenário Farroupilha


O processo de industrialização começava a deslocar os poderosos proprietários rurais, ou, no limite, a fazer novas parcerias com a injeção de capitais no setor agrário, no Rio Grande do Sul, timidamente, mas de modo importante no eixo agro-exportador nacional. No século XX, o Brasil urbanizava-se e industrializava-se, ainda que de modo descontínuo. Surgiam novas camadas sociais, além dos imigrantes. Classe média, operariado, profissionais liberais, forças armadas iam enriquecendo o mosaico social.

A crise da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, terá efeitos na política brasileira, assinalando o canto dos cisnes da hegemonia agro-exportadora cafeeira, dado o seu grau de dependência de grupos financeiros, vulnerabilizados com a grande crise.

O centro do poder é questionado pelas oligarquias dos relegados, até então, ao conformismo, desde a Primeira República, à chamada “política café com leite”, alternância no poder da burguesia paulista e parte da burguesia mineira. Perde base de sustentação o governo de Washington Luis, e abre flancos para a provisória união das facções burguesas não alinhadas com a produção agro-exportadora que sustentara o primeiro período republicano.

Em 1927, Getúlio Vargas e João Neves da Fontoura são respectivamente os novos presidente e vice-presidente do Estado. É momento de conciliação: Assis Brasil lidera o Partido Nacional (Aliança Libertadora gaúcha, depois Partido Libertador e Partido Democrático de São Paulo). Na cidade de Porto Alegre, o PRR indica para Intendente Municipal Alberto Bins, que, eleito em pleito pouco disputado, em 1928, permanece no cargo longos 10 anos.

Cresce a contestação ao Governo Washington. Classes médias emergentes, ligadas ao expansionismo da economia urbana, somadas aos setores militares descontentes com os caminhos da República, expressos no Movimento Tenentista dos anos 20, confluem para uma frente de oposições estaduais. No Estado, libertadores e republicanos criam a Frente Única. Com Minas Gerais e Paraíba, fundam a Aliança Liberal, em 1929.

O poder centrado em Getúlio Vargas, iniciado com a Revolução de 30, com a deposição do Presidente da República, Washington Luis, será um poder que harmonizará os setores agrários, que continuam sustentando a economia brasileira, além da injeção de capitais para a promoção das bases da industrialização no país.

Em 1935, o Centenário da Revolução Farroupilha é comemorado sob grande tensão. Alberto Bins preside o Comissariado Geral da Festividade. Mas, a conjuntura pesa sobre o Governo do Estado: José Antonio Flores da Cunha, republicano como Getúlio, o apoiou quando da oposição das oligarquias paulistas descontentes, em 1932, e agora está sob crescente isolamento do poder. Perde a base de apoio local quando o partido liberal gaúcho vê afastarem-se Raul Pilla, Lindolfo Collor, Batista Luzardo, João Neves da Fontoura, e os republicanos de Borges de Medeiros, que, conjuntamente, questionam os rumos da Aliança Liberal. Quando Getúlio visita Porto Alegre para os comemorativos do Centenário da Revolução Farroupilha, está preparada o que viria a seguir, ou seja, a intervenção no Estado e a fuga do Interventor Flores da Cunha.2

Enquanto isso, no plano internacional, desenha-se o cenário para a deflagração da Segunda Guerra Mundial. Os anos de 1930 e 1937 são, pois, de oscilação do governo brasileiro entre o alinhamento com as idéias nazi-fascistas, ou com as forças contrárias. Ao final, o governo Vargas filia-se ao campo das democracias alinhadas, embora internamente esteja longe de empreender, ao contrário, uma política democrática.

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2 No plano político nacional, a eliminação dos focos de oposição segue seu rumo: sustém o movimento dos tenentes, embora persista a polarização social entre os projetos antagônicos entre o integralismo da Ação Brasileira (AIB), de Plínio Salgado, fortemente instalado nas zonas de colonização de migrantes, o comunismo da Aliança Liberal Libertadora (ANL0), com Roberto Sisson, o liberalismo do partido libertador. Na Presidência do Governo Provisório da República, Getúlio intervém, suspende direitos, nomeia interventores nos Estados, não aciona a discussão da Constituição. A pretexto de debelar o comunismo, implanta a Lei de Segurança Nacional, em 1936, com o Estado de Sítio. Enfim, a imposição do autoritarismo no final da conjuntura, com o Estado Novo, a 10 de novembro de 1937, consagra também o controle da massa operária com a implantação da legislação trabalhista de corte corporativista.

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Para os imigrantes, estão reservados momentos difíceis, tais como a suspensão do uso da língua materna, a suspeição sobre as atividades políticas, como uma latente base de sustentação do regime nazi-fascista nas antigas colônias de imigrantes, principalmente no sul do país (Santa Catarina e Rio Grande do Sul).

Nada disso é visível em 1935, nos atos comemorativos, quando as elites italianas visam a hegemonizar a auto-representação dos migrantes italianos. Em que pese o fato de que a força social de uma representação social não seja, forçosamente, equivalente ao seu valor de verdade, ver-se-á como foi possível conjugar fascismo, italianidade, farroupilhas, ao Garibaldi “herói dos dois mundos”.

A síntese de uma identidade simbolizada na costura de mitos e ideários tão divergentes internamente é possível na medida em que estão presentes determinadas condições particulares daquela, e só daquela, conjuntura.

Nesse momento, os italianos e seus descendentes são simultaneamente reféns e autores de uma intriga retórica; pretender uma identidade narrativa que relacionasse o tempo de uma narrativa unívoca, qual seja, a italianidade, com a ação efetiva de cada indivíduo, o que é, na realidade, uma verdade totalitária do social. Trata-se, nesse sentido, do interesse apenas de determinadas frações da colônia italiana no Rio Grande do Sul. Produz-se, assim, a fusão de acontecimentos reais, levados à categoria do mito. Anulam-se os atributos dos símbolos singulares e institui-se a base comum para solidarizar os eventos comemorados.

Entre o dever de memória e o ofício de historiador:
a visita da neta3


O Correio do Povo, jornal diário de Porto Alegre, aos 20 de agosto de 1931, estampa o comentário de Clemenciano Barasque:

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3 Não há como não incorporar, nesse item, as categorias analíticas onde a socióloga argentina Beatriz Sarlo, em recente livro, investe sobre a possibilidade de estarmos diante da guinada “subjetiva”, após a guinada lingüística haver em parte esgotado sua capacidade de sustentação das ciências humanas. O memorialismo hoje retorna para o gosto de historiadores e grande público, sendo o testemunho a dimensão mais crítica da capacidade de, através da linguagem, ligar o plano individual ao coletivo. As memórias escritas pelo próprio Garibaldi prefiguram a investidura do mito Garibaldi.

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“Desde alguns dias, encontra-se nesta capital a escritora Anita Garibaldi, neta de Garibaldi, que percorre a América do Sul, coligindo dados sobre a atuação do grande ‘condottiere’, deste lado do Atlântico. Com a aproximação do centenário farroupilha e a presença, aqui, da escritora que ora nos visita, ocorre-nos, despretensiosamente, lembrar à neta do herói dos dois mundos e da heroína de duas pátrias lançar no seio da colônia italiana, domiciliada no Rio Grande do Sul, a idéia de serem perpetuados os marcos ou padrões, erigidos do próprio local, os dois feitos já imortalizados nas telas cujos ‘clichês’ reproduzimos. (fotos-clichê) No primeiro, revive Garibaldi, guiando, na planície rio-grandense, o transporte, por terra, de sua esquadrilha, da barra de Capivari, na Lagoa dos Patos, à foz do Tramandaí, em 14 de julho de 1839; e o segundo lembra a destemida Anita fugindo a cavalo, levando ao colo Menotti Garibaldi, então recém-nascido em local próximo ao mesmo, da épica façanha um ano depois, como se vê. Malograda a tentativa da República Catarinense, após os combates da Laguna, Passo de Santa Vitória e outros, Canabarro voltava com seu exército, ao qual se havia incorporado Garibaldi. Nessa acidentada marcha do exército republicano, perseguido sempre pelo inimigo, em direção ao sul do Estado, resolveu Garibaldi ficar na costa oriental da Lagoa dos Patos, na estância de São Simião. Pretendia ainda o ilustre ‘condottiere’ construir algumas embarcações, nas quais pudesse transpor a Lagoa dos Patos, atingindo a margem oposta, tornando novamente ao seu arsenal do Camaquã, a fim de construir novos lanchões, que seriam armados com a artilharia deixada por Garibaldi, enterrada nas imediações do antigo barracão-arsenal, cujos pesadíssimos canhões, atualmente recolhidos ao Museu do Estado, não puderam ser armados no ‘Seival’ e ‘Rio Pardo’. Entregue ao afã de construir tais embarcações, o casal Garibaldi e Anita foi, aí, no dia 16 de setembro de 1840, surpreendido com o nascimento de seu primogênito, que tomou o nome de Menotti. Como se vê, o ilustre general italiano, que tanto honrou, depois, as gloriosas tradições da pátria unificada por seu pai, nasceu em plena campanha gaúcha, num acampamento de marcha, como devia nascer o filho de dois heróis. Que glorioso legado cumpriria a escritora Anita Garibaldi, lembrando os seus patrícios perpetuar, no centenário farroupilha, em dois monumentos, no próprio local, a glória de seus maiores!”4

Prosseguindo na pesquisa, a Anita escritora lança a obra “Garibaldi na América”, traduzida por Renato Travassos e publicada pela ALBA, no Rio de Janeiro, em 1931. Filha de Ricciotti, nascido em Montevidéu, em 1847, são suas palavras sobre essa jornada:

“Ao chegar ao porto do o Rio de Janeiro, eu bem podia parecer uma dessas viajantes que andam em busca de sensações estéticas e prazerosas; o livro, porém, que eu trazia em mãos, não era o infalível Baedeker, mas sim, a auto-biografia do meu avô, escrita pelo seu próprio punho e letra, dando-me então a impressão de ouvir uma voz grave e dulcíssima a sussurrar-me: ‘Atenção, filha; foi aqui!’ E o livro continha parte da história de três grandes povos, o Brasil, o Uruguai e a Argentina [...].”

Nas suas elucubrações, segue a escritora Anita:

“[...] Que poderia representar o Rio de Janeiro para Garibaldi? Um ponto de contato; um ponto de partida, talvez. A idéia que perseguia desde a Itália, a idéia básica para sua vida futura, forçosamente de desterro, seria a de sempre e que era o centro de sua existência: continuar combatendo pela redenção da Itália, em qualquer parte do mundo que lhe assinalasse a sorte. Pôr em execução esses preceitos, refazer a trama, reencetar o contato com Mazzini e os demais conspiradores, em suma, de qual quer modo que fosse, a luta pela idéia[...].”5

Antes da pesquisa para seu livro, percorrendo os caminhos indicados na auto-biografia do avô, possivelmente Anita terá usado como base o escritor Alexandre Dumas, no livro datado de 1870, “Memórias de Garibaldi”, no qual o escritor registra inúmeras conversas com Garibaldi e que foi traduzido para o Brasil por Antonio Caruccio-Caporale.

Essas obras constituem os principais parâmetros que sedimentam o campo compreendido entre o mito Garibaldi e a História. Uma crítica textual — que não cabe nessa nossa proposta, apenas aNúncia-se, poderia salientar o aspecto assinalado por Man (1979, in SARLO, 2006, p.31) que, ao seguir uma autobiografia, está-se diante da auto-referência do eu, onde

“ a consciência de si não é uma representação, mas a ‘forma de uma representação’, a figura que indica que uma máscara está falando. Fala o personagem (persona, máscara do teatro clássico), que não pode ser avaliado em relação à referência que seu próprio discurso propõe, nem pode ser julgado (como não se julga o ator) por sua sinceridade, e sim por sua apresentação de um estado de “sinceridade[...].”

Esse estado de “sinceridade” foi predominante na leitura sobre Garibaldi para os comemorativos da Revolução Farroupilha de 1935. Como foi a projeção da representação da italianidade em Porto Alegre. Leitura que se expressa na arte, nas festividades, na disseminação da língua italiana. Por quê?

Poderia ser a mera repetição narrativa, que adquire foro de verdade. Mas o importante é a versão. As condições sócio-históricas estão favoráveis. O mito é bom o suficiente para a apropriação social dos italianos reunidos numa conjuntura difícil, onde se decidia a inclinação da política internacional brasileira diante da agudização da cena européia. Um mito não é interrogável, “é uma modalidade social de certeza”. (KOLAKOWISKI, 1990, in MITJAVILA, 1994, p.97)

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4 “Um apelo à colônia italiana”. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n.195, p.14, agosto 1931. O jornal fundado pelo sergipano Francisco Antonio Vieira Caldas Jr., em 1895, foi o principal concorrente da “Federação” do Partido Republicano. A visibilidade da presença italiana pode ser acompanhada, como de fato, realizamos, ao longo de sua tiragem diária, concentradamente entre 1920 e 1937. Foi mesmo um dos principais modos dessa auto-representação. Todas as referências do Correio do Povo foram extraídas da minha tese de Doutorado, “Uma cidade se conta...”, relacionada na bibliografia.

5 GARIBALDI, Anita, 1931, p. 12-13. Além do diário, a neta Anita escreve essa obra, considerada como referência. Alexandre Dumas, em 1860, teria registrado inúmeras conversas até publicar o livro “Memórias de Garibaldi”. Traduzido por Antonio Caruccio-Caporale, trabalhamos com a edição brasileira de 1998, Memórias de Garibaldi/Alexandre Dumas. A autenticidade da obra é assim apresentada pelo editor: “Entre Dumas e Garibaldi a cumplicidade é total. O primeiro assevera que as memórias foram escritas pelo segundo, sendo ele apenas o editor... No entanto, nada é mais evidente que a autoria de Dumas quando se trata de analisar estas páginas [...].” DUMAS, 1998.

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De modo que seguir os passos da autobiografia de Garibaldi tem o dom da confirmação ex-post. De certo modo esse é o roteiro da escrita de Anita. Com importantes registros de veracidade, como quando obtém a carta de corsário de Garibaldi, em Montevidéu. Documentos que corroboram a densidade do mito...

A circulação do mito e as demais retóricas

No período que antecede e em que ocorrem os comemorativos do Centenário da Revolução Farroupilha, onde o mito Garibaldi é disputado, essas celebrações extravasam uma leitura circunscrita ao local, ao regional. Prendem-se à densa atmosfera da política internacional no sentido da radicalização ideológica entre distintos projetos políticos. Aqui, os mitos são macro, dizem respeito à criação de movimentos sociais tal como o nacional socialismo.

Por sua vez, o nível micro trata do papel do mito nos universos simbólicos dos sujeitos, grupos, organizações. Aproxima o cotidiano e convida o historiador a perceber que o mítico é apreensível na/em ação. Exige colocar-se “na pele dos atores”, para perceber o “domínio das representações do tempo e das representações de si”. (CORBIN, in VIDAL, 2005, p.16-21). E o que fez Anita, perseguindo as possíveis sensações e experiências do vivido e relatado pelo célebre avô? Difícil saber. Vale trazer Fernando Pessoa, quando afirma que nenhuma época transmite à outra a sua sensibilidade, apenas sua inteligência.

Já a relação com o campo lingüístico é evidente6: a circulação do mito Garibaldi carrega a língua italiana nos anos 30. Ao lado de Dante e Petrarca, Garibaldi é referência para a assimilação do universo lingüístico latino. Atua no programa mais recente de aproximação Brasil-Itália, quando a disseminação dos cursos de língua italiana é fato consumado.

Seja nas Sociedades italianas, seja nos colégios, com apoio do Governo italiano, os atos de abertura e encerramento do ano letivo são prestigiados. Como o ocorrido na Sociedade Dante Alighieri, sob a presidência de Rafael Guaspari. Na solenidade de reabertura, em abril, estão presentes “[...] o Comendador Barbarisi, Cônsul da Itália neste Estado, figuras representativas da colônia italiana aqui radicada, representantes da imprensa local e cerca de 200 alunos inscritos nos cursos de língua italiana [...].7

O mesmo ocorre no Colégio Americano, quando o professor Gino Battocchio, diretor das escolas italianas em Porto Alegre, coronel Tito Fernandes, professor do Ginásio, os representantes da imprensa e diversos convidados assistem ao discurso da professora Valentina Paiva. Como sempre, Garibaldi é mencionado:

“[...] é nesta data tão sugestiva para nós, que procurais estreitar mais esses laços que uniam italianos e brasileiros, esta época em que celebramos o centenário farroupilha, essa fase de nossa história em que o coração do povo gaúcho sente palpitar bem unido a ele o grande coração de José Garibaldi, pelas íntimas revelações de um objetivo comum, solidário conosco nos interesses e aspirações do Rio Grande do Sul.”8

Também o uso de alegorias e imagens alinha-se para, nesse sistema de representação do mundo desde a italianidade acoplada à figura de Garibaldi, fazer prevalecer o convencimento identitário e a mobilização de poder. Como se a memória e a biografia do indivíduo Garibaldi houvesse, por fim, realizado a utopia libertária da qual se enunciou portador na autobiografia.

Trata-se de perfilar quais e como serão os usos de alegorias e imagens acionados pelos grupos de italianos na cidade. A iniciativa parte da diretoria da Sociedade Dante Alighieri: para além das solenidades em comemoração, a Natal de Roma e da Festa do Trabalho Italiano, já está empenhada para a organização de um Comitê Colonial com a finalidade de agregar aos comemorativos do Centenário Farroupilha, a “colônia italiana do Estado”.

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6 Ver a discussão do giro lingüístico que dominou as Ciências Humanas desde os anos 1980, predominantemente. As sociedades italianas no Estado atuam em várias frentes, com destaque para a disseminação da língua e da cultura latina. Dentre elas, em Porto Alegre destaca-se a Sociedade “Dante Alighieri”. Vinculada à Roma e espécie de sub-representação político-diplomática italiana, a Sociedade não é freqüentada além da pequena burguesia instalada na cidade.

7 “Para maior aproximação ítalo-brasileira”. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLV, n.78, p.9, 4 abr.1935.

