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(Terceiro artigo de uma série, dedicada à derrubada do muro de Berlim. Leia aqui o primeiro e o segundo)
Os episódios do verão e do outono de 1989 aparecem retrospectivamente como inevitáveis, mas o fato é que não havia nada de inevitável nas iniciativas e ações empreendidas pela população da DDR, se ela não tivesse decidido tomar o destino em suas próprias mãos. Na verdade, Helmut Kohl, considerado o grande arquiteto da reunificação alemã, não tinha muita esperança, até esse outono de 1989, de que ela pudesse ser obtida no curto prazo. A DDR tinha, estacionados em seu território, centenas de milhares de soldados soviéticos, assim como a própria República Federal tinha dezenas de milhares de soldados americanos em suas bases militares.
[1] Em suas tratativas com Gorbachev, ao longo de 1989, Kohl não imaginava – e nisso o líder soviético estava de acordo – que a unificação pudesse ocorrer antes do ano 2000: “não antes do século 21”, segundo o próprio Gorbachev.
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Os líderes ocidentais contra a unificação da Alemanha
A maior parte dos líderes ocidentais, diga-se de passagem, tampouco desejava a reunificação alemã: eles tinham medo de seus efeitos desestabilizadores para o frágil equilíbrio geopolítico na Europa central e preferiam conservar a divisão
ad infinitum. Assim se expressaram alguns dos expoentes máximos do processo, à exceção do próprio Reagan: tanto Margaret Thatcher, a mais fervorosa agitadora anticomunista da Europa ocidental, quanto o maquiavélico presidente francês, o socialista François Mitterrand, queriam preservar a fratura geopolítica alemã. “Margaret se declarava claramente contrária. Não o dizia em público, mas não fazia segredo nos encontros oficiais. (...) Mitterrand era ferozmente contrário; mais falso do que os outros, dizia: ‘Amo tanto a Alemanha, que prefiro ter duas’. Todos os líderes europeus tinham medo. Mas não faziam nenhuma proposta sobre como enfrentar a situação. Mas estava claro que teriam desejado impedir a queda do muro e a reunificação, mas queriam que a decisão nesse sentido fosse materialmente tomada por nós, com o exército, as tropas de Gorbachev. Vieram todos ter comigo, um depois do outro, para pedir abertamente isso.”
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As palavras de Gorbachev confirmam, em todo caso, o terrível temor que os franceses sempre tiveram da Alemanha, o mesmo medo que sentiram em 1950, logo depois da constituição da República Federal, quanto a uma possível quarta invasão germânica em seu território. O primeiro tratado de defesa na Europa ocidental, aliás, foi concluído ainda antes da criação formal da OTAN, mais contra a própria Alemanha do que contra o perigo soviético, ainda não materializado de fato na completa dominação política e militar da Europa central e oriental. Da mesma forma, o famoso Memorando Monet, de junho de 1950, que lançaria as bases da integração europeia, foi concebido bem mais no sentido de diluir a soberania alemã sobre o carvão e o aço – as bases do expansionismo militarista das décadas anteriores – no primeiro esquema do tratado de Paris, criando um esquema comunitário setorial, do que derivou de um impulso romântico de caráter político em favor da integração enquanto tal. A história da construção europeia edulcorou posteriormente esse episódio. Mas o fato é que a CECA foi bem mais um acordo de neutralização militar da Alemanha do que um projeto político de integração econômica.
A abertura de alguns arquivos soviéticos e de materiais do Foreign Office britânico confirma a reticência dos líderes ocidentais no que se refere à unificação alemã depois da derrubada do muro de Berlim. O historiador britânico, especialista em Europa central e oriental, Timothy Garton Ash, transcreveu, em recente artigo de jornal, o que a primeira-ministra Margaret Thatcher disse, na ocasião, ao líder soviético Mikhail Gorbachev: “A Grã-Bretanha e a Europa ocidental não estão interessadas na unificação da Alemanha. As palavras escritas no comunicado da OTAN podem soar diferentes, mas descarte-as. Nós não queremos a unificação da Alemanha”. Ela também pretendeu enganá-lo quanto à posição do presidente George Bush: “Eu posso dizer que essa é também a posição do presidente americano”.
