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Qual o legado dos EUA no Iraque?

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Aquilo que não ouvimos falar
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Antes da invasão americana do Iraque em 2003, a percentagem da população urbana que vivia em bairros de lata ou favelas situava-se abaixo dos 20%. Hoje em dia essa percentagem subiu para 53%. Por Adil E. Shamoo, em Foreign Policy In Focus
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Dziga Vertov e o som silencioso
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Por Luiz Rosemberg Filho & Sindoval Aguiar, do Rio de Janeiro  

Cartaz de Man with Movie Camera
Aqui implantaram a grande empresa globalizada. Primeiro o pau-brasil. Depois as florestas viraram cana de açúcar. Esse é o nosso país!

Não nos deixaram servir em qualquer revolução verdadeira. O que se viveu como formação foi, na verdade, uma negação da história como ornamento do fascismo dos anos de chumbo, onde tudo e todos estavam proibidos e censurados, como se a liberdade fosse uma doença asfixiante, e a única saída fosse a morte. Ou jogava-se na transmissão do arcaico como referência na reprodução do excremento, ou marcava-se o corpo e a alma numa multiplicação de dores, o que muitos não suportaram.

E sem em subjetividade alguma possível, o tempo foi marcado por amordaçamentos e assassinatos. Depois, a insinceridade dos governos Sarney, Collor, FHC e Lula, que, através de muita grana, compraram e calaram os movimentos sociais. Entretanto, já estão vendendo novas promessas para o próximo governo, onde todos aparecem em imagens como santinhos do pau oco. Essa estranha conduta resiste e se repete com o objetivo de nada mudar. Mas, instaura-se o bate-boca como se todos fossem diferentes, e não iguais na arte-terapia da enrolação, pois o único interesse dessa turma é chegar no poder e ostentar a eterna hipocrisia das nossas elites.

Ora, pensar a Revolução comunista de 1917 é, de certo modo, tocar numa utopia que não se realizou. Muitas foram as dimensões que se perderam, na anti-lucidez stalinista do poder. Não mais o poder como transcendência de toda e qualquer expectativa de exaltação de sonhos ainda possíveis. Mas, sim, a edificação de uma excitação política redesenhada pela soma dos muitos horrores praticados.

O que era para ser um poema, acabou se transformando numa exaltação da mesmice. Claro que com diferenças aqui e ali. Mas com características profundas antileninistas, a partir do qual o desvio burocrático tornou-se a única referência de sucessivas especializações sem contradição alguma. Tudo e todos se tornaram pretextos para modificação alguma. E claro que o cinema foi transformado num departamento do Estado burocrático, como se tenta fazer hoje aqui com a cultura no governo Lula, onde o mal-estar tornou-se referência com a história andando para trás.

Não se pode justificar as muitas aberrações fechadas neste caixão chamado Brasil. Não negamos a política como muitos idiotas pensam. O que ridicularizamos é a consagração bufa dos partidos, que se apresentam como sendo diferentes entre eles. Querem a absolvição para entrar no céu da corrupção. Mas mesmo isso já não mais surpreende, pois são todos iguais na consagração da mesmice. Nós, que votamos, é que somos os idiotas, pois ainda não percebemos a felicidade dos partidos, entupidos de impurezas. E é justamente nessa obsessão pelo horror que o transe significativo em Glauber foi substituído pelo espetáculo televisivo.

Nada mais cômico e patético que um político falando sobre tudo, numa eclosão de besteiras. Só que de maneira pomposa! Ora, o stalinismo não acabou com o encantamento de muitos, entre os quais Dziga Vertov? Enfim, nunca se quis a poesia, a linguagem ou a revolução. Sempre se temeu a eficácia do prazer e do gozo. Daí, tornar-se inadmissível confrontar tanto os políticos como os seus partidos. Mas no stalinismo não foi assim? Tamanha injustiça onde foi dar? Sentimo-nos envergonhados nesse compromisso retrô exposto como “bem-estar” imerso na lama, no qual só se impõe uma obsessão asfixiante pela crueldade do ser poder.

De resto, sempre amamos o risco e a ousadia em oposição ao automatismo das muitas guerras pelo mundo, da comunicação à Casa Branca. Guerras que servem à superfície dos discursos que nada dizem, à rejeição do lado humano das possibilidades. Vertov percebeu isso no seu primeiro filme sonoro, numa viagem musical até a revolução de 17! Sabendo-se próximo dela, ousou atravessá-la poeticamente, dando expressão a tudo e a todos, num conjunto de traços significantes de um gozo quase físico no seu magistral Entusiasmo, de 1931.

Em 1930, para Vertov, a introdução do som no cinema foi mais um instante primoroso do seu culto à lucidez científica, tecnológica e de ideologização das imagens. Principalmente na União Soviética, em que uma ideologia se construía sob o som não muito definido de poucas vozes e de muito volume de significações indefinidas e de espectros que esbanjavam poetas, revolucionários de primeira hora e os sonhos se tornavam pesadelos. A utilização do som neste seu Entusiasmo não é somente belo. É assustador pela insistência no silêncio, nas diferenças sonoras sob o peso da ideologia, nos cantos à virtude, ao trabalho e a alegria de um sonho coletivo. Ações e imagens. Imaginações e manifestações. Simbolismos e conhecimento. No filme sonoro de Dziga Vertov, só antagonismos e contradições. Verdadeiro sentido mitológico do sentido do amor e da morte à espera de nossas manifestações.