8 “O ensino da língua italiana nas escolas”. Correio do Povo, ano XLI, n.86, p.14, abr.1935
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A idéia da celebração através das figuras emblemáticas tais como inscrições em bustos, estátuas, monumentos, que trazem forte potência de reforço à sensibilidade no entendimento de si e do outro não está cogitada, desta vez. Lançam a proposta de um “monumento social”, isto é, uma subscrição para a construção de um pavilhão para tuberculosos junto ao Sanatório Belém, homenageando o cientista Carlo Forlanine. Imediatamente aprovada, manifesta-se o Cônsul conforme “o programa que V. S. me expôs relativo ao Centenário Farroupilha, programa que virá realçar a participação da Colônia Italiana a manifestação em que o fervor do trabalho e do progresso coincide com o centenário daquela epopéia que deu ao povo rio-grandense o supremo bem da liberdade. – (ass. ) G. Barbarisi, Cônsul Geral da Itália.9

Ainda vão reunir-se inúmeras vezes para tratar desse assunto. Em uma delas formam, além do comitê da Colônia, o sub-comitê dos Profissionais Descendentes de Italianos. Mais uma vez rememoram a participação de Garibaldi, de Rossetti e de Zambeccari. Semeadores das idéias de liberdade dos povos, tal como escrevem os cronistas, atuaram na implantação do regime republicano no Rio Grande com Bento Gonçalves e David Canabarro.

Tal entrelaçamento de italianos e rio-grandenses se expressa no epílogo das gerações de italianos e seus descendentes, conquistando posições na intelectualidade. De desbravadores das matas, para a presença na arte e na cultura da civilização moderna no Estado, a odisséia dos imigrantes está completa, discursam.

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9 “A colônia italiana e o sanatório Belém”. Porto Alegre, ano XLI,.n. 105, p.12, maio 1935.

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A disputa da memória da Revolução Farroupilha

Nem tudo é consenso, no entanto. Na perspectiva historiográfica, um objeto sensível como um quadro, por exemplo, reflete tanto a experiência histórica do pintor, como do momento histórico no qual se realiza. Como discurso visual, sua significação pode ser contestada. O suporte da discordância, de novo, está nas páginas de jornal. Não é uma crítica nem da figura, nem da alegoria, mas da incongruência entre forma e contexto histórico. O historiador Souza Docca, em artigo, esgrime argumentos:

“O Correio do Povo, de 4 de abril, estampou o quadro do pintor rio-grandense José Francesco – ‘A última visão de Anita Garibaldi’ – onde a heroína brasileira deitada ‘tendo a seu lado a figura simbólica da República de 35. Ao fundo, em uma cavalgada da epopéia, aparecem duas colunas de guerreiros farrapos, flâmulas ao alto, tendo à frente Garibaldi e Bento Gonçalves.’ [...] A heroína, em seus últimos momentos, nenhuma manifestação fez que se possa crer pensasse ela na cruzada farroupilha. Não há, mesmo, em sua correspondência conhecida, referências que demonstrem que aquele passado de lutas era uma de suas preocupações, de todos os momentos, especialmente nos lances arriscados ou difíceis. Considerando-se as circunstâncias em que a heroína morreu e as cenas patéticas de seus últimos momentos, não se pode aceitar a visão idealizada pelo artista. Anita, longe de seus filhos pequenos, minada por uma febre palustre, em uma retirada penosa, de muitos dias, depois de um destroço da coluna comandada por Garibaldi e carregada nos braços deste, atinge, agonizante, a casa do Marquês de Guiccioli. Ali, no dia seguinte, sentindo que ia morrer, levanta-se da cama, fita profundamente os olhos do esposo. Este, tomando-a nos braços, a beija, em lágrimas. Ouve-se, nesse momento, o som trágico dos tambores e trombetas dos austríacos, em perseguição feroz. Anita morre nos braços de Garibaldi, que a coloca sobre a cama e foge, célere, dos perseguidores. Cremos, por tudo isso, que “A última visão de Anita Garibaldi”, por maior que seja o seu valor artístico, nenhum valor tem como verdade histórica. A Revolução Farroupilha é riquíssima em episódios memoráveis e dignos de serem perpetuados na tela, por artistas de talento, como José Francesco e, por isso, é lamentável que se os despreze, pela fantasia. Que quadro admirável e majestoso poderá dar-nos o artista que fixe na tela a ‘Abertura da Assembléia Constituinte’, no momento em que Bento Gonçalves lê sua fala.[...] Temos, neste fato, uma magnífica lição para os nossos pintores, que quiserem empregar suas aptidões artísticas em quadros históricos, onde a verdade deve ser respeitada e o meio ambiente reproduzido com a maior fidelidade possível. Abandonemos as lendas e as invencionices que se têm criado e escrito sobre Garibaldi entre os farroupilhas.[...] Não obstante isto, não nos é lícito esquecer e cumpre-nos glorificar seus feitos, durante o tempo que serviu nas fileiras rio-grandenses. Tem-se, entretanto, exagerado [...] com esquecimento dos nossos, com maiores e mais nobres dedicações na cruzada memorável. [...] o herói italiano entrou para o serviço da República Rio-grandense em 1838, quando ela atingia o período áureo de seus triunfos, e abandonou-a, em 1841, quando se iniciava o declínio de suas glórias. Foram os braços dos brasileiros do Rio Grande e de outras Províncias do Brasil, que iniciaram e sustentaram a contenda, a custa de sacrifícios ingentes, a golpes de heroísmos assombrosos, mantendo uma tenacidade sem igual nos fatos de nossas lutas. Com essa falta de fundamento histórico e com aqueles anacronismos flagrantes, se tem criado uma lenda em torno de Garibaldi no Rio Grande do Sul, lenda essa que ele não precisa para ser enquadrado entre os heróis farroupilhas, mas que, lamentavelmente, o tem sobreposto a vultos de proporções maiores que as suas, quer no terreno das idéias, quer na constância da luta, durante a cruzada homérica.”10

Na seqüência, os jornalistas Crocco, Carrazoni e Barbieri11, sem investirem contra essa linha de argumentação (recomendando prudência e rigor), retomam o discurso glorificador. Como se deixar sem contestação a linha de análise de Docca fosse prioritário para os comemorativos. Em suma, além do mito, há um modo mítico de construir discursos. É o que fazem nas três crônicas a seguir. Crocco destaca o caráter exilar. Lembra que, entre tantos, Machiavel e Dante promoveram seus exílios ao defenderem seus ideais. Que,

“depois da Revolução Francesa e da coroação de Napoleão 1o, imperador e rei da Itália, os maiores vultos e atletas do Risorgimento Italiano nasceram e criaram-se, até certa idade, súditos franceses. Giobert (em Turim), Mazzini (em Gênova), Garibaldi (em Nizza ou... Nice), Cavour (em Turim), Zambeccari (em Bologna), e assim Rossetti, Anzani e muitos outros, os quais, depois de Waterloo, educados republicanamente, não ‘agüentaram’ mais os paternos governos austríacos e borbonios, e foram na Espanha ou em Portugal a defender a constituição liberal ou vieram para este sul em defesa de seus ideais em auxílio dos heróicos correligionários.”

Para Carrazzoni,

“[...] Não pode haver patriotismo, e patriotismo como função da terra e da história, sem o culto dos antepassados, o respeito da tradição, o sentimento de ativa e militante solidariedade que, através de um complexo de ações e reações, une os homens de hoje às gerações de ontem. Arco-íris romântico abrindo entre tormentas de ódios e paixões, nem o poema idílico do coração humano falta ao drama dos Farrapos: Garibaldi, ‘condottieri’ e apóstolo, compõe a pastoral americana do seu destino, com a sonhadora mulher que – ‘Belíssima filha do Continente’ – havia de ser, como ele, a heroína de dois mundos. São essas figuras que varam as névoas dos tempos, enchendo a história de transfigurações poéticas, ou legendas, e de deformações líricas da realidade, ou mitos [...].

Por último, Barbieri alinha os ideais da liberdade, da fraternidade e da igualdade, “um século agoniza sobre a glória dos Farrapos, outro século surge. O século que morre traz ao século que vem avançando de dentro das brumas do tempo uma tocha imensa, como que para iluminar às gerações vindouras o caminho. Que caminho será?”.

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10 DOCCA, Souza. A última visão de Anita Garibaldi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.106, p.3, 7 de mai 1935

11 CROCCO, Gesualdo. Um italiano “Farroupilha”. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.147, p.3, 25 jun 1935. CARRAZONI, André. Mitos, símbolos, emblemas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.211, p.3, 8 set. 1935; BARBIERI, Sante Umberto Barbieri. Os Farrapos atiram-nos a tocha! Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.219, p.14, 19 set.1935.


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As representações que se querem eternizar:
do migrante ao general


Embora a proposta da celebração farroupilha pela comunidade italiana eleja a construção de ala no Sanatório Belém, monumentos serão erigidos. Dentre eles, aquele que homenageia o trabalho do migrante. É importante solidarizar os mitos.

O escolhido em Porto Alegre é o obelisco que homenageia a odisséia de Vicente Monteggia, o “fundador do moderno centro agrícola”, na Vila Nova, na Barra do Ribeiro, margem direita do Guaíba, e a alguns quilômetros de Porto Alegre. A inclusão desse evento na programação oficial Farroupilha desvia o foco sobre a memória dos italianos revolucionários e faz incidir luminosamente a função da migração e colonização no Estado, ocorrida volumosamente desde o século anterior. Mas é preciso registrar que, em 1930, a Itália já vem reduzindo a sua imigração, antes mesmo da implantação dos sistemas de cotas pelo governo brasileiro.12

Falecido em 1933 e nascido em Laveno, ao sul do Lago Maggiore, Vicente percorre a Tunísia, Marcela, antes de vir para América, Rio Grande do Sul. Foi industrial, agricultor, organizador de empresas, construtor e técnico de estradas. Considerado como “uma das individualidades mais representativas da colônia italiana”, o professor Francisco Benoni identifica que Vicente “sintetizava a homenagem a milhares de imigrantes,(sic) voluntários, por circunstâncias várias, e, por isso, esse simpático feito ecoaria entre a colônia italiana e se enraizaria no coração dos muitos sobreviventes que familiarizavam com o nobre povo rio-grandense, há mais de sessenta anos [...]”. A presença do Cônsul geral da Itália, representantes das sociedades italianas, alunos das escolas ítalo-brasileiras e italianas em geral prestigiam o evento.13

No ano seguinte, em 15 de janeiro de 1936, ocorre a inauguração mais esperada: a estátua eqüestre de Bento Gonçalves esculpida por Antonio Caringi. O pedestal da estátua se levantará em frente ao pórtico da Exposição Farroupilha em Porto Alegre. Para a prefeitura da cidade de Pelotas, traz a escultura em bronze da “Sentinela farroupilha”. Diz em entrevista: “aproveitei então a ocasião de homenagear o gaúcho pobre, o rebelde humilde, o soldado farrapo, o peão da estância.[...] em que reproduzo a sentinela de 35 com a fisionomia máscula do índio charrua, trazendo a indumentária aqui usada há um século: o xiripá, o poncho, bota de cano a meio-pé, o lenço ao pescoço com o laço de 35”. Ainda são dele as duzentas e cinqüenta medalhas com a efígie de Bento Gonçalves [...].Toda a imprensa européia, diz Caringi “evoca o decênio formidável dos rebeldes dos pampas e recorda a ação de seus líderes e o perfil atrevido e glorioso de sua figura máxima – Bento Gonçalves.[...] esculpindo o general do grande levante e a sentinela anônima e imprescindível do decênio farrapo, Caringi cultua uma das mais garbosas etapas do “pugilato milenar entre o cativeiro e a liberdade”.14

No discurso de inauguração o deputado Dario Crespo, descendente de Bento Gonçalves (bisavô), “[...] ao raiar o ano memorável de 1835, o Rio Grande estava mobilizado para a grande luta. É que já se formara uma consciência coletiva. A iluminá-la, a chama de um verdadeiro ideal. [...] nunca o Rio Grande foi menos ele próprio, nunca pensou e obrou por si mesmo, do que durante a revolução farroupilha”, é que o Rio Grande excedeu-se a si próprio, tocado de um nobre idealismo, pensando e agindo pelo Brasil, que desejava unido pelos laços federativos, sob o regime republicano.”

Desta feita a inauguração atenua a soldadura narrativa que aproxima o mito Garibaldi à italianidade e à Revolução Farroupilha. A mesma reconstitui-se quando da oferta, finalmente, ao Sanatório Belém, de 120 contos de réis e de todos os móveis e utensílios para o Pavilhão Forlanini. Estamos próximos do fim das celebrações dessa conjuntura.

Finaliza o período com a inauguração dos retratos de Garibaldi e Anita, de Zambeccari, Anzani, Costellini etc., na sala das recepções da Dante Alighieri (Itálica Domus) e da exposição de uma grande coroa de louros no obelisco erigido no Campo da Redenção como lembrança do Cinqüentenário da Colonização Italiana no Rio Grande, no qual figuram os medalhões em bronze de Zambecari e a placa com os nomes de todos os italianos que participaram da campanha farroupilha.15 A cidade de Viamão recebe uma lápide na fachada do edifício da Prefeitura Municipal em homenagem à memória de Luiz Rossetti, morto em combate no Passo do Vigário, em 1840, estendendo os comemorativos para a histórica cidade.

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12 1920,10.0055;1923,15.839;1927,12.487;1930,4.253;1933,1.1920;1934,1.389 e, provavelmente em 1935, 1.266. PIERINI, Sylvio. Cotas de imigração. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n.7, p.3 26 mar 1936.

13 “Inauguração de monumento”. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XVL, n.280, p.4, 1 dez 1935.

15 UMA HORA de palestra com o escultor Ângelo Guido. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 280, p.14, 1 de dezembro 1935; FOI INAUGURADA ontem, a estátua eqüestre de Bento Gonçalves. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n.13, p.16 janeiro 1936. A descrição: “ O major Alberto Bins convidou os generais, o Governador do Estado, Flores da Cunha e Parga Rodrigues, para puxarem as cordas, afim de assim descobrir a estátua, que estava coberta com bandeiras nacional e rio-grandense.[...] Nas faces laterais, há também baixos relevos, simbolizando cargas de cavalaria rio-grandense. Na frente, há apenas os dizeres: “Bento Gonçalves – 1835" e na parte posterior, três frases artisticamente trabalhadas. A primeira delas tem os seguintes dizeres: “Aos heróis farroupilhas, homenagem da aviação naval, 20-9-1835 – 20-9-1935". No centro, a outra com esta dedicatória: “Homenagem da Prefeitura aos heróis de 1835. [...] Finalmente, a ultima das placas tem estas palavras: “A guarnição do couraçado “Rio Grande do Sul”, ao povo gaúcho, simbolizado no seu grande herói farroupilha – Porto Alegre, 20-9-1935.”

16 A COLÔNIA italiana e o Centenário Farroupilha. Correio do Povo, Porto Alegre ano XLII,n.276,p.15, 22 nov 1936.


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Considerações finais

As descrições de homenagens, a citação fragmentada de discursos, a repetição da labiríntica autobiografia de Garibaldi e a bibliografia de desequilibrada qualidade que se lhe seguiu, são rastros do espaço social de uma dada construção mítica. Vimos como essa pode ser capturada numa conjuntura, como nesses anos 30. Não se compreende nada sobre o mito se não é posto à prova da sua adequação e funcionalidade para os sujeitos, os grupos, as instituições. Dialética em movimento, o herói necessário surge quando e como se faz carne e espírito.

Para o conhecimento histórico, é desejável a busca do regime de verdade onde possa se distinguir a utilização da memória, na construção do fato histórico. Assim como destacar o fator gerador de realidades, através das representações sociais que se impõem numa dada conjuntura.

Os comemorativos aqui relatados, na sua pompa e discursividade, mais que salvar do esquecimento a figura de Garibaldi (e outros), pretenderam celebrar uma continuidade mítica que, na verdade, inexiste. As circunstâncias possibilitaram, não obstante, tal amálgama. O herói projetado pelo coletivo e o sujeito histórico singular podem — como devem — ser confrontados pela pesquisa histórica. São, ambos, faces do perspectivismo, atitude do conhecimento desinteressado, e, exatamente por isso, aquele que realmente faz avançar a representação de si e do outro; o imaginário construído para dar conta da revelação da historicidade implicada nisso tudo é nossa tarefa.

Os comemorativos do Centenário da Revolução Farroupilha, conforme a estratégia textual adotada, pretenderam exemplificar essa possibilidade.

Referências bibliográficas

DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Tradução de Antonio Caruccio-Caporale. Porto Alegre: L&PM, 1998.

BRUM, Rosemary Fritsch. Uma cidade que se conta. Imigrantes italianos e narrativas no espaço social da cidade de Porto Alegre (1920-1937). 2003. Tese (Doutorado), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003.

GARIBALDI, Anita. Garibaldi na América. Tradução de Renato Travassos. Rio de Janeiro: Alba, 1931.

MITJAVILA, Myriam. Sobre a densidade social do mito. Notas para uma leitura sociológica do tema. Plural: São Paulo: USP, 1;87-105.1 sem.1994

SARLO, Beatriz. Cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.

VIDAL, Laurent. Alain Corbin. O prazer do historiador. Rev. Bras. Hist. São Paulo. v 25 n.49, 2005.

Garibaldi: a gênese do mito

Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
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Historiadores e pesquisadores do Memorial do
Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul

“Heróis são símbolos poderosos, encarnações de idéias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos. Não há regime que não promova o culto de seus heróis e não possua seu panteão cívico.”1

Introdução

Sob essa perspectiva — do culto aos heróis como pontos de referência e de identificação coletiva — podemos desvelar de que maneira alguns personagens são retirados de uma condição de obscuridade e alçados à posição de destaque e por que outros, de notória influência e participação em determinados episódios, — no caso da Revolução Farroupilha, por exemplo, Silva Tavares, Bento Manoel, Francisco Pedro — são relegados a uma condição de “esquecimento”.

Com base nesses breves indicativos pretendemos situar a atuação de Giuseppe Garibaldi na Revolução Farroupilha, ou melhor, analisar de que maneira o corsário da República Rio-Grandense, um dentre muitos estrangeiros a lutar ao lado dos farroupilhas, alcançou posição de destaque no panteão dos revolucionários.

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1 CARVALHO, José Murilo. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 55.

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Nesse sentido, procederemos a uma análise diacrônica de como a participação de Garibaldi foi sendo concebida e reproduzida por escritores, historiadores e políticos no Rio Grande do Sul. Levaremos em conta três momentos: em primeiro lugar, Garibaldi visto pelos seus contemporâneos farroupilhas; em segundo, os primeiros trabalhos produzidos e publicados sobre o tema, entre o quartel final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, quando Garibaldi já estava consagrado como herói da unificação italiana e, finalmente, o terceiro momento correspondente ao período que vai da criação, no início dos anos vinte, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS) até as comemorações do cinqüentenário da morte de Garibaldi, em 1932, quando surgem estudos e obras especializadas sobre Garibaldi e a Revolução Farroupilha.

