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Um levantamento efetuado com base nas matérias sobre a diplomacia do governo Lula, publicadas em revistas especializadas e na imprensa diária, revela algo inédito nos anais da política externa: pela primeira vez, ela deixou de beneficiar-se do tradicional consenso a que essa diplomacia estava habituada. Com efeito, mesmo em momentos nos quais a política externa apresentou aspectos de ruptura – como a “política externa independente” de Jânio-Jango (1961-1964) ou o “pragmatismo responsável” da dupla Geisel-Azeredo (1974-1979) –, ela recolhia, ainda assim, a aprovação da opinião pública, que julgava que as inflexões eram necessárias e mesmo bem-vindas.
Não parece ser o caso agora, quando diversos setores – empresários, jornalistas de opinião ou mesmo diplomatas aposentados – manifestam-se contra a atual diplomacia, acusando-a de ser partidária, ideológica e anacrônica. Em contraste, no seio da esquerda e entre vastos segmentos da universidade, ela goza de virtual consenso, o que não ocorre, por exemplo, com a política econômica, acusada, nesses mesmos meios, de “neoliberal”. Iniciada sob promessas de mudanças na forma e no estilo, assim como em sua substância, a política externa de Lula – que guarda conexões evidentes com as posições de política internacional do PT – vem sendo calorosamente defendida por simpatizantes na academia e na imprensa, tanto quanto vem sendo atacada, com o mesmo ardor, por outros analistas.
No primeiro grupo figuram acadêmicos e jornalistas que sempre foram solidários com o PT, quando não integram seus quadros. Existem também aqueles que, sem dar apoio direto, encaram positivamente a política externa, naquilo que ela representaria de defesa dos interesses nacionais, em face, por exemplo, de pressões dos EUA para favorecer a criação da Alça, ou no sentido da adoção de uma posição mais dura em relação a regimes considerados “desviantes” na América Latina.
O segundo grupo abriga os que se mantêm em postura independente ou que têm assumido uma atitude crítica em relação a essa política, ademais dos que poderiam ser classificados como “oposicionistas declarados”. Alguns analistas do meio acadêmico se opõem à política externa, não por qualquer predisposição oposicionista, mas por julgá-la em seu próprio mérito e concluir que ela rompe tradições diplomáticas. Os mais críticos julgam que a política externa atual não logra alcançar, ao contrário do que é proclamado, os objetivos pretendidos, sacrificando posições de princípio e os interesses nacionais.
Os “apoiadores benevolentes” consideram a política externa de Lula adequada e necessária ao Brasil, que deveria ser capaz de afirmar-se de forma soberana nos contextos regional e mundial, possuir um projeto nacional de desenvolvimento e buscar reduzir o arbítrio e o unilateralismo ainda presentes no cenário internacional. Trata-se de um grupo expressivo, tendo em vista a conhecida dominação da academia pelo pensamento de esquerda, pelo menos na área das humanidades.
Os opositores declarados, por sua vez, consideram essa política uma emanação tardia do terceiro-mundismo dos anos 1960-80, exacerbada pela adesão equivocada a regimes autoritários e marcada por um antiimperialismo infantil. Eles criticam a retórica “terceiro-mundista”, contrariamente a uma atitude pró-ativa em favor da globalização que seria seguida, aliás, pela China e pela Índia, os dois “parceiros estratégicos”. As iniciativas “mudancistas” representariam ilusões de mudança nas “relações de força” ou da “geografia comercial” do mundo e os fracassos nas negociações comerciais adviriam do próprio estilo de atuação, chamado por alguns de “ativismo inconseqüente”.
O governo investiu na nova postura, representada pela multiplicação de iniciativas nas mais diversas frentes de atuação, daí a caracterização de “ativa e altiva” dada pelo chanceler à nova diplomacia. A postura foi bem acolhida nas bases do governo e recolheu apoio dos aliados, ao passo que os críticos preconizam o abandono dos “velhos mitos”. À medida que reveses foram sendo registrados em algumas frentes de atuação, como nas relações com os vizinhos, a condescendência com as “novas roupas” da diplomacia foi dando lugar a críticas cada vez mais acerbas quanto a seus resultados efetivos.
Os elementos inovadores da política externa do governo Lula não deveriam, talvez, ser buscados no seu discurso e na atuação diplomática, mas sim no próprio fato de que, pela primeira vez na história da diplomacia brasileira, a palavra e a prática nesse campo já não recolhem o consenso da sociedade.
* Paulo Roberto de Almeida é doutor em Ciências Sociais, diplomata de carreira e autor do livro “O Estudo das Relações Internacionais do Brasil” (
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