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Livro relata que o protesto de uma pacata e desconhecida jovem, antes da célebre Rosa Parks, deu origem às lutas pela igualdade dos direitos civis e pelo fim da discriminação racial nos EUA, nos anos 60. Por Edson Cadette, de Nova York
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Um novo mundo é possível?

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Por Marino Boeira

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Sputnik, hoje uma
lenda da guerra fria

No momento em que a região metropolitana de Porto Alegre reúne pessoas do mundo inteiro para comemorar os 10 anos do Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, quando o PT, ainda um partido predominantemente voltado para a construção do socialismo, governava o Rio Grande do Sul, parece ser uma boa ocasião para voltar a se discutir até que ponto a capital do Estado perdeu sua vocação de ser uma cidade predominantemente de esquerda.

Quando os participantes do primeiro fórum ergueram a bandeira com a chamada de que “um novo mundo é possível”, certamente todos estavam pensando que este novo mundo não seria edificado dentro da ordem capitalista vigente, mas, sim, de um novo socialismo, possivelmente purificado dos erros cometidos pelo chamado “socialismo real” do Leste Europeu. Quem vive em Porto Alegre, há pelo menos uns 50 anos, sabe que a cidade sempre teve uma posição diferenciada do restante do país, principalmente nas áreas política e cultural.

Antes que o golpe militar de 64 erradicasse pela força bruta essas diferenças, a cidade tinha  uma vida política intensa, com partidos políticos que representavam com clareza seus segmentos sociais ( o PTB era o reformismo trabalhista (possível) de esquerda; o PSD e a UDN, a direita ; o PRP, os herdeiros do fascismo, e o PCB, a alternativa clandestina do comunismo). E mantinha uma vida cultural que se espraiava pelos teatros ( o São Pedro e o alternativo Teatro de Equipe) e, principalmente, pelos cinemas.

Na década de 60, Porto Alegre viu o lançamento da Nouvelle Vague francesa, com a exibição dos primeiros filmes de François Truffaut (Les Quatre Cents Coups  – Os Incompreendidos) Alain Resnais (Hiroxima, Mon Amour – Hiroxima, Meu Amor), Jean-Luc Godard (A Bout de Soufle – O Acossado) e Claude Chabrol (Les Cousins – Os Primos);  os filmes do polonês Andrerzej Wadja (Cinzas e Diamantes e Kanal), os japoneses  Akira Kurosava (Roshomon) e Masaki  Kobayashi (Guerra e Humanidade), além do fantástico Festival do Cinema Russo-Soviético, que trouxe a Porto Alegre os melhores filmes de Sergei Einsenstein,  Vsevolod  Pudovkin, Aleksander Dovejenko e Dziga Vertov.

No Teatro de Equipe, centenas de pessoas se reuniam para discutir com o pintor Iberê Camargo o que ele chamava de “o marasmo da Província”, enquanto que na sede da FEURGS , a federação de estudantes da Universidade Federal, Jacob Gorender dava o seu memorável ciclo de palestras sobre o marxismo. (Vejam a ironia: a sede da FEURGS ficava junto ao Restaurante Universitário, na Rua da Azenha. Depois do golpe militar de 64, o local se transformou na Escola de Polícia).

 
 
Gagarin, um cosmonauta
símbolo da Guerra Fria

Naquela ocasião, um novo mundo não era só possível como já parecia ser coisa de presente. Fidel Castro havia tomado o poder em Cuba, e Sartre viera ao Brasil para defender a revolução cubana, os sputniks e Yuri Gagarin voavam sobre nossas cabeças para mostrar que o modelo socialista começava a bater o capitalismo na área tecnológica.

Em 1961, quando depois da renúncia de Jânio Quadros, Leonel Brizola comandou a partir de Porto Alegre a resistência ao golpe e lançou a luta pela Legalidade, a chegada do socialismo parecia estar ao alcance das nossas mãos, preferencialmente armadas.

Mas, veio a onda golpista que, apoiada pela política imperialista norte-americana, varreu a América Latina. Como num jogo de dominó, as peças foram caindo. Em 64 chegou a vez do Brasil. Começava então uma longa noite, onde os sonhos de uma sociedade mais humana e justa foram destruídos pela força das armas e por uma grande lavagem cerebral movida pela mídia, que não se cansava de alardear as fraquezas do socialismo real, que parecia, então, incapaz de se confrontar com o capitalismo, cada vez mais forte.

Mesmo dentro da forte onda anticomunista que tomava conta do mundo ocidental, era possível perceber que nem tudo era propaganda. A revolução de1917 na Rússia se transformara durante anos numa ditadura que não poupava amigos e inimigos. Por seus erros colossais foi incapaz de sustentar a luta econômica que travava com os Estados Unidos e sucumbiu, quando a terceira onda industrial exigiu investimentos que ela não podia mais fazer.

Enquanto no ocidente a vitória do neo-liberalismo pôs fim às conquistas sociais do Estado Social (Welfare State), o império soviético desmoronava, parecendo dar razão aos que começaram a afirmar que a história havia terminado (o modelo capitalista atual seria o seu estado mais avançado), e que o socialismo estava sepultado. Há poucas semanas, a revista Veja reafirmou isso num artigo em que ironizava os dirigentes dos partidos de esquerda que ainda acreditavam na possibilidade de uma retomada da idéia socialista. Agora, numa cidade (Porto Alegre) e num Estado (Rio Grande do Sul), onde a esquerda perdeu as duas últimas eleições, os participantes da nova edição do  Fórum Social Mundial voltam a sonhar com um novo mundo possível.

Será apenas um sonho? Voltamos a Jacob Gorender, que nos fala dessa possibilidade no livro Marxismo sem utopia. Diz ele, nas páginas finais: “Marx foi um mestre da dialética. Com insuperável profundidade, soube extrair os motivos ocultos dos acontecimentos históricos. Mas a paixão revolucionária o impediu de perceber que as transições de um sistema econômico-social a outro somente aparecem determinadas a posteriori, depois de consumadas. A priori, antes de consumadas, todas as transições encerram fatores de caos e indeterminação. (...)
Sendo uma possibilidade, o socialismo não decorrerá de leis históricas inelutáveis. Tampouco decorrerá de um imperativo ético, como propunha Bernstein, pois será uma possibilidade, inscrita objetivamente na própria história. (...)

Tal como as coisas se passaram até hoje, tal como decorreu a história do século XX, não estamos ainda em condições de saber que o capitalismo será seguramente sucedido pelo socialismo. Incerteza que faz da luta pelo socialismo uma escolha pela qual são responsáveis, moral e politicamente, os agentes da escolha.”

30/1/2010

Fonte: ViaPolítica/O autor

Marino Boeira é graduado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É jornalista e publicitário em Porto Alegre. É professor universitário na área de Comunicação Social. Publicou De Quatro (crônicas com outros três autores); Raul: Crime na Madrugada (novela); Tudo que você não deve fazer para ganhar dinheiro na propaganda (novela). Participações em obras coletivas: Nós e a Legalidade; Porto Alegre é assim, Salimen, uma história escrita em cores, e Publicidade e Propaganda - 200 anos de história no Brasil.

E-mail: marinobo@uol.com.br


       
 
 
 
 
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