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Bric: anatomia
de um conceito - II
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Por Paulo Roberto de Almeida  

www.pralmeida.org
pralmeida@mac.com

2. Quem são os Bric, ou, mais exatamente, o que é cada um deles?

A “sopa de letras” proposta nos trabalhos dos economistas do Goldman Sachs não pode nos fazer esquecer uma simples realidade: estamos falando de quatro países absolutamente distintos entre si, de quatro economias contrastantes e de quatro nações que possuem histórias e percursos civilizatórios fundamentalmente diferentes, nos planos social, militar, econômico e geopolítico, quando não nas esferas cultural e religiosa. No plano demográfico, estamos falando dos dois países mais populosos do planeta e de dois outros de populações “médias”, ainda assim consideráveis, do ponto de vista de seus mercados internos, como se pode constatar na tabela 1. A China representa, sozinha, mais de um quinto da população mundial, seguida de perto pela Índia (17,5%) e, bem mais longe, pelo Brasil (2,9%) e Rússia (2,2%).


1. População (milhões)

Bric

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

Brasil

171.2

173.8

176.3

178.9

181.5

184.1

186.7

189.3

China

1,267.4

1,276.2

1,284.5

1,292.2

1,299.8

1,307.5

1,314.4

1,321.0

Índia

1,007.0

1,025.5

1,041.7

1,058.0

1,074.7

1,091.7

1,108.0

1,123.9

Rússia

146.9

146.3

145.2

145.0

144.2

143.5

142.8

142.1

Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, Abril 2008



Mesmo dispondo de grandes territórios – dos 17 milhões de km2 da Rússia, aos 3,2 da Índia, passando pelos 9,3 da China –, os quatro Bric diferem entre si, no que se refere a recursos naturais, graus de industrialização e capacidade de impacto na economia mundial. A tabela 2 apresenta, em valores correntes e em paridade de poder de compra, a evolução absoluta do produto bruto dos Bric, desde 2000.

2. (a) PIB, preços correntes (US$ bilhões)

Bric

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

Brasil

644.2

554.4

505.7

552.2

663.5

881.7

1,072.3

1,313.5

China

1,198.4

1,324.8

1,453.8

1,640.9

1,931.6

2,243.6

2,644.6

3,250.8

Índia

461.9

473.0

494.9

573.1

669.4

783.1

877.2

1,098.9

Rússia

259.7

306.5

345.4

431.4

591.8

764.2

988.6

1,289.5

(b) PIB, estimado em Paridade de Poder de Compra (PPP) (US$ bilhões)

Brasil

1,230.9

1,276.9

1,333.8

1,377.8

1,494.6

1,584.6

1,695.9

1,835.6

China

3,006.5

3,334.1

3,701.0

4,157.8

4,697.9

5,333.2

6,112.2

6,991.0

Índia

1,519.5

1,616.4

1,719.5

1,876.5

2,096.1

2,354.4

2,665.4

2,988.8

Rússia

1,120.5

1,205.9

1,284.6

1,407.7

1,548.7

1,697.8

1,881.1

2,087.8

Fonte: International Monetary Fund, World Economic Outlook Database, Abril 2008



É importante registrar tais características, pois que a força de um conceito ingenuamente unificador pode fazer com que similitudes indevidas – ilegítimas, talvez, no plano conceitual – sejam traçadas quanto ao papel dos quatro países na economia mundial; daí redundando possíveis conclusões equivocadas quanto ao que esperar de sua presença – certamente marcante e crescentemente determinante – nos cenários futuros que se possam traçar para o mundo em meados do presente século.

Comecemos pela letra final: China. Trata-se, seguramente – junto com o povo judeu, que passou, entretanto, por processos de fragmentação territorial e social como nenhum outro povo conhecido no mundo, e que, no entanto, conseguiu sobreviver culturalmente de modo relativamente homogêneo –, da mais antiga civilização contínua registrada na história da humanidade, não necessariamente dotada de perfeita unidade política, mas sim de uma notável continuidade cultural. Sua história, moderna e contemporânea é, no entanto, dramática, senão trágica, no sentido da decadência econômica, da instabilidade política, da humilhação militar e de retrocessos sociais expressos em degradação profunda do tecido social, quando as loucuras do maoísmo levaram o país a uma verdadeira hecatombe humana, com uma “lacuna” demográfica que pode ser estimada em algumas dezenas de milhões de pessoas sacrificadas. Em claro: a população e a economia diminuíram, em conseqüência dos anos de socialismo totalitário. Marcas profundas desse passado recente são ainda visíveis na sociedade chinesa, que emerge de um longo intervalo – provavelmente mais de três séculos – de declínio e de deterioração da qualidade de vida no imenso país asiático.