Não é pretensão deste estudo fazer a apologia de Garibaldi, tampouco buscamos a desconstituição do mito do “herói dos dois mundos”. Nosso esforço é no sentido de compreender a atuação do sujeito histórico no seu tempo, premido pelas estruturas de sua época e, a partir daí, entender como foram surgindo as representações acerca de Garibaldi: de corsário a herói farroupilha.

Para tanto, é preciso ter em conta que os relatos acerca da atuação de Garibaldi, que serviram para criar a sua imagem heróica, têm como principal fonte suas próprias Memórias. Conforme Paulo Markun explica:

“Sua trajetória não foi documentada como a de outras figuras históricas da mesma dimensão, seu grupo dissolveu-se sem deixar arquivos, suas batalhas não seguiam nenhum plano preestabelecido que permitisse recriá-las e ninguém anotava seus passos. Em suas cartas, deixou de lado experiências pessoais.”2

Garibaldi começou a escrever as suas memórias em Tânger, em 1849. Fugido da Itália e atuando como comerciante, preencheu centenas de folhas de papel de carta com a sua própria letra. A partir dessas anotações foram feitas, ao menos, cinco versões: a de Theodore Dwight, publicada nos EUA, em 1859; a de O. Fere e R. Hyenne, publicada na França em 1859; a de Francesco Carrano, publicada na Itália (Turin) em 1860; a de Alexandre Dumas, publicada na França (Paris) também em 1860; e a da baronesa Marie Espérance von Brandt (Elpis Melena), publicada na Alemanha (Hamburgo) em 1861. Nenhuma dessas versões é fiel ao manuscrito de Garibaldi, que está no Arquivo do Estado de Roma. A mais conhecida, todavia, e que se tornou a biografia de Garibaldi por excelência, é a de Alexandre Dumas.

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2 MARKUN, Paulo. Anita Garibaldi: uma heroína brasileira. 5ª ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2003, p. 166.

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Garibaldi na Revolução Farroupilha

Os indícios da época apontam Garibaldi como um dos tantos estrangeiros que se bateram pela causa farroupilha. Dos jornais da época, apenas O Povo menciona Garibaldi. Esse foi o periódico mais importante da República Rio-Grandense e circulou durante um ano e nove meses em Piratini e Caçapava.

Garibaldi foi mencionado nas páginas de O Povo pelo menos 11 vezes, entre setembro de 1838 e novembro de 1839. Trata-se de ofícios, comunicados e expedientes de caráter oficial.

Os números de 4 de maio e de 10 de agosto de 1839 fazem referência à atuação de Garibaldi em dois momentos. O primeiro relata a defesa da Estância do Brejo, quando do ataque de Moringue, em 17 de abril de 1839:

“O comandante da Esquadrilha da República continua a dar provas não equívocas de seu civismo e bravura: eis a ordem do dia por ele endereçada aos valentes de tripulação dos vasos a seu mando, que em número de 11 rechaçaram 150 cativos que os foram atacar .”3

O segundo conta a travessia por terra dos lanchões Seival e Farroupilha, comandados pelos “honrados e corajosos Garibaldi e Rossetti”.4

Os demais jornais farroupilhas consultados não mencionam Garibaldi. Todavia, tanto O Mensageiro, quanto O Americano e Estrela do Sul (esses dois últimos de Alegrete), cobrem períodos em que o italiano não estava no Rio Grande do Sul.

Os jornais legalistas a que temos acesso igualmente não falam de Garibaldi. O Artilheiro menciona Bento Gonçalves, Bento Manoel, Onofre Pires, Corte Real, Pedro Boticário, David Canabarro, Antônio de Souza Netto, Rafael Calvet, Marques Alfaiate e Teixeira Nunes. O Imparcial, que circulou de 22 de outubro de 1844 até o final do movimento (mais precisamente, até 1849), tampouco fala do italiano. Nessa época, Garibaldi estava em Montevidéu. O periódico dá muitas notícias da capital uruguaia, mas não menciona Garibaldi.

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3 O Povo, 4 de maio de 1839, n.º 63, 3º boletim de Caçapava.

4 O Povo, 10 de agosto de 1839, nº , 7º boletim de Caçapava, p. 4.

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O número expressivo de citações em O Povo não significa que Garibaldi tivesse um destaque maior do que os demais oficiais envolvidos no movimento farroupilha. Diversos oficiais são citados até porque o jornal era um instrumento de comunicação entre as tropas e os comandantes. Não havia notícias propriamente ditas no periódico. Havia avisos oficiais, como os decretos e proclamações do comando da revolução, ofícios e circulares, artigos de cunho ideológico e anúncios para compra e venda de escravos e outros produtos.

Na extensa correspondência de Bento Gonçalves da Silva, há apenas duas referências a Garibaldi. Uma delas é a carta de corsário, que foi reproduzida em O Povo, datada de 10 de junho de 18385. A outra consta numa carta do líder Bento Gonçalves ao genro, com data de 26 de agosto de 1842, na qual narra os acontecimentos de que toma parte Garibaldi, já no Uruguai.

Episódio interessante é o envolvimento de Garibaldi com Manoela, sobrinha de Bento Gonçalves, narrado nas Memórias e conhecido do público em função de sua exploração em uma minissérie de televisão6. Tal registro afigura-se importante porque apresenta indícios da maneira como Garibaldi era visto por seus contemporâneos. A história, que já foi até tema de romance7, é atraente também por humanizar os heróis farroupilhas, Garibaldi e Bento Gonçalves: o primeiro, homem apaixonado disposto a se casar sem maiores reflexões; o segundo, tio zeloso, preocupado com a sorte da sobrinha. Manoela, igualmente, fornece um contraponto à Anita: a sinhazinha frágil em oposição à camponesa guerreira.

O namoro com Manoela, de fato, ocorreu. Não só Garibaldi o recorda nas Memórias, como existem outros indícios. Cartas de Luigi Rosseti a João Batista Cuneo relatam que Garibaldi estava apaixonado e que pretendia se casar:

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5 Coletânea de Documentos de Bento Gonçalves da Silva – 1835-1845 – Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Comissão Executiva do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha, Subcomissão de Publicações e Concursos, 1985, p. 61.

6 A Casa das Sete Mulheres exibida pela Rede Globo de Televisão em 2003.

7 GUIMARÃES, Josué. Garibaldi e Manoela: Uma história de amor. Porto Alegre: L&PM, 2002.


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“19 de janeiro, 1839, Piratini.
Fratello:
(...) Garibaldi esteve gravemente doente. Mas restabeleceu-se e ameaça se casar. Me escreveu pedindo que eu lhe sirva de mentor. Imagine se o farei. Depois de amanhã, como o governo me pediu para ir acompanhar o trabalho dos marinheiros, partirei para vê-lo e farei com ele aquilo que um amigo faria na mesma circunstância. Se for adiante, então não terei remédio e eu mesmo o forçarei a cumprir o seu dever. Não sei quem seja a tirana.”8


Outra carta, de 9 de fevereiro de 1839, volta ao tema: “(...) Garibaldi está apaixonado e ameaça se casar. Mas não vai fazê-lo, de jeito nenhum. Ele me prometeu”.9

Ao que tudo indica, os amigos eram contrários ao relacionamento que implicaria o abandono da causa revolucionária por Garibaldi. Se casasse com Manoela, Garibaldi teria de se estabelecer como estancieiro, deixando a incerta vida de aventuras. Apesar do descontentamento dos amigos, foi Bento Gonçalves quem acabou com o romance. Disse a Garibaldi que Manoela estava prometida ao seu filho Joaquim. Não era verdade. Bento Gonçalves recebia Garibaldi em sua casa, mas considerava-o um aventureiro, um homem indigno de desposar uma sinhazinha de família tradicional como Manoela. O historiador Otelo Rosa, após uma palestra proferida em 4 de julho de 1932, no Theatro São Pedro, por ocasião das comemorações do cinqüentenário da morte de Garibaldi, recebeu uma carta de Otacílio Ferreira, descendente de Manoela. Ele relata:

“O suposto noivado com seu primo, filho de Bento Gonçalves, não passou de um pretexto de seus pais para recusarem o pedido de Garibaldi, pois embora o recebessem em seu lar e o cumulassem de gentilezas não deixavam de considerá-lo como aventureiro, motivo pelo qual opuseram-se ao casamento.”10

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8 MARKUN, Paulo. Op. cit. p. 116. A carta é citada por SALVATORE,Candido. La rivoluzione riograndense nel carteggio inedito di due giornaliste mazziniani: Luigi Rosseti e G. B. Cuneo, 1837-1840. Florença: Valmartine Editora, 1973, p. 75-76.

9 Ibidem. p. 117.

10 Cincoentenário da morte de José Garibaldi. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. II trimestre, ano XII. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1932, p. 254-256.

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Nesse passo, há um contraste entre o que se lê nas Memórias e o que ficou registrado nos documentos da época. Nesse sentido, vejamos como Garibaldi relatou sua relação com o chefe farroupilha Bento Gonçalves: “No dia em que nos encontramos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal; e conversávamos com tanta familiaridade como se fôssemos companheiros de infância e iguais em posição11”.

Os chefes civis e militares farroupilhas, em sua maioria, eram estancieiros e escravocratas. Não havia espaço, nos postos de comando, para outros segmentos sociais. Garibaldi, um entre tantos estrangeiros a se bater por uma causa que não era sua, não era visto como um igual. De fato, dos documentos compulsados, aqueles que apresentam de maneira mais clara e precisa a condição dos estrangeiros na Revolução Farroupilha são as cartas de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida. Da carta datada de 11 de agosto de 1839, quando Rossetti estava já em Santa Catarina, como secretário de governo da efêmera República Juliana, colhemos a seguinte passagem, bastante elucidativa:

“O General Canabarro escreveu não sei se ao governo ou ao General Netto. (...) Consta-me que ele também ou escreveu, ou queria escrever, ao Ministro José Mariano de Matos, lastimando que Garibaldi fosse o Comandante da Esquadrilha e eu o Secretário do Governo. (...) Sei que sou estrangeiro, e sei à custa de muitos desgastes que por nenhum modo me cansa defender os princípios que professo em emprego onde só se faz preciso a pena. Os guerreiros estimam que o estrangeiro combata ao seu lado, mas os letrados não gostam de ver um estrangeiro sentado ao mesmo escritório.”12

Em outra carta Rossetti reclama da falta de notícias sobre os acontecimentos da Revolução:

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11DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Porto Alegre: L&PM, 2002, p.73.

12 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 11 de agosto de
1839. Coleção Alfredo Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.

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“Não sei nem posso entender como tudo isso andasse perdido. Garibaldi também nunca recebeu uma só linha do Governo, e é muito de admirar que desde um ofício por nós recebido no Camaquã depois do dia 14 de abril não recebemos nunca mais uma linha nem amistosa nem oficial e não esconderei a esse respeito que nós estávamos bem decididos a não nos queixarmos e esperar melhor justiça do tempo.”13

Pelo teor do documento fica patente a fragilidade das comunicações, se considerarmos que Rossetti era um secretário de Estado e Garibaldi, o comandante da esquadrilha farrapa, bem como o fato de que os estrangeiros não tinham praticamente acesso às decisões tomadas pelos chefes farroupilhas. As cartas de Rossetti são, ainda, elucidativas também ao precisar o papel de Garibaldi: (...)”dirigira-se [Garibaldi] à Barra do Rio de Janeiro, onde certamente fará muito mais estrago”. (...) “Garibaldi já fez quatro presas, mas desafortunadamente duas delas foram separadas da Caçapava que as conduzia por um temporal e uma foi retomada pelo inimigo. Estão hoje descarregando uma outra em Imbituba”.14 Enfim, as cartas delimitam bastante bem qual era a função de Garibaldi: a de corsário.

Alguns anos depois, surgiu um documento que muito confundiu os historiadores: uma carta de Garibaldi para Domingos José de Almeida escrita em 10 de setembro de 1859. Na carta, o italiano, exaltando a coragem e a capacidade guerreira dos rio-grandeses, afirma: “(...) quando penso no acolhimento com que fui recebido no grêmio das suas famílias, onde fui considerado como filho”.15 Passados quinze anos dos acontecimentos em solo gaúcho, Garibaldi parece ter selecionado as melhores memórias. Há um nítido contraste entre os registros da época e essa carta que foi bastante difundida.

Um outro documento daquela época dá pistas a respeito de Garibaldi contemporâneo da Revolução Farroupilha. No ano de 1849, foi publicado em forma de folhetim no jornal O Americano, do Rio de Janeiro, o romance O Corsário, de José Antônio do Vale Caldre e Fião. A história se passa no Rio Grande do Sul durante a Revolução Farroupilha. O corsário em questão não é Garibaldi, embora num primeiro momento pareça que esse serviu de inspiração para o protagonista Giuseppe Vanzini: aventureiro, louro, longos cabelos, conquistador16. O que desfaz a identificação é o fato do próprio Garibaldi ser citado duas vezes no romance.

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13 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 1º de agosto de 1839. Coleção de Alfredo Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.

14 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 30 de outubro de 1839. Coleção Alfredo Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.

15 A FEDERAÇÂO. 4 de julho de 1907.

16 CALDRE E FIÃO, José Antônio do Vale. O Corsário. Porto Alegre: Movimento, Instituto Estadual do Livro, 1979, p. 14. Guilhermino Cesar, na introdução, identifica Garibaldi com Vanzini
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Caldre e Fião foi contrário à Revolução Farroupilha. Devemos, portanto, considerar a sua palavra com cautela. Contudo, seu relato destaca a função que Garibaldi desempenhou no movimento: a de corsário.

Numa passagem, Manoel da Cunha, legalista relata:

“Contava-se ainda mais, como cousa certa, que um dos companheiros de Garibaldi, que com ele tinha feito as mais infames piratarias na Lagoa dos Patos, era o que comandava e dirigia essa reunião. Algumas das famílias que existem ainda por aí queixaram-se amargamente de se verem expostas a visitas desses ladrões, aves de rapina que levavam consigo quanto encontravam, ainda mesmo dos mais pobres...”17

Mas adiante, o mesmo Manoel da Cunha afirma, comparando Garibaldi a Vanzini, “o seu comandante era Vanzini, porque Vanzini servira com Garibaldi, e porque ele era, como Garibaldi, um homem amigo da pilhagem”.18

Por outro lado, o fato de mencionar Garibaldi no romance mostra que a participação do italiano na Revolução era conhecida. Além de Garibaldi, Caldre e Fião menciona Bento Gonçalves (que aparece em diversas passagens), Gomes Jardim e Tito Lívio Zambeccari, esse último de forma negativa.

Garibaldi e a propaganda republicana 1880-1920

O período que compreende o término da Revolução Farroupilha até a instauração do regime republicano, em 1889, não foi propriamente fecundo no que diz respeito à publicação de trabalhos referentes ao “Decênio Heróico”. Isso se deve à consolidação do Segundo Reinado e ao sistema político subjacente a ele. Dentre os produzidos, excluindo-se “Guerra Civil no Rio Grande do Sul”, de Tristão de Alencar Araripe, trazido a lume em 1881 — tida como a primeira obra impressa a tratar sistematicamente sobre a quadra revolucionária —, visivelmente contrária aos farroupilhas, os demais apresentavam caráter panfletário.

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17 CALDRE E FIÃO, José Antônio do Vale. Op. cit. p. 256.

18 Ibidem.

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Tristão de Alencar Araripe, nascido no Ceará, exerceu diversos cargos políticos pelo Partido Conservador, entre eles, o de presidente da Província do Rio Grande do Sul, de 4 de abril de 1876 a 5 de fevereiro de 1877. Era visivelmente contrário aos revolucionários de 1835, aos quais trata com indisfarçável menoscabo, principalmente a seus líderes, em especial Bento Gonçalves. No que diz respeito a Garibaldi, há apenas breves passagens em seu trabalho:

“A república jamais teve força naval; apenas José Garibaldi, esse que posteriormente constituiu-se herói na Itália, sustentando a causa da unificação da sua pátria, comandou alguns lanchões, que foram logo tomados pela marinha nacional.”19

Mais adiante, após referir-se a Garibaldi jocosamente como pirata, relata brevemente o combate de Laguna em que os republicanos perdem definitivamente o controle sobre Santa Catarina:

“A força imperial teve, entre mortos e feridos, 180 pessoas, isto é, mais de um décimo da sua totalidade, e os rebeldes contaram mais de 200. Daqui podemos avaliar do encarniçamento do combate. Os comandantes de todos os navios rebeldes foram mortos, à exceção de seu chefe José Garibaldi.”20


Mais interessante, contudo, é que as fontes utilizadas por Araripe foram as próprias Memórias de Garibaldi: “Nas Memórias de José Garibaldi, publicadas por Alexandre Dumas, se diz que do navio, onde comandava esse caudilho, só ele escapou vivo”.21

Julio de Castilhos, em editorial de A Federação, de 26 de setembro de 1886, caracterizou Araripe como “fazedor de crônicas oficiais” e anunciou as respostas da “nova geração rio-grandense”.

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19 ARARIPE, Tristão de Alencar. Guerra Civil no Rio Grande do Sul: Memória Acompanhada de documentos lida no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Porto Alegre: Corag, 1986, p. 88. Obs. Ed. fac-similar do original publicado: Rio de Janeiro: E. & H Laemmert, 1881.

20 ARARIPE, cit., p. 98.

21 Ibidem.

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Referia-se Julio de Castilhos às obras: História da República Rio-Grandense, de Joaquim Francisco de Assis Brasil (1882) e História Popular do Rio Grande do Sul (1882), de Alcides Lima, embora somente o primeiro trate especificamente da Revolução Farroupilha. Outra obra, A Revolução de 1835 no Rio Grande do Sul, de Ramiro Fortes Barcellos, surge em seguida (1885). Obras de feição republicana, as duas primeiras, elaboradas sob encomenda do Clube Republicano 20 de Setembro, procuram justificar as razões da revolta e a incapacidade do poder central de compreender as “justas” reivindicações do Rio Grande, o que teria sido a causa precípua dos eventos que levaram à proclamação republicana.

