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(na continuidade do artigo 2 desta série)
2. Pela libertação do mundo do domínio das multinacionais e do capital financeiro
Incompreensível, impraticável ou simplesmente quimérico, para não dizer totalmente irracional, na sua forma e na substância. Aparentemente, os antiglobalizadores estão com poucos socialistas marxistas – ainda que não científicos – em suas fileiras, pois do contrário não teriam a coragem de afirmar tamanha utopia: qualquer velho socialista, que já teve a oportunidade de ler o seu Marx e o seu Lênin, poderia sorrir condescendente em face desse objetivo.
O modo de produção capitalista, que se disseminou em todo o mundo nos últimos cinco séculos, aproximadamente, está justamente baseado numa forma de organização social da produção que tem nas empresas – eventualmente convertidas em grandes conglomerados – o seu principal vetor de inovação produtiva, de distribuição de produtos e de propagação de hábitos de consumo que derivam diretamente da atividade dessas instituições de mercado. Ainda que as formas individuais de criação de conhecimento e de tecnologia possam representar uma parte significativa do engenho humano aplicado produtivamente, e ainda que as empresas cooperativas – que certamente serão defendidas pelos militantes do FSM – possam constituir um tipo de empreendimento socialmente recomendável, nenhuma pessoa sã de espírito negaria o fato de que, hoje em dia, parte significativa, se não a majoritária, das inovações nos modernos sistemas produtivos se dão num contexto dominado por grandes empresas e conglomerados, ou seja, pelas multinacionais aparentemente vilipendiadas pelos militantes do FSM.
Não considerando a existência de multinacionais socialistas – da China, por exemplo – e o fato de que o FSM também constitui um grande empreendimento multinacional – que, de certa forma, também ostenta o seu “capital financeiro”, do contrário não poderia realizar encontros tão grandiosos (sem levar em conta suportes estatais) –, esses militantes parecem viver num universo paralelo, que não tem nada a ver com o mundo real. Para que esse tipo de objetivo pudesse ser cumprido, a única recomendação a fazer seria esta: os militantes do FSM precisariam cessar, total e imediatamente, de usar celulares, de se comunicar por internet, de se locomover pelos meios habituais de transporte, de ir ao cinema, de ver televisão, enfim, parar de fazer a maior parte das coisas que eles fazem no seu dia-a-dia, uma vez que, inevitavelmente, eles estão “patrocinando” alguma multinacional de um setor qualquer de atividade. Ou seja, eles deveriam se retirar do mundo globalizado – no qual eles parecem se inserir tão bem – e se refugiar como eremitas nas montanhas do Afeganistão, onde a globalização aparentemente ainda não penetrou (os talibans, por exemplo, estão totalmente livres das multinacionais e do “capital financeiro”).
Como esse objetivo deve ter sido inculcado nos jovens idealistas que freqüentam os foros da antiglobalização por velhos militantes de uma causa “proto-socialista” – ou seja, “utópica” e não propriamente “científica” –, deve-se alertar a esses jovens que eles estão embarcando numa causa perdida antecipadamente. O mundo não será “libertado” das vis multinacionais porque, simplesmente, não existe força humana, sequer coletiva, capaz de realizar tal tarefa impossível.
(a continuar)
[Brasília, 3 de janeiro de 2007;
São Paulo, 12 de janeiro de 2007]
Rev.: Bsl, 29 jan 2007