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Violência e Paixão
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Por Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar, do Rio de Janeiro  

Luchino Visconti
Um filme de brilho infinito. Visconti é profundo não somente para apagar as chamas, mas para dar vida às cinzas, para novas esperanças e oportunidades.

“Suponhamos que o homem seja homem e que sua relação com o mundo seja humana; então só podemos trocar amor por amor, confiança por confiança.”
Karl Marx

Para as irmãs Lannuzzi

Ousaríamos dizer que o limite do humano é a história. Não a história como bordel do capital, como nos mostra a TV todos os dias, mas como humanização do homem, aspiração universal da arte. Entender esta relação é, de certo modo, potencializar as essências mais nobres que a política partidária, substituindo-a pelo saber. Uma política que nos ensinasse o caminho da felicidade e não dos muitos discursos que nada dizem. Não a felicidade como hábito vulgar das novelas televisivas, mas como procedimento da aprendizagem da necessária transformação do mundo. E aí então o mundo como expressão de uma utopia possível.

O cinema de Luchino Visconti é o desdobramento de uma determinação histórica transparente, pois retrabalha o real como poesia e pintura. E, ao invés de afirmar conceitos como Godard ou Pasolini, submete-se a uma disciplina de múltiplas contradições históricas. Ao não rejeitar absolutamente nada das contradições da classe dominante, se redescobre como personagem exemplar do seu tempo, tanto no genial O Leopardo, como em Violência e Paixão. Seu grande esforço foi sempre ir além de seu próprio saber, não encobrindo as múltiplas excrescências do nosso tempo: da velha Democracia Cristã ao bufão do senhor Berlusconi. Um mito cristalizado pelo capital.

Neste esplendoroso noturno chamado de Violência e Paixão veem-se grandes espaços ocupados pelo passado. Os muitos quadros de família. Um velho professor esquecido entre seus livros, discos, objetos e uma história se apagando. Um rigoroso trabalho absolutamente dialético. Entendendo-se por dialética a seguinte explicação de Ernst Bloch: “Por dialética não se entende, pois, a unidade da unidade das contradições, mas a unidade da unidade e das contradições.” Visconti potencializa a velhice com utopias e afetos. Põe a nu a diferença de gerações e de classe, fundamentando com rigor as contradições do seu tempo, dando ao cinema uma responsabilidade muito além da simples conquista de mercado. Ou seja, tentou chegar no público fundamentando uma história do entendimento político do humano.

Pensar a Itália de Visconti é mergulhar fundo na infinitude do saber. A Itália de Dante e Leopardi é o ideal descontínuo do seu magistral Vagas Estrelas da Ursa. Visconti sempre cientifizou todo o esforço do seu saber, substancial ao cinema antropomórfico. Seu sólido compromisso com o humano foi sempre sua reivindicação prioritária. De um saber e um talento invejável está para o cinema como Benjamin está para a filosofia. Dois construtores de uma história complexa e moderna muito além de egoísmos e pobrezas.

O cinema de Luchino Visconti sintetiza uma consciência política nacional conduzida por sólidas raízes marxistas. Sua ode à consciência não o abandonou em um só trabalho. Fecundo como expressão do seu tempo, alimentou-nos de saber, história e poesia. Apaixonado por uma utopia da razão, foi lúcido até o fim como desestabilizador da ordem burguesa, ordem imposta de cima para baixo. Ricos e pobres foram redefinidos por suas idéias e lentes. O cinema de Visconti nos fez e ainda nos faz renascer melhor. Um pouco além das nossas muitas infelicidades.

Ora, o que fazer do tempo ocioso em poder de uma burguesia vulgar, violenta e, impiedosamente predadora, no sentido preciso de suas inutilidades? E do alcance a que atingiu a sua capacidade direta de predação, de domínio e de escatologia? A de exacerbação do individualismo como força e capacidade de intervenção na vida política, econômica e social de um país, deixando ao abandono qualquer sentido estrutural, conjuntural de construção didática e cultural? A de uma linguagem de referências e não só de desespero? O que fazer? Não sabemos.
Violência e Paixão, esta autobiografia de Visconti, deixa-nos estas e tantas indagações.

