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Uma crônica em dois tempos: Parte I
Referir-se ao “petismo universitário” soa, de fato, quase como uma redundância, tantas são as superposições entre o conceito e este seu adjetivo (que poderiam ser intercambiáveis, diga-se de passagem). Trata-se, em todo caso, de um lugar comum na cultura universitária das últimas duas décadas, pelo menos explicitamente (e talvez implicitamente e por um período mais longo, se de verdade for possível considerar essa identidade como típica do
mores universitário, operando um tipo de “retroprojeção histórica” desde algumas décadas).
Ou seja, o petismo universitário ou, inversamente, o universitário petista estão tão casados e identificados um ao outro, no plano conceitual, quanto, por exemplo, identificar a “nova Roma” com a “arrogância imperial” do único hiperpoder unilateral de nossos dias, quanto referir-se ao “capitalismo mafioso” da transição russa do socialismo ao capitalismo, ou ainda apostar na desonestidade congenital de políticos italianos, japoneses e de algumas outras nacionalidades também.
O petismo ordinário, no bom sentido deste adjetivo,
é universitário por excelência, ainda que este seja apenas um dos seus componentes sociais e ideológicos mais comuns, junto com outros, que fazem parte de sua “essência ontológica”, desde o tempo das “cavernas” (no sentido, digamos assim, platônico deste termo). As outras componentes do petismo são formadas por uma assemblagem algo heteróclita de extratos sociais ditos “populares” e representantes difusos de uma velha esquerda que lidava com conceitos-chave – luta de classes, imperialismo, burguesia e outros do mesmo gênero – que já eram anacrônicos em seu próprio contexto histórico de formação (isto é, o marxismo latino-americano do segundo pós-guerra).
Um dos núcleos centrais do petismo histórico foi constituído, obviamente, pelo chamado sindicalismo alternativo, que foi progressivamente convertido ao peleguismo oficial, à medida que ia conquistando posições no
establishment sindical oficial e se amarrando umbilicalmente ao Estado “burguês”, que dizia combater.
Outro dos núcleos relevantes do petismo essencialista é aquela nebulosa diferenciada que poderia ser identificada com os “guerrilheiros reciclados”, ou seja, bravos combatentes da luta armada de resistência ao regime militar, que fizeram (ou não) estágios nas prisões da ditadura ou estadias no exílio, mas que decidiram retomar a militância pelas vias da luta política “legal”. O conceito de “nebulosa diferenciada” se explica pelo fato que eram (e continuam) muito diversas as tendências da esquerda armada (e aquela menos armada) que fez frente ao regime militar e que depois veio se abrigar no partido em construção. São poucos, contudo, os ex-guerrilheiros verdadeiramente “reciclados”, sendo mais numerosos os que nem foram guerrilheiros, nem se reciclaram, mas que ainda assim pretendem construir o “poder popular” como nos velhos tempos. Em todo caso, estes conhecem a literatura pertinente e alguns truques da clandestinidade que continuam servindo em tempos mais amenos.
Também fazem parte do agregado petista movimentos sociais de diferentes gêneros e espécies, sendo um dos mais importantes o daqueles vinculados às pastorais operárias da Igreja católica e às comunidades eclesiais de base, ambas de nítida extração popular e que constituem, por assim dizer, os
rank and files das hostes petistas, abaixo e aquém dos típicos militantes universitários, que estão acima e além destes simples militantes de base, geralmente de chinelo de dedo e boné e camisetas berrantes. Há uma grande osmose destes com outros militantes de base, de tendência mais laica, alguns até ostensivamente ateus, que pensam que estão em Petrogrado em 1917, e que pretendem constituir sovietes de um novo tipo, geralmente integrados por um equivalente funcional do lumpesinato – mas alimentado, transportado e organizado sem qualquer improvisação – e mobilizado numa verdadeira cruzada neobolchevique.
Mas a componente mais importante do petismo, aquela que permitiu a rápida ascensão social, ideológica e política deste fenômeno absolutamente excepcional na história política do Brasil contemporâneo é, sem dúvida alguma, o arquipélago universitário que figura no centro da vida política nacional nas últimas décadas. Esse arquipélago possui várias ilhas, promontórios, enseadas e arrecifes, nenhum deles parecido um com o outro, mas todos ostentando traços em comum, que os distinguem dos demais animais políticos do habitat
brasiliensis.
Em primeiro lugar, existe, está claro, o intelectual gramsciano, que não pertence, de fato, às fileiras do partido, mas que empresta sua “inteligência” – se tal é possível – e colabora com a organização em todas as boas causas para as quais
fellow travellers verdadeiros são suscetíveis de cooperar.
Figura, em seguida, o universitário típico, geralmente um acadêmico das ciências humanas, empenhado em libertar a humanidade das suas muitas mazelas, todas elas causadas pelo imperialismo opressor e pelo capitalismo explorador. Em outros tempos, esse personagem tinha lido o essencial de Marx e Engels e pelo menos uma ou duas obras de Lênin – as mais operacionais, por certo – mas agora ele se contenta com algumas vulgatas que resumem o que é preciso aprender para afiar o discurso contra os inimigos presumíveis.
Existem também universitários sindicalistas puros, empenhados na denúncia da mercantilização do ensino e na conquista de novos territórios liberados dentro dos próprios
campi, com táticas bem elaboradas de corporativismo, democratismo, assembleísmo, grevismo e “ocupacionismo”. Estes reclamam que o governo se rendeu às receitas neoliberais do Banco Mundial e que ele está hoje sufocando a comunidade universitária, da mesma forma como a ditadura militar tinha arrochado no passado a classe operária.
(Fim da primeira parte; a continuar.)
Brasília, 24 setembro 2007.