|
| Cabo Anselmo |
Em 1964, nas vésperas do golpe, ele era o personagem de maior destaque nas agitações envolvendo militares de baixa patente do Exército e da Marinha. Comandando uma associação de cabos e marinheiros da Armada, o cabo Anselmo (José Anselmo dos Santos) radicalizava a luta pelas chamadas reformas de base do governo Goulart. Expulso da Marinha depois do golpe, o cabo Anselmo, exilou-se no Uruguai e depois em Cuba. Voltou ao Brasil em 1970 para participar da luta armada contra a ditadura. Preso pelo famoso delegado e torturador Sérgio Paranhos Fleury, do DOPS de São Paulo, aceitou trabalhar para o governo militar, infiltrando-se em grupos de esquerda e movimentos sindicais, embora existam muitas versões de que já era um agente infiltrado mesmo antes de 64.
Em 1972, Cabo Anselmo desapareceu de circulação e foi dado como morto pelos militares a quem servia. Em março de 84, porém, ele reapareceu numa entrevista dada ao jornalista Octavio Ribeiro, da revista Isto É. Semana passada, ele foi o personagem principal do Programa Roda Viva da TV Cultura.
Na entrevista, exibindo agora uma barba branca cerrada, o velho cabo Anselmo, mesmo justificando sua atuação com a desculpa que queria por fim a uma inútil resistência contra o regime militar, vangloriou-se de ter contribuído com suas denúncias para a morte de até 200 pessoas durante o regime militar, inclusive a sua namorada na época, a paraguaia Soledade Barret Viedma, grávida de quatro meses, assassinada no Recife junto com mais seis companheiros. Embora lembre dela como “uma criatura doce e carinhosa”, disse não sentir remorsos pela sua morte, porque “ela escolheu enfrentar os policiais da ditadura numa guerra declarada.”
Pelos serviços sujos que prestou aos militares e à repressão, o cabo Anselmo reivindica agora uma aposentadoria da Marinha, usando como argumento a existência de uma anistia que beneficiou a todos que se envolveram com a luta armada. Mesmo que se considere esquecido pelos serviços que prestou, cabo Anselmo confirmou que vive sustentado por três empresários, dos quais não quis revelar os nomes.
Sobre a Comissão da Verdade disse que poderia depor para falar sobre o que fez, quantas pessoas morreram, mas impôs condições: quer que a Comissão seja formada por representantes dos dois lados. Mesmo assim, já adiantou na entrevista que o senador Romeu Tuma, falecido recentemente e que na época era delegado da Polícia Federal, foi um dos homens mais importantes para a ditadura. “Tuma e todos os generais sabiam que existia a tortura, todo mundo sabia”, afirmou o cabo Anselmo.
Uma comissão fraca
A Comissão da Verdade, ora em tramitação final no Senado, deve nascer já prejudicada em seus objetivos pelas emendas que o DEM. Este é um partido onde hoje se abrigam alguns dos defensores do regime militar no passado, cujos senadores limitaram em dois anos as atividades da comissão, fixaram em apenas sete o número de seus membros e determinaram que o período a ser examinado deve começar em 1946 e não a partir de 1964 como pretendiam os que querem ver elucidados os crimes da ditadura. Com essas medidas fica praticamente impossível aprofundar qualquer investigação sobre os chamados “anos de chumbo” na vida brasileira.
O anjo louro da morte
Outro torturador que reapareceu na mídia foi o capitão de fragata argentino Alfredo Astiz, apelidado de o “Anjo Louro da Morte”, hoje preso na Argentina sob a acusação de tortura e assassinato de presos políticos. E nesse reaparecimento estão presentes representantes da ditadura brasileira. Em 1982, quando terminou a Guerra das Malvinas, ele e mais 150 militares argentinos, foram presos e transferidos para a Inglaterra. Agora, telegramas secretos divulgados pela Folha de S. Paulo, revelam que, na ocasião, o Brasil, através do embaixador em Londres, Roberto Campos, interferiu junto ao governo inglês para que o capitão Astiz pudesse voltar à Argentina.
Em junho de 1982, escoltado por um oficial britânico, funcionários da diplomacia brasileira e um agente do centro de inteligência da Aeronáutica, Astiz passou pelo Rio rumo a Buenos Aires. Com a queda do regime militar argentino, o “Anjo Louro da Morte” foi condenado à prisão perpétua e está preso desde 2003.
Os negócios de Israel
Há um mês Israel só queria negociar com a Autoridade Palestina, dominada pelo partido El Fatah, e considerava o Hamas como um grupo terrorista com quem não queria conversa. Bastou o presidente da Autoridade Palestina, Mahamoud Abbas, pedir na ONU o reconhecimento do Estado Palestino e o governo israelense mudou de parceiro. Em poucos dias, negociando diretamente com o Hamas, Israel conseguiu a libertação do soldado Gilad Shalit, preso há cinco anos em Gaza, em troca de 1027 palestinos que estavam nas prisões israelenses acusados de ações terroristas, além de aliviar o bloqueio que impõe à Faixa de Gaza. Apesar de saudar a libertação dos prisioneiros, o Fatah não deixou de lembrar que foi a captura do soldado Shalit que deu a Israel o pretexto para os ataques à Faixa de Gaza. A estratégia de Israel parece clara: dividir os grupos palestinos para impedir, ou pelo menos adiar a formação do Estado palestino.
