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No dia 26 de janeiro de 2008, os coordenadores e militantes do Fórum Social Mundial pretendem organizar, em diversas cidades do Brasil e do mundo, mais uma jornada de protestos contra vários dos seus inimigos (e eles são muitos): contra o World Economic Forum, seu irmão mais velho, mas quase gêmeo de Davos, contra o capitalismo desigual, iníquo e opressor, contra os mercados globais (que são, por definição, excludentes, como todo mundo sabe), contra a miséria, a pobreza e a desigualdade, contra a devastação do meio ambiente (toda ela conduzida por empresas e indivíduos ávidos de lucro), enfim, contra uma série de males e perversões desta nossa época (e, diga-se de passagem, de várias outras épocas também).
Tenho assistido a essas manifestações de protesto desde sua primeira aparição, ainda antes da estruturação formal do movimento dos antiglobalizadores em um Fórum Mundial, a partir de meados da década passada, quando eles começaram lutando contra o MAI-OCDE, depois contra os 50 anos do GATT e a nova OMC, depois contra toda e qualquer reunião de organismos econômicos internacionais, e mais recentemente ainda, contra toda e qualquer reunião política que congregue os “poderosos do mundo” – como o G-7/G-8, por exemplo, ainda que esses poderosos estejam se reunindo para lutar a favor dos direitos humanos e pela defesa do meio ambiente. Não importa: os antiglobalizadores são fundamentalmente do contra; eles protestam um pouco contra tudo e contra todos, com um ardor juvenil que lembra, por vezes, os bons (e turbulentos) momentos de maio de 1968. Parabéns pelo entusiasmo, ainda que toda essa transpiração tenha de ter, atrás de si, alguma inspiração, pelo menos é o que se supõe, de um movimento que passou a se chamar, gloriosamente, de Fórum Social Mundial a partir de seu primeiro encontro em Porto Alegre, em 2001.
Confesso, na verdade, que estou cansado de assistir, assistir e assistir a todas essas grandiosas manifestações e, ao final de cada uma delas, ter de chegar a uma conclusão patética, que representa, também, uma pergunta: eles estão protestando contra o quê, mesmo? Claro, eu já relacionei, no primeiro parágrafo, os inimigos habituais dos antiglobalizadores, embora eles disponham de uma lista ainda mais completa do que a minha: além daqueles relacionados acima, eles são contra a opressão da mulher, das minorias, contra as multinacionais, os mercadores de armas, os simples mercadores, enfim, contra tudo o que represente economia mercantil e lucro, sobretudo o lucro (no que eles acolhem a companhia desta Santa Madre, a Igreja Católica). Mas, eu me pergunto – e, comigo, certamente pelo menos meia dúzia dos meus leitores – eles são a favor do quê, exatamente? Sim, eles proclamam, desde o “very beginning” do seu movimento, que “um outro mundo é possível” (e suas diversas variantes: uma outra economia, um outro Brasil, ou outro Piauí etc.). Mas, continuo aguardando, desde 2001 pelo menos, que eles nos digam de que seria feito esse outro mundo possível (e supostamente factível).
Tenho escrito muito a este respeito, no começo com maior constância do que nos últimos tempos, pois de fato não tenho encontrado muitos motivos para
write about, pois para isso seria preciso ter
du pain sur la planche, como diriam os franceses, isto é, coisas substantivas para que eu possa me pronunciar a respeito. Verifico, em minha lista de trabalhos, que meu último escrito sobre o FSM, e suas “idéias”, tem quase um ano de redigido e publicado, consistindo, para ser mais preciso, neste ensaio: “Ocaso de uma utopia?: objetivos nobres e vacuidade de idéias no Fórum Social Mundial”, Brasília, 29 janeiro 2007, 12 p. Revista
Espaço Acadêmico (ano 6, nº 69, fevereiro 2007; link:
http://www.espacoacademico.com.br/069/69pra.htm). Nele, eu me pronunciava sobre um conjunto de teses – sendo generoso com esta expressão – que os coordenadores do FSM tinham acabado de aprovar e que, segundo eles, deveriam inspirar e mobilizar os antiglobalizadores nas suas jornadas de protestos
around the world (em 2007 foi no Quênia, lembram-se?; recordo-me de alguns depoimentos que reclamavam dos altos preços de tudo, de militantes de meios modestos terem sido enganados por quenianos pouco escrupulosos, enfim, o lote comum de todo e qualquer turista aprendiz). Não pretendo agora retomar meus argumentos, e muito menos as “teses” dos meus inspiradores, pois tudo isso são águas passadas, e o que importa, como eles mesmos diriam, é o próprio movimento, é a marcha constante e cada vez mais global de protestos contra a globalização.
