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3. De onde vieram, o que fizeram até aqui e o que estão fazendo, ou para onde estão indo os Bric?
As trajetórias respectivas dos Bric na economia mundial, nos últimos dois séculos, e particularmente nas últimas duas décadas, foram bastante desiguais, para não dizer divergentes e contraditórias, seja entre si, seja na sua relação com os centros mais dinâmicos dessa economia global. Suas relações recíprocas ao longo do último meio século foram, aliás, relativamente marginais, com a exceção, talvez, da URSS e da China, numa primeira fase da construção do socialismo neste último país.
Quais foram e quais são os centros dinâmicos e como eles interagiram entre si na construção de uma economia globalizada e cada vez mais abrangente na integração de mercados, na localização de fatores produtivos e na disseminação de tecnologias e circulação de capitais? Para resumir, eles foram, num primeiro momento, a Inglaterra, país pioneiro na revolução industrial e na integração comercial do mundo, e, por outro lado, o mercado financeiro londrino como grande investidor direto e “emprestador de última instância” de países carentes de capitais. Num segundo momento, o centro se deslocou para os EUA e Nova York, respectivamente, com grande desenvolvimento tecnológico e científico e disseminação do “American way of life” pelos veículos de comunicação e através da indústria do cinema.
A esse respeito, o relacionamento ou a interação, dos Bric, individualmente tomados, com a economia mundial, seguiu uma trajetória errática, nos últimos dois séculos, com alguma convergência nas últimas duas décadas, ou seja, sua maior integração à globalização capitalista, processo complementado, agora, por uma maior interação recíproca, justamente motivado pela “invenção” do conceito de Bric por um banco de investimentos privado. Deve-se dizer, antes de tudo, que os Bric, tomados individualmente e conjuntamente, retrocederam em sua participação nos grandes fluxos mundiais de capitais, comércio, investimentos e tecnologia nos dois séculos que levam da primeira revolução industrial à oitava década do século XX, retomando, a partir daí, uma interação mais intensa com a economia global. Esse retrocesso, no passado, ocorreu tanto por decisões próprias – revoluções socialistas na Rússia e na China, adoção do planejamento estatal na Índia –, como de maneira totalmente involuntária, em virtude de desastres externos, seguidos de introversão estatizante, como no caso brasileiro (basicamente, a crise de 1929 e a depressão dos anos 1930 foram fatores indiretos de estímulo à definição de um projeto nacional de industrialização e de desenvolvimento, aliás exageradamente introvertido).
No período de construção de uma nova ordem econômica internacional, no segundo pós-guerra, tanto a URSS como a China, se auto-excluíram das instituições típicas do sistema mundial capitalista – FMI, BIRD, GATT – enquanto o Brasil e a Índia aderiam de modo muito relutante, e marginal, a essas entidades “capitalistas”. Na verdade, o Brasil foi muito ativo nesses órgãos da interdependência capitalista, ainda que ele o tenha sido mais um “cliente” do que um responsável por processos decisórios que, até a pouco, passaram ao largo de sua capacidade de atuação. Em todo caso, mais do que qualquer outro Bric, ele preservou estruturas de mercado e um estilo capitalista de gestão econômica em razoável sintonia com o padrão formal de organização econômica do capitalismo avançado. O único outro Bric “capitalista” do período da Guerra Fria, a Índia, foi muito mais estatizante, burocratizado e atrasado, no plano gerencial, do que o Brasil, devendo o país do Sul asiático seu forte impulso modernizador do período recente bem mais à sua diáspora econômica nos EUA do que às transformações internas à própria Índia.
