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Qual o legado dos EUA no Iraque?

A infeliz verdade pode ser que o Iraque tenha já atingido uma sinistra forma de estabilidade, onde persiste um alto nível de violência e um estado semi-desfuncional. Por Patrick Cockburn, de Counterpunch, em tradução de Luis Leiria, para Esquerda.net
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Aquilo que não ouvimos falar
sobre o Iraque
Antes da invasão americana do Iraque em 2003, a percentagem da população urbana que vivia em bairros de lata ou favelas situava-se abaixo dos 20%. Hoje em dia essa percentagem subiu para 53%. Por Adil E. Shamoo, em Foreign Policy In Focus
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“Negro!”
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Por Helio Jose Maduro da Silva, de Taubaté, São Paulo

Em plena Avenida Paulista, aquela frase, pronunciada com manifesta intenção homicida, se transformou num projétil impregnado de hostilidade e racismo.

Eu estava caminhando despreocupadamente pela movimentada Avenida Paulista. De repente, no meio da multidão, ouvi um tiro: “Negro!”. Não, não estou enganado. Foi um tiro que eu escutei. Duas pessoas haviam se desentendido por um motivo qualquer. Uma delas era afrodescendente. Foi o suficiente para uma das mais absurdas formas de preconceito vir à tona.

Aquela frase, pronunciada com manifesta intenção homicida, se transformou num projétil impregnado de hostilidade e racismo. Pude testemunhar que o disparo não visava atingir diretamente o corpo do oponente. A pretensão do agressor era destruir a autoestima do ofendido, humilhando-o, degradando-o, inferiorizando-o, ferindo-o emocionalmente.

Mas, possuir a tez escura nunca foi defeito genético; tampouco maldição familiar, devido a pecados cometidos por algum antepassado. Há tempos a ciência explicou: essa pigmentação da pele deve-se à melanina, nada mais. Então, por que o termo “negro” pode produzir efeito tão devastador?

Provavelmente porque, nesses tristes episódios, a palavra seja pronunciada agressivamente, como clara forma de provocação ou evidente tentativa de desmoralização e aviltamento. Não se chama alguém de negro, simplesmente. Acusa-se. Culpa-se. Discrimina-se. Diminui-se. Xinga-se.

Via de regra, a condenável estratégia dá resultado imediato: o negro, invariavelmente, se ofende. E quase sempre com razão, pois há dolo. Dolo na pronúncia carregada de ódio, sarcasmo e desprezo. Dolo naquele olhar de soslaio, provocador, debochado, lascivo. Dolo na língua sibilante, maliciosa e viperina, que injeta peçonha e aguarda o dano mortífero.

Ao ofendido, pouco resta a fazer. Partir para a violência está deixando de ser opção, pois a luta corporal contra séculos de intolerância racial pouco produz, além de alguns hematomas e boletins de ocorrência. Acionar o Poder Judiciário, pleiteando uns trocados em ações de indenização por danos morais, vem sendo uma alternativa; porém, não tem se revelado uma medida capaz de pôr fim ao desrespeito e impedir novos casos de discriminação.

Como proceder, então? Não sei responder com precisão. Não possuo tanto conhecimento de causa assim. Na verdade, nem ao menos tenho cútis escura. Sou branco. Branquelo, para ser mais específico. Quinze minutos de sol bastam para me impor vermelhidão e ardor intensos por vários dias. Mas, graças a Deus, não sou somente branco. Meu cabelo crespo evidencia a contribuição da “gota de sangue” africana na minha família, na minha aparência e no meu caráter.

Essa particularidade me ajudou a extirpar algumas formas veladas de preconceito. Desde criança, ouvia muitas pessoas dizerem que eu tinha “cabelo de negro” ou “cabelo ruim”. Sofri e concordei com isso durante muito tempo. Até entender que meu cabelo é crespo. E que cabelo de negro não é ruim: é crespo também! E que não há “humor negro”. Há humor de mau-gosto, independentemente da estirpe do autor da piada infeliz. E que as pessoas não são pretas – são negras. Preta é cor, e o ser humano é muito mais do que a tonalidade da pele. É um ente extraordinário e paradoxal, dotado de corpo, mente, alma, sensibilidade, razão, espiritualidade, sentimentos, pensamentos, esperanças, desejos, criatividade, fé... E por aí vai!

Minha experiência de vida me faz crer que o combate ao racismo deve englobar a mudança desses conceitos preconcebidos, dissimulados e injustos. Queiramos ou não, possuímos a mesma origem divina e pertencemos à mesma genealogia. Estudos científicos têm comprovado que as diversas etnias se ramificaram a partir de uma mesma raça, surgida no Continente Africano. Portanto, a despeito das diferenças físicas, somos todos criação do mesmo Deus; frutos da mesma árvore; farinha do mesmo saco. Fomentar o preconceito racial é ignorar a história, renegar a si mesmo e atentar contra a própria existência.

Não se trata de uma argumentação puramente ideológica. O fenômeno da Globalização consolidou a importância dos diversos povos na conservação do planeta e na preservação da espécie. A poluição, o aquecimento global, o desmatamento, as grandes epidemias e a escassez de alimentos são exemplos incontestáveis da relevância de cada grupo humano no equilíbrio das forças que regem a vida na Terra. Na superpopulosa aldeia global, em contínua expansão pelo mundo, somente o respeito aos semelhantes e a tolerância para com a diversidade poderá propiciar a construção de uma sociedade pacífica, sustentável, viável.

Contudo, mesmo com os avanços atuais, ainda não conseguimos atingir esse nível de conscientização e erradicar o racismo e outras formas de discriminação. Diariamente ficamos sabendo de novas histórias de violência e preconceito: pessoas humilhadas, maltratadas e desrespeitadas apenas por serem diferentes no tom da pele, na aparência, no modo de se vestir, no nível socioeconômico ou na forma de falar. Às vezes temos a impressão de que nunca iremos exorcizar o fantasma da desigualdade racial.

Porém, essa mesma luta que parece estar longe de ser vencida, também não está totalmente perdida. Nomes como Nelson Mandela, Martin Luther King e Barack Obama demonstram: por mais que haja discriminação, a humanidade acaba reconhecendo e reverenciando seus grandes vultos, sejam eles brancos, negros ou de qualquer outra raça. Oxalá, num futuro próximo, também os cidadãos comuns, inclusive afrodescendentes, possam ser tratados dignamente em todos os níveis de relacionamento social. Então, “negro” deixará de ser um tiro e novamente se tornará uma palavra, com sua admirável intensidade fonética e seu insofismável poder semântico.

10/3/2010

Fonte: ViaPolítica/Afropress

URL: http://www.afropress.com/colunistasLer.asp?id=698

Helio Jose Maduro da Silva é jornalista em Taubaté, São Paulo
 
 
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