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Muro de Berlim, 20 anos depois (1) Berlim e Alemanha no centro da história contemporânea
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Por Paulo Roberto Almeida  

www.pralmeida.org
pralmeida@mac.com

(Primeiro artigo de uma série, dedicada à derrubada do muro de Berlim)

Vinte anos depois da derrubada do muro de Berlim, vale explorar os itinerários possíveis dos processos políticos na Europa, em especial na Alemanha, antes e depois do muro de Berlim, que poderiam ter determinado outro curso para a história do continente no último século e meio. Mas, pode-se perguntar, por que recuar tão longe na história para tratar de um evento que, numa cronologia estrita, ocupou apenas o último quarto do século 20?

A razão está em que, na história contemporânea, o papel de Berlim – e, mais amplamente, da Alemanha – não tem a ver apenas com o status da cidade durante a Guerra Fria ou no período atual, uma fase ainda transitória das relações internacionais. O significado político da cidade, enquanto capital da mais poderosa nação europeia, emerge na unificação alemã, em 1871, e promete projetar uma influência duradoura no futuro previsível, não apenas na Europa, mas também no mundo. De fato, Berlim esteve no centro, inclusive geográfico (considerando-se o retraimento para o ocidente do antigo território do império alemão), da chamada Deutsche Frage, a questão alemã, [1] hoje um pouco esquecida dada a relativa diluição da Alemanha, em suas fronteiras atuais, no território econômico mais vasto (e crescente) da União Europeia.

Para fazê-lo, ou seja, para retraçar a importância e o papel de Berlim na chamada questão alemã dos últimos 150 anos, vale recorrer àquilo que é conhecido como história virtual, um exercício intelectual pouco praticado pelos próprios historiadores, mas que tem suas regras e métodos, tal como explicitados num compêndio organizado por Niall Ferguson. [2] De fato, não se pode compreender os 20 anos decorridos desde a derrubada do muro, em 9 de novembro de 1989, sem se referir aos 40 anos anteriores, desde a divisão definitiva de Berlim e da própria Alemanha em 1949, que na verdade nada mais representa do que a culminação de um processo errático que começa em 1870 (talvez mesmo até antes, na batalha de Iena, em 1806), passa por 1914 e pela ‘segunda guerra de Trinta Anos’, que conhece sua fase mais decisiva entre 1939 e 1945.

Em todos esses episódios, a questão alemã assumiu novos contornos, no contexto daquele processo mais amplo que muitos historiadores chamam de Sonderweg, ou seja, a via especial adotada pela Alemanha, bastante diferente daquela seguida pelos demais países da Europa ocidental para sua modernização política e social. Para todos os efeitos práticos, a Sonderweg termina em 1945, para a parte ocidental da Alemanha, e em 1989, para a sua parte oriental, sendo a derrubada do muro um evento simbólico, por excelência, não apenas para as duas Alemanhas, mas igualmente para o mundo como um todo.

Afinal de contas, o que ocorreu na sequência da derrubada do muro, em novembro de 1989, seguida da implosão da maior parte dos regimes socialistas, entre essa data e 1991, do próprio desaparecimento da União Soviética e, no mesmo intervalo, da unificação das duas Alemanhas – na verdade, da absorção de sua parte oriental pela República Federal – não foi tanto um ‘fim da História’, e sim, mais precisamente, um ‘fim da Geografia’, ou melhor, da Geopolítica, esta representada pelo declínio irremediável do socialismo enquanto modo de produção alternativo ao capitalismo. [3]

A terminologia consagrada, nas diversas línguas, refere-se à “queda” – Mauerfall, fall, chute – do muro de Berlim, mas é um fato que ele não caiu; ele foi, sim, derrubado, contra a vontade dos dirigentes políticos, dos dois lados. Da mesma forma, a historiografia corrente, seguindo os passos do jornalismo, fala de “reunificação alemã”, em 1990, quando o prefixo “re” claramente não se aplica, dado que os territórios e os Estados que foram unificados com o desaparecimento da parte oriental da nação não eram os mesmos do período anterior.

Die Deutsche Frage, a questão alemã:
um longo e complexo problema


A questão alemã, que já desesperava Marx pela ausência de um centro político propulsor de um vigoroso processo de modernização econômica, ao estilo inglês, depois da dissolução do Sacro Império Romano Germânico – este ao cabo de mil anos de uma longa história verdadeiramente virtual –, não precisaria ter Berlim em seu centro, que nada mais era do que a capital de um reino reacionário, economicamente atrasado, de junkers prussianos, se os revolucionários e constituintes de Frankfurt, no seguimento de 1848, tivessem conseguido conquistar a burguesia alemã das unidades mais adiantadas do ocidente germânico para a sua causa progressista e republicana.