[4] Para o presidente francês François Mitterrand, por sua vez, a reunificação alemã “não seria questão de anos, mas de décadas”; o que ocorreu logo depois lhe pegou de surpresa, tanto é que ele ainda concluiu, com o líder da DDR, Erik Honecker, poucas semanas antes da queda do muro, acordos válidos por cinco anos.
Se dependesse, portanto, dos líderes da Europa ocidental, de um lado, e do eventual predomínio da linha dura soviética sobre a
glasnost e a
perestrojka de Gorbachev, de outro lado, a derrubada do muro, em novembro de 1989, e a unificação das duas Alemanhas, no seu seguimento, poderiam não ter ocorrido, ou pelo menos poderiam ter sido remetidas a outra conjuntura política. Que líderes autocráticos estejam dispostos a afogar no sangue veleidades libertárias e contrárias ao monopólio do Partido Comunista não cabem dúvidas: isso ficou provado, no mesmo ano, pela repressão chinesa ao movimento dos estudantes de Tian An-mein – a Praça da Paz Celestial – bem como pela violenta repressão ocorrida quando da derrubada da ditadura de Ceausescu, na Romênia. No caso dos franceses, ingleses e italianos, eles provavelmente temiam bem mais uma grande Alemanha restabelecida em dimensões mais amplas, eventualmente atravessada por novos e fortes sentimentos nacionalistas, do que uma União Soviética visivelmente decadente e desejosa apenas de incrementar os intercâmbios financeiros e tecnológicos – legais e ilegais – com o Ocidente capitalista. Todos eles tinham consciência de que, se isso ocorresse, o ponto de equilíbrio geopolítico europeu se deslocaria mais ao centro e a leste do continente europeu, do que permaneceria placidamente ancorado em sua parte ocidental.
Os líderes da DDR, com Honecker à cabeça, também poderiam ter resistido às pressões dos Ossis pela abertura do muro, se não tivessem sido dissuadidos de alguma ação mais impensada por Gorbachev em pessoa. Este parece, de fato, o elemento decisivo do processo que levou à derrubada do muro: a substituição da doutrina Brejnev pela nova ‘doutrina Gorbachev’, que excluía a possibilidade de uma invasão, mas que não foi formalmente expressa senão em palavras vagas dirigidas aos ocidentais. Na prática, cada país socialista mantinha sua própria relação com a União Soviética e a dinâmica da liberação foi dada pela relação de forças internas ao país.
[5]
Ou seja, a história, na verdade, tinha várias outras possibilidades nas múltiplas gavetas de um imenso armário que se move apenas lentamente entre uma época e outra. O próprio Gorbachev, ao ser questionado pelos líderes do SED – o Partido Comunista da DDR – sobre o que fazer em face do fluxo contínuo de cidadãos de seu país, que estavam se refugiando em embaixadas ocidentais na Hungria e na Tchecoslováquia ou fugindo por fronteiras doravante abertas, recomendou que eles se ajustassem às novas realidades. Ele pronunciou, então, sua frase mais famosa dessa conjuntura: “Quem chega tarde, é punido pela História”.