No que diz respeito a Garibaldi, limitam-se a descrever brevemente os principais episódios de sua atuação. Vejamos o que diz Barcellos:

“Em 1838 este ilustre italiano veio novamente prestar os seus serviços à causa rio-grandense, à qual serviu com aquela dedicação e com aquela bravura, que o tornaram um dos homens mais notáveis na sua pátria e um dos mais admirados no presente século.”22

À evidência, Ramiro Barcellos, propagandista republicano, senador pelo Rio Grande do Sul entre 1890 e 1906, não estava se referindo ao corsário estrangeiro que se colocara a serviço das armas rio-grandenses, mas, tecia elogios ao herói da unificação italiana. Já Assis Brasil, também um dos principais próceres republicanos no Rio Grande do Sul, primeiro deputado do PRR ainda no período do Império, tão somente alude à atuação de Garibaldi à frente da Marinha Rio-Grandense, por todos considerada, aliás, a maior fragilidade dos rebeldes. Para Assis Brasil, contudo, mais importante foi a atuação de outro italiano, Zambeccari, a quem considerava, com certo exagero, o “verdadeiro e real diretor mental” da revolução, sendo o responsável pelo “influxo que exerciam no Rio Grande as doutrinas da ‘Jovem Itália’ de Mazzini”23.

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22 BARCELLOS, Ramiro Fortes de. A Revolução de 1835 no Rio Grande do Sul. Ed. com fixação do texto completo do original publicado: Porto Alegre, Jornal do Comércio, 1882. Porto Alegre: C omissão Executiva do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha - Corag, 1986.

23 BRASIL, Joaquim Francisco de. A Guerra dos Farrapos: História da República Rio-Grandense. (1º ed. 1882) Rio de Janeiro: Andersen, 1930, p.71.

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Foi, todavia, nas páginas do jornal A Federação que os jovens republicanos afirmaram sua identidade com os farroupilhas. Na edição comemorativa ao cinqüentenário da Revolução Farroupilha, em 1885, apareceram referências a Garibaldi e à Itália. O 20 de setembro é também a data que simboliza a unificação italiana, com a entrada do exército do Piemonte em Roma, completando o processo de unificação. Assim, na edição de 20 de setembro 1885, há uma matéria fazendo alusão a esse evento:

“Glorioso para a província do Rio Grande do Sul, por recordar o grande feito revolucionário de 35, o 20 de Setembro relembra à Itália o fato soleníssimo da unificação da Pátria sublime de Dante, do excelso Mazzini, do severo Cavour e do imortal Garibaldi. A completa unificação da Itália há 15 anos representa a mais bela conquista da democracia, assegurando à Itália as liberdades que hoje a tornam notável entre os países monárquicos do velho mundo. Trabalhadores, enérgicos pensadores e altivos, os italianos transigiam com o governo da casa de Sabóia, mas cimentam maior grandeza futura. Aos patriotas de 70 — um bravo.”

Garibaldi surgia, então, nas páginas de A Federação, porém a referência não mencionava sua atuação na Revolução Farroupilha, mas na Itália. Conquanto tenha a unificação italiana ocorrido sob os auspícios de uma monarquia, a matéria não perdia o seu desiderato de propaganda republicana como se percebe na passagem assinalada.

A partir dos elementos até aqui apresentados, identificamos de maneira clara o processo de construção da imagem de Garibaldi como um dos heróis da Revolução Farroupilha. As obras consultadas, os livros e editoriais do Jornal A Federação, apresentam, de certa forma, a percepção que a elite política — e para o período também a elite cultural — tinha e que procurava reproduzir sobre a Revolução Farroupilha e, em especial, sobre Garibaldi. É sempre necessário enfatizar que as menções referentes a ele dizem respeito mais ao Garibaldi herói da Itália e menos ao Garibaldi corsário da República Rio-Grandense.

Com respeito ao apelo de sua figura nos meios populares, dispomos do Cancioneiro da Revolução de 1835, de Apolinário Porto Alegre. O jornalista colheu, após o final do século XIX, composições, versos e quadras a respeito da Revolução Farroupilha preservados na tradição oral.

“Reuni sob esta denominação as poesias colhidas da tradição oral do povo rio-grandense. (...) Os rudes bardos, em torno dos fogões dos acampamentos, ao som das violas dedilhadas vigorosamente, inspirados pelos sucessos da luta e paixões do momento, vazavam nos moldes de um verso tosco o que lhes ia pela alma.”24

Diversas quadras são dedicadas aos heróis da Revolução Farroupilha: Bento Gonçalves, Netto, Crescêncio, Corte Real, Lima e Silva, João Antônio da Silveira. Sátiras são dirigidas aos imperiais, em especial Bento Manoel Ribeiro e Silva Tavares. O que chama a atenção, contudo, é o fato de que, nessa grande quantidade de quadras, cerca de 55, não há nenhuma em que os feitos de Garibaldi tenham sido mencionados. A travessia dos lanchões ou o combate contra Francisco Pedro, o Moringue, em Camaquã, tão freqüentemente relembrados nos discursos e comemorações oficiais, foram simplesmente eclipsados no Cancioneiro da Revolução de 35. Assim, podemos inferir que Garibaldi e seus feitos não estavam tão presentes no imaginário popular do Rio Grande do Sul do século XIX. Considerando, ainda, o fato de haver quadras e sonetos destinados, por exemplo, a João Antônio da Silveira, e outros menos conhecidos, a ausência de Garibaldi se torna bastante significativa.

Com o fim da monarquia, o PRR foi alçado ao poder, inaugurando uma forma de dominação sobre o Estado e seu aparelho político e burocrático que se estenderia, de modo não inconteste, até a Revolução de 1930. Conforme Trindade, tentaram transformar sua situação, de classe política dirigente em nova classe dominante hegemônica, buscando o apoio de novos setores da oligarquia rural, ligada à agropecuária no Litoral e na Serra, e de segmentos das camadas médias urbanas (profissionais liberais, comerciantes e funcionários)25.

Começou, então, o trabalho de cooptação, através de uma “integração entre os vultos da pátria distante [a Itália] e os líderes políticos do estado”26. O próprio 20 de Setembro, comum às duas comunidades, podia ser comemorado conjuntamente; assim, nas comemorações da cidade de Caxias do Sul:

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24 PORTO ALEGRE, Apolinário. O Cancioneiro da Revolução de 1835. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1981, p.27.

25 TRINDADE, Hélgio. Aspectos Políticos do Sistema Partidário Republicano Rio-Grandense. In: DACANAL, José H. e GONZAGA, Sergius. RS: Economia e Política. Série Documenta. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1979, p. 144.

26 PESAVENTO, Sandra Jatahy. O Imigrante na Política Rio-Grandense. In: DACANAL, José H. e GONZAGA, Sergius. RS: Imigração e Colonização. Série Documenta. 2ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992, p. 169.

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“O jornal dos Republicanos [O Cosmopolita –20/09/1904 – Caxias do Sul 27] em 20 de setembro de 1904 publica na primeira página uma alegoria consistindo em um grande retrato de Borges de Medeiros, Governador do Estado, ladeado, no alto à esquerda, por Bento Gonçalves com a bandeira da República Rio-Grandense e o dístico “1835”; à direita, por Garibaldi, com a bandeira do Reino da Itália e o dístico “1870”; os dois seguram uma coroa circular, dentro da qual se lê ‘A união faz a força’, tudo a simbolizar a coligação dos colonos com os gaúchos”.28

Não por acaso, foi nesse período que começou a se falar de Anita. As obras, discursos e homenagens até então silenciavam a respeito da esposa de Garibaldi. Aqui a idéia de uma família ítalo-brasileira adquire importância. Claro que se omite o fato de Anita ter sido casada com outro homem antes de se unir a Garibaldi.

A invenção de cerimônias e a produção de monumentos públicos foram elementos largamente utilizados pela dominação castilhista-borgista, principalmente no processo de integração entre gaúchos e italianos. Com respeito a Garibaldi e, agora, Anita, os principais eventos foram as comemorações do centenário do nascimento de Garibaldi (1907) e a inauguração do Monumento a Garibaldi e Anita, em 1913, em Porto Alegre. Em todas essas ocasiões houve comemorações oficiais por parte do Governo do Estado em associação com a comunidade italiana e também com o consulado daquele país.

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27 O COSMOPOLITA, Caxias do Sul, 20 de setembro de 1904. Arquivo Histórico de Caxias do Sul.

28 AZEVEDO, Thales de. Italianos e Gaúchos; Os anos pioneiros da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: A Nação – Instituto Estadual do Livro, 1975, p.252. Citado também por PESAVENTO, Op. cit., 1992.

29 A FEDERAÇÃO, Porto Alegre, 04 de julho 1907.


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Em 4 de julho de 1907, o intendente José Montaury, pelo ato de nº 50, modificou o nome da praça da Concórdia para Praça Garibaldi. O descerramento da placa foi precedido por passeata pelas ruas do centro da cidade 29. Nos textos de A Federação, Garibaldi aparece como o que “amparou, com braço forte, magnânimo peito, e por vezes guiou”, os pioneiros que obtiveram a vitória final em 1889. O importante a destacar é que nesses textos nunca aparecem as descrições da atuação de Garibaldi durante a Revolução Farroupilha, embora as Memórias estivessem publicadas desde 1860 e as elites tivessem acesso a livros em francês. Anita ainda não é mencionada.

As comemorações oficiais do dia 20 de setembro de 1913 foram quase que exclusivamente dedicadas a Garibaldi e Anita. Nesse dia, em continuidade ao evento de 1907, foi apresentado ao povo porto-alegrense e gaúcho o monumento em homenagem a Garibaldi e Anita. O monumento foi o primeiro relativo à Revolução Farroupilha na capital, e foi oferecido pela colônia italiana 30. A Federação, de 19 de setembro de 1913, trazia estampada — ocupando a íntegra da capa — a imagem do monumento. Já a edição seguinte, do dia 22 de setembro, apresentou todo o roteiro da celebração, desde o “préstito” organizado pela comunidade italiana da capital, com a participação da guarda de honra da Brigada Militar. Da cerimônia participaram diversas autoridades, entre elas, o cônsul italiano no Estado, o intendente municipal, José Montaury, e o presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros.

O discurso de Ildefonso Pinto, representando Borges de Medeiros, dava parte de interesses comuns às duas nacionalidades que habitavam uma pátria comum:

“O monumento seria o símbolo imperecível da aliança dos elementos das duas nacionalidades, visando aos mesmos fins e tendo os mesmos interesses sociais, concretizados no desenvolvimento do Rio Grande do Sul, que se tornou a pátria comum.”31

Concatenavam-se, assim, os interesses políticos do partido dominante com os da comunidade italiana, em especial o grupo de comerciantes em processo de acumulação de capital, que, conforme Pesavento, “optou pelo apoio ao governo como forma mais vantajosa de ver atendidas suas reivindicações”.32

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30 O marmorista Carlo Fossati organizou a concorrência vencida pela empresa Fratelli Giorgini da Massa Carrara, de Carrara. A firma italiana contratou o pintor florentino Filadelfo Simi (1849-1923) para executar o monumento. ALVES, José Francisco. A escultura pública de Porto Alegre: história, contexto e significado. Porto Alegre: Artfolia, 2004, p. 59.

31 A FEDERAÇÃO, Porto Alegre, 22 de setembro de 1913.

32 PESAVENTO, Sandra Jatahy. Op. cit. p. 171-173.


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O interessante é que aqui aparece, pela primeira vez, a narração dos feitos de Garibaldi em solo rio-grandense. Diversos discursos lembram episódios de suas memórias, como a travessia dos lanchões ou o primeiro combate do qual Anita participou. Anita surge, nesse momento, com toda a força, não só no monumento, mas também como participante da vida do herói.

Garibaldi era um dos elos fortes da ligação entre gaúchos e italianos. É preciso destacar, contudo, que se por um lado o Governo do Estado tecia consideráveis elogios aos italianos — o próprio Castilhos havia chamado Caxias do Sul de “pérola da colônia” — exigia “(...) o engajamento ao partido no poder e, subjacentemente, respeito à hierarquia e autoridade”.33 Bem denotam essa situação os 113 italianos expulsos do Estado em 1907 e 1921, através da lei de expulsão de 1907.

Entre 1920-1932

Apesar da apropriação da figura de Garibaldi, exígua foi a produção historiográfica sobre sua atuação na Revolução Farroupilha. Essa situação somente se modificou no início dos anos 20, cujo “grande acontecimento foi a criação do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS)”.34

Esse sentimento nacionalista correspondia no Brasil à ascensão de Getúlio Vargas, a partir de 1930, no comando da Nação, assim como as lideranças de Hitler e Mussolini na Alemanha e Itália, respectivamente: “Não foi por acaso que o fascismo fez do cinqüentenário do aniversário de Garibaldi, em 1932 — que coincidia com o decennale, dez anos de fascismo —, uma de suas grandes datas.”35

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33 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da Esquina. Imigrantes na Sociedade Porto-Alegrense. Porto Alegre: Sulian, 1991, p. 136.

34 GUTFREIND, Ieda. A Historiografia Rio-Grandense. 2ª ed. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 1998, p. 29.

35 GALLO, Max. Garibaldi: a força do destino. São Paulo: Scritta, 1996, p.379.

36 Decreto nº 21.438, de 24 de maio de 1932, com o seguinte texto: “O Chefe do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil: atendendo a que as cerimônias comemorativas do 50º aniversário da morte de Giuseppe Garibaldi interessam vivamente à Nação; Atendendo a que a epopéia garibaldina está associada à figura da harmonia brasileira Anita Garibaldi; Resolve decretar feriado nacional o dia 2 de junho próximo, no qual se comemorará o 50º aniversário do falecimento do grande general libertador”.

37 Ver, entre outros, DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 1º a 3 de junho de 1932.


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No ano de 1932, ocorreram várias solenidades em Porto Alegre, no Brasil e na Itália. Getúlio Vargas, então chefe do governo provisório da República, decretou feriado no dia 2 de junho de 1932 36. As comemorações no Rio de Janeiro, então capital federal, incluíram desfiles militares, cerimônia no Palácio do Itamaraty, presidida por Getúlio Vargas, com a participação dos embaixadores da Itália, Argentina, França e Uruguai37. Oswaldo Aranha, em seu discurso, preocupa-se em afastar o caráter separatista da Revolução Farroupilha, no momento em que a dissidência paulista colocava em xeque a revolução vitoriosa de 1930. O ministro selecionou proclamações de Bento Gonçalves nas quais o herói farroupilha declara sua fidelidade à pátria brasileira. Não faltaram elogios ao Duque de Caxias cuja “palavra era a de um irmão, as (...) ordens eram conselhos cívicos, exortações patrióticas”.38 Garibaldi aparece como o maior dos heróis: “Ninguém o excedeu na destreza, na audácia, no desinteresse, nem no destemor”.39 A narração dos seus feitos em solo gaúcho também não é esquecida por Aranha: “Foi um dos heróis da retirada de Canabarro, um dos chefes da gloriosa expedição de Curitibanos, um dos bravos da descida da serra, comandou na sangueira do Taquari, participou do ataque, infeliz, mas heróico de São José do Norte (...).”40

Em Porto Alegre, as comemorações do dia 2 de junho iniciaram pela manhã com uma cerimônia realizada junto à estátua de Garibaldi, na praça de mesmo nome. Discursaram Flores da Cunha, pelo Governo do Estado e Lourenço Lotti, pelo consulado italiano. O interventor federal fez, em seu breve discurso, uma interessante observação a respeito da ascensão social de Garibaldi, que sendo oriundo das classes menos favorecidas, obteve trânsito junto às camadas mais abastadas da sociedade européia41. Comentário ilustrativo, num momento em que o movimento de 1930 tentava dar conta da complexidade social que ocorrera no Brasil nas últimas décadas.

À tarde, as comemorações incluíram uma sessão solene, realizada no Theatro São Pedro, sob o patrocínio do Governo do Estado e do Consulado italiano. Nessa sessão, palestraram o cônsul italiano Mario Carli e Darcy Azambuja42, representando o Governo do Estado. Os discursos foram publicados pela revista do Instituto Histórico e Geográfico43. Mario Carli fez o panegírico de Anita, retratando uma imagem idealizada da companheira de Garibaldi, sem nenhuma base histórica. Ao retratar o translado dos restos mortais de Anita, de Nice para Roma, deixa transparecer o sentido político que esse gesto representou na Itália 44. De fato, Mussolini buscava proveito da popularidade de Garibaldi, o herói popular da unificação italiana.

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38 DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 03 de junho de 1932, p. 7.

39 Ibidem

40 Ibidem.

41 DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 03 de junho de 1932, p. 3.

42 Darcy Azambuja exerceu diversos cargos políticos, entre os quais o de deputado e Procurador-Geral do Estado. No ano de 1937, foi agraciado com título honorífico de Comendador da Ordem da Coroa da Itália, concedido pelo Rei Vittoro Emmanuelli III em 1937.

43 Cincoentenário da morte de José Garibaldi. Revista do IHGRS. Op. cit.

44 CARLI, Mario. Revista do IHGRS. Op. cit. p. 226.


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Mario Carli, em sua palestra, ratificava o discurso de união entre o povo italiano e brasileiro:

“E nós, embora longe em pessoa, estamos neste momento perto em espírito ao rito solene que se realiza sobre Gianicolo, neste mesmo momento, na presença de Benito Mussolini, e que lança laço invisível de fraternidade para todo o povo brasileiro, e especialmente ao rio-grandense com o qual tantos vínculos de sangue e de ideais nos têm unido através de um século de história.”45

Darcy Azambuja fez um proNúnciamento um pouco menos ufanista. Apresentou a conjuntura política européia no século XIX em que se contrastavam as idéias liberais oriundas da Revolução Francesa e as tentativas reacionárias da Santa Aliança. Nesse contexto, aparecia o jovem marinheiro: “É preciso compreender o século dezenove para compreender Garibaldi”46, dizia. Após historiar sua atuação na Revolução Farroupilha — em que mais uma vez foi visível a utilização das Memórias de Garibaldi, como fonte —, retratou sua passagem no Uruguai à frente da brigada italiana, “(...) à frente da qual escreveu algumas das páginas mais estupendas da história uruguaia”, finalizando com o seu retorno à Europa onde atuaria ainda na unificação da Itália e na França, na luta contra a Prússia. Se sua apresentação buscou contextualizar a atuação de Garibaldi como inserida no século XIX, o epílogo de sua palestra convergiu com as demais manifestações:

“No Rio Grande a figura senhoril do formidável guerreiro incorporou-se ao patrimônio comum das glórias de sua tradição e ainda hoje o seu nome congrega em uma homenagem fraternal os dois grandes povos. Que a sua memória seja o laço de perene amizade entre as duas pátrias e que os pósteros aprendam na vida do legendário batalhador a desprezar a morte para servir à liberdade.”47

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45 CARLI, Mario. Op. cit., p. 227.