O fracasso dos constitucionalistas em constituir uma coalizão progressista em favor de uma revolução burguesa na Alemanha – o que Marx, Heine e outros expoentes da esquerda hegeliana consideravam uma tragédia histórica – também se explica pela coalizão regressista de austríacos e prussianos na repressão aos movimentos revolucionários e progressistas de 1848, e pelo desprezo do soberano da Prússia por uma monarquia constitucional, tal como oferecida pelos burgueses e intelectuais de Frankfurt, [4] o que reforçou o papel político de Berlim na trajetória ulterior da Alemanha.

Die Deutsche frage, a questão alemã, começa a assumir ares de tragédia moderna quando essa unificação é feita sob o patrocínio da Prússia bismarckiana do Segundo Império, processo político que está na origem do nacionalismo militarista e expansionista da Alemanha moderna, cuja vontade de potência ‘nietzscheniana’, por sua vez, está no centro da chamada guerra civil europeia, que se estende praticamente de 1871 a 1945, e que, no caso de Berlim, se prolongou ainda até vinte anos atrás, justamente. Berlim se tornou o centro nevrálgico dessa tragédia moderna, de dimensões épicas, sobretudo a partir da derrocada do Terceiro Reich, tragédia prolongada até a destruição efetiva de sua capital nos momentos finais da guerra civil europeia, em um formato classicamente napoleônico (ou seja, ainda uma guerra de posições).

Já ao final da primeira grande guerra – equivocadamente chamada por muitos historiadores de primeira guerra mundial, mas que foi, basicamente, uma guerra civil europeia – o escritor Thomas Mann, desencantado com a escassa possibilidade de converter a Alemanha em um Estado democrático ‘normal’, escrevia, em suas Considerações de um Impolítico, que a democratização de sua pátria talvez exigisse a ‘desgermanização’ (Entdeutschung) do país. [5]

O itinerário trágico, desde o início, da República de Weimar, com a subida aos extremos em todo o espectro político da Alemanha moderna, confirma, talvez, esse julgamento pessimista do grande escritor alemão, refugiado na Suíça durante a segunda guerra, esta sim verdadeiramente mundial, em seu escopo geográfico e em sua dimensão geopolítica. Os anos de chumbo do hitlerismo representam o paroxismo do totalitarismo nazi-fascista que varreu de forma variada quase toda a Europa dos anos 1920 a meados dos anos 1940.

A partir daí começa uma segunda fase da tragédia moderna da Alemanha, a Deutsche frage propriamente dita, de contornos mais ideológico-geopolíticos, mas que também, ou ainda, tem Berlim em seu centro, como a expressão mais visível das divisões do mundo contemporâneo ao longo da Guerra Fria. Berlim foi um dos seus pontos quentes, desde a crise de 1948, novamente em 1961, quando da construção do muro, [6] e, de forma decisiva, em 1989.

A construção do muro se deu na noite de 12 para 13 de agosto de 1961, depois que os fluxos diários de evasão de cidadãos da República Democrática Alemã (DDR, na sigla alemã) aumentaram significativamente com os rumores sobre o fechamento definitivo e iminente das fronteiras. Na cidade quadripartite, 69 dos 81 pontos de passagem foram bloqueados, inclusive 13 estações de metrô e linhas de transporte público, ao longo de 43 quilômetros em Berlim e mais 122 quilômetros nas proximidades: são mantidos apenas oito pontos de passagem. No curso de sua história, mais de 11 mil soldados, 500 funcionários da Stasi (os serviços de informação, que eram também a polícia política da DDR) e 992 cães faziam a vigilância diária do muro.

Talvez, todas as convulsões, a própria redução do território e a divisão do país, vividas pelos alemães a partir de 1918 e, de novo, entre 1945 e 1989, não teriam ocorrido se, em 1848, os revolucionários de Frankfurt tivessem logrado vitória em seu projeto republicano e democrático para uma Alemanha bem mais modelada pelos ideais da Revolução francesa, como queriam Heine e Marx, do que pelos projetos militaristas e reacionários dos junkers prussianos. Mas, tal tipo de especulação já pertence à história virtual, no sentido mais corriqueiro do termo.

De fato, a história política da Europa contemporânea poderia ter sido outra, talvez isenta de uma ‘segunda guerra de Trinta Anos’, como Arno Mayer [7] classificou o terrível período que se estende de 1914 a 1945, se Berlim não tivesse se erigido em centro de um império expansionista e agressivo, dirigido pelos militaristas prussianos de Berlim.

