www.pralmeida.org
pralmeida@mac.com
5. Como eles percorreram suas trajetórias respectivas e quais são suas especificidades relativas, entre eles e com relação ao resto do mundo?
Transformações econômicas são sempre o resultado de uma combinação de fatores, alguns estruturais – ao estilo das ondas “geológicas” braudelianas –, outros de natureza contingente, ou seja, derivados de decisões políticas tomadas em alguns momentos especiais por líderes visionários. A Rússia e a China afundaram no “caos destruidor” de suas economias socialistas pela força carismática de líderes políticos bastante competentes no plano orgânico-partidário; e absolutamente ineptos no tocante à capacidade de compreender o modo de funcionamento de uma moderna economia de mercado. No primeiro caso, a transição do socialismo ao capitalismo continuou sendo errática e especialmente inepta; mas no caso da China ocorreu uma combinação exitosa de autoritarismo político e de firme condução para um regime de mercado que a converteu em exemplo único na história econômica mundial de crescimento inédito (e sustentado) com transformações estruturais de enorme impacto social.
No caso do Brasil e da Índia, as transformações foram menos o resultado de processos dirigidos de “retorno aos mercados”, ou de “revoluções pelo alto”, e bem mais a ação das “forças profundas” de regimes semi-capitalistas finalmente liberados em suas energias criadoras pela abertura econômica e a liberalização comercial. O problema básico do Brasil era o de romper com a retro-alimentação inflacionária e o estrangulamento cambial, processo conduzido a termo mesmo em meio a turbulências financeiras que ameaçaram o êxito do ajuste entre a segunda metade dos anos 1990 e o início dos 2000. No caso da Índia, se tratava de romper com o dinossauro estatal da economia planejada e do protecionismo exacerbado, o que foi feito de modo tardio, mas facilitado pela existência de uma “diáspora” econômica de alta qualidade nas principais economias desenvolvidas, diáspora que também existe, embora com outras características, na experiência histórica chinesa.
A rigor, a China parece reproduzir, com maior velocidade adaptativa e uma imensa ambição de recuperar rapidamente as décadas perdidas de socialismo doentio, a experiência japonesa da Revolução Meiji – mandar seus filhos aprenderem com os líderes científicos e tecnológicos do capitalismo avançado – e, sobretudo, o milagre japonês do pós-Segunda Guerra, com muita cópia e adaptação do know-how ocidental e um cuidado extremo em logo reproduzir os mesmos produtos com novos desenhos e marcas próprias. De todos os Bric, é a única economia emergente que está destinada a converter-se, efetivamente, em economia dominante, ademais de potência militar de primeira classe, muito embora ela ainda esteja muito longe de igualar, para os seus cidadãos – muitos deles ainda súditos de um regime autoritário –, os níveis de bem-estar individual das populações dos países do capitalismo avançado.
A Rússia, amputada de territórios, recursos naturais e humanos em dimensões relativamente importantes, não parece próxima de recuperar a relevância estratégica e política alcançada no ponto máximo de sua “expansão” geopolítica, que correspondeu ao “brejnevismo senil” do final dos anos 1970. Ainda que detentora de formidável arsenal nuclear e de certa capacidade de projeção militar, ela não terá condições de desafiar efetivamente os dois gigantes da economia mundial de meados do presente século. Ela depende de recursos finitos e mesmo sua demografia é declinante (ver tabela 1), como já tinha chamado a atenção, desde aquela época, um observador atento como Emmanuel Todd (
La Chute Finale, 1976).
No que se refere à Índia, ela pode até dominar com ainda maior competência os serviços eletrônicos que já oferece de maneira bastante competitiva; mas terá de absorver na moderna economia de mercado centenas de milhões de camponeses miseráveis que ainda vegetam numa economia ancestral, totalmente incompatível com o que se entende como modernidade capitalista. O Brasil, finalmente, tem pela frente, durante uma geração aproximadamente, a chance de beneficiar-se do chamado “bônus demográfico” – ou seja, a melhor relação possível entre população ativa e dependentes econômicos –, oportunidade que será provavelmente perdida, em grande medida devido à baixa qualificação técnica e educacional da população, o que reduz bastante os ganhos de produtividade que seriam de se esperar, se fossem outras as condições de capacitação de sua mão-de-obra.
Essas deficiências relativas não impedirão quase todos os Bric de se tornarem relevantes no quadro da economia mundial de meados do século. Mas eles o serão pelo seu enorme peso demográfico e enquanto mercados de consumo em expansão, com exceção da Rússia, obviamente; não é provável que eles alcancem o nível de excelência tecnológica já logrado por quase todos os países do bloco avançado do capitalismo mundial. A exceção, mais uma vez, deverá ser a China, que reproduzirá, provavelmente, o desempenho tecnológico de Taiwan e da Coréia do Sul em escala ainda mais importante e com uma rapidez surpreendente para os padrões conhecidos.
Cabe registrar, preventivamente, que os Bric lograrão tais desempenhos, sem qualquer uniformidade de ritmos, sem qualquer similaridade entre as características essenciais de seus processos respectivos de modernização, sem qualquer coordenação conjunta e de maneira totalmente independente uns dos outros. Ou seja, eles devem confirmar sua ascensão relativa no futuro cenário econômico mundial sem apresentar os mesmos traços imanentes em suas respectivas economias de mercado – algumas mais capitalistas e capitalizadas do que outras – e sem qualquer comparação possível entre suas políticas econômicas nacionais.
Brasília, 26 de agosto de 2008.
(a continuar na próxima edição)