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Um espectro ronda a América Latina (e alguns outros países à deriva): o socialismo do século XXI. Quem diria! Descartado por inútil na última década do século XX, temporariamente aposentado por absoluta “desnecessidade” histórica – salvo em dois ou três remotos cantos do planeta – e relegado a um esquecido e remoto “entreposto” de alternativas ao capitalismo, o socialismo parece estar voltando novamente à cena, agora travestido em sua nova roupagem “do século XXI”. Ele passou a ser vendido em embalagem refeita, redesenhada por seus novos propositores, não mais envolto no burocratismo cinzento da gerontocracia soviética, e vem sendo oferecido como solução genial aos males do capitalismo, sobretudo na América Latina, terra de todos os milenarismos e de todas as possibilidades, mesmo as mais improváveis.
Esse retorno é surpreendente, tanto mais que já não existem, propriamente, filósofos de prestígio, gurus da moda, ideólogos de peso que estejam defendendo o socialismo com base em propostas teóricas dotadas de algum embasamento “científico”, metodologia garantida pelas academias ou testes credíveis de “fiabilidade”. Com exceção de Noam Chomsky, que não possui qualquer credibilidade no
establishment acadêmico dos Estados Unidos – ele só consegue ser levado a sério na periferia –, nenhum outro ideólogo de plantão parece acreditar na possibilidade de um “retorno da Fênix socialista”. Com efeito, depois de seu brilhante fracasso no final dos anos 1980, o socialismo tinha ido parar no museu das antiguidades, fazendo companhia à roca de fiar e ao machado de bronze, como pretendia Engels que acontecesse em relação ao Estado, quando da “implantação definitiva” do socialismo. Surpreendentemente, ele parece ensaiar um retorno triunfal nos
remakes que vêm sendo servidos em tom triunfalista – e a grandes doses de subsídios petrolíferos – por alguns personagens diretamente retirados dos livros de história, ainda que de épocas que se imaginavam enterradas e esquecidas.
Seu retorno em grande estilo se deve, ao que parece, aos fracassos igualmente rotundos do “neoliberalismo” na América Latina, no decorrer das duas décadas seguintes ao desmantelamento do socialismo real na Europa do leste (e um pouco em todas as outras partes do mundo). O fato é que o capitalismo continuava a ser, de fato, um sistema injusto e desigual, mas ele se impunha quase que naturalmente como forma de organização econômica e social, uma vez que não tinha sobrado quase nada de alternativo, e que fosse factível, nas reduzidas prateleiras do supermercado da história. Tivemos de passar a consumir o velho e duro capitalismo, isto em doses maciças e de forma praticamente obrigatória.
Para alguns, a experiência de ter de aceitar compulsoriamente o capitalismo deve ter sido traumática. Os órfãos do velho socialismo – tão mais numerosos quando nunca tiveram de viver a experiência do “socialismo real” – devem estar novamente esperançosos, ao assistir os anúncios triunfalistas que são atualmente feitos em nome do novo socialismo, cujos contornos são ainda em grande parte indefinidos, mas que envolvem as fórmulas habituais de estatização e os cacoetes culturais conhecidos em torno da criação do “homem novo”, como convém aos sistemas deliberadamente messiânicos e salvacionistas. Aos velhos socialistas se juntaram vários grupos de jovens idealistas, comumente referidos como antiglobalizadores ou altermundialistas, que acreditam, em grande medida sinceramente, que o capitalismo representa, de fato, a maior soma de iniqüidades possíveis de todas as formas conhecidas de organização econômica e social, entre elas as comunidades primitivas e o feudalismo medieval.
Contemplo essa “nova marcha para a frente”, no sentido da “redenção da humanidade”, com o olhar cético de quem já assistiu a esse filme antes, inclusive por ter me engajado, em outras eras, na luta contras as iniqüidades do capitalismo latino-americano e sua submissão aos ditames do imperialismo colonizador e de ter tido, na seqüência, a oportunidade de conhecer os diversos socialismos reais disponíveis nas lojas de departamento da história, a maior parte nos países do leste europeu, do início até quase o final dos anos 1970. Estou, portanto, habilitado a pronunciar-me por experiência própria quanto às esperanças de se ter um “novo socialismo”, desta vez sem as habituais bulas marxianas ou leninistas, apenas com roupagens e cenários que me lembram, vagamente, as fórmulas mussolinianas.
Se isto pode servir de consolo aos jovens idealistas da antiglobalização – uma vez que eu considero os “velhos órfãos” do socialismo “irreformáveis” e “intransformáveis” –, eu diria o seguinte: aqueles que hoje condenam o capitalismo por todas as suas iniqüidades, provavelmente nunca conheceram suas alternativas “reais”, que eram as do socialismo de tipo soviético e suas diversas variantes, algumas delas sobrevivendo ainda numa pequena ilha do Caribe e num canto remoto da Ásia. Apenas a falta de informação e uma irracional recusa em se informar, a despeito da massa de conhecimento acumulada a respeito das experiências do socialismo real podem explicar essa demanda, atualmente crescente, por um “socialismo do século XXI”. O milenarismo embutido nessa esperança não é diferente de outros exemplos de crenças salvacionistas, tão bem analisadas por Norman Cohn em seu livro
The Pursuit of Millenium.