Pois também é um fato que Hitler talvez não tivesse conseguido empolgar toda uma população desesperada por anos de crise econômica prolongada, de hiperinflação dramática, de enfrentamentos violentos entre milícias armadas direitistas e esquerdistas, não fosse pelo apoio que ele recebeu dos mesmos militaristas comprometidos com a ideia de um Reich poderoso no coração da Europa.

Foram os militares herdeiros da tradição prussiana, personificados pelo Marechal Hindenburg, que entregaram o poder político a Hitler, que dele fez a alavanca para seu Estado opressor e totalitário, que, por sua vez, esteve na origem da tragédia europeia, que tem Berlim em seu centro, no meio século que vai do final da Segunda Guerra Mundial ao final da Guerra Fria.

Em 1945 termina o Sonderweg expansionista do Deutsche Reich, e tem início um outro Sonderweg, o do ‘comunismo internacionalista’ da República Democrática Alemã, a mais fiel das discípulas soviéticas, talvez até mais conforme ao modelo stalinista arquétipo do que a própria pátria original do padrão comunista autocrático, depois da desestalinização kruscheviana. A violação dos direitos humanos assumiria, na DDR, um caráter particularmente atroz (em termos de espionagem sobre as ações mais íntimas dos indivíduos), equiparando praticamente o das real existierenden Sozialismus aos piores tempos da Alemanha nazista, como se pode ver, por exemplo, num filme como A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, de Florian Henckel von Donnersmarck, 2006 [8]).

Mas a história também teria sido outra se Berlim ocidental não tivesse resistido ao cerco decretado por Stalin, em 1948, e se as potências ocupantes desse setor ocidental tivessem se submetido à dominação brutal dos novos totalitários coletivistas, que retomam a hegemonia sobre a velha Prússia, embora diminuída geograficamente, no seguimento do projeto totalitário nazista do Reich de mil anos, derrotado definitivamente em 1945. A luta para construir uma Europa do pós-guerra democrática e livre está no centro da Guerra Fria, e já foi suficientemente tratada em inúmeras obras de interesse geral e especial para merecer aqui mais do que uma referência pontual. [9]

O importante seria sublinhar o quanto a história poderia ter sido diferente daquela efetivamente registrada, seja pelo imponderável do próprio processo histórico, seja pelas decisões tomadas por estadistas e generais a cada momento decisivo da trajetória europeia no último meio século, se algum outro curso alternativo tivesse sido implementado no período posterior à pacificação forçada da Alemanha, a partir de 1945. No caso específico de Berlim, o destino ulterior da Europa central e oriental talvez tivesse sido outro se, em 1948, Stalin tivesse conseguido apartar a cidade da Europa ocidental, como era a sua real intenção.

O bloqueio soviético das três zonas ocidentais de Berlim começa em 24 de junho de 1948, depois que os aliados ocidentais aceitam a reforma monetária em seus territórios respectivos (e em Berlim ocidental), medida que Stalin considerou uma violação dos acordos de Potsdam (1945) sobre a Alemanha. O primeiro avião americano de aprovisionamento pousa em Berlim em 26 de junho e o bloqueio completo se estende até 12 de maio de 1949 (depois de 324 dias e mais de 278 mil vôos desde o território federal). O bloqueio está na origem da assinatura do tratado de Washington, instituindo a OTAN, um mês antes do final do bloqueio. Poucas semanas depois é criada a República Federal Alemã. Os soviéticos replicarão pela criação da DDR, em 7 de outubro de 1949. [10]

A existência de uma cidade moderna, rebelde, resistente – e cheia de espiões, dos dois lados –, no coração da zona soviética de ocupação, representou a mais poderosa vitrine capitalista e um magneto de atração que o Ocidente poderia apresentar em face do regime de penúria típico das economias socialistas, contribuindo, assim, para ir desmantelando aos poucos as mentiras apregoadas pelo poder soviético em toda a MittelEuropa. [11]

(Este artigo continua na próxima edição de ViaPolítica)

1/11/2009


[1] Uma obra síntese sobre a questão alemã é a de Dirk Verheyen, The German Question: A Cultural, Historical, and Geopolitical Exploration (2nd. Ed.; Boulder: Westview Press, 1999). Para uma visão essencialmente histórica da questão alemã, tomada no contexto mundial, ver David P. Calleo, The German Problem reconsidered: Germany and the world order, 1870 to the present (New York: Cambridge University Press, 1980). Como indica este último autor, “Por um período considerável, a história do mundo, dos anos 1860 até o pós-Segunda Guerra Mundial, tem sido dominada pelo Problema Alemão”; p. 1.

[2] Ver, por exemplo, o capítulo inaugural de Niall Ferguson, “Introduction, Virtual History: Towards a ‘chaotic’ theory of the past”, ao volume de ensaios coordenado por ele, Virtual History: Alternatives and Counterfactuals (New York: Basic Books, 1997); cf. p. 1-90.

