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Muro de Berlim,
vinte anos depois (2)
Guerra Fria: Berlim de volta
ao centro da história contemporânea
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Por Paulo Roberto Almeida  

www.pralmeida.org

pralmeida@mac.com



(Segundo artigo de uma série, dedicada à derrubada do muro de Berlim. Leia aqui o primeiro)



Encerradas, em 1949, as possibilidades de se ter um processo unificado, ou pelo menos autônomo, de reconstrução europeia no pós-guerra, o continente passou a ser organizado de modo perfeitamente dicotômico nos anos da Guerra Fria. O processo é perfeitamente conhecido para que sua trajetória seja descrita em detalhes, aqui. É preciso que se registre, porém, que o Plano Marshall, generoso programa americano de apoio a essa reconstrução foi oferecido, indistintamente, a todos os países europeus atingidos pela guerra; foi Stalin, temeroso de que a ajuda americana levasse os Estados colocados sob a “jurisdição” do Exército Vermelho – toda a Europa central e oriental, com as únicas exceções da Áustria e da Iugoslávia – a se alinharem ao Ocidente, quem impediu que governos como os da Polônia, Hungria e Tchecoslováquia se inscrevessem no Programa de Recuperação Europeia a título de recebedores da ajuda americana.



Com o fracasso das conferências de paz do imediato pós-guerra, [1]o mundo se dividiu pelos quarenta anos seguintes, segundo as linhas de influência das duas superpotências concorrentes. A OTAN foi criada pelo tratado de Washington, em abril de 1949, seguida, em maio, da fundação da República Federal, correspondendo aos três setores ocidentais, mais os três setores de Berlim ocupados pelas tropas americanas, inglesas e francesas, com a parte soviética sendo organizada sob a forma de uma “República Democrática”, com Berlim oriental como sua capital (ilegalmente).



Os 40 anos seguintes correspondem, portanto, à era clássica, se o termo se aplica, da Guerra Fria, e Berlim esteve em seu centro. Os soviéticos sempre desejaram asfixiar esse abscesso capitalista no coração do socialismo: Nikita Kruschev, secretário-geral do comitê central do PCUS, desejoso de anexar Berlim totalmente, declarou em 1958: “Cada vez que eu quero ver o Ocidente gritar, eu aperto em Berlim”. [2] Essa guerra foi marcada pela guerra surda e pelos golpes baixos entre os serviços de inteligência dos dois lados, tão bem simbolizados nos romances do escritor inglês David Cornwell, aliás John Le Carré, ele mesmo um diplomata doublé de espião a serviço do MI6 britânico (ver, em especial, seu The Spy who Came in from the Cold, de 1963).



Os verdadeiros heróis de 1989



A derrubada do muro de Berlim, em novembro de 1989, não foi apenas o resultado da decadência econômica e da implosão política da União Soviética: ela talvez tenha constituído uma das causas de seu desaparecimento enquanto império unificado, se aderirmos a uma concepção voluntarista, não determinista, da história. Com efeito, o que ocorreu em Berlim, em novembro de 1989, foi uma verdadeira revolução, que poderia ter sido interrompida, e mesmo esmagada pelos tanques soviéticos, assim como tinha ocorrido na mesma Berlim, em junho de 1953, repetida depois na Hungria de 1956, na Tchecoslováquia da Primavera de Praga, em 1968, e parcialmente na Polônia dos anos 1970 e início dos 80.



Em lugar de se ter um novo 1848 pelo lado repressivo, o que se assistiu foi praticamente a uma nova ‘primavera dos povos’, pelo menos naqueles países que conseguiram realizar uma saída pacífica do comunismo. Não mais tivemos um equivalente leninista da Santa Aliança – embora o regime soviético correspondesse a uma ‘monarquia absoluta’ – e, no lugar de Metternich, surgiu um Gorbachev, bem mais complacente em relação às necessidades de mudanças políticas no socialismo.



