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Celui Qui Doit Mourir, de Jules Dassin |
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Dassin
Quem viu Aquele Que Deve Morrer (Celui Qui Doit Mourir), de Jules Dassin, no cinema, em 1956, talvez não devesse rever o filme nas sessões da tarde que o canal da Net voltado para filmes antigos às vezes programa. A emoção vivida naquele distante ano não se repete na tela da televisão. O filme, baseado no livro de Nikos Kazantzákis, O Cristo Recrucificado, conta como os gregos, oprimidos pelos turcos, se revoltam sob a liderança de um pastor, motivados pela representação da Paixão de Cristo durante a Semana Santa.
O filme é uma parábola sobre a história de Cristo, visto como um revolucionário. “Eu não vos trago a paz, mas a espada da guerra”, diz em certa altura o padre, vivido por Jean Servais, que lidera um grupo de famílias expulsas de sua aldeia pelos turcos, citando a Bíblia. O que torna o filme envelhecido é o maniqueísmo dos personagens e uma boa dose de ingenuidade na avaliação do caráter dos homens, que o cinismo dos dias atuais não mais permite.
Jules Dassin, que morreu há dois anos em Atenas, com 96 anos, ficou famoso na década de 40, nos Estados Unidos, ao realizar Brutalidade (1947), com Burt Lancaster e Cidade Nua (1948), com Barry Fitzgerald. Na década de 50 ele foi mais uma das vítimas da perseguição política do macartismo, acusado de ser comunista, e se obrigou a viver na Europa, onde realizou, pelo mais, dois ou três clássicos do cinema, além de Aquele Que Deve Morrer: Sombras do Mal, na Inglaterra, com Gene Tierney; o policial Rififi, com Jean Servais, na França, e que conta um assalto a uma joalheria de uma maneira que faria escola no cinema; e Nunca aos Domingos, na Grécia, com Melina Mercouri. Ela, que trabalhou também em Aquele que Deve Morrer, foi casada com Jules Dassin durante quase 20 anos. Além de atriz, foi também deputada no parlamento grego e ministra da Cultura, depois que a democracia retornou à Grécia na década de 80.
Pensando bem, se você ler que algum desses filmes estiver sendo reprisado na televisão, veja novamente, se você já o viu no cinema. Mesmo que a emoção não seja mesma, vale pela lembrança de tempos onde ainda havia uma arte comprometida com a valorização das melhores qualidades dos homens, ainda que isso possa parecer piegas e ingênuo. Se você nunca viu estes filmes, não perca.
Bigelow
É difícil para nós, brasileiros e fãs do cinema, entender o sucesso do filme Guerra ao Terror (The Hurt Locker), da diretora Kathryn Bigelow. O filme, praticamente um documentário, acompanha um grupo de soldados norte-americanos especializados em desmontar as bombas que os iraquianos, ainda inconformados com a dominação americana, espalham pelas ruas das suas cidades. A rigor são apenas três pessoas e um robô que atuam diretamente na operação.
No início do filme assistimos um a uma dessas operações, comandada por um sargento extremamente cauteloso, que obedece a todas as regras do manual para o desarme das bombas, mas que, mesmo assim, acaba morrendo quando uma delas explode, acionada a distância por um insurgente. Para o seu lugar é enviado outro militar, um ranger, o oposto do primeiro em relação aos cuidados que devem ser tomados. Extremamente individualista, ele despreza o uso do robô, das roupas protetoras e do apoio dos seus companheiros. Quase um suicida, ele parece brincar o tempo todo com a possibilidade de morrer na explosão. Apesar disso é sempre bem sucedido e conquista a admiração dos seus superiores.
A ação se desenvolve linearmente, entrecortada apenas por alguns momentos destinados a mostrar que esse herói militar não se relaciona mais com a mulher e o filho nos Estados Unidos e suas companhias permanentes são o cigarro e o uísque. As brincadeiras com os outros dois componentes do grupo se resumem a socos e tapas para mostrar quem tem mais resistência à dor. O sucesso do filme nos Estados Unidos se deve, talvez, a isso: um herói solitário, que resolve as coisas sempre do seu jeito, como nos velhos filmes do faroeste.