O que eu gostaria de chamar a atenção, neste ano bissexto de 2008 – no qual, portanto, o capitalismo global disporá de um dia a mais para realizar lucros, integrar mercados, oprimir povos longínquos, enfim, continuar sua obra nefasta em escala propriamente global –, seria para um fato singelo: como é que a imprensa dita responsável, os grandes jornais nacionais, as redes de TV e de rádio, os grandes grupos de comunicação, enfim, que estão no próprio coração daquilo que os antiglobalizadores mais detestam, como é que esses meios conseguem dar tanta atenção e atribuir tanto espaço em seus veículos a literalmente nada de substantivo, a quase zero de propostas com algum significado prático, a praticamente nenhuma idéia relevante em termos de sugestões e propostas para o tal de “outro mundo possível”? Como isso é possível? Como é que se consegue ter, retomando meu subtítulo, tanta transpiração para tão pouca (
if any) inspiração? Os jornalistas ainda não conseguiram refletir como se dá esse milagre? Ou seriam os jornalistas quase tão néscios quanto o seu objeto privilegiado de atenção durante quase uma semana nesses diversos cantos do globo?
Ao ler um dos últimos boletins do FSM, que faz o relato das providências para o “dia de ação global” – eles não conseguem evitar a raiz da palavra tão detestada, embora os franceses preferissem “mondial” e “mondialisation” –, constato que eles estão ativamente empenhados em agendar reuniões de grupos de trabalho, confeccionar bandeiras e cartazes para suas manifestações de protesto, enfim, preparar-se para “milhares de atividades organizadas por movimentos, grupos, redes e entidades em seus locais de atuação, seguindo agendas próprias, mas relacionadas com a construção de ‘um outro mundo possível’” (boletim de 13.11.2007; link:
www.wsf2008.net).
Retomo explicitamente suas palavras, para ficar mais claro: “A proposta do FSM 2008 é realizar uma semana de mobilização internacional repleta de debates, eventos culturais, intervenções artísticas, marchas, protestos, ações diretas, encontros e outras formas de manifestção que irão culminar no Dia de Ação Global em 26 de janeiro”. Muito bem: jovens bem alimentados e dispondo de algum dinheiro no bolso conseguem, de fato, fazer tudo isso e ainda retornar para casa contentes, satisfeitos com o dever cumprido, com mais alguns contatos na agenda eletrônica, novos amores, novas amizades e muitas histórias para contar (um pouco de gás lacrimogênio costuma fazer parte dos relatos). Mas, eu me pergunto: o quê, exatamente, eles estarão fazendo, que torna mais factível, realizável, concreto esse outro mundo possível que eles dizem estar construindo?
Eu me pergunto a cada ano, e confesso que ainda não obtive respostas satisfatórias. Mas, o que me surpreende é que jornalistas inteligentes – o pressuposto é obrigatório – não se façam a mesma pergunta e, além de cobrir essas ruidosas marchas de protestos, eles se questionem, e com isso interroguem os seus organizadores: o quê sai de tudo isto?;
so what?; et alors?; a que viene todo esto?; alora, che?; warum? Fico realmente estupefato pela falta de curiosidade dos jornalistas e também, por que não dizê-lo?, dos próprios participantes acadêmicos desses encontros: a que serve tudo isso?, se não é para contribuir com idéias inteligentes para a resolução dos problemas fundamentais da humanidade, como proclamam cada vez e sempre os antiglobalizadores?
Afinal de contas, eles estão supostamente se reunindo para traçar “algumas estratégias para que a jornada de mobilização internacional potencialize as ações locais, integrando-as na rede de resistência e construção de alternativas ao Fórum Econômico de Davos”. Este é o seu objetivo proclamado, e é em nome dele que jornalistas supostamente inteligentes deveriam se interrogar e, a partir daí, interrogar os animadores do FSM, para que estes respondam pelo que prometeram: construir alternativas ao irmão maligno de Davos. Onde estão as alternativas? Onde foram parar os elementos formadores, os tijolos construtores do “outro mundo possível”?
Enquanto o pessoal do FSM não entregar o que promete desde muitos anos, não deixarei de exercer minha pluma crítica na cobrança do que me é devido: explicações, argumentos, idéias, propostas (de preferência racionais e logicamente sustentadas), enfim, um mínimo de consideração para com a inteligência alheia. Do contrário, vou acabar acreditando que se trata de uma grande brincadeira, uma espécie de
jamboree adolescente, uma saudável reunião de adolescentes que ainda estão tentando entender como funciona o mundo, para depois apresentar algumas idéias a respeito.
Senhores jornalistas, façam o seu trabalho: questionem, interroguem, duvidem, critiquem, enfim, respondam às perguntas fundamentais de sua profissão, aquelas mesmas que vocês aprenderam, supostamente, nos cursos de jornalismo alguns anos atrás.
Do contrário, vou começar a duvidar da inteligência de uns e de outros...
Atlântida (RS), 17/01/2008