Antes de retomarmos os assuntos mais familiares a esta coluna, como de praxe, nesta época, ensaiaremos listar um rol de eventos que marcaram o setor vitivinícola brasileiro neste ano que acaba de findar.
Em 2006, acompanhamos a tentativa frustrada de emplacar o vinho como alimento por projeto de lei apresentado na Assembléia Legislativa gaúcha, iniciativa que buscava vantagens fiscais que beneficiariam a economia do setor. Tudo em vão, já que o assunto bateu de frente com um movimento desproporcionalmente bem organizado do Sindicato dos Médicos, que se interpuseram como guardiões da saúde da sociedade, levando o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, a vetar o que tinha sido aprovado no Legislativo. Em verdade, buscando objetivos de valorização da atividade, o meio utilizado pelo deputado autor do projeto foi astucioso, porém infrutífero. E os médicos, que tanto aconselham o vinho tomado em porções diárias acompanhando as refeições, julgaram-se na obrigação, por ninguém requisitada, de rechaçar a iniciativa. Mais uma vez, o setor, órfão de lideranças mais acostumadas ao imenso jogo de pressões, próprio de uma sociedade democrática e influenciada pela mídia, não conseguiu portar-se à altura, expondo-se de forma excessiva e não colhendo os frutos almejados.
Outros aspectos negativos relacionam-se ao enorme êxito comercial dos vinhos argentinos que se tornaram os maiores abastecedores do mercado brasileiro, superando o Chile. Isso se reflete, de forma desfavorável, no setor vinícola nacional, deprimindo preços e aumentando estoques. A par da importação legal, nos vemos às turras com o contrabando descarado a partir das casas de vinhos localizadas nas fronteiras brasileiras, que, através de intermediários e laranjas, abastecem qualquer ponto do território nacional. Quem não tem um amigo que consegue vinhos entregues em casa por um preço bem inferior ao pago nas casas especializadas?
Só de “cavas espanholas”, o que entrou no mercado paralelo neste final de ano foi impressionante! Só tem uma vantagem, quando acaba o espumante ilegalmente importado, o pessoal toma os espumantes nacionais e os considera melhores...
São Pedro também andou incomodando. Forte calor nos meses de inverno deu início à brotação extemporânea das videiras. Posteriormente, geadas, já de final de primavera, destruíram as frutas que já se encontravam em pleno estágio de desenvolvimento. Desta forma, as variedades mais precoces, como o Chardonnay, maior responsável pelos vinhos bases de nossos espumantes, foram severamente prejudicadas, o que determinará escassez e preços mais altos. Em contrapartida, o excesso de vinhos tintos neste concorrido mercado e o enorme número de marcas novas fizeram com que sobrassem Cabernets e Merlots, deprimindo preços e elevando os estoques nacionais. As marcas mais importantes, já consagradas, conseguiram andar melhor, o mesmo não acontecendo com as demais.
Esse cenário fará com que em 2007, certamente ocorra um espetacular aumento de vinhos rosé. São as uvas tintas que sobram que serão vinificadas como se brancas fossem, isto é, com macerações suaves e a não-utilização da casca, maior responsável pela coloração nos vinhos. Desta forma, teremos espumantes de Cabernet Franc, Sauvignon e Merlot no mercado e também agradáveis e delicados vinhos rosés. No entanto, em virtude da falta de hábito, o marketing terá que ser mais agressivo pois não temos tradição de beber esses vinhos. Poderá ser um tiro no próprio pé...
Finalmente, a Festa Nacional da Champagne, que se realiza há um quarto de século e que se constitui no maior evento do setor, terá a sua edição de prata no ano de 2007. Tal acontecimento, revestido por grandes investimentos publicitários, possibilitará a oportunidade de consolidar o espumante brasileiro de forma definitiva no mercado nacional e internacional do produto.
Foi isso, minha gente... Saúde e tim-tim!!!
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