É urgente que a atual pauta de reivindicações sociais seja atendida pelos governantes, fortalecendo a prática de valores positivos na sociedade.
Ao longo dos últimos dez anos, em vários momentos, abriram-se discussões em torno do marco legal do Terceiro Setor. Por uma razão ou outra, para evitar que sejam ultrapassados os limites da legalidade, os avanços são discutidos exaustivamente. A intenção é que os caminhos obedeçam aos marcos definidores corretos de lutas, campanhas e legitimidades dos ambientes burocráticos a envolverem as instituições que trilham na área social.
As instituições vinculadas diretamente – ou originárias – às empresas, ou braços do Segundo Setor, buscam, em geral, funcionar dentro de limites jurídicos que não ultrapassem nem criem qualquer tipo de embaraço ao Primeiro Setor, o Governo. Essa é uma conduta típica da existência de uma espécie de consorciamento político absolutamente inexistente antes da ditadura de 1964. Quer dizer, não há margem para a existência de qualquer tipo de conspiração capaz de jogar o setor empresarial em posições políticas opostas, sem que isso o faça perder, salvo engano, sua individualidade ideológica.
A ampliação do espaço de atuação dessas organizações expandiu-se de tal modo no Brasil, nos últimos 29 anos, devido ao reconhecimento explícito de que o governo sozinho, mesmo com os recursos dos impostos disponíveis, não resolveria os sérios e dolorosos problemas sociais e de infraestrutura – como moradia, saneamento, educação, saúde e meio ambiente – que essa preocupação acabou se convertendo, do lado empresarial, na criação do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (Gife), que funciona em São Paulo. O Gife é o principal difusor da responsabilidade social empresarial no país e emprestou vitalidade orgânica nacional ao Terceiro Setor. O Gife congrega vasta experiência de investimentos em educação, cultura, capacitação e meio ambiente de instituições, assim como o Instituto Ethos, liderado pelo empresário Oded Grajew, defensor da filosofia da responsabilidade social no Brasil.
De 26 instituições associadas quando de sua criação em 1995, o Gife pulou para 112 em 2008, e graças ao seu trabalho é crescente o número de empresários solidários com o conceito difundido em relação aos investimentos privados para fins públicos. Foi esse conceito que estimulou a participação das instituições originárias das empresas a investirem R$ 1 bilhão por ano em projetos sociais, criando-se, para acompanhar seus desdobramentos, critérios de avaliação saudáveis que evitam desvios e desperdícios de recursos.
Do lado da sociedade civil, a expansão das associações de bairro, institutos de cidadania, fundações e “prefeituras” comunitárias, estas últimas em Alagoas, emprestou a essa vertente do associativismo uma tessitura mais organizativa e participativa, exigindo sua acomodação no próprio Código Civil ao detalhar um caráter mais educativo ao assembleísmo natural na formação das entidades.
Está chegando o momento em que o amadurecimento desse setor fará tanto as instituições derivadas das empresas como aquelas de moradores, que tratam de resolver conflitos sociais ocasionados pela ausência do poder público, estenderem as mãos umas às outras para, juntas, buscarem as mesmas soluções. Esse comportamento, mais adiante, deverá ocorrer entre os partidos políticos, nos quais a escassez de solidariedade que hoje os caracteriza, passará a ser um fator de união. Assim, se dará a operosidade das ações que hoje, quase sempre e infelizmente, são inócuas.
Há um aspecto fundamental no desenvolvimento do novo associativismo: a difusão de valores como a ética, a lealdade e a honestidade no interior da sociedade brasileira. A selvageria derivada do processo de acumulação capitalista, à qual esteve curvada a sociedade brasileira na transição de uma população rural para urbana, sepultou de vez o “ser” no lugar do “ter”.
Em estados como Alagoas, onde 25 dos 27 deputados da Assembléia Legislativa ganharam notoriedade não porque criaram leis capazes de proteger a infância, a adolescência e a velhice, mas porque roubaram R$ 280 milhões sorrateiramente dos cofres públicos em cinco anos, conforme provas documentais da Polícia Federal, e continuam soltos como se tivessem feito isso para o bem do Estado. Atitudes criminosas como essas acabam sendo aceitas e entendidas como naturais.
Assim, a reversão em favor de valores sociais e éticos (honestidade em lugar desonestidade, lealdade em lugar da traição, verdade em lugar da mentira, solidariedade em lugar do individualismo, por exemplo) vai, aos poucos, se transformando em pauta permanente dos movimentos sociais.
Para que isso seja possível, é urgente que as atuais reivindicações sociais sejam atendidas pelos governantes atuais, para fortalecer a prática de valores positivos e convertê-la em rotina na vida dos brasileiros.
20/9/2009
Fonte: ViaPolítica/O autor
Parte I
http://www.viapolitica.com.br/comunidade_view.php?id_comunidade=121
Parte II
http://www.viapolitica.com.br/comunidade_view.php?id_comunidade=122
O jornalista e escritor Reinaldo Cabral apresenta em ViaPolítica uma visão do ambiente das ONG’s onde atua - www.aalong.com.br. O autor acaba de concluir o romance O vôo do gafanhoto, onde ficciona como o império das drogas se instalou no Brasil e como está levando o país à derrota. Seus livros podem ser encontrados em www.estantevirtual.com.br.
E-mail: reinaldocabral@hotmail.com