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Como sabem todos aqueles que me lêem regularmente – e eles certamente são poucos –, todo final de ano eu me dedico, religiosamente, à inglória tarefa de interrogar os astros para saber o que eles estariam reservando ao país e ao povo brasileiro no ano prestes a se iniciar. Trata-se de uma tarefa totalmente fadada ao insucesso, deliberadamente, pois que minhas previsões têm isso de peculiar porque elas são feitas, justamente, com vistas ao seu fracasso completo, sendo minha vitória, neste gênero particular de astrologia política, tanto mais retumbante quanto mais longe essas previsões se situarem de uma hipotética (e quanto mais longínqua melhor) realização.
Mas que utilidade haveria, pode-se perguntar o ilustre – e solitário – leitor, em formular hipóteses totalmente impossíveis de serem realizadas na prática? Bem, minha escusa é a de que essas previsões se situam, mesmo remotamente, no terreno do plausível e do possível, sendo que sua materialidade efetiva apenas não se concretiza, no Brasil, em função daquela mesma visão conspiratória que faz com que certos agentes particulares sejam os autores de sua própria história: ou seja, é a pura falta de vontade política dos responsáveis pelo supremo comando da Nação que determina o insucesso total desse meu original gênero de astrologia. Trata-se da mesma visão do mundo que transforma os arrogantes imperialistas americanos nos únicos responsáveis por todos os males da globalização capitalista e pelas desigualdades inerentes a esse nefando sistema social que nos domina e oprime de maneira exclusiva, desde a infausta derrocada do modo alternativo de produção e de (baixo) consumo.
Como eu sou um incurável otimista, continuo formulando a cada ano minhas previsões, independentemente de sua não-realização – ou, talvez, por isso mesmo – certo de que, mais uma vez, serei brindado, ao final do ano que se inicia, com um rol completo de tarefas inacabadas, de derrotas previsíveis e de missões impossíveis. Tanto melhor, pois estarei renovando assim minha confiança no poder preditivo dos astros, já que este tipo de astrologia só ganha título de nobreza e ares de credibilidade quando suas apostas são deliberadamente inverossímeis e de difícil, senão impossível, concretização. Apenas para provar como tal prática de acertar no erro e no insucesso das previsões é uma arte de difícil manipulação, apresento a seguir um sumário de minhas duas últimas previsões, todas completamente estapafúrdias nas condições que são as nossas – isto é, da política e da economia no Brasil – e isto a despeito mesmo de seu caráter plausível, como eu sempre me esforço por sublinhar.
Em dezembro de 2004, para não ir muito longe, eu redigia as minhas “Sete previsões imprevidentes: minha ‘caixa de surpresas’ para o novo ano”, que se constituíam, como seria de se esperar, em antecipações impossíveis de ocorrer no novo ano (ver o ensaio na revista eletrônica
Espaço Acadêmico, 4, 44, jan. 2005; link:
http://www.espacoacademico.com.br/044/44pra.htm). Em resumo, minhas apostas provocadoras e visivelmente exageradas eram as seguintes:
1. O governo decreta sua conversão ao capitalismo;
2. O Estado decide retirar-se parcialmente de cena;
3. Radical inversão das políticas sociais;
4. Concentração de recursos na educação fundamental;
5. Acaba a era Vargas: abolida a Justiça do Trabalho;
6. Decretado o fim da reforma agrária; e
7. Maior abertura e inserção econômica internacional.
Como eu tive a sorte de nenhuma delas ser confirmada na prática, reincidi no “crime” um ano depois, quando elaborei novas propostas desafiadoras, sob a forma de uma reflexão pessoal dirigida ao nosso responsável máximo, mas que muitos leitores, desatentos, interpretaram como sendo minhas próprias resoluções para o ano de 2006. As “resoluções de Ano Novo” – publicadas exatamente um ano depois, no mesmo veículo (
Espaço Acadêmico, 5, 56, jan. 2006; link:
http://www.espacoacademico.com.br/056/56almeida.htm) – consistiam em uma nova série de tarefas impossíveis, sobretudo em vista do fabuloso cenário de malversações em curso na política nacional:
1. Manter a contabilidade lá de casa em ordem e equilibrada;
2. Gastar só o que estiver nas minhas possibilidades, sem entrar no cheque especial;
3. Escolher bem os amigos, para não se sentir “traído”, depois;
4. Selecionar melhor os auxiliares da minha quitanda, para o bem de todos;
5. Falar sempre a verdade, doa a quem doer, por maior constrangimento que houver;
6. Terminar de ler, sem falta, aquele livro do Celso Furtado.
Mais uma vez fui coroado de pleno sucesso na derrota, ou seja, nada do que eu predisse teve a mais remota chance de ser realizado, o que me incita a renovar um conjunto de promessas, certo de que seu cumprimento, no ano que se inicia, está fadado ao mesmo inglório destino. Alguns leitores poderão retrucar que eu abuso da arte da adivinhação, pois que apostando numa inviabilidade totalmente previsível, mormente quando se trata de previsões aplicadas à realidade brasileira, sendo meu exercício, portanto, um jogo de cartas marcadas, ou uma espécie de tarô viciado. Alto lá, leitor incréu: poucas pessoas têm consciência de quão difícil é fazer previsões completamente impossíveis de serem confirmadas na prática, em especial num país como o Brasil que cultiva no mais alto grau todos os gêneros de astrologias e predições. Trata-se de um setor de atividade que deve mobilizar algo em torno de 1 a 2% do PIB dos serviços – o que é, reconheçamos, considerável –, dando empregos a profissionais do ramo que não ficam nada a dever aos melhores ilusionistas e trapaceiros da história. Todos os dias, nos mais sizudos jornais conservadores, seções de astrologia realizam previsões completas para todas as idades e gêneros, sendo que todo final de ano, justamente, assiste-se a uma pletora de previsões impactantes, cada uma mais espetacular do que a outra.
