A experiência da criatividade possibilita outros vôos. Plenos vôos. Vivenciar o processo criativo e romper limites da existência são grandes desafios. Um exemplo de rompimento de limites e de arte incomum, Artur Bispo do Rosário, anunciou: "Os loucos são como os beija-flores. Estão sempre a dois metros do chão”.
Interligando a reforma psiquiátrica à criação e à cidadania, um novo olhar vem se lançando sobre obras realizadas por usuários do sistema de saúde mental. Nestes novos tempos, ao aprofundar o mergulho em novas práticas, lançando mão do potencial criativo de seus frequentadores, serviços substitutivos ao antigo modelo de tratamento apostam na mudança e colhem resultados positivos. Sem negar o sofrimento, mas incorporando a noção de cidadão e trabalhando com a subjetividade, uma nova perspectiva ganha força em Juiz de Fora, em Minas Gerais e no Brasil. E expressões criativas surgem, aflorando a arte de onde só se enxergava a exclusão, o medo e a loucura.
Aos poucos, um mero ato espontâneo de pintar ou desenhar ganha a forma expressiva de comunicação de sentidos. Pouco importa se é considerado arte ou não-arte. É muito mais que isso. É um ato de construção de cidadania, de inclusão de cidadãos, antes excluídos e marginalizados. E o melhor, ao abrir novos horizontes, lança mão da inventividade e da criatividade e ajuda a mudar a realidade desses cidadãos.
Cores e formas, muitas vezes inquietantes e perturbadoras, revelam um novo percurso dos que ousaram transitar entre o real e o imaginário na articulação de uma expressividade, de uma afirmação de vida. Estas imagens pictóricas aqui reunidas são formas visuais construídas para um encontro com o outro e a compreensão de si mesmo. São obras que testemunham e revelam o sofrimento e a alegria, a angústia e a esperança.
Assim, usuários do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Casa Viva e do Centro de Convivência Recrear, em Juiz de Fora, Minas Gerais, apresentam seu universo interior na exposição “Crio, logo existo”, a partir de quinta-feira (20/05), às 20h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), em Juiz de Fora, encerrando a programação do Dia Nacional de Luta Antimanicomial, comemorado na última segunda-feira.
A mostra reúne cerca de 70 pinturas, entre trabalhos recentes dos usuários e também uma retrospectiva de obras premiadas, a exemplo de “Homem com cara de gato”, de Isaías, que conquistou menção honrosa no concurso Arte de Viver, em 2001, e já foi exposta em Paris, na França. Na edição do concurso no ano passado, “O amor riu de mim”, de Alceu, foi premiado em segundo lugar.
23/5/2009
Fonte: ViaPolítica/Liberatinews
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Ilustração de Isaías – "O homem com cara de gato"
Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e organizador da antologia Poesia em Movimento.
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