A China foi um total desastre econômico, não só pela sua contínua decadência na época da guerra civil e da invasão japonesa, mas também pelos catastróficos (e até criminosos) planos econômicos da era do maoísmo triunfante (Grande Salto Para a Frente e Revolução Cultural). Basta com dizer que, possuindo um produto nacional bruto equivalente, grosso modo, a quase um terço do PIB mundial até o final do século XVIII, ela regrediu a menos de 5% do PIB global nos anos 1960, recuperando parte razoável do que tinha perdido historicamente só nos 2000. Quanto à Rússia, ademais de notavelmente diminuída depois da implosão da URSS, suas estatísticas da era socialista são pouco confiáveis para o estabelecimento de uma série relevante de seu desempenho ao longo do século XX, quando sofreu, além das destruições das duas guerras mundiais, desastres incomensuráveis em termos materiais e, sobretudo, humanos. No período “clássico” do stalinismo triunfante, ao final da Segunda Guerra Mundial, a contribuição do sistema econômico do Gulag (geralmente concentrado nas áreas florestal, mineral e obras de infra-estrutura) pode ter representado quase 5% do PIB soviético. A própria CIA superestimou a produção industrial e a capacidade tecnológica do que era, finalmente, uma imensa “aldeia Potemkim”, vivendo uma mentira institucionalizada ao longo de sete décadas.
A “reincorporação” dos Bric ao
mainstream da economia mundial, a partir da oitava década do século XX, foi também muito diferenciada, devido às características bastante divergentes de seus modos de inserção no sistema global. O Brasil, a rigor, nunca dele se afastou, mas exibia, até meados dos anos 1980, quase 95% de nacionalização na oferta interna, por força de um protecionismo renitente. A Índia, provavelmente, levou mais longe o capitalismo burocrático de Estado, o que, junto com um planejamento extensivo, foi responsável por décadas de crescimento reduzido e de baixa modernização tecnológica. Foi a China, na verdade, quem deu a partida para a “grande transformação” na divisão mundial do trabalho, ao iniciar, com as reformas da era Deng Xiao-Ping, uma rápida reconfiguração na geografia mundial dos investimentos diretos. A Rússia, por sua vez, operou uma lamentável reconversão a um capitalismo mafioso nos anos 1990, passando a contar mais como fornecedor de matérias-primas energéticas do que como participante ativo da economia mundial. O Brasil passou a ser um grande provedor de
commodities alimentícias e minerais; a Índia consolidou sua presença nas tecnologias de informação e de comunicação e nos serviços vinculados; ao passo que a China industrial assumiu a liderança virtual nos produtos de consumo de massa de todo o tipo, com dominância dos bens duráveis eletrônicos. Todos eles se beneficiaram de suas vantagens ricardianas, com ênfase em mão-de-obra no caso chinês, tecnologia no modelo indiano e recursos naturais para o Brasil e a Rússia.
E para onde caminham os Bric nas próximas décadas? Certamente não em direção ao mesmo destino, ainda que o traço comum de suas respectivas trajetórias seja uma crescente adesão, incontornável, à economia mundial. O estudo de 2003 da Goldman Sachs aposta que esse G4 ultrapassará, conjuntamente, o PIB do atual G7 em 2035, sendo que a China ultrapassará a todos, individualmente, até 2040 (ela já o fez para três ou quatro). Os componentes dessa ultrapassagem econômica são, contudo, muito diversos, com uma provável “explosão” tecnológica da China, uma continuidade “extrativa” no caso da Rússia, uma enorme competitividade agrícola para o Brasil e de serviços de internet e de tecnologia da informação para a Índia, ou seja, nada de muito diferente do que já está ocorrendo atualmente.
A verdade é que a economia mundial apresenta estruturas muito lentas em seu processo de constituição e um pouco menos lentas em sua transformação progressiva. Muitos dos argumentos sobre o declínio inevitável dos atuais países avançados podem carecer de fundamentos reais, uma vez que a natureza dos ganhos de produtividade, na economia moderna, depende bem menos de domínio físico sobre fatores brutos de produção e muito mais sobre elementos intangíveis, ou imateriais, da nova sociedade do conhecimento, e estes são inesgotáveis e sempre surpreendentes. Ou seja, ainda que a “massa atômica” dos Bric possa superar o peso do atual G6 ou G7, todos eles permanecerão, em termos per capita, bem abaixo dos indicadores atuais de bem estar e de produtividade dos países mais avançados. A própria noção de “blocos” parece ser totalmente ilusória, posto que os vínculos entre todas essas economias – e entre eles e novos emergentes – serão substantivamente transformados nas próximas décadas.
(a continuar na próxima edição)
Brasília, 26 de agosto de 2008.