46 AZAMBUJA, Darcy. Cincoentenário da morte de José Garibaldi. Revista do IHGRS. II trimestre, ano XII. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1932, p. 254-256.

47 Ibidem.

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À noite do dia 2 de junho estava reservada ainda uma conferência pública organizada pelo IHGRS que consistia em uma palestra do historiador Otelo Rosa, na Biblioteca Pública. Ele rememora os feitos de Garibaldi em solo gaúcho, utilizando como fonte, principalmente, as Memórias.

No campo da historiografia, na década de 1930 foram produzidas as obras que consagraram Garibaldi como herói farroupilha. Em 1933, Alfredo Varela publicou a História da Grande Revolução, e em 1939 surgiu Garibaldi e a Guerra dos Farrapos, de Lindolfo Collor.

A História da Grande Revolução é considerada o mais completo estudo sobre o período farroupilha. Por sua vinculação à matriz platina, a obra causou grande polêmica à época, gerando discussões entre Varela e outros membros do IHGRS. Para nosso objetivo, todavia, interessa o contraste entre o Garibaldi que é retratado pelo próprio Alfredo Varela, em 1897, na obra Descrição Física, Histórica e Econômica e o de História da Grande Revolução.

Na obra de 1897, Garibaldi é pouco mencionado. As passagens a ele referentes são similares às das obras de Tristão de Alencar Araripe, Assis Brasil e Ramiro Barcelos. Os únicos episódios heróicos mencionados são o combate com Moringue, na Fazenda do Brejo e a travessia dos lanchões. Garibaldi aparece como “o cavaleiro andante do século”, mais como o “herói de dois mundos” do que como o “corsário da República Rio-Grandense”.

Em contraste, em História da Grande Revolução, Garibaldi é elevado a herói de primeira grandeza: “Em verdade, parece que, com a presença de Garibaldi, menos tivemos a de um egrégio mortal, do que a de um desses benignos deuses do paganismo, cultuados antanho” 48. Os episódios antes apenas mencionados são relatados com contornos épicos, com abundantes alusões à mitologia grega. A atuação de Garibaldi em Santa Catarina, esquecida em 1897, aparece de forma bastante detalhada (ao contrário da maior parte das obras que falam sobre Garibaldi, a de Varela utiliza outras fontes, além das Memórias). A derrota em Santa Catarina é, segundo o historiador, responsabilidade de Canabarro, acusado de “nada prever e nada prover”.

Enfim, Alfredo Varela, a despeito da ampla pesquisa e do uso de múltiplas fontes, retratou Garibaldi, em 1933, à luz da construção feita nas primeiras décadas do século XX em torno da figura de Garibaldi como herói farroupilha.

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48 VARELA, Alfredo. História da Grande Revolução: o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Ed. Globo, 1933, v. 5, p. 292.

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Garibaldi e a Guerra dos Farrapos é a primeira obra de fôlego a sistematizar a atuação do italiano em solo gaúcho. Collor não apresenta fatos novos. Utiliza amplamente as Memórias, a História da Grande Revolução e as obras do final do século XIX. Aqui Garibaldi já surge como herói farroupilha. Sua participação na Revolução é tida como decisiva e ele figura entre os protagonistas. Em contraste com Varela, que pouco fala de Anita, Collor a coloca ao lado do herói em todos os episódios nos quais ela aparece nas Memórias. E, corajosamente, ao contrário inclusive de historiadores de períodos mais recentes, não deixa de mencionar que Anita era casada quando uniu-se a Garibaldi, fato aliás sabido desde 1907.49

Considerações Finais

José Murilo de Carvalho, na obra A Formação das Almas, explica como Tiradentes, um desconhecido até a década de 1880, foi alçado à condição de herói da República. No caso, a falta de envolvimento popular na implantação do novo regime reforçava a necessidade de um símbolo. Igualmente, a ausência de bons candidatos a herói diretamente envolvidos no evento, caso de Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamin Constant, levou ao resgate de Tiradentes.

Não foi o caso de Garibaldi. O italiano esteve diretamente envolvido na Revolução Farroupilha, ainda que por pouco tempo, e apesar do pedido de anistia ao Imperador do Brasil. Tampouco carecia de “bons” heróis o movimento farroupilha.

Ao que tudo indica, o motivo principal da eleição de Garibaldi como herói farroupilha e elemento legitimador da República Rio-Grandense foi a condição alcançada de herói italiano. Se tivesse morrido nos campos do Rio Grande do Sul, como Luigi Rosseti, provavelmente menor teria sido a sua projeção.

O culto a Garibaldi trouxe a herança dos ideais farroupilhas para o partido político que se afirmava no poder no Rio Grande do Sul da República Velha. Como herói do Rio Grande do Sul e da Itália, tornou-se um precioso elo de ligação com a comunidade imigrante italiana que, em finais do século XIX e início do século XX, adquiria grande importância econômica e política no Estado. O elo não precisou ser construído. Ele já existia.

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49 “Em 1907, depois de muita pesquisa, ele [o historiador Henrique Boiteux] encontrou no livro quinto dos “Atos Matrimoniais da Diocese de Laguna”, que cobre o período de 1832 a 1844, a certidão de casamento de Anita”. MARKUN, Op. cit. p. 70.

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Todavia, como lembra José Murilo de Carvalho, a construção de símbolos não é arbitrária e não se faz no vazio social. O candidato a herói “tem que responder a alguma necessidade ou aspiração coletiva, refletir algum tipo de personalidade ou de comportamento que corresponda ao modelo coletivamente valorizado”.50

Garibaldi possuía certas características que facilitavam essa identificação. Foi herói no mar e na terra. Max Gallo, discorrendo a respeito da atuação do italiano em Montevidéu, afirma: “A luta principal se trava em terra e Garibaldi vai tornar-se, também, nesse terreno – no próprio local, através da imprensa em toda a Europa e nos Estados Unidos -, uma figura heróica.”51 Era um homem de ação, ao contrário de Tito Lívio Zambeccari e Luigi Rosseti, cuja participação no movimento foi mais intelectual. Do ponto de vista ideológico, mantinha-se mais neutro. Fazia parte da Jovem Itália, mas não escrevia como Rosseti, que chegou a se desentender com os líderes farroupilhas por suas idéias democratas radicais. Casou-se e teve filhos com uma brasileira, fato que sempre aparece nas homenagens a Garibaldi. Finalmente, teve a sua biografia mundialmente conhecida por ter sido produzida por um escritor famoso, Alexandre Dumas, autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo.

Todos esses elementos garantem a Giuseppe Garibaldi um lugar no imaginário popular. Todavia, quando analisamos a Revolução Farroupilha, vemos um estrangeiro entre outros, cuja participação foi transitória e não decisiva. Garibaldi como herói farroupilha é uma construção, bem cimentada acabada, mas construção.

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50 CARVALHO, José Murilo de. Op. cit. p. 55.
51 GALLO, Max. Op. cit. p. 105.

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Referências bibliográficas

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VARELA, Alfredo. História da Grande Revolução: o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Ed. Globo, 1933, v. 5.

Fontes

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Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 11 de agosto de 1839. Coleção Alfredo Varela, Maço 51, Caixa 15, AHRGS.

Coletânea de Documentos de Bento Gonçalves da Silva – 1835-1845 – Arquivo
Histórico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Comissão Executiva do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha, Subcomissão de Publicações e Concursos, 1985

O COSMOPOLITA – Caxias do Sul

DIÁRIO DE NOTÍCIAS – Porto Alegre

A FEDERAÇÃO – Porto Alegre

O POVO – Piratini e Caçapava

Garibaldi na América do Sul

Yvonne Capuano
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Pesquisadora de História e escritora, autora do livro De sonhos e Utopias –
Anita e Giuseppe Garibaldi, é graduada pela Escola Paulista de Medicina


Chegada ao Brasil

O navio Nautonnier aproximou-se lentamente do porto do Rio de Janeiro, destinado a embarcações mercantes, em data imprecisa: fins de 1835, início de 1836. Trazia a bordo um jovem italiano esperançoso que lutava pela unificação da Itália e que fugira por envolver-se em questões políticas. O idealista era Giuseppe Garibaldi, revolucionário republicano nascido em Nizza, Itália, em 4 de junho de 1807, cosmopolita que sempre lutaria pela liberdade dos povos. Angelo Maria, seu avô, e Domenico, seu pai, homens do mar, possibilitaram ao jovem Giuseppe tornar-se marinheiro e comandante de navios.

Garibaldi, numa das viagens, no porto de Taganrog, encontrou-se com Giovanni Battista Cuneo, marinheiro filiado à Jovem Itália. Tratava-se de organização fundada por Giuseppe Mazzini, que pregava: os povos que não soubessem, pela energia do seu caráter, conquistar a liberdade de pensamento, eram indignos de possuí-la. Seu programa resumia-se na expressão Unidade e República e sua divisa era Deus e povo, pensamento e ação. Mazzini, genovês nascido em 1805, exercia a profissão de advogado junto aos menos afortunados e lutava para libertar a Itália do jugo estrangeiro.

Quando Garibaldi decidiu entrar para o movimento, adotou o cognome Borel. Envolvendo-se com Mazzini num levante, foram delatados e condenados à morte, o que os obrigou a fugir: Mazzini para Londres e Garibaldi para o Brasil.

Ao chegar, Garibaldi encontrou-se com Luigi Rossetti, que o acolheu. Rossetti era de Gênova e fervoroso discípulo de Mazzini, com quem havia fundado o jornal La Voce del Popolo. Pelas mesmas razões – a difusão de idéias políticas então consideradas subversivas – viera foragido para o Brasil. Rossetti era um homem culto, e aqui dedicou-se ao magistério, de início, e ao comércio, mais tarde, o que lhe permitiu condições financeiras para auxiliar os companheiros que chegavam da Itália. Garibaldi passou então a dedicar-se ao comércio de cabotagem no litoral brasileiro, atividade que não se revelou muito lucrativa.

Italianos na Revolução Farroupilha

Em 20 de setembro de 1835, irrompera em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a Revolução Farroupilha. Italianos sonhadores associaram-se aos revolucionários, e entre eles encontrava-se Tito Livio Zambecari, conde bolonhês adepto de Mazzini. Em outubro do ano seguinte, Bento Gonçalves, líder da revolução, foi vítima da perseguição implacável dos imperiais, que o levaram preso, junto com Zambeccari, para o Rio de Janeiro. Enviados pela organização italiana Congrega della Giovine, que se formara no Rio de Janeiro e reunia italianos emigrados, Rossetti e Garibaldi visitaram Zambeccari na prisão. Ficaram encantados com os relatos sobre o movimento e resolveram aderir à causa. Começava dessa forma a luta de Garibaldi na América do Sul.

Ao receberem do governo farrapo uma carta de corso, em maio de 1837, Garibaldi e Rossetti lançaram-se ao oceano em perseguição às embarcações imperiais. O pequeno barco, a que deram o nome de Mazzini, saiu do Rio de Janeiro com armas e munições, embalado pelo entusiasmo e idealismo dos tripulantes:

“Finalmente éramos livres, navegávamos debaixo de um pavilhão republicano; enfim éramos corsários. Com dezesseis homens de equipagem e um navio, éramos capazes de declarar a guerra a um império. [...] O oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu império.”1

Ações guerrilheiras

Durante a travessia aprisionaram duas embarcações: a lancha Marimbondo e o navio Luísa. A primeira continha poucos víveres e um escravo chamado Antônio, que se ligou ao grupo e foi alforriado por Garibaldi, embora isso não tivesse valor legal. A segunda, carregada de café, pertencia ao austríaco Guilherm Brohun e ao brasileiro Filipe Néri de Carvalho, e tinha nove tripulantes: o comandante, o contramestre, quatro escravos, um passageiro e dois marinheiros. Como não havia possibilidade de Garibaldi comandar ao mesmo tempo as duas embarcações, afundou o Mazzini e continuou com o Luísa, de maior porte2. Na altura da Província de Santa Catarina, libertou a tripulação e ficou com os escravos Luís, Pedro, Bentura e Manuel, que preferiram continuar ao seu lado e também foram alforriados.

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1 GARIBALDI, 1907, pp. 46-47.

2 Alguns historiadores admitem que Garibaldi trocou o nome Luísa por Mazzini, pelo qual passaremos a chamá-lo.


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Os portos do Rio Grande do Sul encontravam-se vigiados pelos imperiais e Garibaldi não podia se arriscar. Continuou navegando até o rio da Prata e atracou em Maldonado, Uruguai. Ao chegar, tremulava no mastro a bandeira farroupilha, desconhecida das autoridades, o que causou curiosidade e preocupação. Rossetti partiu para Montevidéu à procura dos amigos italianos, e Garibaldi esperou seu retorno, tentando vender o café. A polícia marítima procurou identificar o país de origem dos visitantes, mas nada conseguiu. O navio permanecia no porto. As águas uruguaias, constantemente invadidas por embarcações revolucionárias que navegavam pelo rio da Prata, obrigavam os diplomatas brasileiros a exigir do governo oriental uma constante vigilância. O vice-cônsul do Brasil radicado em Maldonado, Juan Manuel Acosta Pereyra, ao ser avisado sobre o navio ancorado, informou o fato à capitania dos portos e exigiu a prisão dos tripulantes.

Garibaldi zarpou sem Rossetti com destino a Punta de Jesús y María, a aproximadamente setenta quilômetros de Montevidéu. A chefia dos portos ordenou a captura do Mazzini e, em cumprimento à intimação feita pelo ministro da Guerra e da Marinha, enviou os navios Maria e Loba no seu encalço. Garibaldi avistou do convés as embarcações, mas não sabia se eram amigas, pois não traziam bandeiras hasteadas; somente quando se avizinharam é que o jovem italiano constatou que vinham atacá-lo. A situação se complicou quando vários tripulantes do navio inimigo conseguiram passar para o Mazzini, cujo leme ficou desgovernado com a morte de Fiorentino, encarregado das manobras. O próprio Garibaldi foi atingido por uma bala na região do pescoço, permanecendo inconsciente por algum tempo3. A luta continuou por cerca de uma hora, sustentada por Luigi Carniglia, Pasquale Lodola, Giovanni Lamberti e outros. Repentinamente, as embarcações inimigas se afastaram, e em relatório oficial posterior consta a informação de que o fizeram por falta de munição.

Os amigos preocupavam-se com o estado de Garibaldi, que durante dias, com séria lesão entre as vértebras cervicais e a faringe, delirava de febre. Cuidado com desvelo por Carniglia, a quem se ligou fielmente até o fim da vida, recuperou aos poucos a saúde:

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3 Há controvérsias sobre o combate. Em relatório oficial, o governo uruguaio afirma que o confronto deu-se apenas com o lanchão Maria, e que somente no dia seguinte o Loba partiu em direção a Punta de Jesús y María.

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“Quando estava deitado no meu leito de agonia, abandonado por todos e delirava com o delírio da morte, era Luigi que sentado à cabeceira do meu leito com a dedicação e paciência de um anjo não se afastava de mim um instante senão para ir chorar e ocultar as suas lágrimas [...]. Luigi Carniglia era de Deiva, pequeno país do levante. Não havia recebido instrução literária, mas supria esta falta por um maravilhoso entendimento. Privado de todos os conhecimentos náuticos que são necessários aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com a sagacidade e felicidade de um piloto consumado.”4

Impedido de falar, Garibaldi apontou o rumo a seguir, sem convicção. Sabia que em qualquer lugar em que aportassem seriam aprisionados. Navegavam com rumo incerto, em região desconhecida, hasteando uma bandeira de revolucionários. Aproximaram-se da Província de Entre Ríos; ao encontrarem a galeota Pinturesca, seu comandante, dom Lucas Tantalo, comovido com o relato dos italianos, forneceu-lhes víveres e socorreu Garibaldi.

A viagem continuou. Em 26 de junho o navio chegou a Gualeguay, porto de Entre Ríos, onde Garibaldi procurou o governador, Pascual Echagüe, e lhe entregou uma carta de recomendação fornecida por dom Lucas. Constatando o precário estado de saúde em que ele se encontrava, Echagüe enviou-o ao seu médico particular, Ramon del Arca, que constatou que a bala ficara alojada no pescoço, provocando-lhe febre e dificuldade de deglutição.

Garibaldi escreveu a Giovanni Batista Cuneo, companheiro revolucionário, que se encontrava em Montevidéu:

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4 GARIBALDI, 1907, p. 61.

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“Gualeguay, 1o de outubro de 1837. Vamos às questões que o seu precioso coração me manda. As minhas feridas estão quase curadas, assim como a operação feita em minha nuca; aquela maldita bala entrou sob a minha orelha esquerda e, depois de ter atravessado diametralmente o pescoço, ficou alojada no lado direito, a meia polegada da pele, e provocou uma operação de quase meia hora que dava gosto, principalmente quando o doutor afastava os tendões nervosos entre os quais ela se alojara. A ferida do braço direito foi muito leve; a bala somente havia passado de raspão. Borel.”5

Juan Manuel Rosas, presidente da Argentina e das Províncias Unidas do Rio da Prata, dominava Entre Ríos. Ao ser informado da presença de Garibaldi em Gualeguay, enviou a Echagüe ordem para prendê-lo. Confinado na residência de dom Jacinto Andreu, tinha relativa liberdade, pois o governador conhecia Bento Gonçalves e o movimento farroupilha.

O corsário italiano ficou seis meses com Andreu, que lhe dedicou uma amizade sincera. Mas planejava a fuga, já que o ócio não combinava com seu temperamento, e o ideal era continuar lutando pelos povos. A oportunidade surgiu quando Pascual Echagüe, chamado por Rosas a Buenos Aires, foi substituído pelo comandante Leonardo Millán, famoso pela violência de seus atos. Em noite de tempestade, Garibaldi fugiu. Solicitou guia e cavalos, pois desejava alcançar a residência de um inglês, dono de barco que o levaria a Montevidéu para encontrar-se com Rossetti e os amigos italianos. Mas o guia, depois de cavalgarem quase oitenta quilômetros, o traiu nas proximidades da estância de Ibicuy. Preso e amarrado pelas mãos e pés ao cavalo, retornou a Gualeguay. Sua narrativa prossegue:

“Conduzido à presença de Leonardo Millán, fui intimado por ele a deNúnciar quem me havia fornecido os meios de efetuar a minha fuga. É escusado dizer que não fiz tal confissão, pois declarei que só eu a tinha arranjado e executado. Então, como me achava imobilizado e Leonardo não tinha coisa alguma a temer, aproximou-se de mim e começou a bater-me nas faces com o chicote. Depois renovou as suas perguntas, não sendo mais feliz que da primeira vez. Mandou-me conduzir à prisão e disse em voz baixa algumas palavras ao ouvido de um dos guardas. Estas palavras eram a ordem de me aplicar a tortura.”6

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5 MARIO, 1884, p. 80.