E a concentração da produção impondo o ritmo alucinante do Fordismo e do Taylorismo, como no capitalismo – o que seria isso para Vertov? Quando uma vontade não pode escravizar como representação, com seres humanos transformados em bestas automatizadas e cegas por anos de servidão e ausência de luz nos labirintos das minas... Essas trilhas que vão se abrindo para uma saída sem saída. Mas esta sinfonia de fuga de Vertov é uma saída para o entendimento de um cinema mais humano e mais simbólico. E de não submissão aos avanços ficcionais do progresso tecnológico e de tudo que nos impuseram como cultura, confundindo significados e significantes como fazem as ideologias e suas infinitas definições de sedutores fascismos e iluminismos de estamparias e cromatismos saídos dos centros de produção burgueses. Que nós vamos coroando com o nosso senso comum neste apocalipse de guerras e religiões de mercados e mercadorias, aproximando uma prisão de segurança máxima de um gueto à espera do holocausto. Onde se privatiza e se parceiriza. Se dinamiza e se administra. Com o mesmo fim. Lucrar, acumular e exterminar. Com muito ruído para nada. tipo o infantilismo de Avatar. É o que tenta nos dizer Dziga Vertov em 1930, sobre o advento do som no cinema.

Linguagem articulada de signos, como a palavra. Mas o cinema é analogia. Vertov sabia que a linguagem simbólica é inseparável do conhecimento. E, se este separa aquela parte do entendimento, é a instauração da barbárie! Etapas contínuas de progressão de um domínio que não detemos porque nem sabemos o que é, como as desencadeadas pelo capitalismo para transformar o mundo em mercado globalizado. De pobreza, dependência e submissão. Produto. Principalmente em um país como o nosso, que já nasceu empresa. Mercado de capitais do mundo!

Assim, Dziga Vertov se transforma na consciência cinematográfica de todos os tempos. A da paixão pelo cinema a partir do olhar e dos horizontes possíveis como utopias e realidades, a partir do simbólico e do conhecimento. No universo das ideologias. Estas que estamos suportando como a mais dramática realidade no processo de liberdade de desenvolvimento de uma cultura mais hegemônica, o que a revolução vitoriosa de 1917, que Vertov visualiza, não conseguiu projetar. E que o filme Entusiasmo dialeticamente toca com paixão, sensibilidade e conhecimento, e sem se perder nas miragens epifânicas das ideologias no poder ou nas sofísticas de uma elevação popular frustrada. Cujos sacrifícios preparavam e acumulavam para o saqueio e o botim capitalista para a Rússia da globalização de 1989. Tentativas que, em 1919, a presença de Lênin já frustrava.

Vertov, pelo menos, nos dá a esperança de que somente o pensamento, como o de sua abordagem sobre o advento do som, apresenta auroras e um futuro histórico para reflexões como as do seu primeiro filme sonoro. Infelizmente, a história do Brasil e a da sua fundação, que o cinema não aborda (salvo Glauber) não tem nos ajudado para uma abordagem cinematográfica na filosofia e na práxis vertovianas. Na formação de quadros para mudanças!

De volta ao passado: (“...terra chan com grandes arvoredos, ao qual monte alto o Capitão pos o nome de Monte Pascoal, e à terra o de Vera Cruz...”, da carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel). Chegaram dominando e dando o nome a tudo. Em 1500, como hoje. Se naquela época já éramos um país de todos... O que fazer, então, na globalização? Aqui implantaram a grande empresa globalizada. Primeiro o pau-brasil. Depois substituindo florestas por cana de açúcar. Que país é este? Esse é o nosso país! E aqui também as bandeiras e miragens de simbolismos e conhecimentos se perderam e viraram papéis nas bolsas de outros valores de futuros negociáveis.

Voltando a Vertov: o ser humano para atingir sua natureza mais elevada resulta de um processo de desenvolvimento cultural contínuo e simultâneo. Sendo que o simbólico é sempre interrompido e descontínuo. Diferente do conhecimento contínuo, nunca interrompido como no da fundação do Brasil empresa. Onde sempre morou o perigo, e que Vertov visualizava em seus processos de horror na União Soviética de 1930, fazendo do seu filme um alerta de muitas dimensões em sua narração e linguagem operística visual grandiosa. De dom sublime e silencioso na evocação dos mitos, da crença e da união sigilosa entre o simbólico, a força do povo e a cultura, que o poder já manipulava como massificação da ideologia e do pensamento único, à espera do capitalismo que acabou chegando.

O filme de Vertov nos obriga uma visagem pelo Brasil. Ora, o que é o nosso STF em relação a tantas coisas e à censura do feudo dos Sarneys ao jornal o Estado de São Paulo? Por levantar apenas alguns dados contumazes da burguesia, como esses do filhote do não menos comprometido José Sarney? Mas a burguesia sabe como produzir e resolver suas crises, essas que o país a todas vem se acomodando. Por que a exigência de um não saber mais profundo e crítico ao jornalismo? Por que a cultura com simbolismo incomoda?

Do mesmo modo que incomodou a Vertov um processo de produção sem os processos históricos e culturais de dialéticas e contradições. Vivendo um intenso processo de lutas de classes sublimadas, sabia ele, que toda cultura acaba sendo vítima de uma superestrutura ideológica, que não pode acabar bem. A União Soviética deixou de ser um sonho para muitos, para ser transformada num pesadelo para todos. Não acabou virando um país liderado por mafiosos e agentes da KGB? Possivelmente lá também devem dizer que é um país de todos. Acreditem se quiser!

7/2/2010

Fonte: ViaPolítica/Os autores

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