Eu mesmo fui “punido” por tomar como leviandade uma dessas previsões feitas no final de 2005, envolvendo nada menos do que os altos destinos do país. Vide, por exemplo, o meu texto “Astrologia diplomática?”, redigido em 31 de dezembro de 2005, e comentando em estilo jocoso previsões astrológicas que cobriam a área da política externa (postado no blog pessoal; link:
http://paulomre.blogspot.com/2005/12/102-astrologia-diplomtica.html#links). O astrólogo em questão, cujo nome não vem ao caso – era o presidente de algum sindicato da categoria –, teve a petulância de prever fortes tensões do Brasil com os países vizinhos (a expressão usada foi “conflitos intensos”), inclusive com o risco de “rompimento de relações diplomáticas”. Olhando para não sei qual mapa astral, ele predisse que os momentos de maior tensão seriam em junho e julho, segundo ele “dois meses de muitos perigos ao nível das relações exteriores do Brasil”. Para quem achava que Evo Morales era “muy amigo” do Brasil e de seu presidente, essa previsão não deixava de ter sabor de chá de coca apimentada. Vejam, pois, caros leitores, como as mais absurdas das previsões ainda assim correm o risco de se realizarem, uma razão a mais para eu ser especialmente cauteloso na minha nova safra de promessas impossíveis.
Feita essa digressão metodológica e histórica sobre a arte da astrologia política, vejamos o que poderia ser afirmado com respeito ao ano de 2007, que confronta o senso comum e apresenta risco zero de realização (talvez por isso mesmo). Alerto, em primeiro lugar, que, à diferença dos exercícios do gênero, que mantêm, deliberadamente, uma linguagem suficientemente vaga para acomodar toda e qualquer situação no domínio das possibilidades humanas, as minhas previsões são altamente acuradas, baseando-se nas melhores estatísticas de institutos oficiais – como IBGE e IPEA – e conectam-se diretamente à nossa realidade terrena, deixando os astros em seu lugar. Cabe também notar, em segundo lugar, que as minhas previsões não vêm com selo de garantia, não me podendo, portanto, serem imputados os desacertos – isto é, os acertos – de sua realização efetiva. Qualquer reclamação deve, como seria de se esperar, ser dirigida às autoridades da área, que não fizeram suficientes esforços para desmentir-me em meu incurável otimismo.
Feitas essas digressões de simples resguardo metodológico, vejamos quais seriam as minhas previsões para 2007:
1. O Brasil vai crescer pelo menos 5% a partir deste ano, com queda sensível no desemprego;
2. As contas fiscais caminharão para o equilíbrio, com tendência ao superávit nominal;
3. O Congresso vai conhecer um ano inédito de alta produtividade e baixos gastos correntes;
4. O dólar vai se valorizar e a paridade do real satisfará aos exportadores e agricultores;
5. O déficit da Previdência caminha para o desaparecimento, com um amplo choque de gestão;
6. A infra-estrutura brasileira é totalmente renovada, com base em investimentos privados;
7. A integração regional avança decisivamente, com a adesão de Cuba, Bolívia e Equador;
8. O governo demonstra alto grau de coesão política e substancial eficiência administrativa;
9. O ensino público dá salto de qualidade e as universidades não fazem greve por salários;
10. O MST reconhece que o agronegócio e a biotecnologia são benéficos ao Brasil.
Não necessito discorrer em detalhe sobre cada uma delas, bastando remeter às fontes de dados originais e às observações de eminentes colunistas da imprensa. Como se vê, trata-se de apostas ousadas, pois elas correm o risco de se realizarem, contra as tendências negativas acumuladas em função de conjunção desfavorável dos astros no cenário externo. As ações dos homens, em especial os da estirpe dos nossos políticos, representam fatores imponderáveis, pois que suas iniciativas podem revelar-se decisivas para a consecução de todas, ou pelo menos parte, das previsões arriscadas aqui realizadas. Esses fatores contingentes são, por vezes, mais poderosos do que lenta ação estrutural dos elementos pesados da história, que são dados pelas condições econômicas, pelas tradições políticas, pelos comportamentos sociais.
Como o homem brasileiro não desiste nunca, sendo antes de tudo um forte – pelo menos a sua componente telúrica e nativa –, é possível que cheguemos ao final de 2007 com algumas das apostas total ou parcialmente realizadas, com o que terei de aposentar minha promissora carreira de astrólogo do impossível, dando cabo a estas previsões imprevidentes. A sorte está lançada: a conferir em doze meses, aproximadamente.
Vale!
Brasília, 24 de dezembro de 2006.