No Iraque, o inimigo está sempre oculto e é incapaz de enfrentar de peito aberto o ranger americano, o que transforma o filme em mais uma história de mocinhos e bandidos. Os mocinhos são os americanos e os bandidos, os iraquianos, que adoram espalhar os artefatos explosivos no caminho dos sobrinhos do Tio Sam. Essa maneira simplista de ver a guerra, livre de qualquer conotação política, ajuda a classe média americana a suportar a dor de ver seus filhos morrerem distante da pátria numa guerra, que até então não tinha qualquer sentido a não ser a defesa dos interesses econômicos dos Estados Unidos. No Brasil, o filme passou tão despercebido, que só foi lançado nos cinemas depois que a mídia local passou a repercutir a badalação feita em cima dele nos Estados Unidos.
Conar 1
O Conselho Nacional de Regulamentação Publicitária (Conar) determinou liminarmente aos veículos de comunicação a retirada de peças publicitárias da campanha da cerveja Devassa Bem Loura, da empresa Schincariol, estrelada pela socialite americana Paris Hilton. A entidade, criada pelos publicitários em 1978, visa a fazer cumprir o código de autorregulamentação da publicidade no Brasil e atua, principalmente, contra campanhas que estimulem o consumo excessivo de bebidas e que apelem para o erotismo.
Em geral, o Conar apenas recomenda aos veículos de comunicação que não veiculem propagandas consideradas inadequadas depois de uma reunião do seu Conselho, o que sempre dá tempo aos anunciantes de colher os resultados de seus investimentos na mídia. Essa vez, porém, a medida foi adotada liminarmente, antes mesmo da reunião do Conselho, atendendo denúncia da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, que considerou a campanha sexista e desrespeitosa às mulheres.
A medida causa estranheza porque foi adotada na semana posterior ao carnaval, onde a nudez feminina foi a tônica, tanto ao vivo, nos desfiles das escolas de samba do Brasil inteiro, quanto nas transmissões da televisão aberta. Mulheres vistas como objetos de consumo são bastante comuns na propaganda de cervejas no Brasil, e parece que até agora não despertaram os pudores moralistas do Conar. Como a campanha foi estrelada por uma mulher presente na mídia do mundo inteiro – a herdeira da rede de hotéis Hilton, Paris Hilton – pode-se supor que, mais do que a defesa do respeito às mulheres, o Conar estava de olho numa boa publicidade da sua marca, o que não seria estranho, considerando que ele é formado por publicitários.
Conar 2
Continuando no mesmo assunto: por que o Conar não interfere no patrocínio dos jogos da seleção brasileira na televisão por uma marca de cerveja? Mais do que isso, o treinador da seleção, Dunga, aparece em comerciais recomendando a cerveja. Pode? Basta colocar no final dos comerciais o letreiro “Beba com moderação” e tudo está resolvido? Talvez a presença de Dunga na TV faça parte do contrato da CBF com o patrocinador ou é um negócio particular do treinador? De qualquer maneira usar o futebol, paixão de milhões de crianças e adolescentes para vender uma bebida alcoólica parece algo que deveria preocupar também o Conar, como no caso da milionária Paris Hilton, a Loura Devassa.
7/3/2010
Fonte: ViaPolítica/O autor
Marino Boeira é graduado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É jornalista e publicitário em Porto Alegre. É professor universitário na área de Comunicação Social. Publicou De Quatro (crônicas com outros três autores); Raul: Crime na Madrugada (novela); Tudo que você não deve fazer para ganhar dinheiro na propaganda (novela). Participações em obras coletivas: Nós e a Legalidade; Porto Alegre é assim, Salimen, uma história escrita em cores, e Publicidade e Propaganda - 200 anos de história no Brasil.
E-mail: marinobo@uol.com.br