6 GARIBALDI, 1907, pp. 64-67.


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Echagüe, ao voltar, informado do que sucedera, enviou Garibaldi à Província de Bajada e, pouco tempo depois, sem explicações, libertou-o. Livre, ele embarcou num navio italiano até a desembocadura do rio Paraná-Iguaçu, onde conseguiu outra condução e chegou a Montevidéu. Escondeu-se na casa do italiano Pesenti, pois ainda vigorava contra ele a ordem de prisão emitida pelo combate que travara em Punta de Jesús y María. Aproximadamente um mês depois, encontrou-se com Rossetti e soube que ele, ao descer do navio e dirigir-se a Montevidéu, foi perseguido pela polícia e somente não foi preso porque um amigo o protegeu.

Em Piratini

Em 15 de junho de 1838, Oribe renunciou, e os presos políticos foram anistiados. Garibaldi e Rossetti prepararam-se para retornar ao Brasil e juntar-se novamente aos farroupilhas, defendendo os ideais que acreditavam ser iguais aos da Itália. A viagem de retorno, difícil e cansativa, com cavalgadas nas extensas planícies uruguaias, tornava-os ansiosos. Ao alcançarem a fronteira do Brasil, avistaram pequenas casas construídas ao pé da serra, cavaleiros exímios e carretas puxadas por bois. Esperançosos, procuraram a sede do governo farroupilha, que sabiam estar instalada em Piratini. O local foi escolhido por vários motivos: situava-se próximo ao rio Jaguarão, o que em caso de invasão legalista os favoreceria na retirada, e era um ponto central de difícil acesso.

Ao se aproximarem da sede do governo, procuraram pelo presidente, mas Bento Gonçalves estava em campanha. Foram recebidos pelo ministro da Fazenda, Domingos José de Almeida, que ao ouvir a história dos italianos surpreendeu-se com sua coragem; não podia deixar de aproveitá-los, incorporando-os novamente ao movimento revolucionário.

Rossetti, culto, dominando o idioma português, foi designado para redigir O Povo, jornal político e literário da República Rio-Grandense; Garibaldi, que crescera tendo o mar por horizonte, foi encaminhado a Camaquã para auxiliar na construção dos barcos. Nessa ocasião Bento Gonçalves chegou a Piratini e avistou-se com Garibaldi:

“Foi então que pela primeira vez vi aquele valente, gozando alguns dias a sua intimidade. Era realmente o filho querido da natureza — que lhe havia prodigalizado tudo o que torna o homem um verdadeiro herói. Bento Gonçalves teria então sessenta anos. Alto, esbelto, montava a cavalo [...] com um garbo e agilidade admiráveis. Naquela posição ninguém o julgaria com mais de vinte e cinco anos. [...] Fora um dos primeiros a levantar o grito de guerra, não com vistas de ambição pessoal, mas como qualquer outro beligerante filho daquele povo. Na campanha passava como o mais ínfimo habitante das campinas; isto é, com a carne assada e água pura. No dia em que nos encontramos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal; e conversamos com tanta familiaridade como se fossemos companheiros de infância e iguais em posição. Com tais dotes naturais e adquiridos, Bento Gonçalves era o ídolo de seus concidadãos; porém, coisa estranha, foi quase sempre infeliz nas empresas guerreiras, o que me faz acreditar que o acaso é superior ao gênio para os sucessos da guerra e para a fortuna dos heróis.”7

Camaquã

A família de Bento Gonçalves possuía vasta extensão de terra em Camaquã. Ao chegar, Garibaldi foi conduzido ao estaleiro do Brejo, cuja proprietária, Antônia, era irmã do líder farroupilha. O local era antes usado para preparação do charque e depósito de erva-mate, transformando-se então no arsenal de marinha dos farrapos.

Lá o italiano encontrou-se com John Griggs, conhecido como Big John, que diziam ser um padre irlandês nascido em família rica, que abandonara a vida eclesiástica para se tornar um homem do mar. Sobre ele corriam várias histórias.

“Afirmam que ele deixou a vida religiosa por ter atentado contra a moral e depois, arrependido, converteu-se à seita dos quakers, que proibia o uso de qualquer tipo de arma. Por esse motivo, andava sempre com um cajado de madeira para se defender, manejando-o com grande habilidade; quando lutava, tomava cuidado para não ferir de morte os seus adversários. Caso acidentalmente isso viesse a acontecer, repetia: Accipe ad huc illum, Domine, in misericordiam tuam. (Recebei-o, Senhor, em Vossa misericórdia.)”8

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7 GARIBALDI, 1907, p. 71.

8 BENTO, p. 231.


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Garibaldi foi encarregado da construção de dois lanchões. Rossetti, que se demitira da redação do jornal O Povo por discordar de várias idéias publicadas, juntou-se a ele. O trabalho era lento e árduo, já que todo o material tinha que ser extraído da região: couro, madeira e ferro para a fabricação das peças. Garibaldi recorreu a Luigi Carniglia, conhecedor de construção naval, que em Montevidéu reuniu vários refugiados italianos, entre eles Edoardo Mutru, seu antigo companheiro de lutas em Gênova.

“No fim de dois meses a esquadrilha estava pronta. Cada um dos vasos foi armado com duas peças de bronze; quarenta negros ou mulatos foram agregados aos trinta europeus, formando desse modo duas equipagens que compreendiam setenta homens. Tomei o comando do mais forte, a que pusemos o nome de Rio-Pardo. John Griggs foi encarregado do segundo, que se chamou — O Republicano [...]. Começaram então as nossas correrias pela lagoa dos Patos. Passaram-se alguns dias sem fazermos mais do que presas insignificantes. Os imperiais tinham navios de guerra e um barco a vapor. Porém nós tínhamos a nosso favor os baixios das águas. A lagoa não era navegável para os grandes barcos, senão n’uma espécie de canal que seguia ao longo da sua margem no oriente. No lado oposto sucedia o contrário, porque o solo era cortado em declive e nós mesmos víamo-nos às vezes encalhados antes de tocar na margem. Os bancos de areia estendiam-se pela lagoa à semelhança dos dentes de um pente e só havia de bom que esses dentes eram bastante afastados uns dos outros. Quando éramos forçados a encalhar, ou os canhões do navio de guerra ou do vapor nos incomodavam, dizia: — Avante, meus patos, saltemos à água. E os meus patos caíam n’água e à força dos braços erguiam o lanchão, transportando-o para o outro lado do banco de areia.”9

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9 GARIBALDI, 1907, p. 73. Há entre os estudiosos controvérsias quanto aos nomes dos barcos.

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A caminho de Laguna

Os farroupilhas, otimistas, continuavam as conquistas e planejavam invadir Santa Catarina, agregando-a à República Rio-Grandense. Havia outra causa importante para tomá-la: a barra do Rio Grande, cujo porto era regulador comercial da Província do Rio Grande do Sul, e o rio São Gonçalo, que ligava a lagoa Mirim à lagoa dos Patos e ao estuário do rio Guaíba, estavam dominados pelos imperiais. Os farroupilhas controlavam algumas regiões de lagoas e rios navegáveis ameaçados de conquista por John Grenfell, mercenário inglês contratado pelo Império, mas não possuíam um porto, o que era fundamental. A invasão de Laguna resolveria o problema, pois daria aos revoltosos a possibilidade de conquistá-lo.

Garibaldi, Big John e companheiros construíram no estaleiro quatro barcos, e planejaram que dois continuariam realizando o corso na lagoa dos Patos, chefiados por Zeferino Dutra, enquanto os outros seriam lançados no oceano para alcançar Laguna. Mas ocorria um problema quase intransponível: a barra do Rio Grande, tomada pelos imperiais, impedia que os barcos na lagoa alcançassem o oceano.

Garibaldi então armou duas imensas carretas, colocando-as em um terreno em declive, e deslizou sobre elas os barcos; puxadas por bois, levou-as até as praias do Capivari. Partiu em 5 de julho de 1839, e depois de percorrer por terra aproximadamente sessenta quilômetros em terreno arenoso e salino, chegou às praias, onde durante três dias reparou as embarcações, e lançou-as ao mar.

“Esse memorável projeto executado por Garibaldi — o transporte dos barcos Seival e Farroupilha por terra, desde a lagoa dos Patos, na foz do Capivari, até as praias de Tramandaí — tornou-se célebre não tanto pelo transporte em si, pois nada de novo nele havia (Fournire e Sorriano, na guerra entre o Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata, executaram façanha idêntica, e os venezianos, em 1439, fizeram idêntico transporte, mas em maiores proporções, pois levaram 30 navios, de Revoredo a Torbole), mas pela audácia do feito, desorientando completamente os imperiais, que o julgavam perdido pelo bloqueio que lhe faziam no saco do Capivari, e pela rapidez do transporte de um a outro ponto (nove dias).”10


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10 SPALDING, 1982, pp. 161-162.

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Ao atingirem o mar, desfraldaram a bandeira da República Rio-Grandense. O barco Seival, comandado por Big John, de maior porte, navegava na dianteira, seguido pelo Farroupilha, comandado por Edoardo Mutru, onde estavam Garibaldi, Carniglia, Starderini, Giovanni e Nadonne.

Na altura do cabo de Santa Marta, em Santa Catarina, o oceano Atlântico, violento, prenunciou uma tempestade que pouco depois desabou. O Seival conseguiu atravessá-la sem que Big John percebesse que o Farroupilha, de tamanho menor, naufragava. Garibaldi, exímio nadador, vária vezes mergulhou para salvar os amigos; em vão, porque não conseguiu vencer o turbilhão das ondas. Chegando à praia, exausto, encontrou poucos sobreviventes.

“Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos. Carniglia, Mutru, Starderini, Nadonne e Giovanni [...]. Não me recordo do nome do sexto. Não obstante, devia me lembrar de seu nome. Peço perdão à pátria por havê-lo esquecido. G.G.”11

A República Catarinense

No dia seguinte, a cavalo, Garibaldi partiu ao encontro de Davi Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes, comandante dos lanceiros negros. O Seival encontrava-se ancorado na lagoa de Garopaba, com Big John e Rossetti, que souberam do acontecido.

Os farroupilhas invadiram a vila de Laguna. Davi Canabarro, em 22 de julho de 1839, proclamou a República Catarinense, e a população, esperançosa, regozijou-se com os revoltosos. Antônio Sousa Neto, um dos mais conceituados líderes farroupilhas, homenageou os heróis na sua ordem do dia:

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11 GARIBALDI, 1907, pp. 84-88.


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“1839, 22 de julho. Tomada da Laguna por Davi Canabarro. Quartel-general na vila Setembrina, de agosto de 1839. O comandante-em-chefe do exército, extasiado de prazer, faz público ao mesmo o brilhante triunfo que acabam de alcançar as armas republicanas sobre a horda imperial estacionada na vila da Laguna, triunfo tanto mais glorioso quanto é seguro, garantindo a completa regeneração do Estado Catarinense. O dia 22 de julho raiou glorioso no horizonte político daquela nascente república e seus efeitos serão com letras indeléveis levados à mais remota posteridade. O intrépido e perito coronel Davi Canabarro, digno comandante da divisão libertadora, ao aproximar-se daquela importante posição, cujo mando estava confiado ao decrépito Vilas-Boas, menosprezando seus canhões, mercenárias baionetas e só escudado no valor dos seus bravos companheiros, não evitou em carregar-lhe e a deusa da vitória coroou seu esforços! [...] O general-comandante tributa sinceros encômios ao cidadão coronel Davi Canabarro, [...] ao bravo tenente-coronel Joaquim Teixeira Nunes, [...] ao tenente de marinha Lourenço Valerigini e tenente da mesma, Inácio Bilbao, bem como ao comandante da esquadrilha capitão-tenente José Garibaldi [...]. Antônio Neto.”12

Encontro com Anita

Garibaldi registrou em suas Memórias que nunca havia pensado em casamento. Considerava-se incapaz de ter família, por prezar a independência e ter paixão por aventuras. Mas o destino decidiu o contrário. Ao perder os amigos, embora existisse Rossetti ocupado com a organização de Laguna, ele se sentia só. Nesse isolamento encontrou Ana Maria de Jesus Ribeiro ou Ana Maria Ribeiro da Silva, como alguns historiadores preferem chamar Anita Garibaldi:

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12 Apud BOITEUX, 1985, pp. 125-127.

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“Eu andava pelo tombadilho do Itaparica, quando decidi procurar uma mulher que me tirasse daquela insuportável e tediosa situação. Lancei um olhar às habitações da Barra, situada na entrada sul de Laguna. Com a luneta avistei uma jovem e pedi que me transportassem até ela. Desembarquei e dirigi-me às residências onde estava o motivo da minha viagem. Não a encontrei, mas um homem que conheci logo após meu desembarque convidou-me para tomar café em sua casa. Entramos e a primeira pessoa que avistei era aquela que eu procurava: Anita, a mãe dos meus filhos, a companheira da minha vida, na boa e má sorte, a mulher com a coragem que eu sempre quis ter. Ambos ficamos estáticos e silenciosos, olhando-nos um ao outro como duas pessoas que já se encontraram e tentam reconhecer reminiscências nas fisionomias... Finalmente cumprimentei-a e disse-lhe em italiano: Tu devi essere mia. (Você deve ser minha). Fui magnético na minha insolência e tinha atado naquele momento as nossas existências, dando um nó que só a morte poderia desfazer.”13

A reação imperial

A conquista de Laguna amedrontou o Império, que se articulou para reconquistá-la. Francisco José Soares de Andréa, português com duvidosa reputação e conhecido como o carrasco do Pará, pelas atrocidades cometidas durante a Cabanagem, foi nomeado presidente do Rio Grande do Sul. Junto com Frederico Mariath, comandante naval, elaborou planos para retomar Laguna.

Os habitantes, que haviam recebido os farroupilhas com entusiasmo, mostravam-se descontentes. Temiam Canabarro, que adotava postura rígida e inflexível. As desavenças com Rossetti, Garibaldi e outros líderes, que discordavam de sua conduta, desnorteavam a população e os próprios farroupilhas. A situação piorou com o episódio de Imaruí, pequena aldeia próxima a Laguna, cujos moradores, pesarosos, trocaram a bandeira revolucionária pela do Império.

Garibaldi recebeu ordem de Canabarro para verificar o que se passava, acompanhado pelos soldados baderneiros do comandante farroupilha, que não lhe obedeceram e destruíram a aldeia sem que o líder italiano pudesse contê-los. Canabarro, soberbo, ao ordenar aos seus subordinados que destruíssem Imaruí, contribuiu para a decadência de seu comando sem que Garibaldi pudesse interferir. Confessou mais tarde:

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13 GARIBALDI, 1888, p. 56.

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“Em lugar de encontrar inimigos, encontramos aliados, em lugar de sermos combatidos, fomos festejados. Os habitantes nos trataram como irmãos e libertadores, título que desgraçadamente não soubemos justificar enquanto estivemos nessa povoação amiga.”14

Ao lado de Garibaldi, Anita vivia momentos difíceis, mormente pela decepção dos seus irmãos, que almejavam para ela uma situação melhor. Sofria os preconceitos da união com Garibaldi, mas não retrocedeu, e ao seu lado demonstrou o idealismo e o heroísmo que a consagrariam na história.

Soares de Andréa, coordenando as forças em Imbituba, sob o comando naval de Frederico Mariath, atacou Laguna com uma frota de vinte e dois navios. Investiu contra os farroupilhas, que tentaram impedir a sua passagem na barra, quando Garibaldi colocou os barcos em semicírculo, presos entre si por fortes correntes. Tinham poucas lanchas e cinco navios: Rio Pardo, Itaparica, Caçapava, Santana e Seival.15 Numa luta desigual, os farroupilhas foram vencidos. Ao pressentir que estavam perdidos, Garibaldi incendiou os barcos. Durante todo o conflito, contou com o auxílio de Anita, que transportou as armas para terra firme, num pequeno barco, em inúmeras travessias.

Garibaldi, em suas Memórias, e Mariath, em relatório ao Império, narraram o combate. Embora em lados opostos, as descrições comprovam o sangrento confronto e o heroísmo de Garibaldi, que lutou bravamente:

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14 Apud CABRAL, p. 133.

15 VARELA, 1933, v. 4. p. 448.


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“Era um verdadeiro açougue de carne humana; andava-se por cima de montões de cadáveres. O comandante do Itaparica, João Henrique, de Laguna, estava deitado no meio de dois terços da sua equipagem com uma bala que lhe tinha feito no meio do peito um buraco, por onde podia entrar perfeitamente um braço. O pobre João Griggs tinha, como já disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha. Fiquei sufocado, à vista de semelhante espetáculo, e perguntei a mim mesmo como poderia ter escapado. Num momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos navios e os nossos bravos tiveram ao menos uma sepultura digna deles. Enquanto tinha cumprido a minha obra de destruição, Anita, pela sua parte, havia cumprido a sua salvação. Era noite fechada quando, tendo reunido todos os marinheiros que haviam escapado, me juntei com a nossa divisão e nos retiramos para o Rio Grande, seguindo o mesmo caminho que alguns meses antes tínhamos atravessado com o coração cheio de esperança e precedidos pela vitória.”16

Mariath escreve:

“O inimigo opôs uma resistência formidável [...], uma chuva de balas disparadas, quase à queima-roupa, pela sua infantaria, abrigada por uma cortina de pedra ao lado da mesma fortaleza, causava-nos um dano terrível [...]; desorientados alguns práticos, causaram o encalhe de três das nossas embarcações; o combate tornou-se então muito caloroso. Garibaldi, seja isto dito em abono da verdade, desenvolveu nessa ocasião uma coragem digna de inveja.[...] Não devo deixar desapercebido o projeto que Garibaldi diz formara de ir ele mesmo incendiar a esquadrilha imperial e isto quando já estava derrotado. [...] Se tal coisa empreendesse, talvez não lhe restasse tempo de escapar-se de um pequeno bote com a sua heroína. Frederico Mariath.”17

Passo de Santa Vitória, Lajes e Curitibanos

Garibaldi, Anita e Rossetti seguiram, após a derrota, a coluna chefiada por Teixeira Nunes. Não aceitavam a conduta intransigente de Canabarro. Ao passarem por Passo de Santa Vitória e Lajes, confrontaram-se com os imperiais. A vitória alcançada alimentou as esperanças dos corajosos combatentes. Entretanto, pouco depois, em Curitibanos, ao caírem numa armadilha, Teixeira Nunes e Garibaldi foram obrigados, quando acuados num matão, a fugir sem poder regressar ao local onde lutavam.