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Um dos assessores mais próximos de Gorbachev, Anatoly Chernyaev, tinha plena consciência de que um inteiro período histórico tinha chegado a seu termo. Escrevendo no dia seguinte à derrubada do muro em seu diário pessoal – recentemente traduzido e liberado pelo National Security Archive, de Washington –, Chernyaev registrou o que segue:
O muro de Berlim caiu. Uma era inteira do ‘sistema socialista’ chegou ao final. Honecker caiu, depois do PSUP [Partido Socialista Unificado da Polônia] e do PSTH [Partido Socialista dos Trabalhadores da Hungria]; hoje tivemos a notícia de que Jivkov [líder búlgaro] está ‘partindo’. Só nos restam nossos ‘melhores amigos’: Castro, Ceausescu e Kim Il-Sung, que nos detestam. O mais importante, entretanto, é a RDA e o muro de Berlim. Trata-se não mais do socialismo, mas de uma mudança na balança mundial de poderes, o fim de Ialta, o fim do legado de Stalin e da derrota da Alemanha nazista na Grande Guerra. Isto é o que Gorbachev fez! Ele é verdadeiramente um grande homem, porque compreendeu os passos da História e ajudou-a a seguir o seu caminho natural. Um encontro com Bush [pai] se aproxima. Vamos assistir a uma conversa histórica? Existem duas ideias principais nas instruções que M.S. [Mikhail Sergeievitch, ou seja, Gorbachev] me deu para preparar os materiais: o papel das duas superpotências na condução do mundo a uma situação civilizada e o equilíbrio de interesses. Mas Bush pode desprezar nossos argumentos... Nós não temos realmente nada para mostrar, à exceção de nosso passado e o temor de que poderíamos retornar ao totalitarismo.
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De fato, os líderes soviéticos poderiam ter recorrido à maneira forte, ao estilo chinês, e interrompido o processo histórico de maneira violenta, confirmando o totalitarismo tradicional da história russa: que Gorbachev não o tenha feito, é totalmente em sua honra, o que deve ser positivamente avaliado. Uma tentativa de golpe à base de tanques, contra ele mesmo alguns meses mais tarde, demonstrou que o perigo não estava de todo afastado: os chineses, em todo caso, foram bem menos relutantes em restabelecer a ‘ordem socialista’ (ou seja, a ditadura do Partido Comunista).
Não se pode deixar de registrar, por exemplo, que Gorbachev visitou a China em plena crise da revolta estudantil da Praça da Paz Celestial, em maio de 1989, e deve ter discutido com Deng Xiao-ping “alternativas” ao movimento de reforma e abertura que ele estava conduzindo em sua pátria. O líder chinês não possuía os mesmos escrúpulos que o russo no tratamento a ser dado aos dissidentes e
refuzniks: em 4 de junho de 1989 ele ordena o envio de tanques contra os estudantes; até hoje não se tem o balanço exato do número de vítimas.
(continua na próxima edição)
Notas do autor:
[ ] Até 1989, estavam estacionados, aproximadamente, 500 mil soldados soviéticos na DDR, 300 mil na Polônia, e 100 mil na República Tchecoslováquia e na Hungria, respectivamente.
[2] Ver a entrevista concedida a Fiammetta Cucurnia, “Gorbaciov: ‘L’Europa sperava nei miei carri armati’”,
La Repubblica (30.09.2009, p. 52-53); cf. p. 53: “À exclusão dos Estados Unidos, posso dizer que todos eram contra [a unificação alemã]”.
[3] Cf. entrevista de Gorbachev, op. cit., idem.
[4] Ver Timothy Garton Ash, “Britain fluffed the German question”, The Guardian (22.10.2009).
[5] Ver a entrevista do historiador e dissidente polonês, emigrado na França, Krzysztof Pomian, “Le bloc de l’Est n’a jamais existé” por Nicolas Chevassus-Au-Louis, in
Télérama Horizons, Le Mur de Berlin, 20 ans après (Paris: n. 1, septembre 2009), p. 60-63.
[6] Cf. entrevista de Mikhail Gorbachev a
La Repubblica, op. cit., loc. cit.
[7] Ver o seguinte documento eletrônico: Anatoly Chernyaev,
The Diary of 1989 (Washington: National Security Archive Electronic Briefing Book No. 275, postado: 26.05.2009; disponível:
http://www.gwu.edu/...), cf. entrada relativa a 10 de novembro de 1989, p. 54-55.
22/11/2009
Fonte: ViaPolítica/O autor
http://diplomatizzando.blogspot.com/
Paulo Roberto de Almeida é Doutor em Ciências Sociais e diplomata de carreira.