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Uma crônica em dois tempos: Parte II
Independentemente das distinções internas, das diferenças de classe e de estamento social entre essas várias categorias de petistas universitários, o fato é que os universitários constituíram, durante duas décadas pelo menos, a alma do petismo político, os
hearts and minds da grande engrenagem de mobilização social que permitiu ao partido galgar as escarpas íngremes da política brasileira e de chegar assim ao cume da dominação estatal.
Foram eles que redigiram os discursos, os textos e teses dos debates programáticos, as plataformas eleitorais que rechearam as mensagens políticas que, pouco a pouco, numa espécie de acumulação primitiva partidária, permitiram ao partido em questão romper os grilhões da velha dominação de classe – burguesa,
cela va de soi – e instalar a sua própria dominação de classe, comprometida obviamente com os interesses populares.
Pois bem, o que está acontecendo nos últimos tempos, a julgar pelos pronunciamentos e escritos de certos personagens emblemáticos dessa importante corrente de pensamento político e social, é uma verdadeira ruptura entre o estamento em questão e o seu partido preferido, um divórcio de opinião que, se não corre o risco de tornar-se definitivo, pode pelo menos retirar os elementos mais significativos do charme muito pouco discreto que mantinha esse grupo no topo das preferências eleitorais em amplas camadas da classe média urbana.
Se o meu subtítulo está correto, ou seja, se ele interpreta bem as tendências correntes que se observam nesses meios, o que estamos assistindo é a dissolução da redundância política apontada ao início, aquela que unia de modo quase que natural o petismo a seus promotores e intérpretes acadêmicos. Existem aqueles que ousam falar em “Estado Novo” do partido em questão, lançando sombras e dúvidas sobre a nova dominação de classe, outros que denunciam a traição conduzida contra resoluções aprovadas em congresso, e que previam a ruptura radical com o neoliberalismo e o imperialismo.
Pode ser dito que essa tendência não é nova, pois ela começou ainda antes da campanha eleitoral, tomou corpo no seu desenrolar e encontrou novo alento na equipe de transição para o
nouveau régime. Dessa equipe ainda chegaram a fazer parte representantes distinguidos da classe universitária, todos empenhados em transpor todo o programa de campanha para projetos de tipo operacional, diretrizes administrativas, macroeconômicas e setoriais, que deveriam guiar o novo governo na direção da redenção por muitos esperada. Foi uma decepção quando se constatou que a nova equipe de governo comportava poucos universitários gramscianos, e mais representantes dos outros grupos e estamentos sociais e, sobretudo, personagens ditos do “baixo clero” que não eram especialmente conhecidos por sua perícia no manejo da coisa pública.
O fato é que os aliados de tanto tempo da causa petista foram – e se sentiram – alijados da obra de redenção nacional, que eles logo perceberam que não seria exatamente a redenção sonhada e acalentada, mas uma operação de retomada da velha dominação de classe em novas bases.
Da decepção à ruptura foi um passo, logo efetivado sob a forma de manifestos, cartas e declarações mais ou menos lamuriosas, ou passavelmente enraivecidas, nos quais se tentava compreender as razões da continuidade com tudo aquilo que estava ali: o neoliberalismo, o FMI, os banqueiros e industriais, o agronegócio e, sobretudo, a velha maneira de fazer política, isto é, pela cooptação fisiológica, pelo adesismo sem princípios, pelo toma-lá-dá-cá que sempre marcou o cenário parlamentar e o ambiente partidário.
Nunca foram tão numerosos os manifestos da elite universitária; nunca eles foram tão ignorados por aqueles mesmos que, no passado, solicitavam a redação de estridentes manifestos contra o
ancien régime. Gramscianos ou trotsquistas, velhos ou novos stalinistas – porque ainda os há –, guevaristas ou maoístas, enfim, candidatos a
Pasionaria e a novos
communards gritam contra o fascismo e o golpismo da direita, quando, na verdade, eles rangem os dentes de frustração contra o continuísmo ordinário.
Houve até uma infeliz filósofa uspiana, que se desacreditou totalmente junto aos seus próprios colegas acadêmicos, ao pretender explicar o festival de corrupção a que se assistiu no período recente como uma espécie de complô da grande imprensa e do capital monopolista contra o partido dos bravos e impolutos. Patético!
O fato é que, o que antes parecia indissolúvel se dissolve no ar: a associação natural entre uma corrente e uma categoria social não resiste ao teste da realidade e começa a se esgarçar até o ponto da ruptura. Não há, contudo, direções unívocas nesse divórcio entre a suposta inteligência e o suposto pragmatismo; não há, sobretudo, heróis e vilões nesse jogo de esconde-esconde entre o que se acreditava válido, em quaisquer circunstâncias, e o que se teve de fazer, uns fingindo que ainda defendem as velhas idéias, outros aparentando implementá-las, apenas que pelas “únicas vias possíveis”.
Os que não romperam em face das novas realidades, estão provavelmente agindo em defesa de um emprego, mais do que de uma idéia, segundo a conversão já anunciada da “nova classe” – ou
nomenklatura – em “ornitorrinco” do novo regime social e político. Nada mais os move, senão a imobilidade a mais completa, a defesa do
status quo.
Aqueles que, por outro lado, decidiram romper com as velhas e as novas causas, exibem disposições diversas, segundo se situam num ou noutro lado do espectro ideológico. Existem os que poderiam ser chamados de
true believers, os últimos crentes da velha liturgia, que pretendem conservar a pureza da religião revelada e estão prontos a denunciar todos os demais como os traidores do dogma sagrado, que é o “socialismo do século XIX”.
Existem também aqueles que pretendem construir o “socialismo do século XXI”, sem se dar conta que enveredam pelo mesmo caminho que conduziu ao
stato totale de tão sinistra memória para os que combateram o velho fascismo e se empenham agora na edificação de um novo, rutilante de velharias fracassadas na promoção do Estado totalitário.
Há também aqueles, aparentemente mais sensatos e razoáveis, que retomam velhos projetos de construção de um “capitalismo nacional”, sem se dar conta que o poder de fato já está empenhado em construir o novo capitalismo internacional brasileiro, seguindo escrupulosamente tendências da globalização, que os primeiros fingem desprezar e condenar, mas das quais se servem todos os dias em serviços e produtos indispensáveis.
Trata-se da expressão contraditória de conhecidas reações de amor e ódio que acompanham a difícil adaptação pessoal a um processo complexo de interações econômicas e sociais que não mais correspondem ao mundo em preto e branco das dicotomias existentes anteriormente. Nem tudo o que provém do mercado é desigual e concentrador, nem tudo o que provém do Estado é igualitário e libertador.
Existem novas realidades que universitários inteligentes devem estar prontos a reconhecer e a saudar como positivas e promotoras de uma nova ordem econômica e social. Existem, claro, velhas realidades cuja verdadeira natureza acabará refletida em seu discurso defasado: uma ordem reacionária e avessa a mudanças. O mais importante é que o universitário dotado de livre arbítrio se reconheça pelo que ele deve ser, verdadeiramente: um ser livre de qualquer adjetivo, apenas pensante, como corresponde a um bom ambiente acadêmico.
Inch’allah!
Brasília, 24 setembro 2007.
PS.: Os muito incomodados com os argumentos defendidos neste ensaio deveriam responder, não contra um autor que apenas exerce conscienciosamente as armas da crítica, mas dirigindo um olhar tão ou mais critico a um grão-vizir do grupo em questão, que viaja de jatinhos executivos em busca de um outro tipo de acumulação primitiva, aquela que beneficia o grande capital. O que diriam os estatutos sobre isso?