O papel de Tony Blair
No filme O Escritor Fantasma (The Ghost Writer), o diretor Roman Polanski conta a história de um hipotético ex-primeiro ministro inglês, Adam Lang, visivelmente inspirado em Tony Blair, que vive exilado nos Estados Unidos para fugir da acusação de crimes de guerra na Inglaterra por causa do conflito no Iraque. No final do filme, é revelado que a carreira de Lang tinha sido patrocinada pela CIA da qual seria informante.
Já o verdadeiro Tony Blair vive com outro tipo de crítica. Depois que deixou de ser primeiro ministro em 2007, ele se tornou o representante do quarteto formado para negociar a paz no Oriente Médio (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e ONU). Nessa função, Blair foi definido pelo chefe da equipe de negociação palestina, Nabil Shaath, como “um diplomata israelense”, tal a sua parcialidade em favor de Israel nas questões em discussão no Oriente Médio.
Blair, que passa uma semana por mês em Jerusalém, hospedado numa suíte do hotel American Colony, que custa cerca de 400 euros a diária, já se definiu como “um amigo de Israel”. Na vida de Blair são tantas as amizades que ele é hoje um homem riquíssimo, com um patrimônio avaliado em 23 milhões de euros e inúmeros negócios que incluem assessorias ao holding de investimentos Rirerush Ventures, ao banco Goldman Sachs, à petroleira sul-coreana Ul Energy, ao fundo de investimentos Mubadala, da família real do Kuait, e à sociedade de capital de risco Khosla Ventures. Além disso, pronuncia conferências por todo o mundo, com um cachê médio de 200 mil dólares.
Crianças presas
Nas regiões ocupadas por Israel na Palestina, crianças são presas e julgadas por atirar pedras nas forças militares israelenses. Apesar da legislação de Israel proibir a prisão de crianças e adolescentes, o país é alvo constante de denúncias de organizações – palestinas e israelenses – que acusam o exército de deter centenas de jovens.
Em agosto de 2011, havia 201 crianças palestinas presas, incluindo 40 com menos de 16 anos nas prisões de Ofer Meggido e Rimonim. A maior parte dessas crianças é julgada nas Cortes Juvenis nos territórios ocupados da Palestina, principalmente pelo crime de arremesso de pedras, uma forma comum de resistência dos palestinos. As Cortes Juvenis foram criadas há dois anos, depois que surgiram críticas ao tratamento destinado aos jovens pela Justiça Militar de Israel, que os via como adultos.
Segundo um relatório da ONG israelense B`tselem, que entrevistou 50 jovens presos, 30 disseram que foram retirados de suas casas no meio da noite, sem que seus pais pudessem acompanhá-los, 20 disseram que não puderam dormir, comer ou ir ao banheiro enquanto esperavam pelo interrogatório e 19 reclamaram de violências verbais e físicas durante o interrogatório.
Ocupando Wall Street
Como ocorreu em 1967 na Marcha Contra a Guerra no Vietnã, e em 1999, em Seattle, nas manifestações contra as conferências da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), os jovens norte-americanos voltaram às ruas para protestar contra a atual crise econômica internacional com o slogan “Ocupe Wall Street”.
Uma das líderes do movimento, Naomi Klein, que se tornou conhecida no Brasil pelo seu livro Logo – a tirania das marcas num planeta vendido, diz que “hoje todos podem ver que o sistema é profundamente injusto e está escapando ao controle. A cobiça descontrolada devastou a economia mundial e está devastando o mundo natural. Esses são os fatos práticos. São tão gritantes, tão óbvios, que é muito mais fácil agora do que em 1999 promover conexão com o público, e assim expandir o movimento. Temos de tratar esse belo movimento como se fosse a coisa mais importante do mundo. Porque de fato é”.
Líbia
A morte de Kadafi deve marcar o fim a guerra na Líbia, com a vitória das forças ditas democráticas. A França e Inglaterra, que por meio da OTAN, mandaram seus aviões para evitar a derrota dos rebeldes, podem agora cobrar a conta do novo governo, garantindo os vitais suprimentos de petróleo para suas economias.
O presidente Sarkozy disse que era um grande passo na luta do povo líbio para se livrar de um regime ditatorial e violento imposto durante 40 anos. Resta saber agora se haverá o mesmo apoio para a luta do povo sírio contra o seu ditador de plantão, e para os que batalham contra o regime de Abdallah Bin Abdul Aziz Al-Saud, na Arábia Saudita e Ahmad ibn Khalifa, no Bahrein.
Ironias
Na semana passada, escrevemos nesse espaço sobre a ‘Ditadura do Politicamente Correto’ e tivemos a pretensão de usar a ironia no fechamento do texto. Trata-se de um caminho difícil que já derrubou muita gente competente. Resultado: muitos acabaram não entendendo a nossa posição. Luiz Augusto Cama, um dos mais importantes publicitários brasileiros, escreveu para perguntar: afinal, você é contra ou favor? Sou contra os exageros dos politicamente corretos, Cama. Resta apenas combinar o que consideramos exageros. Sem ironia.
24/10/2011
Fonte: ViaPolítica/O autor
Marino Boeira é graduado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É jornalista e publicitário em Porto Alegre, e professor universitário na área de Comunicação Social. Publicou De Quatro (crônicas com outros três autores); Raul: Crime na Madrugada (novela); Tudo que você não deve fazer para ganhar dinheiro na propaganda (novela). Participações em obras coletivas: Nós e a Legalidade; Porto Alegre é assim, Salimen, uma história escrita em cores, e Publicidade e Propaganda - 200 anos de história no Brasil.
E-mail: marinobo@uol.com.br