[3] Ver Paulo Roberto de Almeida, “O Brasil e as relações internacionais no pós-Guerra Fria”. In: Nilzo Ivo Ladwig e Rogério Santos da Costa (orgs,), Vinte anos após a queda do muro de Berlim: um debate interdisciplinar (Palhoça-SC, Editora da Unisul, 2009). A expressão Cold War, para designar uma situação que Raymond Aron chamava de “paz belicosa”, parece ter sido criada em 1947 pelo conselheiro dos presidentes Wilson e Roosevelt, Bernard Baruch.

[4] Ver a interessante síntese da história alemã oferecida por Dietrich Schwanitz, em Bildung. Alles, was man wissem muss (Frankfurt Am Main: Eichborn, 1999), consultado em sua versão em espanhol: La Cultura: Todo lo que hay que saber (Madrid: Santillana, 2006); cf. p. 243-244.

[5] Ver Thomas Mann, Betrachtungen eines Unpolitischen (Frankfurt: Fischer, 1918), citado na edição em italiano, Considerazioni di un Impolitico (Bari: De Donato, 1967), cf. p. 53.

[6] Cf. Edgar Wolfrum, “Sept questions sur un mur”, L’Histoire, especial Le Mur de Berlin, 1961-1989 (Paris: n. 346, outubro 2009), p. 54-63; Jacques-Pierre Amette, “Le Mur du temps”, Le Point Grand Angle, especial Mur de Berlin: histoire, secrets, héros (Paris: n. 2, out.-nov. 2009), p.5.

[7] Cf. Arno J. Mayer, The Persistence of Old Regime: Europe to the Great War (London: Croom Helm, 1981); existe tradução brasileira dessa obra.

[8] Para uma critica basicamente historiográfica desse filme, ver Marianne Dautrey, “La mémoire de La RDA se resume-t-elle à un mauvais film?” in Télérama Horizons, Le Mur de Berlin, 20 ans après (n. 1, septembre 2009, p. 54-57).

[9] Especificamente em relação à Guerra Fria, os trabalhos do historiador americano John Lewis Gaddis constituem referências indispensáveis; ver, por exemplo, entre outros livros, The Cold War: A New History (New York: Penguin Press, 2005). O mesmo historiador faz parte do comitê de coordenação do mais importante programa de pesquisas em torno dessa temática, o Cold War International History Project, do Woodrow Wilson International Center for Scholars (disponível: http://www.wilsoncenter.org/index.cfm?fuseaction=topics.home&topic_id=1409); um subprojeto desse programa, construído especialmente para comemorar o 48o. aniversário da construção do muro de Berlim, em 13 de agosto de 1961, e o 20o. aniversário de sua queda, em 9 de novembro de 1989), “The Rise and Fall of the Berlin Wall”, está disponível neste link: http://www.wilsoncenter.org/index.cfm?topic_id=1409&fuseaction=topics.categoryview&categoryid=BE949EBA-AC3C-D7AF-5B98808A1EBD6B9E. Ver também o volume já impressionante de materiais dos arquivos ocidentais e dos ex-países socialistas, anteriormente confidenciais, liberados no quadro de diversos projetos de pesquisa do National Security Archive, da George Washington University (http://www.gwu.edu/~nsarchiv/). Para os aspectos mais gerais e verbetes especializados sobre cada um dos problemas desse importante período, ver Claude Quétel (ed.), Dictionnaire de La Guerre Froide (Paris: Larousse, 2008).

[10] Cf. cronologia do período 1945-1961, “Des ruines en partage”, in Le Point Grand Angle, op. cit., p. 9,

[11] Berlim funcionou, em grande medida, como uma bomba de sucção, atraindo a população que vivia na parte soviética da cidade e na DDR; durante toda a existência das duas Alemanhas, antes e depois do muro, mais de 3,5 milhões de pessoas fugiram para o Ocidente a partir de Berlim; o total de refugiados de toda a DDR, entre 1949 e 1961, ou seja, até a construção do muro, foi estimado em 13 milhões de pessoas, o que colocava em perigo a própria sobrevivência do Estado comunista, daí a decisão de interromper o fluxo, ainda que de maneira brutal; cf. “La RDA a-t-elle vraiment existe?”, entretien avec Étienne François, in L’Histoire, especial Le Mur de Berlin, 1961-1989, op. cit., p. 64-71.


Fonte: ViaPolítica/O autor

http://diplomatizzando.blogspot.com/

Paulo Roberto de Almeida é Doutor em Ciências Sociais e diplomata de carreira.


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