Eu, por ter conhecido pessoalmente, se ouso dizer, quase todos os socialismos reais e o seu modo de funcionamento, posso assegurar, com toda a candura de uma alma reconciliada com as supostas iniqüidades do capitalismo, que não há maior miséria moral, maiores atentados à dignidade humana, do que os regimes socialistas que existiram na face da terra até bem pouco. Posso parafrasear o que disse o poeta e revolucionário cubano José Marti, dos Estados Unidos, país no qual ele se exilou temporariamente, para escapar dos opressores coloniais de sua pátria: “eu conheci as entranhas do monstro”. De fato, pude conhecer o interior da “baleia socialista” e o que vi não era nada bonito, muito pelo contrário.
O mais chocante, justamente, não eram apenas as pequenas misérias materiais, o aspecto deteriorado dos equipamentos públicos, a falta habitual de produtos de primeira necessidade, as estantes sempre vazias nos comércios, a rudeza de apresentação e o caráter tosco da maior parte dos bens e serviços oferecidos nos “mercados” socialistas, tudo isso era habitual e esperado e não me surpreendeu mais do que a decepção dos primeiros contatos. O que estava por trás de tudo aquilo era muito mais importante, pois tinha a ver, não com a simples miséria material, mas com os comportamentos sociais, com o olhar furtivo das pessoas, com a contenção da linguagem, com a retenção do pensamento, com o permanente estado de vigilância policial, em uma palavra, com a miséria moral que só os verdadeiros regimes socialistas são capazes de exibir.
Não estou me referindo aqui ao Estado policial em estado quimicamente puro, se ouso dizer, uma amostra do qual pode ser conferido na grande “biografia” do Gulag da historiadora Anne Applebaum. Não tem a ver com a repressão direta, estilo Gestapo ou NKVD, apenas com a vida cotidiana num país socialista “normal” do Leste europeu em meados dos anos 1970. Aquilo deve ter me vacinado de maneira eficaz contra minha anterior inclinação revolucionária a querer implantar o socialismo a golpes de martelo, como pretendíamos na nossa juventude de opositores do regime militar brasileiro.
O que vem sendo hoje oferecido como “socialismo do século XXI”, na verdade, é uma corruptela dos velhos regimes personalistas do passado. Descontando-se as expropriações de terras ou de indústrias – cujo destino ulterior, como propriedade estatal ou “cooperativa popular” ainda resta ser determinado –, o que se tem, até aqui, como “socialismo”, é a reeleição indefinida e contínua (na verdade eterna, como no caso do ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner) do atual presidente, um “poder popular” baseado numa espécie de “parlamentarismo de rua” (que destrói as bases de funcionamento da democracia representativa), uma unificação forçada de partidos da coalizão governista e uma economia voluntarista, que funciona impulsionada por grandes doses de injeção fiscal no consumo popular (o que é temporariamente permitido pela excepcional alta dos preços do principal produto exportado). Com base nos precedentes históricos acumulados, aqui mesmo na América Latina, o que se pode prever é aceleração inflacionária, fuga de capitais, perda de produtividade geral e de competitividade externa da maior parte dos manufaturados e disfunções generalizadas que vão sendo estendidas a setores cada vez mais amplos da economia nacional. Uma eventual reversão das tendências favoráveis no mercado petrolífero e o castelo de cartas pode vir abaixo de forma estrondosa.
Por isso, quando ouço novamente os novos cantos de sereia sobre o “socialismo do século XXI”, permito-me retrucar modestamente: vamos ficar com as modestas iniqüidades materiais do capitalismo – que permitem, ainda assim, o progresso individual baseado no mérito individual e no esforço próprio – e deixar de lado as tentações totalitárias de pretender implantar a igualdade na base do autoritarismo, o que só pode conduzir às grandes iniqüidades morais do socialismo.
Não existem grandes virtudes no socialismo, em qualquer socialismo (deste ou de outros séculos), apenas “heróis” do povo, devidamente fabricados por ditadores pouco esclarecidos que implantam regimes muito parecidos com os sistemas fascistas existentes na Europa do entre-guerras. Por experiência própria, eu constatei que a ditadura dos medíocres – que caracteriza quase sempre os regimes socialistas – é uma coisa terrível, e a miséria moral daí derivada é muito superior à eventual miséria material do capitalismo...
Brasília, 18 março 2007; revisão: 31 março 2007.