A Índia é, provavelmente, a segunda civilização “contínua” mais antiga do mundo, valendo as aspas pela imensa diversidade de culturas e etnias existentes no subcontinente indiano. Não há, propriamente, e nunca houve unidade cultural na Índia e sua história “política” só parece fazer sentido com base na “unidade” temporária introduzida por invasões estrangeiras, em especial o Império mongol, seguido pela dominação de uma companhia de comércio inglesa, depois convertida em supremacia britânica sobre povos muito distintos entre si, lingüística e religiosamente falando. A Índia moderna é uma “invenção” do Império britânico, tendo sido, aliás, amputada parcialmente (com o Paquistão e depois o Bangladesh, que dele emergiu) logo em seguida à proclamação de sua independência política (sublinhe-se o “política”, posto que economicamente ela já conformava uma jurisdição monetária própria e passou a ter seu próprio território aduaneiro, reconhecido precocemente pelo GATT-1947).

A Rússia é também antiga; não tanto quanto esses dois primeiros países, mas dotada de tradições culturais que a identificam como unidade cultural e lingüística desde a alta Idade Média; deslocamentos de povos bárbaros deram origem a uma nação eslava em processo de homogeneização cultural e social, a caminho de uma formação nacional, que só veio a existir, de fato, quando Pedro, o Grande, submeteu as autoridades feudais e consolidou seu poder sobre um território em grande parte indefinido, sob a forma de um Estado incipiente, baseado no conceito de absolutismo imperial. Esse Estado se estendeu imperialmente ao longo dos séculos XVIII a XX, até atingir o máximo de sua extensão e poderio já sob o domínio dos “czares” soviéticos. O “império soviético” representou, de certo modo, um paradoxo na trajetória da “grande” Rússia, posto que lhe deu a segurança nacional a que sempre aspirou aquele Estado semi-europeu e semi-asiático, ao mesmo tempo em que criou um sistema econômico profundamente irracional no plano de seu funcionamento, o que determinou, inclusive, sua crise estrutural e derrocada estrondosa, basicamente por auto-implosão, não por ter sido minada por um poder exterior ou guerra de usura.

O Brasil, finalmente, é um caso “clássico” de criação colonial – característica que não partilha com nenhum outro Bric – e de lenta constituição de uma economia diversificada, no quadro de uma construção estatal mais precoce e bem-sucedida. De fato, o Brasil teve um Estado unificado – e centralizador – antes de ter uma economia integrada nacionalmente, ou positivamente integrada à economia mundial. Esse Estado certamente não construiu a nação de modo exclusivo, mas representou um poderoso elemento indutor na construção dessa economia industrializada e relativamente moderna para os padrões usuais dos países “periféricos” ou em desenvolvimento. A despeito de sua qualificação inicial enquanto constituição política – Império – e de sua expansão territorial ao longo do período colonial e imediatamente posterior à sua independência, o Brasil nunca foi de fato imperial ou dominador, como talvez as duas grandes potências militares dos Bric; assim como ele não exibe a mesma “pujança” demográfica e os problemas geopolíticos da Índia. Trata-se de um país “contente” com sua geografia e bastante tranqüilo quanto ao relacionamento regional, o que não é o caso dos demais Bric, envolvidos em disputas de diversos tipos, nem sempre solucionáveis de modo fácil ou rápido. Esse contexto de “paz regional” – pelo menos desde o final da Guerra do Paraguai – e de ausência de ameaças externas define o Brasil em sua singularidade geopolítica no quadro dos Bric e deve ser considerado com um “ativo” positivo no seu processo de inserção regional e internacional.

Estas digressões sobre cada um dos Bric, tomados individualmente, permitem visualizar algumas das características que podem marcar sua forma de relacionamento com o entorno geográfico e na comunidade internacional. A percepção que se retira deste brevíssimo racconto storico é a de que seus problemas e ambições nacionais são profundamente distintos, pelo menos observados retrospectivamente. Pode até ser que, no futuro, seus projetos e interesses nacionais possam ser objeto de alguma ação convergente ou ação coordenada; mas esta hipótese ainda precisa ser construída e testada com base em dados da realidade, não apenas a partir da vontade política ou da retórica diplomática de seus dirigentes ocasionais. Esta questão, central para os propósitos deste ensaio, será vista mais adiante.

(a continuar na próxima edição)

Brasília, 26 de agosto de 2008.

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