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Introdução: a caminho da briclândia
Economistas costumam ser pessoas estudiosas, essencialmente focadas na estrita racionalidade dos dados da vida material, aparentemente preocupadas apenas com os fundamentos empíricos da economia prática, ou, se pesquisadores, com suas elegantes equações de equilíbrio de mercados, suas linhas de regressão e suas belas curvas de tendência. Eles pareceriam insensíveis aos problemas sociais ou às implicações humanas de eventuais prescrições de políticas econômicas. Segundo certo senso comum, eles seriam, sobretudo, indiferentes às relações de causa a efeito de determinadas propostas feitas a partir de uma análise fria das realidades correntes e suas conseqüências práticas no plano político ou diplomático, ignorando, por outro lado, elementos de psicologia social, tão importantes em estudos de outras vertentes das ciências sociais aplicadas e das humanidades em geral.
Seria esta nova condenação da
dismal science aplicável, de alguma forma, ao exercício intelectual de economistas corporativos, que aventaram a idéia de um grupo – quiçá convertido em uma nova entidade internacional – identificado com quatro economias emergentes, os Bric, apresentados repentinamente como as novas estrelas da economia mundial? Constituiria essa suposta identidade grupal, construída a partir de dados econômicos elementares, a base institucional para uma atuação política e diplomática coordenada no plano mundial? Seria essa eventual atuação melhor e mais benéfica do que aquela conduzida atualmente pelos países, individualmente, no seio das organizações internacionais existentes, ou coletivamente, por meio dos grupos mais conhecidos de coordenação de políticas econômicas, como o G7 ou a OCDE?
O presente ensaio pretende examinar dez questões relativas a esta nova conformação da geografia econômica mundial e oferecer, em conclusão, uma nota de caução quanto às implicações político-estratégicas desse exercício intelectual que vem encontrando suporte nas ações de diplomacia prática de vários dos Bric. Ele foi escrito com a convicção de que – muito além dos sonhos eventuais dos líderes dos Bric quanto ao poder relativo de seus respectivos países e de suas possíveis intenções de mudar a geografia econômica do mundo e de redesenhar a geopolítica mundial, pela alteração nas relações de poder atualmente existentes – o comprometimento básico de estadistas responsáveis tem de estar com a prosperidade e o bem-estar de seus povos, com a preservação do meio ambiente e com a paz e a segurança internacionais, num quadro de plena vigência (nacional) de instituições democráticas e de total respeito aos direitos humanos.
1. O que são os Bric, ou, mais exatamente, o que é o “grupo” Bric?
O conceito foi cunhado originalmente pelo economista Jim O’Neill, da Goldman Sachs, e figurava num estudo pioneiro intitulado “Building Better Global Economic Brics” (
Global Economics Paper nr. 66; November 30, 2001). A proposta de um novo “grupo econômico”, integrado pelas quatro maiores economias emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China (que provavelmente deveriam figurar na ordem inversa de importância econômica: Cirb), foi, em seguida, sugerida num estudo de 2003 da mesma Goldman Sachs, sobre a evolução da economia mundial até 2050, assinado pelos economistas Dominic Wilson e Roopa Purushothaman: “Dreaming with Brics: the path to 2050” (
Global Economics Paper nr. 99; October 1st, 2003). Esses
papers foram consolidados em dois livros editados pela própria Goldman Sachs,
Growth and Development: The Path to 2050, publicado em janeiro de 2004, e
The World and the BRICs Dream, publicado em fevereiro de 2006. Esses estudos foram complementados, em 2007, por nova compilação englobando outras onze economias emergentes e países de grande população (N11), chamado “Brics and Beyond”, que amplia a perspectiva do primeiro trabalho, com novas projeções para 2050 (ver:
http://www2.goldmansachs.com/ideas/...; paper:
http://www2.goldmansachs.com/ideas/...).
A rigor, o “grupo” Bric não existia oficialmente, ou sequer informalmente, mas dado o
succès d’estime logrado pelo conceito e o excelente acolhimento obtido pela idéia mesma de um novo conjunto de futuras economias preeminentes, o que se teve, a partir de então, foi a adoção paradigmática dessa noção, praticamente virtual, como correspondendo a uma nova realidade na economia mundial, digna, portanto, de ser contemplada em estudos e formulações sobre as novas relações econômicas reais. O que é importante sublinhar, desde já, é que a origem do nome buscava apresentar a idéia de novos fundamentos –
bricks, ou tijolos – da futura economia mundial em meados do século XXI, sem que, no entanto, esses fundamentos fossem examinados em sua interação recíproca, que de fato não existia, sequer virtualmente.
Em outros termos, um
exploratory paper, que poderia ser considerado mera especulação de um economista inventivo, veio a impulsionar uma realidade política que ainda precisa confirmar suas potencialidades, o que prova, mais uma vez, o poder das idéias no mundo real.
(a continuar na próxima edição)
Brasília, 26 de agosto de 2008.