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16 GARIBALDI, 1907, pp. 100-102.

17 MARIATH, pp. 175-178. (Carta original publicada no Correio Mercantil do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1860)


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Mais uma vez Anita demonstrou sua coragem quando, tomando conta das armas, lutou com destemor ao ser atacada. Presa e levada ao coronel Antônio Melo de Albuquerque, apelidado Melo Manso, respondeu às perguntas com altivez; poucos dias depois fugiu pela floresta, atravessando o rio Canoas, e encontrou Garibaldi em Lajes.

Os últimos combates

Após a perda de Laguna começou o declínio farroupilha. Os líderes desentendiam-se constantemente, sem que Bento Gonçalves pudesse contê-los. As tentativas de reconciliação com o Império, por sua vez, não chegavam a bom termo, provocando descontentamentos e a suspeita de traição. As derrotas militares em Taquari e São José do Norte foram fatais para o movimento revolucionário.

Em Taquari, Garibaldi, Antônio Sousa Neto, Canabarro, Teixeira Nunes, Corte Real e Domingos Crescêncio prepararam-se para enfrentar as tropas legalistas chefiadas por Manuel Jorge Rodrigues, significativamente superiores. Aguardavam apenas a ordem de Bento Gonçalves para atacar. Ao fazê-lo, após hesitação, Manuel Jorge já se afastara, perdendo os farroupilhas a oportunidade de vencer pela posição privilegiada que ocupavam. No dia seguinte, ao iniciarem a contenda, o desânimo atingira os revoltosos e o resultado final foi considerado incerto. Garibaldi deixou nas Memórias:

“O resultado foi para nós péssimo, porque não sabíamos como reparar as faltas que havia sofrido a infantaria, arma em que o inimigo nos era muito superior e se achava todos os dias recebendo novos reforços. [...] Uma operação concebida neste tempo pelo general teria podido pôr-nos em excelente posição, se a fortuna tivesse, como devia, secundado os esforços deste homem tão superior e tão desgraçado.”18


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18 GARIBALDI, 1907, pp. 114-119.

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A posição estratégica de São José do Norte, onde havia um comércio razoável, capaz de abastecer as tropas necessitadas, era de suma importância para os farroupilhas. O plano traçado para invadi-la consistia em tomar o local de surpresa. Após conquistá-la, Garibaldi transportaria parte das tropas para a outra margem da lagoa, nas embarcações que ele conquistasse, e obstruiria a única passagem para a entrada dos navios legalistas. Bloquearia, dessa maneira, a esquadra imperial vinda de Porto Alegre. Garibaldi e Rossetti entusiasmaram-se com o plano, pois sempre alertavam para a necessidade de terem um porto.

A contenda foi quase um corpo-a-corpo, com inúmeros mortos que se espalhavam pela cidade. Os farroupilhas venciam a batalha. Bento Gonçalves ordenou aos imperiais, reunidos no quartel local à espera de reforços, que se rendessem. Ao perguntar aos companheiros qual o meio mais rápido para que os adversários saíssem do refúgio, ouviu que seria através de um incêndio, que poderia matar também muitos habitantes. Respondeu que por essa forma não queria a vitória, e deu ordem para a retirada. A medida foi severamente criticada por soldados e líderes que o acompanhavam.

Na opinião de Garibaldi, Bento Gonçalves tomou essa atitude baseada no péssimo desempenho das tropas, que saqueavam indiscriminadamente a vila, embebedando-se e dispersando-se.

“O mais glorioso dos triunfos estava mudado, ao meio-dia, na mais vergonhosa retirada, e os verdadeiros amigos da liberdade choravam de desesperação. A nossa perda, comparativamente à nossa situação, foi enorme. Desde este momento a nossa infantaria não foi senão um esqueleto; enquanto que a pouca cavalaria que tinha vindo na expedição serviu para proteger a retirada.”19

Garibaldi partiu para uma propriedade abandonada, situada às margens da lagoa dos Patos, que pertencia ao conde de São Simão, legalista; sua missão era construir canoas usando troncos de árvores, com as quais abririam comunicações entre as paragens da lagoa. Mas as árvores prometidas não chegaram, e ele ocupou o tempo, pois odiava o ócio, domando cavalos. Acompanhava o desenrolar dos acontecimentos à distância, ao lado de Anita, que estava grávida.

Em 16 de setembro de 1840 nasceu um menino, a quem chamaram de Menotti, em homenagem ao revolucionário Ciro Menotti, que dera a vida pela causa da unificação da Itália. Sem qualquer proteção para Anita e o menino, Garibaldi foi a Setembrina para obter algum recurso entre os amigos italianos que pudessem ajudá-lo.

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19 GARIBALDI, 1907, pp. 120-121.

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Ao chegar, encontrou Luigi Rossetti frustrado com os rumos da revolução. Identificava-se com as proposições de paz apresentadas por Bento Gonçalves, e ponderava que a luta entre irmãos deveria terminar o mais rápido possível. Mostrou a correspondência mantida com líderes legalistas, onde expunha seus sentimentos e defendia a necessidade de um acordo para o término das contendas. Garibaldi concordou com as ponderações do amigo, mas precisava partir. Com o auxílio desejado, retornou ao encontro da mulher e do filho, que durante esse período foram atacados pelo legalista Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, salvando-se graças à coragem e determinação de Anita.

Garibaldi sentiu-se penalizado pela situação dos farroupilhas. Bento Gonçalves, que se estabelecera provisoriamente em São Gabriel, então capital da República Rio-Grandense, enfrentava o descontentamento do exército e dos seus principais líderes. Desde que encontrara Rossetti, Garibaldi refletia sobre seu futuro: os ideais farroupilhas dificilmente seriam alcançados; faltavam armas e alimentos; os amigos italianos estavam mortos; e havia Anita e Menotti, que estavam vivos por milagre.

A retirada

Os acontecimentos se precipitavam, reforçando a decisão a ser tomada. Rossetti, que acampara em Setembrina após o ataque chefiado por Moringue, foi morto. Garibaldi, Anita e Menotti, nas fileiras comandadas por Davi Canabarro, marcharam em retirada até alcançar São Gabriel.

“Esta retirada empreendida na estação invernosa, por um lugar montanhoso e debaixo de uma chuva incessante, foi a mais terrível e mais desastrosa que tenho visto. Conduzimos por precaução algumas vacas, sabendo perfeitamente que no caminho que tínhamos a atravessar não encontraríamos comestíveis alguns. [...] Anita, durante a caminhada, sofreu toda a casta de privações e incômodos com um estoicismo e uma coragem admiráveis. É necessário ter algum conhecimento das florestas desta parte do Brasil, para fazer idéia das privações sofridas por uma porção de homens sem meios de transporte e tendo unicamente por recurso o laço, arma muito útil nas planícies cobertas de animais, mas perfeitamente inútil nessas espessas florestas, abundantes em tigres e leões. Para a nossa desgraça ser ainda maior, os rios muito próximos uns dos outros nestas florestas virgens engrossavam cada vez mais. A horrível chuva que nos perseguia não cessava de cair, acontecendo muitas vezes que uma parte dos nossos soldados se achavam entre duas correntes de água e aí ficavam privados de todo alimento, morrendo muitos de fome e principalmente as mulheres e crianças, que não podiam suportar tanto as privações. Era uma carnificina mais horrível do que a de uma sanguinolenta batalha. [...] De doze mulas e cavalos com que tinha entrado na floresta e que eram destinadas ao meu serviço, não tinha podido salvar mais que duas mulas e dois cavalos, os demais tinham morrido de fome ou de fadiga. [...] Enviei Anita adiante com um criado e meu filho, a fim de que ele procurasse o fim dessa interminável floresta e algum alimento. Os dois cavalos que eu havia deixado a Anita e que ela montava simultaneamente, foi que nos salvaram. Ela achou o fim da floresta e aí encontrou um piquete dos meus bravos soldados assentados a um belo fogo, o que não era comum pelo tempo que fazia. Os meus companheiros, que por felicidade tinham conservado alguns vestidos de lã, embrulharam neles a criança, aquecendo-a e chamando-a por este modo à vida, quando já a pobre mãe começava a perder todas as esperanças. Mas ainda não é tudo: esses excelentes rapazes começaram então a procurar com uma grande solicitude alguns alimentos, que eles não tinham procurado para si, mas que agora procuravam por minha causa. O que dentre todos prestou à minha esposa e filho os primeiros e mais eficazes socorros foi Mangio: que o seu nome seja abençoado. Encontrei minha mulher e filho e soube então o que os meus companheiros tinham feito por causa dela. Nove dias depois da nossa entrada na floresta conseguimos sair! Poucos oficiais tinham conseguido salvar os seus cavalos. [...] As tempestades pareciam circunscritas à floresta. Apenas saímos dela e nos aproximamos de Cima da Serra e de Vacaria que o bom tempo começou, caindo então em nosso poder alguns bois, que indenizando-nos do nosso longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome e a chuva.[...].” 20

As tropas chegaram a São Gabriel, onde Anita e Garibaldi se instalaram. Sua participação no movimento farroupilha chegava ao fim. As discussões entre os oficiais aumentavam, pois sabiam não ser possível prolongar a luta por mais tempo. Havia a hipótese de se unirem ao ditador argentino Juan Manuel Rosas, mas isto Bento Gonçalves jamais aceitou, atestando que apenas mantinha relações com os orientais sem desejar associar-se a eles. Garibaldi apresentou ao líder farroupilha seus planos de partir.

Há controvérsias quanto ao que resolveram. Alfredo Varela, na obra A história da Grande Revolução, admite que Garibaldi iria a Montevidéu levar fundos para cobrir despesas urgentes de fornecimento de armas e víveres, e que nunca retornou ao Brasil porque existia um relacionamento entre rio-grandenses e orientais. Garibaldi nada mencionou sobre o diálogo mantido com Bento Gonçalves, e apenas escreveu: “Decidi então ir a Montevidéu, temporariamente, e pedi, pois, licença ao presidente e que me concedesse uma pequena tropa de bovinos para pagar as despesas.”21

Rumo ao Uruguai

Garibaldi e Anita prepararam-se para a partida, desejosos de fazê-lo antes do inverno. Como os corsários não recebiam soldo, o que se constata pela penúria em que viviam, Domingos José de Almeida, ministro da Fazenda, concordou que Garibaldi reunisse novecentas cabeças de gado, a título de auxílio para a viagem.

A família partiu acompanhada de peões que conduziam o gado. Caminhavam com cuidado pelos pampas, pois sabiam que poderiam encontrar tropas legalistas e ser atacados. A marcha monótona e exaustiva decepcionou Garibaldi. Peão improvisado, constatava a cada dia a diminuição da boiada, que se perdia ou morria pelo caminho; o roubo das reses, a fuga dos peões e as churrasqueadas para se alimentarem também reduziam o número de cabeças. Admitiu ter errado ao conduzir animais recolhidos ao acaso, onde reses xucras não tinham condições de fazer caminhada forçada. As chuvas torrenciais fizeram com que o rio Negro transbordasse, ocasionando a perda de muitos animais. Das novecentas cabeças restaram apenas quinhentas, e sem alternativas resolveram sacrificá-las, retirando o couro e deixando a carne para ser devorada pelos corvos. Depois de pagar os peões, sobraram trezentos couros.

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21 GARIBALDI, 1888, p. 95.

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Anita seguia em silêncio. Acostumara-se ao sacrifício das caminhadas, e, carregando Menotti ao lado de Garibaldi, sentia-se feliz e segura.

“A minha Anita era o meu tesouro, amante como eu da sagrada causa dos povos e de uma vida aventureira. Para ela, as batalhas eram uma diversão, e o desconforto da vida do campo, um passatempo. Portanto, não nos importávamos com o que pudesse acontecer. O futuro seria sempre promissor e quanto mais selvagens fossem os desertos infindáveis americanos, mais agradáveis e mais bonitos nos pareciam.”22

Em Montevidéu

Em meados de 1841, Garibaldi, Anita e Menotti alcançaram Montevidéu, onde foram acolhidos com amizade e carinho pelos italianos. Hospedaram-se na residência de Napoleone Castelini, antigo carbonário que lutara na Revolução Farroupilha. Tornara-se um comerciante de sucesso e protegia os refugiados na América do Sul. Republicano corajoso, sem medo de se expor aos perigos inerentes à situação, colaborava no comércio de gado entre uruguaios e farroupilhas, vendendo-o ou permutando-o por armas.

Sem recursos, Garibaldi começou a lecionar Matemática, História e Caligrafia no colégio de Paolo Semidei, ex-sacerdote. Filiou-se à loja maçônica italiana ligada ao Grande Oriente de Nápoles, e posteriormente à loja maçônica francesa Amis de la Patrie, associada ao Grande Oriente do Rio Grande.

Apesar da família e dos amigos, Garibaldi não vivia feliz, pois estava afastado das lutas ideológicas. Como necessitasse aumentar sua renda, trabalhou também como corretor de cargas para navios, o que lhe proporcionava convívio com os italianos que chegavam ao porto. Passou a realizar, na pequena casa que alugara, reuniões freqüentadas não só pelos italianos, como os irmãos Giacomo e Paolo Antonini, Giovanni Battista Cuneo, Francesco Anzani e os irmãos Rizzo, mas também por José Rivera Indarte, intelectual, e Bartolomeu Mitre, militar, historiador e humanista.

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22 GARIBALDI, 1888, p. 65.


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Nessa época, d. Pedro II concedeu anistia a todos os rebeldes que depusessem armas. Como a situação política do Uruguai era preocupante, Garibaldi procurou o encarregado dos negócios do Brasil, José Dias da Cruz Lima, para regularizar sua situação. Cruz Lima informou ao governo brasileiro que acreditava ser Garibaldi perigoso, pois comandara a marinha dos revolucionários em Laguna e solicitava, para iniciar um comércio pelo Prata, permissão para que o comandante das forças navais não o atacasse. Acreditava que o melhor era dar-lhe anistia, pois dessa forma evitaria que ele retornasse ao Rio Grande do Sul para lutar. Garibaldi, informado, assinou um documento reNúnciando a qualquer hostilidade contra o Império e às lutas da Província do Rio Grande do Sul, comprometendo-se a exercer a atividade comercial iniciada.

O caso Régis

A situação da Província complicou-se. Juan Manuel Rosas, que tencionava tornar-se ditador de todas as Províncias do Prata, apoiado por Manuel Oribe, demonstrou a intenção de invadir o Uruguai, cujo governo, reconhecendo em Garibaldi um idealista e sabendo que se encontrava em Montevidéu, consultou-o sobre a possibilidade de comandar sua frota naval. Na realidade, ele não se adaptara às profissões de professor e corretor.

Cruz Lima foi substituído por João Francisco Régis, que soube, ao assumir, que Garibaldi, chefe naval da República do Uruguai, apreendera um pequeno barco brasileiro que navegava irregularmente em águas uruguaias. E ameaçou Garibaldi de que, se houvesse novo episódio, chamaria Frederico Mariath para enfrentá-lo. O líder italiano compreendeu que ele se referia à derrota em Laguna, e sentiu-se insultado. A provocação continuou quando, num discurso, chamou-o de reles ladrão. Garibaldi desafiou-o para um duelo, que ele não aceitou, alegando como desculpa seu posto diplomático. Acusado de covarde, Régis afirmou que um oficial do Império do Brasil não poderia ser desafiado por um pirata e fugitivo da Itália. Sentindo-se ameaçado, Régis solicitou ao ministro dos Negócios Estrangeiros do Uruguai que demitisse e banisse Garibaldi.

O Império enviou o comendador Lins Vieira Cansanção de Sinimbu para intermediar a questão. Embora o caso fosse complicado, Sinimbu considerou as dificuldades dos uruguaios em enfrentar Rosas e a ameaça que sua ambição representava para o Brasil. Garibaldi era útil à Província, e o caso deveria ser esquecido.

Não satisfeito, Régis exigiu desculpas ao governo brasileiro. Garibaldi declarou que devotava o maior respeito ao governo de sua majestade imperial e a todas as autoridades brasileiras, e que não quisera ofender nenhum súbito do imperador. E o caso foi encerrado.

O casamento

Ao encontrar-se com Garibaldi, Anita estava casada com Manuel Duarte de Aguiar, pretendente escolhido por sua mãe. Dez anos mais velho, introspectivo, não combinava com o temperamento vibrante e irrequieto de Anita. Separaram-se quando, ao eclodir a Revolução Farroupilha, ele se alistou nas forças imperiais. Era comum na época as esposas acompanharem os soldados, mas não se tem conhecimento da razão por que Manuel não o fez. Anita, portanto, estava só quando conheceu Garibaldi.

Sem jamais saberem do paradeiro de Manuel Aguiar, que julgavam morto em combate, Garibaldi e Anita resolveram regularizar sua situação matrimonial e legitimar o filho. O casamento, realizado em Montevidéu, em 26 de março de 1842, cumpriu todas as formalidades de praxe, conforme se vê no documento encontrado por Emílio Curatolo nos arquivos de Garibaldi:

“Certifico yo, infrascrito cura rector de esta paroquia de San Francisco de Assisi, en Montevideo, quae en libro primiero de casados de esta Paroquia, a folias veinti y seinte, a la svuelta està la partita en del tenor seguiente: “El dia veinte y seis marzo de mil ochocientos quaranta y dos, el presbitero don Zenon Aspiazu, mi lugarteniente en esta parroquia de San Francisco de Assisi, en Montevideo, autorizò el matrimonio, que in facie ecclesiae contrajo, por palabras de presente, don Josè Domingo Garibaldi, natural de Italia, hijo legitimo de don Domingo Garibaldi, y de doña Rosa Raimunda, con doña Anna Maria de Jesus, natural de la Laguna, en el Brasil, hija legitima de don Benito Riveira y de doña Maria Antônia de Jesus; habiendose leído una sola proclama por habere dispensado las otras dos, practicadas las demas diligencias que previene el derecho canonico. No recibieros las benediciones nupciales, siendo testigos de su otorgamiento don Pablo Semidei y doña Feliciana Garcia Billegas, lo que, per verdade, firmo. Lorenzo A. Fernandez. Està conforme al original, que me remito en caso necesario y para los fines que convenga. Montevideo, 16 de junio de 1842. Lorenzo A. Fernandez.”23

O casal teve mais três filhos em Montevidéu: Rosa ou Rosita, nascida em 1843 e morta com dezoito meses, Teresita, nascida em 1845, e Riccioti, nascido em 1847.