Sabemos, porém, que Visconti foi um mestre da narrativa da arte. No teatro, na ópera, no cinema. Na vida! É possível até falarmos no seu caso, o da nobreza que nunca negou, de uma integridade no sentido estrutural da ética. E quem estrutura e a procura entender parece que tem tudo! Neste delicado filme, um dos últimos, de linguagem e textos rigorosos, ele, o mestre, abre mão de virtuosismos tecnológicos, dessa coisa que se tornou monstruosidade na linguagem de domínio hollywoodiana, e que encanta e fetichiza, para delinquir! Em Visconti sem espaço, porque o seu, é o do antropomorfismo sem exclusões. No seio da burguesia predadora, entre simples pescadores ou entre operários, como em Rocco e Seus Irmãos. Em qualquer de seus filmes ele viveu o seu tempo com plenitude, visão e profecia. E não sucumbiu a nenhum deles. Como uma vivência em família. Uma forte referência em todos os seus filmes!

Narrativa comovente da lógica do absurdo que nos circunda para nos dominar, depois de envolver e seduzir. E sob conceitos vários: do real ao irreal; a lógica do próprio absurdo em que se desenrola. Este absurdo de que Mallarmé e Paul Valéry souberam escapar pelo simbolismo, mas que Visconti enfrenta com sofrimento, dor e sentimento, a paixão pelo humano, pela tradição, pela história. E pelo passado tão negado como uma responsabilidade por um presente melhor. Esta é a paixão violentada de Visconti.

Em Violência e Paixão, Burt Lancaster contribui para o personagem fascinante e tão distante de Hollywood e de suas efusões tecnológicas. Efusão confrontada pelo rigor da produção deste filme de luxo, requinte e equilíbrio, regido pelo bom gosto, o da identidade do diretor e que marcou toda sua obra. Felizmente, neste filme, Burt Lancaster é um verdadeiro Visconti, mais de um mundo de Leopardi do que do nosso. Nobreza respeitável e exemplar! Poder, luxo, cultura e bom gosto. E, acima de tudo, humanidades, algo que não se compartilha mais. E a maior aliada desse personagem não poderia ser outra, que não a arte. Esta que não se intromete. Apenas incendeia. Para recriar, recomeçar. Que a vida é um sonho! (Calderon, Cervantes, Machado).

Violência e Paixão só poderia ter esta gênese: a de Visconti, filho de uma Itália que ele conheceu, de violência e paixões em todas as artes e imoralidades. De Roma à Florença e por todos os séculos, amém! E Visconti sabe que das cinzas nada escapa, e ele não teme carregá-las como transfiguração, como no filme, fazendo do inferno paixão, fenômenos de dificuldades e superações e com os quais temos de coabitar. O que ele dimensiona em um dos diálogos em que exprime sua condição histórica de conhecimento, experiências e humanidade: “O tempo é como uma família. Uma vez constituída, fica difícil a separação. Há sempre um vínculo, um comprometimento”! Neste filme, a sua casa, o seu museu particular, o seu laboratório de tempos e mistérios e que, por circunstâncias inesperadas, é obrigado a compartilhar com os bárbaros invadentes. Bárbaros de uma modernidade insuportável e que ele não repele, pela transfiguração, uma elevação filosófica, artística e cultural, sua arte.

Violência e Paixão é uma obra de brilho infinito. Visconti é profundo não somente para apagar as chamas, mas para dar vida às cinzas, para novas esperanças e oportunidades. Vivendo o seu tempo, mesmo sob o peso do passado, não o revive como restos mortais. Mas como referências, que as imagens de Violência e Paixão são exemplo. O de uma vida sofrida e amada. Bem vivida! Pura paixão.

7/3/2010

Fonte: ViaPolítica/Os autores

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