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(na continuidade do primeiro artigo desta série)
Formulo, a partir de agora, meus comentários aos nove objetivos gerais formulados pelos antiglobalizadores para servir de plataforma de discussão para o seu encontro em Nairobi (de 21 a 24 de janeiro de 2007).
Meus comentários serão puramente de natureza sociológica ou econômica, uma vez que a maior parte dos objetivos dos integrantes do FSM tem a ver com a organização social, política e econômica no plano mundial e com as formas de serem encaminhados alguns dos problemas com que se debate a humanidade, em especial a pobreza, a desigualdade, os desequilíbrios ambientais, sociais e de gênero, com seu cortejo de injustiças a serem remediadas. Acredito que a maior parte dos integrantes do FSM seja formada por jovens idealistas, efetivamente preocupados com os problemas que eles dizem pretender combater, embora uma parte significativa dos que poderiam ser identificados como dirigentes, os seus “ideólogos” – no sentido marxista da palavra –, ostente uma nítida postura anti-capitalista e anti-mercado que não pode ser negligenciada.
1. Pela construção de um mundo de paz, justiça, ética e respeito pelas espiritualidades diversas;
Irreprocháveis e irretocáveis os três primeiros objetivos, embora o último, o de serem respeitadas as “espiritualidades diversas”, se parece muito com o chamado “relativismo cultural”, um conceito que passou a infestar as universidades ocidentais e as sociedades cristãs no período recente. Ou seja, em nome do respeito ao direito dos povos serem como eles são, pode-se acabar sendo conivente com os piores atentados à dignidade humana que se possa conceber. Refiro-me, concretamente, ao tratamento da mulher e das jovens adolescentes em determinadas sociedades africanas e asiáticas, nas quais não apenas se pratica a ablação do clitóris como se costuma entregá-las compulsoriamente, segundo conveniências familiares, a homens bem mais velhos, em casamentos arranjados (em alguns casos quando elas ainda nem se tornaram adolescentes). Sem mencionar a discriminação educacional e profissional, de modo geral, que elimina as mulheres de uma série de atividades produtivas nessas sociedades, caberia lembrar que o que distingue o progresso humano – ou civilizatório – é justamente o tratamento dado à mulher.
Ora, falar em relativismo cultural representa, em determinadas circunstâncias, preservar as piores formas de opressão e de violação dos direitos humanos, culturais e até religiosos (uma vez que essas mesmas sociedades convivem com formas condenáveis de intolerância religiosa), sem que se possa avançar, por exemplo, a causa da universalidade e da indivisibilidade desses mesmos direitos humanos (individuais ou coletivos). De resto, o respeito às “espiritualidades diversas” é bem mais praticado nas sociedades ocidentais do que nessas sociedades implicadas nas formas mencionadas de discriminação, sem que se levante, contra elas, o mesmo princípio do “relativismo cultural” (uma vez que o que as caracteriza, justamente, é um absolutismo a toda prova na afirmação de suas particularidades espirituais e culturais). Em resumo, a defesa da ética pode não combinar com o respeito de “espiritualidades” que ofendem a dignidade humana.
(a continuar)
[Brasília, 3 de janeiro de 2006; São Paulo, 12 de janeiro de 2007]