A campanha uruguaia

Apesar dos ciúmes de Anita, Garibaldi, ao assumir o comando naval, partiu só. Os estrangeiros estavam isentos da obrigação militar, e em virtude dos tratados vigentes não poderiam combater, mas os italianos apresentaram-se e lutaram. Radicados no Uruguai, geralmente dedicavam-se ao comércio e à navegação de cabotagem ao longo dos rios Paraná e Uruguai. Muitos, abastados como Napoleone Castellini, auxiliavam os amigos a se envolverem nas lutas ao lado dos uruguaios.

Desde a queda de Carlos IV, rei da Espanha, e de seu filho Fernando VII, motivada pela invasão da Espanha por Napoleão Bonaparte, a América espanhola encontrava-se agitada. Juntas governativas formaram-se em Sevilha para dirigi-la, mas a agitação das Províncias Platinas não diminuiu. Líderes surgiram para libertá-las do jugo espanhol, como José Artigas, que lutou pela independência do Uruguai, e outros patriotas como Manuel Oribe, José Frutuoso Rivera e Manuel Lavalleja. Com o tempo, entretanto, antagonizaram-se; Oribe apoiava Rosas e Frutuoso Rivera lutava contra ele. Garibaldi assim os classificou:

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23 Apud CURATOLO, 1932, p. 247-248.

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“Em 1833 foi que começou o verdadeiro poder de Rosas. No primeiro governo, cheio de dissimulação, não tinha apresentado os seus instintos de crueldade, que fizeram dele, depois, uma celebridade de sangue [...]. Rosas contava trinta e nove anos. Tinha o aspecto europeu, cabelos louros, olhos azuis e uma presença sofrível. Não usava nem barbas nem bigode. O seu olhar seria belo, se o pudéssemos examinar, mas Rosas havia se habituado a não olhar de frente nem os seus amigos, nem os seus inimigos, porque sabia que num amigo existia, quase sempre, um inimigo disfarçado. A sua voz era doce e, quando tinha necessidade de agradar, sua conversação tinha muito de atraente. Sua reputação de covarde era proverbial e a de esperto, universal. Adorava as mistificações, sendo esta a sua grande ocupação, antes de se entregar aos negócios sérios. Uma vez chegado ao poder, suas atitudes não foram senão uma distração, que eram brutais como a sua natureza [...]. Temos um exemplo: Camilla O’Gorman, menina de dezoito anos e oriunda de uma das principais famílias de Buenos Aires, foi seduzida por um padre de 24 anos. Fugiram ambos de Buenos Aires, refugiando-se numa pequena vila de Corrientes, onde, passando por esposos, estabeleceram uma pequena escola. Corrientes cai em poder de Rosas e os dois fugitivos, reconhecidos por um padre e deNúnciados a Rosas, são presos e conduzidos a Buenos Aires, onde, sem julgamento, Rosas os mandou fuzilar. — Mas, diz alguém a Rosas, Camilla está grávida! — Batizai o ventre, diz Rosas que, como excelente cristão, quer salvar a alma do menino. Esta cerimônia foi executada e Camilla O’Gorman foi fuzilada. [...] Como homem de guerra, a bravura de Rivera não podia ser excedida; como chefe de partido, a sua generosidade não podia ser igualada. Durante trinta e cinco anos figurou nas cenas políticas do seu país. Quando a revolução contra a Espanha começou, Rivera sacrificou a sua fortuna, porque não era só generoso, era pródigo. [...] Mas, se Rivera como homem era muito apreciável, como administrador nunca houve nenhum que desorganizasse mais os recursos pecuniários de uma nação. Assim como havia destruído a sua fortuna particular, destruiu a fortuna pública, não para enriquecer, mas porque, homem público, tinha conservado todos os hábitos do homem particular. Oribe pertencia às primeiras famílias do país. Seu espírito era fraco, sua inteligência, acanhada, explicando-se, por isso, a sua aliança com Rosas, a quem se entregou totalmente, sem pensar que essa aliança trazia, consigo, a perda dessa mesma independência, pela qual tantas vezes havia combatido. Como general, sua incapacidade era completa. As suas paixões tinham a violência das organizações nervosas e arrastavam-no à crueldade. Como particular, era um homem honesto. O Uruguai interessava ao Império do Brasil. Como administrador, foi mais econômico que Rivera e não se lhe pode censurar o ter aumentado o déficit do tesouro; contudo, é a ele que cabe toda a responsabilidade da ruína do Estado Oriental.”24

Rosas opunha-se aos princípios liberais e federativos que existiam na região e desejava reunir as diversas Províncias sob o seu comando. Cruz Lima não desconhecia que Frutuoso Rivera tinha interesse no Brasil, e preferiu não se comprometer com disputas.

Garibaldi pertencia às forças navais uruguaias, acreditando que continuaria a lutar pela liberdade dos povos em favor da humanidade. Rosas era um déspota e os uruguaios, sofridos, sem proteção e defendendo sua liberdade, sensibilizaram o revolucionário italiano. Mazzini, em Londres, incentivava-o. Escrevendo a Giovanni Batista Cuneo, argumentava que a participação de Garibaldi defendia os ideais da Jovem Itália, além de prepará-lo, ao retornar ao seu país, para continuar a luta pela unificação da Itália. Bento Gonçalves também o seguia, e em 26 de agosto de 1842 escreveu a Domingos José de Almeida: “Nosso Garibaldi cruza nossas águas com forte esquadrilha, depois de haver se chocado por duas vezes com as naves de Rosas, sempre com descalabro para as últimas.” 25

A frota sob o comando de Garibaldi compunha-se de três pequenas embarcações: Constituição, Pereyra e Procida. Sabia que dificilmente poderia resistir, com a precariedade da frota, à bem preparada armada argentina de William Brown, conhecido por seus méritos nas campanhas do exterior.

Ao se defrontarem em Costa Brava, após três dias sem munições e perdendo metade dos homens, Garibaldi não teve a possibilidade de continuar. Incendiou os navios, reuniu os que restavam e partiu para Montevidéu.

“Reunimo-nos aos fugitivos e, depois de cinco ou seis dias de lutas, combates e privações, de que ninguém pode formar idéia, entramos em Montevidéu, levando intato o que eu tinha julgado que perderíamos: a honra!” 26

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24 GARIBALDI, 1907, pp. 161-162, 184, 176-178.

25 VARELA, 1933, v.5, p.382.

26 GARIBALDI, 1907, pp. 2-4.

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Manuel Oribe ordenou que as tropas marchassem em direção a Montevidéu, que se preparou para a defesa. A guerra era iminente. Garibaldi, encarregado de manter a comunicação da cidade com a fortaleza do Cerro, próximo de Montevidéu, o que somente poderia ser feito por mar, realizava-a com êxito. Auxiliou na expulsão dos inimigos da ilha dos Ratos, abastecendo os resistentes com armas. Anita navegou com ele nessa operação num pequeno barco que rebocava as armas, demonstrando mais uma vez ser destemida. O almirante Brown, com formidável esquadra, tentou apoderar-se do Cerro e da ilha, mas foi obrigado pela resistência a retirar-se com grandes perdas.

A Legião Italiana

Garibaldi sabia que em Montevidéu vivia um significativo número de italianos, negociantes e foragidos. Conclamou-os às armas; formariam um exército que defenderia os uruguaios até a morte, porque eram gratos aos que os receberam com amizade. Formou-se assim a Legião Italiana com cerca de quatrocentos homens no início, que aumentavam à medida que os navios aportavam. O grupo heterogêneo principiou com dificuldade. Não recebia pagamento a não ser ração, e a promessa de que, no final da guerra, se bem-sucedida, seus herdeiros seriam agraciados com terras e bois.

Apesar dos problemas, a Legião Italiana transformou-se numa tropa disciplinada e uniformizada. Francesco Anzani, nascido em Alzate, fugitivo político, agindo com rigor, disciplinou-a, fazendo-a acreditar que lutava pela liberdade dos uruguaios e preparava-se para, futuramente, defender a Itália. Os combatentes usavam camisas vermelhas que se tornaram famosas por terem sido adotadas pelos garibaldinos na Itália, e levavam nos combates uma bandeira de seda preta em cujo centro pintaram o Vesúvio em erupção. Quem a carregava era Gaetano Sacchi, jovem de vinte e quatro anos que enfrentou bravamente os adversários na defesa de Cerro.

Mazzini encorajava-os de Londres e propagava pela Europa as lendárias realizações de Garibaldi e sua Legião. Foram várias as batalhas enfrentadas: Cerro, Las Tres Cruces, Colônia, Paysandú, Gualeguaychu, Paso de la Boyada e Santo Antonio de Salto, que, ocorrida em 8 de fevereiro de 1846, foi uma das mais importantes. Garibaldi, depois de subir o rio Uruguai e retomar os portos que se encontravam sob o domínio de Oribe, instalou-se em Salto, com seiscentos italianos sitiados pelas tropas inimigas chefiadas por Justo José Urquiza, que, a despeito de comandar três mil homens, não conseguiu vencer a Legião.

Joaquim Suárez, lutador incansável pela independência uruguaia, que consumiu sua fortuna na defesa de seus ideais, foi grato ao desempenho de Garibaldi e decretou:

“Desejando o Governo demonstrar a gratidão da pátria aos valentes que combateram com tanto heroísmo nos campos de Santo Antônio, no dia 8 do corrente, consultado o Conselho de Estado, decreta: Art. 1o O sr. general Garibaldi e todos aqueles que o acompanharam naquele dia glorioso são beneméritos da República. Art. 2o Na bandeira da Legião Italiana serão inscritas, em letras de ouro, na parte superior ao Vesúvio, estas palavras: “Vitória de 8 de fevereiro de 1846, obtida pela Legião Italiana sob as ordens de Garibaldi.” Art. 3o Os nomes daqueles que combateram naquele dia, depois da separação da cavalaria, serão inscritos em um quadro, que será colocado na sala do governo, defronte ao brasão nacional, começando a lista com o nome dos que morreram.. Art. 4o As famílias dos que tinham direito a pensão a desfrutarão em dobro. Art. 5o Destina-se, àqueles que participaram deste acontecimento, depois de ter sido separada a cavalaria, um escudo, que levarão no braço esquerdo, com esta inscrição, cercada de louro: — “invencíveis combateram no 8 de fevereiro de 1846”. Art. 6o Até o momento em que um outro corpo do exército não se ilustre em questão de armas semelhantes a esta, a Legião Italiana terá, em cada desfile, a direita de nossa Infantaria. Art. 7o Este decreto será entregue, em cópia autenticada, à Legião Italiana e se repetirá na ordem geral em todos os aniversários deste combate. Art.8o O ministro da Guerra fica encarregado da execução deste decreto, que será apresentado à assembléia dos notáveis: que seja publicado e inserido no registro nacional. Suárez — José de Bejar — Santiago Vasquez — Francisco J. Muñoz.”27

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27 Apud CUNEO, p. 98-99.

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Após a Batalha de Dayaman, em 20 de maio de 1846, último combate significativo sob o comando de Garibaldi, a Legião Italiana teve um período de trégua.

A decisão de partir

O casal novamente questionou-se sobre permanecer no Uruguai. Anita, em Salto, onde foi ao encontro de Garibaldi depois da morte de Rosa, auxiliou-o apesar da tristeza pela perda da filha, cuidando dos feridos e enfermos.

Ambos acreditavam ter cumprido mais uma missão. Sofreram dificuldades. Os líderes uruguaios não desconheciam que a família passava privações e que à noite, na residência, não acendiam luz porque entre o pouco que recebiam não constavam velas. Por esse motivo Pacheco y Obes, ministro da Guerra, compadecido, certa ocasião enviou cem patacões ao líder italiano, que, ao recebê-los, guardou o necessário para obter velas e distribuiu o restante entre os filhos e as viúvas dos soldados.

O general Frutuoso Rivera, em reconhecimento aos serviços prestados pela Legião Italiana, enviou a Garibaldi a seguinte carta:

“Senhor: Quando, no ano passado, dei à Legião Francesa uma certa quantidade de terras, esperava que o acaso conduzisse ao meu quartel algum oficial da Legião Italiana, dando-me, assim, ocasião de satisfazer um ardente desejo do meu coração, mostrando à Legião Italiana a estima que lhe consagro pelos importantes serviços prestados à república, na guerra que sustentamos contra o exército invasor de Buenos Aires. Para não demorar por mais tempo o que considero como o cumprimento de um dever sagrado, incluo, nesta, um ato de doação, que faço à ilustre Legião Italiana, como uma prova sincera do meu reconhecimento pessoal, pelos eminentes serviços prestados ao meu país. A oferta não é igual aos serviços, nem aos meus desejos, contudo, ouso esperar que não recusareis oferecê-la em meu nome aos vossos camaradas, informando-os da minha boa vontade e do meu reconhecimento. Aproveito esta ocasião, coronel, para vos assegurar a minha perfeita consideração e profunda estima. Frutuoso Rivera.”28

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28 Apud GARIBALDI, 1907, p. 12.

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Garibaldi comoveu-se com a carta, mas manteve-se firme em seus princípios. Para provar que lutavam por idealismo e não por serem mercenários, como muitos os consideravam, respondeu que agradecia a oferta e informou que os oficiais italianos, depois de consultados, não aceitaram ser remunerados pelos serviços prestados à República. Eles apenas quiseram ter a honra de partilhar os perigos que ocorriam no país que amigavelmente lhes ofereceu hospitalidade. Cumpriram o dever e não desejavam nenhuma recompensa.

De todas as legiões formadas para a defesa do Uruguai, entre elas a Espanhola, a Francesa e a Inglesa, foi a Italiana a que mais se destacou pela coragem e idealismo. Entretanto, Garibaldi sofreu críticas injuriosas. Muitos anos depois, confirmando sua atuação honrada, Pacheco y Obes, ao ocupar o cargo de ministro da República Oriental, derrubou em Paris as mentiras inventadas contra ele:

“Todos os habitantes de Montevidéu eram seus amigos; jamais vi uma pessoa mais universalmente amada que ele e isso era perfeitamente natural. Garibaldi, sempre o primeiro no combate, era também o primeiro a minimizar os males da guerra. Quando entrava nas salas do governo, era para pedir perdão por algum conspirador ou para pedir socorro em favor de algum infeliz; e foi por intervenção de Garibaldi que o sr. Michele Haedo, condenado pelas leis da República, teve salva a sua vida. Em Gualeguaychu, prendeu o coronel Villagra, um dos mais violentos chefes de Rosas, e o deixou em liberdade, bem como aos seus companheiros. Em sua expedição ao interior, distinguiu-se por muitos traços de generosidade e de cavalheirismo, que até em nossos dias criam motivo de acirradas conversações dos dois partidos. Cinqüenta patacões (250 liras), eis a única soma que Garibaldi recebeu da República. Enquanto ele permaneceu entre nós, sua família viveu na pobreza; ele nunca se calçou senão como soldado; freqüentemente, seus amigos eram obrigados a usar de subterfúgio para fazê-lo trocar as vestes já rotas.”29

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29 CUNEO, p 40.

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O embaixador da Inglaterra em Montevidéu, diplomata sir William Gore Ouseley, também enalteceu sua honestidade quando, por intermédio do lorde John Russel, prestigiado político britânico, enviou a seguinte nota ao Foreign Office:

“Na minha qualidade de embaixador em Montevidéu, estive em relações com Garibaldi durante dois anos. Como comandante das forças militares da cidade [...], para pôr a frota uruguaia em condições de combate, era preciso entregar, a ele, armas e munições ou os meios para adquiri-las. A venalidade e a corrupção eram de regra geral. Teria sido inoportuno confiar o emprego de dinheiro ao governo indígena. Encorajado pela reputação de Garibaldi, não só da sua bravura mas ainda da sua honestidade, decidi-me a resolver tudo pessoalmente com ele [...]. De cada prova a que eu o submetesse, a sua honorabilidade ressurtia sem mácula, cada verificação comprovava seu ponderado juízo e a perspicácia dos seus conselhos. [...] Garibaldi tinha o hábito de ver-me todas as noites, sempre vestido do seu poncho, que ele jamais tirava durante as nossas entrevistas. Isto me parecia bizarro. Soube, depois, [...] não o tirava era para esconder o miserável estado da sua roupa, pois carecia dos meios para adquirir trajes convenientes. O soldo e as rações do governo de Montevidéu não lhe eram entregues ou só lho eram em parte.”30

Reforçando a decisão da partida, notícias da Itália informavam que o povo revoltava-se contra os soberanos absolutistas, e governava o Vaticano o papa Pio IX, que concedera anistia aos condenados dos Estados Pontifícios, favorecendo muitos revolucionários. Associado ao rei Carlo Alberto, preparava a campanha de libertação da Itália do jugo austríaco.

Era hora de retornar e auxiliar a Itália. Saudoso, lembrava-se da mãe, que estaria à sua espera; voltaria à pátria e lutaria pelo sonho de ver sua terra unificada.

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30 COLLOR, p. 481-482.

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Sem dinheiro para a viagem, não quis solicitar auxílio do governo, o que poderia ser interpretado como uma exigência pelas combates empreendidos. Recorreu então a amigos, e após uma subscrição conseguiu a soma para organizar a retirada; consta que um dos maiores contribuintes foi Stefano Antonini, com 30.000 liras.

Mazzini, que considerava Garibaldi o homem necessário para as contendas na Itália, preparou seu retorno através das notícias que fazia circular por toda parte, relatando as proezas em que se vira envolvido na América do Sul, tornando-o popular.

Anita e os filhos seguiram em dia impreciso de dezembro de 1847 ou janeiro de 1848, no veleiro sardo Galavowa. Quanto a Garibaldi, partiu em 15 de abril de 1848 com os companheiros que quiseram segui-lo, setenta e três ao todo. Deixaram o porto de Montevidéu no navio sardo Bifronte, rebatizado por ele de Speranza. Na Itália, Anita e Garibaldi continuariam a lutar por seus sonhos e utopias...

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