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| Colagem de Luiz Rosemberg Filho |
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“O que está em jogo no erotismo é sempre uma dissolução das formas constituídas”.
Bataille
De um lado o discurso erótico de uma ex-prostituta neutralizado pela voz soturna de um jovem talentoso e diretor de cinema. Do outro, apenas uma cama arrumada e vazia. O filme abre com um texto-gozo que nos remete à Sade. A mulher diz que goza. A voz do homem, em off, a reconhece como humana. Pontos de vista que se aproximam e se afastam. O prazer no filme é pensado sem a pretensão do gozo fácil ou banalizado. Não é um filme pornô, mas uma saudável discussão a partir do erotismo-pensado sobre os nossos tantos e tantos demônios e medos.
É indolor a prostituição? O que a justifica? Por que a mulher em sua solidão se calça? Goza-se só com uma representação do desejo? Marcelo Ikeda experimenta linguagens a partir da fala da mulher, e suas imagens rigorosas nos fazem lembrar o cinema de Straub, pouco importando se corretas ou não. E então uma cama arrumada em desacordo com a fala. A imagem, ao não encontrar o discurso dela, suaviza a intencionalidade da percepção do gozo. Gozar com o outro. Ela goza mas não se vê. Apenas ouve-se a narração do próprio Ikeda. Dizem que poucas são as putas que se permitem gozar com seus clientes. A realidade da prostituição é dura. Ontem foram três, quatro, cinco clientes.
Em outro momento rememora, em seu discurso, o difícil encontro com a mãe. Foi ontem, no interior. Lembranças do tempo que passou. A escuridão no enquadramento e a paisagem. Poderia ter sido diferente. Entre imagens desconexas, assimila-se quase na imaginação de um juízo não moralista. Entre devaneios e abstrações o espaço iluminado naturalmente como afirmação da vida. É preciso transcender o medo de viver.
Ela, por intermédio de suas experiências, se supera conseguindo gozar, casar, ter filho e escrever. É a sua vida-escrita que serve de material ao realizador. E, entre espermas e lembranças, um capítulo cinematográfico de alguns momentos já superados. Marcelo Ikeda, com muita discrição, nos presenteia com sensibilidade um texto trabalhado por sua maneira de ler sem emoção alguma, o que o torna estranho ou distanciado como no teatro de Brecht.
Já não são mais lições do abismo ou da falsa pureza moral da família. A rudeza do discurso lido sem emoção alguma não reproduz o uso comum da banalização sexual na mídia. Ultrapassa-se o previsível rumo ao espaço perdido da poesia. Chegando-se, com o nascer do sol da manhã, à divinização da ainda possível felicidade.
O novo filme de Marcelo Ikeda é uma lenta multiplicidade de momentos desconexos rumo ao encantamento positivo e poético da vida. Ela, a prostituta, e ele, sabem que nem todos chegam a esse encantamento. Mas é preciso tentar sempre. Se em meu trabalho “Memórias” a câmera isolada perde-se no limites comuns do cinema, “Diário de uma Prostituta” faz da apropriação de um limitado texto literário um caminho possível para a poesia. Colocando o êxtase da criação do outro lado do “espelho”, no esforço desconcertante da vida vivida além dos seus limites. Mas sem exaltar nada, nem mesmo o cinema. É um trabalho seco como o cinema de Bresson.
Em um certo sentido, “Diário” faz surgir uma multiplicidade de ultrapassagens. Do próprio texto de Bruna Surfistinha, ou mesmo do cinema experimentalíssimo de Marcelo Ikeda. E, no que desaparecem as referências à imprecisão do olhar, torna-se síntese de uma procura maior e mais profunda.
É absolutamente original esta rica experiência de Ikeda a partir de um livro erótico de Bruna Surfistinha. Ambos fazem da sexualidade plena uma tentativa de superação da solidão. Não é um grande texto, mas se torna complexo em sua própria superação em benefício de uma entrega ou apropriação criativa, oferecendo-se, não como divertimento, mas como análise do uso da transgressão da própria autora, sem tirar ou adicionar nada. E do próprio amadurecimento do realizador, que se deixa levar por tristeza, espaços, gozos e alegrias. Fazendo um filme desconexo propositalmente. Ou seja, não quer explicar nada. Ora, o que pode ser explicado no mundo de hoje? As explicações atendem às nossas frustrações?
Como bem dizia Baudelaire: “Muito criança senti no coração dois sentimentos contraditórios: o horror da vida e o êxtase da vida.” É por onde o “Diário de uma Prostituta” vai: pela imobilidade das imagens até cantadas. E pelos pontos positivos dos que arriscam tudo. Ikeda se permite romper com a unicidade da mesmice. Insatisfeito com o dia-a-dia do nada Nacional, se permite dar plenitude terapêutica ou criativa à sua sensibilidade, fazendo do desespero e da impotência de um tempo medíocre um filme-poema de amor ao trabalho experimental, à vida e à felicidade. E não deveria ser a escolha de todos?