Os verdadeiros heróis de 1989, de toda forma, não foram os homens de Estado, e sim os berlinenses comuns, que tomaram as marretas de seus colegas operários para romper os grilhões do socialismo real. Vários historiadores, e mesmo muitos protagonistas, consideram, entretanto, que não se tratou essencialmente de uma derrubada imposta pela pressão das ruas, mas também o resultado de um decisão pela abertura do muro tomada – ainda que involuntariamente – pelas autoridades políticas da DDR e da URSS, em especial Gorbachev. [3] Junto com o povo das ruas, Gorbachev foi, provavelmente, o único herói verdadeiro, dentre os dirigentes políticos, dessa saga da Alemanha contemporânea: ele mereceu inteiramente o prêmio Nobel da paz com que foi em seguida contemplado.



O urso domado



O cenário dos eventos de 1989, em todo caso, foi bem mais ameno do que aquele vivido pela geração precedente, quando os tanques russos, em nome da doutrina Brejnev, não hesitavam em abafar no sangue qualquer contestação à ordem socialista. A fundação, em meados dos anos 1970, dos comitês de defesa dos trabalhadores (Kor), depois unidos no sindicato Solidariedade (Solidarnosc), na Polônia, foi o sinal precursor de que o processo revolucionário já tinha encontrado um curso determinado, aliás guiado pela própria categoria social que a doutrina marxista-leninista pretendia ser a base política dos partidos do socialismo real no poder: os trabalhadores.



Os estudantes e os profissionais liberais se juntaram ao processo e empurraram a revolução à sua conclusão lógica: a derrubada dos regimes opressores do socialismo real. Em poucos momentos da história, como nos episódios de 1989 em Berlim, simples populares estiveram na origem de rupturas tão importantes no equilíbrio geopolítico global como as que ocorreram nas chamadas democracias populares do leste europeu a partir das tentativas de romper a cortina que já não era mais de ferro. [4]



Certamente que a postura de Gorbachev poderia ter sido diferente: se ele tivesse cedido à linha dura da ala senil do PCUS e ordenado que Wojsiech Jaruzelski, na Polônia, e Edward Honecker, na DDR, resistissem aos sindicatos livres e ao clamor dos estudantes nas ruas, talvez a história tivesse ocorrido de maneira diferente, e o velho mundo teria sido preservado, pelo menos por alguns anos mais. Afinal de contas, nem o próprio Fukuyama, que havia acabado de publicar, em junho de 1989, seu ensaio filosófico sobre o fim da história, havia antecipado o fim do socialismo e a implosão da URSS. [5]



Contrariamente, porém, ao que dele se esperava, Gorbachev enfrentou a linha dura do partido e, quando consultado pelos líderes confusos dos partidos-irmãos sobre o que eles deveriam fazer em seus respectivos países – quase uma súplica em favor de uma intervenção soviética – ele fez o que a história esperava dele: nada! Assim, quando indagado sobre o curso a seguir, Gorbachev recomendou a Jaruzelski e a Honecker: “Não façam nada!”.



A famosa frase do presidente americano Ronald Reagan, proferida frente a uma massa acolhedora de berlinenses na porta de Brandenburgo, no verão de 1989 – Mister Gorbachev, tear down this wall, “derrube este muro” –, limitou-se a ser apenas isso, uma frase de estilo cinematográfico, sem efeitos, talvez, sobre o movimento concreto que já tinha iniciado seu curso caudaloso em direção à da derrubada das barreiras do socialismo real.



Da mesma forma, uma outra frase famosa – a de John Kennedy, no imediato seguimento da construção do muro, em 1961, quando ele proclamou, sob risco de ser confundido com alguma variedade de salsicha, que ele também era berlinense: Ich bin ein Berliner – tampouco exerceu efeitos significativos sobre o movimento real do socialismo, nessa fase ainda em construção, e aparentemente bastante atrativo para muitos acadêmicos do mundo capitalista. Um intelectual como Sartre ainda ousava apoiar a União Soviética e a China comunista, convencido de que o marxismo representava o horizonte insuperável de (sua) época.



Em contrapartida, um assessor de Gorbachev, que confessava ter aderido, enquanto vivia nos EUA, à doutrina Frank Sinatra – My Way – afirmou, numa frase bem mais significativa para a época, que os soviéticos (ou russos) iriam fazer uma coisa terrível para os americanos: “Nós vamos privá-los de um inimigo” (o que, no médio prazo, revelou-se apenas parcialmente verdadeiro). Em todo caso, quem derrubou o muro foram os berlinenses da rua, dos dois lados, quando, os ‘inimigos’ ainda não tinham desaparecido de todo.



De sua parte, os líderes políticos ocidentais ainda não sabiam direito o que fazer e, temerosos de que algum lance mais ousado deslanchasse alguma reação intempestiva dos generais soviéticos ainda presentes do outro lado do muro, tentavam encontrar fórmulas de acomodação para as mudanças em curso que não significassem mudanças geopolíticas muito radicais, posto que ninguém tinha certeza sobre a natureza do delicado equilíbrio de forças militares presentes nos dois lados da chamada ‘cortina de ferro’ (a essa altura totalmente perfurada pela fuga incontida de Ossis – os habitantes da DDR – pelas fronteiras da Hungria e da Tchecoslováquia). Em 11 de setembro de 1989, as autoridades húngaras removeram completamente as cercas e barreiras de suas fronteiras ocidentais: o muro de Berlim começou a cair nesse mesmo instante.



(Este artigo continua na próxima edição de ViaPolítica)



8/11/2009





[1] Ver, sobre o imediato pós-guerra, Daniel Yergin, The Shattered Peace: The Origins of the Cold War and the National Security State (Boston: Houghton Mifflin, 1978; edição revista: New York, Penguin Books, 1990).



[2] O termo empregado por Kruschev para designar Berlim foi um pouco mais grosseiro, referindo-se ele ao saco escrotal dos homens; cf. Laurent Theis, “L’Ordre nouveau”, in Le Point Grand Angle, especial Mur de Berlin, op. cit., p.5.



[3] Ver, a esse propósito, a entrevista do principal conselheiro diplomático do presidente François Mitterrand, “Chronique d’un effondrement annoncé, entretien avec Hubert Védrine”, por Catherine Portevin, Télérama Horizons, Le Mur de Berlin, 20 ans après (Paris: n. 1, septembre 2009, p. 20-27). Para o ex-secretário-geral do Quai d’Orsay, o muro estava fragmentado desde muito tempo antes; o evento mais significativo desse período, para ele, foi a queda do império soviético, em dezembro de 1991. Em outra matéria, o mesmo diplomata confirma que o grande arquiteto do fim do muro foi, efetivamente, Mikhail Gorbachev; cf. “Dès 1985, tout était joué”, in L’Histoire, op. cit., p. 84.



[4] Uma seleção de documentos relevantes relativos aos episódios mais importantes da derrubada do muro de Berlim encontra-se disponível em Svetlana Savranskaya e Thomas Blanton (eds.), A Different October Revolution: Dismantling the Iron Curtain in Eastern Europe (Washington: National Security Archive Electronic Briefing Book No. 290, postado: 9.10.2009; disponível: http://www.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB290/index.htm). Esses documentos demonstram, em todo caso, que o muro de Berlim começou a ser derrubado bem antes, em 3 de março de 1989, quando o primeiro-ministro da Hungria, Miklos Nemeth, comunicou a Gorbachev a decisão do comitê central do partido comunista húngaro no sentido de “remover completamente as barreiras eletrônicas e tecnológicas das fronteiras ocidental e meridional da Hungria” (ou seja, com a Áustria e Iugoslávia).



[5] Ver Francis Fukuyama, “The End of History?”, The National Interest (Summer 1989, p. 3-18), bem como seu livro sobre a questão: The End of History and the Last Man (New York: Free Press, 1992).





Fonte: ViaPolítica/O autor



http://diplomatizzando.blogspot.com/



Parte 1: http://www.viapolitica.com.br/diplomatizando_view.php?id_diplomatizando=112



Paulo Roberto de Almeida é Doutor em Ciências Sociais e diplomata de carreira.




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